CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

23 de agosto de 2016

EUCLIDES DA CUNHA EM MANAUS

Detalhee da capa da revista
Nesses dias recebi o mais novo livro de Oleone Coelho Fontes Sergipe na guerra de Canudos (Salvador: Ponto & Vírgula, 2016, 278p.), assunto que exige sempre a citação de Euclides da Cunha. E foi com o autor de Os sertões na mente que me deparei com o texto que abaixo reproduzo com os devidos acertos ortográficos.

Trata-se de um escrito publicado na Revista Victoria Regia, editada em Manaus em abril de 1932, portanto, saído ainda quando predominava a tese de Euclides sobre Canudos e raro era aquele que se atrevia a comentar a obra.

Nada recolhi sobre o articulista amazonense – Jayme Sisnando; mas, se isso pode influir, acrescento que o aludido periódico era dirigido por Francisco Benfica e Mario Ypiranga Monteiro, que deixou a marca de ilustre historiador.   



EUCLIDES E A AMAZÔNIA

Dentre os escritores nacionais que se ocuparam com a Amazônia, sua topografia, estrutura, rios, habitantes, costumes etc., Euclides da Cunha é um dos que aparecem em primeiro plano, já pela verdade e colorido das descrições, que nos apresenta da “Hileia” maravilhosa, já pela beleza do estilo impecável, onde a sua erudição ostenta-se demonstrando os seus variados conhecimentos, já finalmente pelo seu prodigioso poder de observação, que o torna um conhecedor profundo de todos os assuntos de que trata.

É certo que Euclides escrevendo sobre a Amazônia não nos dá um livro tão vasto e minucioso como Os sertões, a obra magnífica em que expõe os aspectos heroicos da campanha de Canudos, mas as poucas páginas que lhe dedica em À margem da história e no prefácio do Inferno verde, são suficientes para dar-nos uma ideia em conjunto destas regiões vastíssimas e imponentes do equador, as quais ele chama mui sabiamente “a última página do Genesis”.
Ao nosso ver, Euclides é dos autores brasileiros o que mais se aproxima da realidade na descritiva do grande vale equinocial, porque não se deixa empolgar por aqueles arrebatamentos que assaltaram a Frederico Hartt e tantos outros que hão estudado as coisas amazônicas.
O próprio Moraes, que, ao nos oferecer Na planície amazônica, parece ter tomado a priori a resolução louvável de defender a gleba equatorial de quantas mentiralhas de que tem sido vítima por parte de pessoas inescrupulosas, deixa-se dominar pelo lirismo, e aqui e acolá, nota-se na sua obra a preocupação constante de exaltar a gleba nativa.

Chega mesmo, reportando-se a Alberto Rangel, a dizer que este “não enxerga através da paisagem amazônica, enxerga através dos círculos da Divina Comédia”.Inegável é que Alberto Rangel é exagerado e cheio de ideias pessimistas ao falar da “gleba tumultuária”. Mas, não haverá algo de realidade nos seus contos? Poderemos negar o fenômeno das “terras caídas”, a insalubridade de certas zonas, a injustiça dos potentados no “hinterland”, e a possibilidade de se desenrolarem certos dramas e tragédias no recesso das florestas verdoengas, como deixa entrever o escritor patrício? Julgamos que não. Aliás todas as partes do globo terráqueo têm os seus defeitos característicos. Estes não são “privilégio” da Amazônia.
Referindo-se a Euclides, Moraes acha que o mesmo não tem razão, quando diz que o Amazonas na sua dinâmica formidável, carreando detritos, minerais, areias etc., vai pelas águas marinhas a dentro, e distribuídos estes materiais pelo rio pelágico que se prolonga pelo Gulf-stream, vão se acumular em lugares longínquos na formação de novos territórios.
Acha Moraes que Euclides apenas endossou uma ficção de Elisée Reclus. No entanto, não acreditamos que o espírito perquiridor, arguto e analisador de Euclides subscrevesse qualquer patetice deste jaez sem nenhum fundamento. Certamente alguma coisa de positivo deve haver no caso, e Herbert Smith, segundo o mesmo Euclides, observou o fenômeno nas enormes massas barrentas, que se vêm em pleno mar, antes de aportar ao Brasil.

Provavelmente, como quer Moraes, o delta do Amazonas esteja se formando pela sedimentação ali em Marajó, mas bem possível se nos afigura que Euclides tenha as suas razões, e que parte das terras que o Riomar transporta em sua faina incessante, vá parar nas costas norte-americanas, na Geórgia e nas Carolinas, que vão se dilatando inexplicavelmente com o correr do tempo.

Euclides, que não é desses que escrevem apenas baseados em informações, mas que trata dos fatos que observou in loco, percorreu a planície, e estudou-a carinhosamente, sem dar largas à fantasia, enlevado pela sua grandeza e esplendor.

Ocupou-se ele de seus problemas capitais, tratando da desobstrução dos rios, do clima, da luta ingente dos seringueiros, que vivem completamente abandonados pelos governos, pois “enquanto o italiano se desloca de Genova à mais remota fazenda de S. Paulo paternalmente assistido pelos nossos poderes públicos, o cearense executa à sua custa e de todo em todo desamparado uma viagem mais difícil, em que os adiantamentos feitos pelos contratadores insaciáveis, inchados de parcelas fantásticas e de preços inauditos, os transforma as mais das vezes em .devedor para sempre insolvente”. (À margem da história, p. 69.)

A muitos problemas Euclides sugere meios práticos de resolvê-los, de modo que o seu livro À margem da história satisfaz amplamente o preceito de Horácio, deleitando e instruindo ao mesmo tempo, e tornando o burilador inesquecível de Os sertões notável como um grande conhecedor das coisas da Amazônia.

JAYME SISNANDO