Em 1964, estava encerrando o ensino médio, quando explodiu a revolta militar. Vinha acompanhando a situação do país por duas vias: uma, pela leitura dos jornais do eixo Rio-São Paulo; outra, pelas conversas com nossos professores, alguns recolhidos ao cárcere acusados de subversivos. Segui assistindo o desdobrar do movimento na capital amazonense que, longe do centro político, pouco pode registrar. A postagem cabe ao Renato Mendonça, bem mais jovem, mas que se mudando para o Sul, acompanhou o desenrolar da repressão.
Quando se fala em golpe de Estado, o imaginário nacional costuma se fixar em 1964. Talvez porque tenha sido conduzido pelas Forças Armadas e tenha inaugurado um longo ciclo de 21 anos de ditadura. Mas a História brasileira, se folheada com atenção, revela que os golpes — ou movimentos antidemocráticos — atravessam séculos, desde o período colonial e ameaçam até os dias de hoje.
O primeiro registro remonta a D. Pedro I. Em 1823, dissolveu a Assembleia Constituinte que ousava limitar seu poder e, no ano seguinte, outorgou a Constituição de 1824. O episódio ficou marcado como “A Noite da Agonia”, quando deputados foram presos sob a sombra dos militares. Mais do que golpe, foi a expressão crua da autocracia imperial.
Poucos anos depois, em 1831, o mesmo imperador abdicou em favor do filho de apenas cinco anos. O país mergulhou em uma década de regências e revoltas, até que, em 1840, um novo arranjo político antecipou a maioridade de Pedro II. Aos 14 anos, o adolescente assumiu o trono — um golpe parlamentar travestido de solução.
A monarquia, porém, não resistiria ao ímpeto militar. Em 1889, marechal Deodoro da Fonseca derrubou Pedro II e proclamou a República. Para alguns, um marco democrático; para outros, apenas mais uma ruptura imposta pela farda. Dois anos depois, o mesmo Deodoro fechou o Congresso e decretou Estado de Sítio. Renunciou em seguida, deixando o poder a Floriano Peixoto. A República nascente já se habituava ao compasso dos golpes.
Em 1930, Getúlio Vargas ascendeu ao poder após contestar a vitória de Júlio Prestes. A chamada Revolução de 30 depôs Washington Luís e inaugurou um governo provisório, que se prestava a fomentar um novo golpe. Sete anos depois, um documento forjado — o Plano Cohen — serviu de pretexto para Vargas instaurar o Estado Novo. A democracia, mais uma vez, foi interrompida, com receio de uma revolta comunista.
O golpe de 1964, por sua vez, permanece como cicatriz aberta. João Goulart, eleito democraticamente, foi deposto sob o argumento de conter uma suposta ameaça comunista. A intervenção militar contou com apoio de setores da imprensa, da elite e dos Estados Unidos, e mergulhou o país em duas décadas de autoritarismo.
A História brasileira, assim, parece dançar em torno de rupturas: ora pela espada, ora pelo Congresso, ora pela manipulação do pânico moral, ora por engodos de parlamentares. O palco se repete, os atores mudam, mas o enredo insiste em desafiar a democracia — e ameaça de ruptura. Que não seja necessário novo ato. Que os eleitos cumpram seus mandatos, que os derrotados aceitem o jogo republicano e que o país não precise assistir a mais uma coreografia de golpes — sejam militares, parlamentares ou institucionais.
Renato Mendonça


