CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, maio 04, 2026

MEUS OITENTANOS (3)

 FASCÍCULO 3

A partida prematura de minha mãe, quando eu tinha seis anos, foi como um raio que rasgou o céu sereno da infância, inaugurando uma era de mudanças profundas em nossa família. Embora desfeito o lar, a habitação permaneceu de pé, mas ganhou um quiosque na lateral, onde meu pai tentou reinventar a vida por meio de um pequeno comércio. Contudo, o imóvel tornou-se palco de disputas: familiares maternos — dois tios, especificamente —, movidos pela ideia de uma herança equívoca, investiram contra nós como ventos tempestuosos que ameaçam derrubar paredes e muros.


Victoria Malafaya, a matriarca; Lindalva e Raimundo, companheira; Doroteia, solteira; e Casamento de Manuel e Doroteia (1958), a partir da esq., fotos recuperadas por IA

Para sustentar os filhos e tentar manter o lar, meu pai contratou Lindalva Feitosa, jovem de dezoito anos, para dividir os afazeres com minha avó paterna, Dona Victoria Malafaya — uma senhora de temperamento difícil, talvez porque não conseguia se socializar a contento — não falava português, apenas castelhano. Enquanto isso, o viúvo Manoel retornava ao seu antigo ofício de “pracista” — uma espécie de representante de vendas — da Padaria Avenida, tentando equilibrar o peso da viuvez com o fardo da sobrevivência.

Para ilustrar o que foi narrado no primeiro parágrafo, recordo: eu tinha oito anos quando testemunhei uma cena que se gravou em minha memória como ferro em brasa no lombo do boi. Os dois tios, acompanhados de um vizinho, desafiaram meu pai diante do quiosque. Ele, protegido pelo balcão, empunhou o facão — terçado, na linguagem amazônica, que cintilava como antecipação de uma tragédia. Mas conteve-se, prisioneiro da própria prudência, e não deixou que o sangue se tornasse mancha no chão da rua ou da calçada. Anos depois, ele me contou esse episódio, esquecendo-se de que eu havia testemunhado, e guardado na mente e no coração.

A venda da propriedade ao compadre Chico Pezinho foi a solução encontrada. Mudamo-nos para um sobrado no mesmo beco, depois para outra casa próxima, na entrada da travessa que levava à estrada de Constantinópolis. Lindalva, que começara como contratada, tornou-se companheira de meu pai, e dessa união nasceram Raimundo, em 1954, e Sonia, em 1956. Mas o destino, volúvel, desfez o laço inesperadamente.

Mais tarde, Dona Doroteia Santos entrou em nossa vida, e nós, os futuros enteados, passamos a chamar carinhosamente de “Dona” e, tempos depois, adotamos o diminuitivo de tratamento: “Doninha”. Casaram-se em março de 1958, na Igreja de Educandos, enquanto eu, já internado no Seminário São José, ausentava-me da festa.

A casa, de madeira, crescia nos finais de semana sob as mãos de carpinteiro — ofício que ele aprendeu no Peru, com seu cunhado Manoel Miranda — de meu pai. Ao lado, outra taberna renascia, e o terreno em declive trouxe desavenças com vizinhos, pois as águas pluviais mudaram de curso com as obras realizadas. Como contraponto às inconveniências provocadas, no meu mundo infantil, eu me encantava com o frondoso biribazeiro do nosso quintal, que nos saciava com frutos amarelos e lembranças doces.

Em 1955, concluí o 4º ano primário no Grupo Escolar Machado de Assis. O vigário de Educandos, padre Antônio Plácido de Souza, convenceu meu pai a antecipar minha entrada no Seminário São José. Assim, em fevereiro de 1956, com dez anos incompletos, atravessei o portão da rua Emílio Moreira, deixando para trás o lar e abraçando uma vocação que ainda não compreendia. A sorte parecia sorrir, e eu acreditava que outros bons fados me acompanhariam.

