CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quinta-feira, maio 06, 2021

SESQUICENTENÁRIO E OUTRAS DATAS

A postagem traz significativas efemérides da história amazonense, que se celebram no corrente mês.

150 Anos

Dom Basilio
Pereira

Dia 27 – Nasce em Vila Velha do Rio das Contas (atual Rio de Contas), na província da Bahia, frei Basílio Manuel Olímpio Pereira (OFM), que foi o quarto bispo do Amazonas (1925-41). Faleceu em Salvador em 30 de setembro de 1948.

140 Anos

Dia 14 – Elevada à categoria de Freguesia a Vila de Nossa Senhora de Nazaré de Lábrea, consoante a lei 523, sancionada pelo presidente da província Sátiro de Oliveira Dias. Atual município de Lábrea, com sede na calha do rio Purus. Sua protetora é Nossa Senhora de Nazaré, cuja igreja catedral, fruto do trabalho do padre Francisco Leite Barbosa, foi benta em 5 de setembro de 1911.

90 Anos

Dia 18 – Falece em Manaus, o bacharel Francisco Pedro de Araújo Filho, estando sepultado no cemitério de São João Batista. Seus filhos, ainda nascidos em Goiana (PE), se relevaram no Estado: André e Ruy Araújo.

50 Anos

Dia 3 – À noite, após a apresentação da película Comandos, e de menos de 300 pessoas na plateia, onde cabiam mais de mil, o cine Vitória encerrava suas atividades, exercidas desde 1954. Nascido e morador nas proximidades desta casa de diversão, assisti à construção do imenso prédio. Devido à amizade com os filhos do gerente do cinema, pude assistir grande número de sessões passando pela passagem “secreta”, que ligava a residência do gerente ao salão de espetáculos.

Desembargador
Francisco Oliveira

Dia 12 – Aos 43 anos de idade, toma posse no cargo de desembargador Luís Francisco de Oliveira Cabral. Nascido em Manaus em 20 de abril de 1928, graduou-se em Direito pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais de Manaus. Presidiu o Tribunal de Justiça em 1974, quando teve oportunidade de assumir provisoriamente o governo do Estado. Foi aposentado em junho de 1980.

40 Anos

Dia 13 – Toma posse no IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas), na poltrona 06, cujo patrono é Alfredo da Matta, o consócio Humberto Figliuolo (1948-).

20 Anos

Dia 6 - Inauguração do Teatro da Instalação, construído em prédio centenário na esquina das ruas da Instalação (daí seu nome) e frei José dos Inocentes.  Mais recentemente (2001), o governador Amazonino Mendes nele instalou o Instituto Superior de Estudos Amazônicos (ISEA), que lamentavelmente não prosperou.  O teatro foi inaugurado por ocasião da V Festival de Óperas do Amazonas, com a peça Três Vinténs.

terça-feira, outubro 10, 2017

RODOVIA PURUS-MADEIRA (2)

Agnello Bittencourt
Em prosseguimento com a exposição de Agnello Bittencourt sobre a ligação entre os rios Purus e Madeira. O texto foi sacado do Boletim da ACA, referente a fevereiro de 1953.

RODOVIA PURUS-MADEIRA

Na conferência que fez, em 1888, na antiga Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, hoje Sociedade Brasileira de Geografia, conta-nos o coronel Labre particularidades dessa excursão, concluindo pela possibilidade de uma rodovia aproveitável, sobretudo no transporte do gado boliviano, tão abundante, a ponto de custar, ali, a esse tempo, uma rês apenas Cr$ 10,00! (Revista da Sociedade Brasileira de Geografia do Rio de Janeiro", tomo IV, 2° Boletim, p.102, 1888).

As informações do coronel Labre são omissas quanto às características das chapadas e dos rios que atravessou. Certo, não poderia passar 40 dias sem água, no meio de campinas infindáveis. Também não nos fala da estrutura dos terrenos que palmilhou, nem das espécies de gramíneas que revestem aquele solo. Talvez tudo isso se encontre no seu Diário, até hoje desconhecido.

Mas, para tirar uma prova da qualidade das pastagens dos campos do Pussiari (nome de um afluente do ltuxi, que banha esses campos), fundou a 60 quilômetros de Lábrea uma fazenda de criação de gado vacum, entregando-a a um civilizado, auxiliado por alguns índios. O estabelecimento prosperava, quando, um dia, surgiu uma desinteligência e luta corporal entre o encarregado e um dos trabalhadores, resultando na morte de ambos. Diz o coronel Labre que não mais encontrou ninguém que quisesse tomar conta da fazenda. Daí, o fracasso completo da tentativa.

