CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, novembro 02, 2026

MEUS OITENTANOS (24)


1982 – constituiu o ano eleitoral que prenunciou o fim do regime militar no âmbito estadual. Em outubro daquele ano ocorreu a disputa pelo governo do Estado, em que Gilberto Mestrinho (oposição) saiu vitoriosos sobre Josué Filho, que na época exercia o mandato de deputado estadual. A Polícia Militar, todavia, vivenciou um período marcado por intensas questões políticas – ou, como se dia, de politicagem – um fenômeno que ocorreu em todo o Estado. O primeiro episódio marcante deu-se em maio, quando o governador José Lindoso renunciou ao cargo para disputar uma vaga ao Senado e, consoante a legislação, o vice Paulo Nery assumia a chefia do Executivo. No mês seguinte, Nery destituiu o comandante-geral, coronel Guilherme Vieira, em razão de desavenças administrativas relacionadas a atos do militar; Vieira foi substituído por outro militar EB, tenente-coronel Duailibe Mendonça, que teve a prerrogativa de consolidar a dinastia VO na Polícia Militar estadual. O coronel Guilherme, apesar de ter sido exonerado, manteve a residência na Vila dos Secretários, certa noite, telefonou-me solicitando que eu fosse buscar o coronel Cavalcanti e o acompanhasse até sua casa.

Governador Paulo Nery e coronel Guilherme,
na passagem de comando, no salão de honra da PMAM

Contactei o colega, que rejeitou categoricamente a visita, argumentando que o propósito do ex-comandante era abjeto: vingar-se fisicamente do governador Paulo Nery em razão de sua demissão do comando; em outras palavras, pretendia perpetrar um atentado contra o chefe do Poder Executivo. Cavalcanti ordenou-me: “Vá lá e desconverse”. Fui ao encontro nas últimas horas da noite e conversamos extensamente sobre o atentado que ele pretendia cometer. Eu, por minha vez, me sentia inquieto diante das sinistras implicações, em especial pelas minhas restrições legais. Em dado momento, propus-lhe que ele se candidatasse a deputado estadual, explicando que, no Legislativo, poderia aplacar aquela humilhação. Ao despedir-me daquele “inferno” e me afastar daquela insanidade, nunca mais ouvi falar daquele desequilibrado. 

Essa alteração na caserna desencadeou uma politicagem desenfreada; foi então que a “chapa esquentou”. Dualibe assumiu o comando com a promessa de pelejar – e, de fato, pelejou, pela vitória da situação (Arena), com a eleição do deputado estadual Josué Filho (1946-). Após essa proclamação, os quartéis da Força se inflamaram, sendo o comandante do Corpo de Bombeiros (então subordinado à PMAM) o principal opositor do “duailibe”. Tratava-se do tenente-coronel Cavalcanti Campos, mobilizou e liderou enorme adesão de oficiais e praças. Dessa forma, engajei-me na refrega opositora – ao lado de outros – em favor de Gilberto Mestrinho (MDB).

Os dois últimos oficiais EB comandantes da PMAM


Eu era o subcomandante dos Bombeiros, ou seja, o imediato de Cavalcanti; por determinação judicial, devia manter conduta irrepreensível, ou seja, comportar-me com cautela – no linguajar policial, “pianinho”. Como não se engajar na vida política de uma cidade tão politizada quanto as do Amazonas, que ansiava mudança? Para complicar, embora Gilberto Mestrinho (GM), antes governador e cassado, monopolizava o apoio popular, a disputa contra as forças governamentais em geral foi árdua. O quartel dos “homens do fogo” acabou virando um comitê eleitoral: sob o pretexto de orientar os subordinados sobre o voto, indicava-se o nome do candidato Mestrinho.

Almoçando no restaurante China,
que existiu na av. Getúlio Vargas,
em 5 setembro 1982

A progressão desse engajamento levou à direção a agendar uma reunião com nosso (!) candidato. Logo foi colocada à disposição a residência do Luiz Costa, o mais conhecido “lugar tenente” de GM, situada à rua Saldanha Marinho. Era noite quando as dependências foram tomadas, embora muitos simpatizantes continuassem do lado de fora. O candidato me convenceu de que venceria e reconheceu nossa atuação, assegurando que nos levaria ao paraíso, isto é, ao Palácio Rio Negro. Essa reunião motivou a abertura de um IPM, cujo presidente, coronel Câmara, era nosso admirador. Terminou em pizza! Quanto a mim, escapei por pouco da primeira encrenca, relativa à primeira desobediência ao juiz Bessa. (segue)

domingo, novembro 01, 2026

DIA DA DEMOCRACIA - 25 DE OUTUBRO


Renato Mendonça
25.10.2026


Às vezes a História parece gostar de pequenos gestos simbólicos que a “folhinha” nos oferece. Desses que passam despercebidos para muitos, mas que, quando notados, iluminam o sentido de uma época.