Mas antes, abro parênteses para enumerar a família que se tornara a partir do segundo casamento do patriarca: José Manoel Filho (1959), Miguel Jorge (1960), Luís Carlos (1962), João Ricardo (1964), Ronaldo Cesar (1967-68) e Carlos Alberto (1974), nascido em Santos. Desses, apenas Ronaldo não sentiu o fado da sobrevivência, faleceu aos dez meses. A tia Raimunda, com seus doze filhos, partiu de Manaus em 1955, levando consigo o calor do suporte familiar. Em dezembro de 1959, mudamo-nos para o Morro da Liberdade, em carroça que fazia viagens repetidas, divertindo os filhos. A nova residência em terreno amplo, um pomar com espaço para prática de futebol e passeio de bicicleta, era um sítio. Mas o bairro, ainda em gestação, não oferecia os recursos do Educandos, onde antes vivíamos ao lado do Cine Vitória. Dois anos depois, faleceu nossa avó Victoria Malafaya, a intrépida matriarca, aos 71 anos.

Setenta anos se passaram, e ao abrir os registros da memória, sinto o peso de duas reflexões sobre o caminho sacerdotal que me foi imposto. A primeira delas me persegue como uma pergunta sem resposta: pode um menino de dez anos querer ser padre? De repente, fui arrancado do lar e dos afetos mais íntimos, lançado entre cinquenta rostos desconhecidos — garotos, adolescentes, adultos — todos estranhos. Ali, compreendi a violência social que se abatia sobre mim. No educandário, precisei erguer defesas contra agressões de toda ordem, inclusive aquelas que maculam a inocência. À noite, o tormento se intensificava: a lembrança do calor humano de casa me sufocava, e o colchão de crina, tão áspero, contrastava com a suavidade da rede onde antes repousava. O choro vinha sem freio, até que o sono, impiedoso, me vencia.

A rotina era marcada pelo sino que ecoava no pórtico, ligando instituições e impondo horários rígidos. Entre estudos, refeições e a limpeza do prédio — tudo feito pelos próprios alunos — havia ainda a oração noturna, enfadonha e obrigatória, que antecedia o recolhimento. Mas um fato esotérico me acompanhou por anos: na sala térrea, eu tinha a impressão de que minha mãe, já falecida, me velava pela janela. Corri inúmeras vezes para surpreendê-la, virei o olhar com rapidez, mas seu espírito era mais ágil, mais prevenido. Até que, por fim, deixou o filho seguir crescendo sozinho.

Com o tempo, a idade me amoldou à engrenagem burocrática: missas diárias, retiros silenciosos, filas intermináveis. Recordo-me de ser o puxa-fila, talvez pela estatura diminuta. A alimentação escassa era suavizada pelos “Alimentos para a Paz”, doados pelos americanos com interesses ocultos. Entre esportes e brincadeiras, havia também a tentação das fruteiras, colhidas às escondidas. O seminário erguia-se sobre a antiga chácara do extinto governador Nery, e ali o destino me apresentou ao padre Juarez Maia, o ecônomo, que se tornou meu protetor. Ele me ofereceu recursos, tentou adotar-me, mas recuou diante da presença viva de meu pai.

Minha escolaridade, contudo, foi marcada por lacunas. Avancei ao ginasial sem concluir o fundamental, e os professores eram escolhidos entre seminaristas e amigos da Igreja. Pouco aprendi de ciências exatas, mas o latim me acompanhou por todos os anos. Em 1958, fiquei reprovado em Inglês e, mesmo após a segunda época, fui retido. Paradoxalmente, o padre-protetor justificou: eu era jovem demais, apenas doze anos.

À medida que crescia, fui incumbido de tarefas administrativas, como lançar em livro as notas dos colegas. Em 1963, último ano do curso, vivi intensamente: na Semana Santa, participei do Auto da Paixão — dirigido magistralmente pelo padre Ruas —; atuei em teatro, no grupo montado por Anacleto Cruz — entusiasta colega de Parintins —; em agosto, transcrevi a Bula “Ad Christi” que instituía a Prelazia de Itacoatiara; organizei um bingo pago em bolinhas de gude. Incentivado pelo padre, busquei ser o melhor aluno, mas alcancei apenas a medalha de prata. No fim daquele ano, veio a decisão: minha turma seguiria para Recife — entre nós, o futuro padre Luís Gonzaga de Souza (1942-2018) —, rumo ao Seminário Maior. Eu, porém, fui preterido — vocação duvidosa, idade tenra. Restava-me aguardar outro fado.

