A postagem reproduz o
artigo do saudoso memorialista Genesino Braga (1906-88), circulado em 1965, saudando
o aniversário da Polícia Militar do Amazonas (PMAM), que completava 89 anos.
No ano seguinte, ingressei na PMAM; e muito pouco se sabia da história da
corporação. Cinco anos depois, o mesmo Braga prefaciou – sem objeção – uma
brochura produzida pelo falecido historiador Mário Ypiranga, modificando a data
de inauguração da Força estadual para 1837, hoje com 189 anos.
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Recorte do artigo publicado no Jornal do Commercio,
02 maio 1965
Um toque de clarim, em sopro de alvorada, saudará os oitenta e nove anos de nossa Polícia Militar. O três de maio, data em que se instalara em 1876, a heroica e invicta milícia de Cândido Mariano, é fausto e pompa no calendário histórico do Amazonas; é dia de gala para o orgulho cívico deste povo; é festa magna de tradição e de amor no coração da família amazonense.
Instituída pela lei 339, de 26 de abril de 1876, Guarda Policial fora o seu primeiro nome, assim batizando-a a Assembleia Provincial nos processados de sua oficial origem e assim fazendo-a chamar, naquele ato institutivo, por força de mando e autoridade, Antônio dos Passos Miranda, “bacharel formado em ciências jurídicas e sociais pala Faculdade de Direito do Recife e presidente da província do Amazonas”.
Uma semana decorrida de sua criação e já, a três de maio, a briosa Guarda Policial do Amazonas se instalava no quartel que lhe fora destinado: velha casa, arrendada “colocada na subida da praça da Imperatriz para a de Tenreiro Aranha, com entradas para o lado de uma e outra praça”. Seu primeiro comandante, o tenente reformado do Exército Severino Euzébio Cordeiro, no posto de major, e seu capitão-ajudante, o cidadão Marcelo José Pereira, desdobravam-se nas diligências rara compor o efetivo da tropa: 73 homens, com o major-comandante, o capitão-ajudante, um primeiro e um segundo sargentos, o furriel, seis cabos, dois cornetas e sessenta soldados a pé e montados. Mas, já no ano seguinte, com seu efetivo aumentado para 99 homens, e acrescida de um tenente, dois alferes, mais um segundo-sargento, mais dois cabos de esquadra e mais vinte soldados, para outro quartel a Guarda transferiu-se, desta vez na Praça D. Pedro Segundo, esquina com a Rua do Governador Vitório.
Batalhão, mesmo, nossa polícia militar só veio a ser em 1890, com o governador Augusto Ximeno de Villeroy, capitão de engenheiros, que, pelo decreto número 11, de 13 de janeiro, dissolveu a Guarda Policial e criou o Batalhão de Polícia do Amazonas, com um efetivo de quatrocentos homens, sob o comando de um tenente-coronel.
Sete anos depois, já alteada à categoria de Regimento, a brava milícia amazonense escreve a página mais épica da história militar do Amazonas. De Canudos, para onde seguira a quatro de agosto de 1897, o seu 1º Batalhão trouxera-lhe os troféus de guerra que o denodo e a bravura de seus soldados conquistaram no aceso de pelejas cruentíssimas, no auge das cargas do inimigo, sob os fogos cruzados da mais cerrada e desesperada fuzilaria.
Candido Mariano, o audaz e intrépido comandante desse pugno de bravos, —sem dúvida a figura mais alta de toda a história da Polícia Militar do Amazonas, — agiganta-se na campanha patriótica entre os mais denodados da brigada do general Sotero de Menezes e, no comando do ataque à última resistência de Canudos, conquista a praça rebelde, em feito definitivo para a vitória das armas legais: “Os jagunços, — relata o valoroso cabo de guerra, — vendo o ímpeto e a resolução com que avançaram os nossos soldados, que não se intimidavam com as suas balas, apesar de serem (estes) na sua maioria homens bisonhos e inexperientes de situação tão crítica, trataram de retirar-se apressadamente, entregando-nos a formidável posição que ocupavam, formada de trincheiras naturais sobre morros que ficavam a cavaleiro das mesmas posições”. E, mais adiante: “O Batalhão do Amazonas, tanto ou mais que nenhum outro concorreu brilhantemente para o êxito final, batendo- se abnegadamente e heroicamente, sem visar interesse de ordem alguma, e auxiliando por todos os modos o general em Chefe a debelar tão nefanda quanto desgraçada revolta”.
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| Quartel da PM, anos 1920 |
De regresso a Manaus, a 8 de novembro do mesmo ano, à frente do heroico Batalhão Amazonas desfalcado de seus mortos em combate, o bravo e altivo chefe militar recebera esta honrosa menção do comandante do Regimento da Força Pública do Amazonas, coronel Pedro Henriques Cordeiro Júnior: “Faço aqui especial menção do Cidadão Dr. Candido José Mariano, cmt do 1º Batalhão de Infantaria, que mais uma vez, honrando as tradições passadas, coroou de honras o nome do Soldado Brasileiro, verdadeiro defensor da Pátria e da República, concorrendo com o seu Batalhão para terminação da luta fratricida travada nos inóspitos sertões baianos”.
Diante de tão heroico passado, abrindo às gerações de hoje o relicário de seus mais nobres triunfos e as páginas de luta, de lealdade e de abnegação, escritas com o sangue e o suor de seus heróis, nossa altiva e intrépida Polícia Militar fará ressoarem, neste seu 89º aniversário, os toques marciais que anunciaram todas as vitórias da valorosa corporação, em toda a sua existência vivencial, em toda a grandeza de seus feitos excelsos. E que aquelas, manchas de sangue que ainda tingem a bandeira esfarrapada volvida com a tropa de Canudos, continue por muitos anos em relíquia, no quartel da Praça de Heliodoro Balbi mostrando aos maços, conterrâneos a mensagem de dor dos filhos desta terra que morreram pela pátria e deram a vida em holocausto à ordem, à tranquilidade e à pacificação da família brasileira.


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