CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sábado, julho 05, 2025

BOCA DO IMBOCA - 1965

 

Raro há de análogo entre as duas fotos, que foram tomadas em idêntico ângulo, porém, defasadas em 60 anos. Hoje, restam tão-somente os resquícios da usina de óleos naturais, cujo prédio abriga a Creche Municipal “Madalena Arce Daou”, uma homenagem póstuma à esposa de Phillipe Daou, falecido fundador da TV Amazonas. No mais, carro, postes de energia e as casas da Boca e as “bocadas” deram lugar ao asfalto, ao lixo orgânico e humano debaixo da ponte e outras degradações.

Fotos em cores desta data


Publicação do Jornal do Commercio, de 19 setembro 1965

A “Boca do Imboca” abria a rua São João que, adiante, ao topar o Grupo Escolar Leopoldo Neves, se inclinava para a direita e tomava o nome deste ex-governador, adiante, em nova curva à direita e tendo como referência o clube Guanabara, mudava para rua Branco Silva, até seu término na av. Presidente Kennedy.

Ao professor Aguinaldo Figueredo, nascido e criado no pedaço, de quem solicito suprimento sobre a “Boca”. 

Boca do Imboca 

Na administração Vinícius Conrado não há bairros privilegiados. Entendendo que foi eleito para governar a capital do Estado, o chefe comunal não limita sua atividade a tal ou qual área, e abre frentes de trabalho sempre onde há necessidade. É este o princípio que adota, e em consequência, toda Manaus é beneficiada igualmente. Seja no cumprimento da simples, mas importante Operação “Tapa Buraco”, seja no calcetamento de ruas nunca antes olhadas, vai assim o prefeito Vinícius Conrado deixando seu nome ligado ao processo de embelezamento e urbanização da capital, sendo o aspecto fixado pelo clichê um exemplo: trata-se da entrada do bairro de Santa Luzia, que agora está sendo calcetada inteiramente.

sexta-feira, julho 04, 2025

LORD HOTEL MANAUS: 60 ANOS

 

Prestes a completar 60 anos desde sua inauguração em 1965, o Lord Hotel encontra-se desativado, as portas cerradas, impossibilitando qualquer movimento interno, assim o tenho visto. Apesar desse estado, li na internet que diversos sites de turismo ainda vendem hospedagem no Lord Manaus. São as amarguras do comércio. Que esta postagem recolhida do Jornal do Commercio (9 outubro 1965) sirva de grata recordação, de quando Manaus era um atrativo para as compras.

Recorte do Jornal do Commercio, 9.10.1965

 Novo “Lord Hotel”: Imponência e Beleza

Manaus possui, desde às 18 horas de ontem, mais um confortável e moderno hotel, sendo este o “Lord Hotel Ltda.”, de propriedade do sr. David José Tadros, edificado na esquina das ruas Marcílio Dias com Quintino Bocaiuva, tendo comparecido ao ato inauguratório, além de elementos de destaque das classes sociais da produção, conservadoras, hoteleiras, comércio e indústria, secretários de Estado e pessoas gradas, o governador do Estado, prof. Arthur Cézar Ferreira Reis, acompanhado de sua digna esposa, dona Graziela Reis, e a senhorita Maria Raquel Andrade, Miss Brasil 1965.

Cortou a fita simbólica, inaugurando o “Lord Hotel Ltda.” a primeira dama do Estado. sra. Graziela Reis, cabendo ao padre Jorge Normando, representando dom João de Souza Lima, dar a benção às instalações do novo Hotel. Falaram na ocasião o dr. José Lindoso, dizendo da satisfação do comerciante David José Tadros em entregar o novo e moderno Hotel ao povo, contribuindo para o progresso do Amazonas, e o governador Arthur Reis, que enalteceu o gigantesco empreendimento, que é a honra do nosso Estado, e que muito contribuirá para o progresso no campo de turismo.

Aos presentes foram servidos frios, quentes e gelados e todos ficaram maravilhados com as instalações do Lord Hotel Ltda., que possui 53 apartamentos, sendo trinta com ar refrigerado e cinco de luxo.

Nas fotos vemos, à esquerda, um ângulo do Lord Hotel Ltda., à direita, em cima, dona Graziela Reis cortando a fita simbólica, inaugurando o novo e moderno hotel; e, embaixo, o governador Arthur Reis cumprimentando o sr. David José Tadros proprietário do Lord Hotel Ltda., aparecendo, ao fundo, a encantadora Maria Raquel Andrade, Miss Brasil 65. (Fotos de J. Batista).

quarta-feira, julho 02, 2025

ANTONIO CARLOS VILLAÇA (1928-2005)

 

Quando em 2004 iniciei as pesquisas sobre a produção literária do padre-poeta L. Ruas (1931-2000), foi-me indicado pelo amigo comum, poeta Elson Farias, um livro de Antonio Carlos Villaça (1928-2005). “O Nariz do Morto” era o livro contendo uma referência ao Ruas, que foi colega de Villaça no seminário do Rio Comprido, em 1953. Entusiasmado, consegui conversar com o Villaça pelo telefone. Um único bate-papo. Vinte anos depois, pouco recordo de nosso papo, mas me ficou gravado o entusiasmo que ele possuía pelo “Ruas, de Manaus, um moreno inteligente, líder nato, falava muito bem mesmo, como poucos ouvi até hoje”.

