Às
vezes a História parece gostar de pequenos gestos simbólicos que a “folhinha”
nos oferece. Desses que passam despercebidos para muitos, mas que, quando
notados, iluminam o sentido de uma época.
Você já
se deu conta de que uma das datas mais decisivas deste século para a escolha
dos rumos políticos do Brasil coincidiu exatamente com o Dia da Democracia?
Não se
trata apenas de uma coincidência de calendário. Certas datas carregam memórias
que atravessam gerações e resistem ao desgaste do tempo. O dia 25 de outubro
passa a ser uma delas.
Foi
nesta data, há 51 anos, que o regime militar produziu uma de suas mais
perversas encenações. Nas dependências do DOI-CODI, em São Paulo, tentou-se
transformar em suicídio aquilo que era, na verdade, o assassinato do jornalista
Vladimir Herzog.
A
mentira oficial, porém, encontrou um país que começava a despertar. A
indignação rompeu o silêncio imposto pelos quartéis. Dias depois, a Catedral da
Sé tornou-se abrigo da consciência nacional. Ali, diante de uma multidão
estimada em oito mil pessoas, o arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino
Henry Sobel e o pastor James Wright celebraram um ato ecumênico que unia as
fronteiras dos credos religiosos. Era a própria dignidade humana reunida contra
a violência do Estado.
A morte
de Herzog ecoou muito além das redações. Alcançou estudantes, artistas,
intelectuais, trabalhadores e cidadãos comuns. Transformou-se num divisor de
águas. A partir daquele momento, a sociedade civil começou a reencontrar sua
voz e a democracia, ainda distante, voltou a ser imaginada como possibilidade
concreta.
Herzog
deixou de ser apenas um jornalista e professor. Tornou-se símbolo, ícone. Seu
nome passou a representar a resistência diante do autoritarismo e a defesa
inegociável dos direitos humanos.
Cinco décadas depois, a História resolveu aproximar novamente os seus polos — mais de sessenta e quatro milhões de eleitores resolveram reconectar-se com a democracia. No mesmo dia em que a memória de Herzog renovava sua presença entre nós, os brasileiros foram chamados às urnas para decidir o futuro do país. Como se o passado murmurasse discretamente ao ouvido do presente, lembrando que a democracia jamais é uma conquista definitiva. Ela exige vigilância, participação e, sobretudo, preservação da memória.
Talvez
por isso sejam tão comoventes as cenas vistas durante aquele processo
eleitoral. A histórica mobilização dos estudantes de Niterói, convocando a
sociedade à participação democrática; os idosos enfrentando limitações físicas;
pessoas com doenças crônicas deixando o conforto e a segurança de suas casas
para exercer o direito ao voto — um esforço humano de todos. Nas redes sociais
multiplicavam-se imagens de esforço, esperança e compromisso cívico —
comovente, extremamente comovente — que sensibilizaram o mundo.
Cada
uma dessas pessoas carregava uma pequena chama. Isolados, pareciam gestos
simples — palitos de fósforos acesos. Juntas, formavam a luz necessária para
iluminar uma escolha coletiva.
A democracia
vive justamente desses movimentos quase anônimos. Não apenas dos grandes
discursos, dos líderes ou das instituições, mas também da disposição silenciosa
de cidadãos que compreendem o valor de uma urna, de uma escolha e de uma
responsabilidade compartilhada.
Por
isso, recordar Vladimir Herzog é mais do que prestar homenagem a uma vítima da
ditadura. É recordar o preço da liberdade. É reconhecer quantos foram
perseguidos — tantos pagaram com a vida — para que hoje possamos divergir sem
medo, votar sem tutela e sonhar sem censura.
Entre a
tragédia de 1975 e a esperança renovada nas urnas, o dia 25 de outubro
permanece como um lembrete poderoso: a democracia não nasce do acaso. Ela é
construída todos os dias pela coragem de quem resiste ao autoritarismo e pela
consciência de quem se recusa a esquecer.
Salve o
Dia da Democracia!



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