CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, maio 18, 2026

MEUS OITENTANOS (4)

 FASCÍCULO 4

 No segundo semestre de 1964, quando deixei o Seminário São José, abandonei também a vocação sacerdotal que até então me acompanhava como promessa duvidosa. Tinha dezoito anos e regressava ao lar dos meus pais, na rua Amazonas, número 29, no Morro da Liberdade, trazendo na bagagem apenas a escolaridade atualizada e uma sensação de vazio.

Título eleitoral emitido em 1966 
O número da casa, talhado por meu pai em madeira bruta e fixado na parede frontal, carregava um simbolismo próprio: 29 de dezembro de 1959, e o dia ele quis perpetuar. Mesmo diante da duplicidade de número na rua, sua decisão foi firme, quase solene. A casa de madeira, antes simples e térrea, transformara-se em sobrado, com quartos e varandas no pavimento superior. Ali, naquele novo espaço, ganhei um aposento que às vezes dividia com meus irmãos Antônio e Renato, enquanto outros cômodos se tornavam alugáveis.

Meu regresso, porém, foi marcado por desorientação. Sentia-me como um “cachorro caído da mudança”, sem rumo, sem ofício aprendido. Uma oportunidade surgiu pelas mãos de meu primo Vicente Pereira, que me levou à loja de móveis onde trabalhava. Não havia vaga para vendedor, mas sim na produção de cadeiras metálicas. Enfrentei o labor da soldagem sem proteção adequada, e à noite meus olhos ardiam tanto que o sono me abandonou. No dia seguinte, faltei. Ainda assim, ao final da semana recebi o ordenado e desapareci. Foi a única vez que trabalhei na iniciativa privada; o destino me reservaria apenas o caminho do serviço público.

Enquanto isso, os afazeres domésticos me consumiam. O quintal imenso exigia cuidados, e os cães eram minha responsabilidade: Joli, o caramelo valente que se tornara figura temida na vizinhança, e Branco, dócil companheiro. Outra tarefa era o abastecimento de água obtida em cacimba do Buraco da Vovó, a quinhentos metros de casa, carregando em latas de vinte litros para encher o “camburão” – tambor metálico de duzentos litros — uma espécie de cisterna improvisada.

Assim se desenhava minha juventude: entre o peso da falta de escolhas, o suor das tarefas domésticas e a lenta construção de um destino que ainda se insinuava sombrio.


Em 1965, aceitei o convite de Raimundo “Pau de Barraca” — sobrinho de minha madrasta — para jogar futebol, e essa decisão alterou o ritmo da minha rotina de desempregado. As peladas aconteciam num campo improvisado, aberto no terreno baldio atrás do nosso sítio. Pela idade e pelo porte físico, destoando dos meninos menores, fui escalado para a posição de goleiro. Não me senti deslocado: no seminário já havia defendido as traves, e ali me saí com firmeza. Ao cair da tarde, quando a turminha se reunia quase diariamente, eu permanecia guardando o gol, como se fosse um posto de honra.

No Morro da Liberdade, os divertimentos eram raros, mas o futebol acontecia com facilidade. Duas equipes se destacavam: o Bangu, organizado por meu xará Roberto, praça do Exército; e o Botafogo, formado por jovens da avenida São Pedro e adjacências. Fui convidado a uma reunião com os botafoguenses, sediados na avenida São Pedro, hoje rua Tobias Barbosa. Compareci com receio, temendo a frustração, mas ao final fui “contratado” para defender o gol da equipe, apesar da minha estatura modesta de 1m64. O prestígio me animava, e não faltava às peladas de domingo, ora no campo do Guanabara, em Santa Luzia, ora no campo do Olaria, no próprio Morro da Liberdade. Esses campos, hoje, já não existem: foram engolidos pelo progresso.

Antes de encerrar a contabilidade da minha jornada esportiva, registro uma partida memorável no campo do Nacional FC, em Adrianópolis. Essa experiência, aparentemente singela, acompanhou-me no futuro, quando frequentei cursos militares no Rio e em Florianópolis. O futebol, mais do que passatempo, foi aprendizado de disciplina, coragem e resiliência — valores que se tornariam parte de minha caminhada.

