CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, maio 01, 2026

BAIRRO DE SÃO RAIMUNDO

A reportagem que aqui postada, escrita há 50 anos, analisava este bairro, também conhecido por Colina. Em página inteira de A Crítica, edição de 26 de julho de 1976, pode-se observar a situação daquele espaço. Mas, conhecedor daquele arrabalde, que nunca teve uma agência bancária ou supermercado de porte, dois itens de expressão de progresso, creio que o jornalismo foi muito condescendente com as agruras do bairro de São Raimundo Nonato.
Igreja de São Raimundo Nonato


PONTO DE VISTA

“Não desprezamos o comentário de alguns e críticas de outros de que o bairro de São Raimundo poderia estar numa situação mais privilegiada, tanto no setor econômico, quanto no aspecto social, não fosse a falta de raciocínio lógico por parte de alguns que se deixaram vencer pelo pessimismo. E isto é comprovado por razões convenientes”, esclareceu o advogado Antonio do Carmo Moreira Filho (Rua Padre Francisco, 151) que nasceu e se criou na Colina. Com sacrifício ele conseguiu se formar em 69. Ele tem 34 anos e diz que “quando Manaus apenas engatinha em busca do progresso, a bonança financeira se expandiu neste bairro, pois São Raimundo figurava como o principal centro de distribuição e exportação do maior gênero de consumo alimentício (bovino, suíno e caprino), uma vez que 80% dos moradoras mantinham o sustentáculo financeiro, através do Matadouro Municipal de Manaus.”

“Construíram o campo da Colina, moderna sede social, praças públicas. Renovaram a Igreja de São Raimundo Nonato, hoje considerada uma das mais belas da Zona Franca e que serve de atração turística. Modernizaram o sistema de esgoto e o teatro para uma lotação de mais de 500 pessoas, enfim o bairro ganhou um aspecto invejável pela sua vida própria. “Todavia - prosseguiu - sem apontar diretamente os seus responsáveis, a carência de uma visão mais ampla na área educacional, na época, praticamente nada se fez, e isso como não poderia deixar de acontecer, acarretou saldos negativos”. Frisa o causídico que “enquanto uma minoria educava os filhos em outros centros, visto que Manaus possuía apenas a Faculdade de Direito, a maioria não atentava para este fator. Mas, pela graça de Deus, a maior parte da juventude se evoluiu pela boa vontade, abnegação ao aprimoramento da cultura e zelo patrimonial, o que transcenderam a imagem positiva do povo colinense”.

Título da reportagem de A Crítica, 26 julho 1976

Hoje, ainda se prima pela união das famílias sanraimundenses, sem divergências de classes. Médicos, engenheiros, jornalistas, economistas, universitários, a classe operária e outros profissionais contribuem ao engrandecimento do subúrbio e ao mesmo tempo conservam suas tradições, muito embora não exista mais a rivalidade entre os dois principais clubes, São Raimundo e Sul América. O famoso “Galo Preto”, mesmo a despeito da força de divulgação do futebol, não traz mais aquele delírio alucinante dos torcedores. “Tudo se modifica com o tempo. Gosto de futebol e torço pela vitória de qualquer um. Afinal, a vitória é nossa, do bairro de São Raimundo”, acentuou o comerciário Uziel Dourado (26 anos), afirmando que o óbvio é se construir o presente”. O ex-jogador de futebol Alfredo Correia Lima, o conhecido Fredoca, é hoje comerciante e proprietário do “Bar Canto do Tufão”, onde noturnamente se reúne a turma boêmia. Fredoca relembra os seus tempos áureos do futebol e seu fã no bairro de São Raimundo, frisando que “a juventude atual tem os mesmos costumes da passada”. “A rivalidade entre os dois clubes ainda existe. Apenas se conserva com outro senso, pois temos outras tarefas a desenvolver e o tempo é muito curto”, salientou. Na Rua 5 de Setembro se encontra o “Bar São Francisco” que pertence a um sulamericano. O “Bar São Francisco” é dirigido pelo ex-jogador do Sul América Esporte Clube, Aristides Nonato, que desde a sua juventude se firmou como comerciante. (...)

