CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

Mostrando postagens com marcador Revista Cabocla. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Revista Cabocla. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, maio 06, 2026

RAMAYANA DE CHEVALIER

 A postagem copia um artigo deste saudoso amazonense publicado na revista Cabocla, edição de julho de 1936. Daí se entender o tratamento então dispensado ao acometido pelo mal de Hansen. 
Ramayana de Chevalier


Revista Cabocla, julho 1936

Amanhã talvez seja tarde, Irmão Leproso, para te dizer adeus. Talvez amanhã teus olhos já se tenham fechado para a Terra e se escancarado diante de Deus. Amanhã talvez já tenhas bebido a derradeira taça do fel do teu martírio. Falemos hoje, visto que és um condenado à Morte. Falemos, porém, mais na linguagem muda dos corações, que no murmúrio desconsolado das palestras banais.

Não precisas do meu dinheiro, nem do meu sorriso, nem do meu abraço. A Terra negou-te tudo, enchendo-te de manchas repelentes; o Céu estende-te os braços infinitos, pois as chagas do teu corpo são condecorações do teu espírito.  Quanto mais suja e podre se torna a tua carne, mais brilha, mais se aclara, no mistério das transfigurações, a tua alma triste.

Entre o segredo silencioso do teu espírito e a alegre sarabanda do Amor de tua Amada, Irmão Leproso, existe a distância incomensurável de uma posta de carne diluída em úlceras, um montão de nervos combalidos que se contraem nas crispações da maior Dor do Mundo.

Teus olhos já secaram como fontes inúteis; tuas mãos, que eram puras e belas, entortaram, na rebeldia da moléstia sinistramente má; tua boca, referta de carícias e habitual ao beijo fraternal, enregelou-se como um túmulo, morta para todas as expressões, acabada para todos os gestos amáveis; teu rosto não se reflete mais, nunca mais resistirá ao confronto das superfícies polidas.

És pai, também, meu pobre Irmão Leproso. E, entre ti e teu filho, há um degredo perpetuo e sombrio. Os assassinos podem embalar os filhos pequeninos. Os ladroes têm a graça de dirimir o remorso, na carícia suave de mãos pelo rosto cândido do primogênito querido.

Os jogadores, os bêbados, os viciados têm a oportunidade de um minuto de sagrada transformação, no convívio inocente e divino das crianças.

Tu não furtaste ninguém, senão a tua própria tranquilidade; tu não mataste ninguém, senão a tua própria ilusão; tu não jogaste nunca, senão a tua alma pela saúde de teu corpo; tu não bebes, senão o cálice envenenado da tua suprema desgraça; tu não tens outro vício senão esse atroz, cruciante, terrível vício da esperança, essa esperança que cai aos bocadinhos, a cada trecho de carne que se solta do teu cadáver, mas continua, acesa como um incêndio, na fogueira do teu enorme coração.

E, no entanto, Irmão Leproso, tu nunca poderás deslisar as tuas mãos nojentas pela cabeça loira e mansa do teu filhinho; nem sequer tê-las pela frente, para que ele nunca veja, nem sinta, o tamanho da tua deformação física, o tamanho do teu sofrimento moral.

Um dia, no Céu, o apertarás entre os teus braços imaculados, o beijarás com tua boca perfumada, o chamarás de filho, no aconchego do teu Corpo puríssimo, porque do outro lado, meu querido Irmão, estarás mais limpo do que as aras dos altares, mais cândido que a neve das montanhas, mais alvo que os luares alvíssimos. (...)

Tens um Amor, Irmão Leproso, e ele vive longe de ti como o Sol dos pântanos imundos. Tua carícia, mesmo distante, é uma tortura feroz e implacável. A tua lembrança evoca jardins roxos de úlceras incansáveis, peles oleadas e ríspidas que repugnam, mágoas semeadas em tubérculos pelo teu rosto.

E, no entanto, como tu amas o teu Amor! Que paraísos não constróis no íntimo heroico, que sonhos não enfeitam os teus silêncios, que crepúsculos deslumbrantes não repousam, como aves fatigadas, na tua pupila escondida e tristonha...

A lepra é um caminho para o Céu.

Lembras-te daquele Rabi, suave e sereno da Galileia, que visitou aquela criança enferma, miserável e sozinha? Ele não gostava dos palácios, não frequentava o bulício mundano, não procurava os homens que vestiam clâmides vistosas ou mulheres ornamentadas como atrizes. Apresentou-se àquela criancinha doente, para lhe trazer a saúde e o carinho, como transitou, inesperado e solícito, entre os morféticos e os paralíticos.

Quantas vezes não hás de tê-lo visto diante de ti, quando as mordidas de tuas chagas, na aflição mais cruciante, te deram o teu mais profundo desespero, a sensação do derradeiro apodrecimento?

