CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, junho 29, 2026

IDADE DA LUZ

29.06.2026

Renato Mendonça

 Na liturgia secreta da existência humana, procuro sempre um ciclo que traduza o tempo que nos envolve. Ao vivenciar a porção que completa três quartos de um centenário, sinto-me tomado por gratidão: Deus me ofertou um conteúdo vasto — tecido de afetos, lembranças e luz, além de um caráter dotado de espírito humanístico —, que me sustenta até aqui.

Renato Mendonça


Nesse tecido, repousa o primeiro ano de vida — o único em que recebi o calor humano de Dona Francisca Pereira Lima e, numa única vez, tive a honra de passar o Dia das Mães e o meu primeiro aniversário ao seu lado. Mas não me considero um desafortunado, pois sei que fui plasmado pelo seu amor maternal. E isso não se apaga da memória afetiva, nem me afasta do prazer de sentir que tive uma infância venturosa; sinto-me iluminado pelo carinho de meu pai, de minha madrasta, dos sete irmãos e da avó paterna, que se fez tutora e guardiã, precursora da luz que acendeu meu discernimento.

Hoje, faço questão de afirmar que vivo a Idade da Luz. Uma idade que não se mede em anos, mas em sabedoria, sobriedade e discernimento. É como se, ao alcançar este marco, os olhos começassem a divisar ao longe um ponto luminoso, uma estrela que brilha no fim da estrada. Muitas estrelas que iluminaram minha vida ainda brilham no infinito. É para lá que caminhamos, guiados pelos ensinamentos de Cristo, rumo ao fulgor eterno que nos espera. E temos que ter resignação e consciência dessa missão que rege nossa existência.

Podemos fazer também outras analogias da existência humana. A mais otimista é com as estações do ano — admitindo que a minha teoria renatodiana esteja conectada aos mecanismos da vida —, imagino que o homem pode viver até um centenário com sua cognição intacta e livre de outras doenças neurológicas. Podemos esmiuçar essa teoria, separando os períodos existenciais em ciclos de vinte e cinco anos cada. Uma divisão matemática equitativa e perfeitamente plausível, sendo que o último ciclo é totalmente incerto.

Se for assim, no dia de hoje eu estarei começando a viver meu último sol de outono, ainda com muita luz e calor. Para os próximos dias, se conseguir assimilar as bênçãos divinas, estarei vivendo a incipiência da fase invernal. E aí sim, envolvido pelo frio existencial em que o calor humano se torna apenas cálido, a chama espiritual deverá estar sempre acesa para aquecer o coração e o dotar de uma luz resplandecente.

E para celebrar esse momento de luz, quis comemorar meu aniversário com minha mãe, minha avó, meu pai e minha madrasta, aos pés dos túmulos que os acolheram. Sei que estão sempre presentes espiritualmente ao meu lado, porém desejei estar próximo fisicamente.

O ser humano não precisa se preocupar com essas teorias aparentemente conspiradoras da convivência humana na face da Terra. Quando atingimos essa marca do tempo, algo me diz que precisamos de sabedoria para lidar com o envelhecimento. E isso deve ser encarado com naturalidade, como em um jogo de futebol. Ao término da partida, voltaremos para casa — de onde saímos para viver o momento lúdico da vida, partilhado com outros que têm mesma afinidade. Ficamos felizes quando ganhamos. Mas a vitória não está no placar, e sim em termos seguido o Mestre — Jesus Cristo, nosso técnico e guia — ele nos ensina que a verdadeira felicidade é fazer os outros felizes, ao adotarmos e praticarmos seus ensinamentos, no intuito de proporcionar o bem-estar comum.

Qualquer que seja o inverno, deve ser encarado com estoicismo e com altivez. Outras virtudes podemos recorrer e acrescentá-las à nossa cota de agasalhos para suportar o tempo invernal que certamente nos envolverá. Não só o discernimento nos aliviará da tortura da iminência da degradação humana, o altruísmo também nos incitará à preocupação com o outro, de forma que poderemos nos desvestir do egoísmo, tão prejudicial para a convivência social. 

O tempo não é um inimigo, ele está no rol dos nossos bons presságios, é um companheiro discreto que nos lembra da urgência de amar, viver em abundância o amor e a fé. Precisamos convidá-lo para sentar à mesa ao nosso lado, para sentirmos sua fruição prazerosa.

Nesse dia, inevitavelmente, cada lembrança dos entes queridos passados é uma estrela acesa no céu da memória. Algumas brilham intensamente, outras se escondem em constelações distantes, mas todas compõem o mapa que me orienta. E quando penso no futuro, não o vejo como utopia, mas como horizonte: um campo aberto onde uma luz distante se insinua.

O inverno que se aproxima não é ocaso, pode ser outra aurora de encantos. Será tempo de contemplar o que foi construído sem pressa; de aquecer-se na lareira da fé; de vestir o manto da solidariedade e ajudar o nosso semelhante. O verdadeiro sentido da vida não está apenas em prolongar os dias, mas em torná-los luminosos para os que caminham ao nosso lado.

Assim, sigo celebrando cada ciclo como quem folheia um livro sagrado. A primavera ensinou-me a sonhar, o verão a construir, o outono a colher, e o inverno me ensinará a contemplar. Mas em todas as estações, a luz permanece: ora intensa, ora tênue, mas sempre presente.

A vida, quando vista em retrospecto, revela-se como um mosaico de instantes que se entrelaçam em silêncio. Cada gesto, cada olhar, cada palavra guardado compõe um enigma que só o coração sabe decifrar. Ao completar mais um ano, percebo que não caminho sozinho: trago comigo todas as vozes que me formaram, todos os afetos que me sustentaram, todas as luzes que me guiaram.

Há uma beleza discreta em envelhecer. Não é apenas o lógico acúmulo de dias, mas o sutil florescer da consciência. É como se o tempo, em sua delicadeza, fosse polindo a alma até que ela brilhe com uma luz serena. O corpo pode sentir o peso das estações, mas o espírito se torna leve, como uma pluma dançando ao vento. E quando honramos as verdades de Deus, vemos também o brilho de uma luz intensa que ilumina nossa caminhada.

Usando uma expressão do Gênesis: Fiat Lux!


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