CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quarta-feira, setembro 03, 2014

SOBRE A AMAZÔNIA (2ª PARTE)



SOBRE A AMAZÔNIA (2ª PARTE)


Depois de longo inverno, retornei ontem às atividades, esperando manter produtivamente este espaço. Sem delongas, porque as minhas promessas anteriores foram, na verdade, por águas abaixo. Assim, reproduzo (em duas etapas) o texto abaixo, extraído da revista Notícia Bibliográfica e Histórica (nº 182, de julho-setembro de 2001), da PUC/Campinas. Sobre o autor, apenas posso adiantar que o mesmo era então o responsável pelo citado periódico.

ESTRANGEIROS QUE ESCREVERAM SOBRE A AMAZÔNIA
Odilon Nogueira de Matos

À mesma Itatiaia coube, ainda, divulgar as obras do príncipe Adalberto da Prússia (1811-1873), Brasil: Amazonas e Xingu, a de Alcide D'Orbigny (1802-1875), Viagem pitoresca através do Brasil; e a de Hamilton Rice (1875-1956) Exploração da Guiana Brasileira; a de Avé-Lallement (1812-1884), Viagem pelo norte do Brasil, cuja primeira edição brasileira fora promovida pelo antigo Instituto Nacional do Livro; e o segundo volume da Reminiscências, do reverendo Kidder (1815-1891), não cientista, mas missionário metodista, observador excelente da vida brasileira, cuja obra fora divulgada originalmente entre nós pela antiga Editora Martins, de São Paulo, em 1943.
Quanto à obra clássica de Spix e Martius, lembraremos ter ela sido divulgada entre nós, em primeira mão, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1938, numa edição comemorativa do centenário do Instituto. Retomada, depois, pelas Edições Melhoramentos (1976), acabou passando para o domínio da Itatiaia na já citada coleção "Reconquista do Brasil" (1981). É dos títulos mais valiosos de nossa xenobibliografia.
Completaremos este elenco com uma referência ao livro de Henry Lister Maw, Journal of a passage from the Pacific to the Atlantic, crossing the Andes in the Northern Province of Peru, and descending the River Marañon, or Amazon, publicado em Londres, em 1829. Foi talvez o único livro de viajante estrangeiro a ser traduzido para o português logo após a publicação original, pois, na quase totalidade se teve que esperar por muitos anos (às vezes até mais de um século) pela divulgação em nossa língua dessas obras importantíssimas. A obra de Lister Maw já em 1831 era traduzida e publicada a tradução em Liverpool. Tornou-se tão rara quanto a edição original, provavelmente até mais, donde a meritória iniciativa da Associação Comercial do Amazonas de reeditá-la facsimilarmente em belo volume publicado em 1989. 

Eis o que dispomos  – salvo eventuais omissões  – em nossa língua do muito que foi escrito pelos estrangeiros que percorreram a Amazônia.