Deus não passeia onde há sorrisos, exceto o do rosto das crianças, que o sorriso dos bons já é um prêmio. (...) Teu corpo é um sepulcro sangrento. Sobre ele, um dia, descansará o Senhor quando precisar de novo copo d’água samaritano, cansado de sofrer pelos que são felizes.

Quando chorares, volta-te para Ele, entrega-lhe os teus olhos, os teus pobres olhos sem brilho e sem paisagens, e, com a mesma esponja na qual sorveu Ele o seu fel bendito, haverá de sorver também o fel que escorre das tuas órbitas insones.

Espera, Irmão Leproso, o dia da tua ressurreição. Talvez, Ele mesmo, condoído de tua sorte aqui na Terra, dê à Ciência o meio de curar-te. (...) Feliz de quem como tu já sabe o preço da vaidade humana, da grandeza humana, da riqueza mortal. Feliz de quem como tu, já sentiu o contato do Mestre na clausura de tua afogueada meditação.

Eu ainda ficarei por aqui, lutando pelo esquecimento, e pecando, desvairado e intranquilo, na minha imperfeição. Um dia nos encontraremos. Um dia nos abraçaremos, sem constrangimentos, sem repugnâncias, sem pavores. Eu serei, então, feliz, se puder, nesse dia, beijar-te as mãos benditas, onde as chagas se transformaram em flores; se puder fixar-te, beatificamente dentro dos olhos, onde as lágrimas serão fontes de alegria e me dessedentarão.

Um dia passearemos juntos, pelos jardins eternos, sorrindo no sorriso infinito que vem de Deus. Irmão Leproso, até logo!

sábado, janeiro 31, 2026

RAMAYANA DE CHEVALIER EM REVISTA "CABOCLA"

 Saudoso da Biblioteca Mario Ypiranga, situada no Centro Cultural Povos da Amazônia, estive nela ontem conduzindo um amigo - Ed Lincon - que se maravilhou com o material a ser explorado. Passamos as revistas centenárias circuladas em Manaus pelo celular, arrecadando uma boa seleção de fotos e de textos, como o que disponibilizo nesta postagem.

Trata-se de um artigo do saudoso Ramayana de Chevalier, publicado na revista Cabocla, edição de agosto de 1937, há quase noventa anos. Com o título "Plantador de Civilizações", Chevalier ressalta com sua aptidão intelectual a atuação hercúlea do homem amazônico.

Monumento aos Portos, existente
no Largo São Sebastião (foto da
 revista)

Nos nervos de titã desse bravo moreno, vibram lendas sutis, cantam poemas heroicos! Do mistério arcual das distâncias supremas, embalado à cantiga das ondas, sereno e simples, resistente e sóbrio, enveredou o Paes Leme de cobre pelos labirintos verdes da Amazônia. Escudava-o: a coragem; alimentava-o: o sonho de riqueza; abençoava-o: a luz vertical que lhe descia em frechas d'oiro do céu ímpar.

Nas cafurnas sombrias, nos desvãos indistintos, nas margens lodosas e instáveis, que lembram as orlas tristes do Nilo, berços de cegonhas e faraós, ou as fímbrias lamacentas do zambéze, picadeiros de hipopótamos e cágados, ali cresceu o sonho do hércules bronzeado, combatendo as zarabatanas dos selvícolas, a traição dos ofídios e dos felinos, o fascínio, sinistro e meigo, das flores venenosas e dos festões daninhos.

Cresceu o seu sonho, em lágrimas de “látex”, em sangue alvíssimo e sincero, a escorrer, das artérias da árvore sagrada, para a volúpia de todas as máquinas velozes do Universo! De dia, aos revérberos de um sol, milenário e fecundo; de noite, às carícias de um plenilúnio, místico e sensual, investe o briareu contra a hidra botânica, bracejante e triunfal, rebentando em úlceras florais nas catleias lindíssimas, em abraços letais nas lâminas crenadas das parasitas, nos pedúnculos enganadores dos vegetais mortíferos.

Quando o mormaço cede às virações da tarde, que o diadema solar, poisa, no ocaso, sobre a cabeça heril das castanheiras, como um cocar imenso, vacilam sombras sob os tufos verdes, correm fantasmas entre as trepadeiras, jorram mistérios das orbitas lucitrementes dos tatus nojentos...

Então começa o seringueiro o seu combate. Retrança o jamaxi, veste o gibão, embainha o terçado, ajusta o embornal, palmilha a “lambedeira”, cobre-se do chapéu com barbicacho, tiracoleia o rifle, apanha a vasilha de alumínio, as tijelinhas, a faca americana, e, já à saída do barracão ou do “tapiri”, pendura ao cinto o dente de jacaré recheado de azougue, ou de arsênico ou de qualquer oração ao santo predileto, para imunizar-se, pela ambliope, de veneno das cobras.

