CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, outubro 19, 2026

MEUS OITENTANOS (22)

 

FASCÍCULO 22

         1981

A aventura prosseguiu com a viagem à capital peruana. Com o apoio funcional de um parente que trabalhava na Cruzeiro, adquiri passagens com desconto na condição de nacional. O vendedor aconselhou que eu falasse o mínimo possível para não ser identificado, não transportasse encomendas de terceiros e carregasse um agasalho, já que o inverno de Lima prometia chegar. No aeroporto de Iquitos – Francisco Secada Vignetta, inaugurado em 1979, embarquei no DC-3 ou 4 da Faucett Perú; ao tomar assento junto à janela aproveitei a paisagem para notar a transformação da selva em serras enevoadas dos Andes e, finalmente, as praias do Pacífico. Um amigo da família me recepcionou no aeroporto Jorge Chavez, na província do Callao, no domingo (26), antevéspera das “Fiestas Patrias”; e próximo do almoço ao chegar à casa onde me hospedei. Estava frio; o anfitrião, atencioso, ofereceu-me de imediato um copo de “leche del tigre”. A mim e ao jovem cicerone Carlos, que de pronto bebeu um largo gole; achei curioso um drinque temperado, contendo até cebola. Olhei para o Carlos e vendo sua desenvoltura, não duvidei, bebi ainda que com parcimônia. Não houve como escapar: a pimenta brotou por todos os poros e afugentou o frio. Desse modo, conheci o ceviche. Esclareço que o coquetel inicial nada mais era que o caldo desse prato.

Aeroporto de Iquitos (acima)
Bairro do Callao, onde se localiza o aeroporto
de Lima (abaixo)



Antes de deixar Lima, repassei algumas recordações aos amigos; porém, uma delas me afligiu: três jovens desejavam a única revista masculina Ele & Ela que dispunha. Resolvi aplicar uma solução salomônica: partilhei-a em três partes. Ao embarcar no aeroporto Jorge Chavez, fui assaz assediado para levar encomendas, mas, lembrando-me do conselho, cerrei os ouvidos. Em Iquitos, providenciei a passagem para Manaus, enquanto me despedia de tia Laura e dos primos Gil e Pepe e das primas Lita e Laurita. Meu filho Roberto havia permanecido em Tabatinga e, como não tivemos contato, eu desconhecia sua situação até o pouso do avião da Cruzeiro em Tabatinga. Ocupando o assento da janela, observava o embarque dos passageiros e, para meu prazer, vejo o filho na fila de embarque. Um amigo havia presenteado o garoto com a passagem. No dia seguinte ao desembarque em Manaus, compareci ao quartel para efetuar os registros de praxe; nessa ocasião soube que a corporação estava sob novo comando desde 04 de agosto.

O tenente-coronel EB Guilherme Vieira assumira a chefia, sendo o oitavo ocupante do cargo desde 1964. Aproveito para avaliar o desempenho da corporação, considerando a subordinação à Força Terrestre por quase vinte anos. O problema, entretanto, tinha contornos mais amplos: o movimento militar já dava sinais de enfraquecimento, indicando um distanciamento do Poder; como consequência, faltavam iniciativas no quartel, que passou a cumprir apenas rotinas. Para enredar ainda mais, no ano seguinte estavam marcadas as eleições para governador. Frente a esse cenário, o coronel Guilherme buscou se adaptar – desconhecia a região e os atores políticos locais – precisando formar uma equipe de oficiais que lhe oferecesse suporte. O comandante passou a residir em uma casa reservada à Polícia Militar, situada no Conjunto dos Secretários, próximo à rua Paraíba.

