CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

14 de maio de 2015

HISTÓRIA E GEOGRAFIA DO AMAZONAS (4)


Mapa de Manaus, 1852
No segundo governo dos irmãos Nery (1904-07), circulava em Manaus a “Revista destinada a vulgarização de documentos geográficos e históricos do Estado do Amazonas”, intitulada ARCHIVO PÚBLICO. Tais documentos constituíam o acervo desta repartição que, ainda em nossos dias, sem o brilho anterior, prossegue funcionando.
Em 17 de outubro de 1907, Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha (filho do 1º presidente da Província amazonense e dirigente do referido órgão), proferiu uma palestra sobre a História e Geografia do Amazonas. Essa alocução, realizada no Ginásio Amazonense diante de respeitável plateia e do próprio governador, Constantino Nery, foi reproduzida no volume II, datado de 23 de janeiro seguinte.

A seguir, a IV e última Parte:



Vila da Barra do Rio Negro, 1849 (colorido artificialmente)
Vastíssima é a rede hidrográfica da Bacia do Amazonas, tendo por artéria principal o portentoso rio do qual vem o nome, e dele ramificam-se outros que a ele se assemelham como o Jari, Paru, Xingu, Tapajós, Madeira, Uatumã, Urubu, Negro, Purus, Japurá, Iça, Juruá, Javari, Ucayali, Morona etc. e, que não são menos importantes pela amplitude do curso e volume das suas águas, que o Tocantins, que noutros tempos deverá ter sido, como creio, também um ramo do rio Amazonas.
O rio Amazonas, que o padre Antônio Vieira, – o Grande, chamou – mar doce, por ser na largura da sua embocadura e no seu comprimento maior que o Mar Mediterrâneo, nasce na cordilheira dos Andes; e querendo Tenreiro Aranha, imortal fundador da província, que tomou o mesmo nome do rio, dar uma ideia aproximada da sua grandeza, assevera que a navegação tem sido e há de sempre ser, aqui, por este mar imenso do Amazonas, a principal via de comunicação para irem todos os habitantes e todos os produtos de uns para outros lugares, desde o leito marchetado, onde o monarca dos rios tem a cabeça majestosa, até onde com as pontas dos pés repele as vagas do oceano.
Todos os habitantes e todos os produtos dos outros lugares da Bacia do Amazonas incontestavelmente estendem-se à Goiás e Maranhão pelo Tocantins; à Mato Grosso pelo Xingu, Tapajós e Madeira; à Bolívia pelo Madeira, Purus e Juruá; ao Peru pelo Juruá, Javari e Amazonas ou Maranon; ao Equador pelo Iça; à Colômbia pelo Iça, Japurá, Uaupés e Içana; à Venezuela pelo rio Negro, Ixié, Cauaboris, Padauari e Uraricuera; à Guiana Inglesa pelo Tacutu e à Guiana Holandesa pelo Trombetas.
Os Estados do Grão Pará e Amazonas, unidos pelo grande rio, acham-se na própria artéria da rede hidrográfica da Bacia do Amazonas.
 Só depois da fundação do Estado do Maranhão e Grão-Pará, cuja sede foi São Luís, máxime da gloriosa expedição de Pedro Teixeira, intrépido capitão português, que de Belém partindo com destino à Cametá e deste porto, no rio Tocantins, dirigiu-se a Quito, hoje capital do Equador, por via do rio Amazonas, no qual foram, nessa ocasião, reconhecidas as embocaduras dos rios Xingu, Tapajós, Madeira, Negro, Coari, Japurá e Napo até o término da mesma expedição, foi que o Maranon, descoberto por Pinzon, que Orelana mais tarde denominou Amazonas, ficou definitivamente reconhecido e pertencendo a capitania do Grão Pará, e sob a jurisdição do governo geral daquele outro Estado.
 As capitanias, que então o formavam, eram as do Maranhão, Cumá ou Guimarães, Piauí, Gurupi, Caeté ou Bragança, Grão-Pará, Joannes ou Marajó, Cabo do Norte ou Guiana Portuguesa, Camutá ou Cametá, e Rio Negro ou Alto Amazonas, última criada. Este vasto Estado ficou depois dividido no do Maranhão e no do Grão Pará e Rio Negro e mais tarde este ainda foi dividido, já sob o regime do Império, na província do Grão Pará e na do Amazonas.
 Esta última província, que se achava convertida na qualidade de comarca da outra província, num vasto deserto, por falta de um escolhido, que trabalhasse para a felicidade de seus povos, como havia feito o seu glorioso e imortal governador Lobo d’Almada, no fim do século XVIII, teve quem dela se lembrasse a 27 de maio de 1826 na Assembleia Geral Legislativa do Império. O deputado paraense, cônego Romualdo Antônio de Seixas, foi quem submeteu à discussão um projeto seu, mandando considerar daquela data em diante, como Província, a comarca do Rio Negro da Província do Pará, dizendo: Ah! Sr. Presidente, quanto são desgraçados os povos que vivem longe da sede do Império!
Com a criação do Estado do Maranhão, por decreto de 13 de julho de 1621, o governo das conquistas do Ceará, Maranhão e Grão-Pará, ficou separado do geral do Brasil. Nomeado Diogo de Carcamo naquela mesma época, governador do novo Estado, recusou a nomeação, e por este motivo coube a Francisco de Moura ser escolhido para ocupar o cargo, que não aceitou também.
A vista da sua recusa foi então nomeado, a 23 de setembro de 1623, Francisco Coelho de Carvalho, que a 23 de março de 1624 partiu de Lisboa com destino a Pernambuco, onde deixou-se ficar dois anos por causa da invasão holandesa, tendo dentro desse tempo tomado posse do cargo no Ceará, que fazia parte do território do Estado do Maranhão.
 