Outras pessoas opinaram sobre o bairro de São Raimundo, que em parte foi abalado com a extinção do Matadouro de Manaus, pois muitos moradores ficaram desprotegidos financeiramente. Aproximadamente 300 pais de família sofreram o impacto, uma vez que eles se acostumaram tão somente a lidar com serviços rotineiros do matadouro.

“O próprio Frigomasa não corresponde com as perspectivas da classe de magarefe. A minha produção caiu em quase 100%”, afirmou o magarefe José Inácio da Costa Oliveira (Rua do Rosario, 714A, que atualmente também trabalha como vigia no Distrito Industrial. Declarou que ganhava na faixa de 8 mil cruzeiros e atualmente “dou graças a Deus”, quando ganho a metade. José Inácio é casado com Marilda Alves Oliveira e possui quatro filhos menores que estudam no Grupo Escolar São Luiz de Gonzaga. O magarefe Manoel da Silva Macedo (Rua da Cachoeira, 471) trabalha no mercado do Bairro da Glória e possui uma estância de seis quartos, no beco da Cachoeira. Mesmo assim, ele afirma que sente dificuldade financeira, pela falta constante de venda do produto. (...)

 

PRIVILÉGIO

Porém, existem outras classes privilegiadas financeiramente que procuram oferecer melhor social ao bairro, construindo casas modernas e prestigiando os próprios clubes, São Raimundo e Sul América.  O primeiro dirigido pelo vereador Arenista Raimundo do Vale Sena e o segundo pelo chargista João Miranda. Embora sem confirmação oficial, comenta-se que a sede social do São Raimundo será de dois andares, para que os seus associados e simpatizantes tenham melhores bailes domingueiros, chouparias, churrascaria e boate. Esta nova arrancada, marca o progresso do bairro.

As ruas do Bairro de São Raimundo são quase todas asfaltadas com um sistema de iluminação perfeita. A praça principal ganha melhor aspecto, porque nela está situada a Igreja de São Raimundo Nonato, ladeada pelo Convento das Irmãs Franciscanas de Maria e a casa paroquial. O serviço de transporte coletivo atende as necessidades dos moradores e poderá sofrer alteração, pois o prefeito Jorge Teixeira garante que será construída a ponte que interligará São Raimundo com o centro da cidade. (...)

EDUCAÇÃO

Existem fatos que marcam a existência do Bairro de São Raimundo, onde muitos moços se definiram profissionalmente. E hoje, é travada uma nova luta em busca de um futuro mais próspero por parte da juventude que, com maiores chances de conseguir emprego, procura atingir o campo universitário ou se estabilizar numa profissão rendosa. 50% por cento dos jovens da Colina são comerciários, industriários ou escriturários, trabalham oito horas por dia e estudam na parte noturna. Outros são bancários, funcionários de repartições públicas e não escondem o temor pela “guerra” do vestibular. (...)

FRATERNIDADE

Com o pensamento de que somente através do zelo espiritual se atinge a meta de Deus e, consequentemente, a felicidade, pelo respeito e amor ao próximo, a evolução do tempo e o progresso não atingiram o espírito religioso da maioria do povo colinense que aos domingos assiste missa celebrada pelo Padre Teodoro, atual Vigário da Paróquia que sempre procurou orientar a juventude pela causa da religião. Com a aproximação do dia consagrado a São Raimundo Nonato, a população com mais frequência comparece no templo religioso para pagar ou fazer promessas e deixar sua contribuição para a realização do tradicional arraial, comandado pelos rapazes da Juventude Atlética Paroquial (JAP) e moradores selecionados pelo próprio vigário da paróquia.

A passagem da data consagrada ao padroeiro também faz lembrar o maior desastre já registrado na Colina, há 24 anos, quando anais mais de 30 casas foram destruídas por um incêndio, sem, contudo, se registrar vítimas. As famílias desabrigadas ficaram depois morando provisoriamente num casarão erguido onde hoje está situada a sede social do São Raimundo Esporte Clube.

O arraial de São Raimundo se mantém com a disputa das rainhas, em busca do título máximo - cada uma representa as respectivas ruas - das tradicionais famílias sanraimundenses, principalmente no último dia dos festejos, quando se realiza a procissão. Conserva-se neste dia o enlace fraternal das famílias Queiroz, Bessa, Rebouças, Melo, Correia Lima, Gonçalves, Ribeiro e tantas outras. As jovens dão o colírio da rapaziada.

