CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

29 de abril de 2015

HISTÓRIA E GEOGRAFIA DO AMAZONAS (1)


Ginásio Amazonense, ainda em construção
No segundo governo dos irmãos Nery (1904-07), circulava em Manaus uma “Revista destinada a vulgarização de documentos geográficos e históricos do Estado do Amazonas”, intitulada ARCHIVO PÚBLICO. Tais documentos constituíam o acervo desta repartição que, ainda em nossos dias, sem o brilho anterior, prossegue funcionando.
Em 17 de outubro de 1907, Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha (filho do 1º presidente da Província amazonense e dirigente do referido órgão), proferiu uma palestra sobre a História e Geografia do Amazonas. Essa alocução, realizada no Ginásio Amazonense diante de respeitável plateia e do próprio governador, Constantino Nery, foi reproduzida no volume II, datado de 23 de janeiro seguinte.

Dado a extensão do texto, farei a publicação em partes.


Ilustre e seleto auditório, dando começo a minha tarefa submeto desde já à imparcialidade e justiça de vossa crítica, o seu produto, que outro merecimento não tem senão ser meu, e este mesmo ser proveniente da força de vontade que me caracteriza e de documentos autênticos que hei lido.

I

        
O Amazonas foi descoberto em 26 de janeiro de 1500 por Vicente Yanez Pinzon, data anterior ao descobrimento do Brasil por Pedro Alvares Cabral, que se realizou a 22 de abril do mesmo ano, achando-se este então em frente da serra dos Aimorés, a que deu o nome de Pascoal.
Alguns índios, nesse tempo, denominavam Paranayaçu (Paranaguaçu ou Paraná Guaçú) e outros Paranatinga  o Amazonas, e em vista da resposta: Mar ah non de Ayres Pinzon à pergunta: Ainda isto é mar? de Vicente Pinzon, foi que tomou o nome de Marañon, havendo, entretanto, à respeito a versão de ter provindo este nome de um capitão Marañon, que servia às ordens de Pizarro, citado como primeiro explorador de suas nascentes. Teve além deste mais o de Orellana, que lhe deu em 1540 Francisco Orellana, lugar tenente de Pizarro, na excursão deste feita ao rio Casca, próximo de Quito, ao rio Napo, com o fim de descobrir o País das Caneleiras, que se dizia estar no Paranayuaçu, onde aquele saiu, e por ele desceu até o oceano.
Este mesmo aventureiro, nesse ano, substituiu-o pelo nome Amazonas, em consequência de haver encontrado entre os rios Uatumã e Jamundás (Nhamundá) hostes intrépidas e valorosas de índios esbeltos e imberbes, que lhe pareceram mulheres guerreiras, armadas de arco e flechas e as quais investindo sobre ele e a sua força para impedir a sua navegação, arremessaram nuvens de flechas contra o seu bergantim, e de tal sorte, que o impeliram a fugir.
Depois disto, em 1560, foi que Pedro Ursua, encarregado pelo vice-rei do Peru de verificar as notícias levadas à Espanha por Francisco Orellana, sobre o rio das Amazonas, empreendeu a sua viagem de Cusco pelo rio Jutai (Hiutahy), donde passou ao rio Juruha (Juruá ou Hiuruha) destinado a descobrir o império do El Dorado.
Não logrou este os louros da sua aventurosa incumbência, em consequência de ter sido assassinado em meio da viagem por um seu soldado, que fazia parte da comitiva. Depois dessa malograda viagem só em 1636 partiu de Quito com destino aos Encabelados João de Palácios, onde por estes índios foi, no rio de igual nome, assassinado, e, nessa ocasião, podendo escapar da morte, fugiram os leigos, freis Domingos de Briebas e André de Toledo, que pertenciam à sua comitiva.
Desceram os dois leigos o rio Amazonas, arrastados pela sua vertiginosa corrente, conseguindo aparecer em Belém do Grão-Pará, donde partiram então em direção do Maranhão e ai expondo ao governador do Estado a sua aventura, esta lhe despertou o mais vivo interesse pelo descobrimento das terras do Amazonas, até então dos portugueses desconhecidas, e só por isso designou para esse fim a Pedro Teixeira, e fê-lo incontinente seguir de Belém a Quito, a frente de 70 soldados e 1200 índios armados de arco e frechas uns, e como remadores de 45 canoas outros, levando debaixo de suas ordens o coronel Bento Rodrigues de Oliveira, sargento-mor Felipe de Mattos Cotrim e capitães Pedro da Costa Favela e Pedro Baião de Abreu.
Comandante-geral da expedição, e revestido das honras e poderes de capitão-general governador do Estado, o famoso capitão Pedro Teixeira, deu este então execução a sua importante missão, partindo do porto de Cametá em 28 de outubro do mesmo ano de 1637.
Durante o tempo de sua excursão entrou no rio Tapajós, reconheceu as embocaduras dos rios Madeira, Negro e Coari, e subiu o Napo e seus afluentes Aguarico ou Ouro e dos Encabelados, deixando nestes, por prevenção, destacados os seus dois capitães com uma força suficiente, sob as ordens dos mesmos. A sua entrada em Quito foi em setembro de 1638, donde só retirou-se a 16 de fevereiro de 1639, chegando a Belém a 12 de dezembro deste mesmo ano.
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Antes desta extraordinária conquista, ainda no domínio colonial espanhol, e no reinado de Felipe III da Espanha, e II para Portugal, o governador e capitão general do Estado do Brasil baixou em 8 de outubro de 1612 as instruções para a Conquista e descobrimento das terras do rio Maranhão, a vista do projeto de Diogo Botelho submetido, quando governador geral, em 1604, ao governo de Lisboa,  cujo projeto tendo sido adotado pelo seu sucessor Diogo de Menezes em 1610, só depois disto executou-o Gaspar de Souza em 1612, ordenando que a sede das operações para o bom êxito dessa conquista devia ser Pernambuco, e sem perda de tempo transferiu-a para aí em 1613.

