CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sábado, agosto 29, 2026

VIAGEM NO TEMPO (6)


Seminário São José

  Renato Mendonça        18.07.2026

Na véspera da partida, já estava decidido: parte da viagem seria feita sobre as águas, num camarote de navio — que estranhamente chamam de barco — com destino a Santarém. As passagens estavam compradas, e dali em diante o roteiro se abria ao acaso, como quem confia em Deus para fazer o papel de guia turístico. Mas havia um compromisso firmado desde o início, ainda no Rio: visitar o antigo Seminário São José, na Praça 14 de Janeiro. Um edifício histórico que guardava em suas paredes o eco da minha adolescência, dos doze aos treze anos, quando ali vivi os primeiros anos de Ginásio, sob a sombra do recém-instalado regime militar, após o Golpe de Estado.

Naquela manhã, meu irmão Roberto nos levou a atravessar a Ponte Rio Negro — batizada em homenagem ao jornalista amazonense Phelippe Daou. Com seus quase quatro quilômetros de extensão, dizem ser a maior ponte estaiada do Brasil, ligando Manaus ao município de Iranduba. Do outro lado, Roberto mantém uma pequena propriedade, refúgio contra o tumulto da cidade metropolitana.

Aproveitamos a estada para visitar o mercado municipal, onde a fartura da Amazônia se revela na abundância de peixes, como se fossem cardumes, variedade de cores e nomes: tambaqui, pacu, jaraqui, tucunaré e outros que não consegui memorizar. Cada peixe parecia estar ali para contar a história do rio que o criou, compondo uma pequena amostra, um mosaico da abundância regional.

Pacu, tucunaré, jaraqui - fartura amazônica

Quase ao cair da tarde, contando sempre com a hospitalidade de meu irmão Roberto, enfim se concretizou a visita ao Seminário. A emoção foi imediata: ali estavam, incólumes, os degraus que meus pés de menino haviam subido e descido tantas vezes; o portão de ferro encimado pela mesma imagem de São José, e o conjunto arquitetônico em forma de “U” que guardava tantas memórias. O interior, transformado para abrigar uma universidade de Humanas, já não era o mesmo, mas o espírito ainda permanecia na nossa imaginação.

Portal de entrada - Rua Emilio Moreira, Praça 14

Graças à gentileza dos guardas patrimoniais — que foram sensíveis às nossas ansiedades —, percorremos quase todas as entranhas do prédio. E o reencontro mais pungente foi com a velha jaqueira. Lembro-me de como, nas orações da capela ao lado, seu cheiro de fruta madura invadia o ambiente, e de como, nas noites ousadas, roubávamos uma jaca às escondidas, rendendo reprimendas inevitáveis. Encontrá-la ali, sessenta anos depois, ainda frutificando, foi como rever um amigo fiel, que conserva a mesma fisionomia e continua a oferecer dádivas para satisfazer as lembranças.

Prédio do Seminário Maior em reforma (foto antiga)

Naquele instante, compreendi que viajar não é apenas deslocar-se no espaço físico, é também uma viagem no tempo. Rever a minha Manaus, a família, os lugares e os símbolos da juventude foi como abrir um relicário de memórias, onde cada reminiscência — da ponte ao mercado, do seminário à jaqueira, dos cemitérios aos túmulos, da festa junina — tudo se tornava um testemunho vivo de que o passado nunca se perde: apenas repousa, à espera de ser reencontrado e recontado, quantas vezes for necessário para valorizar a missão humana.

A ponte Rio Negro, erguida em linhas modernas, parecia dialogar com o passado colonial e com o ciclo da borracha, mostrando que o progresso não pode apagar a memória, mas serve para efetivá-la. O mercado, com sua abundância de peixes, mostrava que a fartura da natureza é um convite para uma gratidão a Deus, pelo maná que sustenta diariamente o caboclo e a urbe. O Seminário São José, com seus degraus e portão de ferro, devolveu-me a adolescência por breves momentos que quero eternizar nessa crônica.

E a jaqueira, fiel testemunha de algumas de minhas travessuras juvenis, revelou-se metáfora da própria vida: mesmo após sessenta anos, continua a dar frutos, como quem insiste em provar que o passado não morre, apenas se reinventa — basta ter fé.

Renato, Alda e a eterna jaqueira - memória viva
 Esse reencontro me trouxe a compreensão: viajar é também revisitar a si mesmo. E é muito melhor quando se está bem acompanhado. A Alda foi uma ponte para que eu pudesse me transladar no tempo. A emoção de rever família e lugares não é apenas nostalgia, é uma revelação, como se estivéssemos revendo fotografias antigas. Somos feitos de raízes e de caminhos, de permanências e de partidas. Ao retornar ao Seminário, percebi que o tempo não é um algoz — é um companheiro silencioso, que nos acompanha, nos molda e devolve, em cada reencontro como esse, a consciência de que viver é perpetuar memórias também.


quinta-feira, agosto 27, 2026

ALCEU VALENÇA EM MANAUS - 1976

 Há precisamente 50 anos, foi realizada a estreia do hoje consagrado compositor Alceu Valença, em Manaus. A apresentação teve lugar no palco do Teatro Amazonas, que recebia os artistas contratados para a “Segundinha Cultural”, uma iniciativa da Fundação Cultural. A postagem foi recortada do jornal A Crítica.

