CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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terça-feira, setembro 01, 2026

PASSEIO DE BONDE EM MANAUS

 A postagem celebra quem aproveitou o bom tempo, transcrevendo a cronista Beth Azize que, em sua coluna publicada há pouco mais de 50 anos, recorda com detalhes o passeio de Bonde. Agradeço ao Ed Lincon, enamorado por esse meio de transporte, apesar de nunca ter utilizado, mas preserva a lembrança de família, pois seu avô foi motorneiro da Manáos Tramways. 

Bonde circulado em Manaus, até 1957



Recorte da coluna publicada em A Crítica, 30 agosto 1975

Domingo, 4 horas da tarde. “Vai tomar banho menina, senão vais perder a volta de bonde”. Todos os domingos à tarde, numa época que já vai bem longe, mas continua próxima na lembrança, as moças casadoiras, vestidos de frufru, laços nas cadeiras, sombrinhas rendilhadas, tomavam o bonde na estação para se exibirem aos pretensos pretendentes que, de chapéu de coco e bengala, “flertavam” sobre os trilhos.

O costume se transferiu para uma outra geração. E ainda na década de quarenta [1940], toda a turma que já sabia se vestir e pentear o cabelo sem ajuda da mãe, ficava esperando, com ansiedade, a volta de bonde, no Circular Cachoeirinha ou Flores, ou nos Remédios.

A garotada subia pelos estribos com alvoroço. Papai advertia: “vê se vocês não vão cair”. A briga começava pela ponta do banco. Todo mundo queria ficar na extremidade dos bancos de madeira envernizada, pra ver melhor a rua e as pessoas. Era uma euforia quase histérica. Mas numa história de crianças, como se tivéssemos a caminho da Lua, numa nave espacial.

Essa mesma sensação tive quando andei pela primeira vez no Zepelim, um ônibus com feitio de avião ou foguete que por cá apareceu e depois desapareceu por encanto, como a nossa meninice. Mamãe me conta que “no seu tempo” as moças andavam de sombrinhas abertas nos bondes e os rapazes começavam o namoro elogiando a sombrinha.

E ela bem se lembra que papai a viu pela primeira vez com uma sombrinha de bordados e cor marrom. O seu Rafa, muito vivo, sabendo-a coquete foi logo jogando seda pra sombrinha que era o instrumento que melhor servia pras mocinhas fazerem charme e gesto de conquista. Deu certo. Conosco a coisa mudava de feitio. Éramos bem crianças e a nossa sensação tinha que ser diferente, claro.

Quando o bonde chegava no ponto final, tínhamos que esperar a hora para a volta e nesse intervalo fazia-se a compra dos doces, do rala-rala, do alfenim, do gergelim, do pirulito. E no regresso, chupando o pirulito que começava a perder sua forma e o açúcar, vendo o bonde conquistar os metros de trilho de volta, torcíamos no íntimo mais escondido para que a viagem não tivesse fim.

No estribo o cobrador passava, uma mão na alça metálica, outra com o dinheiro todo dobradinho e a sacola pendurada na cintura, cheia de moedas. “Leva!” Ou então, “Ten-tem”. E o bonde parava nos pontos certos, fazendo ranger sobre os trilhos uma música tão familiar.

Na hora da descida, quando o passeio terminava, outra confusão agitava a mente da turma endiabrada. Ao invés de esperar-se o bonde parar de todo, um instinto de impetuosidade nos levava a saltar com ele ainda em movimento. Era uma delícia. Mas quando se chegava em casa a dedo-duro da família já subia as escadas gritando: “Mamãe, fulana e fulano ‘morcegaram’ o bonde!” E o cinturão ou a chinela cantava no lombo. “Seu condutor, tin-tin, seu condutor, tin-tin, para o bonde...”

sexta-feira, dezembro 27, 2024

MANAUS: OS BONDES ELÉTRICOS

No momento em que a autoridade municipal expressou o anseio de implantar uma linha de trólebus no centro, para turismo, vou relembrar um pouco da longa história dos desaparecidos Bondes. O texto foi escrito em A Crítica (ed. 19 ago. 1952) por Carlos Alberto de Almeida Barroso (integrante da Academia Amazonense de Letras), que desfrutou dos últimos tempos deste meio de transporte, pois, criado no final do século 19, foi extinto em 1957, pelo governador Plínio Coelho que ainda intentou recondicionar a frota sucateada.
Bonde em Manaus

O texto revela algumas peculiaridades já esquecidas sobre o uso deste veículo, pois há quase 70 anos foi desativado. A ilustração cabe ao Ed Lincon que disponibilizou algumas fotos dos Bondes. 
Cabeçalho do artigo

Até onde posso recuar no tempo com o auxílio da memória, distingo em Manaus uma série de linhas de bondes, com diversos nomes: “Cachoeirinha”, “Circular Sete de Setembro”, “Flores”, “Bilhares”, “Vila Municipal”, depois “Adrianópolis”, “Fábrica de Cerveja”, “Remédios”, “Saudade Avenida”, “Saudade Instalação”. Em dias de festa ou nos domingos, havia bondes com outros nomes. Era então o bonde o veículo por excelência da cidade, a condução que todos preferiam, não só por ser mais barata, como por oferecer as melhores condições de segurança e mesmo de conforto para o nosso clima.