Entre as negociações imobiliárias que conduzi, comprei um apartamento no Conjunto ICA Paraíba, onde passei a morar, nas imediações da residência do comandante. Comecei esse processo vendendo a casa do Tiradentes, que ainda não estava totalmente quitada, mas situada fora do eixo central da cidade, distante do quartel central e de outros dois já existentes no bairro de Petrópolis. Além disso, a casa revelou-se excessivamente grande para um homem “solteiro”. Não me lembro se anunciei a venda, guardo apenas a lembrança do corretor Pantoja que, depois da negociação, tornou-se meu amigo. Ele tocou toda a transação, em 1981, a ponto de sequer ter conhecido pessoalmente o comprador. Sabendo de minha situação financeira, Pantoja propôs-me, em 1982, a compra de uma casa no Conjunto Santos Dumont, empreendimento erguido em 1980 que ainda carecia de infraestrutura básica, localizado na avenida Torquato Tapajós. O imóvel situava-se no cruzamento das ruas Comandante Theofilo Matos, 31, e Comandante Paulo Lasmar. Realizei esse negócio diretamente com a proprietária Elba Carvalho, solteira e funcionária do Tribunal de Contas, que demonstrou grande interesse no comprador, que renderia um casamento. Nesse endereço, ainda que por pouco tempo, passei a residir com a CVC.

domingo, outubro 18, 2026

POESIA DOMINICAL (49)

São dois poemas centenários de Jonas da Silva (1880-1947), circulados no Pathé Journal, inaugurado em 1921 em Manaus. As obras ilustram a edição de Natal de 1922, segundo ano de existência do periódico.

Pathé Journal nº 63, 25 dezembro 1922

Hoje, por ser domingo, eu de casa não saio,

Dando trégua ao labor, às lutas, à canseira:

Falo ao Alberto, o meu, não o Alberto Oliveira,

Proíbo-lhe o “foot-ball”, a rua, o “papagaio”.

 

-- “É nesta rua aqui, só na Treze de Maio”

Diz-me a Jandira – “Não! que é medonha a soalheira

(E os aviões de papel, uns, com a nossa bandeira,

Cruzam no ar, uns de “banda”, uns de “centro” e uns de “raio”...)

 

Ouço em cochicho os três e vem a pequenita,

É a caçula, é a que manda, é a que impera, é a realeza.

-- Ora deixe, papai, me diz a Sulamita;

 

Fosse a “mamãe deixava!” —Ó Força, Ó Tempestade!

Ó... essa razão final, que mata de tristeza,

                Ó argumento cruel que mata de saudade!... 

sábado, outubro 17, 2026

OLÍMPICO CLUBE

 O Olímpico Clube completa hoje, 17 de outubro, 88 anos de existência. Apesar de ter abandonado a prática do futebol, a agremiação segue com sua atividade social; com sua estimada e carnavalesca Kamelia. A foto que ilustra esta postagem foi extraída da coluna Bau Velho, de autoria do saudoso Carlos Zamith, circulada em A Crítica (19 outubro 1986).

 

A foto foi realizada quando Gilberto Mestrinho, ao centro,
era prefeito de Manaus (1956-58)

        Presto minha homenagem hoje, ao Olímpico Clube, fundado a 17 de outubro de 1938 (48 anos) ali no portão da residência nº 233, da José Clemente, bem ao lado do Caldeira, um bar frequentado por gente boa. Ali morava o despachante Eduardo Nogueira, mais conhecido por Dudu, e um dia, um grupo de rapazes que estavam insatisfeitos com o Rio Negro, decidiram fundar uma outra agremiação desportiva. Primeiro como Albatroz, depois como Olímpico Clube, denominação que recebeu exatamente no dia 17 de outubro de 1938, numa reunião bem movimentada, presidida pelo dr. Luiz da Cunha Costa, e secretariada por Armando Carneiro Barbosa.

O nome da nova agremiação – OLÍMPICO CLUB, foi aclamado por unanimidade. Presentes estavam, ainda, os sócios Gama e Silva, eleito tesoureiro, Hugo Guimarães, Jacques Levy, Raul Rocha da Silva, Candido Cumarú (Candú), Juin) Marques da Silva, Milton Monteiro, Osaki Soares, Manoel da Costa Novo, Antonio Maria Dias dos Santos, Joaquim Esteves, João Ricardo de Araújo, Salvio Miranda Corrêa, Adair Marques, Vicente Cetraro, Almir e Moacir Marques, Lezenildo Barreto (Gasolina), Mário Miranda, Ademar Marques, Arnóbio Valente, Tomaz de Carvalho, Dudu Nogueira e outros que mesmo ausentes foram considerados fundadores do clube.

        Carlos Zamith (parte do texto do colunista)