Este governador só a 3 de setembro de 1626 pôde entrar em São Luís, e em 1627 indo ao Grão-Pará, entrou no Gurupi e ali fundou a povoação Vera Cruz; e manifestou-se em Belém contra os bárbaros e desumanos resgates de escravos indígenas, com desagrado geral dos poderosos escravagistas.
Em 1636 fez outra visita ao Grão-Pará, demorando-se pouco em Belém, onde aportara a 1º de maio desse ano, e por motivo de moléstia mudou-se para a Vila de Cametá, fundada ainda em dezembro de 1635, onde chegou a 1º de setembro do mesmo ano de 1636 e a 15 desse mês ali faleceu.
Em 9 de outubro do referido ano de 1636, apossou-se intrusamente do cargo de governador do Estado Jácomo Raimundo de Noronha, e só o deixou a 27 de janeiro de 1638, data em que entrou na sua posse Bento Maciel Parente, 2º governador da coroa e 3º na ordem dos respectivos serventuários que assumiram o exercício do cargo. Dos três governadores, o último que foi nomeado dentro do domínio de Espanha, continuou no exercício por nova nomeação do Duque de Bragança, então aclamado rei de Portugal.
Desta sorte, contando da data da fundação do Estado do Maranhão a da do Grão-Pará e Rio Negro o número dos seus governadores e capitães generais foi este de 30, sendo: No domínio espanhol, com residência no Maranhão – 3; no domínio português com a mesma residência – 23; e com esta no Pará – 5, inclusive o governo provisório de 30 de janeiro de 1644.
 No domínio holandês teve o Maranhão, menos o Pará que não se submeteu à Holanda, dois governadores desta potência, de 27 de novembro de 1641 a 28 de fevereiro de 1644. 
A capitania do Grão Pará, sujeita ao Estado do Maranhão, contou até a data da fundação do Estado do Grão Pará e Rio Negro, no domínio espanhol 15 governadores e capitães-mores, e no domínio português 26, inclusive o de 19 de junho de 1650, que pelo governador e capitão-general do Estado do Maranhão foi declarado independente da sua autoridade, e mais 4, inclusive o de 8 de maio de 1654, de Domingos Machado, conjuntamente o Senado da Câmara, em virtude do Decreto régio de 23 de fevereiro de 1652, que deu-lhes autoridade independente da do governo do mesmo Estado do Maranhão.
O Estado do Grão-Pará e Rio Negro contou, da data da sua fundação até a adesão do Pará à proclamação da independência e do Império do Brasil, o número de 10 governadores e capitães generais, inclusive o de 24 de setembro de 1751 e o de 2 de março de 1759, que governaram o Maranhão dependente do Pará; uma junta provisória de 19 de outubro de 1817 com três membros; uma outra junta provisória constitucional de 1º de julho de 1820 com três membros; uma terceira de 1º de janeiro de 1821 com oito; uma quarta de 12 de março de 1822 e uma, por último, de 10 de março de 1823 com sete cada uma.
A Capitania de S. José do Rio Negro, sujeita ao Estado do Pará, contou da data da sua fundação em 11 de julho de 1757 até a adesão do Pará à independência e império do Brasil, os governadores seguintes:

