CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

domingo, setembro 27, 2026

POESIA DOMINICAL (27)

 

                            Pereira Barroncas 

“Das curvas da noite imensa,

Surgiram caminhos loiros...”

— Estradas da inspiração,

Que só os gênios palmilham,

Em versos líricos dedilham,

dos aedos que se perfilam,

Ao Grêmio da Madrugada...

 

Eu sei, o estro é Aurora,

Que se esconde e se enflora,

Nos cílios da Primavera...

-- Que seu cabelo, não o era,

Nem seus braços, -- quem lhe dera,

Nem sua boca e

nem nada...

Eram apenas devaneios,

Do vate em seus anseios,

Áureos filões d'almos veios,

No cântico da Madrugada...

 

Que de cuidados ao poeta,

— Em sua alma de esteta,

— A poesia, — ao eleito,

Qual jovem núbil, em seu peito.

Dá-lhes abrigo, em seu leito...

Nem um engano e

nem nada...

“Caminhos loiros, o orvalho,

Pingando nos olhos, e, mudo,

— Qual Rosicler da Alvorada,

É do Farias de Carvalho,

A alma, o sentimento, é tudo...”

sábado, setembro 26, 2026

PRIMAVERA DE EMOÇÕES

 

Renato Mendonça

23.09.2026

 

Enquanto eu rascunhava palavras para falar de flores e emoções, recebi de minha prima, em boa hora, um ensaio em prosa poética de Cecília Meireles. A exuberância de suas palavras, delicadas e ao mesmo tempo intensas, tocou-me com lirismo e contagiou minha expectativa de escrever sobre esta primavera de emoções. Como se sua voz ecoasse dentro de mim, lembrando que a poesia é também uma forma de enxergar o mundo com mais humanidade.

A primavera chegou discreta, trazendo não apenas flores, mas uma garoa fina, como se o céu quisesse regar o encanto que desponta. É uma estação do ano que não se limita ao colorido dos jardins e dos bosques: infiltra-se nas nossas esperanças, nas inquietações que florescem junto às eleições que se aproximam.

Há um perfume de civilidade no ar. O peito se abre à esperança, mas a razão insiste em buscar certeza e integridade. Não nos faltam opções — o que falta, muitas vezes, é discernimento para subsidiar boas escolhas. E é justamente ele que precisamos convidar para caminhar conosco. Que pátria desejamos? Uma terra livre de cabrestos, capaz de gerir sua própria democracia e cuidar dos mais vulneráveis? Ou uma soberania entregue como a xepa de um fim de feira, vilipendiada e perdida?

Primavera é tempo de semear. E semear exige escolhas. Cada voto é uma semente lançada ao solo da democracia. Que frutos queremos colher? Sejam eles de caridade, de justiça, de amor ao próximo. Pois não há democracia verdadeira sem fraternidade, sem olhar para o semelhante mais necessitado.

As parábolas do Novo Testamento nos lembram que a essência da vida cristã é o amor. O Bom Samaritano não hesitou diante da dor alheia; fez da compaixão sua ação mais concreta. Assim também nós, ao escolher representantes, precisamos pensar em quem cultiva projetos que transformam vidas, que levam esperança às comunidades carentes, que regam a fé dos que mais precisam.

Primavera é promessa. É anúncio de que o inverno passou e de que há sempre a possibilidade de renascer. Que nossas escolhas, neste tempo de flores e de urnas, sejam regadas pela sabedoria e iluminadas pela lucidez. Que não pensemos apenas na nossa própria felicidade, mas na felicidade coletiva. Pois o amor ao próximo, quando se traduz em ação política, é a mais bela flor que podemos oferecer ao futuro.

Amor ao próximo não está dissociado das escolhas dos representantes do povo nas próximas eleições; é, antes de tudo, uma prova de caridade e sabedoria. 

Bom voto a todos! Viva a Democracia!

quarta-feira, setembro 23, 2026

SEMANA DO TRÂNSITO - 1976

 O Departamento Estadual de Trânsito (DETRAN), há exatamente 50 anos, estava sob a direção do bacharel José Ribamar Afonso, carinhosamente alcunhado de "Delegado do Diabo". E, para festejar a Semana do Trânsito, fez a apresentação de semáforo sui generis, tido como invenção em nível mundial. Conheci esta novidade que, não teve a repercussão prevista pelo diretor do Detran. Valeu a intenção, consoante a notícia do Jornal do Commércio.


