CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

21 de maio de 2015

DOM JOÃO DE SOUZA LIMA (2)

Padre Nonato Pinheiro
Na sequência, a segunda parte do discurso do finado Padre Nonato Pinheiro, orador do IGHA, a 
oração de boas-vindas ao saudoso bispo do Amazonas, Dom João de Souza Lima, na ocasião em que ocupou a Cadeira 24, em outubro de 1969.



NOS DOMÍNIOS DO CONCÍLIO ECUMÊNICO

O Concilio Ecumênico Vaticano II, iniciado sob o pontificado luminoso do Papa João XXIII, e concluído sob o pontificado amargurado de Paulo VI, se abriu realmente que e o Sacro Colégio dos Cardeais, ousam discordar do ... igreja, que para muitos se encontrava atrasada de um ou mais séculos, abriu pari passu, e dolorosamente do tumulto das ideias, do desencadeamento furioso das rebeldias procelosas, quanto, não somente leigos e simples sacerdotes, mas até mesmo altos prelados envoltos no próprio esplendor da purpura cardinalícia, o que vale dizer com assento no supremo senado da Igreja, que é o Sacro Colégio dos Cardeais, ousam discordar do pensamento cristalino e da orientação sempre aclarada e sapientíssima do Sumo Pontífice, teimando em não reconhecer a autoridade máxima e suprema do Vigário de Cristo e sucessor daquele Pedro de gênio arrebatado, mas de fé ardente e intrépida, cheio de amor ao Divino Mestre, a quem foi dito: "Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam!" (Tu és Pedro, e sob esta pedra edificarei a minha Igreja!)
O vendaval continua a soprar violento, anunciando borrascas estrepitosas para desalento do povo de Deus e tripudio dos inimigos da fé. Tenho acompanhado de perto as proporções da tragédia, a tomar o vulto das tempestades aniquiladoras. A barca de Pedro revive as horas de tormenta, de que nos fala o evangelista Mateus, "açoitada pelas ondas, porque o vento era contrário": contrarius erat ventus... (Mt. XIV:20).
Em tanta agitação, muitos soçobram e vacilam, precisamente porque se desvinculam do centro da unidade cristã, que continua a ser Pedro, a pedra, o rochedo indestrutível, que devolve ao oceano a fúria das ondas
encapeladas; Pedro, a pedra, que continua vivo no Papa, quaisquer que sejam suas personalidades e os nomes pontifícios que tomam ao assumirem o lema da Barca vinte vezes· secular: Bonifácio, Gregório, Leão, Pio, João ou Paulo, não é Paulo, nem João, nem Pio, nem Leão, nem Gregório, nem Bonifácio: "Il est Pierre, qui ne muert pas, assis sur son trône, qui ne crouie pas!" (Ele é Pedro, que não morre, assentado em seu trono, que não se abala!) - diria com Luís Veuillot, cujas pupilas precisariam de figurar nas órbitas de não poucos leigos e prelados do mundo contemporâneo, que chegam a aceitar a heresia suprema de admitir uma Igreja sem Papa, já esquecidos do legado tradicional da ortodoxa doutrina: "ubi Petrus, ibi Ecclesia”, que em vernáculo se resolve nestas palavras – a Igreja está, onde estiver o Papa!

Em meio a essa babel que inquieta a cristandade e atormenta ainda mais o pontificado dolorido ou doloroso do grande papa Paulo VI, tendes dado em nossa arquidiocese uma fascinante lição de bom senso, equidade e equilíbrio, mantendo-vos no meio termo dos cautelosos, nesse meio termo sempre aconselhado e bom conselheiro, evitando a caturrice dos ultraconservadores e os excessos desvairados dos ultraliberais, questão mal posta, como acaba de frisar o ponderado arcebispo de Teresina (PI) e presidente da Comissão Episcopal Latino-americana, porque o Bispo em si não é conservador nem liberal, é simplesmente Bispo, com olhos para ver e ouvidos para ouvir aquelas palavras profundamente impressionantes do rito de sua sagração episcopal: "non ponet lucem tenebras, nec tenebras lucem; non dicat bonum malum, nec malum bonum" (não confunda a luz com as trevas, nem as trevas com a luz; não identifique nem com o mal, nem o mal com o bem), palavras de sensatez e advertência, que a Igreja foi buscar no tesouro fecundo e inexausto das Santas Escrituras. Dir-se-ia que a sabedoria da Igreja, prevendo a possibilidade humana de o novo Bispo ter a tentação de acolher as trevas como luz, e a luz como trevas, e admitir a ignomínia de confundir o bem com o mal, muito de ind (...)ia agasalhou nos lábios do Sagrante palavras tão eminentes, luminosas e oportunas, que deveriam abrir e encerrar, com a mais faiscante das chaves de ouro, quaisquer sínodos ou assembleias eclesiásticas, que abriguem prelados para tratarem doutrina e traçarem normas ao povo de Deus, já cansado de tantas e incomportáveis lacerações na túnica inconsútil da Esposa de Cristo!


O INSTITUTO GLORIFICA A IGREJA

Em vossa eleição, guiou-nos o alto quilate que vos caracteriza a inteligência, aberta a todas as ondulações da luz, e a cultura, opulentada nas tradicionais e ubertosas tetas dos estudos clássicos, que, digam lá o que disserem, continuam a ser os alicerces insubstituíveis de toda grande e verdadeira cultura. Como quer que seja, com premiar-vos os talentos, quis o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas glorificar a Igreja, de que sois pontífice; essa Igreja-Mãe, essa Igreja maternal, que parturejou a civilização cristã, criadora e inspiradora de tantos e repetidos benefícios que a humanidade vem usufruindo há vinte séculos de História!

Glorificamos a Igreja caridosa, que criou os hospitais; e glorificamos igualmente, muito particularmente nesta Casa a Igreja sapientíssima, que criou as Universidades, muitas das quais trazem em seu diploma de origem a assinatura de um Papa; Igreja de Gregório XIII, que reformou o calendário, corrigindo um erro plurissecular pela criação dos anos bissextos; Igreja de Leão XIII, que assinou a maior Carta do Operário Cristão, a famosa "Rerum Novarum"; Igreja de Bento XIV, o famoso Lambertini, de quem se escreveu que teve duas almas, uma para a Igreja e outra para as ciências; Igreja criadora de escolas e de bibliotecas, que salvou nos mosteiros medievais, pela paciência dos monges letrados o tesouro das antiguidades; Igreja acoimada de obscurantismo tão somente pelos ignorantes de todas as castas, cuja miopia, amaurose ou cegueira lhes dá olhos imprestáveis para verem o milagre do esplendor do sol. (SEGUE)