Em seu livro A Amazônia e a cobiça internacional (Rio de Janeiro, Gráfica Record, 1968), Arthur César Ferreira Reis refere-se a diversos outros viajantes que também escreveram sobre a região amazônica, mas cujos livros não se encontram traduzidos em nossa língua: os ingleses William H. Edwards (A voyage up the River Amazon, including a residence at Pará), Barwington Brown e William Lidestone (Fifteen thousand miles on the Amazon and its tributaires); os franceses A. de Belmar (Voyage aux provinces bresiliennes du Pará et des Amazones en 1860, precedé d'un rapide coup d'oeil sur le litoral du Brésil), Mareei Monier (Des Andes au Pará), Auguste Plane (L' Amazone), Paul WaIle (Au pays de I'or noir) e o norte-americano J. Orton Kerbey (An American Consul in Amazonia). Do francês Belmar, tivemos oportunidade de publicar um excerto nesta mesma revista (nº 85, de 1977), não sobre a Amazônia, mas sobre o Ceará e que foi transcrito na revista do Instituto Histórico cearense.
Mais duas fontes valiosas para viajantes estrangeiros, mas sem os textos, o leitor interessado poderá encontrar nos livros Geociências no Brasil, de Othon Henry Leonardos (Rio de Janeiro, Forum, 1970/73) e História das expedições científicas no Brasil, de Cândido de MeIlo Leitão (volume 209 da coleção "Brasiliana", São Paulo, Editora Nacional, 1941).
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DAS OBRAS TRADUZIDAS
ACUÑA, Cristobal - Novo descobrimento do grande Rio das Amazonas. Trad. de um exemplar espanhol. Rev. do Inst. Hist. Geogr. Brasileiro, tomo 28. Rio de Janeiro, 1865.
------ Novo descobrimento do grande Rio das Amazonas. Trad.de Cândido de Mello Leitão, no volume Descobrimentos do Rio das Amazonas. São Paulo, Editora Nacional, 1941. Col. "Brasiliana", v. 203.
ADALBERTO da Prússia - Brasil: Amazonas/Xingu. Trad. de Eduardo Lima Castro; apresentação e notas de Mário Guimarães Ferri. Belo Horizonte, Itatiaia/São Paulo, Edusp, 1977. Col. "Reconquista do Brasil", v. 34.
AGASSIZ, Luís e Elizabeth Cary - Viagem ao Brasil, 1865-1866. Trad. de Edgard Sussekind de Mendonça. São Paulo, Editora Nacional, 1938. Col. "Brasiliana", v. 95.
------- Viagem ao Brasil, 1865-1866. Trad. de João Etienne Filho; apresentação de Mário Guimarães Ferri. Belo Horizonte, Itatiaia/São Paulo, Edusp, 1975. Col. "Reconquista do Brasil, v. 12.
AVÉ-LALLEMANT, Robert - Viagem pelo norte do Brasil no ano de 1859. Trad. de Eduardo de Lima Castro. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1961.
------- No Rio Amazonas (1859). Trad. de Eduardo de Lima Castro. Belo Horizonte, Itatiaia/São Paulo, Edusp, 1980. Col. "Reconquista do Brasil", nova série, vol. 20.
BATES, Henry Walter - O naturalista no Rio Amazonas. Trad., prefácio e notas de C. de Meio Leitão. São Paulo, Editora Nacional, 19442 vols. Coleção "Brasiliana", v. 237.
BATES, Henry Walter - Um naturalista no rio Amazonas. Trad. de Regina Régis Junqueira; apresentação de Mário Guimarães Ferri. Belo Horizonte, ltatiaia/São Paulo, Edusp, 1979. Col. "Reconquista do Brasil", v. 53.
CARVAJAL, Gaspar de - Descobrimento do rio das Amazonas. No volume Descobrimentos do Rio das Amazonas, de Cândido de Meio Leitão. São Paulo, Editora Nacional, 1941. Col. "Brasiliana", v. 203.
COUDREAU, Henri - Viagem ao Tapajós. Trad. de A. de Miranda Bastos; notas de Raimundo Pereira Brasil. São Paulo, Editora Nacional, 1940. Col. "Brasiliana", v. 208.
 ------- Viagem ao Tapajós. Trad. de Eugênio Amado; apresentação de Mário Guimarães Ferri. Belo Horizonte, ltatiaia/São Paulo, Edusp, 1977. Col. "Reconquista do Brasil", v. 44.
