CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

7 de dezembro de 2015

ITINERÁRIO TRASANDINO (2)

Na metade do século passado, dois médicos amazonenses empreenderam uma viagem por países andinos. Concluído o périplo, Djalma Batista, saudoso cientista, efetuou a publicação do relato dos acontecimentos.
Aviação regional na minha travessia para Lima (Peru)
Foi transformado em impresso, sob o título: Itinerário transadino (1951), que o autor dedicou ao companheiro de viagem – doutor Moura Tapajós, cujo nome designa a maternidade municipal instalada na avenida Brasil, bairro da Compensa.

Em agosto passado efetuei pela segunda vez a mesma travessia, entre Iquitos e Lima, em avião bem mais moderno, que impede de se sentir as agruras do doutor Djalma. Mas sua descrição do relevo andino me fez rever a sensação dessa mudança bem característica da região: da selva ao oceano, curtindo as cordilheiras.


UM VOO DO AMAZONAS AOS ANDES


O DC-4 da Fawcett ganhava altura, os rios passavam a filetes minúsculos e a própria selva apequenava-se; começamos a notar a transição: rarefazia-se a vegetação; as carecas reluzentes dos granitos expostos a um sol vivo, e as lagoas sucessivas oriundas do degelo, alternavam com vales abissais; ao longe a fita geométrica da estrada de rodagem asfaltada. Estavam transportas (sic) afinal as fraldas orientais da Cordilheira! 

Já no alto o boletim aeronáutico distribuído aos passageiros anunciava: altura 22 000 pés (fiz mentalmente o cálculo: quase 6 000 metros!); temperatura — 4° (do lado de fora, bem entendido...). Começou a funcionar o sistema de aquecimento do aparelho e as mamadeiras de oxigênio foram instaladas junto de cada passageiro.

A princípio não me dei conta da rarefação atmosférica; achei mesmo desagradável o frio e o gosto do oxigênio (ninguém pense o contrário: o oxigênio a 6 000 metros não é insípido...). Aos montes se sucediam outros montes; aos vales se seguiam outros vales; as lagunas se repetiam a cada passo (aqui o passo é de centenas de HP dos quatro motores do aeroplano...), modificado o recorte caprichoso das bordas e variando a cor, ora esverdeada, ora clara, ora azulada das águas remansadas no infinito deserto de pedra escura.

Visão dos altiplanos peruanos, em direção a capital peruana



Bem em frente, batido da claridade de uma tarde límpida, o primeiro nevado, branco como a pureza, alto como a virtude, inatingível como o próprio céu. Ei-lo cada vez mais próximo, o Huascaran, ponto culminante do Peru e 3° pico andino: o comandante Bennett manda chamar-nos para a cabine, onde o Ingeniero de vuelo E. Arenas nos dá explicações e nos anima a fotografar o panorama deslumbrador, facilitando-nos a procura da Kodak na valise em que viajava (ainda tínhamos o complexo brasileiro de que é crime do aero viajante se acompanhar de máquina fotográfica). Não consegui no tumulto daquele momento dar com o aparelho, que por sinal sempre nos falhou, apesar da boa-vontade com que o Waldir Vieiralves nô-lo emprestou...

E senti naqueles minutos a estranha e terrível fome de ar! Foi então que me coube o bico do gás vital... Na cabine de comando andou ele de boca em boca: beijámo-nos todos por procuração, unidos pela emoção de contemplarmos, desnuda e inteira, a montanha gelada impassível, como se fosse um imenso bolo festivo, a que a natureza confeitara com os requintes que adoçam os sentidos e embevecem particularmente o olhar... Flanqueámos o pico soberbo e lá reapareceu a Cordilheira Negra. Aos quandos, numa fralda, indicava-nos o Sr. Arenas, se escondia um pueblo.
Pensávamos: antes ficara a solidão vegetal da Amazônia, quente e úmida, agressiva e feraz; agora tínhamos à vista o domínio mil vezes mais amedrontador do mineral, frio e seco, onde a vida não tinha o apoio da clorofila e a esterilidade da rocha fazia da sobrevivência um milagre. Só depois vim conhecer a frase do político escaldado: "Viver na Amazônia já é um heroísmo...”

Outra tomada dos Andes peruanos

O PACÍFICO DE DENTRO DE CAPUZES DE ALGODÃO


Aos poucos fomos tendo a sensação de que o avião baixava. O ar atmosférico passou a satisfazer a respiração e as elevações do terreno só eram visíveis quando se olhava para trás. Nesse instante vimo-nos como que sobrevoando um mar sereno, de espumas alvíssimas e intermináveis, batendo contra os penedos andinos e se estendendo até onde o olhar alcançava.
Só depois de muito andarmos convenci-me de que eram nuvens justapostas, que pareciam formar um tapete de algodão protegendo o céu... Nuvens densas, para atravessar as quais foram gastos vários minutos; por fim, ao sair dos capuzes de estratos e cúmulos, apresentou-se nos em toda a sua beleza e em toda a sua grandiosidade o oceano de Balboa. Eis-nos diante do mar! Dias depois conheci o desafio soberbo que lhe lançou o poeta cuencano Palacios Bravo:

Oh inmensidad de gotas! Oh vanidad de espuma!Y si quieres que luego tu soberbia se ablande,
medita que solo eres una lágrima grande...
Son tus aguas amargas una inmensa amargura...
Menos mísero fueras si fueses más pequeño!
Desventurado amigo, tus enojos aquieta,
y aprende mansedumbre de mi alma de poeta ...
Que si tu eres conjunto de gotas a millares,
mi inmensidad se forma de millones de mares.
                
LIMA, SUAS FLORES E SEUS ENCANTOS


A sala de visitas da capital peruana é magnífica: um palácio de mármore e pórfiro, onde o viajante admira majestosa obra de arte, com uma perfeita distribuição de serviços. Do Aeroporto de Limatambo, numa tarde friorenta e sem sol, começamos a mirar a cidade, cercada de morros nublados e se estendendo para todos os lados. (continua)