Retornei ao Seminário São José em 1964, ano fatídico. Ao final do primeiro semestre, a decisão amadurecida se impôs: abandonar o caminho religioso. Conversei com meu protetor, que compreendeu minha desventura. Fiz a mala, despedi-me dos colegas e, ao abdicar da proteção, ouvi suas últimas recomendações: ser bom cristão, bom cidadão, cumprir as normas sociais. Uma delas já me esperava à porta, portando uma convocação oficial das Forças Armadas: o serviço militar, pois acabara de completar dezoito anos.

domingo, maio 03, 2026

POEMA DO DOMINGO

 

Revista Rionegrino 14, nov 1929

 

A CIDADE e o RIO

Na terra em que eu nasci desliza um rio

Ingente, caudaloso

Porém triste e sombrio... 

Paulino de Britto – “O Rio Negro”

 

A Heliodoro de Britto,

presidente da Academia Paraense de Letras

 

Minha linda cidade de Manaus

Berço de amor, de sonhos e quimeras,

Terra de exaltações!

Terra de sol intenso

De outono e primaveras

Abrindo-se em jardins, em beijos e em solaus

Sob as nuvens e incenso

Do afeto a desbordar os corações...

 

Vejo-te, refletida nos meus olhos,

D’um improviso de luz do pensamento

Aos íntimos refolhos

Do meu encantamento

Em perene requinte de emoção!

 

Esse eu grande e majestoso rio

Negro no aspecto e branco nas espumas

É a legenda mais nobre da cidade

 

Porque é renúncia e é perdão...

E quando o vento algumas

Vezes se alteia em louco rodopio

São as lendas e as histórias

De invicta heroicidade

E de infinitas glórias

Dos antigos barés e dos Manaus...

 

Teus jardins, teus palácios, tuas torres

E zimbórios e igrejas e pomares

São sorrisos, contornos e prenúncios

De vida, em tutelares

Paixões, doçuras, mágoas, esplendores!

 

As tuas filhas são sereias,

De olhos que são promessas

Ou arautos e núncios

De beleza, alegria e tentação!...

 

E quando chega a noite, devaneias

– Ó risonha cidade, --

Cantando ao luar cantigas

De saudade

Que recordam as antigas

Façanhas dos teus grandes lidadores

Manes de Ajuricaba

– O teu melhor brasão –

Que preferiu a morte a ter senhores!

 

... Minha alegre cidade de Manaus!

Berço de Ajuricaba, índio famoso

Terra-tapuia, enamorada

E apaixonada

Do teu sereno rio

Ingente, caudaloso,

Porém triste e sombrio... 

Paulo Eleutherio

Da Academia Amazonense de Letras

sábado, maio 02, 2026

BAIRRO DE SÃO RAIMUNDO (2)

O texto pertence ao falecido Áureo Nonato (1921-2004), filho do bairro em que relembra sua infância, e as famílias mais destacadas da Colina. De certo modo complementa a postagem de ontem, que oferece uma reportagem jornalística. A publicação original ocorreu no Jornal do Commercio, em 05 de abril de 1981, portanto, são passados 45 anos.

Jornal do Commercio, 05 abril 1981

“... até bem pouco tempo não se falava no Amazonas, e vamos e venhamos: por que falar do que não se sabe. O sujeito que no Leblon ou no “Antonino” declama sobre o Amazonas é, na melhor das hipóteses, um cínico. Teríamos que ir lá, fisicamente, teríamos que apalpar, farejar aquela imensa e florestal Sibéria. O Amazonas não é um mundo, são vários mundos”. Nelson Rodrigues.

Áureo Nonato é redator da Rádio Roquete Pinto, emissora oficial do Rio de Janeiro e Assessor de Imprensa da Fundação Casa do Estudante do Brasil.

As lembranças de minha infância em Manaus, passada no meu pequeno bairro de São Raimundo, lá pelos começos dos anos 30, são tantas e variadas que as vezes não sei por onde começar um relato mais precioso e mais preciso das mesmas, pois como que se entrelaçam nas suas vivências e recordações.

