CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, abril 03, 2026

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO - 2026

 A liturgia da Igreja neste Dia se baseia em reverência, em reflexão acerca do sacrifício de Jesus. Daí o texto de Renato Mendonça, que fundamento seus conhecimentos religiosos e expõe sua visão sobre a Sexta-Feira Santa.

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Sant'Ana - internet

A Santa Ceia - 03.04.2026

Antes da sua derradeira Festa da Páscoa, Jesus reuniu seus discípulos para uma confraternização. Apesar de toda a dificuldade de logística, arranjaram-lhe um lugar onde pudesse reunir a todos e encaminhar seus extremos ensinamentos neste dia característico; e foram, talvez, os mais emblemáticos para o futuro de seus discípulos, transformando-se num paradigma para suas pregações.

A Santa Ceia e o tríduo pascal nos remetem a profundas meditações e nos convidam a uma autópsia espiritual de nós mesmos, para avaliarmos se todos os símbolos gerados nestes dias estão arraigados em nossos corações; se suas lições foram assimiladas.

Jesus usou coisas básicas da alimentação, o histórico pão que nutre o corpo desde os primórdios, desde o Antigo Testamento, quando serviu de maná no deserto e salvou o povo hebreu enquanto se conduzia para a Terra Prometida. Abstraímos também dessa passagem antiga, a mensagem a um povo que busca salvação. — Isto é o meu corpo, que será dado em favor de vós; façam isso para celebrar a minha memória. (Lucas 22:19-20).

O vinho representa o sangue e serve para saciar a sede; a sede de justiça, e o resultado da luta em favor dos mais fracos e oprimidos. Tem sua relação também com o sacrifício, como era o dos animais citados na Bíblia. Agora, o sacrificado é o Cordeiro de Deus, o símbolo máximo da resignação — Pai, afasta de mim esse cálice, mas não seja feita a minha vontade, senão a Vossa. (Mateus 26:39) —, mas também, fé e esperança. — Eu sou o Pão vivo que desceu dos céus, quem come da minha carne e bebe do meu sangue terá vida eterna. (João 6:51).

Além desses emblemas latentes, há os gestos divinos de Jesus, carregados de amor e doação total. O Mestre tirou o manto, derramou água numa bacia e cingiu-se com uma toalha; agacha-se e se curva para lavar os pés dos seus discípulos. Um gesto que denota ao mesmo tempo nobreza e humildade, aquilo que devemos praticar no nosso relacionamento humano. Ele quer nos ensinar que, quando for oportuno, precisamos servir ao próximo, um amor incondicional, independente de reconhecimento ou de recompensa. — "Também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para fazerdes assim como eu fiz para vós.” (João 13:12-14). É curioso observarmos que Pedro estranhou esse gesto de Jesus: “Senhor, tu vais lavar-me os pés?” E Cristo, com toda sobriedade e sabedoria, contestou: “Agora não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás.”

A estranheza do apóstolo era porque fugia aos padrões praticados pelos judeus; era costume oferecer água para lavar o rosto e pedir para um escravo lavar os pés do hóspede. Pedro apenas pensou na lógica comum: o menor serve o maior; o servo, o Mestre. Mas, Jesus justifica a atitude: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. Com esse rito do “lava-pés” contemplamos o gesto divino e humano de Jesus, um gesto carregado de amor em que o evangelista João descreve a mais rica interpretação teológica.

Outro princípio divino, humano e fraterno que podemos apreender sublimemente desse encontro de Jesus com os discípulos é o “repartir o pão”. O gesto carrega em síntese o que já fora praticado tantas vezes na sua vida eucarística. Como por exemplo, quando distribuiu pães e peixes a uma multidão faminta que ouvia sua pregação, também num período que antecedia a Pascoa. (João 6:1-15). A atitude simboliza o sentimento de solidariedade, de fraternidade e de igualdade. Quer nos mostrar que somos iguais aos olhos do Senhor, sem discriminação. Observe que Jesus, mesmo conhecendo a intenção de Judas Iscariotes, de entregá-lo às autoridades romanas, não o segregou dos seus discípulos. E ainda proferiu a célebre lição de vida: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. E como Jesus amou! Na Santa Ceia, nosso grande Mestre sela uma divina e eterna Aliança, sintetizada naquela singular celebração, para se perpetuar na História.