Governadores
Data de Posse
1
Joaquim de Mello Povoas
1758  Maio    7
2
Gabriel de Souza Filgueira
.......
3
Nuno Ataíde da Cunha Varona
.......
4
Valério Corrêa Botelho de Andrade
.......
5
Joaquim Tinoco Valente
1772
6
............................
........
7
............................
........
8
José Antônio Salgado
........
9
Manoel da Gama Lobo d’Almada
1787
10
José Antônio Salgado
1799 Outubro 27
11
José Simões de Carvalho
1804
12
José Joaquim Victorio da Costa
1805
13
José Joaquim Victorio da Costa
1807 Outubro 10
14
Manoel Joaquim do Paço
1818
15
Antônio Luís Pires Borralho
.......
16
Manoel Joaquim do Paço
1821 Março    31
17
Antônio Luís Pires Borralho
.......

       
No mesmo domínio contou mais uma junta administrativa provisória constitucional, formada por eleição, e compondo-se dos cidadãos seguintes: Antônio da Silva Craveiro, Bonifácio João de Azevedo, Manoel Joaquim da Silva Pinheiro e João Lucas da Cruz.

CONCLUSÃO

Eis aqui quanto me foi possível produzir, animado pelo amor e zelo de que sempre fiz timbre, do bem geral do Brasil, particularmente do Amazonas, berço do mavioso poeta lírico e cantor primoroso da inditosa Maria Bárbara, que
Lembrando-se que teve uma consorte,
Que por honra da fé que lhe jurara,
A mancha conjugal prefere a morte;

e vasto teatro das mais gloriosas conquistas do imortal João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha por meio da imprensa e da tribuna parlamentar brasileira à favor da navegação a vapor dos rios do Amazonas e seus tributários, da elevação da comarca do Rio Negro 19 à província, da exploração dos mais importantes afluentes do grande rio, da colonização nacional e estrangeira nos rios Iça e Branco, e da catequese e civilização dos índios, para significar a minha gratidão a esta terra futurosa, que me deu hospitaleiro acolhimento de 1856 até hoje, e ao qual tenho procurado corresponder condignamente sem quebra de minha dignidade e da independência do meu caráter.

Grato, portanto, aos distintos cavalheiros e virtuosa professora, que ornam neste momento tão seleto auditório, especialmente aos ilustres Dr. Antônio Constantino Nery, governador do Estado, e coronel Antônio Clemente Ribeiro Bittencourt, vice-governador, por haverem todos gentilmente honrado com suas presenças esta modesta conferência, que lhes tributo, contando que me hão de desculpar, se não correspondi, quanto desejava, as suas expectativas. (fim)