CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quinta-feira, abril 09, 2026

MISOGINIA E FEMINICÍDIO

Renato Mendonça

 

Casos recentes de violência contra mulheres têm exposto, como feridas abertas, a dimensão da misoginia que atravessa o país. Entre os episódios mais marcantes está o feminicídio da policial militar Juliana Lopes, em São Paulo — assassinada pelo próprio companheiro, um tenente-coronel da corporação, que nem vale a pena citar seu nome. O crime, brutal em sua essência, chocou a opinião pública e reacendeu o debate sobre a violência de gênero, revelando que até instituições que deveriam proteger a vida podem abrigar a sombra da opressão e da falta de ética humana.

Família do autor em Santos (SP), 1990

Outro episódio que ganhou repercussão nacional foi o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro. A barbárie, além de física, se prolonga no espaço virtual: vídeos no TikTok simulando ataques a mulheres que rejeitam relacionamentos circulam como ecos de um ódio que se multiplica. São sombras projetadas em telas, alimentando a cultura do feminicídio e reforçando padrões de desprezo que transformam o corpo feminino em território de violência.

Pesquisas acadêmicas revelam a profundidade desse abismo. A Fundação Getúlio Vargas identificou 85 comunidades virtuais com conteúdo misógino explícito ou disfarçado. A Universidade Federal do Rio de Janeiro mapeou mais de 130 mil canais no YouTube propagando discursos de ódio contra mulheres. Esses espaços, travestidos de fóruns de autoajuda ou fitness, funcionam como cavernas obscuras — ambientes hospedeiros de radicalização machista, onde adolescentes são seduzidos pelos fantasmas da superioridade masculina.

O psicólogo social Benedito Medrado Dantas sugere que a intensificação do ódio seria reação à emancipação feminina. A explicação, contudo, soa incongruente: nas cidades, a autonomia da mulher já se consolidava há décadas, sem que se visse tamanha violência. Outros analistas apontam fatores mais concretos — como a liberação e facilidade para compra de armas, principalmente no governo anterior — que ampliam a sensação de poder entre grupos misóginos. Armas, nesse contexto, tornam-se prolongamentos da misoginia, instrumentos que transformam o ódio em morte.

Em comum, há o reconhecimento de que se trata de um problema estrutural, atravessando diferentes camadas sociais. Organizações de defesa dos direitos das mulheres, respaldadas por grupos sociais humanísticos, defendem medidas legais e severas contra lideranças desses grupos e maior regulação das plataformas digitais — as big techs que, invariavelmente, lucram com a disseminação do ódio. A tipificação da misoginia como crime é apontada como passo necessário — e extremamente urgente —, ao lado de políticas públicas de prevenção e campanhas de conscientização.

Enquanto isso, cresce a preocupação com a adesão de jovens às comunidades virtuais que promovem a superioridade masculina. Sem resposta firme do Estado e das empresas de tecnologia, o país continuará a assistir à expansão de uma cultura que legitima a violência contra mulheres — uma cultura que transforma sombras em realidade, discursos em sangue feminino.

No tempo de nossos avós, práticas como essas eram inconcebíveis. O criminoso tornava-se pária, rejeitado até pelos familiares. Hoje, a mídia muitas vezes tenta normalizar feminicídios, buscando culpados externos à própria índole do homem. O que se vê é uma degradação da condição humana, um esvaziamento da ética e da empatia.

A misoginia é um vírus endêmico que se espalha silencioso. O feminicídio, sua patologia social mais cruel; é a prova de que não basta denunciar: é preciso extirpar o mal, expor os sintomas e substituí-los pela luz da equidade. Cada mulher assassinada é uma biblioteca incendiada, uma história interrompida, uma esperança que se perde e uma geração de vida que se esvai.

 Enquanto a sociedade não se levantar contra essa cultura nefasta, continuará a viver entre cinzas, silêncios e obscurantismo.

sábado, abril 04, 2026

MALHAÇÃO DO JUDAS

 Esta prática me fez recordar talvez a única em que colaborei com os colegas vizinhos para expor o boneco em minha casa, que possuía uma varanda no alto, portanto bem visível e protegido. Meu genitor não permitiu, acabando com  o festejo no início. As considerações abaixo pertence ao colaborador Renato Mendonça.