------- Viagem ao Xingu. Trad. de Eugênio Amado; apresentação de Mário Guimarães Ferri. Belo Horizonte, Itatiaia/São Paulo, Edusp, 1977. Col. "Reconquista do Brasil", v. 49.
------- Viagem à Itaboca e ao Itacaiúnas. Trad. de Eugênio Amado; apresentação de Mário Guimarães Ferri. Belo Horizonte, ltatiaia/São Paulo, Edusp, 1980. Col. "Reconquista do Brasil", v. 60.
D'ORBIGNY, Alcide - Viagem pitoresca através do Brasil. Trad. de David Jardim; apresentação de Mário Guimarães Ferri. Belo Horizonte, Itatiaia/São Paulo, Edusp, 1976. Col. "Reconquista do Brasil", v. 29.
HARTT, Charles Frederick - Geologia e Geografia Física do Brasil. Trad. de Edgard Sussekind de Mendonça e Elias Dolianiti; introdução de Roquette Pinto. São Paulo, Editora Nacional, 1941. Col. "Brasiliana", v. 200.
KIDDER, Daniel P. - Reminiscências de viagens e permanência no Brasil: Províncias do Norte. Trad. de Moacir N. Vasconcelos. São Paulo, Martins, 1943. "Biblioteca Histórica Brasileira", v. 12.
------- Reminiscências de viagens e permanência no Brasil: Norte do Brasil. Trad. de Moacir N. Vasconcelos. Belo Horizonte, Itatiaia/São Paulo, Edusp, 1980. Col. "Reconquista do Brasil", v. 16.
LA Condamine, Charles-Marie de - Viagem na América Meridional, descendo o rio das Amazonas. Trad. Cândido Jucá Filho e Basílio de Magalhães; apresentação e notas de Basílio de Magalhães. Rio de Janeiro, Editora Panamericana, 1944. Biblioteca Brasileira de Cultura, v. I.
------- Relato abreviado de uma viagem pelo interior da América Meridional. Trad. Aristides Avila. São Paulo, Cultura, 1944. (Série "Brasílica", v. 8).
------- Viagem pelo Amazonas, 1735-1745. Seleção de textos, introdução e notas de Hélene Minguet; trad. de Maria Helena Franco Martins. Rio de Janeiro, Nova Fronteira/São Paulo, Edusp, 1992.
MAW, Henrique Lister - Narrativa da passagem do Pacífico ao Atlântico através dos Andes nas províncias do norte do Peru e descendo pelo rio Amazonas até ao Pará. Reprodução facsimilar da edição de 1831. Apresentação de J. A. Santo Loureiro. Manaus, Associação Comercial do Amazonas, 1989.
NERY, Barão de Santa Anna - O País das Amazonas. Trad. de Ana Mazur Spira; apresentação de Mário Guimarães Ferri. Belo Horizonte, Itatiaia/São Paulo, Edusp, 1979. Col. "Reconquista do Brasil", v. 43.
RICE, Hamilton - Exploração na Guiana Brasileira. Trad. e notas de Lacyr Schettino; prefácio de Mário Guimarães Ferri. Belo Horizonte, Itatiaia/São Paulo, Edusp, 1978. Col. "Reconquista do Brasil", v. 47.
ROJAS, Alonso - Descobrimento do rio das Amazonas e suas dilatadas províncias, no volume Descobrimentos do rio das Amazonas, de C. de MeIo Leitão. São Paulo, Editora Nacional, 1941. Col. "Brasiliana", v. 203.
SPIX, J. B. von / Martius, C. F. P. von - Viagem pelo Brasil. Trad. de Lúcia Furquim Lahmeyer; revisão e notas de Ramiz Galvão e Basílio de Magalhães. Rio de Janeiro, Instituto Histórico Brasileiro/Imprensa Oficial, 1938.
------- Viagem pelo Brasil, mesmas indicações do anterior. São Paulo, Melhoramentos, 1976. Col. "Memória Brasileira".
WALLACE, Alfred Russel - Viagens pelo Amazonas e Rio Negro. Trad. de Orlando Torres, prefaciada, anotada e revista por Basílio de Magalhães. São Paulo, Editora Nacional, 1939. Col. "Brasiliana", v. 156.
------- Viagens pelos rios Amazonas e Negro. Trad. de Eugênio Amado; apresentação de Mário Guimarães Ferri. Belo Horizonte, Itatiaia/São Paulo, Edusp, 1979. Col. "Reconquista do Brasil, v. 50.


