A postagem é de autoria do Renato Mendonça, meu irmão, que se tornou viúvo há quatro meses, no final de 2025. Seu texto relembra a “dor da ruptura”, depois de longo período de vida conjugal bem vivida.
Quatro meses se passaram desde que a
ausência e uma perda se instalaram em minha vida, e ainda hoje não consigo me
desvencilhar de uma vigília silenciosa de tristeza que habita meu coração. A
dor nasce de uma ruptura resignada, mas jamais assimilada em meu peito: meio
século de convivência interrompido.
Izabel Tereza — a minha Bela — partiu no
final do ano passado, atravessando o limiar para sua vida espiritual. Tento me
consolar com a certeza de que deixou de sofrer, após sete longos anos acamada.
Mas a lembrança doce e pungente de minha missão de cuidador — e por vezes,
técnico de enfermagem — insiste em permanecer: o zelo diário, as tentativas de
preservar sua vitalidade, o esforço em manter sua presença saudável entre nós.
Foram anos de aprendizado e de silêncio, em
que sua mente já não podia traduzir dores ou dilemas. Eu, por vezes, também
precisei recorrer ao socorro médico para sustentar meu próprio equilíbrio
físico e espiritual. Ainda assim, o que me ampara agora são as memórias
luminosas da nossa vida conjugal.
Conheci a Bela em uma loja de discos, onde
cada encontro parecia ter trilha sonora. Roberta Flack embalava nossos sonhos
pequenos, mas promissores — Killing Me Softly era a canção que nos unia
em promessa e ternura. Depois veio o casamento, simples e exuberante em
alegria, em Barra Mansa, cercado de família e esperança. Vieram os filhos —
Marcelo, Patrícia e Fernando — e com eles a alegria das peraltices e dos rostos
angelicais. Todos eles me encantaram e pude me aconchegar nos seus mimos
infantis.
Izabel foi o coração pulsante da nossa
casa. Mãe, tutora, diretora da escola invisível da vida, dedicou-se inteira à
educação dos filhos, enquanto eu me ausentava para atender à demanda do
trabalho. Em cada cidade que nos recebeu e acolheu — Santos, São José dos
Campos, Natal, Barra Mansa, Niterói — reinventamos juntos o lar, criando novas
coreografias para o cotidiano.
A cama vazia é ausência, mas também
altar de penitência. Nela repousa, para sempre, o amor que nos sustentou. É
nela que se fixa o meu olhar sobre um passado feliz e glorioso. É ela que
devolve os melhores instantes da vida conjugal: doce é navegar nesse mar de
lembranças. Recordo os dias e noites das festas natalinas em Vila Maria, na
vibrante Barra Mansa, desfrutando o aconchego de um modesto chalé à Rua Antônio
Graciano da Rocha. Crianças e adolescentes, hoje adultos, se deliciavam com os
presentes trocados; os mais criativos entre os adultos se revezavam em
encenações amadoras, imitando Elvis, Magal ou os Mamonas Assassinas. Todas
essas alegorias ganhavam ritmo com a música ao vivo, protagoniza pelos
talentosos rapazes de outrora — uma verdadeira celebração que reunia a grande
família e os vizinhos, sempre prontos a se convidar para assistir aos espetáculos
de afeto. Era ela quem congregava todos, com seu carisma singular e sua
humanidade transparente.
Hoje, às vésperas dos meus setenta e cinco
anos, procuro recompor a vida em territórios distintos. No quarto, a cama
hospitalar ainda repousa como testemunha silenciosa dos últimos sete anos de
sua luta obstinada pela sobrevivência. É diante dela que recolho minhas
orações, em murmúrio contido, tentando remover a pedra do sepulcro para
reencontrar sua presença. Sei que é delírio, sei que é impossível. Mas me
recuso a deixá-la morrer dentro de mim.
13.04.2026

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