FASCÍCULO 5
Ao retornar à casa paterna, percebi minhas
dificuldades de relacionamento com o sexo feminino. Para quem havia passado a
adolescência exclusivamente entre rapazes, faltava-me habilidade para encetar
uma conversa afetiva com as garotas. Todavia, tive um aprendizado célere, muito
por iniciativa delas. Eu tinha consciência de que não tinha muitos predicados,
mas sabia que o respeito que me dedicavam provinha de ser o único adolescente
no nosso bairro com o curso médio completo e, ademais, havia o fato de ter
estudado em colégio de padres, onde o ensino era respeitável. Assim, os
namoricos foram se sucedendo, naquele tempo estimulados pelos recados portados
por amigas ou parentes. Há uma sessão de bons episódios vividos nessa fase da
vida.
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Rua Amazonas, 29 - Morro, casa da família |
Certa ocasião, fui “convidado” para efetuar a
pintura da casa da dona Hilda — uma enfermeira que tinha uma linda filha,
Graça, de 15 anos —, que residia ao lado dos irmãos. Na hora do almoço, sentado
à mesa, ocorreu-me um desacerto com o irmão dela, Marivaldo. Este, em ofensiva
vingativa, atirou-me um carretel de esparadrapo vazio e me provocou um corte no
supercílio. O problema não foi apenas curar o ferimento, mas criar uma
explicação em casa e para a vizinhança.
Em outra oportunidade, aconteceu quando namorava a
jovem Rosendalva do bairro de São Lázaro — muito próximo do Morro da Liberdade
—, e lá meu irmão Antônio também frequentava. O percurso era realizado a pé,
percorrendo uma íngreme ladeira de terra. Certa noite, ao chegar à praça da
Igreja antes dele, percebi alguns jovens se articulando para promover um susto
aos namoradores de fora. Quando meu irmão chegou, alertei-o sobre a minha
suspeita e combinamos caminhar normalmente até a “cabeça” da ladeira. Ao
atingirmos esse ponto, foi uma de “pernas para que te quero”, uma desenfreada
corrida noturna até em casa. — Fácil para quem conhecia o trajeto e todos os
buracos no chão de terra batida, mesmo pouco iluminado.
Narrando mais um fato: a minha primeira namorada chamava-se Glória,
simpática jovem da minha faixa etária. O nosso caso de amor seguia bem até que
levei o primeiro “chifre”, quando a doce amada se interessou pelo vizinho, o
xará Roberto. Quando ele arrumou outra namorada, perdoei a Glória e resolvi
ficar com ela até meu ingresso na Polícia Militar. Nessa época, o chamego
estava restrito a “amassos” prudentes, pelo temor de uma gravidez, pois o uso
da pílula anticoncepcional estava em fase incipiente.
No ano de 1965, partindo do Morro da Liberdade, ia
até o NPOR (27° BC) em condução militar. Havia um certo contratempo em usar um
veículo do Exército, o que me levou a aceitar o convite do cabo Osmar da Silva,
integrante do corpo administrativo do Núcleo militar, para residir em seu
quitinete. Explico a residência: era apenas um quarto de uma estância de
madeira nas proximidades do quartel. Ele era alfaiate e vestia-se bem.
Aproveitando-me da sua cordialidade, passei a usar suas roupas. Não desconfiei
de sua solteirice, até que numa noite, fui convidado a me deitar ao seu lado, e
percebi sua homossexualidade. No dia seguinte, depois do expediente, voltei
para casa. Porém, acabei entendendo sua opção sexual, mas combinei que cada
qual teria sua liberdade, sem laços afetivos. Ali, para mim, era mais prático,
residindo no bairro de São Jorge, próximo ao quartel. Essa proximidade
possibilitou ao colega do NPOR, Osório Fonseca, me dar carona numa sexta-feira
— 3 de junho de 1966 —, com a aprazível notícia de que eu havia sido nomeado
oficial da Polícia Militar. O Diário Oficial do dia anterior havia publicado o decreto
512, nomeando-me ao posto de 2º Tenente da Polícia Militar, assim como a
metade da turma Ajuricaba.
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Ingresso da turma 1966 na PMAM, posando na Praça da Polícia. Autor assinalado. |
Osório orientou-me a comparecer ao quartel da Praça
da Polícia na segunda-feira, dia 6 de junho, indicando o Café do Pina como ponto
de encontro da turma. Confesso que passei o final de semana cheio de dúvidas e
inquietações: seria verdade? Respondi a mim mesmo: se for, está ótimo, estou
ocupado com algo que havia aprendido. Mas, se for um trote, que desventura.
Acreditando na veracidade da informação, no dia marcado, vestido com a
domingueira, após deixar o ônibus, caminhei em direção ao ponto indicado.
