O dia amanheceu como se quisesse conspirar contra o passeio, apesar da confirmação feita na noite anterior com o agente de turismo para nos incluir no rol de passageiros. Por volta das nove, o céu se mostrava desfavorável: nuvens pesadas, cinza espesso, um prenúncio de chuva. E na noite anterior já havia chovido. Meu irmão, atento, enviou-me mensagens acompanhadas de fotos tiradas do seu apartamento, descrevendo o cenário sombrio. Mas eu, fiel ao meu otimismo quase teimoso, respondi com leve ironia: “vamos aguardar pelos deuses do sol...”
E eles vieram. Meia hora depois, o sol pediu licença, abriu a cortina de nuvens e revelou sua face brilhante, como mais uma bênção inesperada. Manaus, ainda em trânsito intenso na Avenida Eduardo, parecia indiferente ao milagre discreto, mesmo diante do Relógio Municipal, monumento neoclássico inaugurado em 1929, cuja frase em latim, escrita em volta dos números — vulnerant omnes, ultima necat — recorda uma metáfora sobre a inexorável passagem do tempo.
Às dez, já estávamos no convés de um barco atracado na “Balsa do Ajato”, atrás do Adolpho Lisboa. O atraso proposital, para aguardar os retardatários — alguns vindos de outros municípios, tal como Parintins —, deu ao momento um sabor de expectativa e interação com os passageiros e o guia turístico. Quase uma hora depois, o barco enfim partiu, levando consigo não apenas turistas, mas também a promessa de um passeio iluminado, como se a própria história da cidade quisesse nos acompanhar.
O guia turístico — que se autodenominava jungle boy — irradiava entusiasmo e preparo ao anunciar a campanha daquela aventura: o encontro das águas, a visita à aldeia dos índios tuyukas, o encontro com o pajé, a apresentação dos rituais de dança, o almoço em restaurante flutuante, a interação com os botos cor-de-rosa, a simulação da pesca do pirarucu, a feira de artesanato e, por fim, a entrada na floresta para contemplar as vitórias-régias. Cada etapa parecia desenhada para nos conduzir a um mergulho na essência amazônica — que se inicia observando no trajeto comunidades ribeirinhas flutuantes e em palafitas —, como se o roteiro fosse também um rito de iniciação.
Segundo ele, tudo se tornara possível e mais aprazível porque o Rio Negro estava “na cheia” — com a cota em 28,5 metros —, permitindo que o barco penetrasse nos igapós, essas florestas inundadas que só revelam sua beleza nesse período de abundância de água. Assim, cumprimos o ritual até alcançar a Reserva do Lago Janauari, onde a maioria dos eventos se desenrolou.
Renato e Alda - Lago do Janauari
Ali nos recebeu a comunidade tuyuka, com sua apresentação cultural de música, danças e ritos. E uma pequena mostra de artesanatos. A hospitalidade era palpável, até mesmo do sorridente pajé, que se dispôs a tirar uma foto comigo e com a Alda. Entre os costumes, surpreendeu-nos uma iguaria feita com grandes formigas torradas — trouxe-me a lembrança viva dos antigos, que conheciam a farofa de tanajuras como sabor de tradição.
Ao regressar da floresta, o percurso quase ritual, passando por dentro do Mercado Adolpho Lisboa, nos conduz a um mergulho na memória da borracha, quando Manaus pulsava como metrópole da selva. O pavilhão Art Nouveau, erguido há mais de um século e meio, não é apenas um espaço de comércio e exposição de artesanatos: é testemunho vivo de uma era em que o esplendor europeu se mesclou com a exuberância amazônica. Como este, a cidade abriga outros monumentos que guardam em suas fachadas a lembrança de um passado grandioso, fazendo de cada esquina um convite à contemplação da história.
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| Renato, o pajé e Alda - Aldeia Tuyuka |








