CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sábado, outubro 17, 2026

OLÍMPICO CLUBE

 O Olímpico Clube completa hoje, 17 de outubro, 88 anos de existência. Apesar de ter abandonado a prática do futebol, a agremiação segue com sua atividade social; com sua estimada e carnavalesca Kamelia. A foto que ilustra esta postagem foi extraída da coluna Bau Velho, de autoria do saudoso Carlos Zamith, circulada em A Crítica (19 outubro 1986).

 

A foto foi realizada quando Gilberto Mestrinho, ao centro,
era prefeito de Manaus (1956-58)

        Presto minha homenagem hoje, ao Olímpico Clube, fundado a 17 de outubro de 1938 (48 anos) ali no portão da residência nº 233, da José Clemente, bem ao lado do Caldeira, um bar frequentado por gente boa. Ali morava o despachante Eduardo Nogueira, mais conhecido por Dudu, e um dia, um grupo de rapazes que estavam insatisfeitos com o Rio Negro, decidiram fundar uma outra agremiação desportiva. Primeiro como Albatroz, depois como Olímpico Clube, denominação que recebeu exatamente no dia 17 de outubro de 1938, numa reunião bem movimentada, presidida pelo dr. Luiz da Cunha Costa, e secretariada por Armando Carneiro Barbosa.

O nome da nova agremiação – OLÍMPICO CLUB, foi aclamado por unanimidade. Presentes estavam, ainda, os sócios Gama e Silva, eleito tesoureiro, Hugo Guimarães, Jacques Levy, Raul Rocha da Silva, Candido Cumarú (Candú), Juin) Marques da Silva, Milton Monteiro, Osaki Soares, Manoel da Costa Novo, Antonio Maria Dias dos Santos, Joaquim Esteves, João Ricardo de Araújo, Salvio Miranda Corrêa, Adair Marques, Vicente Cetraro, Almir e Moacir Marques, Lezenildo Barreto (Gasolina), Mário Miranda, Ademar Marques, Arnóbio Valente, Tomaz de Carvalho, Dudu Nogueira e outros que mesmo ausentes foram considerados fundadores do clube.

        Carlos Zamith (parte do texto do colunista) 

sexta-feira, outubro 16, 2026

ELEIÇÕES NO AMAZONAS - 1958

 Para as eleições de 1958, naquela em que Gilberto Mestrinho (1928-2006) foi eleito para exercer seu primeiro mandato de governador, o acadêmico Ramayana de Chevalier (1909-72) escreveu a crônica aqui postada, analisando os políticos e suas manias. Circulada no Jornal do Commercio, em 25 de setembro de 1958, próxima de completar 70 anos, a análise de Chevalier continua presente, faltou-lhe observar – obviamente, por inexistir – o emprego da internet. Aquela eleição, em turno único, aconteceu em 3 de outubro (sexta-feira) e, por se tratar de contagem manual, a proclamação do resultado – por vários motivos – estendia-se por semanas.
Ramayana de Chevalier

ALEGRIA

Quando Frederico Nietzsche, do fundo de sua caverna lôbrega, afirmava que Jesus só pregava o amor ao próximo porque não conhecia a democracia, estava em transe de iluminação. A democracia é irmã gêmea da demagogia e esta, filha dileta do diabo.

O político profissional tudo promete, certo de que irá se manter com um milésimo do prometido. Sorri, como as figuras torvas do submundo parisiense: de esgar. Aperta mãos com a solicitude dos carteiros. Tira o chapéu quando o usa, como um mágico do palco, para que surja dele uma surpresa. E, nos comícios, alteia a voz com ênfase, numa coleção abjeta de lugares comuns que todas as bocas mentirosas já repetiram; inflama os olhos; suspende o dedo em riste como se agitasse um látego; submete-se a uma falsa atitude humilde, como se fora um servente obscuro da grande massa eleitoral. 

