CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quarta-feira, abril 15, 2026

RECORDAÇÃO CONJUGAL

 A postagem é de autoria do Renato Mendonça, meu irmão, que se tornou viúvo há quatro meses, no final de 2025. Seu texto relembra a “dor da ruptura”, depois de longo período de vida conjugal bem vivida.

  Cama Vazia 

 

Izabel Tereza

Quatro meses se passaram desde que a ausência e uma perda se instalaram em minha vida, e ainda hoje não consigo me desvencilhar de uma vigília silenciosa de tristeza que habita meu coração. A dor nasce de uma ruptura resignada, mas jamais assimilada em meu peito: meio século de convivência interrompido.

Izabel Tereza — a minha Bela — partiu no final do ano passado, atravessando o limiar para sua vida espiritual. Tento me consolar com a certeza de que deixou de sofrer, após sete longos anos acamada. Mas a lembrança doce e pungente de minha missão de cuidador — e por vezes, técnico de enfermagem — insiste em permanecer: o zelo diário, as tentativas de preservar sua vitalidade, o esforço em manter sua presença saudável entre nós.

Foram anos de aprendizado e de silêncio, em que sua mente já não podia traduzir dores ou dilemas. Eu, por vezes, também precisei recorrer ao socorro médico para sustentar meu próprio equilíbrio físico e espiritual. Ainda assim, o que me ampara agora são as memórias luminosas da nossa vida conjugal.

Conheci a Bela em uma loja de discos, onde cada encontro parecia ter trilha sonora. Roberta Flack embalava nossos sonhos pequenos, mas promissores — Killing Me Softly era a canção que nos unia em promessa e ternura. Depois veio o casamento, simples e exuberante em alegria, em Barra Mansa, cercado de família e esperança. Vieram os filhos — Marcelo, Patrícia e Fernando — e com eles a alegria das peraltices e dos rostos angelicais. Todos eles me encantaram e pude me aconchegar nos seus mimos infantis.

Izabel foi o coração pulsante da nossa casa. Mãe, tutora, diretora da escola invisível da vida, dedicou-se inteira à educação dos filhos, enquanto eu me ausentava para atender à demanda do trabalho. Em cada cidade que nos recebeu e acolheu — Santos, São José dos Campos, Natal, Barra Mansa, Niterói — reinventamos juntos o lar, criando novas coreografias para o cotidiano.

A cama vazia é ausência, mas também altar de penitência. Nela repousa, para sempre, o amor que nos sustentou. É nela que se fixa o meu olhar sobre um passado feliz e glorioso. É ela que devolve os melhores instantes da vida conjugal: doce é navegar nesse mar de lembranças. Recordo os dias e noites das festas natalinas em Vila Maria, na vibrante Barra Mansa, desfrutando o aconchego de um modesto chalé à Rua Antônio Graciano da Rocha. Crianças e adolescentes, hoje adultos, se deliciavam com os presentes trocados; os mais criativos entre os adultos se revezavam em encenações amadoras, imitando Elvis, Magal ou os Mamonas Assassinas. Todas essas alegorias ganhavam ritmo com a música ao vivo, protagoniza pelos talentosos rapazes de outrora — uma verdadeira celebração que reunia a grande família e os vizinhos, sempre prontos a se convidar para assistir aos espetáculos de afeto. Era ela quem congregava todos, com seu carisma singular e sua humanidade transparente.  

Hoje, às vésperas dos meus setenta e cinco anos, procuro recompor a vida em territórios distintos. No quarto, a cama hospitalar ainda repousa como testemunha silenciosa dos últimos sete anos de sua luta obstinada pela sobrevivência. É diante dela que recolho minhas orações, em murmúrio contido, tentando remover a pedra do sepulcro para reencontrar sua presença. Sei que é delírio, sei que é impossível. Mas me recuso a deixá-la morrer dentro de mim.

