CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

Mostrando postagens com marcador Manaus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Manaus. Mostrar todas as postagens

domingo, agosto 24, 2025

POEMA DOMINICAL (24)

 

Volto a informar que nada recolhi sobre o autor deste poema dominical. Um detalhe apenas ilustra a origem, de que este pertenceu ao Grêmio Cultural "Coelho Neto". Isso me evocou a quantidade de grêmios nas escolas secundárias, cada qual invocava um escritor e produzia e publicava. Lembrei-me do GLEDAR (Grêmio Literário e Esportivo Dom Alberto Ramos), que existiu no Seminário São José, quando localizado a Rua Emilio Moreira, do qual participei. Aleluia.

Recorte de O Jornal, 09 novembro 1958

Batista, procurei em Finados teu jazigo,

Busquei incessantemente o lugar onde descansas,

Chorei lágrimas sinceras e puras de criança

Por não encontrar o sepulcro do amigo.

Viste, bem sei, a claridade das velas a iluminar noite a dentro

Os demais túmulos, o Cruzeiro, tudo enfim;

No teu sepulcro nenhuma vela fez centro

Mas Deus te tenha na Sua Glória assim.

 

Examinei cruzes, li livros abertos, vi letreiros,

Procurei teu nome entre o dos Josés:

Encontrei Oliveira, Clemente, Silva, Arteiro

Só não encontrei Batista Gonçalves, quem realmente és

Não encontrei teu ataúde... atribulado busquei-o ontem, hoje, o dia [inteiro.

Levei velas pra você meu camarada

Porém, como dos teus restos não encontrei nada,

Acendi-as todas no Cruzeiro.

 

Nosso Grêmio, chefia o Paiva com desvelo,

Caro colega, venho alentar a tua fé:

Como pediste nos últimos momentos ao Campelo

Nossa Casa não descaiu, permanece de pé.

Recebe Batista, minhas saudades, minhas lágrimas que aqui vão,

Até quando os teus companheiros no dia do Juízo

Possam unidos cantar no Paraiso,

A mais sublime e singela oração.   

terça-feira, agosto 19, 2025

DIA MUNDIAL DA FOTOGRAFIA

 Até que intentei fotografar com qualidade, para isso, busquei aprender em curso; adquiri algum equipamento de qualidade, ouvi bastante meu amigo Carlos Navarro, a quem cumprimento neste Dia, mas muito pouco saiu de minhas clicadas. Ainda bem.

Para marcar a data, recorri a fotos antigas de estúdios e a foto do empreendedor que mudou o jeito de gravar fotos em Manaus, Nuno Caplan, o fundador da rede Sonora.

Casal Fanny Ribas e Candido Mariano e
seus filhos (abaixo), no Rio, em 1910


Casal Francisca e Manuel, meus
pais, em casamento em Iquitos - Peru,
em 1944

Nuno Kaplan, da Sonora, em anúncio
de 1983


quinta-feira, agosto 14, 2025

HATOUM & TUFIC

 Um conhecido amazonense fez história nesta data: Milton Hatoum foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, tornando-se o primeiro a alcançar este galardão. O autor de tantos livros deixou Manaus para se consagrar do outro lado do Rio Negro. 

Vou lembrar outro amazônida: Jorge Tufic, que veio do Acre para Manaus, e aqui produziu seus livros, mais destacados os de poesia. Como o qual vou relembrar nesta postagem. E até deixou Manaus por Fortaleza, mas foi pouco. É preciso caminhar com os Imortais para ser um deles.

Publicado em A Crítica, 06 setembro 1980



quarta-feira, agosto 13, 2025

TV AJURICABA

 A página compartilhada expõe a extinta TV Ajuricaba, pioneira no Amazonas. O anúncio colaborava com a festa da independência do Estado, em 5 de setembro de 1982. E que sirva para a história da televisão local.

Recorte de A Crítica, 5 setembro 1982


domingo, agosto 10, 2025

POESIA EM DIA DOS PAIS

 Andei buscando nos meus arquivos algum poema que preenchesse a data, ainda que não tenha relação, socorri-me do saudoso poeta Farias de Carvalho, sobejamente admirado. Aproveito para dedicar a postagem ao falecido meu genitor - Manuel Mendonça que, vindo da amazonía peruana, tanto amou esta cidade.

