CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

terça-feira, outubro 20, 2026

POLÍTICA DA FUMAÇA


Renato Mendonça

20.10.2026

 

Há momentos em que a fumaça deixa de ser apenas matéria suspensa no ar e passa a ocupar também o pensamento coletivo. O Norte do Brasil atravessa um desses momentos de reflexão. O céu escurecido não encobre apenas rios, florestas e cidades; obscurece igualmente a capacidade de discernir entre causa e consequência, entre acidente e intenção nefasta, entre fatalidade e projeto de destruição.

Enquanto a névoa cinzenta cobre a verdejante Amazônia, erguem-se perguntas inevitáveis: quem se beneficia quando a floresta arde? Quais os ramos empresariais podem se locupletar com essa ação? Os focos de calor vêm sendo monitorados por órgãos federais desde os primeiros meses do ano. A devastação acumulou milhões de hectares consumidos pelo fogo, mas a intensificação repentina — após o primeiro turno das eleições — das queimadas transformou a tragédia ambiental em algo maior que um desastre ecológico. Como toda grande fogueira, essa também projeta sombras políticas.

Não é a floresta que decide incendiar-se. Não são os rios que escolhem evaporar sob o calor das chamas. O fogo tem mãos criminosas. Possui combustível econômico e, muitas vezes, motivação ideológica. Por trás de cada coluna de fumaça há interesses que raramente aparecem nas fotografias aéreas divulgadas nos telejornais.

A floresta tornou-se, há décadas, um território onde se confrontam duas visões de mundo. De um lado, a compreensão de que a Amazônia constitui um patrimônio estratégico, ecológico e humano. De outro lado, a lógica predatória que enxerga árvores como obstáculos, rios como entraves burocráticos e a própria natureza como uma mercadoria provisória à espera de conversão em lucro. Isso já foi objeto no governo passado — vamos passar a boiada!

Nessa lógica, o fogo funciona como um corretor imobiliário primitivo. As chamas abrem caminho para a expansão de pastagens, valorizam terras apropriadas ilegalmente e preparam o terreno para atividades que prosperam na ausência do Estado. Onde a floresta desaparece, frequentemente surgem cercas e gados. Onde surgem cercas, aparecem títulos agrários, e ali alguém lucra. A Amazônia possui uma estranha capacidade de revelar o caráter dos homens e das ideologias. Alguns enxergam um organismo vivo e complexo, um pulmão do universo, que integra a soberania nacional; outros contemplam apenas como um balanço patrimonial ainda não explorado. E há um oportunista candidato à presidência que enxerga como uma matéria mercantil. 

A memória da Amazônia também guarda cicatrizes. Em 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, o país assistiu ao chamado Dia do Fogo, quando propriedades rurais no Pará foram associadas a uma mobilização coordenada de queimadas que chocou o mundo. Mais do que um episódio criminal, aquele acontecimento revelou algo perturbador: a floresta não queima apenas pela ação do fogo, mas também pela combustão das ideias. Antes das chamas, costumam haver discursos que relativizam a destruição, enfraquecem a fiscalização e transformam criminosos ambientais em supostos pioneiros do progresso. O fogo raramente nasce sozinho; ele costuma ser precedido por uma atmosfera de permissividade ou favorecimento.

Também não pode ser ignorada a dimensão política da fumaça. Em tempos de polarização extrema, a tragédia converte-se rapidamente em instrumento de disputa. Imagens de destruição circulam pelas redes sociais como munição eleitoral. A dor coletiva transforma-se em propaganda política. A floresta queima e, simultaneamente, alimenta máquinas de engajamento — vemos em muitas redes bolsonaristas.

Contudo, reduzir o fenômeno a uma simples conspiração política seria insuficiente. O dinheiro continua sendo um combustível mais estável que qualquer ideologia. Em muitas situações, a ambição fala mais alto que a militância. O lucro imediato continua sendo o idioma preferencial daqueles que enxergam a floresta como mercadoria descartável. Mas os números das multas, os embargos e as prisões revelam apenas uma parte dessa tragédia. Existe uma contabilidade invisível que jamais aparece nos relatórios oficiais. Ela está nos pulmões das crianças, nos idosos que passam noites inteiras sem conseguir respirar, nos trabalhadores que atravessam a cidade sob um céu que parece permanentemente um entardecer.

