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terça-feira, julho 28, 2026

AVENIDA EDUARDO RIBEIRO (1)

 Para o melhor entendimento, esclareço que o saudoso jornalista Ulisses Azevedo escreveu este texto em 1979, recordando seu tempo de jovem “de 30 anos atrás”. Desse modo, relembrou a situação na virada dos anos 1940. Azevedo tomou a avenida Eduardo Ribeiro como amostra, dissecando as diversas atividades e personalidades que por ali passaram. Lembro-me dela dos anos 1960, quando disponha somente parte do registrado pelo autor, cujo artigo foi publicado em A Crítica (19 de abril de 1979).

Consagrada foto do cruzamentos da Sete com a
Eduardo Ribeiro, início do sec. XX

Recorte de A Crítica, 19 abril 1979

A Avenida Eduardo Ribeiro, ou simplesmente a Avenida, de 30 anos atrás, tinha um         perímetro privilegiado, da esquina da Sete de Setembro até a Saldanha Marinho, um pouco mais além, em frente ao “Jornal do Comércio”. Até no Carnaval era assim, o movimento se concentrava naqueles dois quarteirões. A Avenida dos bares com mesas nas calçadas, dos paralelepípedos, dos bondes de Saudade e Circular, daqueles postes de ferro, ornamentais, bem no meio dos cruzamentos, com os lampiões a carvão, dos bate-papos que invadiam as madrugadas. Banco, na Avenida, somente lá na praça do Congresso, que já tinha esse apelido, embora se chame Praça Antonio Bittencourt. De todas as artérias de Manaus a Avenida é a única que tem limites, no começo e no fim, como quem diz, daqui pra lá ninguém passa. No início, o cais do porto, na época pertencente a Manáos Harbour Limited; lá em cima o Instituto de Educação, construído pelo interventor Álvaro Maia, onde o Eduardo Ribeiro ia fazer o Palácio do Governo deixando no segundo pavimento, que foi dinamitado ou coisa parecida pelo Ramalho Júnior, sabe Deus por quê.

Um passeio pela Avenida de 30 Anos atrás é tarefa difícil. Conheci cada pedaço de calçada, cada paralelepípedo, cada mesa ou cadeira de bar. A memória falha um pouco, a tentativa, porém, é válida quando as recordações nos obrigam a um retrocesso no tempo, e as saudades nos mergulham em coisas boas de um passado que, até certo ponto, foi risonho e feliz.

A parte de baixo da Avenida pouca coisa tinha a mostrar. No centro, o passeio ou abrigo para pedestres, com o Abrigo Pensador, o velho Relógio Municipal, o posto de gasolina do Juvenal Leite e um outro posto quase no cruzamento com a Sete. De um lado o Jardim da Matriz, muito diferente do atual, sem aquelas “casas” e garagens. Um jardim abandonado. Do outro lado, lá na esquina da Marques de Santa Cruz, “A Cosmopolita”, bar do Leite; a Alfandega velha, onde hoje é o edifício da Receita Federal; o resto era os “fundos” de alguma coisa: dos Snapp, da firma J. Rufino, da Eletro Ferro. Passado o cruzamento da Teodoreto Souto, esquina dos Correios, o panorama não mudava, sempre os “fundos”, pois a frente principal ficava na Marechal Deodoro: firma Solon Benemond, Antonio M. Henriques, armazéns da firma J. G. (se cortou até borracha na Avenida), na esquina com a Quintino Bocaiúva a Alfaiataria Poli, do velho Akel, onde o Josias era contramestre. Dali em diante começava a melhorar. Na esquina a Tipografia Reis, do amigo Ivo Reis (antes fora o laboratório Studart, fabricante do famoso Leite de Colônia; para quem não sabe, o Leite de Colónia, hoje internacional, começou naquela esquina, fórmula do velho Carlos Studart, que os filhos levaram para industrializar no Sul). Depois da tipografia vinha a Perfumaria Jelly e uma outra casa comercial. Na esquina da Sete já estava a Lobrás, embora no velho prédio que fora da firma Adrião Barroco.

Cartão Postal da avenida, 1909

Atravessando a Sete, começava propriamente a Avenida, o grande movimento. Do lado esquerdo o bar Americano, com restaurante e reservados, onde hoje se situa um banco; ao lado (agora a loja Credilar) ficava a Leitaria Amazonas, que não vendia leite, mas servia uma cerveja bem geladinha. Os dois bares tinham mesas nas calçadas, bem frequentados nos fins de tarde e início das noites; vinha então a Alfaiataria Esportiva, do Figueiredo (pai da Rosa, do Wilson, do José), o Bangu era o contramestre e, parece, já estava lá o escritório da Juteira Lustosa do meu querido amigo Waldemiro Lustosa. A seguir, vinham as garagens: Esportiva, do Odorico Andrade, Antonio e Júlio Seixas; depois a União, do Gago e João Avelino; a Brasil e a Rio Negro, do velho Antonico. Os carros ficavam estacionados no meio da rua. Na esquina o Leão de Ouro, aberto dia e noite.

No mesmo quarteirão Avenida Sete/Henrique Martins não lembro se em [19]49 era a Drogaria Popular, onde o Gustavo Roessing atendia com muita presteza, ou se o “seu” Hatoum já havia instalado a “Esquina das Sedas” (agora um moderno edifício); onde é o “Palácio da Moda”, era a loja “A Violeta”, do saudoso Mário Covas (ali eu conheci meu amigo Belmiro Vianez, que tinha saído do Chico Preto); depois o Salão Avenida, do Severino Miranda, o Beleza era o barbeiro mais solicitado, depois virou um café; vinha a ourivesaria da firma A. Rodriguez, a Relojoaria São Paulo, de São Paulo & Martinho e o consultório do Dr. Flávio de Castro, onde se reuniam, na calçada, figuras expressivas da política e dos meios sociais da cidade. O Dr. Flávio, de saudosa memória, presidente do Rio Negro e do PSD, cavalheiro distinto e figura humana das mais positivas que conheci. Ali era o “muro das lamentações”, mais famoso e frequentado que o atual “canto do fuxico”. Na esquina, o “Restaurante Central”, com boa comida e aquelas mesas de toalhas bem limpas e um jarro de flores no centro.

Vamos passar ao outro quarteirão, da Henrique Martins até a Saldanha Marinho. Na esquina, onde está a Cruzeiro [do Sul], era a Farmácia Barreira, do velho Augusto, que depois passou para o lado; o bazar Avenida e o Bazar Esportivo, do “seu” Pinto, ali conheci o Amaranto, hoje fotógrafo de A Crítica, na época já lidando com fotografia. Uma pausa para uma apresentação merecida: o CAFÉ DA PAZ, nunca vendeu café e era um dos lugares mais barulhentos da cidade (para falar dos bares da Avenida, somente matéria especial, por isso fico apenas na apresentação).

O cinema Avenida, com “seu” Aurélio e dona Yayá sempre na porta, cumprimentando os conhecidos. Não sei se em [19]49 depois do cinema vinha a firma A. Bernardino ou se o escritório já era dos irmãos Carlos e João Braga. Depois a fotografia Avenida, do Álvaro Mendes, o consultório de dentista do Abelardo Melo, a Casa das Velas, a marcenaria e chegava-se ao famoso bar Avenida, na época do Júlio, o maior salão da cidade com reservado e tudo. Basta se ver o espaço ocupado pela agência do Bradesco, para se ter uma ideia do bar. (segue)

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