Recorte de A Crítica, 23 novembro 1957


  • Pelas portas, paredes, pesadelos
  • pendem pesados: gestos imprecisos,
  • fragmentos de poemas não colhidos,
  • tentativas de mar e de suicídio. 

  • A rede verde colhe o corpo e o tédio,
  • depois é barco de pescar a lua;
  • trabalho de deixar o amor no meio
  • e sacudir do sono os velhos tipos. 

  • Crânios, amantes, loucos, bailarinos.
  • Uma eterna aventura de palavras
  • plasma o casco da nau no cais da porta
  • para a velha viagem repetida:
  • a batida dos passos pela sala
  • e a cantiga da máquina no poema. 

Além do som os homens todos doidos

são puxados no comboio deste século.

Imaginai: Ontem na cacimba

a lavadeira declamou-me versos de Ezra Pound.

(Eu saí de lá com as mãos nas têmporas.)

 

  • Trazei o ouvido e atentai:
    • O monstro corcunda
    • Agasalha o meu filho louro
    • Lá para as bandas do Rio. 

 

sexta-feira, agosto 08, 2025

LEMBRANÇA DO VIVALDÃO


Recolhi hoje de meu baú esta foto, captada do alto do edifício Inka existente no conjunto Eldorado, em 2004. Hoje, o estádio foi pras cucuias, pro saco do lixo. Assim, estou grato pela imagem guardada.


Vivaldão, janeiro de 2004


terça-feira, julho 29, 2025

A CARROÇA DO GELEIRO

 Compartilho do jornal A Gazeta, na coluna Manaus em Foto, de 11 março 1964, para lembrar um antigo meio de transporte, de mudanças e de vendas. Entre outros recursos. Falo da carroça que não mais se vê na capital amazonense. Mas, ainda existem em capitais do país. Lembro-me da mudança que a família realizou indo de Educandos para o Morro da Liberdade utilizando este meio de transporte. Para os garotos da casa foi uma farra, indo e vindo na boleia. A legenda relembrou os mais conhecidos geleiros e a fórmula de venda. Estou certo de que somente os setentões podem lembrar outros detalhes. De fato, é o progresso...

A carroça e o geleiro bem descritos no texto da legenda (abaixo)
 

Antigamente não era assim. Quando havia “gelo cristal”, as geladeiras de fabricação doméstica proliferavam e não havia as “Frigidaires”, apelido popular das geladeiras elétricas quando surgiram. O carro era diferente, coberto, revestido internamente de folhas de flandres para proteger o produto. E o dono da carroça, do burro e do gelo eram nossos patrícios de ultramar que fizeram fortunas no comércio, como o Felipe Geleiro, de sempre lembrada memória e espólios e o Alonso, outro campeador das ruas, levando frescuras às multidões.

Com aquelas grandes bolsas de couro presas ao cinto, onde guardavam o “tutu mimoso”, que amealhavam com prazer. Até nos estribos e nas rodas as carroças antigas eram diferentes. E a boleia também, com um pouco mais de conforto. Os estribos eram maiores e um pouco mais de atrás. As rodas eram grandes, de madeira, com aros de ferro, no estilo das boas carroças de antanho. Os donos da carroça, do gelo e do burro, invariavelmente, usavam chapéus de massa e somente estacionavam nas esquinas. Tinham uma balança, daquelas de pendurar, pra pesar o gelo, dando o desconto devido.

 Mas o progresso chegou, o gelo a domicílio perdeu seu cartaz, o Felipe Geleiro morreu deixando uma fabulosa fortuna e de tudo restou apenas o burro. Não é o mesmo, mas nada mudou no aspecto, perdendo apenas os antolhos. É que hoje em dia, mesmo sendo burro ninguém se conforma mais em olhar só para a frente: Daí...

sábado, julho 26, 2025

IGPM NA POLÍCIA MILITAR DO AMAZONAS

 Notícia recolhida no jornal A Crítica (29 setembro 1978).

