CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

terça-feira, março 31, 2026

31 DE MARÇO - 62 ANOS DO GOLPE MILITAR

 Em 1964, estava encerrando o ensino médio, quando explodiu a revolta militar. Vinha acompanhando a situação do país por duas vias: uma, pela leitura dos jornais do eixo Rio-São Paulo; outra, pelas conversas com nossos professores, alguns recolhidos ao cárcere acusados de subversivos. Segui assistindo o desdobrar do movimento na capital amazonense que, longe do centro político, pouco pode registrar. A postagem cabe ao Renato Mendonça, bem mais jovem, mas que se mudando para o Sul, acompanhou o desenrolar da repressão. 

Extraído da Internet 

Quando se fala em golpe de Estado, o imaginário nacional costuma se fixar em 1964. Talvez porque tenha sido conduzido pelas Forças Armadas e tenha inaugurado um longo ciclo de 21 anos de ditadura. Mas a História brasileira, se folheada com atenção, revela que os golpes — ou movimentos antidemocráticos — atravessam séculos, desde o período colonial e ameaçam até os dias de hoje.

O primeiro registro remonta a D. Pedro I. Em 1823, dissolveu a Assembleia Constituinte que ousava limitar seu poder e, no ano seguinte, outorgou a Constituição de 1824. O episódio ficou marcado como “A Noite da Agonia”, quando deputados foram presos sob a sombra dos militares. Mais do que golpe, foi a expressão crua da autocracia imperial.

Poucos anos depois, em 1831, o mesmo imperador abdicou em favor do filho de apenas cinco anos. O país mergulhou em uma década de regências e revoltas, até que, em 1840, um novo arranjo político antecipou a maioridade de Pedro II. Aos 14 anos, o adolescente assumiu o trono — um golpe parlamentar travestido de solução.

A monarquia, porém, não resistiria ao ímpeto militar. Em 1889, marechal Deodoro da Fonseca derrubou Pedro II e proclamou a República. Para alguns, um marco democrático; para outros, apenas mais uma ruptura imposta pela farda. Dois anos depois, o mesmo Deodoro fechou o Congresso e decretou Estado de Sítio. Renunciou em seguida, deixando o poder a Floriano Peixoto. A República nascente já se habituava ao compasso dos golpes.

Em 1930, Getúlio Vargas ascendeu ao poder após contestar a vitória de Júlio Prestes. A chamada Revolução de 30 depôs Washington Luís e inaugurou um governo provisório, que se prestava a fomentar um novo golpe. Sete anos depois, um documento forjado — o Plano Cohen — serviu de pretexto para Vargas instaurar o Estado Novo. A democracia, mais uma vez, foi interrompida, com receio de uma revolta comunista.

O golpe de 1964, por sua vez, permanece como cicatriz aberta. João Goulart, eleito democraticamente, foi deposto sob o argumento de conter uma suposta ameaça comunista. A intervenção militar contou com apoio de setores da imprensa, da elite e dos Estados Unidos, e mergulhou o país em duas décadas de autoritarismo.

A História brasileira, assim, parece dançar em torno de rupturas: ora pela espada, ora pelo Congresso, ora pela manipulação do pânico moral, ora por engodos de parlamentares. O palco se repete, os atores mudam, mas o enredo insiste em desafiar a democracia — e ameaça de ruptura. Que não seja necessário novo ato. Que os eleitos cumpram seus mandatos, que os derrotados aceitem o jogo republicano e que o país não precise assistir a mais uma coreografia de golpes — sejam militares, parlamentares ou institucionais.

Renato Mendonça 


segunda-feira, março 30, 2026

MEUS OITENTANOS (1)

 Fascículo 1

 

À beira das celebrações do meu Jubileu de Carvalho, sinto como se estivesse diante de uma grande parede da memória, expondo fotos antigas, e cada uma delas me coloca dentro de várias lembranças, como uma onda do mar que retorna para me tocar. Muitos projetos de vida nasceram em minha mente — feito passarinhos inquietos querendo voar —, porém, alguns voaram alto demais, não me deixando alcançá-los, outros não encontraram abrigo dentro do meu ser, inviabilizando o patrocínio próprio. Este, porém, pousa aqui bem sedimentado: contar, através do meu blog, a história do coronel Roberto, que é justamente a minha própria travessia por oito décadas de vida. Começo após o Dia de São José, 19 de março, santo que me acolheu no seminário de Manaus, e aproveito a mesma embalagem para celebrar também o centenário de Armando de Menezes, patrono generoso de tantas artes, por seu abrangente mecenato.

