CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, outubro 30, 2026

BAIXA DA ÉGUA (EDUCANDOS)

Nasci naquele bairro, assim posso testemunhar a situação da ladeira que o popular apelidou de "Baixa da Égua", mas não sei explicar este codinome. Como a via era utilizada apenas pelos poucos ônibus de madeira, não havia  reclamação de urgência. Todavia, o barranco foi-se deteriorando, ruindo, em direção ao rio Negro, há 50 anos!. Até que caiu de uma vez... e, por isso, veio a publicação do jornal. 

Reportagem de A Crítica, 17 abril 1975

O barranco localizado na Rua Boulevard Rio Negro (Baixa da Égua) Bairro de Educandos — continua desabando e levando sério perigo aos moradores das proximidades, que ontem abandonaram suas casas em pânico com a queda de uma avalancha.

A rua Boulevard Rio Negro ficou repleta de curiosos assistindo a queda do barranco que cada vez mais aproxima-se das casas ameaçando derrubá-las, caso ocorra nestes dias um forte temporal. Disseram os moradores que as chuvas caídas sobre Manaus, provocam o desmoronamento da “Baixa da Égua”: que se alastra e ninguém toma uma providência para evitar a sequência do perigo.

PÂNICO - Ontem, quando os moradores da rua Boulevard Rio Negro almoçavam foram alertados por um barulho estarrecedor: Era mais uma avalancha de terra que caía diluindo-se nas águas da Beira Mar do bairro de Educandos. A terra começou a quebrar e os mora dores em pânico correram se distanciando do local.  Com a queda da avalancha, a terra partiu e se desabar um temporal demorado, possivelmente destruirá a “Baixa da Égua”, por muito tempo esquecida pelas autoridades municipais, que não procuraram solucionar o problema há tempos — Do jeito quo vai não poderemos mais dormir sossegados, disse dona Maria Chaves. “Já pensou se esse barranco desabar mesmo com vontade, não vai dar tempo de qualquer pessoa escapar. Isso eu garanto”.

quarta-feira, outubro 28, 2026

INDEPENDENCE DAY

 

Renato Mendonça

26.10.2026

Não gosto de usar anglicismos nas minhas crônicas, nem recorrer a palavras estrangeiras para enriquecer textos ou expressar aquilo que penso. Para descrever emoções, alegrias e inquietações, nada melhor do que o nosso vernáculo, rico e generoso, sempre pronto a nos oferecer uma infinidade de sinônimos e significados. Em qualidade linguística e força semântica, não devemos nada a ninguém.

Presidente LULA


Mas, em razão das circunstâncias e do momento eleitoral que vivemos ontem, o título em inglês parece encaixar-se perfeitamente.

Independence Day.

Pelo que testemunhamos nos últimos tempos, com um candidato à Presidência da República buscando apoio nos Estados Unidos para interferir no processo político brasileiro, talvez não exista expressão mais adequada para definir o resultado da eleição de ontem: um verdadeiro Dia da Independência.

O candidato progressista, que fez da defesa da soberania nacional uma de suas principais bandeiras, conquistou a reeleição para um novo mandato. E o simbolismo desse resultado ultrapassa os limites de uma simples disputa eleitoral.

A História, por vezes, gosta de criar coincidências curiosas.

Há cerca de 250 anos, treze colônias americanas romperam oficialmente seus laços políticos com o Império Britânico e deram origem aos Estados Unidos como nação livre e soberana. Guardadas as proporções e observadas as coincidências numéricas envolvendo o candidato vencedor, o resultado de ontem também pode ser interpretado como um grito de independência.

O dia 25 de outubro ficará marcado, para muitos brasileiros, como uma reação às amarras que setores políticos tentaram impor ao país por meio de interesses externos. Não foram poucos os grupos bolsonaristas que apelaram ao governo de Donald Trump para que adotasse medidas contra o Brasil, defendendo sanções e tarifas capazes de atingir nossa economia e prejudicar produtos nacionais.

Observa-se nesse comportamento uma prática extremista que, muitas vezes, encontra sustentação no fanatismo religioso e na disseminação da desinformação. Alimentando-se da confusão e do medo, esses grupos procuram alcançar o poder e, uma vez instalados nele, sentir-se-iam autorizados a negociar o que não lhes pertence.

E o que estaria em jogo? Nossas terras raras. Nossos campos de petróleo. Empresas estratégicas. E até mesmo a Amazônia, patrimônio de valor incalculável para o Brasil e para o mundo.

Vejam bem: havia, sim, um enorme interesse dos nossos irmãos do Norte nas riquezas brasileiras. Essa talvez fosse apenas a primeira etapa do projeto. A segunda seria a interferência em nossa política externa e em nossas relações diplomáticas. Poderíamos ser empurrados para longe dos BRICS, afastados da China e conduzidos a um alinhamento automático que não necessariamente atenderia aos interesses nacionais.

Se olharmos com atenção para esse cenário, veremos ecos de um passado que parecia distante. É impossível não lembrar as disputas geopolíticas da Guerra Fria, quando americanos e soviéticos transformavam o mundo em um grande tabuleiro de xadrez. Foi naquele ambiente de tensão internacional que o Brasil viveu o Golpe Militar de 1964, uma das páginas mais controversas de sua história.