Como esquecer a minha, a nossa rua da Sede, onde nós os meninos do bairro: Dióla; Aurélio, meu irmão; Nano; Higino; e tantos outros, passávamos tardes e noites intermináveis, ora em combativas “peladas”, outras vezes em compridas conversas na calçada da sede do São Raimundo Sport Clube, algumas outras ouvindo, entre espantados e atentos, as estórias fantásticas de “seu” Estandelau, e muitas e muitas outras vezes, em fantásticas noites enluaradas, comendo as melancias que íamos comprar, a mando do papai, nas praias a beira do igarapé.

Como esquecer as famílias que moravam ali e com as quais dividíamos as nossas atenções e as nossas amizades?! Do “velho” Chato, da Dona Marieta, sua mulher, da Rita, da Nathalia, do Xiloca, do Juquita e da Das Neves, seus filhos. Da “velha” Mariquinha, que morava numa casa que todos acreditavam ser mal-assombrada e de suas duas misteriosas filhas, já trintonas, Maria Gága e Izaura. Do “seu” Antonio Macedo, de sua mulher Dona Antonia Bandeira, e de seus filhos Raymundo Macedo, um dos “mocinhos” do bairro; Maria Macedo; e Lourdes Macedo, uma das meninas mais bonitas que já conheci!

Toda essa gente, gente simples, gente boa e honesta, povoa as lembranças de minha infância!

Nossa casa ficava já quase no fim da rua, esquina com a rua São Francisco, ou “rua da Bosta” como era mais conhecida. Nela, logo depois da casa mal-assombrada da “velha” Mariquinha, morava o “seu” Zuza, da família Cavalcante e irmão de “velho” Chato, com sua mulher Dona Laura e seus filhos: Loló, uma moça morena e bem vistosa; Amadina; Ribamar e Aureliano, e já quase no fim da rua morava uma numerosa família negra descendente de escravos e na qual se destacavam impressionantes tipos como o “nego” Tota; a Rosária; a Dona Dora, uma mulher mansa e humilde de coração, e com a qual tínhamos em nossa casa uma estreita e sólida amizade, pois além de ser a nossa “lavadeira de roupa”, nos aconselhava como se fosse uma nossa “mãe preta-velha”.

Bem me lembro de nossa revolta, quando um dia soubemos que iam “tirar” o nome da nossa querida rua da Sede. Era a Prefeitura que queria homenagear um membro de família ilustre de Manaus: o Doutor Araújo Jorge. A nossa rua nunca aceitou o novo nome e até hoje ela só é lembrada e referida por todos nós como rua da Sede.

Eram numerosas as famílias do bairro de São Raimundo. Os Bessas, os Almeidas, os Normandos, os Mouras Nascimento, os Rebouças, os Macedo e os Cavalcante formavam os grandes clãs do bairro. Para citar somente um deles: o clã dos Cavalcantes. Esse era formado pelo “seu” Zuza e o “velho” Chato que eram irmãos de “seu” Francisco das Chagas Cavalcante, sua mulher dona Francisca Rebouças Cavalcante e seus filhos: Edina, Enedino, Enedito, Enéas, Esmeraldino, Edgard (este afilhado de meus pais), João, Francisquinha, Maria Rosa, Raimundo (que atende pelo nome de Beloso) e Adhemar.

Hoje, decorridos quase cinquenta anos, muita gente dessa gente ainda vive ali no meu querido bairro de São Raimundo.

sexta-feira, maio 01, 2026

BAIRRO DE SÃO RAIMUNDO

A reportagem que aqui postada, escrita há 50 anos, analisava este bairro, também conhecido por Colina. Em página inteira de A Crítica, edição de 26 de julho de 1976, pode-se observar a situação daquele espaço. Mas, conhecedor daquele arrabalde, que nunca teve uma agência bancária ou supermercado de porte, dois itens de expressão de progresso, creio que o jornalismo foi muito condescendente com as agruras do bairro de São Raimundo Nonato.
Igreja de São Raimundo Nonato


