CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sábado, maio 30, 2026

SEMINÁRIO SÃO JOSÉ DE MANAUS

Antigos seminaristas oriundos do Seminário São José de Manaus, donde sou igualmente originário, compuseram um grupo para relembrar as estripulias cometidas e congregar o maior número de colegas. Em busca de fatos sobre aquela Casa de Formação, revi o livro de Manoel Bessa Filho – Jornal Velho, e dele recolhi a crônica desta postagem.

 

Edição 2001 

Alma mater

21 maio 1998

Manoel Bessa Filho

Tudo começou de uma audácia. Um bispo [dom Afonso Moraes Torres], uns padres, uma quase aldeia, querendo ensinar para os caboclos o “trivium” e o “quadrivium” dos currículos europeus, que continham todas as cadeiras do ensino ginasial, como chamavam até bem pouco tempo, os últimos quatro anos do 1° grau. Assim nasceu, há 150 anos, neste 14 de maio, o Seminário S. José, primeiro estabelecimento de ensino secundário no Amazonas. Os anos se passaram, algumas cadeiras foram se transferindo para o Liceu. Do liceu nasceu o “Pedro II”, ainda garboso lá em frente à Praça da Polícia. Depois o “São José” fechou suas portas, para renascer bem mais tarde, no dia 19 de março de 1943, fruto de outro bispo visionário, D. João da Mata Andrade e Amaral.

No sábado passado [16 maio], convidado pelo atual Reitor do Seminário S. José, fui rever minha “alma mater”. O prédio já era outro, não importa, o nosso hoje é a FES da Universidade, lá na Emílio Moreira [601]. O importante mesmo é que o espírito permanecia o mesmo.  Ex-alunos de várias gerações, padres e seminaristas, se confraternizavam em torno do “velhinho” de 150 anos que marcou, e ainda está marcando indelevelmente nossas vidas.

De repente visualizei meu primeiro dia, um dia qualquer de março daquele ano de 43, pouco antes da reinauguração oficial, chegando com meu irmão e nossas malas emprestadas para trazer a roupa, que arrumamos no armário, ao lado da cama, no dormitório... Capela, salas de aula, recreio, salão de estudo, horta para cultivar, a oficina de marceneiro com o mestre Nelson Falcão (fizemos muitos móveis, com polimento puxado no “verniz de boneca"). E nessa roda viva foram os seis primeiros anos.

Quantos passaram pelos mesmos caminhos. É difícil lembrar tanta gente: o Orígenes Martins do CIEC [Centro Integrado de Educação  Christus] (que passou de Jabuti, para Jacaré Vovô), o Áureo Pereira (Ceariba), que depois se tornou o frei Xico, dominicano. O Tiagão, padre Tiago Braz, recentemente falecido, Jorge Normando (Calango Elétrico), o Chico Pinto (Mons. Francisco Pinto), que também já foi para o outro lado, o Waldemar Pacheco (Waldemar Bodega) e seu primo Lourival (Bolinho), todos dois de Manacapuru. Nas gerações seguintes tem muita gente, o Manezinho Neuzimar, atual presidente do TJ [Tribunal de Justiça], um monte de oficiais superiores da PM, como os coronéis Encarnação, Vital e Manoel Roberto. Pois é, ao lado da atual geração, cada um deu seu testemunho naquele encontro.

Puxa vida, meu velho Seminário, ainda agora você me ensina. Uns padres jovens, esbanjando saúde e alegria mandaram seu recado. “O importante é aprender a ser feliz”. Juro meu velho cento-e-cinquentão, minha “alma mater”, que estou sempre tentando aprender a ser feliz... Obrigado por mais esta. Aliás, você me deu o que era de mais importante, a fé nos valores sobrenaturais e eternos, a crença inabalável na existência de um Deus Supremo. Está certo que quando me falavam nele, diziam que era um sujeito ríspido, exigente, carrancudo, sempre disposto a nos punir por qualquer besteirinha. O importante é que eu e Ele nos conhecemos e daí, para nos tornarmos amigos foi um passo. Hoje sei que Ele é compreensivo, amigão que não falha, segura nossas barras, e nos quer felizes, como os padres novos do Seminário estão pregando.

