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segunda-feira, outubro 05, 2026

MEUS OITENTANOS (20)

             FASCÍCULO 20

1980


Entre fevereiro e março, prestei vestibular na Federal do Amazonas para o curso de Pedagogia, sendo aprovado. Como de praxe, aproveitei os créditos da Faculdade de Direito, cujo curso concluí naquele ano; acrescentei os resultados do Curso de Técnica de Ensino. A faculdade funcionava em uma edificação antiga na rua Tapajós com rua Monsenhor Coutinho, próxima à igreja de São Sebastião, ou seja, no centro de Manaus. A turma era formada, em sua maioria, por professoras estaduais que buscavam a graduação para incrementar o salário. Havia poucas jovens em busca da primeira graduação; tornei-me um caso à parte naquele grupo, conhecida minha atividade policial. Fui conciliando as atividades escolares — conclusão do Direito e início da Pedagogia — com dificuldades, entre as quais a necessidade de frequentar as aulas e cumprir o horário do quartel; além disso, para não assistir às aulas fardado, adotei um disfarce: calça do quartel e camisa polo. Em resumo: permaneci naquela escola até 1983, quando fui servir na Casa Militar do governador Mestrinho. Na ocasião, ainda compelido ao exercício de estágios curriculares, percebi que não me adequaria à escola pública. Abandonei o curso de Pedagogia.

Equipe de oficiais do Corpo de Bombeiros,
multiuso nos esportes; autor (1º à esq. em pé)

Seguia servindo no Corpo de Bombeiros, em Petrópolis, mas seguindo o trâmite do processo na Auditoria, estabelecida no quartel da Praça da Polícia. Era comandante da corporação o coronel Ribeiro Raizer, evangélico convicto, cumpridor dos preceitos religiosos. Assim sendo, estimulou os policiais a iniciarem uma célula religiosa no quartel, uma espécie de capelania. Certa ocasião, respondia eu pelo Corpo de Bombeiros, quando fui “convidado” a acompanhar um culto religioso, encomendado pelo coronel comandante, para agradecer a Deus pela saúde de um bombeiro ferido gravemente em um incêndio. O ofício religioso aconteceu no final da tarde de um domingo; o dia e a hora impuseram-me cautelas com os etílicos. Ao final do culto, uma ação me satisfez: o oficiante dirigiu-se à porta do templo, onde se despediu de cada um dos presentes.

No começo de abril, fui convocado para depor como testemunha; isso constituiu o primeiro passo. Duas semanas depois, a denúncia tornou-se pública e, desse modo, tornei-me réu, impossibilitado de concorrer à promoção e a outros direitos. Antes de findar o mês de abril, dia 25, soube da convocação do Conselho Especial de Justiça que me julgou, presidido pelo coronel Câmara. Dos quatro membros, dois pertenciam à minha turma; com o terceiro troquei uma conversa de “pé de ouvido”; restava o presidente, contra o qual decidi reagir. Redigi um texto relatando fatos nocivos a seu respeito e, ao final, sugeri a suspeita de homossexualismo. No comando do CB seguia o coronel Okada, a quem eu via como um guru, e levei o texto para sua avaliação. Ele leu até a metade e então, com seu sotaque nipônico, me advertiu: “Rasga essa porra, assim você vai ser preso de novo”. Demorei uma temporada para destruir a sandice no papel, mas nunca a tornei pública.

Manaus toda se enfeitou para ver o Papa João Paulo II passar, parodiando a canção de Chico Buarque. Era julho e o calor estava apenas começando. Os bombeiros foram empenhados, como toda a Polícia Militar, mas, como eu não tinha qualquer obrigação em especial, estive livre para ver Sua Santidade. Acabei menosprezando as ocasiões, como assistir à missa na Catedral ou permanecer nas proximidades da Cúria Metropolitana, na avenida Joaquim Nabuco, onde o Papa ficou hospedado. Somente acompanhei, ao lado da cidade inteira, a Missa Campal na Bola da Suframa, denominação que, a partir dessa celebração, virou a Praça do Papa. Lembro bem a despedida prestada ao Papa no aeroporto: suando às bicas, ele abençoou Manaus e se referiu ao fenômeno solar próprio da Amazônia.

Diploma da Faculdade de Direito

O ano chegou ao fim com um salutar compromisso: receber o Diploma da Faculdade de Direito, ainda que cercado pelos impasses recolhidos pelos anos, cujo principal era o processo que se avolumou na Auditoria Militar, cujo julgamento sucedeu no ano imediato. A vida sentimental, após a separação da esposa, tornou-se um vendaval, tanto que colhia um temporal em cada porta. Meus pais e irmãos seguiam na residência do Tiradentes, mas já pensando em mudar-se, “a fim de desocupar a casa” e permitir meu conforto. Então, vesti o paletó costumeiro e dirigi-me ao local da formatura, sem ter convidado qualquer um da minha relação. No trajeto, parei para tomar um lanche. Era noite e fiquei, enquanto degustava o lanche, refletindo sobre alguns fatos nem um pouco animadores: perdi o entusiasmo pela conclusão da faculdade, havia perdido o objetivo, ao concluir por onde os demais estavam iniciando; ao encerrar o curso onze anos após a marca inicial, ao ingressar na “Jaqueira”, em 1969. Não sei se foi a merenda que me azedou ou se foi a sequência de minhas posturas desconexas; certo foi que não compareci à formatura, presumindo que, no dia seguinte, chegaria à faculdade e, graciosamente, receberia o diploma. Ao saber da obrigação de requerer esse benefício e se adornar para uma cerimônia restrita, adiei o desfecho, que somente ocorreu em 1985, quando nomeei o coronel Eber Bessa (obrigado, colega!) para me representar no ato. 

Hoje, o diploma serve exclusivamente para adornar o escritório doméstico.