CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, agosto 17, 2026

MEUS OITENTANOS (14)

 

FASCÍCULO 14 


Enquanto concluía a baixa do contrato no Tropical Hotel, comuniquei ao quartel da Praça meu retorno, que se concretizou no final de janeiro. A empresa liberou-me no dia 20, mas, ainda dispondo de alguns dias de licença na corporação, só voltei a envergar o uniforme em fevereiro. Retornei ao serviço no 1º Batalhão, em Petrópolis — conhecido como “presídio” —, afastado do centro e imerso nas agruras de um bairro ainda em formação. À época, a unidade estava sob o comando do coronel Pedro Lustosa. Sob sua liderança, o batalhão transformou-se: as instalações passaram por ampla reforma e a disciplina ganhou rigor. Lustosa era respeitado, meticuloso e excessivamente organizado; atributos que, paradoxalmente, causavam estranhamento entre seus pares. Foi nesse contexto que me indicaram para subcomandante, esperando que minha irreverência e suposta negligência desestabilizassem o coronel. Nada disso ocorreu; pelo contrário, estabeleceu-se uma colaboração sólida.

Quartel do 1º BPM, atual Comando-Geral, em
Petrópolis - Manaus

Voltei ao batalhão com outra disposição, consciente de meu dever de apoiar o comandante. Realizei minhas funções de forma relevante, embora discordasse de alguns de seus métodos, como a formatura matinal, que expunha os oficiais diante da tropa em semicírculo, ouvindo longas admoestações. Muitas vezes, a cerimônia se estendia em demasia e chegou a ser motivo de altercação. As instalações, devidamente restauradas, foram entregues aos cuidados dos comandantes intermediários. Em certa ocasião, alguém escreveu um gracejo “espirituoso” na porta do banheiro envolvendo o coronel Lustosa; imediatamente fui escalado para descobrir o autor. Confesso que nem sequer iniciei a busca.

O aquartelamento, originalmente construído para receber o comando superior instalado na Praça da Polícia, era desmedido. Aproveitando suas amplas dependências, ali se realizavam cursos diversos, o que mantinha constante movimento. O efetivo circulante era respeitável, e o batalhão pulsava como um organismo vivo, onde disciplina e irreverência se cruzavam em um cotidiano intenso.

Vista do campo de futebol no Batalhão

Demorei a compreender a liturgia das formaturas conduzidas pelo coronel Lustosa. Só mais tarde, convivendo com oficiais oriundos das academias de polícia, percebi que cada um aplicava o gestual aprendido em sua formação, já que na corporação amazonense não havia regras estabelecidas. Recordo-me do coronel Medeiros, comandante-geral, que sempre alertava os oficiais formados em São Paulo: ao receberem uma missão, deveriam reduzir a projeção da operação por cem. Um deles, intrigado, perguntou o motivo. Medeiros explicou: “Cem mil é o efetivo da PM paulista; no Amazonas, somos apenas dez mil.” Era uma lição de proporção e realidade.

Detalhe do meu Currículo, Faculdade de
Direito, entre 1975-77

Assim transcorreu aquele ano. Frequentei a faculdade com ânimo renovado, cursando quatro disciplinas no primeiro semestre e três no segundo, todas aprovadas com coeficiente entre cinco e seis. Morava na rua Amazonas, no Morro, com minha companheira, em uma casa de madeira modesta, sem regalias e até sem privacidade, já que os jovens vizinhos “brechavam” nossa intimidade. A vida era simples, marcada pelo Fusca que exigia reparos constantes, mas também por uma rotina que me ensinava a valorizar o essencial.

Residência no Morro da Liberdade, em 1977

Guardo ainda duas tramoias pessoais daquele tempo. A primeira ocorreu no encerramento de um curso de soldados, quando era imprescindível atualizar as fichas individuais para encaminhá-los aos novos destinos. O coronel Lustosa chamou o capitão Maciel, responsável pela seção de pessoal, e determinou que organizasse os documentos, ressaltando que cada ficha deveria conter obrigatoriamente a fotografia do formado. Ao abrir o fichário, Maciel constatou que a maioria das fichas estava sem foto. Em pânico, correu ao meu gabinete em busca de auxílio. Lembrei-lhe que havia uma caixa com fotos sem identificação na seção. Recomendei: “Coloque qualquer foto na ficha; o comandante não conhece todos os soldados.” O capitão retrucou: “E se ele descobrir a armação? Você será preso. E se não colocar a foto, também será punido.” Seguiu minha orientação — e deu certo. Ao final do expediente, reunimo-nos para relaxar com algumas geladas, celebrando a astúcia que nos livrara de maiores complicações.