Ao cruzar a Praça da Polícia, fui me esgueirando pelas árvores buscando os
companheiros, até que... lá estavam eles. Após reunidos, adentramos no até
então desprezível aquartelamento, de onde eu saí 30 anos depois.
No dia seguinte, visitei a alfaiataria da
corporação para as medidas do fardamento, que logo foi confeccionado em caqui —
uma cor que alcunhávamos de “cor de burro quando foge” — e logo conheci o
quartel do Piquete, na rua Dr. Machado, uma construção centenária. A publicação
do boletim me classificou para a Companhia de Comando e Serviços, ao
lado do tenente Ilmar Faria, sob comando do capitão Pedro Lustosa. Prontamente
reservei uma cama e um armário no alojamento, e dessa maneira abandonei o
muquifo de São Jorge e passei a residir no centro de Manaus.
Experimentei inovações comportamentais, algumas
estranhas para mim, como receber continência de idosos praças, com idade para
ser meu pai, e por todos eles ser tratado por senhor. Afinal, aos 20
anos, eu me constituía em um dos mais jovens policiais, diante da escassa
procura pela polícia “meganha”. Ao final do mês, recebi o primeiro salário — 90
mil cruzeiros —, julguei-me um marajá. No mês seguinte, fui nomeado comandante
do Pelotão de Choque — criado por deliberação interna e logo
desaparecido, o primeiro existente na PM. Estranhei a minha escolha devido à
minha pequena estatura e porte físico franzino — 1,63m e 49kg. Considerava-me
incompatível diante de corpulentos subordinados. No desfile do Dia da Pátria,
assemelhava-me a mascote do pelotão, inclusive portando uma pistola cedida pelo
comandante. O mês de setembro daquele ano me trouxe notícia alvissareira: o
governador Arthur Reis aprovou o código de vencimentos, elevando o soldo da
tropa: passei a receber 300 mil cruzeiros mensais, três vezes mais do que
recebia ao ingressar.
Na condição de comandante do Pelotão de Choque, no
final de setembro fui designado delegado especial da Ilha da Marchantaria
— uma porção de terra que hoje integra o município de Iranduba, defronte a
Manaus, e está sujeita ao alagamento pelo rio Solimões. Recebi a incumbência de
proteger o rebanho bovino do senhor José (Zeca) Nascimento, destinado a
abastecer a cidade. Tornei-me tenente responsável pelo gado que, vindo do
período de estiagem, devastava as roças e os pomares dos moradores. Regressei
da ilha após quinze dias e retomei as atividades da caserna, cujo dia começava
com o desfile matinal na área externa, contornando a praça e passando diante do
Colégio Estadual do Amazonas, no qual havia alunos de ambos os sexos. As alunas
rapidamente notaram a nova leva de oficiais, mas foi na praça Ribeiro Junior,
atrás do quartel, que encontrei a namorada Maria das Graças Souza, que residia
no Edifício Lilac com a mãe Edna e a irmã Mary, o genitor era
comerciante em Porto Velho.
Aquele setembro foi de fato marcante, quando Manaus
recebeu o integrante da Jovem Guarda, Roberto Carlos. Fui escalado para
garantir a condução do cantor pela cidade. A chegada ocorreu no aeroporto de
Ponta Pelada – hoje Base Aérea de Manaus – sob espantoso entusiasmo dos fãs. O
antigo campo de pouso obrigava os passageiros a caminhar até o local de
desembarque. Por isso, aguardei o cantor à porta que, vendo a multidão, me
pediu em rápido diálogo que o protegesse devido à deficiência de seu membro
inferior. Naquela noite, ele cantou no Circo Americano, na Praça 14, e no Cheik
Clube.
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Recorte de folheto comemorativo dos meus 70 anos |
No final do ano, celebrei as principais conquistas:
o ingresso e a moradia no quartel, além do namoro com a jovem Graça Souza. O
ano novo, 1967, já mostrava certo incremento na corporação em razão das ações
do Governo Militar. Em fevereiro, obteve vagas para cursos no Rio de Janeiro;
fui designado para o de manutenção de armamentos, cuja escola funcionava em
Deodoro, subúrbio carioca. Essa opção trouxe à lembrança a minha guia de sorte.
Com a matrícula encaminhada, restou-me apenas arrumar a mala, despedir-me da
família e da namorada, para a minha primeira viagem de avião. Acompanhado do
tenente Odacy Okada, embarquei em 28 de fevereiro — dia da implantação da Zona
Franca de Manaus — no quadrimotor
Douglas DC-4 da VASP, excessivamente ruidoso, mesmo assim, eu seguia radiante
diante das inovações. O voo partiu de Manaus às 8 horas, chegou em Brasília por
volta do meio-dia, almocei e embarquei novamente rumo ao Rio de Janeiro. (segue)