  


Manaus, domingo, 29 de agosto de 1976

Ele troca Rolling Stones polo bumba-meu-boi. Nunca ouviu Pink Floyd, porque não tem vitrola e tem “mais em que pensar”. Mas gosta de Núbia Lafayete, que acha uma cantora maravilhosa, Nelson Gonçalves e Ray Charles. Considera a sua música, sanguínea: “O maracatu é demoníaco”. Este é o retrato do cantor e compositor, falado por ele mesmo: Alceu Valença, uma das últimas apresentações da “segundinha cultural”, criada pela Fundação Cultural há cerca de cinco meses com pleno sucesso do público e bilheteria. Valença apresenta-se no dia 30, no Teatro Amazonas, a partir das 21 horas e seu espetáculo já está sendo esperado pelo público amazonense como um dos mais importantes do ano.

O meu trabalho — explica Alceu Valença, tem um clima de brincadeira, de teatro popular nordestino, aquele negócio do “vamos brincar de boi”, uma festa, uma tragédia, como os autos populares que são trágicos e cômicos ao mesmo tempo.

Para este jovem nordestino que a crítica do Sul do país considera a “explosão musical do ano”, principalmente por seu trabalho em “Vou Danado Pra Catende”, a música é alimento, e as pessoas precisam se alimentar do que ele tem a dizer. Mas, o reconhecimento da crítica e o sucesso de público aconteceriam em meio a situações que ajudaram a compor a imagem de Alceu Valença, um artista bom de se ouvir e melhor de se assistir.

Alceu Valença

A princípio, confessa, “eu achava que não tinha talento musical, até o dia em que fui jogado às feras”. Na medida em que eu tinha vergonha de mostrar as minhas músicas é porque não era ainda a minha verdade. A partir do momento em que senti a minha verdade, eu tive que assumir, sem nenhum pudor. Não é conselho, mas, se você me perguntar se é bom, cara, eu diria que as pessoas deveriam entrar de sola nas coisas, mergulhar mesmo.

terça-feira, agosto 25, 2026

VIAGEM NO TEMPO (5)


18.07.2026                                     Renato Mendonça 

 Passeio do índio 

O dia amanheceu como se quisesse conspirar contra o passeio, apesar da confirmação feita na noite anterior com o agente de turismo para nos incluir no rol de passageiros. Por volta das nove, o céu se mostrava desfavorável: nuvens pesadas, cinza espesso, um prenúncio de chuva. E na noite anterior já havia chovido. Meu irmão, atento, enviou-me mensagens acompanhadas de fotos tiradas do seu apartamento, descrevendo o cenário sombrio. Mas eu, fiel ao meu otimismo quase teimoso, respondi com leve ironia: “vamos aguardar pelos deuses do sol...”

E eles vieram. Meia hora depois, o sol pediu licença, abriu a cortina de nuvens e revelou sua face brilhante, como mais uma bênção inesperada. Manaus, ainda em trânsito intenso na Avenida Eduardo, parecia indiferente ao milagre discreto, mesmo diante do Relógio Municipal, monumento neoclássico inaugurado em 1929, cuja frase em latim, escrita em volta dos números — vulnerant omnes, ultima necat — recorda uma metáfora sobre a inexorável passagem do tempo.

Às dez, já estávamos no convés de um barco atracado na “Balsa do Ajato”, atrás do Adolpho Lisboa. O atraso proposital, para aguardar os retardatários — alguns vindos de outros municípios, tal como Parintins —, deu ao momento um sabor de expectativa e interação com os passageiros e o guia turístico. Quase uma hora depois, o barco enfim partiu, levando consigo não apenas turistas, mas também a promessa de um passeio iluminado, como se a própria história da cidade quisesse nos acompanhar.

O guia turístico — que se autodenominava jungle boy — irradiava entusiasmo e preparo ao anunciar a campanha daquela aventura: o encontro das águas, a visita à aldeia dos índios tuyukas, o encontro com o pajé, a apresentação dos rituais de dança, o almoço em restaurante flutuante, a interação com os botos cor-de-rosa, a simulação da pesca do pirarucu, a feira de artesanato e, por fim, a entrada na floresta para contemplar as vitórias-régias. Cada etapa parecia desenhada para nos conduzir a um mergulho na essência amazônica — que se inicia observando no trajeto comunidades ribeirinhas flutuantes e em palafitas —, como se o roteiro fosse também um rito de iniciação.

Segundo ele, tudo se tornara possível e mais aprazível porque o Rio Negro estava “na cheia” — com a cota em 28,5 metros —, permitindo que o barco penetrasse nos igapós, essas florestas inundadas que só revelam sua beleza nesse período de abundância de água. Assim, cumprimos o ritual até alcançar a Reserva do Lago Janauari, onde a maioria dos eventos se desenrolou.

Renato e Alda - Lago do Janauari

Ali nos recebeu a comunidade tuyuka, com sua apresentação cultural de música, danças e ritos. E uma pequena mostra de artesanatos. A hospitalidade era palpável, até mesmo do sorridente pajé, que se dispôs a tirar uma foto comigo e com a Alda. Entre os costumes, surpreendeu-nos uma iguaria feita com grandes formigas torradas — trouxe-me a lembrança viva dos antigos, que conheciam a farofa de tanajuras como sabor de tradição.

Ao regressar da floresta, o percurso quase ritual, passando por dentro do Mercado Adolpho Lisboa, nos conduz a um mergulho na memória da borracha, quando Manaus pulsava como metrópole da selva. O pavilhão Art Nouveau, erguido há mais de um século e meio, não é apenas um espaço de comércio e exposição de artesanatos: é testemunho vivo de uma era em que o esplendor europeu se mesclou com a exuberância amazônica. Como este, a cidade abriga outros monumentos que guardam em suas fachadas a lembrança de um passado grandioso, fazendo de cada esquina um convite à contemplação da história.

Renato, o pajé e Alda - Aldeia Tuyuka