Recorte do Jornal do Commercio, 18 setembro 1976,
(acima & abaixo)

Um gigantesco semáforo com trinta e três focos de luz está chamando a atenção de motoristas e pedestres que passam pelo cruzamento das avenidas 7 de Setembro e Getúlio Vargas. Com um pisca-pisca constante de focos verdes e vermelhos, o grande sinal, inventado pelo sr. Faiez Isaac Sahdo, ainda não tem similar no mundo e aqui em Manaus, segundo anunciou o bacharel José Ribamar Afonso, outros cruzamentos importantes da capital amazonense receberão os gigantescos sinais, que segundo o titular do DETRAN, “vai servir para diminuir em muito os acidentes de trânsito em nossa capital'”.

CRONOMETRADO

Para a grande massa, aquele sinal com dezenas de focos verdes e amarelos, nada tem de especial, mas na verdade ele é perfeitamente sincronizado a um relógio, com cada foco apagando e acendendo exatamente em oito segundos. As explicações foram fornecidas ao Jornal do Comercio, pelo seu inventor, Faiez Sahdo, a quem o bacharel José Ribamar Afonso, “chama carinhosamente de professor Pardal" do DETRAN.

“O tempo do semáforo, explicou o “professor Pardal”, é de 40 segundos e cada foco acende e apaga em oito segundos, mantendo por isso mesmo um grande controle dos motoristas e pedestres que atravessarem aquele cruzamento”. Dessa forma, continuou — “quando o motorista ver que só existem dois focos verdes acessos, automaticamente ele vê se tem ou não condições de realizar o cruzamento, sabendo que faltam apenas 16 segundos para o sinal vermelho. Dessa mesma forma, o pedestre procede, passando a atravessar o cruzamento com maior tranquilidade, isso, “quando os oito focos vermelhos, no caso, estiverem acesos, brecando a passagem dos veículos".

PIONEIRO NO MUNDO

O novo semáforo de Manaus, instalado no cruzamento das avenidas 7 de Setembro com Getúlio Vargas, inventado pelo amazonense Faiez Isaac Sahdo, é pioneiro no mundo, uma vez que não se conhece em outro ponto qualquer do globo, sinal semelhante ao instalado recentemente em nossa capital.

Como o sistema aprovou à primeira vista, o titular do DETRAN, José Ribamar Afonso, anunciou que outros desses semáforos serão instalados nos cruzamentos de maior fluxo de trânsito na cidade, sendo o próximo no cruzamento das avenidas 7 de Setembro com Eduardo Ribeiro. “Nos pontos onde o movimento de veículos e pedestres for considerado pequeno, nós vamos manter os semáforos convencionais — disse o sr. Ribamar Afonso —, demonstrando muito entusiasmo pelo novo sinaleiro lançado no mundo, acontecido em nossa capital. 

segunda-feira, setembro 21, 2026

MEUS OITENTANOS (18)

 FASCÍCULO 18

Em agosto, durante a pausa escolar aproveitei para visitar Curitiba, onde se encontrava minha companheira; entretanto, meu plano era chegar de automóvel em Puerto Stroessner, hoje Ciudad del Este, para o que convidei ao colega equatoriano Fiallos. No caminho, ao passar por São José dos Campos, parei para abraçar meu irmão Renato que, de forma gentil, permaneceu com meu carro, enquanto eu trocava de veículo com ele. Ao deixar Curitiba, CVC se engajou ao grupo, e assim seguimos para Foz do Iguaçu. Ali, ao organizar a visita à cidade paraguaia, fui alertado sobre alguns possíveis contratempos no outro lado: o carro não estava em meu nome; algum nativo poderia encenar um atropelamento, ocasionando um enorme dissabor. Diante dos riscos, aboli a ideia do Paraguai, mas meu colega optou por tomar um ônibus e partiu. Com a amada, dirigi-me para Floripa, pernoitando em Curitibanos e outros locais aconchegantes. No retorno, a CVC desembarcou em Curitiba, e retomei a viagem, parando em São José dos Campos; como não mais possuía disposição para dirigir, deixei meu carro com o Renato, e embarquei em ônibus interurbano para o Rio.

Alunos em sala de aula

No feriado da Proclamação da República, viajei para Porto Alegre, onde fui acolhido pelos amazonenses, alunos do curso de formação de oficiais. Foi minha primeira visita ao estado do Sul; além dos conterrâneos que me mostraram a cidade, recebi a hospitalidade da família do Dario e esposa, casal gaúcho que administrou o Armazém Reembolsável (uma espécie de supermercado) na PM, em Manaus. O casal me levou a Gramado e locais turísticos próximos; ao passar pela fazenda deles, refestelei-me com um café colonial – típico da região. Já os alunos me conduziram a uma churrascaria perto da escola militar e logo me advertiram sobre os petiscos de entrada: “Esqueça a sopa, vamos direto à carne!” Somente no avião de retorno, lembrei das apostilas para estudar, mas, quem disse? Por essa razão, não obtive pontos suficientes nas provas finais para uma melhor colocação.  

