CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, setembro 11, 2026

VIAGEM NO TEMPO (final)

 

Renato Mendonça

12.08.2026

 Doce Regresso

 Como quem caminha sorrateiro, o navio Ana Beatriz deslizava pelo rio com a discrição e a suavidade de um felino noturno. O murmúrio das conversas no convés se misturava ao sopro leve das águas sendo cortadas, e o singrar naquele mar doce parecia quase um segredo compartilhado apenas entre a embarcação e a fluidez das nossas lembranças da gloriosa semana que ficara para trás.

Da sacada do camarote, a vista era um adeus emoldurado: a cidade de Manaus se despedia com suas construções centenárias — a Igreja Matriz erguida, no topo de uma colina, como testemunha de eventos religiosos memoráveis; o porto Rodoway pulsando de histórias do primeiro ciclo da borracha, assim como o prédio da Alfândega e o Mercado Adolpho Lisboa, este que nos acolhera como turistas curiosos em quase todos os dias. Ao fundo, a silhueta industrial da Refinaria de Manaus, com seus tanques e torres de refino de petróleo, lembrava que o progresso também se inscreve na paisagem exuberante.

E então, como um gesto de despedida dos tempos modernos, a ponte estaiada do Rio Negro se estendia sobre nós, delicada e firme, como se fosse um arco que abençoava nossa partida. O próprio rio, caudaloso e majestoso, abria o tapete líquido para a jornada — o doce regresso.

Logo adiante, o espetáculo do Encontro das Águas: o Rio Negro, com sua estirpe escura, caminhava lado a lado com o Solimões, de águas claras e barrentas. Por quilômetros, ambos seguem juntos sem se misturar, como se fossem amantes que compartilham o mesmo leito, mas guardam suas diferenças. Uma hora após a partida, ainda vivíamos essa dualidade cromática refletida no espetacular espelho líquido — fenômeno que a ciência explica pela incompatibilidade de densidade e temperatura, mas que a poesia prefere chamar de milagre da natureza.

O Ana Beatriz seguia como quem se deixa levar pela correnteza, flutuando sobre um devaneio líquido. O convés era palco de murmúrios, risadas e conversas calorosas entre os passageiros. Famílias se esgueiravam no afã de conquistarem um conforto plausível. A brisa do rio trazia o frescor úmido da floresta e do rio, para deixar a temperatura amena e revigorante. Cada rede armada era uma unidade de descanso, e o balanço suave do navio embalava os passageiros como se fossem crianças ninadas pelo próprio Amazonas.

No início da noite, o navio alcançou Itacoatiara. A troca de passageiros foi rápida, quase automatizada, como se cada gesto tivesse sido ensaiado. Logo depois, o céu se abriu em constelações dispersas, estrelas que pareciam dialogar com o reflexo das águas. O silêncio era apenas interrompido pelo ritmo compassado do motor, que pulsava como uma respiração profunda de quem sobe uma rampa. O tempo, ali, parecia suspenso, infinito, e nos mergulhava em sua contemplação. 

Porto de Itacoatiara, às 19h40

Quase ao romper da aurora, Parintins  nos recebeu como um espetáculo vivo: luzes refletindo sobre as águas, embarcações atracadas com tripulação a bordo e um frenético movimento de pessoas que pareciam dar continuidade à festa recente. O porto ainda guardava, como um eco persistente, as disputas dos bois-bumbás — Caprichoso e Garantido — que transformaram a cidade em um palco de folclore, paixão e cultura popular. O navio demorou-se um pouco mais ali, como se quisesse absorver cada detalhe daquela agitação portuária. Passageiros e mercadorias se misturavam em um fluxo incessante, mesmo diante do alvorecer de um novo dia, o 3 de julho, que se anunciava com cores suaves no horizonte.

As horas seguintes se sucederam em ritmo lento, e o rio era sempre o protagonista: ora largo como um mar, ora um pouco mais estreito; ora o navio se afastava da margem, ora se aproximava. Mas era sempre exuberante, nas suas margens se via aqui e acolá um recanto com suas particularidades. Povoados surgiam à margem, com casas de madeira flutuantes em sua maioria. O Ana Beatriz, sereno e firme, era nosso alicerce — guardava cada imagem como memória, cada paisagem como promessa de lembrança. E assim, o rio, com sua exuberância infinita, nos conduzia não apenas pelo espaço, mas também pelo tempo, como se cada cenário fosse uma revelação e um convite à contemplação.