Correção: O livro publicado pela Associação Comercial do Amazonas, destacado em amarelo, teve a apresentação de Joaquim Alberto Souto (e não Santo) Loureiro.

terça-feira, setembro 02, 2014

SOBRE A AMAZÔNIA (1ª PARTE)



Depois de longo inverno, retorno às atividades, esperando manter produtivamente este espaço. Sem delongas, porque as minhas promessas anteriores foram, na verdade, por águas abaixo. Assim, reproduzo (em duas etapas) o texto abaixo, extraído da revista Notícia Bibliográfica e Histórica (nº 182, de julho-setembro de 2001), da PUC/Campinas. Sobre o autor, apenas posso assinalar que o mesmo era então o responsável pelo citado periódico.

ESTRANGEIROS QUE ESCREVERAM SOBRE A AMAZÔNIA
Odilon Nogueira de Matos
Arthur Cezar Ferreira Reis
Dentre os numerosos livros deixados pelo historiador amazonense Arthur César Ferreira Reis (1906-1993) destaca-se Paulistas na Amazônia e outros ensaios, incluído originalmente no volume 175 da "Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro" e pouco depois tirado em separata pela Imprensa Nacional (1941). Datando já de mais de meio século, é hoje obra bastante rara. Entre os "outros ensaios" que figuram no volume, dois merecem a nosso ver, especial destaque (sem desdém para os demais, é claro) por versarem assunto que ultimamente vem sendo deveras considerado na bibliografia histórica brasileira.
O primeiro é sobre "La Condamine na Amazônia" e o segundo intitula-se "Naturalistas na Amazônia colonial". Charles Marie de La Condamine (1701-1774) é das figuras mais expressivas da história da ciência. Enviado à América do Sul, juntamente com outros cientistas, pela Academia das Ciências de Paris, com a incumbência de medir o arco do meridiano na região equatorial, a fim de confirmar ou não o que a ciência da época dizia acerca da configuração da terra, trabalhou intensamente no Peru e no Equador.
Cumprida sua missão, decidiu-se a voltar à Europa pelo Amazonas, "qui passe avec raison pour Ia plus grande revière du monde". Era o "sabor do inédito", comenta Arthur Reis. E acrescenta: "A peregrinação pela selva equatorial, de onde vinha tanto mistério, sobre que se afirmava tanta curiosidade, traria motivos mais interessantes que a Europa, toda interessada no exotismo desses pedaços que estavam sendo revelados, de certo apreciaria".
Tomando contato com a terra e o homem das Américas (espanhola e portuguesa), La Condamine soube senti-los e compreendê-los. Tenhamos em conta, antes de tudo, o quanto a política, tanto de Portugal como da Espanha, era rigorosa para com os estrangeiros. Portugal mais ainda que a Espanha, como prova o incidente ocorrido com "um tal barão de Humboldt", que foi preso por ordem do governo do Maranhão, depois de ter andado à vontade por terras da América Espanhola.
Entretanto, com La Condamine, a coisa foi diferente. Teve a "entrada larga, folgada, cercada de garantias, de franquias quase escandalosas", ainda na observação do historiador amazonense. Em troca, La Condamine portou-se dignamente. "O que viu de mau descreveu sem rigores berrantes; o que lhe pareceu bom, mereceu-lhe o registro cheio de simpatia."
No que toca a explorações geográficas, procurou retificar os enganos de Samuel Fritz, que, a serviço de Espanha, traçou, no começo do século XVII, o primeiro mapa do grande rio. Visitou as missões dos carmelitas, que lhe pareceram superior às do Peru. Anotou o uso pelos cambebas de artefatos de borracha. Não foi, na realidade, o primeiro a referir-se ao cautchu. Antes dele, frei Manuel da Esperança já o fizera. Mas La Condamine divulgou a borracha na Europa, dando renome e fama ao produto que marcaria por mais de um século o panorama econômico da região.
No documento em que se pedia licença para que La Condamine e seus companheiros viajassem pelo Amazonas, determinou o rei de Portugal não só que se desse a solicitada licença, como ainda que ela fosse complementada "com todo o auxílio e favor de que necessitem para a dita viagem", e que em qualquer lugar aonde chegassem os ilustres acadêmicos "fossem tratados com atenção"... Realmente, são ventos novos que estavam a soprar pelo Brasil. Mas, lamenta-se que a ocorrência não se tenha generalizado, pois em outras regiões do País o comportamento das autoridades foi bem diverso.
Ficou feliz La Condamine quando, em Belém do Pará, lhe deram como alojamento "maison commode et richement meublée", com jardim donde se avistava o mar, portanto lugar ideal para as suas observações. Notou um eclipse, o primeiro na região observado cientificamente. Mas apavorou-se com a epidemia da varíola que grassava no Pará. Registra que a vacinação utilizada pelos carmelitas no começo do século com grande êxito já não estava sendo empregada como devia, o que era deveras lamentável, dada a eficácia do resultado do tratamento.
