CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quarta-feira, setembro 16, 2026

PRINCÍPIO DE INCÊNDIO

 Renato Mendonça

10.09.2026

 


Há quem diga que o Supremo Tribunal Federal (STF) é o guardião da Constituição. Mas, quando olhamos para certas manchetes e discursos proferidos nos meios de comunicação escrito e falado, o que vemos é um espelho trincado: a imagem refletida não é a da instituição austera e imparcial que imaginávamos, mas a de um palco onde se encenam dramas políticos — defesa de ideologias.

Durante muito tempo acreditávamos que seus ministros fossem figuras ilibadas, eruditos do Direito constitucional, capazes de sustentar o edifício republicano com a firmeza de colunas incólumes. Hoje, porém, a fotografia que se revela é menos nobre: alguns se deixam capturar por interesses escusos, outros se transformam em cabos eleitorais disfarçados, quase um braço articulado em favor de ideologias que flertam com o autoritarismo — a extrema direita.

E, como não se submetem ao julgamento direto das urnas, muitos parecem esquecer que sua fidelidade deveria ser à Constituição, não ao padrinho político que os indicou. É uma inversão de valores perigosa e delinquente: o templo da lei se converte em arena partidária, e as cores das togas dos ministros são ofuscadas pelas sombras nefastas das campanhas eleitorais.

Para agravar, há jornalistas que se tornam arautos dessas retóricas casuísticas. Uns se erguem como donos da verdade, outros como mercadores da mentira, tentando convencer o povo de que não precisa ouvir sua própria consciência. É como se a democracia estivesse em chamas — um princípio de incêndio que começa pequeno, mas, se não for debelado, ameaça consumir o edifício inteiro.

Debelar esse fogo exige mais do que indignação e revolta: exige discernimento. Nas próximas eleições, será preciso olhar além dos “santinhos” coloridos, além das promessas fáceis. Ler a biografia dos candidatos, investigar seus atos, perceber quem já se dedicou à população mais vulnerável e quem apenas cultiva interesses mesquinhos em favor de uma minoria mais abastada. A democracia não se sustenta com slogans; ela se sustenta com escolhas responsáveis.

Boas escolhas, meus amigos e amigas — porque delas depende se o incêndio será apagado ou se veremos, impotentes e omissos, a nossa República virar cinzas.

 

terça-feira, setembro 15, 2026

IMIGRAÇÃO JAPONESA NA AMAZÔNIA

 Para abrilhantar o cinquentenário da imigração japonesa na Amazônia, em junho de 1978, o casal – príncipe herdeiro Akirito e a princesa  Michiko – realizou uma visita oficial ao Brasil, incluindo passagem pelo Amazonas. Como forma de manifestação de apreço, o Jornal do Commercio, em Manaus, veiculou o artigo que integra esta postagem, sem eu que conseguisse detalhes sobre o autor.



Jornal do Commercio, 24 junho 1978

(...) No acontecimento da imigração japonesa cumpre ressaltar, a bem da verdade histórica, e parte que se relaciona com a Amazônia. Em nossa região a entrada do japonês não resultou de um simples desdobramento da imigração que se destinara ao Sul do país. Partiu de negociações diretas entre o governo do Pará e o governo do Japão. A iniciativa coube ao Dr. Dionísio Auzier Bentes [1925-90], então governador do Estado, e para esse fim foi até Belém, o Embaixador japonês no Brasil, Sishita Taksuke. Encerradas as negociações com êxito favorável, passou-se ao empreendimento, em termos econômicos, surgindo a Companhia Nipónica de Plantações do Brasil, sob a responsabilidade do industrial Hachiro Fukuara. Nessa fase preliminar, contribuíram, com capacidade e dedicação, o brasileiro Mario Guimarães e o japonês Conde Koma [Mitsuyo Maeda - 1878-1941], este há muito radicado em Belém, onde se tornou popular como professor de jiu-jitsu, tendo como discípulo predileto, neste esporte, o paraense Jacinto Ferro, que por sua vez prosseguiu na missão do velho mestre.

A imigração japonesa na Amazónia data, portanto, de cinquenta anos, e merece uma comemoração especial.

A par das culturas hortigranjeiras, que vieram melhorar a padrão alimentar do povo, são dignas do registro duas verdadeiras revoluções de caráter econômico operadas por essa imigração. Refiro-me à pimenta do reino e à juta. Até então a sacaria para exportação brasileira era tecida na base da fibra importada da Índia. A pimenta do reino, que não é só um tempero de cozinha, mas ingrediente indispensável na indústria de carnes em conserva, constituía outro déficit no plano da economia. Iniciou-se em Tomé-

Açu, no rio Acará, sede pioneira da ação japonesa, a grande batalha pela cultura da pimenta, daí estendendo-se até tornar-se em produto básico da industrialização, um fator de autossuficiência da riqueza nacional.

