CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

terça-feira, agosto 11, 2026

VIAGEM NO TEMPO (2)

     Segundo capítulo da saga transamazônica de Renato e Alda, narrada pelo próprio.

18.07.2026

 

Mercado Adolpho Lisboa

 No sábado, dia 27, parti para um reencontro íntimo, acompanhado pela presença constante da Alda e pela dedicação generosa de meu irmão Roberto. O destino era o Educandos — o bairro que acolheu os primeiros passos da família Mendonça, berço da nossa primeira geração. Ao chegar, senti-me tomado por uma gratidão: era como se os céus me concedessem a dádiva de revisitar uma parte essencial da minha própria história.

A casa onde nasci, agora em ruínas, parecia guardar uma atmosfera sombria, mas não hostil. Havia nela um olhar invisível, quase alegre, como se quisesse me parabenizar pela visita inesperada. Não era mera fantasia, mas um diálogo íntimo: a casa me dizia, em sua linguagem de paredes desgastadas, que havia cumprido sua missão de me acolher em um momento decisivo — o sopro da vida.

Casa onde nasci - rua Inácio Guimarães- Educandos

Ainda envolto pela nostalgia, caminhei até o Beco São José. Ali, meus pés haviam aprendido a andar, guiados pela ternura firme de minha avó. Foi uma infância colorida, marcada por descobertas simples e afetos profundos. Mas o beco também guardava uma sombra: foi ali que minha mãe se despediu prematuramente da vida. A lembrança trouxe um pesar discreto, como uma brisa fria que não se vê, mas se sente.

A casa que encontrei já não era a mesma. Restava apenas o espaço, a locação, como um corpo sem espírito. Olhei para ela com estranheza, como quem cruza com alguém desconhecido na rua — sem reconhecer  nenhum vínculo. E nesse instante compreendi que os lugares também mudam, que a memória é o que lhes dá vida. O Educandos, mais do que um bairro, é um espelho daquilo que fomos e daquilo que ainda carregamos dentro de nós — enquanto a mente não nos trair.

Beco São José, 28


Após o momento nostálgico, fomos ao encontro do Mercado Adolpho Lisboa, joia centenária erguida no primeiro ciclo da borracha. Entre suas paredes históricas, encontramos também o afeto de meu irmão Roberto e sua mulher, Beatris. Saboreamos guloseimas e um almoço que parecia celebração da própria Amazônia: pirarucu e tambaqui, farinha do Uarini e a ardência da pimenta murupi. Ingredientes de nomes indígenas, tão comuns na região norte, mas que carregam em si a memória de povos primitivos e sabores ancestrais de nossos pais e avós. À frente de nossa mesa, uma placa singela traduzia uma filosofia popular com humor certeiro: “melhor tomar cerveja do que tomar conta da vida alheia”.

Almoço no Adolpho Lisboa, Roberto, Beatris,
Alda e Renato (da esq.)


À tarde, em vez da sesta, seguimos até a praça São Sebastião, diante do majestoso Teatro Amazonas — símbolo máximo da pujança da era da borracha, no início do século XX. O espaço pulsava com a energia dos “torcedores organizados”, que acompanhavam em telões os desfiles dos bois Caprichoso e Garantido, que se apresentavam em Parintins. Estranhei, a princípio, aquela febre de entusiasmo, tão semelhante às paixões futebolísticas. Mas, logo percebi o paralelo com o Rio de Janeiro, onde multidões se entregam às escolas de samba. Era o mesmo fervor coletivo, traduzido em cores, ritmos e símbolos — uma celebração lúdica da identidade cultural do nosso país.

Roberto, ainda disposto, conduziu-nos ao Morro da Liberdade — bairro onde crescemos e onde repousa a maior parte das lembranças da adolescência. Ali, a prima Marta, mesmo adoentada, nos recebeu com um carinho peculiar, como se o tempo não tivesse passado. O número 29 da Rua Amazonas, ao lado de sua casa, devolveu-nos ao êxtase das recordações: tantas peripécias vividas, tantas histórias que se reanimavam diante de nossos olhos. Foi uma pequena viagem no tempo, um esforço para catalogar e restaurar na memória os melhores anos da juventude.