Foto do jornal O São Gonçalo (RJ)

A malhação do Judas já foi — sobretudo nas cidades metropolitanas da região Sudeste — uma das mais celebradas tradições populares da era cristã. Em alguns estados do Norte e Nordeste, o ritual ainda permanece vivo, como chama que resiste ao vento do tempo e da indiferença. Possivelmente trazida pelos colonizadores, a prática acontecia nas primeiras horas do Sábado de Aleluia, simbolizando a execração de Judas Iscariotes — o traidor que vendeu Jesus Cristo por trinta moedas, conforme narra o Novo Testamento.

Recordo com saudade os bonecos de pano — de tamanho humano, recheados de palha ou de roupas velhas — que se tornavam a efígie da traição. Muitas vezes, não representavam apenas Judas, mas também figuras públicas impopulares, vizinhos indesejáveis ou personagens da comunidade que, inevitavelmente, eram surrados e queimados. Preparados na noite silenciosa da Sexta-feira Santa, surgiam pendurados em postes ou árvores, à espera da multidão de adolescentes e meninos que os malharia ao amanhecer.

Alguns traziam testamentos bem-humorados — sátiras afiadas, críticas sociais, mensagens à comunidade. Eram bilhetes que explicavam quem o boneco representava, transformando o ritual em catarse coletiva: expiação das indignações acumuladas ao longo do ano. Ali se misturavam motivações religiosas e sociais, fé e protesto, devoção e humor.

Para as crianças, era festa e rito ao mesmo tempo — o fim da Quaresma, a chegada da Páscoa, e, sobretudo, a expectativa pelos presentes de chocolate. Para os adultos, era também um exercício de crítica, uma forma de dar corpo às frustrações e queimá-las junto ao boneco.

Apesar de sua forte ligação com o catolicismo, a malhação do Judas revela a capacidade do povo de ressignificar tradições — mesclando elementos sagrados com o riso, a sátira e a denúncia. Hoje, porém, a prática é alvo de críticas: alguns a consideram retrógrada. Ainda assim, permanece como expressão viva da cultura popular brasileira, celebrando a renovação da fé e o renascimento pascal, ao mesmo tempo em que nos convida a refletir sobre as injustiças que atravessam a sociedade.

O simples ato de recordar a passagem bíblica já é, em si, uma vitória contra o esquecimento em tempos de crescente ateísmo. O rito carrega valor cultural profundo: é a forma como o povo expressa indignação, personifica a traição e a injustiça, e as expurga fisicamente na figura de Judas. Se quiséssemos ampliar o sentido da celebração, poderíamos escalar tantos outros “judas” do mundo político — os corruptos e os traidores da pátria, principalmente — e malhá-los nas urnas, como quem transforma o voto em instrumento de purificação.

Nos tempos modernos, em meio às influências globais que nos atravessam, manter práticas como essa é preservar raízes e bom senso. A malhação de Judas pode ser também metáfora universal: execrar os “judas internacionais”, os traidores da humanidade, que se multiplicam em diferentes formas e em diversos países. Sem ideologias ou fundamentalismos, cabe a nós escolher quais sombras nefastas precisamos abolir de nossas mentes e corações.

Assim, cada boneco queimado é mais do que um espantalho de pano: é a imagem daquilo que precisamos deixar para trás. É a sombra da caverna de Platão que se dissolve no fogo, abrindo caminho para a luz da Páscoa — a vitória da vida sobre a morte, da esperança sobre a desesperança. A vitória da Justiça e da Fé!

sexta-feira, abril 03, 2026

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO - 2026

 A liturgia da Igreja neste Dia se baseia em reverência, em reflexão acerca do sacrifício de Jesus. Daí o texto de Renato Mendonça, que fundamento seus conhecimentos religiosos e expõe sua visão sobre a Sexta-Feira Santa.