Dia da formatura

O encerramento do curso ocorreu em 23 de novembro e, dia 30, a formatura com a entrega dos certificados – o prejuízo causado pela viagem a Porto Alegre me deixou com a menção “Bem”, nota acima de oito. Não mais o último! Para mais contentamento, recebi a visita da Maria Olinda – amizade manauara, que seguiu comigo para Santos, onde ocorreu o desfecho da festa e do ano. Ao passar por São Paulo, visitei Campos do Jordão, onde adquiri uma muda de pinheiro de Natal, e gracejei com a vendedora: “em Manaus, vou plantar o pinheiro em um freezer”. Plantei-o na residência do Morro, onde floresceu bastante, mas foi extirpado pelo novo morador.

Certificado de conclusão

O mês de dezembro foi dedicado ao relaxamento; afinal cheguei a Santos, onde com a família festejamos de forma contida o Natal, porque as bagagens já estavam sendo acomodadas para o retorno a Manaus. Usei meu carro – a Brasília dourada – até onde pude; como ela estivesse coberta por seguro total, cheguei a desejar que fosse furtada para receber a indenização; por isso, em qualquer lugar que frequentava costumava deixa-la destravada. Todavia, nada aconteceu. Restou-me, ao concluir o curso, me desfazer da minha Brasília dourada, e assim fiz com o primo Francisco “Cote”. Com os recursos obtidos, comprei um Chevrolet Chevette azul, seminovo, com o qual retornei para Manaus, passando por Cuiabá, pela BR 319, aberta em 1976. Após celebrarmos o Natal de 1979, ao lado dos irmãos Luiz e Jorge, que me auxiliaram durante a viagem como motoristas e mecânicos, partimos rumo à capital amazonense.

O trajeto planejado era alcançar Cuiabá pela BR 364 e, no prosseguimento, chegar a Porto Velho, e da capital de Porto Velho para Manaus pela BR 319. A primeira etapa saiu maravilhosa pois, rodando à noite, assistimos o céu iluminado por estrelas, espetáculo quase inédito para mim; foi uma dádiva da natureza. Em Cuiabá, aproveitei para abraçar o major Benedito Ferreira, colega do CTE, que me orientou na cidade; no entanto, fui informado que, sem asfaltamento, a rodovia em direção ao Norte não era recomendável para automóveis pequenos, o meu Chevette. A solução foi entregar o transporte a um caminhão comum o veículo totalmente repleto de tralhas, as minhas escolares e as ferramentas dos manos, além de alguns objetos da mudança. Foi um “seja o que Deus quiser!” Feito isso, tomamos o avião e desembarcamos em Porto Velho, onde busquei o “primeiro sogro” para mais uma vez me apoiar, e recomendar a recepção do carro em viagem. E veio a derradeira etapa para alcançar a capital do Amazonas: era véspera de Ano Novo, na rodoviária comprei três passagens, e logo o funcionário me orientou: somente há dois lugares, mas vocês fazem um rodízio. A saída do ônibus ocorreu no começo da noite; no interior do veículo, para nossa surpresa, deparamos com a fila de viajantes de pé, os “sem lugares”.

Seguimos, pois não havia alternativa; a viagem transformou-se numa celebração, havia uma conversa espontânea entre os passageiros, que cediam os assentos e compartilhavam parte das marmitas com merenda; além disso, a paisagem da estrada permitia ocasionalmente avistar um animal silvestre atravessando a pista. Ninguém dormiu, porque, para atravessar cada ponte, era preciso que todos saíssem do ônibus. No início da manhã, o ônibus parou à margem do rio Solimões, no Careiro da Várzea, aguardando que a balsa se posicionasse para atravessar o rio e, contornando o Encontro das Águas, alcançar o porto da Ceasa. Em seguida, voltamos ao veículo e, finalmente, chegamos à Rodoviária de Manaus. Desse modo, parte da família fez o caminho de volta, por decisão imposta do velho Manuel. O restante da família chegou de avião e ocupamos a casa do Conjunto Tiradentes – rua das Orquídeas, 31, recebida por procuração. Foi assim que – aos 34 anos – adentrei o ano de 1980.