Com a finalidade de inspecionar a Polícia Militar do Estado do Amazonas, esteve em Manaus nos dias 23, 24 e 25 o General de Brigada Harry Alberto Schnarndorf, Inspetor-Geral das Polícias Militares do Brasil, órgão subordinado ao Ministério do Exército. A IGPM foi criada pelo dec. lei 667, de 2 de julho de 1969, que trata da reorganização das Polícias Militares e dos Corpos de Bombeiros dos Estados, Territórios e Distrito Federal. Durante a inspeção realizada na PMAM, fez-se a acompanhar de oficiais pertencentes ao seu Estado-Maior. Nas fotos, vemos quando, passava revista à tropa e recebia a apresentação individual de oficiais da PM.

Uma indiscrição observada: o sobrenome do general, nascido em Santa Catarina, era bastante estranho para os oficiais nortistas. Desse modo, passei a semana juntamente com os colegas treinando o nome de guerra do visitante. No salão de honra, local da apresentação, perfilaram: (a partir da esq.) capitães Alrefredo e Roberto (autor desta postagem), majores Humberto e Osório (que olha com assombro) e o tenente-coronel Lustosa. De perfil, o general Schnarndorf! 

domingo, julho 20, 2025

VINICIUS DE MORAES (1913-80)

 Este artista de tantos predicados morreu há 45 anos, em 09 de julho de 1980, cujo passamento atingiu inúmeros admiradores em todo o país. Em Manaus, o respeitado e saudoso poeta Homero de Miranda Leão (1913-87), também conhecido pela atuação legislativa, escreveu o “Soneto para Vinicius de Moraes”, circulado no Jornal do Commercio, de 23|julho|1980, aqui transcrito. 

Recorte do Jornal do Commercio, de
23 julho 1980

Um festival de estrelas no infinito

Te recebeu, poeta, no esplendor

De tua arte suprema quando o amor

Tinha em teu peito a vibração de um grito!

Chegastes ao coração de um mundo aflito

Pela beleza de teu verso e canto;

E muitas vezes enxugaste o pranto

Das almas desoladas, em conflito...

Aedo iluminado na esperança

As noites e as manhãs na sua lembrança

Hão de guardar a imagem de tua vida!

E a terra, em cujo coração sonhaste,

Te exalta e glorifica na partida

Pelo deslumbramento que deixaste!...

domingo, julho 13, 2025

POEMA DOMINICAL DO "POETA DO AZUL"

Conhecido na literatura amazonense como o Poeta do Azul, Ernesto Pennafort certamente iniciou suas composições bem antes dos primeiros livros, marcados por essa tonalidade. Talvez seja o caso do poema de sua autoria, que ilustra a postagem dominical, foi publicado há 70 anos. Aconteceu no diário A Gazeta, edição de 23 de agosto de 1955. 


EMPÁFIA

ERNESTO PENNAFORT

(Do Grêmio Cultural JUVENTUDE MODERNA)

 

És •mulher, és formosa, és fascinante,

Em teu corpo há belezas e esplendores,

Teu sorriso é sempre algo deslumbrante

És como Citera, a Ilha dos Amores...

Ao te olhar, certo estou, diria Dante:

“Tens o perfume das mais lindas flores,

A meiguice do canto exuberante

De um pássaro de penas multicores...”

Mas não te julgues deusa, isso é quimera,

Porque não são as flores mais bonitas

-- Segundo um sábio de longínquas eras –

          Que exalam os aromas mais suaves,

E nem aquele que melhor gorgita

A mais vistosa de todas as aves.

quarta-feira, julho 09, 2025

PLÍNIO RAMOS COELHO (1920-2001)

O governador Plínio Coelho (1920-2001) cumpria o segundo mandato no Palácio Rio Negro, quando o Governo Militar (1964-1985) cassou seu mandato. Era início de março de 64, portanto, a mudança de regime estava em processamento. Plínio era conhecido como atirador de elite. A participação dele nesse certame ocorreu por este detalhe, não por se tratar do mandatário do Estado. A Gazeta (09 março 1964), apesar de mencionar outra foto, falhou.

Recorte de A Gazeta, 9 março 1964

 O governador Plinio Coelho foi a principal atração das provas de tiro ao alvo realizadas na manhã de ontem, no “stand” do 27 Batalhão de Caçadores, sob o patrocínio do Balalaika Clube, que na oportunidade cumpria mais um ano de fundação.

Ao lado do Chefe do Executivo amazonense (visto na gravura à direita em um momento de grande sensação da competição) alinharam-se outros grandes nomes do esporte de tiro ao alvo em Manaus.

