CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quarta-feira, setembro 23, 2026

SEMANA DO TRÂNSITO - 1976

 O Departamento Estadual de Trânsito (DETRAN), há exatamente 50 anos, estava sob a direção do bacharel José Ribamar Afonso, carinhosamente alcunhado de "Delegado do Diabo". E, para festejar a Semana do Trânsito, fez a apresentação de semáforo sui generis, tido como invenção em nível mundial. Conheci esta novidade que, não teve a repercussão prevista pelo diretor do Detran. Valeu a intenção, consoante a notícia do Jornal do Commércio.


Recorte do Jornal do Commercio, 18 setembro 1976,
(acima & abaixo)

Um gigantesco semáforo com trinta e três focos de luz está chamando a atenção de motoristas e pedestres que passam pelo cruzamento das avenidas 7 de Setembro e Getúlio Vargas. Com um pisca-pisca constante de focos verdes e vermelhos, o grande sinal, inventado pelo sr. Faiez Isaac Sahdo, ainda não tem similar no mundo e aqui em Manaus, segundo anunciou o bacharel José Ribamar Afonso, outros cruzamentos importantes da capital amazonense receberão os gigantescos sinais, que segundo o titular do DETRAN, “vai servir para diminuir em muito os acidentes de trânsito em nossa capital'”.

CRONOMETRADO

Para a grande massa, aquele sinal com dezenas de focos verdes e amarelos, nada tem de especial, mas na verdade ele é perfeitamente sincronizado a um relógio, com cada foco apagando e acendendo exatamente em oito segundos. As explicações foram fornecidas ao Jornal do Comercio, pelo seu inventor, Faiez Sahdo, a quem o bacharel José Ribamar Afonso, “chama carinhosamente de professor Pardal" do DETRAN.

“O tempo do semáforo, explicou o “professor Pardal”, é de 40 segundos e cada foco acende e apaga em oito segundos, mantendo por isso mesmo um grande controle dos motoristas e pedestres que atravessarem aquele cruzamento”. Dessa forma, continuou — “quando o motorista ver que só existem dois focos verdes acessos, automaticamente ele vê se tem ou não condições de realizar o cruzamento, sabendo que faltam apenas 16 segundos para o sinal vermelho. Dessa mesma forma, o pedestre procede, passando a atravessar o cruzamento com maior tranquilidade, isso, “quando os oito focos vermelhos, no caso, estiverem acesos, brecando a passagem dos veículos".

PIONEIRO NO MUNDO

O novo semáforo de Manaus, instalado no cruzamento das avenidas 7 de Setembro com Getúlio Vargas, inventado pelo amazonense Faiez Isaac Sahdo, é pioneiro no mundo, uma vez que não se conhece em outro ponto qualquer do globo, sinal semelhante ao instalado recentemente em nossa capital.

Como o sistema aprovou à primeira vista, o titular do DETRAN, José Ribamar Afonso, anunciou que outros desses semáforos serão instalados nos cruzamentos de maior fluxo de trânsito na cidade, sendo o próximo no cruzamento das avenidas 7 de Setembro com Eduardo Ribeiro. “Nos pontos onde o movimento de veículos e pedestres for considerado pequeno, nós vamos manter os semáforos convencionais — disse o sr. Ribamar Afonso —, demonstrando muito entusiasmo pelo novo sinaleiro lançado no mundo, acontecido em nossa capital. 

segunda-feira, setembro 21, 2026

MEUS OITENTANOS (18)

 FASCÍCULO 18

Em agosto, durante a pausa escolar aproveitei para visitar Curitiba, onde se encontrava minha companheira; entretanto, meu plano era chegar de automóvel em Puerto Stroessner, hoje Ciudad del Este, para o que convidei ao colega equatoriano Fiallos. No caminho, ao passar por São José dos Campos, parei para abraçar meu irmão Renato que, de forma gentil, permaneceu com meu carro, enquanto eu trocava de veículo com ele. Ao deixar Curitiba, CVC se engajou ao grupo, e assim seguimos para Foz do Iguaçu. Ali, ao organizar a visita à cidade paraguaia, fui alertado sobre alguns possíveis contratempos no outro lado: o carro não estava em meu nome; algum nativo poderia encenar um atropelamento, ocasionando um enorme dissabor. Diante dos riscos, aboli a ideia do Paraguai, mas meu colega optou por tomar um ônibus e partiu. Com a amada, dirigi-me para Floripa, pernoitando em Curitibanos e outros locais aconchegantes. No retorno, a CVC desembarcou em Curitiba, e retomei a viagem, parando em São José dos Campos; como não mais possuía disposição para dirigir, deixei meu carro com o Renato, e embarquei em ônibus interurbano para o Rio.

