CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, outubro 25, 2026

POEMA DOMINICAL (155)

 

O poema postado nesse domingo é de autoria do poeta Álvaro Botelho Maia (1893-1969), circulado no Pathé Journal,  para comemorar o Natal de 1922. 


BANHISTA

Dança no mar a célere banhista,

roupão de seda, sob um sol de praga...

Ao marulho, áureo tango que embriaga,

abre a boca, ergue o ventre, o seio enrista...

 

Mergulha, emerge, nada à nossa vista...


O oceano, amante que a perturba e afaga,


esconde uma perfídia em cada vaga


para o instante supremo da conquista. 

No leito verde, que estremece e estronda,

soluça a carne da mulher robusta,

ao teu beijo, espuma, ao teu abraço, onda!

 

E, enquanto aperta os vagalhões em fúria,


ao lençol brando da estação adusta,


solta o vento lamentos de luxúria...  


sábado, outubro 24, 2026

ANIVERSÁRIOS DE MANAUS

Duas datas da mesma comemoração, a festa de Manaus que, há 40 anos, era mais de um centenário, hoje - neste 24 de outubro - passa de três centenários e meio. 

Recorte do Jornal do Commercio, 24 outubro 1986
     

Manaus, com o status de cidade, está completando hoje 138 anos. Agora tendo aproximadamente 1 milhão de habitantes, ela surgiu da fortaleza de São José do Rio Negro, construída em 1669 pelos portugueses para impedir a invasão dos espanhóis que desciam da Cordilheira dos Andes e, já se aproximavam da região. A história, porém, é mais antiga e remonta a 1639, quando Pedro Teixeira tomou posse da região amazônica em nome da Coroa Portuguesa. Em 22 de junho de 1657, uma tropa comandada pelo cabo Bento Maciel Parente partia de São Luís do Maranhão para o sertão amazônico. Segundo o historiador Mário Ypiranga Monteiro, essa tropa aliciaria perto de 300 índios, e foi o primeiro grupamento de "homens brancos" a fixar-se na área onde hoje é a capital amazonense. Antes deles, ocupavam secularmente a região, os índios Manáo, Bares e Mura.

Post da Prefeitura de Manaus


Manaus 357 anos 

                    editorial do Jornal do Commercio, hoje circulado 

Manaus completa 357 anos, nesse 24 de outubro, envolta por uma névoa de fumaça que contrasta com a grandeza de uma metrópole de mais de 2,3 milhões de habitantes. A imagem remete ao início do século 20, quando a cidade ainda dependia do porto e da lenha, mas hoje abriga um dos maiores poios industriais do país e desafia distâncias continentais para garantir abastecimento, emprego e renda.

Cercada pela floresta e ligada ao Brasil e ao mundo por rios, estradas e transporte aéreo, a capital amazonense construiu uma logística singular, sustentada pela resistência de sua população e pela força de sua economia. Seu Distrito Industrial, o comércio e a diversidade de seus moradores fazem de Manaus uma das grandes capitais brasileiras. Mas a fumaça das queimadas, trazida pelos ventos de municípios amazonenses e até de outros Estados, impõe uma dura realidade.

A poluição altera a rotina, ameaça a saúde e obriga mudanças na programação oficial do seu aniversário. A comemoração, desta vez, precisa ser mais reservada, porque não há festa que justifique expor a população a um ar de qualidade instável. Manaus resiste ao tempo, à geografia e aos desafios logísticos.

Aos 357 anos, merece celebrar sua história, mas também cobrar respostas efetivas para que a fumaça não se torne parte permanente de sua paisagem. 