Mas não há como negar que tudo começou com aqueles primeiros contatos, meio temerosos, meio medrosos, mas bem concretos, bem reais. Velho Seminário, em qualquer prédio, com quaisquer pessoas, em qualquer tempo, você me fez gente, me fez crente, me fez amor, me fez perdão, porque você moldou definitivamente minha vida.

Obrigado, eternamente obrigado, minha “Alma Mater”.

quinta-feira, maio 28, 2026

PRAÇA DA SAUDADE

 Pela manhã vi a postagem de Manaus de Antigamente sobre o edifício demolido na Praça da Saudade, à tarde, consultando ao Ramayana de Chevalier, encontrei sua crônica A Vez da Juventude, circulada em A Gazeta, edição de 3 de maio de 1961. O autor era então secretário de Administração do governo Gilberto Mestrinho (1959-63). A postagem reproduz parte da crônica.

Edifício demolido na Praça da Saudade

(...) Tudo isso me ocorreu, numa destas tardes de sol caboclo, sentado democraticamente num dos degraus do Palácio dos Espelhos, onde se abriga o Atlético Rio Negro Clube, olhando a praça da Saudade. Dentro do esquema idealizado pelo governador Gilberto Mestrinho, estive a sonhar com a nossa futura ágora amazônica, em cujo redondel se travarão as mais puras discussões filosóficas e se resolverão os mais intrincados problemas técnicos. Ali, na praça da Saudade, se erguerá, em tempo recorde, um centro universitário de entusiasmar. Segundo as diretrizes do Professor Mestrinho, esse guapo diretor dos destinos amazônicos até janeiro de 1963, a praça onde se levanta, imponente, a estátua ao primeiro Governador do Amazonas emancipado, terá, em cada face, um edifício moderno, abrigando a cultura. As construções devem obedecer a um critério moderno, de linhas aerodinâmicas, elegantes, finas, atraentes, sóbrias, utilitárias.

Serão quatro prédios que, pela minha vontade, eu veria montados sobre pilotis, deixando à visão dos pedestres e dos que viajam em carros, toda a amplitude da praça graciosa e remodelada em jardins amazônicos, em palmas e tinhorões coloridos, em flores tropicais de excelsa beleza. Enroscando-se nesses pilotis, teríamos as nossas trepadeiras ornamentais, de flores sugestivas, revestindo o plano inferior dos edifícios, num dossel. Não perturba a mirada do monumento, não obstrui a contemplação da praça ajardinada, com os seus bancos estendidos ao longo dos passeios, convidando à meditação ou ao colóquio, como de resto se usa em todos os países do mundo. Nos quatro cantos da praça, entradas largas irão, em X, até ao monumento, cortadas por círculos de cimento. Ali se instalarão a Faculdade de Filosofia, a Faculdade de Ciências Econômicas, a injustamente esquecida Escola de Comércio Sólon de Lucena e a própria Secretaria de Educação e Cultura, cada uma no seu próprio edifício e os quatro, cercando a praça, numa visão arcádica. (...)


terça-feira, maio 26, 2026

RAMAYANA DE CHEVALIER

 A crônica deste intelectual amazonense narra passagens de sua vida, acompanhadas de informações sobre a cidade de Manaus, e foi publicada em O Jornal, de 23 de setembro de 1958.