Nasci no bairro dos Educandos, na esquina da rua Inácio Guimarães com o beco São José, no dia 17 de junho de 1946, mês em que o céu de Manaus se vestia de bandeirolas, fogueiras e comidas típicas.

Sou fruto amadurecido da Segunda Guerra e de Manuel Mendoza — homem afeito às águas, nascido no lago Caballococha, às margens do rio Marañon, o nome do Rio Amazonas no país andino — e de Francisca Lima, filha de imigrantes cearenses e do lago Anveres nas cercanias do Careiro. Meu pai, por isso, era chamado de “peruano”. E posso dizer, sem exagero, que fui “hecho en Perú”, pois Manuel levou Francisca a Iquitos, onde se casaram e se instalaram. Mas o ventre grávido nos guiou de volta a Manaus, e ali, em junho, conheci a Luz.
Manaus, naquele tempo, respirava o alento da exploração da borracha que alimentava os Aliados em guerra — era um novo horizonte recém-aberto de pretensa prosperidade. O bairro de Constantinópolis — hoje Educandos — era uma periferia entre barrancos e igarapés, mas também absorvia promessas: o aeroporto de Ponta Pelada erguia-se como compromisso de futuro, fábricas surgiam tímidas, e no alto do bairro o vigário levantava a Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro — templo onde minha família buscava consolo. Foi ali, no Instituto dos Educandos Artífices, transformado depois em Grupo Escolar Machado de Assis, que iniciei o curso primário.

O bairro, antes isolado, abriu-se ao mundo com a avenida Leopoldo Peres e a ponte Efigênio Salles. Ainda assim, a ligação com o centro era feita por catraias — conduzidas por braços que remavam como se movessem o próprio destino. Foi perto da Baixa da Égua — uma rua com um declive íngreme — que meu pai ergueu a sua Mercearia São José — casa de madeira com duas portas e uma varanda que se tornava palco de conversas. Minha avó, Victoria Malafaia, peruana, analfabeta, mas dotada de sabedoria incaica, quando emigrou de seu lugarejo em 1927, trouxera consigo dois filhos: Manuel e Francisco. Ali, ela, com seu portunhol limitadíssimo, dialogava sem ressalvas com Dona Neca, vizinha a cinco metros de distância. A filha dela, Maria Julia, ainda guarda memória viva no mesmo endereço.

Na mesma avenida morava tia Raimunda, com sua dezena de filhos, e o tio Manuel, dono de uma padaria simples e promissora. Ali eu buscava o pão doce antes de seguir ao Grupo Escolar. A energia elétrica chegava frágil — como um fino fio de esperança —, mas a água ainda era carregada em latas sobre cabeças, embaladas pela canção popular, eternizada na voz da cantora Marlene: “lata d’água na cabeça...”. Era o símbolo da resiliência e tenacidade daquele povo, descendentes de nordestinos, que vivia ali.

Em 1948, no mesmo mês de junho — como se fosse um paradigma —, nasceu meu irmão Henrique Antônio, batizado também pela folhinha, o calendário religioso. A vida seguia uma rotina tranquila, sem nenhum descompasso, com a ajuda da nossa babá, Luzia. Mas, em 1950, ano da Copa do Mundo no Brasil, meu pai decidiu arriscar-se no Rio de Janeiro, atendendo ao chamado do irmão Francisco. Vendeu o comércio e embarcamos no vapor Almirante Alexandrino, rumo à Capital Federal. Assim começou a segunda travessia da minha história, como quem troca o leito de um rio por outro, sem saber ainda para onde as águas nos levariam.

domingo, março 29, 2026

DOMINGO DE RAMOS

             Domingo de Ramos

29.03.2026

 

