FASCÍCULO 17
Cometi de novo um erro grave comigo mesmo ao
transferir o comando da Rádio Patrulha, sem aguardar a definição do
comando-geral. Entreguei ao subcomandante, capitão Eber Bessa, e, depois de me
apresentar ao superior de dia, viajei a Belém, a fim de alcançar meu carro – a Brasília
ZG 9432, com a qual segui rumo ao Sul pela BR 153, conhecida por Belém-Brasília.
Ia acompanhado da prima Rosinha, que aproveitou a carona para reencontrar a
família em Santos-SP. A viagem ocorreu em fevereiro, durante o Carnaval; tanto é
que no dia 28, quarta-feira de Cinzas, ao levar o carro a uma oficina precisei aguardar
a abertura do banco para sacar o dinheiro. Fui o único motorista: dirigi
inicialmente até Anápolis-GO e, então, tomei a direção de São Paulo pela BR 364.
Realizei a navegação com o GPS da época – a revista Quatro Rodas – que mostrava
as rodovias de forma esquemática, sinalizando pontos de interesses e indicando a
quilometragem a percorrer.
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| Deixando o comando |
Enquanto rodava pelo interior, com pouco
movimento nas estradas, tudo seguia às maravilhas; todavia, quando alcancei o
entorno de São Paulo, minhas pernas tremeram. Ao adentrar a capital paulista os
embaraços se ampliaram, mas seguia as placas indicativas para Santos até que, bastou
a inobservância de uma delas, me perdi. Adiante, ao avistar uma patrulha da PMESP,
estacionei o carro no canteiro. Ao policial surpreso expliquei que chegava de
Manaus, bastava que ele conferisse a placa e, ao me identificar, indicou-me o
caminho do litoral. A estrada de Santos eu conhecia bastante, em virtude de tantas
idas e vindas em anos anteriores, assim, prontamente cheguei à residência dos
meus pais e irmãos, e a acolhida foi a costumeira – festiva.
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| Na Belém-Brasília com minha Brasília |
Cometi mais uma imprudência: ao deixar minha
viagem para o Rio, onde frequentaria o curso, na véspera da abertura do ano
escolar. Era um domingo, dia em que a compra de gasolina era suspensa. Sem ter
o que fazer, realizei a viagem economizando combustível ao extremo, porém, estando
na avenida Brasil, percebi a proximidade da pane seco. Então, decidi deixar o
carro em um posto de gasolina sem qualquer garantia e, de taxi cheguei ao
quartel do 2º batalhão, em Botafogo, onde obtive hospedagem. Somente na
segunda-feira à tarde, após as aulas, recuperei o meu veículo; devendo
assinalar que a Brasília estava coberta por seguro total.
Ainda em 1978, um grupo de oficiais orientado
pelos majores Medeiros e Alfaia formou uma Cooperativa para, mediante recursos
do sistema financeiro da habitação, construir residências para os policiais; resultando
no Conjunto Residencial Tiradentes, edificado no bairro do Aleixo, então em
expansão no arrabalde da capital. Foram edificadas casas em amplo terreno, destinadas
em princípio aos oficiais da Polícia Militar, porém, encerrado o interesse
destes, a venda foi aberta ao público. Aproveitei e adquiri uma casa do
empreendimento, a qual recebi ao retornar do curso, no início de 1980.
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| Casa adquirida no Conjunto Tiradentes |
O curso de técnica de ensino destinava-se à
especialização de dirigentes de escolas militares, diria que se assemelhava à graduação
em Pedagogia, todavia, aplicado em período bem restrito, no caso, nove meses,
tanto que utilizei os créditos do curso na Faculdade de Pedagogia da UFAM. A equipe
de docentes possuía mais civis que militares, que ajudava bastante no entendimento,
e cujas aulas – de segunda a quinta-feira – ocupavam a manhã e à tarde, na
sexta, somente aulas matinais. Adaptei-me com facilidade ao currículo, em vista
do amplo material de leitura; existiu, porém, certo embaraço com as disciplinas
de cunho matemático, em especial, a de estatística. Ainda que sem possuir fundo
respaldo nesse campo, dominei a matéria, ao ponto de orientar o colega major
Lyra Bastos, da polícia cearense. As provas eram aplicadas sempre às sextas-feiras,
dessa forma havia tempo para organizar a preparação.
