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sábado, março 21, 2026

CENTENÁRIO DE ARMANDO DE MENEZES (HOJE)

Hoje completaria 100 anos de idade o saudoso Armando Andrade de Menezes (1926-2017), parintinense que, concludente da Faculdade de Direito do Amazonas (1954) integrou com méritos o Tribunal de Contas do Amazonas. Memorialista e professor, participou dos grêmios literários do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) e da Academia Amazonense de Letras, entre outros. Todavia, foi uma associação que prosperou sob a denominação de Chá do Armando que o tornou admirado pelos inúmeros frequentadores, crismados de chazistas. Foram os remanescentes deste grupo que se congregaram para festejar o centenário do patrono.
Como o Chá mudou de sede repetidas vezes, assim aconteceu
com esta comemoração: foi mudando até chegar ao 
Mirante da Cidade.

Novamente recorro ao exemplar que a Edições Chá do Armando publicou em homenagem ao seu fundador e mantenedor. Intitulado de “O Chá do Armando – em prosa e verso”, circulou em 2012, dirigida pelo Almir Diniz e outros, entre os quais me incluo. A prosa e o verso transcritos são de autoria do falecido poeta Jorge Tufic (1930-2018).
 

O "CHÁ DO ARMANDO"

 

O Chá do Armando é a ceia dos poetas / já bem longe da tola hipocrisia; / e enquanto fraterniza essa harmonia / tenta evitar as reuniões secretas.

As farpas são contidas e discretas, / há mais poder no afeto e na poesia. / Tudo ao redor são telas; e a magia / se desprende das cores prediletas.

Anísio Mello distribui o pão, / Armando se reveza com o Diniz / nas benesses do néctar temporão.

Guardo esta cena (o tempo vai, remoto) / do Armando com seu grupo: tão feliz / quanto algum dia numa outra foto.

Icaraí (CE), 26/10/2008

Jorge Tufic (👇)

 


ARMANDO DE MENEZES

Deixo a memória fluir, e logo me vejo numa esquina de Manaus, debaixo de uma lanterna grande, iluminada a carvão, com o ano da folhinha parado em 1945. Era a rua dos Andradas com a Pedro Botelho, ou rua Oriental. Quase em frente ao muro da “estância” onde morávamos, eu, meu irmão e nossos pais, erguia-se a fachada de não sei quantas janelas da casa dos Menezes. Foi ali, nesse pedaço de urbe ventilado, que, aos poucos, fui conseguindo distinguir, ao longe, os donos daquele espaço:

Dona Santa, o Dr. Tude e seus numerosos filhos, dentre eles Armando, do qual tornei-me amigo incondicional a partir de seu ingresso na Academia Amazonense de Letras. A todos os outros, porém, sem exceção de nenhum, sempre dediquei respeito e admiração. Alberto, no antigo INPS, foi meu chefe de Grupo, o melhor que tive em minha passagem pelo famoso Instituto.

Em Armando, desde que um dia lá perdido cruzamos nossos passos, ficou a marca do afeto cada vez que o cumprimento formal se fazia necessário, tão diferente daquele que vinha do mesmo cotidiano, da mesma província aconchegante, dos mesmos recantos públicos. Havia qualquer coisa a mais no gesto e na fala desse generoso cavalheiro, descendente dos Andradas e cujo Menezes eu jamais desligara da verve e do talento daqueloutro, o Emílio, irmão poético de Bilac e Guimarães Passos. Foram, pois, décadas que me deram a conhecer, aqui e ali, do mais novo ao mais velho do clã, com Maria Luiza, a única, sob a forte proteção e o carinho dessa gloriosa estirpe de amazonenses.

Intelectual de raça, poeta, escritor, este Armando de Menezes surpreende, também, pelo carisma, rodeando-se de gente igual a gente no famosíssimo Chá do Armando, uma sociedade de carbonários voltada para o drinque com moderação e a crítica literária, onde pontificam mestres e doutores de nossas Universidades, sem falar nas reuniões de todas as sextas-feiras, convidados especiais.

Autor de 14 livros publicados, e ainda na plenitude da energia criadora, devota-se ele à pesquisa da história, sendo marcante a contribuição que tem dado às suas próprias memórias e de sua família, prática essa exemplar, quando sabemos que o livro resiste, com bravura, a qualquer tipo de avanço tecnológico, por mais útil que seja. O resgate e a datação desses fatos, aliás, ocupam, hoje, os pesquisadores e os arquitetos ligados aos municípios brasileiros, tendo sido possível, deste modo, manter patrimônios históricos como a casa de Humberto de Campos, na Parnaíba.

Meu depoimento seria longo acerca de Armando de Menezes, remontando aos cenários da Esquina dos Valentes, do Clube do Remo e da Joaquim Nabuco (sobre o qual escreve, lembrando o abolicionista) dos bondes a caminho de Flores, da Chapada, dos Bilhares. Mas prefiro, a isso, deliciar-me com a lembrança de Thiago de Mello ter escolhido, anos após, justamente aquele trecho de nossas ruas, para empinar papagaios.

Jorge Tufic

Fortaleza, 26/11/2010