Dias atrás, minha irmã Sônia, moradora do bairro dos Educandos em Manaus, relatou dificuldades respiratórias provocadas pela fumaça que dominava a cidade. Naquele instante, a discussão deixou de ser estatística. Tornou-se sanitária: busquei a reflexão. Toda nuvem de cinza possui rostos escondidos em seu interior. Talvez aí resida a dimensão mais perversa desse drama. Os que provocam ou estimulam a destruição respiram raramente o ar das vítimas — estão morando em outros centros ou outros países. As consequências distribuem-se socialmente de maneira desigual. O lucro concentra-se com os endinheirados; o sofrimento, não — fica todo para o proletariado.

Ao observar a Amazônia coberta por uma densa fumaça, torna-se impossível não perceber a ironia histórica. Os autoproclamados defensores da pátria — aqueles que militam no conservadorismo de direita e querem o poder — frequentemente demonstram disposição para vender justamente aquilo que torna o país singular diante do mundo. A floresta converte-se em moeda. A soberania transforma-se em slogan falso. O patriotismo, apenas em estratégia de marketing.

A fumaça que hoje cobre o Norte não é apenas resultado da combustão da madeira. É também a fumaça produzida pela ganância, pela irresponsabilidade e pelo fanatismo político. Ela sobe das árvores queimadas, mas nasce muito antes delas: nasce quando o lucro vale mais que a vida, quando a ambição vale mais que o futuro e quando o poder vale mais que o próprio país.

A tragédia contemporânea possui ainda outra camada. Enquanto brigadistas combatem incêndios na floresta, exércitos digitais se aproveitam para fomentar a guerra nas redes sociais. Fotografias de Manaus sob a fumaça e imagens da devastação passaram a circular massivamente como instrumentos de ataque político. É irrelevante a complexidade do fenômeno ou a multiplicidade de fatores envolvidos; a dor coletiva é convertida em material de propaganda. A fumaça torna-se argumento, a destruição transforma-se em conteúdo e o sofrimento da população converte-se em combustível para a polarização.

Nesse cenário, alguns grupos vinculados ao bolsonarismo procuram atribuir ao governo atual a responsabilidade pelas queimadas, ignorando tanto as investigações em curso quanto os interesses econômicos historicamente associados ao avanço da destruição ambiental. A floresta arde no mundo real, mas também nas trincheiras virtuais, onde a verdade é frequentemente a primeira vítima.

A cinza que cai sobre a Amazônia não é apenas resíduo vegetal. É o pó de uma consciência nacional que, agremiações políticas — factualmente, grupos ligados ao bolsonarismo —, parecem ter decidido incendiar o amanhã para lucrar no presente.

segunda-feira, outubro 19, 2026

MEUS OITENTANOS (22)

 

FASCÍCULO 22

         1981

A aventura prosseguiu com a viagem à capital peruana. Com o apoio funcional de um parente que trabalhava na Cruzeiro, adquiri passagens com desconto na condição de nacional. O vendedor aconselhou que eu falasse o mínimo possível para não ser identificado, não transportasse encomendas de terceiros e carregasse um agasalho, já que o inverno de Lima prometia chegar. No aeroporto de Iquitos – Francisco Secada Vignetta, inaugurado em 1979, embarquei no DC-3 ou 4 da Faucett Perú; ao tomar assento junto à janela aproveitei a paisagem para notar a transformação da selva em serras enevoadas dos Andes e, finalmente, as praias do Pacífico. Um amigo da família me recepcionou no aeroporto Jorge Chavez, na província do Callao, no domingo (26), antevéspera das “Fiestas Patrias”; e próximo do almoço ao chegar à casa onde me hospedei. Estava frio; o anfitrião, atencioso, ofereceu-me de imediato um copo de “leche del tigre”. A mim e ao jovem cicerone Carlos, que de pronto bebeu um largo gole; achei curioso um drinque temperado, contendo até cebola. Olhei para o Carlos e vendo sua desenvoltura, não duvidei, bebi ainda que com parcimônia. Não houve como escapar: a pimenta brotou por todos os poros e afugentou o frio. Desse modo, conheci o ceviche. Esclareço que o coquetel inicial nada mais era que o caldo desse prato.