No outro clichê, aparecem os vencedores das provas: Adelson Veras, Tenente Cavalcante, Helena Marques Jezzini e Francisco Santana. O governador ficou entusiasmado com a organização do torneio, havendo prometido dar integral apoio à realização dos vindouros, dos quais o mais próximo ocorrerá a 21 de abril, em homenagem a Tiradentes. A presença do titular do Palácio Rio Negro na competição foi recebida com aplausos.

segunda-feira, julho 07, 2025

PALÁCIO DO RÁDIO - MANAUS

 Até a metade do século passado, as moradias no centro de Manaus utilizavam casas, com uma só exceção, o IAPETEC (Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Empregados em Transportes de Cargas). O prédio, inaugurado em 1953, exibiu o primeiro elevador da cidade, porém, possuía uso misto, com salas comerciais e pequenos apartamentos, além da sede do próprio instituto. Somente dez anos depois, em 1964, surgiu um prédio de mesma altura do mencionado, com uma característica: exclusivamente de apartamentos. Trata-se do Palácio do Rádio, construído na avenida Getúlio Vargas, que ainda hoje pode ser observado; veja a foto que ilustra a postagem.



Recorte de A Gazeta, 10 jan 1964

A foto e a legenda sobre a inauguração do Palácio compartilhei de A Gazeta (10 janeiro 1964). 
 
Placa indicativa no prédio


UM EDIFÍCIO À ALTURA DO PROGRESSO DA CIDADE --

A fachada do edifício é, sem dúvida, uma das mais lindas que a cidade conhece. Executada em painel de madeira de lei envernizada, empresta beleza e graça ao conjunto. Fica na mais larga avenida da cidade — a Getúlio Vargas —, com vinte apartamentos, todos de frente para o nascente, cada um deles com sala-de-estar, três dormitórios, varanda, banheiro social, “hall”, copa e cozinha, quarto de empregada, banheiro de empregada e área de serviço.

Tem o privilégio de ficar próximo aos Grupos Escolares “Barão do Rio Branco” e “Saldanha Marinho”, ao Colégio Estadual do Amazonas, do Instituto Santa Dorotéia, do Ginásio Brasileiro, do hospital da Beneficente, do posto de serviço de automóveis “Nosso Posto”, do Teatro Amazonas, da igreja de São Sebastião e dos cinemas “Politeama” e “Guarani”.

Elevadores, social e de serviço, já instalados. Tem incinerador de lixo, para-raios, tomadas de telefone, rádio e TV, com válvulas de segurança, serviço preventivo contra incêndio e ainda duas caixas d’água. No térreo existem duas lojas.

Foto deste dia, obstruída pelas árvores


domingo, julho 06, 2025

POEMA PARA O DOMINGO

 

De novo, não encontrei dados sobre o autor desse poema – Osório Honda. Sigo buscando. Tudo quanto posso informar é que a peça foi escrita em 1956, mas, somente publicada em O Jornal, de 30 de maio de 1965. Acaba de festejar os sessentanos!




sexta-feira, julho 04, 2025

LORD HOTEL MANAUS: 60 ANOS

 

Prestes a completar 60 anos desde sua inauguração em 1965, o Lord Hotel encontra-se desativado, as portas cerradas, impossibilitando qualquer movimento interno, assim o tenho visto. Apesar desse estado, li na internet que diversos sites de turismo ainda vendem hospedagem no Lord Manaus. São as amarguras do comércio. Que esta postagem recolhida do Jornal do Commercio (9 outubro 1965) sirva de grata recordação, de quando Manaus era um atrativo para as compras.

Recorte do Jornal do Commercio, 9.10.1965

 Novo “Lord Hotel”: Imponência e Beleza

Manaus possui, desde às 18 horas de ontem, mais um confortável e moderno hotel, sendo este o “Lord Hotel Ltda.”, de propriedade do sr. David José Tadros, edificado na esquina das ruas Marcílio Dias com Quintino Bocaiuva, tendo comparecido ao ato inauguratório, além de elementos de destaque das classes sociais da produção, conservadoras, hoteleiras, comércio e indústria, secretários de Estado e pessoas gradas, o governador do Estado, prof. Arthur Cézar Ferreira Reis, acompanhado de sua digna esposa, dona Graziela Reis, e a senhorita Maria Raquel Andrade, Miss Brasil 1965.