Na Europa, La Condamine diria coisas amáveis a nosso respeito, apesar de lamentar a "velha, ruidosa e desagradável contenda" que o Brasil vinha sustentando com os espanhóis a propósito das fronteiras.
Sua Relation abrégée d'un voyage fait dans I'intérieur de I'Amérique méridionale, publicada em 1778, causou sensação. "A Amazônia - conclui Arthur César Ferreira Reis - lhe tinha parecido um deslumbramento pelo pitoresco, pelo inédito de sua esplendorosa natureza, pela bondade de seus naturais. (...) Em sua obra, riscou um panorama exato, cheio de vida, de interesse, da selva amazônica, de sua gente, de sua natureza robusta, de seus multiformes aspectos. Abrindo caminho à multidão de naturalistas de toda espécie..."
Registre-se que a obra de La Condamine mereceu três traduções no Brasil, duas no ano de 1944: a de Cândido Jucá Filho e Basílio de Magalhães (Editora Epasa) e a de Aristides Ávila (Edições Cultura); e muitos depois (1992) a de Maria Helena Franco Martins (Nova Fronteira/ Edusp).
Da viagem do cientista francês resultou praticamente o descobrimento do norte do Brasil à ciência universal, nas mais diversas áreas: botânica, zoologia, geologia, geografia, antropologia, etnografia, que todas elas foram durante os séculos XIX e XX objeto de investigações da mais variada procedência por parte de naturalistas alemães, ingleses, norte-americanos, franceses, italianos, espanhóis, todos deixando obras importantíssimas para o conhecimento da região. "Abrindo caminho à multidão de naturalistas de toda espécie", para repetir mais uma vez a frase de Arthur Reis.
E isso, sem contar a valiosa e nunca assaz louvada obra de reconhecimento geográfico e levantamento cartográfico, como decorrência inevitável dos tratados de limites do século XVIII, com os quais - poder-se-á dizer - a Amazônia entrou para a História.
Realmente, o século XIX vê a abertura do Amazonas ao comércio internacional e, com os comerciantes, vêm naturalistas de toda espécie. Muitos deles andaram antes pelo Rio de Janeiro e Minas Gerais, prolongando suas jornadas até ao norte do país. Mas, muitos outros não se interessaram pelo sul e sudeste, concentrando seus objetivos no vale amazônico. As obras de uns e outros, em boa parte encontram-se traduzidas, razão pela qual esta nota vai ater-se a esses autores que já podem ser lidos em nossa língua, dando assim a ela um cunho prático, pois as edições originais desses autores são raríssimas, cotadas, quando aparecem, por preços fabulosos nos grandes alfarrabistas internacionais.
À primeira categoria - os que visitaram primeiramente o Brasil de sudeste e depois prolongaram suas viagens à Amazônia - pertencem Spix e Martius, Agassiz, Avé-Lallement, Kidder, Alberto da Prússia e Hartt. Entre os que estiveram apenas na Amazônia: Bates, Coudreau, Wallace, Maw, d'Orbigny, Rice, Carvajal, Rojas e Acuña.
Estes três últimos pertencem à fase que chamaríamos de "pré-lacondamínica". Foram companheiros dos primeiros exploradores do rio-mar, ainda no século XVII, estando um deles vinculado à famosa expedição de Pedro Teixeira, que, naquela centúria desceu o grande rio quase que das nascentes à foz. Seus relatos de viagem encontram-se publicados num só volume, organizado por Cândido de Meio Leitão, que o intitulou Descobrimentos do Rio das Amazonas, publicado na importante coleção "Brasiliana", da Companhia Editora Nacional, em 1941, infelizmente nunca reeditado, embora alguns desses relatos merecessem publicação avulsa.
Duas importantes coleções de estudos brasileiros – a já citada "Brasiliana", da Companhia Editora Nacional, de São Paulo, e a "Reconquista do Brasil", da Editora Itatiaia, de Belo Horizonte - infelizmente nenhuma delas mais existente – dedicaram-se com o maior interesse à publicação de obras de viajantes estrangeiros que andaram pelo Brasil desde o século XVI até o início do século XX.
Na "Brasiliana" figuram as obras de suiço-americano Agassiz, dos ingleses Bates e Wallace, do francês Coudreau e do americano Hartt. Agassiz (1807-1873), embora tenha incorrido em afirmações não confirmadas pela ciência moderna no que se refere a problemas de glaciação, em nada teve abalado seu prestígio, dadas as inúmeras outras coisas valiosas que seu livro encerra. Fez sua viagem em 1865/66, acompanhado da esposa, Elizabeth Cary Agassiz, na realidade a autora do relato da viagem, cabendo ao marido as observações científicas. Livro, portanto, "a quatro mãos"...