A sua faina é uma invasão cotidiana. O seu mister, uma aventura constante. O seu destino, uma armadilha incerta, esperando-o, na curva de um varadouro, na meia-tinta de uma clareira imota. Foi assim que ele ergueu, no coração da selva, conto um muiraquitã propiciatório e sorridente, um sonho urbano: Manaus.

Sofrendo, lutando, às arrancadas bandoleiras ou aos golpes broncos de uma inigualável tenacidade budica, de lá do fundo rude dos balatais, do aceiro áspero dos seringais, das “reboladas” majestosas das castanheiras, da sombra odorizada dos cumarus e dos pau-rosas, fez ele, o grande construtor, surgirem da terra civilizada de Manaus, esses gigantes arquitetônicos, que falam de belezas, de graças, de harmonias...

Foram as mãos calosas dos caucheiros que orientaram as mãos divinas de De Angelis. Foram os músculos humanos dos extratores que se enrijaram em símbolos metálicos, nos cabos e nos guindastes do “roadway”. Foi a inteligência desse caboclo puro, perdido na diluviandia, quem perfilhou os pássaros nobres e os animais amigos, estilizando-os, em gestos pictóricos, em posturas arquitetônicas, em atitudes esculturais, em reminiscências estéticas, no deslisar sutil, no ondular selvagem e olímpico, na estranha sedução da mulher amazônida!

Foi a coragem desse atleta espontâneo e ancestral, quem ponteou nas audácias da “urbs”, elastecendo-a nas pontes longas, rasgando-a nas avenidas parafusadas de “fícus”, apunhalando-a nas feridas incicatrizáveis dos jardins, claros, alegres, evocativos, sonoros de cores e de luz, onde se escondem, o amor sentimental dos morenos glebários e a vaidade sutil da “baricea”.

Seringueiro bendito! Diante de ti, ajoelha-se a Amazônia! Construíste a morada dos homens cismadores, quê, filhos de terras longínquas, se tomam de horror das distâncias e morreram no seio do teu torrão, às margens generosas do teu Rio. Nossos monumentos vieram do teu suor! Nossa cidade nasceu, vênus-cunhatã, das ondas quentes do teu sangue! Manaus é tua, caboclo sonhador, corajoso e tranquilo, irmão dos lagos que meditam, das lianas nervosas que se esticam como tendões enormes, das antas, esses bons paquidermes, meigos como as crianças, irresistíveis como os furacões...

Manaus, a filha do teu braço, te saúda, ó tuxaua moreno, obscuro construtor de civilizações... (grifei)

terça-feira, novembro 27, 2018

PIRARUCU & BACALHAU



Outra página de Ramayana de Chevalier, sacada da revista Cabocla, edição de novembro de 1936. Chevalier havia retornado de Salvador (BA) onde concluíra o curso de medicina, e fora empregado na Polícia Militar do Estado, como chefe do Serviço de Saúde. Nessa página, ele analisa a rivalidade entre nosso pirarucu e o importado bacalhau, e mostra conhecimento de nossa fauna ictiológica.  
 