sexta-feira, outubro 23, 2026

CENTRO DE MANAUS - 1986

 Nas eleições de 1986, quando o prefeito de Manaus era Manoel Ribeiro

Jornal do Commercio, 8 outubro 1986

 O projeto de urbanização do centro de Manaus, planejado pela Prefeitura, está sendo considerado “altamente autoritário” pelos comerciantes e empresários que trabalham nas ruas Dr. Moreira e Guilherme Moreira. Eles se sentem prejudicados pelas obras do calçadão e ontem disseram que deverão entrar com um mandado de segurança contra a Prefeitura. Para os comerciantes além de serem ilegais, as obras estão trazendo prejuízos ao comércio local. “Uma obra desse tipo — disse o proprietário do Hotel Floriano, na Dr. Moreira, Waldilson Cruz — não pode ser decidida arbitrariamente desse jeito, só porque o prefeito resolveu, de uma hora para outra, humanizar a cidade”. O principal medo do hoteleiro é com relação aos turistas. Ele acredita que a obra assustará parte da clientela, especialmente nos dias chuvosos, quando haverá possibilidade de muita lama no local. Os comerciantes foram unânimes em ironizar a postura do prefeito Manoel Ribeiro. Eles lembraram que durante a campanha eleitoral o prefeito de Manaus prometeu administrar a cidade ouvindo as comunidades.

quinta-feira, outubro 22, 2026

CAMPANHA ELEITORAL - 1986


 Ao folhear jornais locais publicados na campanha eleitoral de 1986, destaquei este recorte do Jornal do Commercio: a atuação do governador Gilberto Mestrinho, conhecido por professor e Boto Navegador, entre outras alcunhas, em favor de seu indicado – Amazonino Mendes, que venceu ao Artur Netto.  

Alquimista 

 01 outubro 1986

Em campanha para fazer de Amazonino Mendes seu sucessor, o governador do Amazonas, Gilberto Mestrinho, diz que está apenas aquecendo as pernas para o próximo pleito majoritário, que espera enfrentar em maio do ano que vem. Ele acha que, nesse mês, estará disputando uma vaga de senador: Fábio Lucena, atual senador e candidato a uma das duas vagas disponíveis, se eleito vai renunciar ao mandato conquistado em 1982, juntamente com seus dois suplentes. O TSE deve marcar eleição para preencher esta vaga. Como Lucena é o favorito nas pesquisas, em 56 por cento de preferência, Mestrinho tem razão ao andar dizendo: — Estou pronto para a outra.

Será ele o candidato.

terça-feira, outubro 20, 2026

POLÍTICA DA FUMAÇA


Renato Mendonça

20.10.2026

 

Há momentos em que a fumaça deixa de ser apenas matéria suspensa no ar e passa a ocupar também o pensamento coletivo. O Norte do Brasil atravessa um desses momentos de reflexão. O céu escurecido não encobre apenas rios, florestas e cidades; obscurece igualmente a capacidade de discernir entre causa e consequência, entre acidente e intenção nefasta, entre fatalidade e projeto de destruição.

Enquanto a névoa cinzenta cobre a verdejante Amazônia, erguem-se perguntas inevitáveis: quem se beneficia quando a floresta arde? Quais os ramos empresariais podem se locupletar com essa ação? Os focos de calor vêm sendo monitorados por órgãos federais desde os primeiros meses do ano. A devastação acumulou milhões de hectares consumidos pelo fogo, mas a intensificação repentina — após o primeiro turno das eleições — das queimadas transformou a tragédia ambiental em algo maior que um desastre ecológico. Como toda grande fogueira, essa também projeta sombras políticas.

Não é a floresta que decide incendiar-se. Não são os rios que escolhem evaporar sob o calor das chamas. O fogo tem mãos criminosas. Possui combustível econômico e, muitas vezes, motivação ideológica. Por trás de cada coluna de fumaça há interesses que raramente aparecem nas fotografias aéreas divulgadas nos telejornais.

A floresta tornou-se, há décadas, um território onde se confrontam duas visões de mundo. De um lado, a compreensão de que a Amazônia constitui um patrimônio estratégico, ecológico e humano. De outro lado, a lógica predatória que enxerga árvores como obstáculos, rios como entraves burocráticos e a própria natureza como uma mercadoria provisória à espera de conversão em lucro. Isso já foi objeto no governo passado — vamos passar a boiada!

Nessa lógica, o fogo funciona como um corretor imobiliário primitivo. As chamas abrem caminho para a expansão de pastagens, valorizam terras apropriadas ilegalmente e preparam o terreno para atividades que prosperam na ausência do Estado. Onde a floresta desaparece, frequentemente surgem cercas e gados. Onde surgem cercas, aparecem títulos agrários, e ali alguém lucra. A Amazônia possui uma estranha capacidade de revelar o caráter dos homens e das ideologias. Alguns enxergam um organismo vivo e complexo, um pulmão do universo, que integra a soberania nacional; outros contemplam apenas como um balanço patrimonial ainda não explorado. E há um oportunista candidato à presidência que enxerga como uma matéria mercantil. 