Logo da Paróquia Porciúncula de
Sant'Ana - internet

A Santa Ceia - 03.04.2026

Antes da sua derradeira Festa da Páscoa, Jesus reuniu seus discípulos para uma confraternização. Apesar de toda a dificuldade de logística, arranjaram-lhe um lugar onde pudesse reunir a todos e encaminhar seus extremos ensinamentos neste dia característico; e foram, talvez, os mais emblemáticos para o futuro de seus discípulos, transformando-se num paradigma para suas pregações.

A Santa Ceia e o tríduo pascal nos remetem a profundas meditações e nos convidam a uma autópsia espiritual de nós mesmos, para avaliarmos se todos os símbolos gerados nestes dias estão arraigados em nossos corações; se suas lições foram assimiladas.

Jesus usou coisas básicas da alimentação, o histórico pão que nutre o corpo desde os primórdios, desde o Antigo Testamento, quando serviu de maná no deserto e salvou o povo hebreu enquanto se conduzia para a Terra Prometida. Abstraímos também dessa passagem antiga, a mensagem a um povo que busca salvação. — Isto é o meu corpo, que será dado em favor de vós; façam isso para celebrar a minha memória. (Lucas 22:19-20).

O vinho representa o sangue e serve para saciar a sede; a sede de justiça, e o resultado da luta em favor dos mais fracos e oprimidos. Tem sua relação também com o sacrifício, como era o dos animais citados na Bíblia. Agora, o sacrificado é o Cordeiro de Deus, o símbolo máximo da resignação — Pai, afasta de mim esse cálice, mas não seja feita a minha vontade, senão a Vossa. (Mateus 26:39) —, mas também, fé e esperança. — Eu sou o Pão vivo que desceu dos céus, quem come da minha carne e bebe do meu sangue terá vida eterna. (João 6:51).

Além desses emblemas latentes, há os gestos divinos de Jesus, carregados de amor e doação total. O Mestre tirou o manto, derramou água numa bacia e cingiu-se com uma toalha; agacha-se e se curva para lavar os pés dos seus discípulos. Um gesto que denota ao mesmo tempo nobreza e humildade, aquilo que devemos praticar no nosso relacionamento humano. Ele quer nos ensinar que, quando for oportuno, precisamos servir ao próximo, um amor incondicional, independente de reconhecimento ou de recompensa. — "Também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para fazerdes assim como eu fiz para vós.” (João 13:12-14). É curioso observarmos que Pedro estranhou esse gesto de Jesus: “Senhor, tu vais lavar-me os pés?” E Cristo, com toda sobriedade e sabedoria, contestou: “Agora não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás.”

A estranheza do apóstolo era porque fugia aos padrões praticados pelos judeus; era costume oferecer água para lavar o rosto e pedir para um escravo lavar os pés do hóspede. Pedro apenas pensou na lógica comum: o menor serve o maior; o servo, o Mestre. Mas, Jesus justifica a atitude: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. Com esse rito do “lava-pés” contemplamos o gesto divino e humano de Jesus, um gesto carregado de amor em que o evangelista João descreve a mais rica interpretação teológica.

Outro princípio divino, humano e fraterno que podemos apreender sublimemente desse encontro de Jesus com os discípulos é o “repartir o pão”. O gesto carrega em síntese o que já fora praticado tantas vezes na sua vida eucarística. Como por exemplo, quando distribuiu pães e peixes a uma multidão faminta que ouvia sua pregação, também num período que antecedia a Pascoa. (João 6:1-15). A atitude simboliza o sentimento de solidariedade, de fraternidade e de igualdade. Quer nos mostrar que somos iguais aos olhos do Senhor, sem discriminação. Observe que Jesus, mesmo conhecendo a intenção de Judas Iscariotes, de entregá-lo às autoridades romanas, não o segregou dos seus discípulos. E ainda proferiu a célebre lição de vida: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. E como Jesus amou! Na Santa Ceia, nosso grande Mestre sela uma divina e eterna Aliança, sintetizada naquela singular celebração, para se perpetuar na História.

E o pão a ser partido é o Pão da Vida!

Renato Mendonça