Munidos de uma informação e sugestão da vizinha, saindo dali, seguimos até o porto dos barcos, atrás do Mercado Adolpho Lisboa, para agendar o chamado “passeio do índio”. Esse programa parecia atender aos desejos que já se insinuavam durante o voo, ainda sem plano definido. Cogitou-se realizá-lo no dia 29 de junho, como presente de aniversário — bastaria apenas inscrevê-lo no script de Deus.

À noite, conforme o combinado com meu irmão José Manoel, seguimos para prestigiar o “arraial” da Tia Francisca — viúva do tio Beca, vitimado pela Covid há cinco anos. Imaginávamos uma confraria simples, vizinhos reunidos na rua, cada qual expondo suas iguarias juninas para serem adquiridas. Nossas intuições foram surpreendidas: numa rua adjacente, bandeirinhas coloridas cruzavam o céu, penduradas de um lado a outro, como se anunciassem uma festa maior do que nossas expectativas, mas não havia barracas.

Procuramos pelo número 35 da Rua Sagitário, sem sucesso. Foi então que uma senhora, ao sair de casa com uma garotinha de dois anos, nos socorreu. A criança, ao me ver, estendeu os braços pedindo colo, e seu sorriso delicado me conquistou. Atendi de imediato, tomado por uma ternura inesperada. A avó, Dona Nice, solícita, ofereceu-se para nos conduzir até o endereço. Caminhamos devagar, conversando, enquanto a garotinha se aninhava em mim, como se já me conhecesse.

Ao chegarmos à casa da Tia Francisca, a pequenina não queria mais largar meu colo. Chorou ao ser devolvida à avó, como se resistisse a romper aquele vínculo súbito. A cena me tocou profundamente: percebi que meu aniversário parecia abrir minha alma para afinidades surpreendentes, presentes inusitados que se revelavam em gestos simples e inesperados como desses pequenos anjos da vida.

Descobrimos, então, que a festa junina se realizaria na sala da casa de Tia Francisca, já adornada e pronta para receber os convocados. Aos poucos, os convidados iam chegando, trazendo novas iguarias que, juntas, compunham uma mesa farta e colorida, verdadeira celebração dos sabores juninos. Por instantes, sentimos o constrangimento de não termos contribuído financeiramente; mas logo o calor humano dissolveu qualquer incômodo. A prima Rosa, com sua afabilidade de anfitriã, nos recebeu em hospitalidade generosa, deixando-nos à vontade, sem peso na consciência, como se nossa alegria compartilhada fosse, por si só, a maior contribuição

Para animar a noite, organizaram um bingo, com diversas prendas distribuídas aos ganhadores. Recebemos as cartelas, mas Alda, prudente, me alertou: seria melhor nos esforçarmos para não vencer — ganhar sem ter contribuído seria antiético duplamente. Entre risos, conversas e o suspense dos números sorteados, a festa se desenrolou com alegria simples e genuína. Meu irmão José Manoel e sua mulher Marília finalmente apareceram, justificando o atraso por compromisso religioso. A recepção e a hospitalidade dos familiares do bairro da Betânia foram espetaculares, deixando em nós a sensação de pertencimento e de reencontro com raízes afetivas.

segunda-feira, agosto 10, 2026

MEUS OITENTANOS (13)

FASCÍCULO 13

Ao retornar das férias, em início de 1975, fui lotado no comando-geral em atividade burocrática. Em março, Henoch Reis assumiu o governo do Estado e, em abril, o coronel Mário Ossuosky, o comando da Força Estadual, no qual permaneceu pouco mais de quatro anos, constituindo-se, portanto, no comando mais duradouro no Governo Militar. Construiu e reformou várias instalações; ampliou o efetivo para atender o interior; estimulou o crescimento dos clubes sociais, enfim, ampliou com vantagens a legislação policial. Seu ato corriqueiro de convidar oficiais para o almoço em restaurante da cidade estimulou o surgimento do CVC – clube dos velhos coronéis, que segue se reunindo no almoço da última sexta-feira do mês.