A memória da Amazônia também guarda cicatrizes. Em 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, o país assistiu ao chamado Dia do Fogo, quando propriedades rurais no Pará foram associadas a uma mobilização coordenada de queimadas que chocou o mundo. Mais do que um episódio criminal, aquele acontecimento revelou algo perturbador: a floresta não queima apenas pela ação do fogo, mas também pela combustão das ideias. Antes das chamas, costumam haver discursos que relativizam a destruição, enfraquecem a fiscalização e transformam criminosos ambientais em supostos pioneiros do progresso. O fogo raramente nasce sozinho; ele costuma ser precedido por uma atmosfera de permissividade ou favorecimento.

Também não pode ser ignorada a dimensão política da fumaça. Em tempos de polarização extrema, a tragédia converte-se rapidamente em instrumento de disputa. Imagens de destruição circulam pelas redes sociais como munição eleitoral. A dor coletiva transforma-se em propaganda política. A floresta queima e, simultaneamente, alimenta máquinas de engajamento — vemos em muitas redes bolsonaristas.

Contudo, reduzir o fenômeno a uma simples conspiração política seria insuficiente. O dinheiro continua sendo um combustível mais estável que qualquer ideologia. Em muitas situações, a ambição fala mais alto que a militância. O lucro imediato continua sendo o idioma preferencial daqueles que enxergam a floresta como mercadoria descartável. Mas os números das multas, os embargos e as prisões revelam apenas uma parte dessa tragédia. Existe uma contabilidade invisível que jamais aparece nos relatórios oficiais. Ela está nos pulmões das crianças, nos idosos que passam noites inteiras sem conseguir respirar, nos trabalhadores que atravessam a cidade sob um céu que parece permanentemente um entardecer.

Dias atrás, minha irmã Sônia, moradora do bairro dos Educandos em Manaus, relatou dificuldades respiratórias provocadas pela fumaça que dominava a cidade. Naquele instante, a discussão deixou de ser estatística. Tornou-se sanitária: busquei a reflexão. Toda nuvem de cinza possui rostos escondidos em seu interior. Talvez aí resida a dimensão mais perversa desse drama. Os que provocam ou estimulam a destruição respiram raramente o ar das vítimas — estão morando em outros centros ou outros países. As consequências distribuem-se socialmente de maneira desigual. O lucro concentra-se com os endinheirados; o sofrimento, não — fica todo para o proletariado.

Ao observar a Amazônia coberta por uma densa fumaça, torna-se impossível não perceber a ironia histórica. Os autoproclamados defensores da pátria — aqueles que militam no conservadorismo de direita e querem o poder — frequentemente demonstram disposição para vender justamente aquilo que torna o país singular diante do mundo. A floresta converte-se em moeda. A soberania transforma-se em slogan falso. O patriotismo, apenas em estratégia de marketing.

A fumaça que hoje cobre o Norte não é apenas resultado da combustão da madeira. É também a fumaça produzida pela ganância, pela irresponsabilidade e pelo fanatismo político. Ela sobe das árvores queimadas, mas nasce muito antes delas: nasce quando o lucro vale mais que a vida, quando a ambição vale mais que o futuro e quando o poder vale mais que o próprio país.

A tragédia contemporânea possui ainda outra camada. Enquanto brigadistas combatem incêndios na floresta, exércitos digitais se aproveitam para fomentar a guerra nas redes sociais. Fotografias de Manaus sob a fumaça e imagens da devastação passaram a circular massivamente como instrumentos de ataque político. É irrelevante a complexidade do fenômeno ou a multiplicidade de fatores envolvidos; a dor coletiva é convertida em material de propaganda. A fumaça torna-se argumento, a destruição transforma-se em conteúdo e o sofrimento da população converte-se em combustível para a polarização.

Nesse cenário, alguns grupos vinculados ao bolsonarismo procuram atribuir ao governo atual a responsabilidade pelas queimadas, ignorando tanto as investigações em curso quanto os interesses econômicos historicamente associados ao avanço da destruição ambiental. A floresta arde no mundo real, mas também nas trincheiras virtuais, onde a verdade é frequentemente a primeira vítima.