Porto de Parintins, às 05h00

Antes do meio-dia, a chegada a Óbidos trouxe uma ruptura na rotina. A fiscalização portuária na Base Flutuante de Candiru lembrava que o rio também protege segredos sombrios e luta para combater o tráfico de drogas. Policiais e cães farejadores investigaram um casal vizinho de nosso camarote, que — talvez por denúncia recebida — foi convidado a desembarcar e não retornou. A cena foi rápida, mas deixou no ar a sensação de que a Amazônia também é palco de dramas invisíveis e precisa estar atenta aos mecanismos usados por traficantes.

E então, após horas de travessia, Santarém se anunciava com chegada prevista para as oito da noite. Foi marcada por uma manobra inesperada: o comandante, evitando tarifas do porto municipal, atracou em local impróprio — imprensada entre outras embarcações —, sem uma plataforma adequada de acolhimento e trânsito de passageiros. A espera, longa e tensa — aproximadamente quarenta minutos —, fez os passageiros com bagagens se alinharem em fila indiana entre os carros, motocicletas e equipamentos transportados no convés, causando estresse entre os mais ansiosos.

O primeiro cenário da cidade não seduzia. Caminhamos por um acesso de terra batida até encontrar um táxi — na verdade, um carro de aplicativo. O motorista, mais atento ao jogo da Copa do Mundo da Argentina com Cabo Verde do que ao nosso interesse, nos levou a um hotel de péssima aparência, sem vagas, numa rua esquisita. Outro, sugerido por ele, na orla — o Hotel Tapajós —, nos acolheu em melhor condição.

Dizem que o encontro com o rio Tapajós é quase uma repetição do encontro das águas do Rio Negro: águas azul-turquesa se unem às barrentas do Amazonas, criando outro espetáculo cromático, parecido com o turístico Encontro das Águas de Manaus. Mas, nem conseguimos admirar esse outro espetáculo da natureza. No entanto, chegar a Santarém foi o realizar de um sonho longo. Uma viagem idealizada mesmo antes de saírmos do Rio de Janeiro. O desembarque, numa noite escura, trouxe de volta o ritmo da terra firme, embora o corpo ainda guardasse o delicioso balanço do rio. 

Encontro das águas entre os
rios Tapajós e Amazonas

No dia seguinte, ao caminhar pelas ruas, decidimos desbravar a cidade em sua essência, deixando que cada quarteirão nos conduzisse até a estação rodoviária. Não era parte do plano inicial fazer a travessia entre Santarém e Belém por terra, mas a ausência de embarcações nos próximos três dias nos obrigava a reinventar o roteiro. Assim, a rodovia Transamazônica surgia como alternativa inesperada e, após confirmarmos nossa presença na viação Ouro e Prata, a ideia ganhou contornos de aventura. A partida, marcada para as seis da manhã seguinte, parecia prometer novas descobertas.

Nesse trânsito pela cidade, a realidade urbana se impunha diante de nossos olhos. O que já havíamos testemunhado em Manaus repetia-se ali: sinais claros da falta de zelo do poder municipal. Calçadas quebradas, ruas sujas, construções improvisadas — escadas em caracol brotando das calçadas para conferir acesso a cômodos suspensos — compunham uma paisagem de desordem.

Em Santarém, escadas nas calçadas
(acima e abaixo)


Era como se a cidade, em sua luta por espaço e sobrevivência, tivesse criado uma arquitetura própria, marcada pela improvisação, com a conivência do poder público. Mas, como contraponto a essa situação caótica, para nossa satisfação, encontramos outro hotel — o Santorini — com a promessa de um aconchego melhor, mais próximo da Rodoviária. Ali perto, um restaurante com excelentes pratos típicos e estrutura de cidade grande, foi outra descoberta prazerosa.  A memória dessa viagem, entre Manaus e Santarém, não é apenas o deslocamento geográfico em cima de uma embarcação, cortando um mar de água doce — é sensorial, a doce lembrança feita de cores, sons, ambientes e silêncios que só um passeio memorável pela Amazônia pode nos oferecer.

