CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

domingo, abril 26, 2026

POESIA DOMINICAL (25)


O poema traz duas curiosidades: foi elaborado por Francisco Pereira da Silva em 1929, próximo de celebrar o centenário. O autor ficou conhecido na literatura amazonense pelo registro do sobrenome nas demais obras literárias do gênero. Esta obra foi publicada na revista Rionegrino, nº 14, circulada em novembro de 1929. A ilustração foi concebida por Gil, usando um quadro de Branco Silva.

Revista Rionegrino, nov 1929

 

ORAÇÃO DA ÚLTIMA ICAMIABA

Luz de ouro e leite derramada, mansamente,

Pelo azul-desbotado dos Espaços

 

No Lago Sagrado, as águas, em êxtases, lucifremem,

Na argêntea reflexão da nudeza selênica...

- É a Lua Grande, que nadar com as uiaras tentadoras,

Para ouvir o canto misterioso da Mãe do Muiraquitã...

 

... E a última icamiaba, apoiando-se à árvore amiga,

Fita os olhos tristes na deusa dos que atuam e perdoam...

 

 “Yaci! Yaci! Quando te foste da terra,

Levaste na tua alma de luz e pluma

As angústias e as lágrimas das mulheres...

 

“A maldade dos homens ficou rondando o coração de tuas filhas...

“Então, Naruna, soltou o seu grito de guerra contra os nossos algozes...

 

“E quando andávamos, errantes, pelas montanhas e florestas,

Chorando e combatendo,

Somente a piedade branca do plenilúnio

Dava alegria aos nossos corações... 

“Yaci! Yaci! Os homens são irmãos das feras insaciáveis...

Mas, Naruna, amaldiçoando os homens, matou o amor...

 

“Yaci! Yaci! Lágrima e angústia, alegria e perdão!...

As guerreiras de Naruna vão bem longe...

Tu, que és tão meiga, tão doce e tão piedosa,

Tu, que vives tão só, bem sabes, mãe carinhosa,

Quanto dói na mulher, um coração vazio!...

 

“Traze do fundo d’água do Lago Sagrado, a pedra verde

Da felicidade!

E que ressurja o amor no peito da icamiaba,

Na glória de matar meu algoz entre beijos,

Na ânsia de morrer cantando nos seus braços!...” 

FRANCISCO PEREIRA

sábado, abril 25, 2026

SÃO JORGE

Rio, 23.04.2026 

Renato Mendonça

São Jorge - Terra

Nenhum outro santo veste tantas máscaras — um sincretismo religioso profundo — no coração do Brasil quanto São Jorge. Ele é o guerreiro que atravessa fronteiras da fé: na Igreja Católica, é o mártir de armadura reluzente sobre um cavalo branco; nos terreiros de Umbanda, é Ogum, o orixá que abre caminhos com sua espada de fogo. Esse sincretismo nasceu como resistência: sob o disfarce dos santos católicos, os escravizados africanos mantinham viva a chama das suas divindades, como quem esconde brasas sob cinzas para reacender o fogo da liberdade fustigado pelo vento da maldade de patrões desalmados.

No Rio de Janeiro, Jorge e Ogum se confundem como duas faces da mesma estrela. Na Bahia, sua imagem se funde ao caçador Oxóssi, senhor das matas. Assim, o santo guerreiro se multiplica em símbolos, como um rio que se abre em afluentes, mas nunca perde sua correnteza no caminho para o mar.

Podemos assegurar que a iconografia de São Jorge é um poema épico: o cavaleiro sobre o cavalo branco, enfrentando um dragão. Essa cena, nascida com a digital das Cruzadas, é mais que lenda — é metáfora da fé que atravessa o pântano dos medos humanos e vence o monstro da desesperança. O cavalo branco é a paz que galopa, e a espada é o raio de luz que rasga a noite. Cada golpe contra o dragão é um gesto que recorda ao mundo: o bem, mesmo com o intemperismo do tempo, sempre se ergue altivo contra o mal.

