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sábado, abril 04, 2026

MALHAÇÃO DO JUDAS

 Esta prática me fez recordar talvez a única em que colaborei com os colegas vizinhos para expor o boneco em minha casa, que possuía uma varanda no alto, portanto bem visível e protegido. Meu genitor não permitiu, acabando com  o festejo no início. As considerações abaixo pertence ao colaborador Renato Mendonça.

Foto do jornal O São Gonçalo (RJ)

A malhação do Judas já foi — sobretudo nas cidades metropolitanas da região Sudeste — uma das mais celebradas tradições populares da era cristã. Em alguns estados do Norte e Nordeste, o ritual ainda permanece vivo, como chama que resiste ao vento do tempo e da indiferença. Possivelmente trazida pelos colonizadores, a prática acontecia nas primeiras horas do Sábado de Aleluia, simbolizando a execração de Judas Iscariotes — o traidor que vendeu Jesus Cristo por trinta moedas, conforme narra o Novo Testamento.

Recordo com saudade os bonecos de pano — de tamanho humano, recheados de palha ou de roupas velhas — que se tornavam a efígie da traição. Muitas vezes, não representavam apenas Judas, mas também figuras públicas impopulares, vizinhos indesejáveis ou personagens da comunidade que, inevitavelmente, eram surrados e queimados. Preparados na noite silenciosa da Sexta-feira Santa, surgiam pendurados em postes ou árvores, à espera da multidão de adolescentes e meninos que os malharia ao amanhecer.

Alguns traziam testamentos bem-humorados — sátiras afiadas, críticas sociais, mensagens à comunidade. Eram bilhetes que explicavam quem o boneco representava, transformando o ritual em catarse coletiva: expiação das indignações acumuladas ao longo do ano. Ali se misturavam motivações religiosas e sociais, fé e protesto, devoção e humor.

Para as crianças, era festa e rito ao mesmo tempo — o fim da Quaresma, a chegada da Páscoa, e, sobretudo, a expectativa pelos presentes de chocolate. Para os adultos, era também um exercício de crítica, uma forma de dar corpo às frustrações e queimá-las junto ao boneco.

Apesar de sua forte ligação com o catolicismo, a malhação do Judas revela a capacidade do povo de ressignificar tradições — mesclando elementos sagrados com o riso, a sátira e a denúncia. Hoje, porém, a prática é alvo de críticas: alguns a consideram retrógrada. Ainda assim, permanece como expressão viva da cultura popular brasileira, celebrando a renovação da fé e o renascimento pascal, ao mesmo tempo em que nos convida a refletir sobre as injustiças que atravessam a sociedade.

O simples ato de recordar a passagem bíblica já é, em si, uma vitória contra o esquecimento em tempos de crescente ateísmo. O rito carrega valor cultural profundo: é a forma como o povo expressa indignação, personifica a traição e a injustiça, e as expurga fisicamente na figura de Judas. Se quiséssemos ampliar o sentido da celebração, poderíamos escalar tantos outros “judas” do mundo político — os corruptos e os traidores da pátria, principalmente — e malhá-los nas urnas, como quem transforma o voto em instrumento de purificação.

Nos tempos modernos, em meio às influências globais que nos atravessam, manter práticas como essa é preservar raízes e bom senso. A malhação de Judas pode ser também metáfora universal: execrar os “judas internacionais”, os traidores da humanidade, que se multiplicam em diferentes formas e em diversos países. Sem ideologias ou fundamentalismos, cabe a nós escolher quais sombras nefastas precisamos abolir de nossas mentes e corações.

Assim, cada boneco queimado é mais do que um espantalho de pano: é a imagem daquilo que precisamos deixar para trás. É a sombra da caverna de Platão que se dissolve no fogo, abrindo caminho para a luz da Páscoa — a vitória da vida sobre a morte, da esperança sobre a desesperança. A vitória da Justiça e da Fé!

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