FASCÍCULO 11
Ao me apresentar na caserna em janeiro de 1972, o comando me consultou sobre a aceitação de frequentar o CAO, curso policial militar obrigatório, em Fortaleza. A despeito da obrigatoriedade, eu poderia ter adiado por um ou mais períodos, porém, diante do entusiasmo com a recente viagem, como podia levar a família, e o curso se estenderia até dezembro, aceitei prontamente, trocando-o pelas benesses da Tesouraria.
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| Comemoração do Dia de Tiradentes, no quartel da Praça da Polícia - 1971 |
Em Fortaleza, aluguei a casa antiga de um dentista, na rua Ildefonso Albano (na época rua Antonio Bezerra), próximo à praia no bairro de Meireles; um ponto de referência era a primitiva fábrica da Coca-Cola na avenida Monsenhor Tabosa, a duas quadras de meu endereço, outro, era a sede da Secretaria de Educação. Antes de prosseguir devo esclarecer que a cidade estava longe de dispor dos recursos que a transformaram em atração turística nacional. A PM cearense, organizadora do CAO (Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais) acabara de inaugurar a Academia de Polícia, aproveitando instalações antigas, situada na avenida Mister Hull, prolongamento da avenida Bezerra de Menezes, zona oeste de Fortaleza. O detalhe auspicioso era o funcionamento do curso na parte vespertina, que me servia para circular pelas adjacências nas manhãs.
Por ser o primeiro curso realizado na corporação cearense, enfrentou os percalços pertinentes de uma estreia. A turma compunha-se de oficiais locais, além de dois do Maranhão e dois do Amazonas. Dediquei-me com afinco, sem grande dificuldade, pois vinha diretamente dos bancos da faculdade, e o programa foi desenvolvido exclusivamente em sala de aula. Não houve atividades externas nem conhecimento do serviço prático, como visitas às unidades do interior alencarino. Tive o deleite de deixar uma marca indelével no brasão da Academia, iniciativa do distinguido capitão Paula Pessoa. Coube-me apresentar a proposta vitoriosa do lema: Vigilando discimus, isto é, aprendemos para vigiar. Ainda que a aparência do emblema não seja jeitosa, marquei minha frequência no CAO/1972.
Até então não usava óculos, o motivo era simples: nunca havia me consultado. Havia ludibriado o médico ao ingressar no Exército e, ao incluir na PM do Amazonas, sequer passei por exames. Aos 26 anos, observando as dificuldades para ler a placa do ônibus em direção à Academia, ou as legendas de filmes nos cinemas da praça do Ferreira, ou na televisão recém inaugurada a cores, recorri ao especialista, que então era nominado de Oculista. Aconteceu no hospital da Polícia Militar do Ceará meu primeiro exame de vista, há 54 anos! O nome desse facultativo o implacável tempo desmanchou da minha memória. Estava tão deteriorada minha visão que, interrogado pelo oculista pelas letras na parede, devolvi: “que parede?”. A prescrição inicial foi de três graus em cada lente, a fim de ser observada a evolução do tratamento. O olho direito, o mais avariado chegou a cinco graus; hoje, após o reparo da catarata, uso óculos civilizados. Encomendei as lentes em uma ótica situada na Praça do Ferreira e, quando as recebi, ainda relembro o entusiasmo que me tomou ao estrear os óculos. As cores estavam vibrantes e todos os letreiros do entorno foram devassados, assim como o dos ônibus, enfim, estava em condições de assistir à inauguração da TV em cores, realizada na citada praça, comigo presente.
A visita ao hospital me proporcionou preparar a ficha do atendimento de minha esposa Graça, gestante do terceiro filho, com parto previsto para dezembro. No feriado da Semana da Pátria, voltei a Santos com a família. Na despedida, aceitei que a esposa retornasse em novembro, permitindo o nascimento de um santista. No entanto, quando no início de novembro festejei o 1º aniversário do Roberto filho, acelerei o parto da Graça. Como havia acertado, o hospital da PM acolheu a parturiente e, pela madrugada de 5 de novembro, nasceu o Carlos Eduardo. Ao retornar à casa, fui interrogado pela apreensiva avó Edna: “que tal, como foi o parto?”, respondi, sem atentar para o sentido do gracejo: “tudo bem, nasceu o cabeça chata”. Soluçou ela: “oh! meu Deus!” Eduardo, hoje, é casado com a Cintia e pai do Eduardo Souza.
Premiando o curso, o comando da Academia custeou uma viagem de estudos, incluindo visita a São Luiz do Maranhão, em razão dos colegas; seguimos a Belém, de onde voamos de Catalina rumo a Altamira para observar a construção da rodovia Transamazônica, tida como a obra-símbolo do governo militar na Amazônia e, para encerrar o trajeto, graças aos alunos amazonenses – eu e o capitão Carneiro – visitamos a Zona Franca de Manaus. Em reunião realizada no quartel da Praça da Polícia, constatei que o comando havia promovido uma reforma interna no edifício, ao construir um corredor que dividiu os amplos salões em espaços menores para atender à reorganização administrativa.
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| Alunos do CAO 72-PMCE, chegando a Manaus |
Ao retornar a Fortaleza, veio a formatura do CAO, que aconteceu em 15 de dezembro, e foi realizada no Ginásio Paulo Sarasate. Obtive aprovação entre os cinco primeiros, fato que me deixou exultante, em especial, diante do desastre padecido no curso de armamento.

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