Henry Walter Bates (1825-1892) viajou pela Amazônia durante onze anos, publicando em Londres, em 1863, seu The Naturalist on the River Amazon, que alcançou numerosos edições na Inglaterra, mas que só foi traduzido para a nossa língua em 1944.
Charles Frederick Hartt (1840-1878), depois de viajar longamente pelo país, fixou-se no Rio de Janeiro, onde veio a falecer. Foi o organizador da Imperial Comissão Geológica, entidade que, passando por inúmeras reformas estruturais e administrativas, ainda existe, com assinalada folha de serviços à ciência. Sua Geologia e Geografia Física do Brasil, publicada em Boston, em 1870, só foi posta ao nosso alcance em 1941.
Alfred Russel Wallace (1823-1913) foi um dos criadores (ao mesmo tempo que Darwin) do princípio da seleção natural e do evolucionismo. Sua obra, A narrative of travels on the Amazon and Rio Negro, with an account of the native tribes and observations on the climate, geology and natural history of the Amazon valley, foi publicada em Londres em 1889, e só apareceu em nossa língua em 1939 (Col. "Brasiliana", v. 156).
Quanto ao francês Henri Coudreau (1859-1899), que viajou em companhia de sua esposa, também cientista, e que encontrou a morte numa excursão ao norte do Pará, teve sua obra continuada pela viúva, que permaneceu ainda alguns anos no Brasil. Um dos livros de Coudreau, a Viagem ao Tapajós, de 1897, encontra-se na "Brasiliana", em edição de 1940.
Muitos dos livros aqui mencionados, divulgados primeiramente na coleção "Brasiliana'', foram editados também pela Itatiaia, na igualmente preciosa série "Reconquista do Brasil", às vezes em traduções novas, outras vezes aproveitando as traduções já existentes. Assim aconteceu com as obras já citadas de Agassiz, Bates, Wallace e Coudreau, sendo que, deste autor divulgou a Itatiaia mais dois títulos: a Viagem ao Xingu e a Viagem à ltaboca e ao ltacaiúnas. (segue)