O vigário Padre Teodoro é holandês, mas se confessa sanraimundense de coração. Há três anos, ele dirige a paroquia, mas já a serviu há anos passados. Conhecedor profundo dos problemas do bairro, Padre Teodoro se reúne constantemente com os moços da Juventude Atlética Paroquial (JAP), Clubes das Mães e outras entidades filiadas à paróquia, traçando normas sobre a filosofia de que só trabalho e a ordem elevam a comunidade, cujo tema foi amplamente debatido pelos religiosos por ocasião do Congresso Eucarístico. 
  

quinta-feira, abril 30, 2026

LUZ QUE RENOVA


Renato Mendonça

 

Capa do livro

 Ainda caminhamos pelo tempo pascal, como quem percorre uma jornada em plena primavera da alma renovada. A Quarta Semana da Páscoa não é apenas um marco no calendário litúrgico. É uma réstia de luz que insiste em nos lembrar que esse é o tempo da renovação, e mais precisamente da vitória da vida — a ressurreição de Jesus, três dias após sua morte na cruz.

Resgato a ideia de um conto que escrevi há exatos cinco anos, publicado no livro “Pedrinho e Suas Estórias”, endereçado aos eleitores infantis.

No jardim da memória, a Páscoa surgia como uma chama antiga. Em priscas eras, falava-se apenas da ressurreição de Cristo — o túmulo vazio, a pedra removida, o milagre que fez da morte um portal para a vida. Mas, ao longo dos séculos, outros símbolos se aproximaram: o coelho fértil idealizado pelos alemães, os ovos franceses pintados à mão, depois moldados em chocolate. Chegaram como visitantes de terras distantes, trazendo consigo a promessa da fertilidade e da primavera — simbolizando também o equinócio no Hemisfério Norte.

Mas o comércio, com sua voz estridente e loquaz, acabou por abafar o cântico suave da fé. O que deveria ser sinal de fertilidade e esperança tornou-se vitrine de consumo, túnel de ovos suspensos, espetáculo para os olhos infantis, mas vazio para o espírito. Os ovos, antes frágeis cascas coloridas, converteram-se em recipientes de brinquedos e excessos. Os túneis de chocolate pendem nas lojas como se fossem templos de consumo, mas neles não há o recheio da fé.

A festa que outrora se erguia como testemunho único da vitória de Cristo sobre a cruz foi, ao longo dos séculos, adornada apenas por símbolos que vieram de terras distantes. No entanto, a verdadeira Páscoa resiste. Ela não se vende, não se embala, não se pendura em prateleiras. Não se deixa aprisionar. Ela é como o sol que, mesmo encoberto por nuvens, insiste em nascer a cada manhã. É o Cristo que, após três dias de silêncio, rompeu a escuridão do sepulcro e fez da cruz — outrora instrumento de dor — uma luz que se renova, uma ponte luminosa entre o humano e o divino.

Cabe a nós, guardiões da fé, resgatar o sentido primeiro desta celebração. Lembrar às crianças que o maior presente não cabe dentro de um ovo, mas pulsa no coração solidário dos pais e avós, que se abre à esperança. Cabe a nós ensinar que a Páscoa é mais que festa: é aurora que nunca se cansa de nascer, é o jardim da ressurreição que floresce dentro de cada alma. Eles não precisam rejeitar o doce do chocolate, mas não podem esquecer o sabor da religiosidade.

Que cada ano seja, então, um renascer. Que aprendamos com o sol sua missão de voltar sempre, e com Cristo sua promessa de vida nova. Pois a Páscoa é mais que uma data: é o milagre que se repete, é a aurora que nunca se cansa de nascer.

É o milagre da vida!

segunda-feira, abril 27, 2026

EFEMÉRIDES AMAZONENSES

Em tantas iniciativas pessoais, intentei divulgar as efemérides amazonenses, ou seja, a compilação de datas sobre os acontecimentos estaduais que envolvam pessoas e entidades. Andei bastante, mas cansei e parei. Ontem, não sei que razão me levou a buscar os esquecidos apontamentos e me empolguei com o material recolhido. Hoje reproduzo uma parcela arquivada.