Em remanso de lago, em poço de igapó, em água represada de confluente, em qualquer lugar da Planície, boia, satisfeito e feliz, peixe comprido e benéfico: pirarucu.Peixe glebário, sofredor, manso como ninguém, hospitaleiro como poucos, aguentando, sem protestar, esta canícula danada do Amazonas, pelo bem da terra e da gente.
E gostoso. Ninguém é capaz de negar que, na maciez da carne, no sabor dos acepipes, na volúpia brillat-savarineana das longas travessas enfeitadas e espetaculares, não fosse pirarucu, prato digno de uma boa e farta secreção gastrica. Até de palinódias e epicédios, tais as tristuras nascidas da satisfação post-pasto.Belo peixe, grande prato, velho amigo.
Nas horas ondulantes da alegria cabocla, quando os naipes se ensarilham nos saraus para o aconchego das coxas, para cadência dos sambas, fustigados pelo calor dos vatapás e do clima, melhor companheiro não existe que o pirarucu glebário, irmão de sofrimento telúrico, camarada antigo de todas as melancolias, remédio infalível para todas as excitações e carícias...
Não há sardinha elegante, traíra bailadeira, pescada duvidosa, matrinxã sentimental, que não repita e proclame, das excelências do pirarucu, em dias de crise familiar, em momentos de vazante braba e inflexível.
Fazem-lhe festas, afagos, doçuras, mimos, mungangas, rapapés, ternuras, delicias até, quando, sozinho, sem concorrentes, é ele o supremo bem da Planície, o único herói que resiste às crueldades atmosféricas, às selvagerias cosmológicas.
Transfigura-se, mesmo, no tubarão doméstico. Chega a comer das pirapitingas mais suaves, das tucunarés mais cheirosas. Chega, até, à façanha de tolerar as blandícias e os namoros das piranhas mais terríveis. 
Basta encher o rio, melhorarem as coisas, movimentarem-se as ambições alienígenas, e ei-lo perdido.
Pirarucu baixa, baixa, some-se no desconforto de ninguém. Basta chegar bacalhau. Peixe das “oropa”, “de fora” no sentido genérico do termo, novidade, ineditismo, sensação. 
Cadê pirarucu em festa caseira? Cadê pirarucu em agrado doméstico?  Cadê pirarucu em traquinadas de Mindu, de Vila Municipal, de Cachoeirinha, de gleba?
Sumiu-se. Não se enxerga pirarucu nem para os pobres.
As sardinhas, as traíras, as pescadinhas rechonchudas e magníficas, todas as castas ictiológicas, sarabandas, murmuram, reviram os olhos, boiam, rebolam, lânguidas, sedutoras, inoperantes, em torno do bacalhau vitorioso, egresso de qualquer banda desconhecida.
Basta ser bacalhau para ser vencedor. Esquecem-se sofrimentos em comum, tragédias íntimas, companheirismos de infância, amabilidades prodigalizadas no silêncio dos jardins quietos, tudo, em benefício do sorriso efêmero, da carícia transitória, das banalidades passageiras do bacalhau itinerante.
Pirarucu não toma vergonha. Mal bacalhau arriba velas e zarpa lá se volta ele para as sardinhas trêfegas, para as pescadas levianas, para as piramutabas seresteiras, acolhendo-as de novo, no mesmo abraço sincero de portão.
O Toddy é um chocolate metido a besta. O bacalhau é um pirarucu que ninguém provou. Quantas vezes chega podre à porta da venda, enquanto o pirarucu fresquinho, trazido do Amatari ou do Canumã, é desprezado injustamente...
Tudo novidade, a terrível, a cruciante, dominadora novidade, que faz mais gostosos os lábios desconhecidos, mais torturantes os corpos inalcançados. É por isso que a sífilis anda por aí, bonitinha como o quê.
Maior injustiça ao pirarucu é a de desprezá-lo quando ele é o único que se atira, sinceramente, cavaIheirescamente, à minhoca atada ao dorso do anzol. É o único que é pescado, pelas pescadas.Bacalhau chega, fareja, vê muita intimidade, muito amor à primeira vista, muita pirotecnia, muito voo, muita tentativa de aterrisagem, acha tudo muito precipitadosinho, goza, tira a sua casquinha, arranca o seu pedaço, lambe os beiços, arriba, e vai dizer o diabo das pirapitingas em Belém.Enquanto isso o pirarucu ficou aqui, firma, estático, sereno, esperando a hora da “carne virada” para avançar.
Há uma vingança para o pirarucu que comeu a minhoca do anzol. Pirarucu casado não fica de mãos abanando. Solto e manso, bondoso, tolerante, resignado. Amarrado é curioso: vira candiru.
Gravura no rodapé do artigo


quarta-feira, março 27, 2013

ANÚNCIOS CLASSIFICADOS

Emílio de Menezes, poeta
Nas primeiras décadas do século passado, era habitual a veiculação de anúncio comercial ilustrado com versos, bem ou mal estruturados.
A respeito desse recurso, transcrevo a descrição produzida pelo saudoso memorialista Pedro Nava, em seu livro Chão de Ferro. A lembrança dele data de quando era interno do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, em 1918.
E a pérola citada envolve o poeta Emílio de Menezes (1866-1918), “mestre dos sonetos satíricos, humorista, fazia de seus versos instrumento de publicidade para os produtos de consumo de sua época”, que o adolescente Nava via passar na rua onde moravam. Mais tarde, quando conheceu a poesia de Menezes, preferia a burlesca, melhor que a séria, confessa.

Principalmente pela quadrinha que corria no internato. A do boticário que inventara sabão maravilhoso para a pele e o chamara Cuticura. Fora ao Emílio pedir uns versos, de anúncio. Pagava bem. Pois foi contemplado 

Quando o Emílio de Menezes
Acorda de pica dura,
Fala, batendo na dita:
Só sabão de Cuticura...

Para completar o tratamento, alguns anúncios circulados na capital do Amazonas, entre 1932 e 1935.
 
Revista Cabocla, 1935
 
Guia Turístico de Manaus, 1932

Contracapa da revista Cabocla, 1935

Revista Cabocla, 1935