FASCÍCULO 20
1980
Entre
fevereiro e março, prestei vestibular na Federal do Amazonas para o curso de
Pedagogia, sendo aprovado. Como de praxe, aproveitei os créditos da Faculdade
de Direito, cujo curso concluí naquele ano; acrescentei os resultados do Curso
de Técnica de Ensino. A faculdade funcionava em uma edificação antiga na rua
Tapajós com rua Monsenhor Coutinho, próxima à igreja de São Sebastião, ou seja,
no centro de Manaus. A turma era formada, em sua maioria, por professoras
estaduais que buscavam a graduação para incrementar o salário. Havia poucas jovens
em busca da primeira graduação; tornei-me um caso à parte naquele grupo,
conhecida minha atividade policial. Fui conciliando as atividades escolares —
conclusão do Direito e início da Pedagogia — com dificuldades, entre as quais a
necessidade de frequentar as aulas e cumprir o horário do quartel; além disso,
para não assistir às aulas fardado, adotei um disfarce: calça do quartel e
camisa polo. Em resumo: permaneci naquela escola até 1983, quando fui servir na
Casa Militar do governador Mestrinho. Na ocasião, ainda compelido ao exercício
de estágios curriculares, percebi que não me adequaria à escola pública.
Abandonei o curso de Pedagogia.
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| Equipe de oficiais do Corpo de Bombeiros, multiuso nos esportes; autor (1º à esq. em pé) |
Seguia
servindo no Corpo de Bombeiros, em Petrópolis, mas seguindo o trâmite do
processo na Auditoria, estabelecida no quartel da Praça da Polícia. Era
comandante da corporação o coronel Ribeiro Raizer, evangélico convicto,
cumpridor dos preceitos religiosos. Assim sendo, estimulou os policiais a
iniciarem uma célula religiosa no quartel, uma espécie de capelania. Certa
ocasião, respondia eu pelo Corpo de Bombeiros, quando fui “convidado” a
acompanhar um culto religioso, encomendado pelo coronel comandante, para
agradecer a Deus pela saúde de um bombeiro ferido gravemente em um incêndio. O
ofício religioso aconteceu no final da tarde de um domingo; o dia e a hora
impuseram-me cautelas com os etílicos. Ao final do culto, uma ação me satisfez:
o oficiante dirigiu-se à porta do templo, onde se despediu de cada um dos
presentes.
No
começo de abril, fui convocado para depor como testemunha; isso constituiu o
primeiro passo. Duas semanas depois, a denúncia tornou-se pública e, desse
modo, tornei-me réu, impossibilitado de concorrer à promoção e a outros
direitos. Antes de findar o mês de abril, dia 25, soube da convocação do Conselho
Especial de Justiça que me julgou, presidido pelo coronel Câmara. Dos quatro
membros, dois pertenciam à minha turma; com o terceiro troquei uma conversa de
“pé de ouvido”; restava o presidente, contra o qual decidi reagir. Redigi um
texto relatando fatos nocivos a seu respeito e, ao final, sugeri a suspeita de
homossexualismo. No comando do CB seguia o coronel Okada, a quem eu via como um
guru, e levei o texto para sua avaliação. Ele leu até a metade e então, com seu
sotaque nipônico, me advertiu: “Rasga essa porra, assim você vai ser preso de
novo”. Demorei uma temporada para destruir a sandice no papel, mas nunca a
tornei pública.
Manaus
toda se enfeitou para ver o Papa João Paulo II passar, parodiando a canção de
Chico Buarque. Era julho e o calor estava apenas começando. Os bombeiros foram
empenhados, como toda a Polícia Militar, mas, como eu não tinha qualquer
obrigação em especial, estive livre para ver Sua Santidade. Acabei
menosprezando as ocasiões, como assistir à missa na Catedral ou permanecer nas
proximidades da Cúria Metropolitana, na avenida Joaquim Nabuco, onde o Papa
ficou hospedado. Somente acompanhei, ao lado da cidade inteira, a Missa Campal
na Bola da Suframa, denominação que, a partir dessa celebração, virou a Praça
do Papa. Lembro bem a despedida prestada ao Papa no aeroporto: suando às bicas,
ele abençoou Manaus e se referiu ao fenômeno solar próprio da Amazônia.
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| Diploma da Faculdade de Direito |
O ano chegou ao fim com um salutar compromisso: receber o Diploma da Faculdade de Direito, ainda que cercado pelos impasses recolhidos pelos anos, cujo principal era o processo que se avolumou na Auditoria Militar, cujo julgamento sucedeu no ano imediato. A vida sentimental, após a separação da esposa, tornou-se um vendaval, tanto que colhia um temporal em cada porta. Meus pais e irmãos seguiam na residência do Tiradentes, mas já pensando em mudar-se, “a fim de desocupar a casa” e permitir meu conforto. Então, vesti o paletó costumeiro e dirigi-me ao local da formatura, sem ter convidado qualquer um da minha relação. No trajeto, parei para tomar um lanche. Era noite e fiquei, enquanto degustava o lanche, refletindo sobre alguns fatos nem um pouco animadores: perdi o entusiasmo pela conclusão da faculdade, havia perdido o objetivo, ao concluir por onde os demais estavam iniciando; ao encerrar o curso onze anos após a marca inicial, ao ingressar na “Jaqueira”, em 1969. Não sei se foi a merenda que me azedou ou se foi a sequência de minhas posturas desconexas; certo foi que não compareci à formatura, presumindo que, no dia seguinte, chegaria à faculdade e, graciosamente, receberia o diploma. Ao saber da obrigação de requerer esse benefício e se adornar para uma cerimônia restrita, adiei o desfecho, que somente ocorreu em 1985, quando nomeei o coronel Eber Bessa (obrigado, colega!) para me representar no ato.
Hoje, o diploma serve
exclusivamente para adornar o escritório doméstico.



