CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sábado, setembro 12, 2026

ANALOGIA

Urna eletrônica usada nas eleições
 

Renato Mendonça

07.09.2026

Há algo de inquietante na estrutura do poder que nos obriga a refletir. Recordemos a passagem narrada por Lucas, no capítulo seis do Novo Testamento:

“Em outro sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar. Estava ali um homem que tinha a mão direita atrofiada. Alguns mestres da Lei e fariseus observavam Jesus com atenção, esperando que curasse alguém no sábado, para acusá-lo de desobedecer à Lei. Mas Jesus, conhecendo seus pensamentos, disse ao homem: — Levante-se e fique em pé aqui na frente. O homem se levantou. Então Jesus perguntou: — O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal? Salvar ou deixar morrer? Olhou para todos e disse ao homem: — Estenda a mão! Ele a estendeu, e ela sarou. Os mestres da Lei e os fariseus ficaram furiosos e começaram a conspirar contra Jesus.”

Naquele templo público, Jesus não se limitava a palavras: fazia da própria ação a sua homilia. Cada gesto era uma parábola viva, cada cura, um evangelho encarnado. A solidariedade e a caridade não eram conceitos abstratos, mas verdades de Deus, pilares de amor que se manifestavam em qualquer dia da semana, sem submissão às regras frias elaboradas pelos homens.

À sombra das colunas, porém, os mestres da Lei e os fariseus não eram guardiões da fé, mas sentinelas do Império Romano. Traíam o próprio povo, denunciando aquele que pregava o amor e a justiça. Armavam ciladas, como se a vida de Jesus fosse um permanente julgamento, até culminar na encenação teatral da crucificação.

Dois milênios se passaram, mas o teatro da dominação continua. Hoje, não são fariseus diante do altar, mas parlamentares diante das câmeras e dentro do Congresso; não é Roma que dita as regras, mas uma potência estrangeira — o governo norte-americano — que sussurra ao ouvido de lacaios modernos, travestidos de parlamentares. Alguns chegam a propor, sem rubor, a entrega das riquezas minerais do país, como se a soberania fosse mercadoria exposta em praça pública.

Não há entre nós a figura de Jesus sendo denunciado, mas há um governo eleito pelos mais vulneráveis, atacado e vilipendiado com o auxílio dos meios de comunicação. É como se já se preparasse um novo Sinédrio, articulado com forças externas, pronto para julgar não um homem, mas a própria independência nacional, a nossa soberania.

O parlamento, nesse cenário, pode ser visto como o Sinédrio contemporâneo: manipulado, comprado com moedas de ouro subtraídas do povo e guardadas em cofres particulares, com a conivência de falsos mestres da lei.

Mas há uma diferença crucial: temos o voto. O voto é a nossa palavra sagrada, o gesto que pode expulsar os vendilhões do templo da política. É nele que repousa a chance de purificar o parlamento, de devolver ao povo o altar da soberania.

Cabe a nós, então, denunciar os lacaios e bani-los do embate político. Cabe a nós escolher aqueles que caminham ao lado dos pobres, que sustentam a solidariedade como princípio e que não se curvam ao poder estrangeiro. Pois, assim como Jesus estendeu a mão ao aleijado e curou, também nós podemos estender nossa mão, colocar nosso voto na urna e curar a Democracia.

Bom voto a todos, boas escolhas!

terça-feira, março 31, 2026

31 DE MARÇO - 62 ANOS DO GOLPE MILITAR

 Em 1964, estava encerrando o ensino médio, quando explodiu a revolta militar. Vinha acompanhando a situação do país por duas vias: uma, pela leitura dos jornais do eixo Rio-São Paulo; outra, pelas conversas com nossos professores, alguns recolhidos ao cárcere acusados de subversivos. Segui assistindo o desdobrar do movimento na capital amazonense que, longe do centro político, pouco pode registrar. A postagem cabe ao Renato Mendonça, bem mais jovem, mas que se mudando para o Sul, acompanhou o desenrolar da repressão. 

Extraído da Internet 

Quando se fala em golpe de Estado, o imaginário nacional costuma se fixar em 1964. Talvez porque tenha sido conduzido pelas Forças Armadas e tenha inaugurado um longo ciclo de 21 anos de ditadura. Mas a História brasileira, se folheada com atenção, revela que os golpes — ou movimentos antidemocráticos — atravessam séculos, desde o período colonial e ameaçam até os dias de hoje.

O primeiro registro remonta a D. Pedro I. Em 1823, dissolveu a Assembleia Constituinte que ousava limitar seu poder e, no ano seguinte, outorgou a Constituição de 1824. O episódio ficou marcado como “A Noite da Agonia”, quando deputados foram presos sob a sombra dos militares. Mais do que golpe, foi a expressão crua da autocracia imperial.

Poucos anos depois, em 1831, o mesmo imperador abdicou em favor do filho de apenas cinco anos. O país mergulhou em uma década de regências e revoltas, até que, em 1840, um novo arranjo político antecipou a maioridade de Pedro II. Aos 14 anos, o adolescente assumiu o trono — um golpe parlamentar travestido de solução.

A monarquia, porém, não resistiria ao ímpeto militar. Em 1889, marechal Deodoro da Fonseca derrubou Pedro II e proclamou a República. Para alguns, um marco democrático; para outros, apenas mais uma ruptura imposta pela farda. Dois anos depois, o mesmo Deodoro fechou o Congresso e decretou Estado de Sítio. Renunciou em seguida, deixando o poder a Floriano Peixoto. A República nascente já se habituava ao compasso dos golpes.

Em 1930, Getúlio Vargas ascendeu ao poder após contestar a vitória de Júlio Prestes. A chamada Revolução de 30 depôs Washington Luís e inaugurou um governo provisório, que se prestava a fomentar um novo golpe. Sete anos depois, um documento forjado — o Plano Cohen — serviu de pretexto para Vargas instaurar o Estado Novo. A democracia, mais uma vez, foi interrompida, com receio de uma revolta comunista.

O golpe de 1964, por sua vez, permanece como cicatriz aberta. João Goulart, eleito democraticamente, foi deposto sob o argumento de conter uma suposta ameaça comunista. A intervenção militar contou com apoio de setores da imprensa, da elite e dos Estados Unidos, e mergulhou o país em duas décadas de autoritarismo.

A História brasileira, assim, parece dançar em torno de rupturas: ora pela espada, ora pelo Congresso, ora pela manipulação do pânico moral, ora por engodos de parlamentares. O palco se repete, os atores mudam, mas o enredo insiste em desafiar a democracia — e ameaça de ruptura. Que não seja necessário novo ato. Que os eleitos cumpram seus mandatos, que os derrotados aceitem o jogo republicano e que o país não precise assistir a mais uma coreografia de golpes — sejam militares, parlamentares ou institucionais.

Renato Mendonça