13.04.2026

sábado, junho 29, 2024

SANTOS DE JUNHO E DA FAMÍLIA (2)

 Conclusão da crônica NOVIDADE, de Renato Mendonça, iniciada na postagem anterior.

Renato Mendonça, em comemoração, 2006

No meu caso, quando eu tinha treze anos e frequentava um colégio interno no meu segundo ano de clausura, um fato ficou marcante. Fui castigado pelo vice-reitor do educandário, pois me julgou como cúmplice de uma mentira praticada por um colega de mesma faixa etária. Essa mentira envolveu um falso pedido de dinheiro emprestado. Naquela época a comunidade de alunos não perdoou, fez circular cartazes onde nos comparavam à instituição financeira “Moreira Sales”, que eu jamais tinha ouvido falar. Uma imensa galhofa que logo acabou, pois estávamos no fim do ano letivo. Só agora, quase sessenta anos depois, li que o Banco Moreira Sales — depois, antigo Unibanco, e atualmente Banco Itaú —, em comemoração ao centenário de fundação, contratara o show da Madonna, apresentado aqui no Rio de Janeiro em maio desse ano. Para mim, uma novidade temporal. (...)

Por exemplo, eu procuro ser um fingidor, se adubar a palavra com um conceito mais nobre: finjo que sou um escritor. Às vezes, ouso me transformar num carpinteiro ou num marceneiro; outras vezes, assumo a condição de um Técnico de Enfermagem ou de um Cuidador; e, por inúmeras vezes, um chef de cozinha. E quem não me conhece, pode até acreditar. O fingir também é uma novidade, um aprendizado, ou a primeira arte do ator da vida. Lembro-me, com carinho e um indisfarçável orgulho de pai, quando certa vez alguém perguntou ao meu filho, sobre uma atividade que eu me propus a fazer, mesmo sem o pleno domínio: “Você acha que ele sabe?!” O filho respondeu de forma categórica: “Sabe, sim. Se não sabe, ele inventa...”, naturalmente, ele quis dizer: meu pai inventa que sabe. Em outra ocasião, há bastante tempo, quando eu murmurava para mim mesmo e reclamava das rugas no meu pescoço, outro filho acrescentou um comentário com sutil ironia: “Já tá... já era, pai”. Apenas ri da maneira sucinta de ele me dizer que não adianta se preocupar com o exterior, o mais importante é a estrutura interior, tanto material quanto imaterial. E sempre rio, quando relembro essas abordagens, que paradoxalmente me fazem bem à alma.

É sempre oportuno citar outros ensinamentos do apóstolo Paulo, que foi martirizado, supostamente nesta data, no ano 67 da Era Cristã, junto com o outro apóstolo, São Pedro, e por conseguinte os cristãos os homenageiam neste dia de hoje: “Por isso, não desanimemos. Mesmo se o nosso homem exterior vai se arruinando, o nosso homem interior, pelo contrário, vai-se renovando a cada dia. Com efeito, o volume insignificante de uma tribulação momentânea acarreta para nós uma glória eterna e incomensurável. E isso acontece porque voltamos os nossos olhares para as coisas invisíveis e não para as coisas visíveis. Pois o que é visível é passageiro, mas o que é invisível é eterno.” (2Cor 4,16-18). Para finalizar, concluo que não há razão para lamentar o avanço da idade, pelo contrário, cada novo dia que conseguimos viver será sempre um regozijo, um júbilo, uma canção de glória — uma dádiva divina!

SANTOS DE JUNHO E DA FAMÍLIA (1)

 O primogênito de seu Manuel Mendonça não se olvidou dos ensinamentos recolhidos no Seminário São José, não obstante o ralo período naquela Casa. Hoje, seu natalício, por ser Pedro, Renato retorna com uma crônica revisora, para lembrar a si e os demais filhos de Francisca (nossa mãe). O trabalho vai partilhado em duas partes, pela extensão.

Na ordem do nascimento: Antonio (13) Manoel (17) e Pedro (29).

