CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quarta-feira, setembro 30, 2026

MEUS OITENTANOS (19)

         FASCÍCULO 19

     

Comecei o ano de 1980 com a casa do Conjunto Tiradentes repleta. Havia deixado a amada CVC em Curitiba, portanto, estava “solteiro”; motivo pelo qual abriguei meus pais e quatro irmãos em dois quartos e um amplo quintal, onde logo meu pai construiu um chapéu de palha para o conforto na área. Esse condomínio encontrava-se nos arrabaldes da cidade, ligado ao centro pela estrada do Aleixo, hoje avenida Cosme Ferreira. Sem comércio de qualquer natureza, o abastecimento de urgência era realizado no incipiente bairro do Coroado, somente alcançado de carro. A casa encontrava-se situada na esquina da Rua das Orquídeas com a Avenida das Flores, dispondo de ampla área verde.

Residência no conjunto Tiradentes

Todavia, minha primeira tarefa no Ano Novo foi buscar o Chevette em Porto Velho. Avisado pelo sogro, convidei a amiga Maria Olinda e pegamos o ônibus de volta àquela cidade; a movimentação foi semelhante à viagem de vinda. A viagem chegou na madrugada em Porto Velho e tratei prontamente de receber o carro, coberto de poeira — não foi surpresa; assustei-me quando vi o porta-malas aberto: a tranca havia sido danificada pelos solavancos da estrada e, ao abrir o carro, um forte odor de bebida alcoólica impregnava o interior. Esclareço que os mesmos solavancos romperam as embalagens das garrafas e até danificaram a caixa de ferramentas do mano Luiz. Fora isso, tudo estava conforme. Sabendo que a balsa no Careiro interrompe o serviço às seis da tarde, apertei o acelerador, tendo parado em um ou dois igarapés para me refrescar e trocar uns afagos com a carona. Cheguei à balsa a tempo e, assim, consegui dormir em casa.

Aquele ano passou nessa conjuntura, meu pai buscando reparar a casa do Morro da Liberdade, e os irmãos estudando com embaraços, devido ao transporte. Ainda assim, Luiz e Ricardo conseguiram aprovação no Senai, e Jorge empregou-se no Posto Sete. Antes que eu me esqueça: Jorge dormia na sala, por isso pedia a ele que me abrisse a porta quando eu chegava à noite, depois da faculdade e do rolê. Não havia maneira; quando eu batia na janela envidraçada, já ouvia a chiadeira dos chinelos do velho. Abria a porta e me acolhia com a mesma admoestação: “Você não vai trabalhar amanhã?”; recolhia-me à rede e roncava até de manhã. Outra: certa manhã, passando na esquina, um jovem com sua mochila solicitou-me uma carona; era hábito esse apoio pela precariedade de transporte. Ao passar pelo Coroado, o carona pediu que parasse e desceu, agradecendo. No outro dia, o vizinho me perguntou se havia dado carona a alguém. “Sim”, confirmei. “Onde ele ficou?” E, sem captar qualquer dano, informei: “na entrada do Coroado”. Então, o vizinho me contou que sua casa fora furtada naquela noite; daí conclui-se: o policial ajudou o bandido a fugir.

Algumas recordações do bairro Tiradentes que, como assegurei, havia sido implantado em região de mata, tendo por limite um igarapé; com a presença dos manos, as primas passaram a visitá-los com frequência e, quase sempre, a visitação se estendia até aquele curso d'água. A localização permitia frequentes chamegos e o avanço dos botos sobre o cardume, sem implicações. Outra: à época, eu fumava. Diversas vezes fiquei à noite sem esse veneno, porque não havia ao redor onde comprar. Em certa ocasião, postei-me à porta, esperando a passagem da patrulha de policiais; com ela, puxei uma conversa de “bêbado”, até perguntar se algum deles fumava. De pronto, um deles confirmou de quem pedi um cigarro. Este tentou me passar a carteira, que recusei. Fiz bem, pois, ao acender o cigarro ofertado, percebi que era de terceira linha, um “quebra peito”. Terceira: os filhos Roberto e Eduardo passavam comigo o final de semana e, aproveitando as ruas largas e enladeiradas, desfrutavam do único par de patins. Num sábado, ao retornar para casa, fui surpreendido pelo Robertinho, que, de patins, tentou pegar carona agarrando-se à janela do carro; não conseguiu, caindo ao solo. Em baixa velocidade, de pronto parei e corri para ver o acidentado. Nada demais, pois o garoto caiu com a mão espalmada e o pneu evitou mal maior.

