CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quarta-feira, maio 20, 2026

PETROBRAS EM CAMAÇARI-BA

Aposentado da Petrobras, o autor analisa com sagacidade a decisão da empresa em retomar a Fábrica de Fertilizantes em Camaçari-BA, daí a CRÔNICA DA FAFEN

19.05.2026

Renato Mendonça

 

Brasão de Camaçari-BA

Não é um governo o que passou — foi uma nuvem negra. E das sombras nasceram falácias contra a Fafen, como se a fábrica fosse apenas um peso morto, um resquício de tempos que não voltariam mais. Porém, eis que o presente, com mãos firmes de um governo devotado à classe trabalhadora, devolve à luz o que tentaram sepultar.

Na quinta-feira passada, no coração industrial de Camaçari, a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados da Bahia voltou a pulsar. O que antes fora arrendado à Proquigel, empresa privada hoje em recuperação judicial, regressa ao seio da Petrobras como quem retorna ao lar. Não é apenas uma planta retomada: é soberania que se ergue, é alimento que se garante, é o Brasil que se recusa a ajoelhar diante da dependência externa de fertilizantes.

A engrenagem volta a girar com promessa de abundância: 1300 toneladas de ureia, 1300 de amônia, e o reagente ARLA-32, que move os pesados motores da estrada. Cada grão de ureia, cada molécula de amônia, é mais que química — é pão na mesa, é pasto verde para o gado, é esperança de preços mais justos no mercado. E, junto à produção, florescem empregos: quase mil diretos, milhares indiretos, como raízes que se espalham pelo solo fértil da Bahia. O Porto de Aratu, com seus terminais de amônia e ureia, será o escoadouro dessa nova colheita industrial. A logística se torna poesia de ferro e mar, garantindo que o fruto da fábrica alcance cada canto do país, para melhorar a vida do consumidor.

As elites, sempre ávidas por ganhos imediatos, defenderam a importação, o lucro rápido, o subsídio estatal ao gás privado. Queriam transformar a Petrobras em serva de interesses estrangeiros, em ponte de renda para poucos — para uma elite gananciosa. Mas o plano ruiu quando o preço internacional do gás expôs a fragilidade da ambição. Restou a lição: não há futuro na dependência estrangeira, não há soberania na entrega de riquezas.

O debate, no Brasil, raramente é ideológico no sentido nobre da palavra. É, antes, um jogo de falácias, uma disputa onde a classe dominante parasitária veste argumentos como máscaras, para ocultar sua fome de apropriação indébita. Mas a retomada da Fafen é mais que política: é o gesto simbólico, é a vitória concreta do campo progressista, é uma lembrança de que desenvolvimento industrial e política energética não podem ser reféns de interesses escusos.

A fábrica renascida é metáfora do país trabalhador que insiste em se reinventar. Entre aço e amônia, entre ureia e suor, ergue-se a certeza de que o Brasil, quando decide caminhar com seus próprios pés, não há sombra que o detenha.

segunda-feira, maio 18, 2026

MEUS OITENTANOS (4)

 FASCÍCULO 4

 No segundo semestre de 1964, quando deixei o Seminário São José, abandonei também a vocação sacerdotal que até então me acompanhava como promessa duvidosa. Tinha dezoito anos e regressava ao lar dos meus pais, na rua Amazonas, número 29, no Morro da Liberdade, trazendo na bagagem apenas a escolaridade atualizada e uma sensação de vazio.

Título eleitoral emitido em 1966 
O número da casa, talhado por meu pai em madeira bruta e fixado na parede frontal, carregava um simbolismo próprio: 29 de dezembro de 1959, e o dia ele quis perpetuar. Mesmo diante da duplicidade de número na rua, sua decisão foi firme, quase solene. A casa de madeira, antes simples e térrea, transformara-se em sobrado, com quartos e varandas no pavimento superior. Ali, naquele novo espaço, ganhei um aposento que às vezes dividia com meus irmãos Antônio e Renato, enquanto outros cômodos se tornavam alugáveis.

Meu regresso, porém, foi marcado por desorientação. Sentia-me como um “cachorro caído da mudança”, sem rumo, sem ofício aprendido. Uma oportunidade surgiu pelas mãos de meu primo Vicente Pereira, que me levou à loja de móveis onde trabalhava. Não havia vaga para vendedor, mas sim na produção de cadeiras metálicas. Enfrentei o labor da soldagem sem proteção adequada, e à noite meus olhos ardiam tanto que o sono me abandonou. No dia seguinte, faltei. Ainda assim, ao final da semana recebi o ordenado e desapareci. Foi a única vez que trabalhei na iniciativa privada; o destino me reservaria apenas o caminho do serviço público.

Enquanto isso, os afazeres domésticos me consumiam. O quintal imenso exigia cuidados, e os cães eram minha responsabilidade: Joli, o caramelo valente que se tornara figura temida na vizinhança, e Branco, dócil companheiro. Outra tarefa era o abastecimento de água obtida em cacimba do Buraco da Vovó, a quinhentos metros de casa, carregando em latas de vinte litros para encher o “camburão” – tambor metálico de duzentos litros — uma espécie de cisterna improvisada.