A juta tem uma história que merece ser contada. Ryoto Oyama, localizado em Parintins (outra área escolhida pelos imigrantes) consagrou-se à cultura do precioso vegetal. Investiu praticamente uma fortuna, nesse programa. Aconteceu que germinaram alguns pés, e desses restaram cinco, ainda tenros, quando a enchente do Amazonas começou a se expandir, ameaçando sua existência, pois, como se sabe, trata-se de planta da várzea. À medida em que o rio subia a ribanceira, aumentavam as preocupações de Oyama. Houve uma noite de SUSPENSE: a distância entre o rio e os frágeis arbustos era tão pequena que bastaria um avanço normal da enchente para afogá-los. O pioneiro ficou em vigília, mas ao fim da madrugada recebeu uma gratificação inesperada pelo seu heroico trabalho, pois o rio se deteve e daí em diante passou à vazante.

Recordando esses fatos, saúdo o 50° aniversário da imigração japonesa na Amazônia, como um dos mais decisivos acontecimentos para o desenvolvimento econômico da região.

segunda-feira, setembro 14, 2026

MEUS OITENTANOS (17)

 

FASCÍCULO 17


Cometi de novo um erro grave comigo mesmo ao transferir o comando da Rádio Patrulha, sem aguardar a definição do comando-geral. Entreguei ao subcomandante, capitão Eber Bessa, e, depois de me apresentar ao superior de dia, viajei a Belém, a fim de alcançar meu carro – a Brasília ZG 9432, com a qual segui rumo ao Sul pela BR 153, conhecida por Belém-Brasília. Ia acompanhado da prima Rosinha, que aproveitou a carona para reencontrar a família em Santos-SP. A viagem ocorreu em fevereiro, durante o Carnaval; tanto é que no dia 28, quarta-feira de Cinzas, ao levar o carro a uma oficina precisei aguardar a abertura do banco para sacar o dinheiro. Fui o único motorista: dirigi inicialmente até Anápolis-GO e, então, tomei a direção de São Paulo pela BR 364. Realizei a navegação com o GPS da época – a revista Quatro Rodas – que mostrava as rodovias de forma esquemática, sinalizando pontos de interesses e indicando a quilometragem a percorrer.

Deixando o comando 

                                                                    Enquanto rodava pelo interior, com pouco movimento nas estradas, tudo seguia às maravilhas; todavia, quando alcancei o entorno de São Paulo, minhas pernas tremeram. Ao adentrar a capital paulista os embaraços se ampliaram, mas seguia as placas indicativas para Santos até que, bastou a inobservância de uma delas, me perdi. Adiante, ao avistar uma patrulha da PMESP, estacionei o carro no canteiro. Ao policial surpreso expliquei que chegava de Manaus, bastava que ele conferisse a placa e, ao me identificar, indicou-me o caminho do litoral. A estrada de Santos eu conhecia bastante, em virtude de tantas idas e vindas em anos anteriores, assim, prontamente cheguei à residência dos meus pais e irmãos, e a acolhida foi a costumeira – festiva.

Na Belém-Brasília com minha Brasília


Cometi mais uma imprudência: ao deixar minha viagem para o Rio, onde frequentaria o curso, na véspera da abertura do ano escolar. Era um domingo, dia em que a compra de gasolina era suspensa. Sem ter o que fazer, realizei a viagem economizando combustível ao extremo, porém, estando na avenida Brasil, percebi a proximidade da pane seco. Então, decidi deixar o carro em um posto de gasolina sem qualquer garantia e, de taxi cheguei ao quartel do 2º batalhão, em Botafogo, onde obtive hospedagem. Somente na segunda-feira à tarde, após as aulas, recuperei o meu veículo; devendo assinalar que a Brasília estava coberta por seguro total.

Ainda em 1978, um grupo de oficiais orientado pelos majores Medeiros e Alfaia formou uma Cooperativa para, mediante recursos do sistema financeiro da habitação, construir residências para os policiais; resultando no Conjunto Residencial Tiradentes, edificado no bairro do Aleixo, então em expansão no arrabalde da capital. Foram edificadas casas em amplo terreno, destinadas em princípio aos oficiais da Polícia Militar, porém, encerrado o interesse destes, a venda foi aberta ao público. Aproveitei e adquiri uma casa do empreendimento, a qual recebi ao retornar do curso, no início de 1980.

