Renato Mendonça
Resgato
a ideia de um conto que escrevi há exatos cinco anos, publicado no livro
“Pedrinho e Suas Estórias”, endereçado aos eleitores infantis.
No
jardim da memória, a Páscoa surgia como uma chama antiga. Em priscas eras,
falava-se apenas da ressurreição de Cristo — o túmulo vazio, a pedra removida,
o milagre que fez da morte um portal para a vida. Mas, ao longo dos séculos,
outros símbolos se aproximaram: o coelho fértil idealizado pelos alemães, os
ovos franceses pintados à mão, depois moldados em chocolate. Chegaram como
visitantes de terras distantes, trazendo consigo a promessa da fertilidade e da
primavera — simbolizando também o equinócio no Hemisfério Norte.
Mas
o comércio, com sua voz estridente e loquaz, acabou por abafar o cântico suave
da fé. O que deveria ser sinal de fertilidade e esperança tornou-se vitrine de
consumo, túnel de ovos suspensos, espetáculo para os olhos infantis, mas vazio
para o espírito. Os ovos, antes frágeis cascas coloridas, converteram-se em
recipientes de brinquedos e excessos. Os túneis de chocolate pendem nas lojas
como se fossem templos de consumo, mas neles não há o recheio da fé.
A
festa que outrora se erguia como testemunho único da vitória de Cristo sobre a
cruz foi, ao longo dos séculos, adornada apenas por símbolos que vieram de
terras distantes. No entanto, a verdadeira Páscoa resiste. Ela não se vende,
não se embala, não se pendura em prateleiras. Não se deixa aprisionar. Ela é
como o sol que, mesmo encoberto por nuvens, insiste em nascer a cada manhã. É o
Cristo que, após três dias de silêncio, rompeu a escuridão do sepulcro e fez da
cruz — outrora instrumento de dor — uma luz que se renova, uma ponte
luminosa entre o humano e o divino.
Cabe
a nós, guardiões da fé, resgatar o sentido primeiro desta celebração. Lembrar
às crianças que o maior presente não cabe dentro de um ovo, mas pulsa no
coração solidário dos pais e avós, que se abre à esperança. Cabe a nós ensinar
que a Páscoa é mais que festa: é aurora que nunca se cansa de nascer, é o
jardim da ressurreição que floresce dentro de cada alma. Eles não precisam
rejeitar o doce do chocolate, mas não podem esquecer o sabor da religiosidade.
Que
cada ano seja, então, um renascer. Que aprendamos com o sol sua missão de
voltar sempre, e com Cristo sua promessa de vida nova. Pois a Páscoa é mais que
uma data: é o milagre que se repete, é a aurora que nunca se cansa de nascer.
É
o milagre da vida!

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