CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

19 de maio de 2015

DOM JOÃO DE SOUZA LIMA (1)

Foto da solenidade, arquivo do IGHA
Em quase um centenário de atividades, a Casa de Bernardo Ramos acolheu entre seus membros apenas dois Bispos da Igreja católica. O primeiro – dom João Irineu Jofilly, ajudou a fundar esse Instituto em 1917. O segundo, Dom João de Souza Lima, ocupou a Cadeira 24, patronada por frei Gaspar de Madre de Deus. Foi recebido em outubro de 1969, pouco mais de dez anos após tomar posse na arquidiocese do Amazonas.

Dirigia o IGHA o desembargador João Corrêa, que presidiu uma solenidade repleta de autoridades e convidados. Padre Nonato Pinheiro, orador da Casa, fez a oração de boas-vindas. A partir dessa postagem, e dividida em três partes, reproduzo a mencionada saudação.


Senhor Arcebispo
Dom João de Sousa Lima


O Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) pela segunda vez tem a honra insigne de acolher em seu grêmio um bispo da Santa Igreja. Logo no dealbar de sua inauguração, em 1917, outro antístite, também chamado João, abrigou-se à sombra dessa casa austera, como seu " primeiro vice-presidente, aqui deixando o esplendor de sua mitra fulgentíssima, o brilho meridiano de sua inteligência, a grandeza de sua cultura polimorfa, o colorido de sua palavra eloquente e o fascínio de sua forte e inconfundível personalidade: Dom João Irineu Joffily.
Paraibano de nascimento, sua fisionomia, iluminada pelo fulgor de dois grandes olhos penetrantes, revelava as cintilações de todos os talentos. Sacerdote da arquidiocese de João Pessoa (PB), teve a dita de ser o "baculum senectutis", o cajado da velhice do preclaro Dom Luís Raimundo da Silva Brito, arcebispo de Olinda e Recife, uma das mais soberbas culturas do Episcopado Nacional, maranhense ilustre, que tanto se constelara de glórias no Rio de Janeiro, como pregador da Capela Imperial.
Foi na escola de Dom Luís de Brito que vosso egrégio antecessor no sólio episcopal amazonense se preparou para as lides pastorais, assim na, então, Diocese do Amazonas como na Arquidiocese de Belém do Pará, cujo sólio também ilustrou com acendrado zelo e alto descortino.

Outro Dom João ingressa agora solenemente neste areópago de cultura, apercebido do mesmo caráter episcopal, das mesmas virtudes apostólicas e dos mesmos
pergaminhos de inteligência e erudição, que vossa reconhecida modéstia não logra ocultar, porque o passado, no dizer de elegante escritor, ainda quando anda, sente-se que tem asas...

Sacerdote secular da Diocese de Pesqueira, cedo manifestastes pendor para o magistério, lecionando, entre outras disciplinas, a ciência altíssima das Matemáticas, que na estimativa de grandes mestres, tanto contribui para disciplinar os talentos e comunicar aos espíritos particular cunho de exação e equilíbrio, dando a tudo a justa medida do comedimento e da proporção. Professor de renome da ciência dos números, haveis de ter experimentado a veracidade e o encanto daquela observação de Dom José Pereira Alves, Bispo de Niterói, em cujos lábios de ouro, ou em cujo cálamo de filigranas, encontrei esta pepita: "Em tudo sinto a poesia, até na austera Matemática, pelo menos no cálculo sublime!". Acredito que o estudo e domínio dessa disciplina tão exata haja influenciado poderosamente em vossa formação, dando-vos essa admirável exação que todos surpreendemos na administração da arquidiocese e no governo da vida, reflexo do longo trato de uma das ciências exatas, cujo magistério exercestes em Pesqueira (PE) com tanto proficiência e brilho.


UM DEPOIMENTO VALIOSO

    Tive a ventura de conhecer em São Luís do Maranhão vosso grande amigo, pai e protetor, o       saudoso arcebispo Dom Adalberto Acioly Sobral, bispo de Pesqueira (PE) e posteriormente arcebispo de São Luís do Maranhão, onde a irmã Morte o foi buscar para o repouso dos Justos, na mansão de Deus. Nunca me foi dado ver outro homem de tão singular personalidade, o qual, servindo-me de palavras de Camilo, aplicadas aos poetas, me dava a impressão de anular em si mesmo todas as leis da física ou da fisiologia, para viver de uma única entranha:
o coração! Homem de coração tão grande, que não sei como lhe cabia no peito! Teve-me a seu lado muitas vezes, quando lá estive em viagem de férias, no ano de 1950.


Ainda não éreis nosso arcebispo metropolitano, e mais de uma vez me falou dos vossos talentos e da vitória de vossos estudos no Seminário de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, para onde vos enviara em' seminarista, dando-vos oportunidade de uma formação intelectual mais apurada, na forja dos grandes mestres que, sabem ser os filhos de Santo Inácio de Loyola, que reservam tanto devotamento ao estudo das ciências e ao trato das letras, tão em consonância com o oráculo das Letras Santas, a afirmar: "Labia sacerdotis custodiunt scientiam!" (Os lábios do sacerdote guardam a ciência!).
Aprimorados vossos conhecimentos no estudo e na leitura, sorvendo em torrente os lampejos mentais de preceptores preexcelsos, iniciastes vosso currículo sacerdotal na Diocese de Pesqueira (PE), onde mão poderosa de Pio XII vos foi buscar para colocar-vos entre os príncipes da cristandade, robustecendo com a plenitude do sacerdócio. Primeiro Diamantina, em Minas; depois, Nazaré da Mata, em vosso estado natal, vos receberam como Pastor das almas, respectivamente como Bispo e Bispo Diocesano. Naquela diocese sertaneja ouviste pela terceira vez a voz do Vigário de Cristo, promovendo-vos a Arcebispo Metropolitano de Manaus, onde tendes desenvolvido um fascinante programa pastoral, dedicando-vos com alma, inteligência, coração e vida ao anúncio da palavra de Deus, a transmissão da mensagem do Evangelho, pão e luz, que sustenta e ilumina as almas sequiosas dos orvalhos celestes!

O que realizastes na arquidiocese de Manaus é obra que vos enaltece e glorifica. Por vossa indústria e zelo, novas prelazias foram criadas, fundando-se na capital novas residências religiosas. Muito vos empenhastes na irradiação das escolas radiofônicas e na promoção de semanas de ruralismo, dando vosso incentivo à fixação do homem do campo em seu próprio meio, levando-o a não se empolgar pelas miragens mirabolantes da capital, onde o índice de desemprego desafia a acuidade de sociólogos e governantes.


Sintonizando com o espirito da época, tende-vos preocupado com o problema das lideranças, brotando de vosso zelo a fundação da Maromba, centro arquidiocesano para formação de líderes e promoção de cursos de superior cultura, religiosa, social e filosófica. Se é verdade o que proclamou Bacon, que são as ideias que governam o mundo, aprendestes que urge disciplinar nas mentes dos homens ideias fecundas e luminosas, para a floração primaveril de atos decisivos e decisões supremas no rumo de uma comunidade feliz, no clima e na luminosidade daquele MUNDO MELHOR, preconizado pela genialidade de Pio XII, e cujos horizontes azuis tão bem divisastes em memorável Carta Pastoral aos diocesanos de Nazaré da Mata (PE), dada a estampa pela Editora Vozes, de Petrópolis.