PONTO DE VISTA

“Não desprezamos o comentário de alguns e críticas de outros de que o bairro de São Raimundo poderia estar numa situação mais privilegiada, tanto no setor econômico, quanto no aspecto social, não fosse a falta de raciocínio lógico por parte de alguns que se deixaram vencer pelo pessimismo. E isto é comprovado por razões convenientes”, esclareceu o advogado Antonio do Carmo Moreira Filho (Rua Padre Francisco, 151) que nasceu e se criou na Colina. Com sacrifício ele conseguiu se formar em 69. Ele tem 34 anos e diz que “quando Manaus apenas engatinha em busca do progresso, a bonança financeira se expandiu neste bairro, pois São Raimundo figurava como o principal centro de distribuição e exportação do maior gênero de consumo alimentício (bovino, suíno e caprino), uma vez que 80% dos moradoras mantinham o sustentáculo financeiro, através do Matadouro Municipal de Manaus.”

“Construíram o campo da Colina, moderna sede social, praças públicas. Renovaram a Igreja de São Raimundo Nonato, hoje considerada uma das mais belas da Zona Franca e que serve de atração turística. Modernizaram o sistema de esgoto e o teatro para uma lotação de mais de 500 pessoas, enfim o bairro ganhou um aspecto invejável pela sua vida própria. “Todavia - prosseguiu - sem apontar diretamente os seus responsáveis, a carência de uma visão mais ampla na área educacional, na época, praticamente nada se fez, e isso como não poderia deixar de acontecer, acarretou saldos negativos”. Frisa o causídico que “enquanto uma minoria educava os filhos em outros centros, visto que Manaus possuía apenas a Faculdade de Direito, a maioria não atentava para este fator. Mas, pela graça de Deus, a maior parte da juventude se evoluiu pela boa vontade, abnegação ao aprimoramento da cultura e zelo patrimonial, o que transcenderam a imagem positiva do povo colinense”.

Título da reportagem de A Crítica, 26 julho 1976

Hoje, ainda se prima pela união das famílias sanraimundenses, sem divergências de classes. Médicos, engenheiros, jornalistas, economistas, universitários, a classe operária e outros profissionais contribuem ao engrandecimento do subúrbio e ao mesmo tempo conservam suas tradições, muito embora não exista mais a rivalidade entre os dois principais clubes, São Raimundo e Sul América. O famoso “Galo Preto”, mesmo a despeito da força de divulgação do futebol, não traz mais aquele delírio alucinante dos torcedores. “Tudo se modifica com o tempo. Gosto de futebol e torço pela vitória de qualquer um. Afinal, a vitória é nossa, do bairro de São Raimundo”, acentuou o comerciário Uziel Dourado (26 anos), afirmando que o óbvio é se construir o presente”. O ex-jogador de futebol Alfredo Correia Lima, o conhecido Fredoca, é hoje comerciante e proprietário do “Bar Canto do Tufão”, onde noturnamente se reúne a turma boêmia. Fredoca relembra os seus tempos áureos do futebol e seu fã no bairro de São Raimundo, frisando que “a juventude atual tem os mesmos costumes da passada”. “A rivalidade entre os dois clubes ainda existe. Apenas se conserva com outro senso, pois temos outras tarefas a desenvolver e o tempo é muito curto”, salientou. Na Rua 5 de Setembro se encontra o “Bar São Francisco” que pertence a um sulamericano. O “Bar São Francisco” é dirigido pelo ex-jogador do Sul América Esporte Clube, Aristides Nonato, que desde a sua juventude se firmou como comerciante. (...)

Outras pessoas opinaram sobre o bairro de São Raimundo, que em parte foi abalado com a extinção do Matadouro de Manaus, pois muitos moradores ficaram desprotegidos financeiramente. Aproximadamente 300 pais de família sofreram o impacto, uma vez que eles se acostumaram tão somente a lidar com serviços rotineiros do matadouro.

“O próprio Frigomasa não corresponde com as perspectivas da classe de magarefe. A minha produção caiu em quase 100%”, afirmou o magarefe José Inácio da Costa Oliveira (Rua do Rosario, 714A, que atualmente também trabalha como vigia no Distrito Industrial. Declarou que ganhava na faixa de 8 mil cruzeiros e atualmente “dou graças a Deus”, quando ganho a metade. José Inácio é casado com Marilda Alves Oliveira e possui quatro filhos menores que estudam no Grupo Escolar São Luiz de Gonzaga. O magarefe Manoel da Silva Macedo (Rua da Cachoeira, 471) trabalha no mercado do Bairro da Glória e possui uma estância de seis quartos, no beco da Cachoeira. Mesmo assim, ele afirma que sente dificuldade financeira, pela falta constante de venda do produto. (...)