Ramayana de Chevalier

SAUDADE DA INFÂNCIA


Era no colégio do meu pai, aos primeiros albores de minha vida. Os sonhos, ainda multicores, não tinham forma. O calor, idêntico. Pelas tardes estivais, fagulhantes de luz, o pregão dos doceiros era em gaita de folha. Um assovio musical, longo e agudo, enchendo a rua. E os bondes, pesados e barulhentos, chacoalhavam a poeira e reduziam a pó os cacos das garrafas, da próxima trança de papagaios. 
Por essa época, ainda criança, eu escolhia a sombra que descia sobre o quintal e ali ficava, sentado, a observar as árvores militarizadas, ou subia ao muro de trás, divertindo-me com os cães vadios e obscenos, ou com a molecagem da Baixa. De tarde, fatigado e cheio de suor, tomava meu banho quase morno, porque a caixa d’água ficava ao sol. E, à noitinha, lá estava eu na calçada, batendo papo com os outros garotos do colégio, ou contando as aventuras da última fita de cinema para os vizinhos. Vida simples, vida de bairro humilde, de cidade pequena. 
Nunca me queixo do calor. Ao contrário, pelas nove horas da noite, muitas vezes o sono me surpreendeu escutando o toque de silêncio do quartel da Polícia Militar, com uma leve sensação de frio noturno. E, pelas madrugadas engalinhadas de cantos alegres, eu acordava, preguiçoso de deixar o leito, sentindo arrepios de umidade gostosa.
Depois, viajei. Esbati-me, como um fardo sequioso, pelas arestas do mundo. Onde havia um sexo, aí estava a minha bandurra. Onde morasse um sofrimento, aí comparecia, piedoso, o meu coração. E conheci outros climas, amenidades estranhas, delícias montanhesas, primaveras veludosas como peles femininas, invernos elegantes e acolhedores.
Conheci o valor de um abraço sob um edredom de penas, a carícia de uma ternura mansa dentro do outono triste. Caíram folhas de árvores solenes, uma a uma, diante de mim, como se fugissem do galho materno, a dormir no chão. E as rajadas magníficas do vento sul, esbofetearam-me no rosto, emprestando ao meu olhar o brilho forte dos vencedores.
Nos Andes, nos pampas, nas ribas tristes do Paraguai, no planalto de Piratininga, por onde passei, da orla inenarrável da costa fluminense às coxilhas mansas da terra lageana, amei à Terra com um amor cosmopolita. Desequilibrei o meu sistema termorregulador. Hoje, de regresso aos meus pagos, sinto calor. O menino de ontem não revelou o seu segredo ao homem de agora. Os revérberos da estreia causticante, nas vidraças que agonizam em reflexos, me tornam soturno, abichornado, entre parêntesis. Sou, hoje, um aficionado número um da sesta. A rede tem hoje um significado muito mais profundo e mais místico. 
Quando a ciência nutricionista atribui à lentidão equatorial o caráter de defesa do homem contra o clima, está perfeitamente certa. Os ingleses, franceses, holandeses, que aqui vieram, também chegaram ligeirinhos e europeus no seu passo, no seu dinamismo. Traziam invernos nos nervos e nos sonhos. Depois, foram amolecendo. Em cinco anos, passaram a falar devagarinho. Em dez, andavam disputando o passo com os tracajás. 
Mais tarde, ficaram fregueses do tacacá e começaram a comer o coração das melancias. Terminaram fazendo pipi nas calças sem vinco. Assim, todos os dolicocéfalos loiros que aportam por essas bandas. Tenho inveja da criança que eu fui. Não sentia calor, brincava de sol a sol, mirava o “bichão”, frente a frente, empinando o meu “banda de asa”. Melhor seria não ter conhecido mais nada, lugar algum, povo nenhum, antes que as minhas calças percam o vinco...

domingo, maio 24, 2026

SOFIA MENDONÇA - 16 ANOS

 Acontece hoje o aniversário de Sofia Mendonça, minha filha; por se tratar de domingo, foi-me permitido cumprir os desejos da aniversariante. Para marcar a data vão aqui postados algumas fotos do progresso físico da adolescente. Vida longa, princesa!





Sofia, em quatro tempos