E o pão a ser partido é o Pão da Vida!

Renato Mendonça

quarta-feira, abril 01, 2026

1º ABRIL - DIA DA MENTIRA

Duas notas verdadeiras nesta data excêntrica: a morte do padre-poeta L. Ruas (2000), ocorrida há 26 anos; a outra, o aniversário do mestre do pincel, desenhista e ilustrador Marius Bell (1950-).

Ontem, conversando com a filha Sofia sobre literatura, revi o livro Poesia Reunida, de L. Ruas, que organizei, e o padre Francisco Pinto mandou imprimir e distribuir. Lemos alguns poemas e relembrei a enfermidade que castigou ao Ruas e seu falecimento. 

Homenagem do Estado, situada no
bairro Zumbi III

L. Ruas nasceu e morreu no mesmo endereço à avenida Joaquim Nabuco, em imóvel ora em frente ao hospital da Samel. Em curto intervalo morou em outro endereço, na avenida Sete. Ao falecer, Ruas emocionou a cidade, e sua morte lembrou as Palavras à árvore morta, diria, seu epitáfio, escritas quando o autor era ainda jovem sacerdote:

Anos depois, isto é, há dois dias, ele [o fícus] sentiu que algo estranho sucedia dentro de si. Uma espécie de tristeza, uma agonia, uma angústia. O vento, novamente, sussurra-lhe aos ouvidos de folhas, já agora ásperas, que umas árvores haviam sido destroçadas, decepadas, mutiladas. E o fícus desprovido da inadvertência da mocidade, o fícus, abalado por tantos males, não resistiu à notícia. Sentiu que a seiva estacava dentro de seu tronco calejado pelas pedras duras do calçamento, sentiu que alguma coisa estava se rompendo e... com estalo de dor, tombou, abraçando sua rua, acariciado pelo vento que, absolutamente, não compreendia a razão do colapso. 

O professor José Seráfico dedicou uma memória ao autor de Aparição do Clown, cuja finalização transcrevo abaixo:

Não foi dado sequer o tempo de colher o fruto de seu canto. Tão cedo se foi, quando havia tanto a fazer – e a ensinar. Convenhamos que antes dos setenta anos deveria ser crime morrer. Talvez sua missão já se tivesse cumprido. Quem o saberá? Se a parca encerra em si mesma, além do luto e da dor dos que ficam, o simbolismo tão parco na mente dos sobreviventes, ela não nos terá poupado da coincidência com que às vezes se manifesta: Luiz Ruas, perseguido pelo golpe militar de 1964, deixou-nos na mesma data em que a ofensa cívica ocorrera – era primeiro de abril do último ano do século XX.

Pena que, nesse caso, não havia mentira. Luiz Augusto de Lima Ruas partia para nunca mais. 

* * *

Bell exibe o desenho
da estátua de Santo Antonio

A outra “mentira” é o aniversário do artista publicitário Marius Bell (1950-), pseudônimo de um ilustrador, desenhista e escultor regional, que realizou respeitosa caminhada artística pela nossa cidade, onde espalhou cartazes de cinema, enormes grafites e quadros pessoais, alguns me pertencem. Sua maior obra é a estátua de Santo Antonio, que se encontra altaneira à margem do rio Madeira, na cidade de Borba. Na ocasião, dom José, bispo da Prelazia local, permitiu-lhe decorar o interior da catedral. Ainda agora, o autor vangloria-se de ter pintado o Crucificado “sorrindo”. Acredita ser o único no mundo.