Quando ele defende uma tese social, quando está do lado do povo, aconselhando-o, pregando, doutrinando, então é feliz. Pode ser sincero. O seu entusiasmo é contagiante, é quase puro, é vivo e ardente. Sem o povo, ele falseia e mente, intriga e infama, apedreja e gargalha, cospe nas tradições e rasga os cânones mais nobres da espécie.

O político profissional é uma pobre criatura que tem que se defender do seu maior inimigo: o eleitor inconsciente. Este é o verdugo e a vítima. Sente-se enorme às vésperas do pleito, como sabe que é um verme, no resto do tempo. E quando não possui a consciência cívica, gloriosa e alta, que lhe empresta o poder seletivo, o condão de escolher, então rasteja e sacode-se como um chacal. Pretende escravizar moralmente o político, como este o maneja socialmente. O eleitor inconsciente só vê uma coisa às vésperas do pleito: o seu interesse. Insinua, difama, toma dinheiro, ou empavona-se em chefete, procura dirigir o candidato, absorver-lhe a atenção, empolgar-lhe a atividade, arrastá-lo para si como um joguete sem vontade e sem critério. E engendra despesas imaginárias como um Einstein, inventa contas como um botequineiro.

Disse-me o meu amigo Ruy Araújo, brilhante candidato a deputado federal, que, se fossem verdadeiros os livros de fichas eleitorais que apresentam esses forjadores de fantasmas, o eleitorado amazonense seria maior que o de São Paulo. Se o político profissional é algo de sórdido, o eleitor profissional é muito mais sujo. E chato. 

No fundo, ele vota num interesse, não vota num homem. E alicia a opinião do povo humilde, com a esperteza de uma víbora. Tenho alergias por estes sacripantas. O seu contato me é nefasto. Creio no povo, modesto e bom, que enche este mundo. Se os pleitos eleitorais se passassem com elevação, sem arreganhos, sem cachaça e sem demagogia, então valia a pena tentar-se a defesa de uma tese social, de uma doutrina política sadia. 

Quando vejo um desses eleitores profissionais aproximando-se de mim, arrogante ou de sorriso número cinco a tiracolo, tenho vontade de mandá-lo para o lugar aonde Pilatos mandou o inventor do sabonete. 

Tenho uma invencível vontade de trabalhar pela minha gente, de dar de mim pelos humildes do nosso Estado. Mas o processo me constrange. Gostaria que tudo se passasse entre pessoas conscientes, entre almas compreensíveis, entre vocações patrióticas definitivas. Se, para ser político, é preciso abdicar de tudo isso, então já não contem comigo. Sou alérgico ao cinismo.


quinta-feira, outubro 15, 2026

MEUS OITENTANOS (21)



Fascículo 21 

 1981

Ingressei naquele novo ano com a vida profissional em acentuado declínio, visto que, apesar de integrado numa seção do comando-geral, me encontrava no “corredor”, no jargão militar. E, na vida sentimental, ocorria outra turbulência. Fui transferido para os Bombeiros, porém, a maior complicação foi me desentender com o comandante-geral – coronel Wilson Raizer; o episódio mais grave foi minha presença na inauguração do quartel em Itacoatiara acompanhado de funcionárias civis. Em coisa nenhuma prosperou minha explicação: agi na condição de divorciado, disse-lhe; todavia, o comandante era evangélico convicto, por isso, não adiantaram minhas explicações. Outro disparate: Raizer costumava visitar a residência dos oficiais; quando comunicou a visita à minha família, reagi de forma descortês, ao cancelar a recepção alegando minha formação católica.  E mais. O inferno prosperava na Auditória, com a demanda que poderia me excluir da Polícia Militar. Para agravar, outra adversidade: a família de meu pai mudou-se da residência no Tiradentes para a rua Urucará, 1181-B, na Cachoeirinha, subúrbio com amplos recursos e ocupar uma casa que, apesar de geminada, dispunha de mais conforto. Intentei me manter na minha casa, para isso contratei alguns reparos, o principal foi a construção de mais um quarto, que não passou dos alicerces.