A segunda tramoia aconteceu na organização do almoço de confraternização dos oficiais pelo Natal. Eu já estava de férias, portanto livre do festejo, mas ainda assim sugeri ao chefe do rancho que servisse uma iguaria apreciada: pato no tucupi. O tucupi havia em abundância; o problema eram os patos. Convicto de que minha sogra poderia suprir a necessidade, prometi entregar-lhe as aves. De fato, vieram três, mas eram apenas filhotes. Diante da carência, o cozinheiro recorreu a mim. Reconheci o impasse e recomendei-lhe que completasse a panela com frangos. O resultado desconheço, pois já estava a caminho de Belém.

A viagem foi realizada em um navio da extinta ENASA, embarcação antiga cujo sistema de propulsão consistia em uma enorme roda na popa. Eu estava bem, desfrutando das férias ao lado de minha companheira, hospedado em um camarote. Na véspera do Natal, a embarcação atracou em um flutuante à entrada da baía do Marajó, aguardando a vazante da maré. O atraso forçou-nos a comemorar o Natal a bordo. Já altas horas, um membro da tripulação flagrou um jovem consumindo drogas e comunicou o episódio ao comandante, que participava da confraternização. Eu estava ali, comendo e bebendo, quando o comandante determinou que o jovem fosse isolado, após consultar-me. Contudo, os colegas do rapaz atribuíram a mim a ordem de repressão. Madrugada adentro, deitei-me exausto, mas às seis da manhã o comandante convidou-me para assistir à atracação do barco. Em Belém, permaneci para celebrar o Ano Novo com os Valois, familiares de minha companheira.

No início de 1978, embarquei em um ônibus rumo a Brasília, em mais uma das típicas viagens pelos rincões amazônicos. O percurso, apelidado de “pinga-pinga”, acumulava paradas em pequenas localidades, onde famílias inteiras subiam com todos os seus pertences. Episódios pitorescos se sucederam: em um deles, um bebê no colo encheu as fraldas além da conta, e o vazamento contaminou o interior do ônibus, exigindo parada para desinfecção. Em outra ocasião, houve parada para banho à beira de um córrego, e foi necessário fiscalizar para garantir a separação entre os sexos. Na Capital Federal, fui hospedado por parentes ligados à CVC: um tio funcionário do Banco do Brasil e dona Olímpia, sua avó de olhos verdes. Prosseguimos até Curitiba, de onde retornei a Manaus, carregando comigo lembranças de uma viagem tão árdua quanto singular.

 

domingo, agosto 16, 2026

POESIA DOMINICAL (87)

 De autoria de João Crisóstomo de Oliveira (1914-97), pertencente a Academia Amazonense de Letras, o poema foi publicado no Jornal do Commercio.

Recorte do Jornal do Commercio, 17 setembro 1983

Meu sonho é bem grande... /  Nas asas de um querer árdego se expande! 

É uma luta incessante dentro de meu ser / É um combate incompreendido

Obscuro mesmo e por todos desprezado / É um sonho que vai além de um sonho

É um debater supremo / De aspirações estranguladas / Por criaturas malvadas

Que não sabem querer, / Que não sabem sonhar... / Aspirações asfixiadas

Pela diferença esmagadora / Daqueles que destroem castelo no ar

Daqueles que vivem do banal, / Das horas secas do Algarismo

E do interesse grotesco e material...

 

II

Meu sonho é bem imenso

Enche todo o meu ser

Transborda todo o meu pobre viver

Sufocado no soluço interior...

É um mar sereno que se deixa singrar

Pelas brancas velas da bondade...

É, porém, um mar tempestuoso

Cheio de ventos esfuziantes e ondas revoltas

Contra as bordas do orgulho e da arrogância

Contra as belonaves do Terror e da Maldade...

