Renato Mendonça
Logo cedo, recebi uma ligação do José
Manoel me parabenizando pelo aniversário. Durante a conversa relatei o
desconforto da Alda, que não havia passado bem à noite, e a suspeita de
infecção urinária. Sua esposa, Marília, aproveitou a ligação e interveio com asserção,
nos orientando a procurar o Hospital Santa Júlia, instituição de boa reputação.
Assim, programamos a ida imediatamente, sentindo uma certa urgência.
Chegamos ao Hospital Santa Júlia bem cedo,
na manhã do dia de São Pedro, logo após o saboroso café do hotel. Mesmo com a
informação prestada pela Marília, ainda havia entre nós uma pequena preocupação
com a natureza da instituição e se seria atendido pelo plano de saúde. O
motorista do Uber nos deixou exatamente no atendimento de emergência, com
acesso pela Avenida Ayrão.
Como se fosse uma bênção divina para
comemorar o aniversário, essa instituição estava cadastrada para atender meu
plano. Desde a recepção, observamos que era um hospital de excelência, com boa
estrutura, todo informatizado, com agilidade impressionante no atendimento e no
resultado dos laudos de análises clínicas dos pacientes. Um painel à frente
mostrava o andamento de cada resultado, assim como já constava do celular
cadastrado do paciente. Em pouco tempo, Alda estava de volta à mesa da médica
Maria José Silva para sistematizar o laudo e receber a prescrição dos remédios.
Havia urgência em comprar e começar a tomar o antibiótico.
O guarda, com a calma de quem conhece cada
recanto daquele espaço, nos guiou por corredores silenciosos, ladeados por
salas de atendimento e consultas. Saímos por uma porta lateral e tomamos um
elevador para subir um andar; de repente, o mundo hospitalar se dissolveu na
vibração da cidade. A Rodovia Álvaro Maia pulsava com o ritmo apressado dos
carros e o colorido das farmácias, cada uma oferecendo remédios e cosméticos.
A urgência nos fazia caminhar rápido, mas
havia algo de ritual nesse deslocamento: como se o antibiótico fosse não apenas
um remédio, mas um símbolo de esperança, um elo entre a fragilidade humana e a
força invisível que nos sustenta. O dia de São Pedro, outrora celebrado com
procissões e fogueiras em cantos da cidade, ali se manifestava em forma de
bênção silenciosa — o encontro entre a fé e a ciência, entre o cuidado humano e
a tecnologia que acelera curas.
Ainda como parte das bênçãos recebidas,
estávamos próximos ao Cemitério São João Batista, onde eu tencionava passar
para rever o túmulo de minha mãe e de minha avó. Fazia parte do meu plano
primitivo, antes de viajar. Caminhamos até lá. O portão do cemitério era como
se fosse passagem para outro tempo, outro mundo. Cada passo sobre o chão quente
trazia lembranças que se misturavam ao presente. O azul do túmulo, ainda vivo
na memória digital, agora se revelava diante dos olhos com outra cor, mais
brilhante sob a luz do sol. Toquei a superfície da lápide e senti que, de algum
modo, minha mãe e minha avó estavam ali — não apenas sob a pedra e a camada de
terra, mas no calor que me envolvia, na emoção que me tomava por inteiro. Esse
instante singular reformulou minha maneira de sentir saudade de minha mãe —
como se fosse uma saudade compartilhada —, cuja breve existência de apenas
trinta e cinco anos deixou em mim uma ausência que não se apaga — a beleza que
nunca se acaba. Cada lembrança é um fio de dor e ternura, e ao evocá-la, sinto
que sua vida interrompida continua a pulsar dentro de mim, como se me pedisse
que a memória seja também uma celebração.
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| Renato no cemitério São João Batista |
Rezei em silêncio, como quem conversa com o
passado e pede proteção para o futuro. O vento leve que atravessava nossos corpos
parecia resposta, um sopro de bênção. Naquele instante, a viagem deixava de ser
apenas deslocamento geográfico: tornava-se uma peregrinação íntima, um encontro
entre fé, memória e destino.
É impróprio dimensionar o tamanho da
emoção, posso assegurar que o momento foi épico — o melhor presente de
aniversário para meus 75 anos — comemorado com uma festa espiritual. Minha avó,
que conviveu mais tempo comigo, me “olhava” com seus olhos miúdos e me
acalmava. Segredamos juntos nossas orações e pedi-lhes a Bênção. Uma placa
provisória, trazida pelo meu irmão Roberto, que me acompanhava também nessa
missão, encimava o túmulo. Prometi para elas, e para mim mesmo, que não vou
ficar mais tanto tempo afastado... se Deus quiser.
O calor do verão amazônico parecia selar
meu juramento, como se o próprio sol fosse testemunha da promessa. A lembrança
do meu pai, repousando no São Francisco Xavier, aguardava sua vez de ser
visitada, mas naquele instante o destino e a fome nos chamavam para a casa do
Roberto, meu anfitrião.
O almoço em família, simples e festivo, foi
como prolongamento da oração feita no cemitério. À mesa, entre risos e
histórias, percebi que a viagem não era somente uma jornada física programada:
era celebração da vida, encontro de gerações, reafirmação de laços que resistem
ao tempo. Cada garfada trazia o sabor da memória, e cada palavra trocada era
bênção renovada de amor e fé. Roberto, Beatris e a juventude da filha, Sofia,
16 anos, foram fundamentais para que nos sentíssemos novamente no aconchego de um
lar — e feliz aniversário!
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| Renato - no cemitério São Francisco Xavier |
À tarde, presente ao túmulo de meu pai —
sepultado com minha madrasta, Doroteia — a mesma fé devotada. O azul tênue do
céu parecia guardar segredos, e a nuvem que se afastava com o vento carregava
consigo minha angústia, como se fosse mensageira de um consolo invisível.
Percebi que a fé que compartilhamos muitas vezes ainda nos unia em silêncio,
cada um traduzindo a ausência à sua maneira.
Meu pai, mesmo ausente, deixava ali sua
marca: um legado que me acompanha e se revela nas pequenas lições que a vida me
ensinou quando ele estava presente e após sua partida. Era como se ele me
dissesse, naquele momento, através do sopro do vento, que a paz não está em
negar a dor, mas em aceitá-la como parte da caminhada.