A cinza que cai sobre a Amazônia não é apenas resíduo vegetal. É o pó de uma consciência nacional que, agremiações políticas — factualmente, grupos ligados ao bolsonarismo —, parecem ter decidido incendiar o amanhã para lucrar no presente.

domingo, outubro 18, 2026

POESIA DOMINICAL (49)

São dois poemas centenários de Jonas da Silva (1880-1947), circulados no Pathé Journal, inaugurado em 1921 em Manaus. As obras ilustram a edição de Natal de 1922, segundo ano de existência do periódico.

Pathé Journal nº 63, 25 dezembro 1922

Hoje, por ser domingo, eu de casa não saio,

Dando trégua ao labor, às lutas, à canseira:

Falo ao Alberto, o meu, não o Alberto Oliveira,

Proíbo-lhe o “foot-ball”, a rua, o “papagaio”.

 

-- “É nesta rua aqui, só na Treze de Maio”

Diz-me a Jandira – “Não! que é medonha a soalheira

(E os aviões de papel, uns, com a nossa bandeira,

Cruzam no ar, uns de “banda”, uns de “centro” e uns de “raio”...)

 

Ouço em cochicho os três e vem a pequenita,

É a caçula, é a que manda, é a que impera, é a realeza.

-- Ora deixe, papai, me diz a Sulamita;

 

Fosse a “mamãe deixava!” —Ó Força, Ó Tempestade!

Ó... essa razão final, que mata de tristeza,

                Ó argumento cruel que mata de saudade!... 

domingo, outubro 11, 2026

POEMA DOMINICAL (55)

 

Circulado em Jornal do Commercio, 28 março 1955


            Senti de perto, bem de perto

o drama dilacerante de tua vida.

Acompanhei, no silêncio prolongado

de minha dor,

a noite angustiosa, sem alvoradas,

que cercara os teus últimos dias!

O teu destino se fizera um látego

e te suplicou

impiedosamente...

Mas, como foste grande em teu padecimento!

Como soubeste contar as tuas lágrimas

que deveriam queimar tua face pálida,

transfigurada pelo sofrimento...

Acompanhei teus dias sem sol,

tuas noites sem estrelas...

Senti a angústia de teu isolamento...

No entanto, volvendo o olhar

às brumas do passado,

a esse passado de sonhos e de rosas

eu te revejo, na tortura

de uma evocação comovida,

como sendo a nota musical

de pompeante alegria, que se fora,

para nunca mais voltar!...

 

Eras alegria!

A alegria de muitos corações!

Flor que desabrochou entre carinhos

– como um sonho de ternura –

Eras a flor da bondade,

eras a flor da alegria...

 

Teus dias de luz,

teus dias de festa!

Tudo fugira como por encanto!...

Porém, o teu sorriso costumado

jamais deixara de aflorar aos teus lábios

sentidos!

Foste grande! Foi grande e inquietador

teu estoicismo. Eis porque tu tiveste

a serenidade quase angélica

quando a hora final do alto te acenou

e tranquila a Jesus tua vida deste

na tragédia da dor!...

quarta-feira, outubro 07, 2026

EDIFÍCIO MÔNACO - MANAUS

 Somente nesta data, ao vasculhar os periódicos da capital, encontrei este anúncio bem curioso, pela proposta de quitação. Como se conhece em nossos dias, o edifício encontra-se em precárias condições. Acredito que uma das dificuldades de locação é o estacionamento inexistente – hoje imprescindível.  

Anúncio circulado em A Crítica, 29 junho 1984

Esta é uma proposta inédita em Manaus.

        Ao receber as chaves do seu belíssimo apartamento, você recebe junto 12                             prestações quitadas do BNH [Banco Nacional da Habitação].

        Significa que no primeiro ano você não paga prestação, somente a poupança.

        A poupança também está fácil porque foi dividida em 60 meses. (...) 