 

III

Meu sonho... uma esperança leve / Que o vento humano não descreve

Uma esperança pequena! ...tímida! ...criança! / Que vai correndo,

Vai crescendo / E toma o porte colossal /

De aspirações supremas de grandeza, / Para a grandeza dos pequenos,

Dos humildes que choram, / Dos humildes que padecem

E de Deus nunca esquecem!... / Meu sonho... / Quero te ver altaneiro

Resoluto e vitorioso / Quero te ver garboso!...

Meu sonho... / Luta! / Cresce! / Vence!

Não temas:

NAS MÃOS DE DEUS EU TE DEPONHO

sábado, agosto 15, 2026

VIAGEM NO TEMPO (3)

 

    Terceiro capítulo da saga transamazônica de Renato e Alda, narrada pelo próprio.

Mercado Adolpho Lisboa

18.07.2026

O mungunzá

O domingo amanheceu como véspera de aniversário, trazendo em meu peito a expectativa do desconhecido “passeio do índio”, já confirmado logo cedo, antes mesmo do saboroso café da manhã no hotel. O sol brilhava insinuante, afastando qualquer ameaça de chuva e iluminando o movimento dos pedestres na rua em frente, fechada para carros. Ao final da via, próximo ao encontro com a Sete de Setembro, um pequeno palco abrigava cantores de músicas em espanhol — provavelmente venezuelanos e haitianos, muitos dos quais se espalhavam pelo centro da cidade, alguns em situação de mendicância, testemunhas silenciosas de deslocamentos forçados de suas pátrias.

Na programação daquela manhã, estava prevista a visita à Feira de Artesanatos da Avenida Eduardo Ribeiro. Antes, porém, decidi resgatar uma memória de infância: o programa de domingo com meu pai, quando íamos a pé até o Mercado Adolpho Lisboa. Lá, eu me deliciava com uma tigela generosa de mungunzá — canjica, como se diz no Sudeste — antes mesmo de ele escolher o peixe para o almoço. Eram bons tempos, que me marcaram como uma vacina antiga contra o esquecimento. No entanto, ao tentar repetir o ritual, percebi que a experiência já não era tão edificante: não havia mais as tigelas, só copos plásticos descartáveis; o sabor não era o mesmo, e meu paladar havia mudado. Tudo havia mudado!

Como tudo havia mudado, decidimos almoçar pizza — gesto simples, mas que traduzia a adaptação às novas rotinas da cidade. Na sobremesa, porém, veio o reencontro com a Amazônia: sorvetes de frutas típicas, cada qual mais surpreendente que o outro — buriti, açaí, tucumã, bacuri e tantos sabores que pareciam conter a flora amazônica em cada colherada. Ao descobrirmos a sorveteria Glacial, próxima ao hotel, tornamo-nos frequentadores assíduos, como se ali houvesse uma semente de iniciação ao paladar amazônico.

À noite, Roberto nos levou à Ponta Negra, a praia fluvial que se transformara em símbolo de status burguês. O espaço fervilhava de gente, tão cheio que nem conseguimos estacionar. A beleza do lugar se impunha, mas a praia, para nós, não era objeto de consumo. Assim, preferimos retornar ao hotel, guardando a experiência como mais uma nota da sinfonia urbana que Manaus nos oferecia em tempos modernos.

Ao regressarmos ao hotel, percebi que Alda se queixava de uma cistite que há muito tempo não a incomodava. Compramos um remédio paliativo, já usado em outra ocasião, mas o efeito não veio. Tornava-se necessário levá-la ao hospital para uma avaliação mais criteriosa. Enquanto eu buscava no Google uma instituição de referência, credenciada ao meu plano de saúde, o celular tocou: era meu irmão José Manoel. Conversamos amenidades, mas logo relatei o desconforto da Alda, e a suspeita de infecção urinária. Sua esposa, Marília, interveio com asserção e nos orientou a procurar o Hospital Santa Júlia, instituição de boa reputação. Assim, programamos a ida para a manhã do dia seguinte.

Antes de dormir, preocupei-me em desmarcar, pelo WhatsApp, o passeio do índio, que estava previsto para o dia do meu aniversário. A expectativa transformava-se em cuidado e zelo, e a celebração do aniversário cederia espaço à prioridade com a saúde.