Para cumprir um dos preceitos de meu padre-protetor, Juarez Maia, apresentei-me ao Serviço Militar. Foi ali que o destino me concedeu mais uma estrela, ao ser selecionado para o NPOR, justamente na fase de reinstalação. O quartel do 27° BC, onde nos instalamos, funcionava de maneira curiosa: instruções apenas nos finais de semana, improvisações que revelavam a precariedade da estrutura.

A inspeção de saúde, por exemplo, ocorreu numa enfermaria acanhada. Éramos cerca de trinta candidatos, perfilados lado a lado, desnudos, enquanto o clínico se valia de embalagens de medicamentos guardadas num armário envidraçado para realizar o exame visual. Chamados em ordem alfabética, eram observados os rótulos expostos. Eu, que não distinguia bem os nomes, memorizei-os e, assim, fui aprovado. Mas a deficiência visual logo se denunciou: no primeiro tiro de fuzil, quase atingi o pé de um graduado. Ainda assim, prossegui no curso, que logo adotou nova metodologia, com instruções diárias.

Morando ainda no distante Morro da Liberdade, precisava madrugar para alcançar o quartel no bairro de São Jorge. O transporte era realizado no caminhão REO do Exército, abarrotado de recrutas. Na condição de aluno do NPOR, eu tinha a primazia de viajar na boleia, sentindo o vento frio da madrugada e a responsabilidade de uma epopeia que começava a moldar meu futuro.

Ainda em 1965, enquanto aguardava o reinício do NPOR, que lentamente se estruturava, abri-me aos convites que surgiam. A vizinha Luzia — irmã de minha madrasta — havia adquirido uma canoa, com motor de centro instalado, que permitia pequenas viagens pelos arredores de Manaus. Assumi a condução do barco e, numa dessas excursões, seguimos até o lago do Puraquequara. Pernoitei ali com as primas — razão imediata de meu entusiasmo pela aventura — mas a noite nos reservou um tormento: os carapanãs, como chamamos na Amazônia os pernilongos, nos açoitaram sem piedade. O resultado foi a malária, que nos abateu a todos. Nem os remédios caseiros, nem as rezas fortes bastaram. A febre alta e os calafrios me levaram ao Posto de Saúde, onde um exame de sangue revelou a gravidade. A cura veio, enfim, pela medicação alopática.

Recuperado, enfrentei nova provação. Ao visitar a BR-174, ainda em construção — rodovia que ligaria Manaus a Rio Branco — fui atraído pelo desejo de ver a sobrinha de minha madrasta, residente no Km 5, próximo ao igarapé do Leão. Mas antes que a enfermidade se revelasse, guardo um episódio curioso do Dia de Finados daquele ano. Levantei-me cedo na casa da prima e caminhei até a Ponte da Bolívia, que distava quinze quilômetros de Manaus, para tomar o ônibus. O feriado, porém, suspendera o coletivo. Após cinco quilômetros de caminhada até a ponte, retomei a estrada e, dez quilômetros adiante, finalmente alcancei um ônibus. Enquanto a família já se encontrava no cemitério São João Batista, reverenciando nossos mortos, eu chegava tarde, cansado, e recebi a reprimenda de meu saudoso pai.

Deduzi que a nova enfermidade resultara da abertura de clareiras na floresta, durante a construção da rodovia. O ambiente despertava enxames de insetos e mosquitos, e um deles me transmitiu a leishmaniose. As úlceras na pele deixaram marcas que ainda hoje recordam o diagnóstico emitido pelo INPA, em implantação, e o tratamento realizado no Hospital da Guarnição de Manaus, onde fui atendido por ser o aluno 111 do NPOR.

 Aluno 111 Roberto, primeiro à esq. , em pé

À medida que o curso se aproximava do fim, os futuros oficiais R/2 buscavam abrigo seguro para o estágio obrigatório. O colega Amílcar Ferreira, vizinho do comandante da Polícia Militar do Amazonas, levou a ideia de servir naquela corporação. Apesar do regime militar instalado em 1964, o quartel da Praça da Polícia enfrentava dificuldades: efetivo reduzido, carências diversas, um ambiente de luta constante. Com os colegas de curso, visitei o quartel da PM e, mesmo diante da atmosfera desanimadora, deixamos nossos nomes numa lista de eventual aproveitamento. O destino, afinal, nos acolheu.