Encarregado por Alexandre de Moura em 1615 Francisco Caldeira Castelo Branco do descobrimento do Grão-Pará, nome que deram os portugueses ao Amazonas, consegue este emissário ancorar na baia do Guajará em 3 de dezembro de 1616, fundar a cidade de Belém e instalar sob o governo das Conquistas do Maranhão e Grão Pará o da capitania do Grão Pará como seu conquistador, fundador e 1º governador e capitão mor.

O governo das Conquistas do Maranhão e Grão-Pará, formado pelas duas Capitanias do Maranhão e Grão-Pará, uma independente da outra, esteve subordinado diretamente ao governo geral do Brasil durante o tempo decorrido de 1616 a 1626, por passar, então, a Capitania do Grão-Pará a ser subordinada ao governo geral do Estado do Maranhão e Grão-Pará, inaugurado em virtude da posse do 1º governador e capitão-geral, em 3 de setembro de 1626, cuja nomeação fora de 23 de setembro de 1623.

A lista dos governadores e capitães-mores da Capitania do Grão-Pará, no governo das Conquistas do Maranhão e Grão-Pará, com as datas das suas posses, é a seguinte:
1.     Francisco Caldeira Castelo Branco
– 3 de dezembro de 1616
2.     Baltazar Rodrigues de Melo
– setembro de 1618
3.     Jeronimo Fragoso de Albuquerque
– 30 de abril de 1619
4.     Matias de Albuquerque
– 1º de setembro de 1619
5.     Custodio Valente, frei Antônio Marciano e Pedro Teixeira
– 20 de setembro de 1619
6.     Pedro Teixeira
– maio de 1620
7.     Bento Maciel Parente
– 18 de julho de 1621
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Anteriores às conquistas e descobrimentos enumerados até aqui, outras mais são citadas, que por ora não passam de crenças populares em toda a Amazônia, e de infrutíferas pesquisas científicas de viajantes sábios, que as empreenderam e ainda as exploram, após estudos profundos das duas Américas, da raça dos seus primitivos habitantes, da origem das suas línguas, usos, costumes, religiões, formas de governos, artes e civilização.

Em geral, crê-se, em toda a América, que a origem da população americana proveio do Oriente, do Velho Continente, por via do Estreito de Behring. Onesime Reclus, tratando de Cristovão Colombo e seus precursores escandinavos, no seu livro “A Terra”, avançou as seguintes proposições arrojadas: “No século X, muito antes do descobrimento de Cristovão Colombo, já o Novo Mundo ou Novo Continente, denominado América, havia sido visitado pelos europeus. Alguns noruegueses saídos da Islândia, que então florescia, a crer na história ou na lenda, estabeleceram-se por esse tempo na Groelândia,5 fizeram depois um reconhecimento na direção sul, e chegaram talvez até a colonizar o litoral a que puseram o nome de Vinland ou país da Vinha”.

Como Onesime Reclus, citam-se muitos outros da mesma opinião a respeito da descoberta da América, somente divergindo na era e nos descobridores. Visconte Onofri de Thoron, nos seus Les pheniciens a l’ile de Haiti, referindo-se a Diodoro da Sicilia transcreve deste, provavelmente no intuito de afirmar que aceitou a sua opinião, nela acreditou e repetiu que “aos 45 anos da era cristã, assinalava Diodoro a América, sob o nome de Ilha, por ignorar-lhe a configuração”.

Dele cita também, referente a essa Ilha, o seguinte: “Está afastada da Líbia muitos dias de navegação, e situada no Ocidente. Seu solo é fértil, de grande beleza e banhada por muitos rios navegáveis”.

Além disto, De Thoron atribui aos Cares, 1600aC, a descoberta da América, seguindo-lhes logo os cartagineses na navegação dos mares de Oeste; e, por último, Salomão, que incumbe aos marinheiros fenícios de Irã das viagens à Ofir e Tarschisch, situadas no interior do Amazonas, revestidos da missão de transportarem para Jerusalém, daquelas terras pouco conhecidas, todo o ouro necessário à construção do seu templo.

Destas viagens supõe ter provindo o nome de Solimões, dado ao Amazonas, desde a sua confluência com o rio Negro até a foz do rio Napo, o qual, segundo lhe parece, deverá ter sido primitivamente Salomão. (segue)