Entretanto, não desanimou o coronel Labre. Como deputado à Assembleia Legislativa amazonense, obteve a sanção de uma lei autorizando o gasto de Cr$ 25.000,00 com a abertura da estrada Lábrea-Beni, no que teve grande oposição dos seus próprios correligionários, oposição vencida pela boa vontade do presidente da Província, José Lustosa da Cunha Paranaguá.

Fora contratado, como técnico do traçado geodésico, o engenheiro Alexandre Haag, e fixado o ponto de partida da abertura da estrada, em Lábrea, onde o pioneiro da ideia foi arregimentar mateiros e animais de carga.

Ao chegar àquele sítio o navio em que devia viajar dito engenheiro, tudo estando pronto para a marcha, qual a decepção do deputado Labre ao saber que o Governo ordenara fosse começada do Beni à Lábrea, e não como ficara assentado. Essa resolução causou um profundo desgosto ao intrépido maranhense.

O engenheiro Haag foi ao Madeira para dar início ao serviço da abertura da picada. Em consequência, porém, da falta de pessoal, logo após ter penetrado alguns quilômetros na floresta, regressou. Um fracasso, para o Governo, e um prejuízo material para o coronel Labre, que, daí por diante, não mais confiou na ação dos Poderes Públicos. (A. R. P. Labre, Itinerário de Exploração do Amazonas à Bolívia, 1887, p.31).

O interesse de uma ligação terrestre do Purus ao Madeira e o empenho tenaz e ininterrupto do fundador de Lábrea, impressionaram o espírito de José Francisco Monteiro, criador e prefeito de Humaitá. Corria a segunda metade do ano de 1894. Abriu-se um novo capítulo na história dessa tentativa, do qual tivemos conhecimento através de uma recente publicação de Álvaro Maia. (Jornal do Comércio, de Manaus, de 16.03.1952).

Dormia, ignoradamente, no Arquivo da Prefeitura Municipal de Humaitá, o Relatório de uma expedição mandada organizar, naquele ano, pelo prefeito Francisco Monteiro, da qual foi encarregado Joaquim Sabino Gonçalves. Agitava-se, assim, ainda uma vez, a sonhada ligação. O expedicionário se lança na floresta, com 16 pioneiros, que, no fim da jornada, "tinham aspecto de cadáveres, torturados pela fome, castigados cruelmente pelas febres palustres" (Relatório), tendo partido de Humaitá a 3 de setembro e chegado a Lábrea a 20 de outubro de 1894.

A expedição deveria regressar pelo mesmo caminho, segundo ordem recebida do executivo humaitaense, mas impossível isso se tornou devido ao estropiamento dos seus membros, pois, em marcha batida, quase sem alimentos, atravessando igapós, alagadiços, rios, campos e florestas compactas, ficaram demasiadamente combalidos.
Regressaram pelo Purus, Solimões e Madeira. Que resultou de tantos sacrifícios? O Relatório de Joaquim Sabino Gonçalves é precioso, sobretudo neste momento em que vem à baila o assunto, numa expectativa de realização. Concitamos o governador Álvaro Maia a mandar publicá-lo, sem demora, na íntegra.


Quando, em 1903, o Acre prendia a atenção nacional, não somente pela quantidade e pela valorização da borracha que exportava, como pela revolução encabeçada por Plácido de Castro, o senhor Heliodoro Jaramilho, que vivia em Manaus há alguns anos, tomou a si reanimar o problema de ligar, por meio de uma estrada de ferro, o baixo Purus ao Acre a partir de um ponto acima de Lábrea até Caquetá, com prolongamento para o Rio Abunã, empório de comércio com a Bolívia (Conferência realizada no Clube de Engenharia sobre o Projeto de estrada de ferro ligando o Brasil à Bolívia, via Purus-Acre. Acompanhada de um mapa — Rio de Janeiro, 1903). 

(a terceira e última parte será postada amanhã, 11 outubro)

segunda-feira, setembro 18, 2017

LÁBREA (AM)


Igreja de Lábrea (AM)
Esta postagem saquei do extinto O Jornal (18 de abril de 1982), cuja edição dominical circulava com páginas fartamente literárias.   


À Margem de um Livro

Padre Nonato Pinheiro
(da Academia Amazonense de Letras)

Li o livro LÁBREA, de autoria do Irmão Sebastião A. Ferrarini, religioso marista, membro de uma congregação fundada pelo padre Marcelino Champagnat, em 1817. O autor versa sobre a cidade e município de Lábrea, sua situação geográfica, a exploração do rio Purus, dados históricos, homens ilustres, aspectos econômicos e recursos regionais, fauna, avifauna, ictiofauna, flora, meios de comunicação, aspecto sanitário, a presença da Igreja e da Congregação Marista. Um volume corográfico.

