Renato Mendonça
12.08.2026
Doce Regresso
Como quem
caminha sorrateiro, o navio Ana Beatriz deslizava pelo rio com a
discrição e a suavidade de um felino noturno. O murmúrio das conversas no
convés se misturava ao sopro leve das águas sendo cortadas, e o singrar naquele
mar doce parecia quase um segredo compartilhado apenas entre a embarcação e a
fluidez das nossas lembranças da gloriosa semana que ficara para trás.
Da sacada do
camarote, a vista era um adeus emoldurado: a cidade de Manaus se despedia com
suas construções centenárias — a Igreja Matriz erguida, no topo de uma colina,
como testemunha de eventos religiosos memoráveis; o porto Rodoway pulsando de
histórias do primeiro ciclo da borracha, assim como o prédio da Alfândega e o
Mercado Adolpho Lisboa, este que nos acolhera como turistas curiosos em quase
todos os dias. Ao fundo, a silhueta industrial da Refinaria de Manaus, com seus
tanques e torres de refino de petróleo, lembrava que o progresso também se
inscreve na paisagem exuberante.
E então, como
um gesto de despedida dos tempos modernos, a ponte estaiada do Rio Negro se
estendia sobre nós, delicada e firme, como se fosse um arco que abençoava nossa
partida. O próprio rio, caudaloso e majestoso, abria o tapete líquido para a
jornada — o doce regresso.
Logo adiante,
o espetáculo do Encontro das Águas: o Rio Negro, com sua estirpe escura,
caminhava lado a lado com o Solimões, de águas claras e barrentas. Por
quilômetros, ambos seguem juntos sem se misturar, como se fossem amantes que
compartilham o mesmo leito, mas guardam suas diferenças. Uma hora após a
partida, ainda vivíamos essa dualidade cromática refletida no espetacular espelho
líquido — fenômeno que a ciência explica pela incompatibilidade de densidade e
temperatura, mas que a poesia prefere chamar de milagre da natureza.
O Ana
Beatriz seguia como quem se deixa levar pela correnteza, flutuando sobre um
devaneio líquido. O convés era palco de murmúrios, risadas e conversas
calorosas entre os passageiros. Famílias se esgueiravam no afã de conquistarem
um conforto plausível. A brisa do rio trazia o frescor úmido da floresta e do
rio, para deixar a temperatura amena e revigorante. Cada rede armada era uma unidade
de descanso, e o balanço suave do navio embalava os passageiros como se fossem
crianças ninadas pelo próprio Amazonas.
No início da
noite, o navio alcançou Itacoatiara. A troca de passageiros foi rápida,
quase automatizada, como se cada gesto tivesse sido ensaiado. Logo depois, o
céu se abriu em constelações dispersas, estrelas que pareciam dialogar com o
reflexo das águas. O silêncio era apenas interrompido pelo ritmo compassado do
motor, que pulsava como uma respiração profunda de quem sobe uma rampa. O
tempo, ali, parecia suspenso, infinito, e nos mergulhava em sua contemplação.
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| Porto de Itacoatiara, às 19h40 |
Quase ao
romper da aurora, Parintins nos
recebeu como um espetáculo vivo: luzes refletindo sobre as águas, embarcações
atracadas com tripulação a bordo e um frenético movimento de pessoas que
pareciam dar continuidade à festa recente. O porto ainda guardava, como um eco
persistente, as disputas dos bois-bumbás — Caprichoso e Garantido — que
transformaram a cidade em um palco de folclore, paixão e cultura popular. O
navio demorou-se um pouco mais ali, como se quisesse absorver cada detalhe
daquela agitação portuária. Passageiros e mercadorias se misturavam em um fluxo
incessante, mesmo diante do alvorecer de um novo dia, o 3 de julho, que se
anunciava com cores suaves no horizonte.
As horas
seguintes se sucederam em ritmo lento, e o rio era sempre o protagonista: ora
largo como um mar, ora um pouco mais estreito; ora o navio se afastava da
margem, ora se aproximava. Mas era sempre exuberante, nas suas margens se via
aqui e acolá um recanto com suas particularidades. Povoados surgiam à margem,
com casas de madeira flutuantes em sua maioria. O Ana Beatriz, sereno e firme,
era nosso alicerce — guardava cada imagem como memória, cada paisagem como
promessa de lembrança. E assim, o rio, com sua exuberância infinita, nos
conduzia não apenas pelo espaço, mas também pelo tempo, como se cada cenário
fosse uma revelação e um convite à contemplação.