                                                    26 de abril

1876 – É sancionada pelo presidente Antônio dos Passos Miranda a lei 339, que cria a Guarda Policial do Amazonas, com efetivo de 73 homens, sendo “um comandante e seu auxiliar, três inferiores, seis cabos de esquadra, dois cornetas e 60 soldados”. O organismo policial destinava-se “a manter a ordem e a segurança pública na Província, e auxiliar a justiça”. Na verdade, era uma (re)criação da Guarda, visto que a primitiva de 1837, com a mesma nomenclatura, já desaparecera. Foi instalada em 4 de maio, sob o comando do tenente reformado do Exército Severino Eusebio Cordeiro, comissionado no posto de major.

1876 – Elevação do termo judiciário de Itacoatiara à denominação de Comarca, por força da lei 341, sancionada pelo presidente Antônio dos Passos Miranda.

1899 – Incorporada à tutela do governo a Academia de Belas Artes até então particular, consoante o decreto 324, sancionado pelo governador Ramalho Júnior. Esteve sob a direção do maestro Joaquim de Carvalho Franco. Extinta, todavia, em julho do ano seguinte. 

1936 – Toma posse no comando da Força Policial do Estado o tenente-coronel PM José Rodrigues Pessoa, na ocasião em que este organismo retorna efetivamente à atividade, após sua desativação em 1930, por decreto do Interventor Álvaro Maia.

27 de abril

1756 – Nasce na Bahia o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, e falecido em Lisboa em 1815, que empreendeu longa expedição pela região amazônica, após o que escreveu o livro Viagem filosófica pelas Capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá. Sua importância levou a várias edições, como a da Edições Governo do Amazonas. (foto)

Edição do Governo do Amazonas

1895 – Criado, por disposição da lei 118, sancionada pelo presidente estadual Eduardo Ribeiro, o município de Urucurituba, quando foi elevado à condição de vila, desmembrando-se de Silves e Urucará. Localiza-se no rio Solimões, e tem por padroeiro a São José Operário.

1916 – Faleceu aproximando-se de Lisboa (POR) no transatlântico que viajava à Europa em tratamento de saúde, o Dr. Lauro Batista Bittencourt. Nascido em Manaus, em 1853, logo após instalada a província do Amazonas. A formação superior foi realizada na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, colando grau de engenheiro civil. De retorno a Manaus atuou durante o governo de Eduardo Ribeiro, deixando suas marcas em diversos empreendimentos, em especial como Diretor das Obras Públicas do Estado.

1940 – É criada a SNAPP (Serviço de Navegação e Administração do Porto do Pará), por decreto-lei federal 2.154, como sede na cidade de Belém (PA). Apesar de extinta em 21 nov.1966, foi substituída pela ENASA (Empresa de Navegação da Amazônia S/A), estatal criada em 10 fev.1967. 

28 abril

1917Nasceu no lago do Anveres, distrito do Careiro, Francisca Pereira Lima Mendonça, a filha mais nova de Vicente e Adelaide Lima. Mudou-se para Manaus para cuidar da mãe viúva acometida de grave doença. Aqui encontrou o marido Manuel Mendonça, com quem gerou três filhos, nesta ordem, Roberto (1946), Antonio (1948) e Renato Lima Mendonça (1951). Contudo, minha genitora faleceu em 1952, aos 35 anos de idade, vítima de tuberculose.    

1957 – Faleceu no Rio de Janeiro, o senador pelo Amazonas, Manuel Severiano Nunes, nascido em 1892. Exerceu diversas atividades administrativas no Amazonas, tendo sido prefeito de Itacoatiara, deputado estadual (135-37), deputado federal (1946-47) e senador. Fez seus estudos primários no Colégio Sete de Setembro e Lauro Cavalcanti; Ginásio amazonense, Faculdade de Medicina da Bahia (incompleto), enfim, a Faculdade de Direito do Amazonas (1913). Seu nome denomina a Escola Estadual situada no bairro de Alvorada 2.

1989 – Assume o comando do VII COMAR, o major-brigadeiro-do-ar Luís Antônio Martins Leomil. Seu comando estendeu-se até 17 dez.1990.

1993 – Inaugurado o busto do empresário Adelino Pereira da Silva no jardim principal da Beneficente Portuguesa. Nascido no distrito de Vizeu, em Portugal, e falecido em Manaus, no mesmo hospital e na mesma data do ano anterior.