Cortou a fita simbólica, inaugurando o “Lord Hotel Ltda.” a primeira dama do Estado. sra. Graziela Reis, cabendo ao padre Jorge Normando, representando dom João de Souza Lima, dar a benção às instalações do novo Hotel. Falaram na ocasião o dr. José Lindoso, dizendo da satisfação do comerciante David José Tadros em entregar o novo e moderno Hotel ao povo, contribuindo para o progresso do Amazonas, e o governador Arthur Reis, que enalteceu o gigantesco empreendimento, que é a honra do nosso Estado, e que muito contribuirá para o progresso no campo de turismo.

Aos presentes foram servidos frios, quentes e gelados e todos ficaram maravilhados com as instalações do Lord Hotel Ltda., que possui 53 apartamentos, sendo trinta com ar refrigerado e cinco de luxo.

Nas fotos vemos, à esquerda, um ângulo do Lord Hotel Ltda., à direita, em cima, dona Graziela Reis cortando a fita simbólica, inaugurando o novo e moderno hotel; e, embaixo, o governador Arthur Reis cumprimentando o sr. David José Tadros proprietário do Lord Hotel Ltda., aparecendo, ao fundo, a encantadora Maria Raquel Andrade, Miss Brasil 65. (Fotos de J. Batista).

terça-feira, julho 01, 2025

HORA DA MERENDA: 1964

 

Hoje em dia, as bancas de venda de doces e guloseimas estão por toda a cidade, de forma que foi difícil encontrar uma correspondência exata com a publicação do jornal A Gazeta, que destacava essas particularidades na coluna Manaus em Foto. Expressões como “entala gato”, “morte lenta” e outros apelidos bem característicos foram usados por décadas, até que deixamos de chamar de “merenda” e passamos a usar o termo “lanche”, ... então, tudo mudou. A banca que aparece na foto servia à praça Tenreiro Aranha, na ilharga do antigo Hotel Amazonas. 

Recorte de A Gazeta, edição de 05 março 1964

UM “ENTALA GATO” MUITO CONCORRIDO

 

A fome dói, é coisa que todos sabem, por mais que seja bem-nascido. Quando vem aquele vazio no estômago, o jeito é desapertar.  E o bolo-de-macaxeira vem a propósito, pelas três da tarde, ou mais. Hora de merenda de quem trabalha e só pode “dar um pulinho”. Uns chamam de “entala gato”, outros de “comeu, morreu” ou “morte lenta” e mais nomes que [não] ocorrem no momento. Mas todos compram e se deliciam, que de fato é gostoso, bem feitinho, servindo até pra levar pra casa, num embrulhinho, pra completar a janta. (...)

Até o “bolo podre” também tem vez, como outras guloseimas. Tem freguesia certa e até selecionada. Fazem fila para comprar e, não raro, encosta um carro, de placa particular, pra uma compra ligeira.

O negócio vai aumentando e os compradores também. Todas as tardes o vendedor se estabelece, porque tem competência, na Teodureto Souto, pertinho da praça ao lado do Hotel Amazonas. E dizem que até turista estrangeiro, pra variar, ali comparece de quando em vez. Os graciosos chamam de entulho e lembram que o melhor tempero é a fome. Mas todos gostam e voltam.

domingo, junho 29, 2025

DIA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO

Certamente, no dia em que nasceu seu terceiro filho, nosso pai - Manuel - deve ter se recordado sendo consumado católico da determinação do Mestre: “Tu es Petrus”. Assim foi batizado – Pedro Renato, que hoje completa 74 anos de idade. Nascido no consagrado bairro de Educandos, passou pelo Colégio Estadual do Amazonas e, depois do serviço militar, no qual obteve o terceiro lugar da turma de NPOR/72, desembarcou em Santos-SP, onde aproveitou. Vou parar aqui, senão estrago o filme. Parte do roteiro conta ele nesta crônica de aniversariante. A Igreja, apesar de nominar Paulo como santo do dia, efetua manifestação mínima, afinal Pedro é a pedra.

Ad multos annos, mano, recordando o linguajar seminarístico, do São José, deixado pro gran finale, onde seguramente aprendemos concretas lições para a vida.