Quartel da PM na Praça da Polícia, sem data

O desarranjo familiar havia se instaurado e, diante do quadro, cuidei de buscar onde morar. A residência do Morro estava desocupada, então aproveitei para nela me abrigar, obrigando-me a custear arranjos na casa, em primordial construindo um banheiro interno, a fim de descartar a “casinha” no fundo do quintal.

Após três anos distante da faculdade, desde que frequentei o CAO em Fortaleza, voltei aos estudos, porém, o sistema de créditos fez estender por alguns anos a conclusão do curso. Foi necessário bastante empenho, pois havia perdido o entusiasmo, a turma inicial com o bloco de estudos e de zorras na periferia do Mercado Adolpho Lisboa. Pouco lembro de como levei os estudos, mas consultando o Histórico Escolar percebi meu relaxamento, sendo aprovado em várias disciplinas com o índice mínimo (5); após ser agraciado no início do curso com a Ordem dos Cobras. Somente me recordo que, em 1979, estive fora de Manaus e, em 1980, enfrentei as disciplinas básicas, como Estudo de Problemas Brasileiros e Línguas. Os calouros de 1980 não entendiam como eu estava ali, se estava encerrando o curso. Outro detalhe: as aulas eram ministradas no antigo prédio do Seminário São José, onde vivera nove anos, então ocupado pelo ICHL.

Prédio do Seminário em reparos pela Uninorte,
após a saída do ICHL 

* * *

Duas obras portentosas distinguiram Manaus em 1976: a inauguração do Tropical Hotel Manaus, empreendimento da Varig, em março; e do moderno aeroporto Eduardo Gomes, em julho, ocasião em que o Ponta Pelada foi transferido para a Base Aérea. Na condição de chefe da 4ª Seção, encarregada do registro de bens e dos imóveis, entre outros encargos, prosseguia em atividade no comando da corporação. No começo do ano, foi decidida a contratação de funcionários civis, com ênfase no elemento feminino. Entre outros entraves, surgiu a questão da assinatura das CTPS, estranhamente restou à seção que dirigia, com a exclusão da Diretoria de Pessoal. A fim de cumprir a atribuição, dirigi-me à repartição do Detran, que funcionava no mesmo quarteirão do quartel, dirigida por oficial da PM e dispondo obviamente de departamento de pessoal. Recebido pela chefa Raimundinha e sua auxiliar C. Cordeiro, fui me inteirando dos pormenores trabalhistas e ali retornei em várias ocasiões, sempre que surgia uma dúvida funcional, ou interessado na ajuda cada vez mais afetuosa da auxiliar.

Nessa ocasião, tendo obtido a separação conjugal pelo desquite, ato judicial existente até o ano seguinte, estava livre para nova paixão, no entanto, já havia substituta. E a minha situação afetiva iria se complicar ainda mais com a admissão das funcionárias em 4 de abril. A dezena de celetistas foi distribuída pelas seções do comando-geral, e a Leda Maria foi classificada na 4ª seção. Designei-a para a função de efetuar os registros do pessoal civil, o que me deixou aliviado. Inegável que a presença feminina, rompendo a corrente machista mais que centenária, promoveu um alvoroço no corpo policial. Há registro de casamento de uma delas com um oficial, eu me contive apenas namorando a minha estagiária.

Em junho, completei 10 anos de atividade policial, adquirindo o direito à licença-prêmio (6 meses). Não me recordo qual a motivação, mas me empolguei com o anúncio de emprego no Tropical Hotel e, melhor, porque a vaga era de comprador. De pronto, imaginei os ganhos que poderia usufruir, como havia desfrutado na tesouraria da PM. Com a finalidade de conquistar a vaga, busquei o “padrinho” Luiz Pinheiro, coronel reformado, que trabalhava na Varig há anos. Ainda hoje guardo o cartão de visita com que me apresentou ao Sr. Carvalho Leite, CEO da Companhia Tropical de Hotéis da Amazônia, em Manaus. Com tamanha recomendação, consegui a vaga, passei então a providenciar a CTPS, que foi emitida em 23 de julho. A seguir, veio a contratação em 6 de agosto, com salário de Cr$ 4.000 por mês, no cargo de Comprador.