Enfim, Marius deixou em Manaus uma batelada de bons trabalhos. Marcantes. Lamento que tenha se mudado do bairro de São Francisco, onde morava, trocando-o pelas praias de Maceió (AL), onde já espalha suas bem-conceituadas obras e desfruta com a família de bons ventos marítimos.

Vida longa, meu camarada, que venham mais e mais trabalhos, para festejos de seus admiradores.

terça-feira, março 31, 2026

31 DE MARÇO - 62 ANOS DO GOLPE MILITAR

 Em 1964, estava encerrando o ensino médio, quando explodiu a revolta militar. Vinha acompanhando a situação do país por duas vias: uma, pela leitura dos jornais do eixo Rio-São Paulo; outra, pelas conversas com nossos professores, alguns recolhidos ao cárcere acusados de subversivos. Segui assistindo o desdobrar do movimento na capital amazonense que, longe do centro político, pouco pode registrar. A postagem cabe ao Renato Mendonça, bem mais jovem, mas que se mudando para o Sul, acompanhou o desenrolar da repressão. 

Extraído da Internet 

Quando se fala em golpe de Estado, o imaginário nacional costuma se fixar em 1964. Talvez porque tenha sido conduzido pelas Forças Armadas e tenha inaugurado um longo ciclo de 21 anos de ditadura. Mas a História brasileira, se folheada com atenção, revela que os golpes — ou movimentos antidemocráticos — atravessam séculos, desde o período colonial e ameaçam até os dias de hoje.

O primeiro registro remonta a D. Pedro I. Em 1823, dissolveu a Assembleia Constituinte que ousava limitar seu poder e, no ano seguinte, outorgou a Constituição de 1824. O episódio ficou marcado como “A Noite da Agonia”, quando deputados foram presos sob a sombra dos militares. Mais do que golpe, foi a expressão crua da autocracia imperial.

Poucos anos depois, em 1831, o mesmo imperador abdicou em favor do filho de apenas cinco anos. O país mergulhou em uma década de regências e revoltas, até que, em 1840, um novo arranjo político antecipou a maioridade de Pedro II. Aos 14 anos, o adolescente assumiu o trono — um golpe parlamentar travestido de solução.

A monarquia, porém, não resistiria ao ímpeto militar. Em 1889, marechal Deodoro da Fonseca derrubou Pedro II e proclamou a República. Para alguns, um marco democrático; para outros, apenas mais uma ruptura imposta pela farda. Dois anos depois, o mesmo Deodoro fechou o Congresso e decretou Estado de Sítio. Renunciou em seguida, deixando o poder a Floriano Peixoto. A República nascente já se habituava ao compasso dos golpes.

Em 1930, Getúlio Vargas ascendeu ao poder após contestar a vitória de Júlio Prestes. A chamada Revolução de 30 depôs Washington Luís e inaugurou um governo provisório, que se prestava a fomentar um novo golpe. Sete anos depois, um documento forjado — o Plano Cohen — serviu de pretexto para Vargas instaurar o Estado Novo. A democracia, mais uma vez, foi interrompida, com receio de uma revolta comunista.

O golpe de 1964, por sua vez, permanece como cicatriz aberta. João Goulart, eleito democraticamente, foi deposto sob o argumento de conter uma suposta ameaça comunista. A intervenção militar contou com apoio de setores da imprensa, da elite e dos Estados Unidos, e mergulhou o país em duas décadas de autoritarismo.

A História brasileira, assim, parece dançar em torno de rupturas: ora pela espada, ora pelo Congresso, ora pela manipulação do pânico moral, ora por engodos de parlamentares. O palco se repete, os atores mudam, mas o enredo insiste em desafiar a democracia — e ameaça de ruptura. Que não seja necessário novo ato. Que os eleitos cumpram seus mandatos, que os derrotados aceitem o jogo republicano e que o país não precise assistir a mais uma coreografia de golpes — sejam militares, parlamentares ou institucionais.

Renato Mendonça