Pedro Renato, de vermelho, abraça nosso pai Manuel

AINDA ESTOU AQUI

29.06.2025

Renato Mendonça (1951-)

 

Ao iniciar esta crônica, que faço a cada aniversário, fui orientado pela inteligência artificial para que o título fosse alterado para “continuo aqui”, pois considerou a forma uma expressão prolixa. Não acatei, pois a expressão usada carrega, na sua essência, um valor simbólico. Mas não descarto a utilidade dessa ferramenta aos usuários de qualquer natureza. No entanto, percebo que há uma superficialidade na sugestão da escrita, assim como falta sensibilidade para a escolha semântica dos termos. Cabe ao cronista deixar fluir para o papel a emoção não artificial, genuína, mormente nesta data, quando obrigatoriamente fazemos uma reflexão da vida.

Nesse instante de contemplação, percebo que estou revisitando memórias. Cada ano que passa carrega um pedaço do nosso mundo, e o ato de estar aqui, nesta data, com tantas histórias vividas, é em si uma celebração, um júbilo. Olho pela janela do trem da vida e encontro fragmentos que me moldaram, instantes que me elevaram o espírito e os desafios que me ensinaram a resiliência. É como se o tempo, ao invés de ser apenas um inimigo implacável a me sugar o vigor físico, fosse também um amigo sábio que, com as bênçãos de Deus, incitou-me a valorizar as verdades que floresceram a cada dia.

Quando ultrapassamos a barreira dos setenta, parece que o tempo anda mais apressado. Por vezes, me ocorre conversar com ele e questionar a sua relatividade, como nos propõe o famoso cientista Albert Einstein. E fico pasmo analisando o seu postulado ao dizer que o passado, o presente e o futuro são apenas ilusões persistentes, sendo assim criações da nossa mente. Sem nenhuma surpresa, ele me diz que somos ínfimos ao explanar sobre a grandeza temporal e espacial infinita do Universo; estima-se o tempo de existência em quatorze bilhões de anos, e a dimensão — praticamente incomensurável — só é medida em anos-luz.

Há quinze anos escrevi uma crônica, O Segredo da Vida, falando dessa incomensurabilidade do tempo, uma dimensão infinita que apenas é perceptível pela grandeza da nossa imaginação. Nessa narrativa, resgato a analogia do tempo do Cosmos com uma partida de futebol de noventa minutos. Ao compararmos o aparecimento do homem na Terra com a idade do Cosmos, o ciclo da vida humana só dura algo em torno de um décimo de segundo, desprezível.

Quanto à dimensão, também estamos aqui, fazendo parte de uma galáxia tão imensa que o homem, mesmo se tivesse recursos para viajar à velocidade da luz, jamais teria tempo de se deslocar para conhecer outros mundos. Assim, devemos nos resignar dentro da nossa ínfima porção universal, e procurar viver o que está ao nosso alcance ou o que nos rodeia. Aproveitar tudo o que Deus nos oferece para viajar para dentro de nós mesmos, tentando aprimorar a beleza espiritual; viajar também em direção ao nosso semelhante para tentar conhecê-lo melhor e promover o amor oblativo. 

Nessa longa caminhada, não deixei escapar nada que nos fosse benfazejo, como um dedicado aprendiz; não desmereci nenhuma manifestação de amor e valorizei cada gesto de carinho recebido; extirpei todos os rancores da mente, arranquei-os do coração sem o ferir nem o deixar sangrar por nenhuma forma de dor. Acho que Deus me deu uma certa imunidade quando tirou minha mãe tão precoce; hoje, sou um homem resignado e entendo que tudo estava dentro dos planos divinos. Mesmo assim, ainda retenho comigo a devoção por esta santa que me deu à luz do mundo, para quem dedico também o meu aniversário. E é muito gratificante conversar com Deus, através do rosto de uma mulher; é mais emblemático quando esta mulher é a sua mãe.

Nesta data, neste septuagésimo quarto Dia de São Pedro em minha vida — sem contar o dia em que nasci —, quereria recordar, na verdade, um ano radiante e jubiloso, 1974. O decurso da idade me traz de volta essa memória. Eu estava vivendo a porção primaveril da minha idade adulta; estava feliz com a conquista do primeiro emprego fixo, justamente na maior estatal do país, a Petrobrás. Depois de um ano que havia me habilitado como motorista, consegui comprar meu primeiro carro, um fusca ano 71, cor azul-pavão. Não gostava muito das letras contidas na placa, WC 3919, talvez porque a sigla em inglês significa “banheiro”, mas me identificava muito com o ano e a cor do carro.