Brasão do Corpo de Bombeiros da PMAM

Ao retornar à atividade policial, fui designado para servir no Corpo de Bombeiros, de onde fora afastado há seis anos; na ocasião, abrigado no novo aquartelamento da rua Codajás, em Petrópolis. Encontrei a boa acolhida dos colegas: Odacy Okada, comandante, e Cavalcanti Campos, no Centro de Atividades Técnicas (CAT). A hierarquia permitiu que fosse nomeado subcomandante, e tratei de buscar uniforme e capacete próprios do serviço. Logo, tomei conhecimento da reviravolta que o IPM “montado” dois anos antes na Rádio Patrulha encontrava-se na Auditoria, com meu pescoço à prova. Na época, bastava que o policial respondesse a um inquérito — como acusado — para, na condição de sub judice, ser excluído de lista de promoção. Essa adversidade logo me alcançou, quando assisti a diversas ultrapassagens ou “cangalhas”, no linguajar da caserna, de subalternos. Apesar disso, o prejuízo seria recompensado três anos depois, ao servir no Palácio Rio Negro.

Carteira estudantil da Faculdade de Educação

O curso técnico que frequentei propiciou que, em março, passasse a integrar a “Comissão de revisão de currículos e formulação de propostas de cursos de formação e aperfeiçoamento de praças”; a despeito do extenso título, ignoro a minha contribuição. Ainda naquele mês, foi criado o pelotão feminino, representando a quebra do machismo na corporação. A fim de capacitar o pessoal, foi instaurado o CFS feminino e, no quadro de instrutores, fui convocado para ensinar a disciplina “Metodologia do Ensino”. A matéria estava bem viva, mas achei estranho ensinar pela primeira vez mulheres; como deveria tratá-las, da mesma forma que os colegas homens? Outro pormenor me incomodava: de que maneira atuar durante a aula ao ver aqueles corpos jovens, por vezes chegando ainda com o short de educação física delineando o sexo? Mantive-me bem longe dos impulsos; após o curso, houve um namoro inconsequente com as primeiras oficiais. Antes do encerramento do curso, ocorrido no final do ano, em agosto, fui substituído no ensino da disciplina.

domingo, setembro 27, 2026

POESIA DOMINICAL (27)

 

                            Pereira Barroncas 

“Das curvas da noite imensa,

Surgiram caminhos loiros...”

— Estradas da inspiração,

Que só os gênios palmilham,

Em versos líricos dedilham,

dos aedos que se perfilam,

Ao Grêmio da Madrugada...

 

Eu sei, o estro é Aurora,

Que se esconde e se enflora,

Nos cílios da Primavera...

-- Que seu cabelo, não o era,

Nem seus braços, -- quem lhe dera,

Nem sua boca e

nem nada...

Eram apenas devaneios,

Do vate em seus anseios,

Áureos filões d'almos veios,

No cântico da Madrugada...

 

Que de cuidados ao poeta,

— Em sua alma de esteta,

— A poesia, — ao eleito,

Qual jovem núbil, em seu peito.

Dá-lhes abrigo, em seu leito...

Nem um engano e

nem nada...

“Caminhos loiros, o orvalho,

Pingando nos olhos, e, mudo,

— Qual Rosicler da Alvorada,

É do Farias de Carvalho,

A alma, o sentimento, é tudo...”

sábado, setembro 26, 2026

PRIMAVERA DE EMOÇÕES

 

Renato Mendonça

23.09.2026

 

Enquanto eu rascunhava palavras para falar de flores e emoções, recebi de minha prima, em boa hora, um ensaio em prosa poética de Cecília Meireles. A exuberância de suas palavras, delicadas e ao mesmo tempo intensas, tocou-me com lirismo e contagiou minha expectativa de escrever sobre esta primavera de emoções. Como se sua voz ecoasse dentro de mim, lembrando que a poesia é também uma forma de enxergar o mundo com mais humanidade.

A primavera chegou discreta, trazendo não apenas flores, mas uma garoa fina, como se o céu quisesse regar o encanto que desponta. É uma estação do ano que não se limita ao colorido dos jardins e dos bosques: infiltra-se nas nossas esperanças, nas inquietações que florescem junto às eleições que se aproximam.

Há um perfume de civilidade no ar. O peito se abre à esperança, mas a razão insiste em buscar certeza e integridade. Não nos faltam opções — o que falta, muitas vezes, é discernimento para subsidiar boas escolhas. E é justamente ele que precisamos convidar para caminhar conosco. Que pátria desejamos? Uma terra livre de cabrestos, capaz de gerir sua própria democracia e cuidar dos mais vulneráveis? Ou uma soberania entregue como a xepa de um fim de feira, vilipendiada e perdida?