Alunos em sala de aula

No feriado da Proclamação da República, viajei para Porto Alegre, onde fui acolhido pelos amazonenses, alunos do curso de formação de oficiais. Foi minha primeira visita ao estado do Sul; além dos conterrâneos que me mostraram a cidade, recebi a hospitalidade da família do Dario e esposa, casal gaúcho que administrou o Armazém Reembolsável (uma espécie de supermercado) na PM, em Manaus. O casal me levou a Gramado e locais turísticos próximos; ao passar pela fazenda deles, refestelei-me com um café colonial – típico da região. Já os alunos me conduziram a uma churrascaria perto da escola militar e logo me advertiram sobre os petiscos de entrada: “Esqueça a sopa, vamos direto à carne!” Somente no avião de retorno, lembrei das apostilas para estudar, mas, quem disse? Por essa razão, não obtive pontos suficientes nas provas finais para uma melhor colocação.  

Dia da formatura

O encerramento do curso ocorreu em 23 de novembro e, dia 30, a formatura com a entrega dos certificados – o prejuízo causado pela viagem a Porto Alegre me deixou com a menção “Bem”, nota acima de oito. Não mais o último! Para mais contentamento, recebi a visita da Maria Olinda – amizade manauara, que seguiu comigo para Santos, onde ocorreu o desfecho da festa e do ano. Ao passar por São Paulo, visitei Campos do Jordão, onde adquiri uma muda de pinheiro de Natal, e gracejei com a vendedora: “em Manaus, vou plantar o pinheiro em um freezer”. Plantei-o na residência do Morro, onde floresceu bastante, mas foi extirpado pelo novo morador.

Certificado de conclusão

O mês de dezembro foi dedicado ao relaxamento; afinal cheguei a Santos, onde com a família festejamos de forma contida o Natal, porque as bagagens já estavam sendo acomodadas para o retorno a Manaus. Usei meu carro – a Brasília dourada – até onde pude; como ela estivesse coberta por seguro total, cheguei a desejar que fosse furtada para receber a indenização; por isso, em qualquer lugar que frequentava costumava deixa-la destravada. Todavia, nada aconteceu. Restou-me, ao concluir o curso, me desfazer da minha Brasília dourada, e assim fiz com o primo Francisco “Cote”. Com os recursos obtidos, comprei um Chevrolet Chevette azul, seminovo, com o qual retornei para Manaus, passando por Cuiabá, pela BR 319, aberta em 1976. Após celebrarmos o Natal de 1979, ao lado dos irmãos Luiz e Jorge, que me auxiliaram durante a viagem como motoristas e mecânicos, partimos rumo à capital amazonense.

O trajeto planejado era alcançar Cuiabá pela BR 364 e, no prosseguimento, chegar a Porto Velho, e da capital de Porto Velho para Manaus pela BR 319. A primeira etapa saiu maravilhosa pois, rodando à noite, assistimos o céu iluminado por estrelas, espetáculo quase inédito para mim; foi uma dádiva da natureza. Em Cuiabá, aproveitei para abraçar o major Benedito Ferreira, colega do CTE, que me orientou na cidade; no entanto, fui informado que, sem asfaltamento, a rodovia em direção ao Norte não era recomendável para automóveis pequenos, o meu Chevette. A solução foi entregar o transporte a um caminhão comum o veículo totalmente repleto de tralhas, as minhas escolares e as ferramentas dos manos, além de alguns objetos da mudança. Foi um “seja o que Deus quiser!” Feito isso, tomamos o avião e desembarcamos em Porto Velho, onde busquei o “primeiro sogro” para mais uma vez me apoiar, e recomendar a recepção do carro em viagem. E veio a derradeira etapa para alcançar a capital do Amazonas: era véspera de Ano Novo, na rodoviária comprei três passagens, e logo o funcionário me orientou: somente há dois lugares, mas vocês fazem um rodízio. A saída do ônibus ocorreu no começo da noite; no interior do veículo, para nossa surpresa, deparamos com a fila de viajantes de pé, os “sem lugares”.

Seguimos, pois não havia alternativa; a viagem transformou-se numa celebração, havia uma conversa espontânea entre os passageiros, que cediam os assentos e compartilhavam parte das marmitas com merenda; além disso, a paisagem da estrada permitia ocasionalmente avistar um animal silvestre atravessando a pista. Ninguém dormiu, porque, para atravessar cada ponte, era preciso que todos saíssem do ônibus. No início da manhã, o ônibus parou à margem do rio Solimões, no Careiro da Várzea, aguardando que a balsa se posicionasse para atravessar o rio e, contornando o Encontro das Águas, alcançar o porto da Ceasa. Em seguida, voltamos ao veículo e, finalmente, chegamos à Rodoviária de Manaus. Desse modo, parte da família fez o caminho de volta, por decisão imposta do velho Manuel. O restante da família chegou de avião e ocupamos a casa do Conjunto Tiradentes – rua das Orquídeas, 31, recebida por procuração. Foi assim que – aos 34 anos – adentrei o ano de 1980.


domingo, setembro 20, 2026

POEMA DOMINICAL (67)

A postagem reproduz o poema de Elson Farias, circulado no Jornal do Commercio, de 12 de setembro de 1976, há exatamente 50 anos.

