Esta prática me fez recordar talvez a única em que colaborei com os colegas vizinhos para expor o boneco em minha casa, que possuía uma varanda no alto, portanto bem visível e protegido. Meu genitor não permitiu, acabando com o festejo no início. As considerações abaixo pertence ao colaborador Renato Mendonça.
![]() |
| Foto do jornal O São Gonçalo (RJ) |
A malhação do Judas já foi — sobretudo nas
cidades metropolitanas da região Sudeste — uma das mais celebradas tradições
populares da era cristã. Em alguns estados do Norte e Nordeste, o ritual ainda
permanece vivo, como chama que resiste ao vento do tempo e da indiferença.
Possivelmente trazida pelos colonizadores, a prática acontecia nas primeiras
horas do Sábado de Aleluia, simbolizando a execração de Judas Iscariotes — o
traidor que vendeu Jesus Cristo por trinta moedas, conforme narra o Novo
Testamento.
Recordo com saudade os bonecos de pano — de
tamanho humano, recheados de palha ou de roupas velhas — que se tornavam a
efígie da traição. Muitas vezes, não representavam apenas Judas, mas também
figuras públicas impopulares, vizinhos indesejáveis ou personagens da
comunidade que, inevitavelmente, eram surrados e queimados. Preparados na noite
silenciosa da Sexta-feira Santa, surgiam pendurados em postes ou árvores, à
espera da multidão de adolescentes e meninos que os malharia ao amanhecer.
Alguns traziam testamentos bem-humorados —
sátiras afiadas, críticas sociais, mensagens à comunidade. Eram bilhetes que
explicavam quem o boneco representava, transformando o ritual em catarse
coletiva: expiação das indignações acumuladas ao longo do ano. Ali se
misturavam motivações religiosas e sociais, fé e protesto, devoção e humor.
Para as crianças, era festa e rito ao mesmo
tempo — o fim da Quaresma, a chegada da Páscoa, e, sobretudo, a expectativa pelos
presentes de chocolate. Para os adultos, era também um exercício de crítica,
uma forma de dar corpo às frustrações e queimá-las junto ao boneco.
Apesar de sua forte ligação com o
catolicismo, a malhação do Judas revela a capacidade do povo de ressignificar
tradições — mesclando elementos sagrados com o riso, a sátira e a denúncia.
Hoje, porém, a prática é alvo de críticas: alguns a consideram retrógrada.
Ainda assim, permanece como expressão viva da cultura popular brasileira,
celebrando a renovação da fé e o renascimento pascal, ao mesmo tempo em que nos
convida a refletir sobre as injustiças que atravessam a sociedade.
O simples ato de recordar a passagem
bíblica já é, em si, uma vitória contra o esquecimento em tempos de crescente
ateísmo. O rito carrega valor cultural profundo: é a forma como o povo expressa
indignação, personifica a traição e a injustiça, e as expurga fisicamente na
figura de Judas. Se quiséssemos ampliar o sentido da celebração, poderíamos
escalar tantos outros “judas” do mundo político — os corruptos e os traidores
da pátria, principalmente — e malhá-los nas urnas, como quem transforma o voto
em instrumento de purificação.
Nos tempos modernos, em meio às influências
globais que nos atravessam, manter práticas como essa é preservar raízes e bom
senso. A malhação de Judas pode ser também metáfora universal: execrar
os “judas internacionais”, os traidores da humanidade, que se multiplicam em
diferentes formas e em diversos países. Sem ideologias ou fundamentalismos,
cabe a nós escolher quais sombras nefastas precisamos abolir de nossas mentes e
corações.
Assim, cada boneco queimado é mais do que
um espantalho de pano: é a imagem daquilo que precisamos deixar para trás. É a
sombra da caverna de Platão que se dissolve no fogo, abrindo caminho para a luz
da Páscoa — a vitória da vida sobre a morte, da esperança sobre a desesperança.
A vitória da Justiça e da Fé!