Lembro-me que o primeiro bonde que me impressionou na meninice, foi o “Fábrica de Cerveja”. E por que? Simplesmente porque foi nele que fiz a minha estreia, “morcegando”, como se dizia. Foi no Plano Inclinado, hoje rua Comendador Alexandre Amorim, próximo à Vila Rezende. Tinha chegado de Manacapuru e aqui me encontrava a menos de uma semana com cara e jeito de bisonho habitante dos barrancos ribeirinhos do Solimões, meio estonteado com o movimento da cidade. Fora à taberna do canto [esquina] fazer compras e, de volta, um companheiro da minha idade, mas muito mais experiente, convidou-me a pegar o bonde que se encontrava parado, enquanto tomava passageiros.

-- É só pegar e saltar, parado mesmo, -- disse-me ele num convite incisivo. Mal, porém, eu me ajeitara à plataforma do veículo, ele dera de marcha. Enquanto o bonde tomava velocidade, o meu companheiro, junto a mim advertia-me:  -- Vamos logo saltar, que não há outro jeito!

E depois de falar, de fato, saltou, com perfeito controle do choque recebido ao pisar no chão. Comigo, porém, a coisa foi muito diferente, pois que, neófito ainda nesse negócio de pegar bonde e saltar dele em movimento, ao descer sofri várias escoriações pelo corpo, culminando a brincadeira, depois que em casa ao tomarem conhecimento do ocorrido, com uma surra em condições. (...)

Um outro fato que ainda me está vivo na lembrança, dessa época pitoresca de “morcegação” de bondes, foi a voz de prisão que recebi de um guarda civil, o qual me surpreendera naquele ameno passatempo e, sem me dar oportunidade para a fuga, pegara-me pelo braço e conduzira-me, não obstante a minha choradeira, por mais de um quarteirão; só me soltando para atender ao pedido do um desses protetores dos moleques injustiçados que sempre surgem em tais ocasiões. E tudo isso somente por causa dos bondes, tão irresistivelmente sedutores, tão gostosos, para se dar uma “pegada”!  (...)

O bonde retratava bem a alma de cidade, na sua fisionomia serena ou despreocupada, e nas suas alegrias ou angustias. Quando a cidade estava triste, os bondes apareciam vazios, quase sem passageiros. Bondes cheios, entretanto, era sinal de alegria, de satisfação. Todos se afeiçoavam a um ou dois bondes, que eram os seus prediletos. Encontravam-se neles até certos atributos comuns às pessoas.

Havia os bondes sérios, que se impunham aos passageiros pelo seu porte, pelo seu aprumo e que inspiravam mais segurança que os outros. Os da linha do Circular estavam neste caso. “Fábrica”, “Vila Municipal” e “Cachoeirinha”, foram sempre bondes pouco simpáticos. Nos bons tempos, quando se falava no “Flores” provocava-se um calafrio nas senhoras pudicas e nas virgens românticas. Era o bonde proibido, interditado às pessoas decentes. Sim, “Flores” era um bonde suspeito e por isso evitado. “Nazaré” foi sempre a linha simpática, cujo percurso dava uma agradável sensação de volta bem aproveitada. As famílias gostavam de passear nessa linha, cujo bonde inspirava ao mesmo tempo simpatia e respeito.

Os mais pitorescos eram, no entanto, o “Remédios”, e os dois “Saudade”. Eram os bondes dos namorados. Neles sempre tinham início os “flirts” [flertes], as inofensivas conquistas amorosas. Nas tardes de domingos e feriados disputavam-se essas conduções com muito interesse e entusiasmo. Mesmo nos dias comuns esses bondes sugeriam sempre uma nota risonha da cidade. Pareciam os bondes adolescentes, e assim recordavam sempre a mocidade, a alegria, a vida. Quantos amores não tiveram o seu início nesses bondes ou deles se serviram para alimento da sua chama!

Houve uma época em que apareceu um “Remédios” por baixo. A verve da cidade encontrou-lhe logo um designativo: “chá de bico”. Mas o “chá de bico” surgiu já numa fase em que o bonde começava a sentir a ameaça que transformaria o seu destino. A ameaça das dificuldades que mais tarde chegariam ao ponto de justificar o crime inominável de se pensar em extingui-los. Mesmo assim, “chá de bico” viveu ainda bons momentos e embalou muitas ilusões...

Quando vinha a noite e o fim do dia se aproximava, ainda encontrávamos o bonde em plena forma, movimentando a vida noturna da cidade. A partir das sete, rara era a casa em cuja janela ou porta não palpitava um coração a espera de um bonde. Quando se transformava num mensageiro de paz e de esperança. De fato, quando o bonde se aproximava, o vibrar da campainha e após o aparecimento da querida e desejada presença justificavam bem as palpitações daquele coração. (...)

Hoje, desapareceu o bonde para a cidade noturna. Em compensação e talvez como vingança, foi-se a vida noturna da cidade. Mas a fúria homicida -- diria bondicida -- é irrefreável. Daí a intenção de alguns homens públicos, talvez insensatos, de acabar de uma vez por todas com os bondes. Não temem esses insensatos, que se isso acontecer os bondes se vinguem mais uma vez contra Manaus, que sempre foi tão deles quanto nossa? Seria bom pensarem nisso.