Recorte da coluna do Jornal do Comercio,
12 setembro 1976

    

Canta o verso e sua música

como o remador do rio.

não importa que esse canto

venha quente ou venha frio

 

o que importa é que haja estrela

e haja fogo no pavio

da lamparina na trempe

dando luz à cumieira

 

e as marrecas se anunciam

voltando para os poleiros

lá onde os olhos não chegam

quer sejam de bons mateiros

 

tal e qual um vagalume

nas moitas da ribanceira

quando cai a noite nova

sem a lua e sua estrela

 

e a safra do rio se faça

de modo menos vasqueira

como a luz da lamparina

dando luz à cumieira

 

e os carapanãs se escondam

com medo da luz do dia

que se faz por trás da faixa

da mata, como fatia.

 

sábado, setembro 19, 2026

CORTINA DE FUMAÇA

 

Renato Mendonça 

17.09.2026

Sob a expectativa de encontro de togas e o brilho sereno da instituição, o Supremo Tribunal Federal abriu suas portas nesta semana para uma reunião que mais parecia um ritual inquisitório do que um julgamento justo e honesto. No centro da cena, o ministro Alexandre, alvo de acusações inesperadas e não comprovadas vindas de seu colega André — relator do caso do Banco Master. A denúncia, supostamente carregada de gravidade, foi gerada por vazamentos seletivos de dados obtidos pela Polícia Federal, após a quebra do sigilo do celular do banqueiro Vorcaro — preso na penitenciária da Papuda, em Brasília.

O plenário, espaço que deveria ser de serenidade e equilíbrio, transformou-se em fogueira. As palavras lançadas ardiam como fagulhas, incendiando suspeitas e revelações. Descobriu-se que os vazamentos incriminavam apenas uma figura, enquanto todo o conteúdo do aparelho já havia sido franqueado a todos os ministros dias depois da acusação. O silêncio entre uma fala e outra pesava mais do que os votos e esclarecimentos proferidos.

E então, como em tragédia anunciada, emergiu o desassossego: alguns magistrados apareciam ligados, direta ou indiretamente, ao dinheiro espúrio do banqueiro. Dinheiro que não tinha origem honesta, mas surgiu de transações fraudulentas e do desvio de mais de três bilhões de reais do Rioprevidência — fundo que guarda o futuro de mais de duzentos e trinta mil servidores do estado do Rio de Janeiro. Ao escândalo financeiro somava-se o político: o governador, envolvido até o pescoço, cedeu à pressão de seus aliados e pediu exoneração do cargo para buscar refúgio na imunidade parlamentar — queria candidatar-se a senador da República —, mas foi barrado pela Justiça Eleitoral.

No calor das discussões, cada ministro parecia jogar mais lenha na fogueira. O acusador, André, saiu muito chamuscado: sua tentativa de erguer cortina de fumaça revelou afinidades com o banqueiro e pagamentos recebidos que o incriminavam; ficou evidente também que ele se aproximava de interesses eleitorais — e tinha sua preferência. A estratégia era clara: tumultuar o processo até o primeiro turno, em benefício de um candidato da direita. Ficou explícito. Mais constrangedor, porém, foi vê-lo pedir desculpas ao Procurador-Geral — igualmente acusado e presente na reunião — para negar as próprias acusações e confessar que eram falsas. O decano Gilmar, indignado, não poupou palavras: classificou o ministro acusador com um adjetivo infame: “Pixuleco”.

A declaração expôs o vazio do debate. A fogueira de acusações não iluminava nada além da própria fumaça. Como resumiu o ministro Dino, com ironia certeira: “Estamos julgando o nada!” 

Essa declaração mostrou que o debate e a discussão não serviriam para coisa nenhuma, pois não havia crime algum, como bem resumiu o ministro Dino: estamos julgando o nada!

É triste constatar. A balança da Justiça, que deveria pairar imóvel e serena, oscilava como pêndulo nervoso, inclinando-se ora ao peso da política, ora ao sopro da ideologia. O Estado, laico por definição, viu-se contaminado por paixões partidárias e, por conseguinte, suscitou a elaboração de editoriais dos jornais — representantes da elite conservadora — inflamados que, nos dias seguintes, clamavam por julgamento a qualquer custo do ministro acusado.

E assim, entre votos e contravotos, entre sombras e revelações, resta ao povo a tarefa de discernir e escolher — não apenas os futuros eleitos, mas o próprio destino da democracia, que atravessa um período turbulento.

É preciso olhar além dos discursos inflamados e das manchetes tendenciosas dos jornais e da mídia falada. Ler a biografia dos candidatos, perscrutar suas relações, perceber as afinidades que os ligam ao poder e intuir quem, de fato, pode estar ao lado do povo. A democracia não se sustenta apenas nos tribunais ou nos palácios: ela se constrói no olhar atento de cada cidadão, na consciência crítica que não se deixa seduzir por cortinas de fumaça.

O voto, nesse contexto, é mais que um gesto cívico. É um ato de resistência, uma tentativa de reconstruir novamente a confiança abalada entre instituições e sociedade. É a chama, iluminada pelo caminho do discernimento, em meio às trevas da desinformação e da manipulação. Que cada escolha seja feita com a serenidade de quem sabe que, ao depositar sua confiança na urna, está também depositando esperança no futuro. Pois, repito, não elegemos apenas governantes: elegemos o rumo da própria democracia.

Bom voto a todos, boas escolhas!