Casa adquirida no Conjunto Tiradentes


O curso de técnica de ensino destinava-se à especialização de dirigentes de escolas militares, diria que se assemelhava à graduação em Pedagogia, todavia, aplicado em período bem restrito, no caso, nove meses, tanto que utilizei os créditos do curso na Faculdade de Pedagogia da UFAM. A equipe de docentes possuía mais civis que militares, que ajudava bastante no entendimento, e cujas aulas – de segunda a quinta-feira – ocupavam a manhã e à tarde, na sexta, somente aulas matinais. Adaptei-me com facilidade ao currículo, em vista do amplo material de leitura; existiu, porém, certo embaraço com as disciplinas de cunho matemático, em especial, a de estatística. Ainda que sem possuir fundo respaldo nesse campo, dominei a matéria, ao ponto de orientar o colega major Lyra Bastos, da polícia cearense. As provas eram aplicadas sempre às sextas-feiras, dessa forma havia tempo para organizar a preparação.

O Centro de Estudos de Pessoal (CEP), instalado no Forte Duque de Caxias, situava-se na praia do Leme, uma das extremidades de Copacabana, portanto em excelente localização. As aulas obedeciam aos parâmetros voltados ao aperfeiçoamento de futuros docentes. As carteiras na sala de aula estavam dispostas segundo a antiguidade entre os militares, com exceção de dois estrangeiros – os capitães Ramon Montiel, da Venezuela, e Alfredo Fiallos, do Equador. O mais antigo na hierarquia ocupava a primeira carteira – o tenente-coronel Ney Villeroy, descendente do primeiro governador do Amazonas; eu me encontrava quase no final, ainda com a patente de major, entre os majores Bastos Pita, da Bahia, e Carlos de Sá, de Pernambuco, e à frente do major EB Meis Velloso.

Inesquecível foi o mais moderno: o capitão Cláudio Ferreira, do Rio Grande do Norte, talentoso desenhista, que animou a turma com as caricaturas expostas dos colegas. Também fui destaque por conta de um acidente jogando futebol, quando, ao trocar a bola pelo meio fio, sofri uma luxação no dedão do pé direito. Cláudio identificou-me como o “jacaré de pé engessado”. A educação física era realizada no campo de futebol, onde joguei inúmeras “peladas”, e me recorda, além da luxação referida, outra proeza: de óculos, jogava no gol; em certo jogo um forte atacante, que fora jogador juvenil do Botafogo, desferiu aquele chute, levantei os braços para defender, mas a bola passou e explodiu na minha testa. Fui ao chão e os óculos, idem. Acodem os jogadores, porém, nada de grave sucedeu nem a mim, nem aos óculos. Tão pouco, o gol.

Preparação física no estádio. Autor, assinalado


Naquela ocasião, minhas visitas a Santos tinham outro propósito e acolhimento: era a residência dos meus pais; fui repetidas vezes, às vezes usando meu carro, mesmo enfrentando o retorno difícil aos domingos sem posto de abastecimento aberto. Certa vez, na BR Rio-São Paulo, dei carona à duas jovens cujo veículo já não dispunha de combustível. Foi-me conveniente, pois as moças moravam em Botafogo, assim como eu, no quartel do 2º Batalhão, instalado na rua São Clemente.  A estadia naquele aquartelamento revelou-se providencial, não muito longe do CEP e com acesso a diversos pontos importantes. O alojamento abrigava vários oficiais de polícia de diferentes estados; a recepção contribuiu bastante para minhas finanças, já que havia alimentação disponível além do almoço servido pelo Centro. Na metade daquele ano soube da mudança de comando no Amazonas: assumiu o tenente-coronel EB Wilson Raizer, com quem teria um complicado entendimento.

As dependências do quartel do batalhão, contudo, não exibiam bom trato, assim como as viaturas; outro descaso evidenciado via-se no aspecto do pessoal, visto os enormes cabelos e bigodes usados. Ver o comandante chegar ao quartel em carro particular e sem uniforme, me fez indagar a razão. Era o temor dos bandidos, assim, circulava disfarçado. E mais receio, os oficiais me instruíam para não visitar a Baixada Fluminense, onde sempre visitei uma família em Belfort Roxo; nem me identificar como oficial de polícia. Ao ouvir essa admoestação, um colega cearense, rangendo os dentes, assegurou: “no Ceará, os bandidos têm medo da polícia”. Outra revelação de alarme ouvi de um assessor militar da Prefeitura, cuja sede visitei em frente ao batalhão, em antiga residência consular. Perguntei ao oficial como a chefia procedia quando o prefeito desejava visitar uma favela, respondeu-me, sem constrangimento: “faz-se um acerto com o líder comunitário, que, por sua vez, segura os marginais”. Tal artifício beira os 50 anos. (segue)