domingo, junho 01, 2014

FUNDAÇÃO DE MANAUS


Ouvindo orientação do escritor e poeta Rogel Samuel sobre o novo livro de Robério Braga, Manáos... Manaos.. Manaus (Valer, 2013, R$ 35,00 na livraria Saraiva) e para atender a solicitação da Isabelle Valois, publico uma página do mesmo.


O COMEÇO DE MANAUS


Tenho ouvido muitas pessoas pedirem respostas claras a respeito do surgimento do lugar, da razão do nome de Manaus e sua grafia mais antiga, certamente porque os livros e as escolas pouco tratam da história da cidade e, quando tratam, padecem de bibliografia séria a respeito, muito embora já se tenha publicado bastante, especialmente nos últimos anos.


De forma mais simples pode-se afirmar que Manaus nasceu em 1669, quando começou o núcleo urbano em derredor do Forte de São José da Barra do Rio Negro, com a capela oferecida a Jesus, Maria e José, construído de forma simples, na beira do rio Negro, a três léguas acima do encontro das águas que se transformou em cartão-postal, nas cercanias de onde se encontra o antigo prédio do Tesouro do Estado, na região portuária.


Ali se reuniram famílias de posses, paisanas, urequenas, manáos, júris, que foram os primeiros habitantes da região militar a que os carmelitas, pouco depois se uniram com a bênção de Nossa Senhora da Conceição que depois se tomou padroeira. Por aqueles anos era apenas o Lugar da Barra, reunindo um pequeno grupo de portugueses, militares autoridades e poucos índios agrupados pelos missionários.


Na evolução histórica foi se transformando, paulatinamente, em Aldeia de São José da Barra, Lugar da Barra do Rio Negro até chegar a ser chamada de Vila de Manáos. Cidade da Barra do Rio Negro e Cidade de Manáos no largo período de 1669 a 1856, indo e vindo com estes nomes por diversos processos políticos, governos, intervenções, juntas governativas, com ou sem o próprio senado da câmara como era designado o grupo de legisladores locais naqueles anos.


O ouvidor Sampaio que por aqui passou em 1774, considerou que o lugar tinha todos os requisitos para a 'cômoda, útil e estável' fundação da capital, principalmente por ser o centro de três rios principais da capitania: Madeira, Negro e Solimões. Era mais próximo ao Pará, abundante em pesca, com terras qualificadas para a produção e pedras suficientes para obras. Poucos anos depois, em 1786, quando Alexandre Rodrigues Ferreira passou em suas pesquisas, já se dividia em dois bairros, entre os igarapés da tapera dos Maués e da Tapera dos Manáos. Começou a crescer e a ser ordenada como capital da região com Lobo d' Almada que retirou a capital de Barcelos.


Desde 1791 o Lugar da Barra vinha sendo considerado a capital do Rio Negro, mas recebeu o nome de Manáos pela primeira vez em 1832, com o Código Criminal do Império, quando foi elevada à categoria de Vila e cabeça de Comarca, constituindo a sua própria câmara de vereadores, passando a ter juiz e pelourinho, juiz de órgãos e promotor de justiça, sendo criada a Comarca do Alto Amazonas, elementos que davam um novo foro à localidade.


Em 24 de outubro de 1848, pela lei 145, a então Vila de Manáos, como se escrevia e se escreveu durante anos e anos, foi elevada à categoria de cidade, mas foi restabelecido o nome de Cidade da Barra do Rio Negro que só foi modificado para Cidade de Manáos em 1856, permanecendo com esta grafia - Manáos –, oficialmente, até o ano de 1937, quando Álvaro Maia publicou o primeiro decreto governamental grafando de maneira diversa (Manaus), mas o Diário Oficial do Estado só incorporou esta nova forma em 14 de julho de 1939.

A velha forma de escrever o nome da cidade ainda permaneceu sendo usada em vários documentos comerciais entre eles a lista de telefones. Para harmonizar a grafia ainda se passaram alguns anos, certamente porque tem razão o ditado popular de que o hábito do cachimbo torna na boca torta, ou porque foram muitas as formas como era escrita, anos seguidos: Manou. Manau, Manao, Manaó, o que corresponderia, seguindo alguns estudiosos, a Manaha, Maneve, Macnal. Manouh, Manouâ, até chegarem a Manáos, que perdurou por longos anos e foi a maneira mais aceita antes da composição atual.


Eis aí dicas para que se conheça melhor o começo de Manaus, e as idas e vindas do poder e do seu próprio nome.