Geórgios, o agricultor da Capadócia, semeou sua vida como quem planta semente em solo árido. Quando o imperador Diocleciano ordenou a perseguição, Jorge rasgou o edito como quem rasga mantos da mentira, e professou sua fé mesmo diante da morte. Torturado, decapitado, transformou sua dor em germe: de sua sepultura brotou uma basílica, e de sua memória, um culto que atravessa séculos.

Os cruzados o fizeram guerreiro contra o Islã; os normandos o tornaram patrono da Inglaterra. Eduardo III fundou a Ordem dos Cavaleiros de São Jorge, e na Idade Média sua figura brilhou como um sol épico, rivalizando com os ciclos bretão e carolíngio. Hoje, é o padroeiro de cavaleiros, soldados, escoteiros, arqueiros — e também condecorado como um profeta para os muçulmanos. Sua lança é invocada contra pestes, lepra e serpentes, como se fosse um antídoto espiritual.

As relíquias de São Jorge repousam em várias partes do mundo, mas sua verdadeira herança é invisível: é a lembrança de que a luta contra o mal é eterna, e que nenhum combate se vence sozinho. São Jorge, cavalgando entre nós, mata um dragão a cada dia. Sua espada é a fé, a arma que Deus nos dispõe para lutar, e sua vitória é a esperança que nunca se rende, sempre vence.

A alegoria de que o santo salva uma jovem princesa, que seria entregue em sacrifício para degustação do monstro, nos encaminha para uma reflexão atual. Precisamos, sem tréguas, enfrentar as formas negativas de uma sociedade plural — da misoginia, das drogas, da violência urbana e outras mazelas sociais. Cabe a nós impedir que a juventude tenha o destino cruel de servir de consumo para os dragões da vida.    

AMAZONENSES NA ACADEMIA

Ontem (24), dois abalizados amazonenses tomaram o fardão de acadêmicos: no Rio, na Academia Brasileira de Letras (ABL), o festejado autor Milton Hatoum; em Manaus, na Academia Amazonense de Letras, o cronista Pedro Lucas Lindoso.

Milton Hatoum mostra o Diploma

A entrada de Milton Hatoum marca um feito inédito na história da ABL. O autor é o primeiro amazonense a conquistar esta grandeza na instituição de 128 anos de existência, com este feito reforça a presença da região Norte no cenário literário nacional.

A cerimônia cumpriu o protocolo tradicional da Academia. O novo acadêmico foi recebido pela escritora Ana Maria Machado e, ao longo da solenidade, o colar foi aposto pela acadêmica Rosiska Darcy, o diploma das mãos de Lilia Schwarcz e a espada conferida pelo decano José Sarney. Hatoum ocupa a Cadeira nº 6, sucedendo ao jornalista e escritor Cícero Sandroni.

Vida longa, coberta de novas conquistas e obras, ao primeiro acadêmico amazonense na Brasileira de Letras.

 

Pedro Lucas Lindoso, no folheto
da Academia

No mesmo horário, a Academia Amazonense de Letras (AAL) engalanou-se para receber ao cronista e poeta Pedro Lucas Lindoso, filho de José e Amine Lindoso, nascido em Manaus em 1957. Entre outras identidades, é membro do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas); integra a Associação dos Escritores do Amazonas. É membro efetivo da Academia Amazonense Maçônica de Letras e da Academia de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas.

A recepção foi conduzida pelo presidente Abrahim Baze, e o discurso de recepção foi elaborado pelo acadêmico Elson Bentes Farias. A entrega do Diploma e do Colar Acadêmico coube aos consócios os irmãos José e Robério Braga. Lindoso ocupa a Cadeira nº 25, do patronato de José Francisco de Araújo Lima, antes ocupada pelo escritor Marcio Bentes de Souza, toma lugar na poltrona que foi ocupada por seu genitor.

Ao amigo Pedro Lindoso, desejo  sucesso em mais bem sucedidos trabalhos literários e vida longa de saúde e fortuna.