A cidade de Santos, onde eu morava e trabalhava, me acolheu como um turista fascinado e mostrou-me a exuberância de sua orla marítima. E as praias tinham uma vasta extensão de areia que propiciava a prática do futebol nos finais de semana. Isso me deixava em plena forma, física e espiritual, que aliada à juventude dos 23 anos, transformava-me num atleta amador. E aconteceu que a Copa do Mundo daquele ano fez surgir no cenário futebolístico o “carrossel holandês”, nos apresentando exímios jogadores a recriar uma visão romântica do futebol. Uma estratégia dinâmica de jogo, onde os jogadores se movimentavam aleatoriamente sem guardar posição fixa. Esse esquema de jogo deu certo em quase todos os jogos, só falhando no jogo final. Uma pena! Mas, com a aposentadoria de Pelé, o jogador da Holanda, Cruyff, tornava-se um novo astro do futebol. Era o símbolo vivo daquela seleção. Por ele, eu nutria uma profunda admiração e me espelhava no seu comportamento em campo.

Um grupo de trabalhadores da construção civil, do meu sítio de trabalho, convidou-me para participar de um jogo de futebol num domingo do mês de julho, após a realização da Copa. Eles não sabiam se eu teria alguma habilidade como jogador, nem desconfiavam, pois me viam apenas como um assistente técnico envolvido na área de projetos. Entretanto, eu tinha bastante interatividade com eles, o que é normal quando se trabalha na indústria de petróleo.

E ocorreu que me convidaram para participar do “segundo quadro”, uma espécie de jogo preliminar. Naturalmente, o “primeiro quadro” jogaria logo depois, composto com os jogadores mais habilidosos e mais raçudos, mais “cascudos”, como se diz na gíria do futebol. Quando acabei de jogar o primeiro tempo do jogo preliminar, o técnico do time pediu que eu descansasse para jogar no primeiro quadro. “Fominha de bola”, não aceitei e garanti que tinha fôlego para jogar também o próximo. Consegui jogar bem, inspirado no craque e maestro holandês, três tempos dos dois quadros e saí elogiado pela minha desenvoltura em campo, marcando gols e correndo feito um velocista de curta distância. E para corroborar a minha atuação em campo, logo depois do jogo, o técnico me convidou para fazer parte do time de futebol que ele administrava, o Esporte Clube São Bento, e me trouxe, na semana seguinte, uma credencial de sócio atleta, que ainda guardo com todo carinho. Assim, foi um jogo memorável — inesquecível mesmo após cinquenta anos — de um jovem com a rebeldia dos cabelos longos e isento de consciência política, embora vivêssemos os “anos de chumbo” dos governos militares no Brasil. Naquela época, eu queria mesmo era trabalhar e jogar futebol. Duas paixões que se uniam visceralmente na minha solteirice.

Agora, depois de tantos anos, olho novamente pela janela e vejo o futuro. É apenas o futuro, sem grandes aspirações, com grandes preocupações com a saúde e buscando viver as verdades de Deus a cada dia. Desejando que o Amor nunca me abandone, para poder exprimir sempre o sentimento de gratidão; encantar-me com a beleza humana e a presença do Criador na natureza. O meu espírito ainda se ilude com a mágica do tempo e pensa que está jovem. É uma boa conduta, que eleva a autoestima e nos deixa aptos — não gosto dos clichês, mas vou usar — para novos desafios.

Sendo assim, o importante é manter a jovialidade do espírito, não por sabedoria artificial, mas por acreditar que isso possa ser congregado com boas ações, com atitudes honradas e ajuda aos necessitados e doentes, evocando sempre a alegria e fomentando a paz.  Desejo, ainda, manter a cognição intacta, para recordar os bons momentos vividos e possa discernir, nesse momento especial de comemoração, que ainda estou aqui completando essa belíssima missão de viver. 

