A crônica cabe a um colaborar de porte,
Renato Mendonça, aqui e ali presente no Blog. Dessa vez se valeu do desfile da
Escola de Samba Acadêmicos de Niterói (15 fevereiro), onde ele reside, que celebrou
a apoteose de um retirante nordestino. No caso: “Do alto do Mulungu surge a
esperança: Lula”, o presidente da República. O autor aproveitou para ilustrar
seus devaneios com a saga de nossos avós. Esclareço que o trabalho literário me
chegou às mãos em tempo hábil, no dia seguinte ao desfile, antes que os jurados
defenestrassem a Escola. Vai hoje publicado porque levei um tempo para me
reencontrar com os caminhos do Blog. E outros caminhos... como o dos meus 80
anos!
CRÔNICA DE UM ENREDO
No domingo à noite, como quem retorna a um
velho templo ou um santuário preferido, voltei a assistir a um desfile de
Escola de Samba. Por anos, meus olhos se
cansaram de ver apenas o brilho das alegorias, sambas sem alma, rostos e corpos
expostos como vitrines. Tudo me parecia repetição: um carnaval de espelhos que
refletiam sempre o mesmo. Talvez fosse apenas o meu olhar crítico,
desacostumado a perceber as nuances de criação entre os carnavalescos.
Mas ontem, a chama reacendeu. A Acadêmicos
de Niterói trouxe à avenida a saga de Lula, e sua história se fez canto e
teatro sob o céu limpo da Sapucaí. Vi o êxodo de uma família que parte com
quase nada, levando apenas o peso dos sonhos e uma angústia amalgamada pelo
tempo. Vi o retrato de tantos brasileiros, de tantos estrangeiros, que carregam
na bagagem a dramaticidade das travessias.
E ali, entre batuques e metáforas, senti-me
parte daquele enredo. Meu pai e minha avó deixaram Caballococha, na Amazônia peruana,
navegando noites sem fim em uma canoa até tocar a fronteira do Brasil. O
destino: Manaus. Meus avós maternos, por sua vez, fugiram de Baturité, terra
marcada pela Grande Seca e pela varíola, e encontraram refúgio às margens do lago
do Anveres, onde minha mãe nasceu e se criou.
O desfile não foi apenas espetáculo: foi espelho. Espelho da Vida. Vi na avenida a memória das migrações que moldaram minha própria história, e de tantos brasileiros. E por isso fiquei até o fim, acompanhando até a dispersão como quem não quer que a poesia se dissolva. Não sei se os jurados darão boas notas. Mas o que importa, afinal, quando o coração já foi premiado?


