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sábado, maio 02, 2026

BAIRRO DE SÃO RAIMUNDO (2)

O texto pertence ao falecido Áureo Nonato (1921-2004), filho do bairro em que relembra sua infância, e as famílias mais destacadas da Colina. De certo modo complementa a postagem de ontem, que oferece uma reportagem jornalística. A publicação original ocorreu no Jornal do Commercio, em 05 de abril de 1981, portanto, são passados 45 anos.

Jornal do Commercio, 05 abril 1981

“... até bem pouco tempo não se falava no Amazonas, e vamos e venhamos: por que falar do que não se sabe. O sujeito que no Leblon ou no “Antonino” declama sobre o Amazonas é, na melhor das hipóteses, um cínico. Teríamos que ir lá, fisicamente, teríamos que apalpar, farejar aquela imensa e florestal Sibéria. O Amazonas não é um mundo, são vários mundos”. Nelson Rodrigues.

Áureo Nonato é redator da Rádio Roquete Pinto, emissora oficial do Rio de Janeiro e Assessor de Imprensa da Fundação Casa do Estudante do Brasil.

As lembranças de minha infância em Manaus, passada no meu pequeno bairro de São Raimundo, lá pelos começos dos anos 30, são tantas e variadas que as vezes não sei por onde começar um relato mais precioso e mais preciso das mesmas, pois como que se entrelaçam nas suas vivências e recordações.

Como esquecer a minha, a nossa rua da Sede, onde nós os meninos do bairro: Dióla; Aurélio, meu irmão; Nano; Higino; e tantos outros, passávamos tardes e noites intermináveis, ora em combativas “peladas”, outras vezes em compridas conversas na calçada da sede do São Raimundo Sport Clube, algumas outras ouvindo, entre espantados e atentos, as estórias fantásticas de “seu” Estandelau, e muitas e muitas outras vezes, em fantásticas noites enluaradas, comendo as melancias que íamos comprar, a mando do papai, nas praias a beira do igarapé.

Como esquecer as famílias que moravam ali e com as quais dividíamos as nossas atenções e as nossas amizades?! Do “velho” Chato, da Dona Marieta, sua mulher, da Rita, da Nathalia, do Xiloca, do Juquita e da Das Neves, seus filhos. Da “velha” Mariquinha, que morava numa casa que todos acreditavam ser mal-assombrada e de suas duas misteriosas filhas, já trintonas, Maria Gága e Izaura. Do “seu” Antonio Macedo, de sua mulher Dona Antonia Bandeira, e de seus filhos Raymundo Macedo, um dos “mocinhos” do bairro; Maria Macedo; e Lourdes Macedo, uma das meninas mais bonitas que já conheci!

Toda essa gente, gente simples, gente boa e honesta, povoa as lembranças de minha infância!

Nossa casa ficava já quase no fim da rua, esquina com a rua São Francisco, ou “rua da Bosta” como era mais conhecida. Nela, logo depois da casa mal-assombrada da “velha” Mariquinha, morava o “seu” Zuza, da família Cavalcante e irmão de “velho” Chato, com sua mulher Dona Laura e seus filhos: Loló, uma moça morena e bem vistosa; Amadina; Ribamar e Aureliano, e já quase no fim da rua morava uma numerosa família negra descendente de escravos e na qual se destacavam impressionantes tipos como o “nego” Tota; a Rosária; a Dona Dora, uma mulher mansa e humilde de coração, e com a qual tínhamos em nossa casa uma estreita e sólida amizade, pois além de ser a nossa “lavadeira de roupa”, nos aconselhava como se fosse uma nossa “mãe preta-velha”.

Bem me lembro de nossa revolta, quando um dia soubemos que iam “tirar” o nome da nossa querida rua da Sede. Era a Prefeitura que queria homenagear um membro de família ilustre de Manaus: o Doutor Araújo Jorge. A nossa rua nunca aceitou o novo nome e até hoje ela só é lembrada e referida por todos nós como rua da Sede.

Eram numerosas as famílias do bairro de São Raimundo. Os Bessas, os Almeidas, os Normandos, os Mouras Nascimento, os Rebouças, os Macedo e os Cavalcante formavam os grandes clãs do bairro. Para citar somente um deles: o clã dos Cavalcantes. Esse era formado pelo “seu” Zuza e o “velho” Chato que eram irmãos de “seu” Francisco das Chagas Cavalcante, sua mulher dona Francisca Rebouças Cavalcante e seus filhos: Edina, Enedino, Enedito, Enéas, Esmeraldino, Edgard (este afilhado de meus pais), João, Francisquinha, Maria Rosa, Raimundo (que atende pelo nome de Beloso) e Adhemar.

Hoje, decorridos quase cinquenta anos, muita gente dessa gente ainda vive ali no meu querido bairro de São Raimundo.

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