Saudoso da Biblioteca Mario Ypiranga, situada no Centro Cultural Povos da Amazônia, estive nela ontem conduzindo um amigo - Ed Lincon - que se maravilhou com o material a ser explorado. Passamos as revistas centenárias circuladas em Manaus pelo celular, arrecadando uma boa seleção de fotos e de textos, como o que disponibilizo nesta postagem.
Trata-se de um artigo do saudoso Ramayana de Chevalier, publicado na revista Cabocla, edição de agosto de 1937, há quase noventa anos. Com o título "Plantador de Civilizações", Chevalier ressalta com sua aptidão intelectual a atuação hercúlea do homem amazônico.
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| Monumento aos Portos, existente no Largo São Sebastião (foto da revista) |
Nos nervos de titã desse bravo moreno, vibram lendas sutis, cantam poemas
heroicos! Do mistério arcual das distâncias supremas, embalado à cantiga das
ondas, sereno e simples, resistente e sóbrio, enveredou o Paes Leme de cobre
pelos labirintos verdes da Amazônia. Escudava-o: a coragem; alimentava-o: o sonho
de riqueza; abençoava-o: a luz vertical que lhe descia em frechas d'oiro do céu
ímpar.
Nas cafurnas sombrias, nos desvãos indistintos, nas margens lodosas e instáveis,
que lembram as orlas tristes do Nilo, berços de cegonhas e faraós, ou as fímbrias
lamacentas do zambéze, picadeiros de hipopótamos e cágados, ali cresceu o sonho
do hércules bronzeado, combatendo as zarabatanas dos selvícolas, a traição dos ofídios
e dos felinos, o fascínio, sinistro e meigo, das flores venenosas e dos festões
daninhos.
Cresceu o seu sonho, em lágrimas de “látex”, em sangue alvíssimo e sincero, a escorrer, das artérias da árvore sagrada, para a volúpia de todas as máquinas velozes do Universo! De dia, aos revérberos de um sol, milenário e fecundo; de noite, às carícias de um plenilúnio, místico e sensual, investe o briareu contra a hidra botânica, bracejante e triunfal, rebentando em úlceras florais nas catleias lindíssimas, em abraços letais nas lâminas crenadas das parasitas, nos pedúnculos enganadores dos vegetais mortíferos.
Quando o mormaço cede às virações da tarde, que o diadema solar, poisa,
no ocaso, sobre a cabeça heril das castanheiras, como um cocar imenso, vacilam
sombras sob os tufos verdes, correm fantasmas entre as trepadeiras, jorram mistérios
das orbitas lucitrementes dos tatus nojentos...
Então começa o seringueiro o seu combate. Retrança o jamaxi, veste o
gibão, embainha o terçado, ajusta o embornal, palmilha a “lambedeira”, cobre-se
do chapéu com barbicacho, tiracoleia o rifle, apanha a vasilha de alumínio, as
tijelinhas, a faca americana, e, já à saída do barracão ou do “tapiri”, pendura
ao cinto o dente de jacaré recheado de azougue, ou de arsênico ou de qualquer
oração ao santo predileto, para imunizar-se, pela ambliope, de veneno das cobras.
A sua faina é uma invasão cotidiana. O seu mister, uma aventura
constante. O seu destino, uma armadilha incerta, esperando-o, na curva de um varadouro,
na meia-tinta de uma clareira imota. Foi assim que ele ergueu, no coração da selva,
conto um muiraquitã propiciatório e sorridente, um sonho urbano: Manaus.
Sofrendo, lutando, às arrancadas bandoleiras ou aos golpes broncos de uma
inigualável tenacidade budica, de lá do fundo rude dos balatais, do aceiro áspero
dos seringais, das “reboladas” majestosas das castanheiras, da sombra odorizada
dos cumarus e dos pau-rosas, fez ele, o grande construtor, surgirem da terra civilizada
de Manaus, esses gigantes arquitetônicos, que falam de belezas, de graças, de
harmonias...
Foram as mãos calosas dos caucheiros que orientaram as mãos divinas de De
Angelis. Foram os músculos humanos dos extratores que se enrijaram em símbolos metálicos,
nos cabos e nos guindastes do “roadway”. Foi a inteligência desse caboclo puro,
perdido na diluviandia, quem perfilhou os pássaros nobres e os animais
amigos, estilizando-os, em gestos pictóricos, em posturas arquitetônicas, em
atitudes esculturais, em reminiscências estéticas, no deslisar sutil, no ondular
selvagem e olímpico, na estranha sedução da mulher amazônida!
Foi a coragem desse atleta espontâneo e ancestral, quem ponteou nas audácias
da “urbs”, elastecendo-a nas pontes longas, rasgando-a nas avenidas parafusadas
de “fícus”, apunhalando-a nas feridas incicatrizáveis dos jardins, claros,
alegres, evocativos, sonoros de cores e de luz, onde se escondem, o amor sentimental
dos morenos glebários e a vaidade sutil da “baricea”.
Seringueiro bendito! Diante de ti, ajoelha-se a Amazônia! Construíste a morada dos homens cismadores, quê, filhos de terras longínquas, se tomam de horror das distâncias e morreram no seio do teu torrão, às margens generosas do teu Rio. Nossos monumentos vieram do teu suor! Nossa cidade nasceu, vênus-cunhatã, das ondas quentes do teu sangue! Manaus é tua, caboclo sonhador, corajoso e tranquilo, irmão dos lagos que meditam, das lianas nervosas que se esticam como tendões enormes, das antas, esses bons paquidermes, meigos como as crianças, irresistíveis como os furacões...
Manaus, a filha do teu braço, te saúda, ó tuxaua moreno, obscuro construtor
de civilizações... (grifei)

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