Antonio, pai Manuel, Pedro e Manoel, 2006, em
Barra Mansa-RJ

NOVIDADE

29.06.2024

Apesar do título sugestivo, não há nenhuma novidade no que vou dizer: apenas a “nova idade”. É simplesmente o resultado do abraço entre essas duas palavras. Bem que o sentido etimológico da palavra “novidade” poderia ser: uma nova idade para se viver. No entanto, não tem nos dicionários nenhuma acepção que transmita essa ideia, e sim: “condição daquilo que se vê, se conhece ou se sente pela primeira vez.” Sendo assim, a temática está lançada de olhos vendados, vamos tentar desvendá-la.

A novidade fica por conta da idade que se adquire como nova, e o que ela representa a partir de agora, dentro do contexto social da nossa natureza humana. Podemos nos aliciar de um desejo súbito para que ela nos encoraje a aprender, feito um novo discípulo, nessa estação da vida. Não há como rejuvenescer o semblante, que será a cada dia mais fechado sem ao menos percebermos, mesmo tendo o espelho como testemunha; com certeza, estaremos mais sisudos por conta dos compromissos diários, que nos parecerão a cada dia fardos mais pesados. Então, resta-nos rejuvenescer o espírito. E, aí sim, está a novidade!

Nessa longa viagem, rumo ao desconhecido por nós, não ficamos sabendo quantas fronteiras poderemos cruzar. Entretanto, em cada um desses territórios alcançados, encontraremos as novidades que iremos precisar, todas facilitadas pela benevolência de Deus. E entre essas novidades está a qualificação do discernimento, arraigado em nossa consciência, como um diploma conquistado na escola da vida. E isso viabiliza encontrarmos sempre as melhores alternativas, ou simplesmente o melhor caminho para se prosseguir na missão humana.

Sinto-me ainda hoje como aquele irrequieto menino que, de posse do seu livro didático, já começa a ler a lição seguinte, mesmo sem a explicação do mestre, o que julgo ser uma sadia inquietação. E é assim que eu, que recém passei a frequentar a casa dos setenta, já começo a bisbilhotar o que se passa na casa dos oitenta; quero ver como vivem ou o que pensam os seus moradores, quais são seus anseios e suas preocupações. Quero entender os sintomas dessa doença moderna, que chamam de depressão, para tentar achar o antídoto contra esse mal. Talvez esteja exclusivamente na preservação do bem-estar do espírito.

Espero cumprir com saúde o meu contrato de locação nesta casa em que estou, sem inadimplência. Preciso cuidar do corpo e da alma também, para que não ocorra um distrato antecipado. Para o corpo podemos consultar os médicos, e temos os exames de imagem e evidência, necessários para conjugar o verbo que nunca deve sair de nosso dicionário da vida: amar! — Amar como Jesus amou; pensar como Jesus pensou e viver como Jesus viveu, prega e nos emociona o verso de uma canção gospel. E, se quisermos nos fortalecer com os ensinamentos bíblicos do Novo Testamento, sigamos o que nos instrui São Paulo: “Alegrai-vos, procurai a perfeição, encorajai-vos, tende um mesmo pensar, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco.” (2Cor 13,11)

A novidade por certo me leva a um novo patamar dessa vida e a um novo cômodo da casa, onde os personagens são os mesmos, mas o cenário muda aos poucos. Ali, ficarei curioso para descobrir novas nuances da idade, e terei a indiscrição de querer olhar para as casas anteriores, para ver o passado e fazer uma releitura do que foi plasmado com as lições de outrora. Olhar para trás não significa entrar em estado de nostalgia, e sim deixar a mente satisfeita com o prazer da recordação, embora alguns pontos fiquem anuviados quando relembrarmos. Esses momentos podem ser reconstruídos com nossos conceitos atuais; podemos viajar no tempo e, quem sabe, encontrar ali alguma novidade que até então não tinha sido discernida. (segue em Santos de Junho e da Família)