Aeroporto de Iquitos (acima)
Bairro do Callao, onde se localiza o aeroporto
de Lima (abaixo)



Antes de deixar Lima, repassei algumas recordações aos amigos; porém, uma delas me afligiu: três jovens desejavam a única revista masculina Ele & Ela que dispunha. Resolvi aplicar uma solução salomônica: partilhei-a em três partes. Ao embarcar no aeroporto Jorge Chavez, fui assaz assediado para levar encomendas, mas, lembrando-me do conselho, cerrei os ouvidos. Em Iquitos, providenciei a passagem para Manaus, enquanto me despedia de tia Laura e dos primos Gil e Pepe e das primas Lita e Laurita. Meu filho Roberto havia permanecido em Tabatinga e, como não tivemos contato, eu desconhecia sua situação até o pouso do avião da Cruzeiro em Tabatinga. Ocupando o assento da janela, observava o embarque dos passageiros e, para meu prazer, vejo o filho na fila de embarque. Um amigo havia presenteado o garoto com a passagem. No dia seguinte ao desembarque em Manaus, compareci ao quartel para efetuar os registros de praxe; nessa ocasião soube que a corporação estava sob novo comando desde 04 de agosto.

O tenente-coronel EB Guilherme Vieira assumira a chefia, sendo o oitavo ocupante do cargo desde 1964. Aproveito para avaliar o desempenho da corporação, considerando a subordinação à Força Terrestre por quase vinte anos. O problema, entretanto, tinha contornos mais amplos: o movimento militar já dava sinais de enfraquecimento, indicando um distanciamento do Poder; como consequência, faltavam iniciativas no quartel, que passou a cumprir apenas rotinas. Para enredar ainda mais, no ano seguinte estavam marcadas as eleições para governador. Frente a esse cenário, o coronel Guilherme buscou se adaptar – desconhecia a região e os atores políticos locais – precisando formar uma equipe de oficiais que lhe oferecesse suporte. O comandante passou a residir em uma casa reservada à Polícia Militar, situada no Conjunto dos Secretários, próximo à rua Paraíba.

Entre as negociações imobiliárias que conduzi, comprei um apartamento no Conjunto ICA Paraíba, onde passei a morar, nas imediações da residência do comandante. Comecei esse processo vendendo a casa do Tiradentes, que ainda não estava totalmente quitada, mas situada fora do eixo central da cidade, distante do quartel central e de outros dois já existentes no bairro de Petrópolis. Além disso, a casa revelou-se excessivamente grande para um homem “solteiro”. Não me lembro se anunciei a venda, guardo apenas a lembrança do corretor Pantoja que, depois da negociação, tornou-se meu amigo. Ele tocou toda a transação, em 1981, a ponto de sequer ter conhecido pessoalmente o comprador. Sabendo de minha situação financeira, Pantoja propôs-me, em 1982, a compra de uma casa no Conjunto Santos Dumont, empreendimento erguido em 1980 que ainda carecia de infraestrutura básica, localizado na avenida Torquato Tapajós. O imóvel situava-se no cruzamento das ruas Comandante Theofilo Matos, 31, e Comandante Paulo Lasmar. Realizei esse negócio diretamente com a proprietária Elba Carvalho, solteira e funcionária do Tribunal de Contas, que demonstrou grande interesse no comprador, que renderia um casamento. Nesse endereço, ainda que por pouco tempo, passei a residir com a CVC.

domingo, outubro 18, 2026

POESIA DOMINICAL (49)

São dois poemas centenários de Jonas da Silva (1880-1947), circulados no Pathé Journal, inaugurado em 1921 em Manaus. As obras ilustram a edição de Natal de 1922, segundo ano de existência do periódico.

Pathé Journal nº 63, 25 dezembro 1922

Hoje, por ser domingo, eu de casa não saio,

Dando trégua ao labor, às lutas, à canseira:

Falo ao Alberto, o meu, não o Alberto Oliveira,

Proíbo-lhe o “foot-ball”, a rua, o “papagaio”.

 

-- “É nesta rua aqui, só na Treze de Maio”

Diz-me a Jandira – “Não! que é medonha a soalheira

(E os aviões de papel, uns, com a nossa bandeira,

Cruzam no ar, uns de “banda”, uns de “centro” e uns de “raio”...)

 

Ouço em cochicho os três e vem a pequenita,

É a caçula, é a que manda, é a que impera, é a realeza.

-- Ora deixe, papai, me diz a Sulamita;

 

Fosse a “mamãe deixava!” —Ó Força, Ó Tempestade!

Ó... essa razão final, que mata de tristeza,

                Ó argumento cruel que mata de saudade!...