Antonio C. Villaça (1928-2005)

Em janeiro do ano seguinte, lendo a coluna de Carlos Heitor Cony circulada em A Crítica, soube do fim de Antonio Carlos Villaça. E, passadas duas décadas, o texto vai postado em homenagem ao morto e ao seu colega, o falecido L. Ruas.

 

Detalhe da coluna, em A Crítica,
07 junho 2005

Antônio Carlos Vilaça

RIO DE JANEIRO - E assim mesmo. Morreu Antônio Carlos Vilaça, no sábado, 28 de maio. Apenas uma pequena informação, na seção dos anúncios fúnebres, noticiando o seu falecimento, providência de anónimos que o admiravam. Estava abrigado no asilo São Luís, destinado a idosos sem família e sem recursos, em fase de doença terminal. Durante algum tempo, por iniciativa de Marcos Almir Madeira, ocupava um quarto na sede do PEN Club do Brasil. Com a morte de Madeira, acho que foi despejado e foi parar num asilo. Vilaça escreveu uma obra-prima, “O Nariz do Morto”, que foi saudado pela crítica como ponto alto de nossa memorialística, colocado acima de Joaquim Nabuco, de Gilberto Amado e de Pedro Nava.

Na realidade, escrevia melhor do que todos eles, tivera apenas uma existência mais modesta, nada de espetacular em sua vida. Ganhou a mais alta láurea da nossa literatura, o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, que já premiou Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre, Fernando Sabino e, neste ano, premiará Ferreira Gullar.

Poucos escreveram tão bem, tão limpamente e tão profundamente. Conhecia a literatura universal como um ‘scholar’, sabia de cor trechos e mais trechos dos clássicos, de Homero e Juan Rulfo.

Mas seu grande assunto era a santidade que não encontrou nas diversas ordens religiosas em que foi buscar o caminho não para se tornar santo, mas para entender a santidade dos outros. Fez noviciado entre jesuítas, dominicanos, beneditinos, buscou diversas ordens monásticas e até mesmo o sacerdócio secular. Na solidão, o grande crente parece que se tornou descrente de tudo.

A doença deformou-o, mas não afetou a sua lucidez, a ânsia de entender o homem. Morreu só. Se existe um céu, seja lá de que religião for, Vilaça estará nele, pela sua alegria e pelo seu sofrimento.

terça-feira, julho 01, 2025

HORA DA MERENDA: 1964

 

Hoje em dia, as bancas de venda de doces e guloseimas estão por toda a cidade, de forma que foi difícil encontrar uma correspondência exata com a publicação do jornal A Gazeta, que destacava essas particularidades na coluna Manaus em Foto. Expressões como “entala gato”, “morte lenta” e outros apelidos bem característicos foram usados por décadas, até que deixamos de chamar de “merenda” e passamos a usar o termo “lanche”, ... então, tudo mudou. A banca que aparece na foto servia à praça Tenreiro Aranha, na ilharga do antigo Hotel Amazonas. 

Recorte de A Gazeta, edição de 05 março 1964

UM “ENTALA GATO” MUITO CONCORRIDO

 

A fome dói, é coisa que todos sabem, por mais que seja bem-nascido. Quando vem aquele vazio no estômago, o jeito é desapertar.  E o bolo-de-macaxeira vem a propósito, pelas três da tarde, ou mais. Hora de merenda de quem trabalha e só pode “dar um pulinho”. Uns chamam de “entala gato”, outros de “comeu, morreu” ou “morte lenta” e mais nomes que [não] ocorrem no momento. Mas todos compram e se deliciam, que de fato é gostoso, bem feitinho, servindo até pra levar pra casa, num embrulhinho, pra completar a janta. (...)

Até o “bolo podre” também tem vez, como outras guloseimas. Tem freguesia certa e até selecionada. Fazem fila para comprar e, não raro, encosta um carro, de placa particular, pra uma compra ligeira.

O negócio vai aumentando e os compradores também. Todas as tardes o vendedor se estabelece, porque tem competência, na Teodureto Souto, pertinho da praça ao lado do Hotel Amazonas. E dizem que até turista estrangeiro, pra variar, ali comparece de quando em vez. Os graciosos chamam de entulho e lembram que o melhor tempero é a fome. Mas todos gostam e voltam.