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| Porto de Parintins, às 05h00 |
Antes do
meio-dia, a chegada a Óbidos trouxe uma ruptura na rotina. A fiscalização
portuária na Base Flutuante de Candiru lembrava que o rio também protege
segredos sombrios e luta para combater o tráfico de drogas. Policiais e cães
farejadores investigaram um casal vizinho de nosso camarote, que — talvez por
denúncia recebida — foi convidado a desembarcar e não retornou. A cena foi
rápida, mas deixou no ar a sensação de que a Amazônia também é palco de dramas
invisíveis e precisa estar atenta aos mecanismos usados por traficantes.
E então, após
horas de travessia, Santarém se anunciava com chegada prevista para as oito da
noite. Foi marcada por uma manobra inesperada: o comandante, evitando tarifas
do porto municipal, atracou em local impróprio — imprensada entre outras
embarcações —, sem uma plataforma adequada de acolhimento e trânsito de
passageiros. A espera, longa e tensa — aproximadamente quarenta minutos —, fez
os passageiros com bagagens se alinharem em fila indiana entre os carros,
motocicletas e equipamentos transportados no convés, causando estresse entre os
mais ansiosos.
O primeiro
cenário da cidade não seduzia. Caminhamos por um acesso de terra batida até
encontrar um táxi — na verdade, um carro de aplicativo. O motorista, mais
atento ao jogo da Copa do Mundo da Argentina com Cabo Verde do que ao nosso
interesse, nos levou a um hotel de péssima aparência, sem vagas, numa rua
esquisita. Outro, sugerido por ele, na orla — o Hotel Tapajós —, nos acolheu em
melhor condição.
Dizem que o
encontro com o rio Tapajós é quase uma repetição do encontro das águas do Rio
Negro: águas azul-turquesa se unem às barrentas do Amazonas, criando outro
espetáculo cromático, parecido com o turístico Encontro das Águas de Manaus.
Mas, nem conseguimos admirar esse outro espetáculo da natureza. No entanto, chegar
a Santarém foi o realizar de um sonho longo. Uma viagem idealizada mesmo antes
de saírmos do Rio de Janeiro. O desembarque, numa noite escura, trouxe de volta
o ritmo da terra firme, embora o corpo ainda guardasse o delicioso balanço do
rio.
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Encontro das águas entre os rios Tapajós e Amazonas |
No dia
seguinte, ao caminhar pelas ruas, decidimos desbravar a cidade em sua essência,
deixando que cada quarteirão nos conduzisse até a estação rodoviária. Não era
parte do plano inicial fazer a travessia entre Santarém e Belém por terra, mas
a ausência de embarcações nos próximos três dias nos obrigava a reinventar o
roteiro. Assim, a rodovia Transamazônica surgia como alternativa inesperada e,
após confirmarmos nossa presença na viação Ouro e Prata, a ideia ganhou
contornos de aventura. A partida, marcada para as seis da manhã seguinte,
parecia prometer novas descobertas.
Nesse trânsito
pela cidade, a realidade urbana se impunha diante de nossos olhos. O que já
havíamos testemunhado em Manaus repetia-se ali: sinais claros da falta de zelo
do poder municipal. Calçadas quebradas, ruas sujas, construções improvisadas —
escadas em caracol brotando das calçadas para conferir acesso a cômodos
suspensos — compunham uma paisagem de desordem.
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Em Santarém, escadas nas calçadas (acima e abaixo) |
Era como se a
cidade, em sua luta por espaço e sobrevivência, tivesse criado uma arquitetura
própria, marcada pela improvisação, com a conivência do poder público. Mas,
como contraponto a essa situação caótica, para nossa satisfação, encontramos
outro hotel — o Santorini — com a promessa de um aconchego melhor, mais próximo
da Rodoviária. Ali perto, um restaurante com excelentes pratos típicos e
estrutura de cidade grande, foi outra descoberta prazerosa. A memória dessa viagem, entre Manaus e
Santarém, não é apenas o deslocamento geográfico em cima de uma embarcação,
cortando um mar de água doce — é sensorial, a doce lembrança feita de cores,
sons, ambientes e silêncios que só um passeio memorável pela Amazônia pode nos
oferecer.