Você já se deu conta de que uma das datas mais decisivas deste século para a escolha dos rumos políticos do Brasil coincidiu exatamente com o Dia da Democracia?

Não se trata apenas de uma coincidência de calendário. Certas datas carregam memórias que atravessam gerações e resistem ao desgaste do tempo. O dia 25 de outubro passa a ser uma delas.

Foi nesta data, há 51 anos, que o regime militar produziu uma de suas mais perversas encenações. Nas dependências do DOI-CODI, em São Paulo, tentou-se transformar em suicídio aquilo que era, na verdade, o assassinato do jornalista Vladimir Herzog.

A mentira oficial, porém, encontrou um país que começava a despertar. A indignação rompeu o silêncio imposto pelos quartéis. Dias depois, a Catedral da Sé tornou-se abrigo da consciência nacional. Ali, diante de uma multidão estimada em oito mil pessoas, o arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o pastor James Wright celebraram um ato ecumênico que unia as fronteiras dos credos religiosos. Era a própria dignidade humana reunida contra a violência do Estado.

A morte de Herzog ecoou muito além das redações. Alcançou estudantes, artistas, intelectuais, trabalhadores e cidadãos comuns. Transformou-se num divisor de águas. A partir daquele momento, a sociedade civil começou a reencontrar sua voz e a democracia, ainda distante, voltou a ser imaginada como possibilidade concreta.

Herzog deixou de ser apenas um jornalista e professor. Tornou-se símbolo, ícone. Seu nome passou a representar a resistência diante do autoritarismo e a defesa inegociável dos direitos humanos.

Cinco décadas depois, a História resolveu aproximar novamente os seus polos — mais de sessenta e quatro milhões de eleitores resolveram reconectar-se com a democracia. No mesmo dia em que a memória de Herzog renovava sua presença entre nós, os brasileiros foram chamados às urnas para decidir o futuro do país. Como se o passado murmurasse discretamente ao ouvido do presente, lembrando que a democracia jamais é uma conquista definitiva. Ela exige vigilância, participação e, sobretudo, preservação da memória.

Talvez por isso sejam tão comoventes as cenas vistas durante aquele processo eleitoral. A histórica mobilização dos estudantes de Niterói, convocando a sociedade à participação democrática; os idosos enfrentando limitações físicas; pessoas com doenças crônicas deixando o conforto e a segurança de suas casas para exercer o direito ao voto — um esforço humano de todos. Nas redes sociais multiplicavam-se imagens de esforço, esperança e compromisso cívico — comovente, extremamente comovente — que sensibilizaram o mundo.

Cada uma dessas pessoas carregava uma pequena chama. Isolados, pareciam gestos simples — palitos de fósforos acesos. Juntas, formavam a luz necessária para iluminar uma escolha coletiva.

A democracia vive justamente desses movimentos quase anônimos. Não apenas dos grandes discursos, dos líderes ou das instituições, mas também da disposição silenciosa de cidadãos que compreendem o valor de uma urna, de uma escolha e de uma responsabilidade compartilhada.

Por isso, recordar Vladimir Herzog é mais do que prestar homenagem a uma vítima da ditadura. É recordar o preço da liberdade. É reconhecer quantos foram perseguidos — tantos pagaram com a vida — para que hoje possamos divergir sem medo, votar sem tutela e sonhar sem censura.

Entre a tragédia de 1975 e a esperança renovada nas urnas, o dia 25 de outubro permanece como um lembrete poderoso: a democracia não nasce do acaso. Ela é construída todos os dias pela coragem de quem resiste ao autoritarismo e pela consciência de quem se recusa a esquecer.

Salve o Dia da Democracia!

POESIA DOMINICAL (25)

A arte deste domingo é de autoria do saudodo José das Graças Barros de Carvalho (foto) -  que foi advogado, poeta, jornalista, procurador do Estado do Amazonas até 1998; professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal e membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA). Nascido em Manaus, aqui faleceu em novembro de 2020, vítima da Covid-19. 


 

Circulado no Jornal do Commercio, 08 março 1970

 

Banana não ne [é] mercado de prata

assim como o mar não é de ferro.

É triste a chuva de papel sem pauta

que molha o povo brasileiro.

O papel em que escrevo o futuro

esteve dormindo na floresta.

Mas o povo não se cansa de amar

a vida de vidro que vive sorrindo.

O jornalista trouxe do Palácio a notícia

que o operário mordeu na face do domingo.

No Parlamento brasileiro não há pássaros

ensinando os congressistas.

O estudante vinha sobre o rio Negro

quando a tarde se despiu sobre a cidade;

não houve nenhuma flor capaz de transformar

em jardim a sujeira da Praia do Mercado.

Nasceram angústias na filosofia de Copacabana

em noites cariocas que inflamaram a Noção.

Esta é uma lição tirada da pedra

de João Cabral de Mello Neto