A bordo do catamarã, era
julho, e fazia friagem

Para usufruir as férias de julho, consegui com o governo passagens de barco para Tabatinga; segui em companhia do meu filho Roberto.  Saiu numa quarta-feira a excursão, que durou uma semana, pois era a viagem experimental do protótipo de embarcação, tipo catamarã, encomendado pelo governo Lindoso, e carecia conhecer o beiradão. Além da maleta, ao embarcar, reuni dois livros e os quatro jornais diários. Acomodado em um beliche, viajava com mais privacidade. E o catamarã subiu o rio Solimões, demorando-se em cada sede municipal, a fim de exibir a embarcação. A cada dia, após o café, com os mesmos jornais, me abancava na popa do barco, onde plagiava a leitura. Mas sempre se achegava um passageiro pedindo emprestado o jornal, para ler seu horóscopo; afastava-se sorridente com o diário, para logo voltar tristonho me recriminando pela desatualização do matutino. Passei aquela semana sem conhecer qualquer notícia do país, dada a inviabilidade de sintonizar o rádio – o único meio de comunicação – naquele fim de mundo.

Durante o trajeto conheci um negociante de Tabatinga que, muito prestativo, nos acolheu – a mim e meu filho Roberto – ao final da viagem. Ao atingir a cidade de Benjamin Constant, entrei em contato com a guarnição policial local, que me prestou uma acolhida calorosa. Afinal, na semana seguinte, ao atravessar o rio Solimões, desembarquei em Tabatinga. Decidi alcançar Iquitos, no Peru, na transição entre o Solimões e o Marañon – rio considerado a cabeceira do rio Amazonas – e consultei meu amigo, que me informou tratar-se de uma viagem efetuada apenas pela FAP (Força Aérea Peruana) em hidroavião. E me repassou instruções: não existe horário fixo – os voos chegam e partem imediatamente; o embarque ocorre no flutuante em Santa Rosa, já em território peruano na margem oposta; o pagamento é realizado nesse próprio flutuante e é obrigatório esperar ali pela chegada da aeronave. Enquanto aguardava o transporte, comi e bebi à vontade, como os demais passageiros. O avião chegou cerca das quatro horas da tarde, o embarque foi rápido e, após a decolagem, a tripulação informou ser impossível chegar em Iquitos. No ar, começou nova aventura para eu alcançar a pátria de meus antecessores peruanos. 

Roberto filho (à esq.) na travessia de Benjamin
Constant para Tabatinga, com direito à "segurança"

    O problema não estava em alcançar Iquitos, mas na proibição de aquela aeronave pousar – única alternativa – no lago Moronacocha, em razão da cor escura da sua superfície; o toque era autorizado até às dezessete horas, informou a tripulação. No entanto, passageiros brasileiros, estimulados pelos aperitivos, tentaram subornar aos militares, oferecendo uma contribuição coletiva. Nada feito. Pouco depois o avião aterrissou no leito do rio Marañón, próximo ao ancoradouro de um pelotão do Exército, que nos conduziu de lancha até a cidade de Pebas, então um lugarejo “perdido na selva”, desprovido de local para acomodar aproximadamente vinte passageiros e, para resumir a penúria, a energia elétrica foi desligada às 22 horas. Dormi bem, em razão do meu estado etílico e do silêncio que tomou a cidade; não reclamei do colchão, nem das carapanãs (mosquitos). De manhã, fui cobrado pela hospedagem; felizmente o cruzeiro (moeda brasileira) estava valendo bastante no câmbio. Até paguei a parte de um brasileiro que – sem grana – seguia a Iquitos para “aventurar a vida”. Enfim, cerca das 10 horas, o hidroavião de fabricação canadense me apresentou à cidade dos meus precursores.