Assim se desenhava minha juventude: entre o peso da falta de escolhas, o suor das tarefas domésticas e a lenta construção de um destino que ainda se insinuava sombrio.


Em 1965, aceitei o convite de Raimundo “Pau de Barraca” — sobrinho de minha madrasta — para jogar futebol, e essa decisão alterou o ritmo da minha rotina de desempregado. As peladas aconteciam num campo improvisado, aberto no terreno baldio atrás do nosso sítio. Pela idade e pelo porte físico, destoando dos meninos menores, fui escalado para a posição de goleiro. Não me senti deslocado: no seminário já havia defendido as traves, e ali me saí com firmeza. Ao cair da tarde, quando a turminha se reunia quase diariamente, eu permanecia guardando o gol, como se fosse um posto de honra.

No Morro da Liberdade, os divertimentos eram raros, mas o futebol acontecia com facilidade. Duas equipes se destacavam: o Bangu, organizado por meu xará Roberto, praça do Exército; e o Botafogo, formado por jovens da avenida São Pedro e adjacências. Fui convidado a uma reunião com os botafoguenses, sediados na avenida São Pedro, hoje rua Tobias Barbosa. Compareci com receio, temendo a frustração, mas ao final fui “contratado” para defender o gol da equipe, apesar da minha estatura modesta de 1m64. O prestígio me animava, e não faltava às peladas de domingo, ora no campo do Guanabara, em Santa Luzia, ora no campo do Olaria, no próprio Morro da Liberdade. Esses campos, hoje, já não existem: foram engolidos pelo progresso.

Antes de encerrar a contabilidade da minha jornada esportiva, registro uma partida memorável no campo do Nacional FC, em Adrianópolis. Essa experiência, aparentemente singela, acompanhou-me no futuro, quando frequentei cursos militares no Rio e em Florianópolis. O futebol, mais do que passatempo, foi aprendizado de disciplina, coragem e resiliência — valores que se tornariam parte de minha caminhada.

Para cumprir um dos preceitos de meu padre-protetor, Juarez Maia, apresentei-me ao Serviço Militar. Foi ali que o destino me concedeu mais uma estrela, ao ser selecionado para o NPOR, justamente na fase de reinstalação. O quartel do 27° BC, onde nos instalamos, funcionava de maneira curiosa: instruções apenas nos finais de semana, improvisações que revelavam a precariedade da estrutura.

A inspeção de saúde, por exemplo, ocorreu numa enfermaria acanhada. Éramos cerca de trinta candidatos, perfilados lado a lado, desnudos, enquanto o clínico se valia de embalagens de medicamentos guardadas num armário envidraçado para realizar o exame visual. Chamados em ordem alfabética, eram observados os rótulos expostos. Eu, que não distinguia bem os nomes, memorizei-os e, assim, fui aprovado. Mas a deficiência visual logo se denunciou: no primeiro tiro de fuzil, quase atingi o pé de um graduado. Ainda assim, prossegui no curso, que logo adotou nova metodologia, com instruções diárias.

Morando ainda no distante Morro da Liberdade, precisava madrugar para alcançar o quartel no bairro de São Jorge. O transporte era realizado no caminhão REO do Exército, abarrotado de recrutas. Na condição de aluno do NPOR, eu tinha a primazia de viajar na boleia, sentindo o vento frio da madrugada e a responsabilidade de uma epopeia que começava a moldar meu futuro.

Ainda em 1965, enquanto aguardava o reinício do NPOR, que lentamente se estruturava, abri-me aos convites que surgiam. A vizinha Luzia — irmã de minha madrasta — havia adquirido uma canoa, com motor de centro instalado, que permitia pequenas viagens pelos arredores de Manaus. Assumi a condução do barco e, numa dessas excursões, seguimos até o lago do Puraquequara. Pernoitei ali com as primas — razão imediata de meu entusiasmo pela aventura — mas a noite nos reservou um tormento: os carapanãs, como chamamos na Amazônia os pernilongos, nos açoitaram sem piedade. O resultado foi a malária, que nos abateu a todos. Nem os remédios caseiros, nem as rezas fortes bastaram. A febre alta e os calafrios me levaram ao Posto de Saúde, onde um exame de sangue revelou a gravidade. A cura veio, enfim, pela medicação alopática.