Post Scriptum – O título da crônica faz referência ao belíssimo filme dirigido por Walter Salles, que recebeu o Oscar de “Melhor Filme Internacional” em 2024. Este filme aborda as ações autoritárias dos regimes militares no Brasil, especialmente os eventos relacionados ao sequestro, tortura e assassinato do ex-deputado Rubens Paiva em 1971.    

domingo, junho 22, 2025

POEMA PARA O DOMINGO

 O  poema deste domingo pertence à obra poética de Américo Antony (1895-1958). Tudo quanto aprendi sobre este poeta é que ele produziu número respeitável de poemas, publicados em jornais e revistas, e somente um livro: Os sonetos das Flores (em segunda edição pela Valer, 1998). Para ilustrar esta postagem recorri aos especialistas de nossa cidade, e nada sobre Antony. Desse modo, consulto o Dicionário Biográfico dos Acadêmicos Imortais do Amazonas, do saudoso Almir Diniz (2002), dispondo de notas biográficas costumeiras. “O poeta que pertenceu também ao IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) deixou publicado apenas um livro (...). E alguns inéditos – A Alma das árvores; Crisóis; Cromos Amazônicos; e Canções Perdidas. São famosos vários sonetos e outros poemas (A Fonte; Canção Campestre; Nova Messe; Manoa; Conory)”. Seu nome crisma a biblioteca da Fundação Doutor Thomas.

Recorte de O Jornal, 20 março 1946
 

A ÁGUA

-- I –

A Água, — uma serpente de cristal,

Faz-se em canais, em golfos, em caudais,

Em espelhos sobre o mar, e no canal

Paisagens de verão, frios hibernais...

 

Brincos em cada estema ao capinzal,

De ouro e diamante, — Aljôfares reais —

De um príncipe invisível, do ideal,

vozes da cor, do encanto dos cristais...

 

Mas, quando a água ferida em seu percurso,

Represada se infiltra, e um só recurso

Vê nas prisões da rocha, em fonte escura,

 

Chora as lágrimas claras do passado,

As emoções do seu cristal fechado

Na pensativa Selva que murmura.

-- II –

A Água, — a plasmadora das visões

Cristalinas da Selva, e do Universo!

Em reentrâncias de golfo, e nos grotões,

Animando o esplendor de um lindo verso!

 

Cambiar de perspectivas tão diverso!

Ânimo e sol da sombra aos corações,

Exuberância de um vergel disperso,

Voz do penhasco em córregos, canções...

 

Lagoa alegre e pântano sombrio...

Atmosfera e oceano, lago e rio...

Brejo e igapó... ânfora em solidão...

 

Chuva! transmigração da Água à alva nuvem,

E dela à terra, arco-íris de onde pluvem

Olhos de Deus nos prantos da Ilusão!


sábado, junho 21, 2025

GAROTOS DE ANTEONTEM

 Não tenho muito a acrescentar à legenda sobre os garotos, que buscavam, como buscam os nossos hoje, sucesso no futebol. Apenas que eles nos parecem treinar sem utilizar qualquer equipamento do esporte, apenas um calção e os pés descalços. Qual deles venceu, não há registro, salvo se um deles, aos 70 ou mais anos, reconhecer a turma. Torço que aconteça, pois o registro foi postado em A Gazeta, edição de 18 de março de 1964.

Jornal A Gazeta, 18 março 1964

 COMO SÃO BELOS OS DIAS DO DESPONTAR DA EXISTÊNCIA

Embora não corram pelas campinas, atrás de borboletas azuis, ainda andam de pés descalços, braços nus, principalmente quando chega a hora da pelada. Aí, cada um deles se sente um Pelé, Garrincha ou Nilton Santos em potencial. Para ser Gilmar, só na torcida, que jogar no gol ninguém quer, isto aí todos nós fizemos em nossos tempos de meninice, sem direito, porém, a retrato no jornal, que certamente será guardado para, na posteridade, lembrar os companheiros, com seus apelidos divertidos.

E estão na gravura, numa pose especial para “A Cidade em Foto”: Cobra, Amarelão, Nato, Colorau, Cabeção, Torpedo, Léo, Casqueta, Pé- chato, Mucura, Coelho e Tá-tá-tá.

O futuro, para todos eles, é uma incógnita, mas, enquanto isto, se divertem no campinho da sede do Nacional e se sentem uns futuros heróis dos gramados, quase uns campeões do mundo. Nada de nome completo com filiação e outras identidades. O gostoso é guardar os apelidos, para relembrar depois, quando forem grandes e tiverem vencido na vida. Com muitas saudades destes tempos ditosos que passarão céleres.