Concluí o curso em março de 1966, conquistando o 9º lugar na Turma Ajuricaba, entre dezessete formandos. A solenidade ocorreu no pátio do quartel, e para a ocasião consegui uma madrinha de formatura — uma “fada”, como se dizia. Não sei ao certo como alcancei tal graça; talvez pelo marido, o major Hércules, um gigante que servia na mesma unidade. A beleza da senhora encantou os formandos, que não cessavam de me interrogar sobre sua origem.

Na formatura do curso, março
de 1966

O baile de formatura, realizado no Ideal Clube, não contou com minha presença. A indigência financeira me impediu de comparecer. Mas, ainda assim, a formatura marcou um capítulo decisivo: encerrava-se uma etapa de aprendizado e disciplina, e abria-se diante de mim o horizonte da vida militar e da própria existência.

domingo, maio 17, 2026

POESIA DOMINICAL (30)

O poema desta postagem, publicado na revista A Selva, veiculada em Manaus na década de 1930, foi composto pelo saudoso jornalista Ramayana de Chevalier (1919–72); trata-se de uma obra rara de sua produção artística.

 


 

Vi milhões de coqueiros!

Cocares verdes de tuxauas

ou sivahs de braços vegetais!... 

Vi rasgões de estradas brancas ou lágrimas deslizantes

de rios colossais

que vieram do olhar enoitecido da Terra!... 

Ouvi gritos de gaivotas! 

Vi sombras ao crepúsculo, de lavradores de bronze,

no socalco das serras! 

Vi gigantes de pedra que representavam na quietude granítica

indolência da gente!

Vi dez corpos,

cem corpos

dez milhões de corpos

morenos como coivaras,

loiros como trechos de sol na vidraça dos rasga-céus,

alvos comretratos de luar

na esclerótica cochilante dos brejos do sertão!

Volúveis na cor

como o pensamento nacional!...

 

Vi vazios de tabuleirosmilionários de sol, a olharem o azul sem nuvens

as gargantas com febre!... 

Vi o olhar longínquo dos zebus

espreitando da alma a tragédia da seca. 

Vi o proletário que cospe todo o dia o amargor desiludido da vida. 

Vi o burguês que fuma charutos enormes

e humilha os humildes para não parecer escravo dos "yankees". 

Vi o caboclo que sonha

O malandro que samba

O negro que soluça no ritmo monotônico de atabaques sem som

que adormecem

de tédio... 

Vi o sangue fervendo, e ancas batendo, e seios de chumbo. Mulher brasileira

Tisnada de luz, vestida de cor,

Jaboticaba, sumo verde, meu amor,

que envenena e delicia...  

Vi a saudade com sono espiando o crepúsculo... 

Vi o orador que nasce em esquina e não sabe o que diz.

Vi o poeta, olhos que escondem mil anos de sentimentalismo, escorado à porta de um restaurante chinês

assoviando a revérie de Schumann... 

Vi um grande, um imenso rosto pálido

de maceração endêmica

trechos verdes de sangue mau

trechos rubros de sangue bom

sorrindo nos olhos tristes

chorando na boca exangue

que chupa cana, come pé de moleque, ginga o corpo no samba

faz versos, faz versos, faz versos,

com uma vontade doida de ser feliz

e faz o sinal da cruz

para ir de noite ao candomblé. 

Vi o Brasil! 

sábado, maio 16, 2026

HISTÓRIA DE MANAUS

 Quando da passagem do terceiro centenário de criação da capital amazonense, em1969, o acadêmico Robério Braga publicou o artigo aqui postado.

Circulado no Diário da Tarde, 26 outubro 1969

Manaus, tem uma área de 14.500 quilômetros quadrados, com uma população de aproximadamente 300.000 habitantes, sua temperatura média é de 26° C. Está a 40m33 acima do nível do mar, situada à margem esquerda do rio Negro, a 1.700 km do Oceano Atlântico. Há duas estações, não são propriamente o Inverno e o Verão, e sim, a temperatura de chuva e a de estiagem. Conta com mais de 270 Grupos Escolares diversos Ginásios, sendo uns mantidos pelo Estado, outros pela Prefeitura, e há ainda os particulares. Além das bibliotecas de cada colégio, existe a Biblioteca Pública do Estado, a do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e a do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas.