Recuperado, enfrentei nova provação. Ao visitar a BR-174, ainda em construção — rodovia que ligaria Manaus a Rio Branco — fui atraído pelo desejo de ver a sobrinha de minha madrasta, residente no Km 5, próximo ao igarapé do Leão. Mas antes que a enfermidade se revelasse, guardo um episódio curioso do Dia de Finados daquele ano. Levantei-me cedo na casa da prima e caminhei até a Ponte da Bolívia, que distava quinze quilômetros de Manaus, para tomar o ônibus. O feriado, porém, suspendera o coletivo. Após cinco quilômetros de caminhada até a ponte, retomei a estrada e, dez quilômetros adiante, finalmente alcancei um ônibus. Enquanto a família já se encontrava no cemitério São João Batista, reverenciando nossos mortos, eu chegava tarde, cansado, e recebi a reprimenda de meu saudoso pai.

Deduzi que a nova enfermidade resultara da abertura de clareiras na floresta, durante a construção da rodovia. O ambiente despertava enxames de insetos e mosquitos, e um deles me transmitiu a leishmaniose. As úlceras na pele deixaram marcas que ainda hoje recordam o diagnóstico emitido pelo INPA, em implantação, e o tratamento realizado no Hospital da Guarnição de Manaus, onde fui atendido por ser o aluno 111 do NPOR.

 Aluno 111 Roberto, primeiro à esq. , em pé

À medida que o curso se aproximava do fim, os futuros oficiais R/2 buscavam abrigo seguro para o estágio obrigatório. O colega Amílcar Ferreira, vizinho do comandante da Polícia Militar do Amazonas, levou a ideia de servir naquela corporação. Apesar do regime militar instalado em 1964, o quartel da Praça da Polícia enfrentava dificuldades: efetivo reduzido, carências diversas, um ambiente de luta constante. Com os colegas de curso, visitei o quartel da PM e, mesmo diante da atmosfera desanimadora, deixamos nossos nomes numa lista de eventual aproveitamento. O destino, afinal, nos acolheu.

Concluí o curso em março de 1966, conquistando o 9º lugar na Turma Ajuricaba, entre dezessete formandos. A solenidade ocorreu no pátio do quartel, e para a ocasião consegui uma madrinha de formatura — uma “fada”, como se dizia. Não sei ao certo como alcancei tal graça; talvez pelo marido, o major Hércules, um gigante que servia na mesma unidade. A beleza da senhora encantou os formandos, que não cessavam de me interrogar sobre sua origem.

Na formatura do curso, março
de 1966

O baile de formatura, realizado no Ideal Clube, não contou com minha presença. A indigência financeira me impediu de comparecer. Mas, ainda assim, a formatura marcou um capítulo decisivo: encerrava-se uma etapa de aprendizado e disciplina, e abria-se diante de mim o horizonte da vida militar e da própria existência.

domingo, maio 17, 2026

POESIA DOMINICAL (30)

O poema desta postagem, publicado na revista A Selva, veiculada em Manaus na década de 1930, foi composto pelo saudoso jornalista Ramayana de Chevalier (1919–72); trata-se de uma obra rara de sua produção artística.

 


 

Vi milhões de coqueiros!

Cocares verdes de tuxauas

ou sivahs de braços vegetais!... 

Vi rasgões de estradas brancas ou lágrimas deslizantes

de rios colossais

que vieram do olhar enoitecido da Terra!... 

Ouvi gritos de gaivotas! 

Vi sombras ao crepúsculo, de lavradores de bronze,

no socalco das serras! 

Vi gigantes de pedra que representavam na quietude granítica

indolência da gente!

Vi dez corpos,

cem corpos

dez milhões de corpos

morenos como coivaras,

loiros como trechos de sol na vidraça dos rasga-céus,

alvos comretratos de luar

na esclerótica cochilante dos brejos do sertão!

Volúveis na cor

como o pensamento nacional!...

 

Vi vazios de tabuleirosmilionários de sol, a olharem o azul sem nuvens

as gargantas com febre!... 

Vi o olhar longínquo dos zebus

espreitando da alma a tragédia da seca. 

Vi o proletário que cospe todo o dia o amargor desiludido da vida. 

Vi o burguês que fuma charutos enormes

e humilha os humildes para não parecer escravo dos "yankees". 

Vi o caboclo que sonha

O malandro que samba

O negro que soluça no ritmo monotônico de atabaques sem som

que adormecem

de tédio... 

Vi o sangue fervendo, e ancas batendo, e seios de chumbo. Mulher brasileira

Tisnada de luz, vestida de cor,

Jaboticaba, sumo verde, meu amor,

que envenena e delicia...  

Vi a saudade com sono espiando o crepúsculo... 

Vi o orador que nasce em esquina e não sabe o que diz.

Vi o poeta, olhos que escondem mil anos de sentimentalismo, escorado à porta de um restaurante chinês

assoviando a revérie de Schumann... 

Vi um grande, um imenso rosto pálido

de maceração endêmica

trechos verdes de sangue mau

trechos rubros de sangue bom

sorrindo nos olhos tristes

chorando na boca exangue

que chupa cana, come pé de moleque, ginga o corpo no samba

faz versos, faz versos, faz versos,

com uma vontade doida de ser feliz

e faz o sinal da cruz

para ir de noite ao candomblé. 

Vi o Brasil!