CORONEL PM ILMAR FARIA (1946-1999)

 Ao vasculhar os periódicos na Biblioteca Pública local, identifiquei duas postagens sobre meu saudoso colega da Polícia Militar do Estado. Chegamos juntos; Ilmar rapidamente se sobressaiu por sua atuação junto às autoridades, além de outros atributos (entre eles, esportivo) que o fizeram respeitado pela sociedade. Ainda como major, foi Diretor-Geral do DETRAN, em 1978, quando transferiu o encargo ao Dr. Luiz Verçosa. Uma semana antes de deixar esse cargo, compareceu à cerimonia de inauguração da "mini-rodoviária", instalada pelo prefeito Jorge Teixeira. Fica a curiosidade: alguém sabe qual o destino dessa mini-rodoviária?

Foto circulada no Jornal do Commercio,
11 junho 1978 (Ilmar, primeiro à direita)

Prefeito inaugurou ontem o moderno terminal rodoviário

 O prefeito Jorge Teixeira inaugurou ontem às 11 horas, o mini-terminal rodoviário de Manaus, preenchendo dessa forma uma lacuna no setor do transporto urbano, haja visto que a estação que funcionava no Edifício Alex, na rua Itamaracá, não esteva atendendo de uma maneira apropriada a população.

O mini-terminal provisório foi construído em tempo recorde (2 meses), e a Prefeitura investiu uma verba de 900 mil cruzeiros, a fim de que as pessoas que viajam para as outras capitais do país, ou mesmo para os municípios próximos da capital, tenham mais conforto na compra das passagens.

O edifício na Rua Nhamundá, ao lado do mercado Maximino Correa, este terminal funcionará somente enquanto não é concluída a obra da Estação Rodoviária Modelo, que ficará sediada na bola do bairro do Aleixo. Segundo o prefeito Jorge Teixeira serão gastos aproximadamente 14 milhões de cruzeiros na nova estação que será construída com convênio junto ao DERAM e o DNER, e os trabalhos começarão a partir da primeira quinzena de julho.

Por outro lado, Jorge Teixeira anunciou para agosto, o início das obras do Terminal Hidroviário. O projeto foi encaminhado ontem à tardo ao DNER, e a verba a ser investida no mesmo está em torno de 110 milhões de cruzeiros. Tão logo seja concluído os trabalhos na Estação Modelo do Aleixo, o mini-terminal será aproveitado como departamento de limpeza do bairro da Praça 14 de Janeiro e adjacências. Cada uma das empresas concessionárias das linhas rodoviárias existentes possuirão um guichê próprio, ao contrário da estação anterior, quando apenas um era utilizado por todas as empresas.

Com essa inauguração, o prefeito Jorge Teixeira dá continuidade ao seu plano de ação, desta feita para a área de transportes, de modo a beneficiar a população que há muito reclamava uma estação rodoviária mais condigna para a cidade. 

Foto do Jornal do Commércio, 18 junho 1978
(Ilmar, ao centro, cumprimenta o governador)

Verçosa no Detran ameaça acabar “indústria da multa”

Prometendo acabar com a “indústria de multa”, o bacharel Luiz Verçosa assumiu o DETRAN (Departamento Estadual de Trânsito), em substituição ao major Ilmar Faria, que volta à ativa da Polícia Militar do Estado. Verçosa, ao ser empossado no cargo pelo governador Henoch Reis (foto), em Palácio Rio Negro, prometeu dar continuidade ao trabalho que vinha sendo desenvolvido pelo major Ilmar Faria, naturalmente com algumas inovações. O governador HR destacou o desempenho do major Faria à frente do DETRAN e desejou sucesso a Verçosa na direção do órgão.

 


domingo, setembro 06, 2026

POEMA DOMINICAL (13)

 O poema é de autoria do saudoso poeta Alencar e Silva, e circulou em O Jornal, circulado em 15 de dezembro de 1962. Na véspera, ocorreu um acidente fatídico em Manaus: a queda do Constellation PP-PDE, da Panair do Brasil, matando todos os 52 ocupantes.

  

Recorte de O Jornal, 15 dezembro 1962

NESTE BARCO PASSAGEIRO

                                                                        ALENCAR E SILVA


Neste barco passageiro

mal disposto a viajar

eu me invento rotas novas

rotas de nunca chegar 

marinhando esse meu gosto  

acre e ázimo de mar

vou-me impondo amargas provas

sem com elas me importar 

que este barco de noturnas

solidões vai-se a errar

sob luas e astros doidos 

que os bem sei como inventar

quando embarco e ao barco imprimo

rotas de nunca chegar.