Símbolo do domingo - internet

Renato Mendonça

Esta liturgia de hoje abre o período que o mundo cristão chama de Semana Santa ou Semana Maior. A narrativa dos evangelistas nos convida à meditação, nos ensina a viver a mesma humildade, o mesmo amor e a mesma perseverança de Nosso Senhor Jesus. A entrada de Jesus Cristo em Jerusalém tem a simbologia do mistério divino, endossado como foi pressagiado no Antigo Testamento pelo profeta Zacarias sobre a vinda do Messias Salvador: “Regozija-te muito, filha de Sião; exulta, filha de Jerusalém; eis que vem a ti o teu Rei. Ele é justo e traz a salvação; ele é pobre e vem montado sobre um jumento, sobre um potrinho, filho de uma jumenta.” (Zc 9:9)

Observem que Jesus poderia ter escolhido várias formas para uma entrada triunfal na cidade, após um período de seis dias de meditação no Monte das Oliveiras. Ele preferiu a mais humilde, e talvez não fosse intencional chamar atenção da multidão; no entanto, ocorreu que seus seguidores e admiradores estendiam suas próprias vestes pelo caminho, enquanto outros cortavam ramos de árvores para lhe oferecer em tapete ou agitavam para anunciar o advento do Mestre. Foi uma coreografia por certo não idealizada, apenas improvisada, para preceder as palavras de fé e esperança entoadas pela multidão: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!”

Porém, o que nos deixa estupefatos, ou profundamente decepcionados, é que, uma semana após essa euforia, esse mesmo povo que o aclamou também o condenou... Será que foram essas mesmas pessoas que estavam na Assembleia do Sinédrio? Pertenciam à mesma casta social? Em uma análise coerente, permanecem muitas dúvidas...

Fazendo um exercício de lógica, podemos absorver dos relatos dos evangelhos sinóticos que havia razões apenas políticas para incriminá-lo, usando de argumentação leviana e mentirosa. Isso está explicitado no evangelho de Lucas: “Então toda a assembleia levantou-se e o levou a Pilatos. E começaram a acusá-lo, dizendo: ‘Encontramos este homem subvertendo a nossa nação. Ele proíbe o pagamento de impostos a César e se declara ele o próprio Cristo, um Rei’” (Lc 23: 1,2). Era uma falácia, pois Jesus, em um dos momentos em que foi induzido a cair numa cilada dos inimigos, falou sabiamente: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21).  

Obviamente, não poderia estar presente naquele julgamento sumário a população pobre e carente, pessoas desassistidas que foram acalmadas espiritualmente com as diversas manifestações divinas de Jesus: as curas e os milagres realizados e testemunhados ao longo do seu ministério. Estavam ali os sacerdotes, os mestres da lei e os fariseus, em conluio com setores da elite judaica, alinhados com o governo de Roma. Como não havia registro escrito desse julgamento, tudo passou para a posteridade pela oralidade.

Jesus já vinha sendo monitorado há algum tempo por lacaios do império romano, e estes identificaram nele uma liderança popular capaz de concorrer com as autoridades de Roma; alguém que surgiu para libertar um povo oprimido, um enviado de Deus, capaz de mobilizar as forças divinas para se livrar da dominação estrangeira que oprimia o povo judeu naquela época. Por isso, consideravam-no um revolucionário e era necessário retirá-lo do convívio com a sociedade e condená-lo à morte.     

Jesus tinha consciência da sua missão final que ali se iniciava, e poderia evitar a situação cruel, mas para concretizar o projeto do Reino de Deus não deveria se opor, pelo contrário, faria a vontade do Pai. E o que se sabe é que Jesus não precisou rebater a violência com violência; nem mesmo condenou Judas, deixou que sua própria consciência o condenasse. Esperou que tudo se consumasse como um propósito divino.

A lei injusta e parcial usada para a manutenção do poder romano — que condenou um homem justo e maltratou sua dignidade — não foi capaz de evitar a vitória de uma crença, o surgimento de uma religião fervorosa, que tem como símbolo máximo a Cruz de Cristo.

Esperamos que o calvário e a crucificação de Jesus, paradoxalmente, consigam amenizar nossas dores; nos fortaleçam cada vez mais, para ajudarmos nossos irmãos que precisam de apoio ou socorro espiritual; ao mesmo tempo em que precisamos nos encaminhar para uma Boa Páscoa e para a ressurreição, que exige de nós um renascer a cada dia.

Além disso, precisamos nos abastecer da fé e da esperança, e nos convencer de que a morte foi vencida pelo Senhor da Vida!