Cartão pessoal do coronel Luiz Pinheirinho.

CTPS ☝e contrato de
trabalho 👇


Ao me apresentar no hotel, contudo, soube que a contratação havia sido anulada, por motivo de que o comprador titular, o português Mário Bento, não mais seguiria para Recife, pois o empreendimento nordestino da Varig fora cancelado. Dessa maneira, meu contentamento não se consumou e, caso quisesse permanecer empregado, teria de aceitar a subchefia; o recém-chegado não titubeou: “Ajoelhou, tem que rezar.” Frequentador daquele quartel centenário, o hotel me deixou deslumbrado por diversas razões, como certamente haveria de impressionar a qualquer viajante; erguido à margem do rio Negro, em trecho da praia da Ponta Negra, exibia uma arquitetura moderna, embora não dispusesse de elevadores, de modo que a circulação era realizada a pé. Além do centro comercial com lojas de conceito, havia uma boate aberta ao público nos finais de semana, onde muito me fatiguei. Outro relevante pormenor era a quantidade de colaboradores em número superior a 800, somados o pessoal de hotelaria e os operários empregados na conclusão da edificação. Para atender a esse movimento de pessoal em rodízio de hora em hora, o Tropical pôs em circulação entre o hotel e a Praça da Polícia, no Centro, um ônibus caracterizado da empresa, importado dos Estados Unidos.

Esforcei-me ao máximo para me adaptar ao novo ambiente; apesar dos esforços, capitulei perante interesses mesquinhos de auxiliares e intrigas pessoais envolvendo minha companheira CVC, também funcionária do hotel. No final do ano, o titular das compras, Mário Bento, saiu de férias e permitiu que eu assumisse a seção, ocasião em que passei a conhecer mais de perto os dirigentes do estabelecimento. Aproveitei para circular por todo o hotel e, ao fim, conheci-o por completo. Guardei na memória a figura do espanhol Diego, gerente geral, a ponto de ter empregado seu nome no filho que nasceu posteriormente. Aproximava-se o término da licença-prêmio e havia expectativa na corporação: se eu me mantivesse no Tropical e optasse por sair da PM, abrir-se-ia uma vaga para promoção. Cercado dessa dubiedade, festejei a chegada de 1977, residindo na rua Amazonas, no Morro. (segue)

domingo, agosto 09, 2026

POESIA DOMINICAL (34)

 São dois poemas de AMÉRICO ANTONY (1895-1970) publicados em A Crítica, em dezembro de 1957. Meus abraços aos Pais de minha casa. 

Américo Antony

A Crítica, 7 dezembro 1957

 

Nas divinas cisternas de astros louros

Meu pensamento vai bebendo a Vida

Daquelas sendas da manhã vivida

Nas peregrinas vozes dos tesouros;

É dele o sonho em fontes, bebedouros

Onde a alma se alimenta, já ferida

Como ave triste, sem pousada, caída

Dos temporais, dos torvos sorvedouros;

Lá, das almeias das estrelas, sente

Dos êxtases, radiar o mais silente

Universo, em libélulas de opala:

São faúlhas incriadas de infinitos

A povoações de mundos mais benditos

Onde, o Silêncio, adormecendo, fala...

 

 

A Crítica, 4 dezembro 1957

 

A Saudade se fez um íntimo da Mata:

Foi viver nos cristais, de igarapés, no alfombra,

Fez da Floresta a voz dos seus lábios de sombra,

Da auriflama nos trons dos longes da cascata.

Fez-se o exílio da luz, crisálida em sonata,

Solar da Tradição que em séculos se ensombra. 

Batentes do alcantil que pouco a pouco encombra

A escalada do ideal dos astros de oiro e prata:

Fez-se flor de remanso adorando a penumbra, 

Renúncia do presente a suspirar, res umbra

De idades através reconstruindo um ninho:

Tecido de ansiedade à Paz que ela gorjeia

Como Ave do Silêncio onde emoções semeia

Para o eterno florir do Encanto e do Carinho!