Existem 5 jornais, 4 emissoras de rádio, e uma estação de televisão; 10 cinemas, e além dos teatros de cada escola nós temos o Teatro da Divina Providência, o Teatro do Luso e o Teatro Amazonas, um monumento histórico de real valor arquitetônico, que desafia as épocas da nova arquitetura.

Na formação esportiva, conta com cerca de 12 clubes, sociais e esportivos, possuidores em sua maioria de quadra para esportes, além de academia de Judô, Defesa Pessoal e Luta Livre. Como forja de formação dos jovens em Manaus, podemos citar o Escotismo, para o qual existem 10 Grupos, com aproximadamente 600 escoteiros.

Temos ainda clubes de caráter intelectual, como o Clube da Madrugada, Clube Mário de Andrade, Teatro Escola Amazonense de Amadores, Teatro Jovem do Amazonas, Teatro Experimental do SESC-SENAC, Teatro Universitário, e vários outros grupos da arte que em Manaus, teve nos últimos tempos, seu expoente máximo na pessoa de Américo Alvarez, para, no campo do cinema, encontrarmos o GEC (Grupo de Estudos Cinematográficos).

São 5 as faculdades que compõem a Universidade do Amazonas, e vale aqui ressaltar a existência da Escola Professor Abílio Alencar, no quilômetro 35 da Estrada Manaus-Itacoatiara [hoje AM-010].

COISAS DO PASSADO DE MANAUS

Em 1906, o Dr. Afonso Pena, à época presidente da República, veio assentar a “primeira pedra” do prédio da atual Alfândega de Manaus e tal empolgado ficou pelo desenvolvimento desta terra, que em seu discurso disse: “Manaus é uma revelação da República”. Pouco tempo depois, faleceu, quando então surgiram conversas de que “ele foi morto, porque se interessou pelos problemas do Amazonas”.

— Antônio Bittencourt foi preso, quando deixou por uma das vezes o governo, de pijama quando estava passeando na calçada de sua casa com seus netos. Voltando ao governo determinou a prisão, por um dos seus homens do determinante de sua prisão anterior, que foi levado para a Força Policial em trajes bem menores (cueca).

 Rêgo Monteiro, determinava a prisão dos ladrões e prostitutas, após o que mandava que se pelasse a cabeça dos mesmos para um desfile pelas ruas com a Banda da Força Policial à frente. Era Chefe de Polícia, o Coronel José Travassos Maranhão.

— Eduardo Ribeiro, com seu tradicional terno de listras e seu eterno acompanhante o guarda-sol e chapéu de massa, supervisionando as obras do Teatro Amazonas, percebeu que a massa (cimento), que estava sendo usada não era a que havia sido contratada com o mestre daquela obra, preparou com suas próprias mãos a verdadeira massa e determinou em seguida a derrubada de toda a parte esquerda da amurada do Teatro Amazonas. Referente ao caso, disse à altura um pedreiro de nacionalidade portuguesa: “se o AMAZONAS tivesse 3 “pensadores”, esta terra seria um colosso”.

— Antônio Bittencourt, governador em época de revolução, deu a sua palavra, segurando em seu característico cavanhaque, que não permitiria a sua queda do governo, para o que recebeu o apoio do seu Cmt da Força Policial, que espalhou bombas por toda a atual Praça da Polícia, e ficou acompanhado de um corneteiro e seu ordenança, sentado à porta principal, com o acionador das mesmas em mãos, para defender a qualquer preço o sistema de governo do Coronel Bittencourt. Porém, pensando melhor, disse ele, com muitos conselhos que lhe foram dados, o Coronel António Bittencourt resolveu, chamar seu Cmt Coronel Pedro de Souza, por sinal cearense, para avisá-lo de que desistia do governo. Pedro de Souza, após dirigir palavras de caráter informativo, zangou-se e arrancando os galões de sua farda, jogou-os em cima do governador, saindo em seguida. Daí, Antônio Bittencourt seguiu para Belém, para retornar com ordens de assumir novamente o governo.