O próprio autor, em sua introdução, ressaltou a escassez das fontes e de tempo, circunstâncias que prejudicou a obra, que é comemorativa do centenário de Lábrea, ocorrido em 1981.

Sebastião Ferrarini

Pesquisando há 40 anos, desde 1942, quatro anos antes de minha ordenação sacerdotal (1946), sobre a presença da Igreja Católica no Amazonas, até hoje não divulguei o produto de tão jongas e pertinentes rebuscas. Uma publicação histórica envolve muita seriedade porque a história se escreve com documentos, que exigem detido exame e cotejo no que concerne à autenticidade dos mesmos, às datas etc.

A obra do Irmão Sebastião é muito interessante, mas numa segunda edição mereceria alguns melhoramentos, como mais nítidos enfoques. Algumas figuras estavam a exigir melhor relevo, com tintas mais vivas e brilhantes. Na parte concernente à fauna e a flora, a obra se valorizaria com a ilustração dos nomes científicos, como fez o autor com a castanheira (bertholletia excelsa) e a sorveira (sorbus domestica), esquecendo-se da denominação científica da seringueira (hevea brasiliensis).

Permito-me fazer ligeiras considerações sobre a presença da Igreja em Lábrea. Escreve o autor: "A assistência pastoral organizada no Purus só acontece quando D. Macedo Costa cria a Paróquia a 6 de setembro de 1878." Lamento que o autor tenha omitido a presença do referido bispo do Pará em Lábrea para instalar a Paróquia e fazer a Visita Pastoral. O arcebispo Dom Antônio de Almeida Lustosa informa em sua notável obra Dom Macedo Costa: "A 5 de junho (1878) Dom Antônio segue para Manaus; em outubro faz a Visita Pastoral às povoações do rio Purus. Regressa em novembro." (p. 375).

O autor deu o devido relevo ao longo paroquiato do sacerdote cearense padre Francisco Leite Barbosa, distinguido com o título de monsenhor. Ele bem o mereceu. 

Entretanto, teria gostado que o Irmão Sebastião ressaltasse a figura do terceiro vigário de Lábrea, padre Manuel Monteiro Silva, amazonense nativo do município de Lábrea, no lugar Carmo. Padre Monteiro foi vigário de sua paróquia natal de 1912 a 1921, quando passou o governo da mesma ao italiano padre José Tito.

Monsenhor Manuel Monteiro da Silva foi o mais ilustre filho de Lábrea. Em Manaus, foi catedrático de Latim (defendeu tese) do antigo Ginásio Amazonense Pedro II; duas vezes vigário-capitular da Diocese; Vigário-Geral da Arquidiocese; deputado estadual; presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas, tendo assumido o governo do Estado em 1936, na ausência do governador Álvaro Maia.

Quando ele foi distinguido pela Santa Sé com o título de monsenhor, o autor destas linhas, então Chanceler do Bispado, organizou uma solenidade de homenagem ao novo Camareiro de Sua Santidade o Papa Pio XII (doze). Saudou-o o eloquente salesiano padre Estélio D’Alison. Dom José Alvarez Mácua, bispo prelado de Lábrea, compareceu e usou da palavra, dirigindo-se ao homenageado como "o mais ilustre filho de sua Prelazia."

Irmão Sebastião informa que o padre Francisco Leite Barbosa foi ordenado a 13 de junho de 1876 (p.158). Dom José Alvarez Mácua diz o mesmo em sua obra Efemérides da Prelazia de Lábrea, à p.17. Dom Alberto Ramos, em sua Cronologia Eclesiástica da Amazônia concorda com o dia e o ano, mas dá o mês de fevereiro (e não o de junho) como o da ordenação: "1876 — 13 de fevereiro - Dom Antônio ordena os padres Antônio Nicolau Tolentino, Antônio Valente Flexa, Antônio da Silveira Franca, Domiciano Perdigão Cardoso e Francisco Leite Barbosa (p.50).

Recorte do periódico

A figura de monsenhor Inácio Martins ficou nítida no aspecto missionário, mas um tanto esmaecida no plano intelectual. Foi um primoroso homem de letras, poeta inspirado e orador de grandes remígios. Também gostaria de ver bem colorida a imagem de Dom José em tão longo ministério pastoral e a parte saliente que teve na ida dos Irmãos Maristas para sua Prelazia (Carta Pastoral de Despedida, p.8).


Que me perdoe o ilustre Irmão Sebastião A. Ferrarini! Estas notas foram sugeridas pela seriedade de sua obra, publicada sob os auspícios do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Com algumas restrições, considero a obra digna de leitura e apreço.