O Centro de Estudos de Pessoal (CEP),
instalado no Forte Duque de Caxias, situava-se na praia do Leme, uma das extremidades
de Copacabana, portanto em excelente localização. As aulas obedeciam aos
parâmetros voltados ao aperfeiçoamento de futuros docentes. As carteiras na
sala de aula estavam dispostas segundo a antiguidade entre os militares, com exceção
de dois estrangeiros – os capitães Ramon Montiel, da Venezuela, e Alfredo
Fiallos, do Equador. O mais antigo na hierarquia ocupava a primeira carteira – o
tenente-coronel Ney Villeroy, descendente do primeiro governador do Amazonas; eu
me encontrava quase no final, ainda com a patente de major, entre os majores Bastos
Pita, da Bahia, e Carlos de Sá, de Pernambuco, e à frente do major EB Meis
Velloso.
Inesquecível foi o mais moderno:
o capitão Cláudio Ferreira, do Rio Grande do Norte, talentoso desenhista, que animou
a turma com as caricaturas expostas dos colegas. Também fui destaque por conta de
um acidente jogando futebol, quando, ao trocar a bola pelo meio fio,
sofri uma luxação no dedão do pé direito. Cláudio identificou-me como o “jacaré de pé engessado”. A educação física era
realizada no campo de futebol, onde joguei inúmeras “peladas”, e me recorda, além
da luxação referida, outra proeza: de óculos, jogava no gol; em certo jogo um
forte atacante, que fora jogador juvenil do Botafogo, desferiu aquele chute,
levantei os braços para defender, mas a bola passou e explodiu na minha testa.
Fui ao chão e os óculos, idem. Acodem os jogadores, porém, nada de grave sucedeu
nem a mim, nem aos óculos. Tão pouco, o gol.
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| Preparação física no estádio. Autor, assinalado |
Naquela ocasião, minhas visitas a Santos tinham
outro propósito e acolhimento: era a residência dos meus pais; fui repetidas
vezes, às vezes usando meu carro, mesmo enfrentando o retorno difícil aos
domingos sem posto de abastecimento aberto. Certa vez, na BR Rio-São Paulo, dei
carona à duas jovens cujo veículo já não dispunha de combustível. Foi-me conveniente,
pois as moças moravam em Botafogo, assim como eu, no quartel do 2º Batalhão, instalado
na rua São Clemente. A estadia naquele
aquartelamento revelou-se providencial, não muito longe do CEP e com acesso a
diversos pontos importantes. O alojamento abrigava vários oficiais de polícia de
diferentes estados; a recepção contribuiu bastante para minhas finanças, já que
havia alimentação disponível além do almoço servido pelo Centro. Na metade daquele
ano soube da mudança de comando no Amazonas: assumiu o tenente-coronel EB
Wilson Raizer, com quem teria um complicado entendimento.
As
dependências do quartel do batalhão, contudo, não exibiam bom trato, assim como
as viaturas; outro descaso evidenciado via-se no aspecto do pessoal, visto os
enormes cabelos e bigodes usados. Ver o comandante chegar ao quartel em carro
particular e sem uniforme, me fez indagar a razão. Era o temor dos bandidos, assim,
circulava disfarçado. E mais receio, os oficiais me instruíam para não visitar a
Baixada Fluminense, onde sempre visitei uma família em Belfort Roxo; nem me identificar
como oficial de polícia. Ao ouvir essa admoestação, um colega cearense,
rangendo os dentes, assegurou: “no Ceará, os bandidos têm medo da polícia”. Outra
revelação de alarme ouvi de um assessor militar da Prefeitura, cuja sede visitei
em frente ao batalhão, em antiga residência consular. Perguntei ao oficial como
a chefia procedia quando o prefeito desejava visitar uma favela, respondeu-me,
sem constrangimento: “faz-se um acerto com o líder comunitário, que, por sua
vez, segura os marginais”. Tal artifício beira os 50 anos. (segue)