FASCÍCULO 22
A aventura prosseguiu com a viagem à capital peruana. Com o apoio funcional de um parente que trabalhava na Cruzeiro, adquiri passagens com desconto na condição de nacional. O vendedor aconselhou que eu falasse o mínimo possível para não ser identificado, não transportasse encomendas de terceiros e carregasse um agasalho, já que o inverno de Lima prometia chegar. No aeroporto de Iquitos – Francisco Secada Vignetta, inaugurado em 1979, embarquei no DC-3 ou 4 da Faucett Perú; ao tomar assento junto à janela aproveitei a paisagem para notar a transformação da selva em serras enevoadas dos Andes e, finalmente, as praias do Pacífico. Um amigo da família me recepcionou no aeroporto Jorge Chavez, na província do Callao, no domingo (26), antevéspera das “Fiestas Patrias”; e próximo do almoço ao chegar à casa onde me hospedei. Estava frio; o anfitrião, atencioso, ofereceu-me de imediato um copo de “leche del tigre”. A mim e ao jovem cicerone Carlos, que de pronto bebeu um largo gole; achei curioso um drinque temperado, contendo até cebola. Olhei para o Carlos e vendo sua desenvoltura, não duvidei, bebi ainda que com parcimônia. Não houve como escapar: a pimenta brotou por todos os poros e afugentou o frio. Desse modo, conheci o ceviche. Esclareço que o coquetel inicial nada mais era que o caldo desse prato.
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| Aeroporto de Iquitos (acima) Bairro do Callao, onde se localiza o aeroporto de Lima (abaixo) |
Antes de deixar Lima, repassei algumas recordações aos amigos; porém, uma delas me afligiu: três jovens desejavam a única revista masculina Ele & Ela que dispunha. Resolvi aplicar uma solução salomônica: partilhei-a em três partes. Ao embarcar no aeroporto Jorge Chavez, fui assaz assediado para levar encomendas, mas, lembrando-me do conselho, cerrei os ouvidos. Em Iquitos, providenciei a passagem para Manaus, enquanto me despedia de tia Laura e dos primos Gil e Pepe e das primas Lita e Laurita. Meu filho Roberto havia permanecido em Tabatinga e, como não tivemos contato, eu desconhecia sua situação até o pouso do avião da Cruzeiro em Tabatinga. Ocupando o assento da janela, observava o embarque dos passageiros e, para meu prazer, vejo o filho na fila de embarque. Um amigo havia presenteado o garoto com a passagem. No dia seguinte ao desembarque em Manaus, compareci ao quartel para efetuar os registros de praxe; nessa ocasião soube que a corporação estava sob novo comando desde 04 de agosto.
O tenente-coronel EB Guilherme Vieira assumira a chefia, sendo o oitavo ocupante do cargo desde 1964. Aproveito para avaliar o desempenho da corporação, considerando a subordinação à Força Terrestre por quase vinte anos. O problema, entretanto, tinha contornos mais amplos: o movimento militar já dava sinais de enfraquecimento, indicando um distanciamento do Poder; como consequência, faltavam iniciativas no quartel, que passou a cumprir apenas rotinas. Para enredar ainda mais, no ano seguinte estavam marcadas as eleições para governador. Frente a esse cenário, o coronel Guilherme buscou se adaptar – desconhecia a região e os atores políticos locais – precisando formar uma equipe de oficiais que lhe oferecesse suporte. O comandante passou a residir em uma casa reservada à Polícia Militar, situada no Conjunto dos Secretários, próximo à rua Paraíba.
Entre as negociações imobiliárias que conduzi, comprei um apartamento no Conjunto ICA Paraíba, onde passei a morar, nas imediações da residência do comandante. Comecei esse processo vendendo a casa do Tiradentes, que ainda não estava totalmente quitada, mas situada fora do eixo central da cidade, distante do quartel central e de outros dois já existentes no bairro de Petrópolis. Além disso, a casa revelou-se excessivamente grande para um homem “solteiro”. Não me lembro se anunciei a venda, guardo apenas a lembrança do corretor Pantoja que, depois da negociação, tornou-se meu amigo. Ele tocou toda a transação, em 1981, a ponto de sequer ter conhecido pessoalmente o comprador. Sabendo de minha situação financeira, Pantoja propôs-me, em 1982, a compra de uma casa no Conjunto Santos Dumont, empreendimento erguido em 1980 que ainda carecia de infraestrutura básica, localizado na avenida Torquato Tapajós. O imóvel situava-se no cruzamento das ruas Comandante Theofilo Matos, 31, e Comandante Paulo Lasmar. Realizei esse negócio diretamente com a proprietária Elba Carvalho, solteira e funcionária do Tribunal de Contas, que demonstrou grande interesse no comprador, que renderia um casamento. Nesse endereço, ainda que por pouco tempo, passei a residir com a CVC.