        Um ano sem pagar nada ao BNH, esta é a primeira vez e pode ser a última.


quarta-feira, setembro 30, 2026

MEUS OITENTANOS (19)

         FASCÍCULO 19

     

Comecei o ano de 1980 com a casa do Conjunto Tiradentes repleta. Havia deixado a amada CVC em Curitiba, portanto, estava “solteiro”; motivo pelo qual abriguei meus pais e quatro irmãos em dois quartos e um amplo quintal, onde logo meu pai construiu um chapéu de palha para o conforto na área. Esse condomínio encontrava-se nos arrabaldes da cidade, ligado ao centro pela estrada do Aleixo, hoje avenida Cosme Ferreira. Sem comércio de qualquer natureza, o abastecimento de urgência era realizado no incipiente bairro do Coroado, somente alcançado de carro. A casa encontrava-se situada na esquina da Rua das Orquídeas com a Avenida das Flores, dispondo de ampla área verde.

Residência no conjunto Tiradentes

Todavia, minha primeira tarefa no Ano Novo foi buscar o Chevette em Porto Velho. Avisado pelo sogro, convidei a amiga Maria Olinda e pegamos o ônibus de volta àquela cidade; a movimentação foi semelhante à viagem de vinda. A viagem chegou na madrugada em Porto Velho e tratei prontamente de receber o carro, coberto de poeira — não foi surpresa; assustei-me quando vi o porta-malas aberto: a tranca havia sido danificada pelos solavancos da estrada e, ao abrir o carro, um forte odor de bebida alcoólica impregnava o interior. Esclareço que os mesmos solavancos romperam as embalagens das garrafas e até danificaram a caixa de ferramentas do mano Luiz. Fora isso, tudo estava conforme. Sabendo que a balsa no Careiro interrompe o serviço às seis da tarde, apertei o acelerador, tendo parado em um ou dois igarapés para me refrescar e trocar uns afagos com a carona. Cheguei à balsa a tempo e, assim, consegui dormir em casa.

Aquele ano passou nessa conjuntura, meu pai buscando reparar a casa do Morro da Liberdade, e os irmãos estudando com embaraços, devido ao transporte. Ainda assim, Luiz e Ricardo conseguiram aprovação no Senai, e Jorge empregou-se no Posto Sete. Antes que eu me esqueça: Jorge dormia na sala, por isso pedia a ele que me abrisse a porta quando eu chegava à noite, depois da faculdade e do rolê. Não havia maneira; quando eu batia na janela envidraçada, já ouvia a chiadeira dos chinelos do velho. Abria a porta e me acolhia com a mesma admoestação: “Você não vai trabalhar amanhã?”; recolhia-me à rede e roncava até de manhã. Outra: certa manhã, passando na esquina, um jovem com sua mochila solicitou-me uma carona; era hábito esse apoio pela precariedade de transporte. Ao passar pelo Coroado, o carona pediu que parasse e desceu, agradecendo. No outro dia, o vizinho me perguntou se havia dado carona a alguém. “Sim”, confirmei. “Onde ele ficou?” E, sem captar qualquer dano, informei: “na entrada do Coroado”. Então, o vizinho me contou que sua casa fora furtada naquela noite; daí conclui-se: o policial ajudou o bandido a fugir.

Algumas recordações do bairro Tiradentes que, como assegurei, havia sido implantado em região de mata, tendo por limite um igarapé; com a presença dos manos, as primas passaram a visitá-los com frequência e, quase sempre, a visitação se estendia até aquele curso d'água. A localização permitia frequentes chamegos e o avanço dos botos sobre o cardume, sem implicações. Outra: à época, eu fumava. Diversas vezes fiquei à noite sem esse veneno, porque não havia ao redor onde comprar. Em certa ocasião, postei-me à porta, esperando a passagem da patrulha de policiais; com ela, puxei uma conversa de “bêbado”, até perguntar se algum deles fumava. De pronto, um deles confirmou de quem pedi um cigarro. Este tentou me passar a carteira, que recusei. Fiz bem, pois, ao acender o cigarro ofertado, percebi que era de terceira linha, um “quebra peito”. Terceira: os filhos Roberto e Eduardo passavam comigo o final de semana e, aproveitando as ruas largas e enladeiradas, desfrutavam do único par de patins. Num sábado, ao retornar para casa, fui surpreendido pelo Robertinho, que, de patins, tentou pegar carona agarrando-se à janela do carro; não conseguiu, caindo ao solo. Em baixa velocidade, de pronto parei e corri para ver o acidentado. Nada demais, pois o garoto caiu com a mão espalmada e o pneu evitou mal maior.