Por tudo isso, considero justo definir o dia de ontem, marcado por uma eleição que já nasce histórica, como o nosso Dia da Independência.

Ou, se preferirem uma expressão ainda mais enfática:

— O Dia da Soberania. E viva a Democracia!

terça-feira, outubro 27, 2026

MEUS OITENTANOS (23)

 FASCÍCULO 23 

1981 

         
        Continuei frequentando o curso de Pedagogia, na Faculdade de Educação, matriculado sob o registro 803606-7, onde já me havia envolvido com a colega Socorro e me atritado com o professor Lago e Silva. A minha frequência ao curso rumava para a derrocada, tanto que o abandonei seis períodos depois, em 1983. Naquela época, o governo federal instituiu o Crédito Universitário destinado a alunos carentes; não demorou para que eu procurasse o balcão de inscrição e, com facilidade, fosse agraciado com uma quota mensal. Enquanto cursava Pedagogia recebi o valor, que deveria ser devolvido ao Estado após a formatura. Como abandonei a faculdade, não me preocupei com a restituição, até o dia em que fui alcançado – sem saber exatamente de que maneira – pela cobrança. Quitei com juros e correção monetária e, para piorar, em única parcela.
Brasão do Corpo de Bombeiros da PMAM

Em paralelo a toda essa movimentação fora da caserna, angustiei-me – consideravelmente – com a situação do meu processo na Auditoria, cujo julgamento estava marcado para o segundo semestre daquele ano. Para enfrentar a corte, procurei um ou dois advogados que foram meus colegas na Faculdade, mas não consigo recordar qual me defendeu no júri. Tentei diálogo com os colegas julgadores, mas somente me sosseguei quando – por iniciativa dele – palestrei com o juiz auditor Manoel Bessa Filho. Bessa havia aberto mão do sacerdócio para, depois de alguns empreendimentos mercantis e de atuação no legislativo municipal, ingressar no judiciário, onde encerraria as atividades; meu conhecimento dele remonta ao tempo do seminário, quando ele era sacerdote. Desse laço veio a atenção que me dispensou, ciente da pena a aplicar. Acertamos o seguinte: ele me aplicaria a pena-base de dois anos, sem agravantes, e concederia sursis, que me manteria no serviço policial; de minha parte, comprometi-me a não recorrer da sentença. E foi assim que foi cumprido.  

Oficiais do CB nas Olimpíadas da PMAM


            A despeito do clima tumultuado na corporação pelas eleições, em outubro realizaram-se as IV Olimpíadas da Polícia Militar, um disputado torneio entre oficiais. Os escassos oficiais dos Bombeiros se engajaram nas modalidades em disputa; de minha parte, estive no futebol de campo e no futsal; arrisquei-me a imitar jogador de basquete e vôlei, liderado pelo capitão Fernando, o cearense conhecido por “carne seca”, que disputava todos os esportes. Não lembro o resultado do torneio. Em novembro, fui transferido para o comando geral, onde assumi a chefia de uma escrivaninha, ícone de qualquer seção burocrática, porém, perto do comandante Guilherme, que me acolheu com entusiasmo; após as próximas eleições regionais, eu iria deparar com essa proximidade. Andava cabisbaixo em razão da condenação a cumprir, esforçando-me para não “pecar mais”, nem mesmo venial; e para honrar o pacto com o amigo Manoel Bessa, que carinhosamente me chamava de “Manelzinho”. Havia outro Manoel, o desembargador Neuzimar Pinheiro, também meu colega do Seminário.

 

Fachada do quartel dos Bombeiros da PMAM

            O novo ano aproximava-se, marcado pelas eleições, com destaque para a de governador, onde figurava o nome de Gilberto Mestrinho que, após chefiar o Poder Executivo de 1959 a 1963, foi cassado pelo regime militar. Apesar de precauções, acabei me envolvendo intramuros na disputa eleitoral, assunto que relatarei em seu devido tempo. No quartel, o novo comandante instituiu uma nova escala de serviço para oficiais superiores: Supervisor de dia; cabia ao escalado, administrar as operações nos quartéis. Poucos apreciam tal encargo: serviço na virada do ano, como me ocorreu. Uniformizado para o serviço e, dessa forma, longe de casa, abracei o ano de 1982, confiando de que o pior havia passado!

domingo, outubro 25, 2026

POEMA DOMINICAL (155)

 

O poema postado nesse domingo é de autoria do poeta Álvaro Botelho Maia (1893-1969), circulado no Pathé Journal,  para comemorar o Natal de 1922. 


BANHISTA

Dança no mar a célere banhista,

roupão de seda, sob um sol de praga...

Ao marulho, áureo tango que embriaga,

abre a boca, ergue o ventre, o seio enrista...

 

Mergulha, emerge, nada à nossa vista...


O oceano, amante que a perturba e afaga,


esconde uma perfídia em cada vaga


para o instante supremo da conquista. 

No leito verde, que estremece e estronda,

soluça a carne da mulher robusta,

ao teu beijo, espuma, ao teu abraço, onda!

 

E, enquanto aperta os vagalhões em fúria,


ao lençol brando da estação adusta,


solta o vento lamentos de luxúria...