Enquanto a névoa
cinzenta cobre a verdejante Amazônia, erguem-se perguntas inevitáveis: quem se
beneficia quando a floresta arde? Quais os ramos empresariais podem se
locupletar com essa ação? Os focos de calor vêm sendo monitorados por órgãos
federais desde os primeiros meses do ano. A devastação acumulou milhões de
hectares consumidos pelo fogo, mas a intensificação repentina — após o primeiro
turno das eleições — das queimadas transformou a tragédia ambiental em algo
maior que um desastre ecológico. Como toda grande fogueira, essa também projeta
sombras políticas.
Não é a floresta que
decide incendiar-se. Não são os rios que escolhem evaporar sob o calor das
chamas. O fogo tem mãos criminosas. Possui combustível econômico e, muitas
vezes, motivação ideológica. Por trás de cada coluna de fumaça há interesses
que raramente aparecem nas fotografias aéreas divulgadas nos telejornais.
A floresta tornou-se, há
décadas, um território onde se confrontam duas visões de mundo. De um lado, a
compreensão de que a Amazônia constitui um patrimônio estratégico, ecológico e
humano. De outro lado, a lógica predatória que enxerga árvores como obstáculos,
rios como entraves burocráticos e a própria natureza como uma mercadoria
provisória à espera de conversão em lucro. Isso já foi objeto no governo
passado — vamos passar a boiada!
Nessa lógica, o fogo
funciona como um corretor imobiliário primitivo. As chamas abrem caminho para a
expansão de pastagens, valorizam terras apropriadas ilegalmente e preparam o
terreno para atividades que prosperam na ausência do Estado. Onde a floresta
desaparece, frequentemente surgem cercas e gados. Onde surgem cercas, aparecem
títulos agrários, e ali alguém lucra. A Amazônia possui uma estranha capacidade
de revelar o caráter dos homens e das ideologias. Alguns enxergam um organismo
vivo e complexo, um pulmão do universo, que integra a soberania nacional;
outros contemplam apenas como um balanço patrimonial ainda não explorado. E há
um oportunista candidato à presidência que enxerga como uma matéria mercantil.
A memória da Amazônia
também guarda cicatrizes. Em 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, o país
assistiu ao chamado Dia do Fogo, quando propriedades rurais no Pará foram
associadas a uma mobilização coordenada de queimadas que chocou o mundo. Mais
do que um episódio criminal, aquele acontecimento revelou algo perturbador: a
floresta não queima apenas pela ação do fogo, mas também pela combustão das
ideias. Antes das chamas, costumam haver discursos que relativizam a
destruição, enfraquecem a fiscalização e transformam criminosos ambientais em
supostos pioneiros do progresso. O fogo raramente nasce sozinho; ele costuma
ser precedido por uma atmosfera de permissividade ou favorecimento.
Também não pode ser
ignorada a dimensão política da fumaça. Em tempos de polarização
extrema, a tragédia converte-se rapidamente em instrumento de disputa. Imagens
de destruição circulam pelas redes sociais como munição eleitoral. A dor
coletiva transforma-se em propaganda política. A floresta queima e,
simultaneamente, alimenta máquinas de engajamento — vemos em muitas redes
bolsonaristas.
Contudo, reduzir o
fenômeno a uma simples conspiração política seria insuficiente. O dinheiro
continua sendo um combustível mais estável que qualquer ideologia. Em muitas
situações, a ambição fala mais alto que a militância. O lucro imediato continua
sendo o idioma preferencial daqueles que enxergam a floresta como mercadoria
descartável. Mas os números das multas, os embargos e as prisões revelam apenas
uma parte dessa tragédia. Existe uma contabilidade invisível que jamais aparece
nos relatórios oficiais. Ela está nos pulmões das crianças, nos idosos que
passam noites inteiras sem conseguir respirar, nos trabalhadores que atravessam
a cidade sob um céu que parece permanentemente um entardecer.
Dias atrás, minha irmã
Sônia, moradora do bairro dos Educandos em Manaus, relatou dificuldades
respiratórias provocadas pela fumaça que dominava a cidade. Naquele instante, a
discussão deixou de ser estatística. Tornou-se sanitária: busquei a reflexão.
Toda nuvem de cinza possui rostos escondidos em seu interior. Talvez aí resida
a dimensão mais perversa desse drama. Os que provocam ou estimulam a destruição
respiram raramente o ar das vítimas — estão morando em outros centros ou outros
países. As consequências distribuem-se socialmente de maneira desigual. O lucro
concentra-se com os endinheirados; o sofrimento, não — fica todo para o
proletariado.
Ao observar a Amazônia
coberta por uma densa fumaça, torna-se impossível não perceber a ironia
histórica. Os autoproclamados defensores da pátria — aqueles que militam no
conservadorismo de direita e querem o poder — frequentemente demonstram
disposição para vender justamente aquilo que torna o país singular diante do
mundo. A floresta converte-se em moeda. A soberania transforma-se em slogan
falso. O patriotismo, apenas em estratégia de marketing.
A fumaça que hoje cobre
o Norte não é apenas resultado da combustão da madeira. É também a fumaça
produzida pela ganância, pela irresponsabilidade e pelo fanatismo político. Ela
sobe das árvores queimadas, mas nasce muito antes delas: nasce quando o lucro
vale mais que a vida, quando a ambição vale mais que o futuro e quando o poder
vale mais que o próprio país.
A tragédia contemporânea
possui ainda outra camada. Enquanto brigadistas combatem incêndios na floresta,
exércitos digitais se aproveitam para fomentar a guerra nas redes sociais.
Fotografias de Manaus sob a fumaça e imagens da devastação passaram a circular
massivamente como instrumentos de ataque político. É irrelevante a complexidade
do fenômeno ou a multiplicidade de fatores envolvidos; a dor coletiva é
convertida em material de propaganda. A fumaça torna-se argumento, a destruição
transforma-se em conteúdo e o sofrimento da população converte-se em
combustível para a polarização.
Nesse cenário, alguns
grupos vinculados ao bolsonarismo procuram atribuir ao governo atual a
responsabilidade pelas queimadas, ignorando tanto as investigações em curso
quanto os interesses econômicos historicamente associados ao avanço da
destruição ambiental. A floresta arde no mundo real, mas também nas trincheiras
virtuais, onde a verdade é frequentemente a primeira vítima.
A cinza que cai sobre a
Amazônia não é apenas resíduo vegetal. É o pó de uma consciência nacional que,
agremiações políticas — factualmente, grupos ligados ao bolsonarismo —, parecem
ter decidido incendiar o amanhã para lucrar no presente.