 

PRIVILÉGIO

Porém, existem outras classes privilegiadas financeiramente que procuram oferecer melhor social ao bairro, construindo casas modernas e prestigiando os próprios clubes, São Raimundo e Sul América.  O primeiro dirigido pelo vereador Arenista Raimundo do Vale Sena e o segundo pelo chargista João Miranda. Embora sem confirmação oficial, comenta-se que a sede social do São Raimundo será de dois andares, para que os seus associados e simpatizantes tenham melhores bailes domingueiros, chouparias, churrascaria e boate. Esta nova arrancada, marca o progresso do bairro.

As ruas do Bairro de São Raimundo são quase todas asfaltadas com um sistema de iluminação perfeita. A praça principal ganha melhor aspecto, porque nela está situada a Igreja de São Raimundo Nonato, ladeada pelo Convento das Irmãs Franciscanas de Maria e a casa paroquial. O serviço de transporte coletivo atende as necessidades dos moradores e poderá sofrer alteração, pois o prefeito Jorge Teixeira garante que será construída a ponte que interligará São Raimundo com o centro da cidade. (...)

EDUCAÇÃO

Existem fatos que marcam a existência do Bairro de São Raimundo, onde muitos moços se definiram profissionalmente. E hoje, é travada uma nova luta em busca de um futuro mais próspero por parte da juventude que, com maiores chances de conseguir emprego, procura atingir o campo universitário ou se estabilizar numa profissão rendosa. 50% por cento dos jovens da Colina são comerciários, industriários ou escriturários, trabalham oito horas por dia e estudam na parte noturna. Outros são bancários, funcionários de repartições públicas e não escondem o temor pela “guerra” do vestibular. (...)

FRATERNIDADE

Com o pensamento de que somente através do zelo espiritual se atinge a meta de Deus e, consequentemente, a felicidade, pelo respeito e amor ao próximo, a evolução do tempo e o progresso não atingiram o espírito religioso da maioria do povo colinense que aos domingos assiste missa celebrada pelo Padre Teodoro, atual Vigário da Paróquia que sempre procurou orientar a juventude pela causa da religião. Com a aproximação do dia consagrado a São Raimundo Nonato, a população com mais frequência comparece no templo religioso para pagar ou fazer promessas e deixar sua contribuição para a realização do tradicional arraial, comandado pelos rapazes da Juventude Atlética Paroquial (JAP) e moradores selecionados pelo próprio vigário da paróquia.

A passagem da data consagrada ao padroeiro também faz lembrar o maior desastre já registrado na Colina, há 24 anos, quando anais mais de 30 casas foram destruídas por um incêndio, sem, contudo, se registrar vítimas. As famílias desabrigadas ficaram depois morando provisoriamente num casarão erguido onde hoje está situada a sede social do São Raimundo Esporte Clube.

O arraial de São Raimundo se mantém com a disputa das rainhas, em busca do título máximo - cada uma representa as respectivas ruas - das tradicionais famílias sanraimundenses, principalmente no último dia dos festejos, quando se realiza a procissão. Conserva-se neste dia o enlace fraternal das famílias Queiroz, Bessa, Rebouças, Melo, Correia Lima, Gonçalves, Ribeiro e tantas outras. As jovens dão o colírio da rapaziada.

O vigário Padre Teodoro é holandês, mas se confessa sanraimundense de coração. Há três anos, ele dirige a paroquia, mas já a serviu há anos passados. Conhecedor profundo dos problemas do bairro, Padre Teodoro se reúne constantemente com os moços da Juventude Atlética Paroquial (JAP), Clubes das Mães e outras entidades filiadas à paróquia, traçando normas sobre a filosofia de que só trabalho e a ordem elevam a comunidade, cujo tema foi amplamente debatido pelos religiosos por ocasião do Congresso Eucarístico.