Dr. Antonio Loureiro |
Conhecedor de múltiplos percursos da cidade de Manaus de
antanho, o médico Antonio Loureiro, membro de diversos institutos culturais do
Amazonas, descreve, ainda que sintetizado, no Boletim da Academia Amazonense de Letras o local de lazer mais
aprazível dos endinheirados da belle
époque.
A PENSÃO FLOREAUX
Foi uma bela casa avarandada, com um grande pátio e um largo portão de ferro batido, encimado pela denominação da casa,
ali na Estrada Epaminondas, quase chegando à praça
da Saudade e ao cemitério São José, um lugar ermo e longe das vistas da população, dos mais frequentados pelos boêmios amazonenses e pelos seringalistas de saldo, aí por volta de 1910.
da Saudade e ao cemitério São José, um lugar ermo e longe das vistas da população, dos mais frequentados pelos boêmios amazonenses e pelos seringalistas de saldo, aí por volta de 1910.
Do outro lado da rua morou o alsaciano Guntzburger, ativo comerciante aviador de seringais e
recebedor de borracha do interior, que se dedicava ao cultivo de orquídeas, artigo muito requerido pelos alemães, e também vendia bilhetes das loterias e
corridas de cavalos inglesas. Sempre usava um terno de linho branco, possuía orelhas gigantescas e uma total aversão a
assobios, talvez por uma aguçada percepção
auditiva.
Em uma vila vizinha a essa casa viviam dezenas de belas mulheres vindas dos mais diversos países
do mundo e de quase todos os estados brasileiros, para aqui exercerem a
mais antiga profissão do mundo, em um dos grandes centros de concentração de riqueza e um dos maiores em vendas de diamantes.
mais antiga profissão do mundo, em um dos grandes centros de concentração de riqueza e um dos maiores em vendas de diamantes.
Todas as noites para ali se dirigiam polacas, francesas, russas,
alemãs, cubanas, peruanas, portuguesas, chilenas e bolivianas, em rápidas passagens, pois
ali era a central do meretrício.
Também a Floreaux funcionava como cassino, onde os contos de réis ganhos em anos de
trabalho na floresta eram perdidos em segundos,
nas bancas de pôquer, nas mesas de bacará, nas de dados ou nas de ferro, com tampo de mármore branco, onde eram servidas as mais finas bebidas importadas. Bebiam-se os melhores licores de todos os tipos, vinhos franceses,
portugueses, espanhóis e italianos e as maravilhosas champagnes Moet
Chandon, Veuve Clicquot, Bollinger, Mumm e Pommery, entre outras. Sem falarmos dos deliciosos sanduíches e de um requintado cardápio a la carte.
Não era chique tomar cerveja, coisa de gente mal educada,
restrita aos bares próximos ao porto. O vinho era a bebida mais consumida, pois
aqui moravam e trabalhavam 10 mil portugueses, 3 mil espanhóis e 500 italianos,
todos mediterrânicos apreciadores da bebida descoberta por Baco.
Aqui na Floreaux surgiu a fabulosa lenda de que os
seringalistas, para chamarem atenção, acendiam seus charutos com notas de
500$000 (quinhentos mil-réis), um
extremo desperdício, pois equivaliam a mais de 30 libras esterlinas.
A Floreaux, frequentada por mais de uma centena de pessoas, intensamente
iluminada, embalada pelas valsas, lundus, maxixes, chorinhos, funcionava
barulhenta, com seus frequentadores conversando em altas vozes, até a
madrugada, sobre os mais diversos assuntos, quando subitamente todos a
deixavam, rumo às casas das beldades que os acompanhavam, nas traquitanas e
vitorias, que ali faziam ponto.
Nada mais resta da Floreaux. O seu terreno está baldio, o portão
de ferro batido foi levado para o Sul do País, por um parente da proprietária,
que para lá se retirou, antes da crise acabar com a cidade, e com a riqueza que
aqui adquirira. A vila das beldades foi reformada e nem mais se parece com a de
outrora.
Cem anos depois a cidade respira o mesmo clima daquela época.
Agora, dezenas de Floreaux espalham-se por essa imensa metrópole, que continua
sendo a Paris dos Trópicos.
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