CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

6 de janeiro de 2016

PADRE NONATO PINHEIRO & DOM ALBERTO RAMOS

Em pleno vigor intelectual, e diante da posse do novo condutor do bispado do Amazonas, padre Nonato Pinheiro (1922-94) publicou uma série de artigos em O Jornal, da empresa Archer Pinto, da qual era articulista.
Padre Nonato Pinheiro, 1952
O prelado escolhido era o jovem sacerdote dom Alberto Gaudêncio Ramos, que havia sido sagrado bispo no primeiro dia desse ano, em Belém do Pará, sua terra natal, nascido em 1915.
Desembarcou este em Manaus uma semana depois para ser empossado em 21 de janeiro. Constituiu-se no último bispo desse território eclesiástico, visto que três anos depois o Amazonas foi elevado à categoria de arcebispado e dom Alberto Ramos, seu primeiro arcebispo.
Permaneceu nesse último posto por seis anos, quando foi transferido para o arcebispado do Pará, com sede em Belém. Já arcebispo emérito, ali faleceu em 1991.
Tanto padre Nonato Pinheiro quanto dom Alberto Ramos pertenceram à Academia Amazonense de Letras.


O Juramento do Bispo: Fidelis et obediens (*)


São de praxe os juramentos solenes em momentos culminantes de investidura. Fazem-no quantos entram a assumir sérias responsabilidades na vida social e pública. Há juramentos célebres na História, de um ou outro vulto eminente da cultura e da civilização universais. 
É famoso o de Hipócrates, uma página de ouro em que a ética profissional atinge as altitudes pinaculares de incomparável beleza moral, pondo em relevo uma consciência pura como os cimos nevados. 
Não faz muito, em brilhante tertúlia na Academia Amazonense de Letras, o exigente e seleto auditório ouvia de pé a leitura desse documento notável, levada a efeito por eminente clínico.Também o bispo faz o seu solene juramento, antes de empunhar o báculo pastoral. E suas primeiras palavras são uma afirmação irreprimível de fidelidade e obediência ao apóstolo São Pedro, à Santa Igreja Romana, ao papa reinante e a todos os seus legítimos sucessores: fidelis et obediens vero. 
Promete conservar, defender e favorecer os direitos, honras, privilégios e autoridade da Santa Sé e do Sumo Pontífice e observar com solicitude as normas dos Santos Padres, disposições, decretos, provisões e os mandatos apostólicos. Promete igualmente não vender, nem doar, nem hipotecar, nem de qualquer outro modo alienar os bens da diocese, ainda com o consentimento dos cônegos ou dos consultores diocesanos, sem consultar o Sumo Pontífice.
É um juramento de muita responsabilidade que o novo antístite emite, tocando os Santos Evangelhos. 
Todo o Juramento Episcopal pode resumir-se nas palavras iniciais fidelis et obediens. Nada mais que fidelidade e obediência exige a Igreja do novel bispo, sobre cuja cabeça fez entornar, no dia da sagração, o turbilhão das bênçãos divinas.
Dom Alberto Ramos
Dom Alberto Gaudêncio Ramos ultrapassou as exigências da Igreja. Não só lhe prestará fidelidade e obediência, mas ainda docilidade perfeita, “inerência” harmoniosa e adesão plena aos mandamentos divinos e eclesiásticos. É o que se aufere do seu lema episcopal, que já me foi dado ver: Semper inhaerere mandatis. Quem não vê nesse “inhaerere” mais do que um simples “obedire”? Aí já se revela a fibra moral do pontífice do Amazonas. É um homem de obediência, na mais perfeita e intima “sintonização” com a palavra da Igreja e o pensamento do papa. 
O fidelis et obediens do juramento encontrou terreno fecundo no “inhaerere” do seu lema. Será fiel e obediente, com a alma, a inteligência e o coração, à Santa Sé e a Pedro.Está traçado o programa de Dom Alberto nas legendárias terras de Ajuricaba. Seu apostolado, que se auspicia fulgente e glorioso, será uma “inerência” harmoniosa ao papa e à Igreja. Dessa semente fecunda é que há de nascer frondosa e fértil a árvore do seu episcopado, cujos ramos hão de florir e frutificar na floração exuberante de todos os bens e de todas as mercês, pela vitória da Igreja e pelo triunfo de Cristo!

(*) O Jornal, Manaus, 8 de janeiro de 1949