O tema - Cometa Halley - que prometia fazer uma passagem de primeira pelos céus, fez tantos programar, adotar seu nome para algum empreendimento, quiçá, nome de algum terráqueo, resultou em fiasco. O poema de Ulysses Bittencourt (1916-93) expressa a desventura. A postagem foi extraída da coluna do Clube da Madrugada inserida em A Crítica, 05 maio 1968.
Distante e solitário em seu passeio universal,
O cometa de Halley mata o tédio
Sonhando em descansar um dia, como se possível fosse.
E viajando se distrai na escolha do local
Melhor para a hipótese.
Tem-se detido mais em nosso flutuante
Planeta,
Passando menos veloz; assesta seu olhar percepção
E dentre mares profundos, regiões saturadas de gente,
Vastos gelos eternos,
Vê do alto um grande trecho uno, igual e ameno
Talvez laje de jade verde estriado de amarelo e marrom,
Nem mais nem menos antigo reino mítico
Das Amazonas guerreiras, onde agora pessoas morenas
Vivem, pensam, convivem e tem direito a um fim,
que acabar também faz parte, acha o Cometa cansado.
Nem aos escritores Carlos Araújo Lima
E Affonso Romano de Sant'Anna
Nas alturas de Nova Friburgo permitiu ser apresentado;
Só uma fumacinha. Nem mesmo à querida amiga
Elza Assis Bastos, que o viu bem de perto
Em 1910, no Rio de Janeiro, deixou-se ver senão
Em pequena nuvem, embora continue ela com boa vista.
Na anterior passagem, o Cometa luminoso apavorou os
Terráqueos, passando longe, após duas guerras de extermínio.
Mesmo assim atravessaram-no, pela cauda, com um artefato
Intrigado, prossegue em sua rota celeste,
Sem entender porque no meio de tanta vantagem divina
Homens disputem, se matem, firam, roubem, tenham medo,
Sem captar, da vida a força
O tempo breve e o sentido,
Nem o valor do privilégio.