Primavera é tempo de semear. E semear exige escolhas. Cada voto é uma semente lançada ao solo da democracia. Que frutos queremos colher? Sejam eles de caridade, de justiça, de amor ao próximo. Pois não há democracia verdadeira sem fraternidade, sem olhar para o semelhante mais necessitado.

As parábolas do Novo Testamento nos lembram que a essência da vida cristã é o amor. O Bom Samaritano não hesitou diante da dor alheia; fez da compaixão sua ação mais concreta. Assim também nós, ao escolher representantes, precisamos pensar em quem cultiva projetos que transformam vidas, que levam esperança às comunidades carentes, que regam a fé dos que mais precisam.

Primavera é promessa. É anúncio de que o inverno passou e de que há sempre a possibilidade de renascer. Que nossas escolhas, neste tempo de flores e de urnas, sejam regadas pela sabedoria e iluminadas pela lucidez. Que não pensemos apenas na nossa própria felicidade, mas na felicidade coletiva. Pois o amor ao próximo, quando se traduz em ação política, é a mais bela flor que podemos oferecer ao futuro.

Amor ao próximo não está dissociado das escolhas dos representantes do povo nas próximas eleições; é, antes de tudo, uma prova de caridade e sabedoria. 

Bom voto a todos! Viva a Democracia!

quarta-feira, setembro 23, 2026

SEMANA DO TRÂNSITO - 1976

 O Departamento Estadual de Trânsito (DETRAN), há exatamente 50 anos, estava sob a direção do bacharel José Ribamar Afonso, carinhosamente alcunhado de "Delegado do Diabo". E, para festejar a Semana do Trânsito, fez a apresentação de semáforo sui generis, tido como invenção em nível mundial. Conheci esta novidade que, não teve a repercussão prevista pelo diretor do Detran. Valeu a intenção, consoante a notícia do Jornal do Commércio.


Recorte do Jornal do Commercio, 18 setembro 1976,
(acima & abaixo)

Um gigantesco semáforo com trinta e três focos de luz está chamando a atenção de motoristas e pedestres que passam pelo cruzamento das avenidas 7 de Setembro e Getúlio Vargas. Com um pisca-pisca constante de focos verdes e vermelhos, o grande sinal, inventado pelo sr. Faiez Isaac Sahdo, ainda não tem similar no mundo e aqui em Manaus, segundo anunciou o bacharel José Ribamar Afonso, outros cruzamentos importantes da capital amazonense receberão os gigantescos sinais, que segundo o titular do DETRAN, “vai servir para diminuir em muito os acidentes de trânsito em nossa capital'”.

CRONOMETRADO

Para a grande massa, aquele sinal com dezenas de focos verdes e amarelos, nada tem de especial, mas na verdade ele é perfeitamente sincronizado a um relógio, com cada foco apagando e acendendo exatamente em oito segundos. As explicações foram fornecidas ao Jornal do Comercio, pelo seu inventor, Faiez Sahdo, a quem o bacharel José Ribamar Afonso, “chama carinhosamente de professor Pardal" do DETRAN.

“O tempo do semáforo, explicou o “professor Pardal”, é de 40 segundos e cada foco acende e apaga em oito segundos, mantendo por isso mesmo um grande controle dos motoristas e pedestres que atravessarem aquele cruzamento”. Dessa forma, continuou — “quando o motorista ver que só existem dois focos verdes acessos, automaticamente ele vê se tem ou não condições de realizar o cruzamento, sabendo que faltam apenas 16 segundos para o sinal vermelho. Dessa mesma forma, o pedestre procede, passando a atravessar o cruzamento com maior tranquilidade, isso, “quando os oito focos vermelhos, no caso, estiverem acesos, brecando a passagem dos veículos".

PIONEIRO NO MUNDO

O novo semáforo de Manaus, instalado no cruzamento das avenidas 7 de Setembro com Getúlio Vargas, inventado pelo amazonense Faiez Isaac Sahdo, é pioneiro no mundo, uma vez que não se conhece em outro ponto qualquer do globo, sinal semelhante ao instalado recentemente em nossa capital.

Como o sistema aprovou à primeira vista, o titular do DETRAN, José Ribamar Afonso, anunciou que outros desses semáforos serão instalados nos cruzamentos de maior fluxo de trânsito na cidade, sendo o próximo no cruzamento das avenidas 7 de Setembro com Eduardo Ribeiro. “Nos pontos onde o movimento de veículos e pedestres for considerado pequeno, nós vamos manter os semáforos convencionais — disse o sr. Ribamar Afonso —, demonstrando muito entusiasmo pelo novo sinaleiro lançado no mundo, acontecido em nossa capital.