Brasão do Corpo de Bombeiros da PMAM

Ao retornar à atividade policial, fui designado para servir no Corpo de Bombeiros, de onde fora afastado há seis anos; na ocasião, abrigado no novo aquartelamento da rua Codajás, em Petrópolis. Encontrei a boa acolhida dos colegas: Odacy Okada, comandante, e Cavalcanti Campos, no Centro de Atividades Técnicas (CAT). A hierarquia permitiu que fosse nomeado subcomandante, e tratei de buscar uniforme e capacete próprios do serviço. Logo, tomei conhecimento da reviravolta que o IPM “montado” dois anos antes na Rádio Patrulha encontrava-se na Auditoria, com meu pescoço à prova. Na época, bastava que o policial respondesse a um inquérito — como acusado — para, na condição de sub judice, ser excluído de lista de promoção. Essa adversidade logo me alcançou, quando assisti a diversas ultrapassagens ou “cangalhas”, no linguajar da caserna, de subalternos. Apesar disso, o prejuízo seria recompensado três anos depois, ao servir no Palácio Rio Negro.

Carteira estudantil da Faculdade de Educação

O curso técnico que frequentei propiciou que, em março, passasse a integrar a “Comissão de revisão de currículos e formulação de propostas de cursos de formação e aperfeiçoamento de praças”; a despeito do extenso título, ignoro a minha contribuição. Ainda naquele mês, foi criado o pelotão feminino, representando a quebra do machismo na corporação. A fim de capacitar o pessoal, foi instaurado o CFS feminino e, no quadro de instrutores, fui convocado para ensinar a disciplina “Metodologia do Ensino”. A matéria estava bem viva, mas achei estranho ensinar pela primeira vez mulheres; como deveria tratá-las, da mesma forma que os colegas homens? Outro pormenor me incomodava: de que maneira atuar durante a aula ao ver aqueles corpos jovens, por vezes chegando ainda com o short de educação física delineando o sexo? Mantive-me bem longe dos impulsos; após o curso, houve um namoro inconsequente com as primeiras oficiais. Antes do encerramento do curso, ocorrido no final do ano, em agosto, fui substituído no ensino da disciplina.

domingo, setembro 27, 2026

POESIA DOMINICAL (27)

 

                            Pereira Barroncas 

“Das curvas da noite imensa,

Surgiram caminhos loiros...”

— Estradas da inspiração,

Que só os gênios palmilham,

Em versos líricos dedilham,

dos aedos que se perfilam,

Ao Grêmio da Madrugada...

 

Eu sei, o estro é Aurora,

Que se esconde e se enflora,

Nos cílios da Primavera...

-- Que seu cabelo, não o era,

Nem seus braços, -- quem lhe dera,

Nem sua boca e

nem nada...

Eram apenas devaneios,

Do vate em seus anseios,

Áureos filões d'almos veios,

No cântico da Madrugada...

 

Que de cuidados ao poeta,

— Em sua alma de esteta,

— A poesia, — ao eleito,

Qual jovem núbil, em seu peito.

Dá-lhes abrigo, em seu leito...

Nem um engano e

nem nada...

“Caminhos loiros, o orvalho,

Pingando nos olhos, e, mudo,

— Qual Rosicler da Alvorada,

É do Farias de Carvalho,

A alma, o sentimento, é tudo...”

domingo, setembro 20, 2026

POEMA DOMINICAL (67)

A postagem reproduz o poema de Elson Farias, circulado no Jornal do Commercio, de 12 de setembro de 1976, há exatamente 50 anos.

Recorte da coluna do Jornal do Comercio,
12 setembro 1976

    

Canta o verso e sua música

como o remador do rio.

não importa que esse canto

venha quente ou venha frio

 

o que importa é que haja estrela

e haja fogo no pavio

da lamparina na trempe

dando luz à cumieira

 

e as marrecas se anunciam

voltando para os poleiros

lá onde os olhos não chegam

quer sejam de bons mateiros

 

tal e qual um vagalume

nas moitas da ribanceira

quando cai a noite nova

sem a lua e sua estrela

 

e a safra do rio se faça

de modo menos vasqueira

como a luz da lamparina

dando luz à cumieira

 

e os carapanãs se escondam

com medo da luz do dia

que se faz por trás da faixa

da mata, como fatia.