FASCÍCULO 4
No segundo semestre de 1964, quando deixei o
Seminário São José, abandonei também a vocação sacerdotal que até então me
acompanhava como promessa duvidosa. Tinha dezoito anos e regressava ao lar dos
meus pais, na rua Amazonas, número 29, no Morro da Liberdade, trazendo na
bagagem apenas a escolaridade atualizada e uma sensação de vazio.
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| Título eleitoral emitido em 1966 |
Meu regresso, porém, foi marcado por desorientação.
Sentia-me como um “cachorro caído da mudança”, sem rumo, sem ofício aprendido. Uma
oportunidade surgiu pelas mãos de meu primo Vicente Pereira, que me levou à
loja de móveis onde trabalhava. Não havia vaga para vendedor, mas sim na
produção de cadeiras metálicas. Enfrentei o labor da soldagem sem proteção
adequada, e à noite meus olhos ardiam tanto que o sono me abandonou. No dia
seguinte, faltei. Ainda assim, ao final da semana recebi o ordenado e
desapareci. Foi a única vez que trabalhei na iniciativa privada; o destino me
reservaria apenas o caminho do serviço público.
Enquanto isso, os afazeres domésticos me consumiam.
O quintal imenso exigia cuidados, e os cães eram minha responsabilidade: Joli,
o caramelo valente que se tornara figura temida na vizinhança, e Branco, dócil
companheiro. Outra tarefa era o abastecimento de água obtida em cacimba do Buraco
da Vovó, a quinhentos metros de casa, carregando em latas de vinte litros
para encher o “camburão” – tambor metálico de duzentos litros — uma espécie de
cisterna improvisada.
Assim se desenhava minha juventude: entre o peso da
falta de escolhas, o suor das tarefas domésticas e a lenta construção de um
destino que ainda se insinuava sombrio.
Em 1965, aceitei o convite de Raimundo “Pau de
Barraca” — sobrinho de minha madrasta — para jogar futebol, e essa decisão
alterou o ritmo da minha rotina de desempregado. As peladas aconteciam num campo
improvisado, aberto no terreno baldio atrás do nosso sítio. Pela idade e pelo
porte físico, destoando dos meninos menores, fui escalado para a posição de
goleiro. Não me senti deslocado: no seminário já havia defendido as traves, e
ali me saí com firmeza. Ao cair da tarde, quando a turminha se reunia quase
diariamente, eu permanecia guardando o gol, como se fosse um posto de honra.
No Morro da Liberdade, os divertimentos eram raros,
mas o futebol acontecia com facilidade. Duas equipes se destacavam: o Bangu,
organizado por meu xará Roberto, praça do Exército; e o Botafogo, formado por
jovens da avenida São Pedro e adjacências. Fui convidado a uma reunião com os
botafoguenses, sediados na avenida São Pedro, hoje rua Tobias Barbosa.
Compareci com receio, temendo a frustração, mas ao final fui “contratado” para
defender o gol da equipe, apesar da minha estatura modesta de 1m64. O prestígio
me animava, e não faltava às peladas de domingo, ora no campo do Guanabara, em
Santa Luzia, ora no campo do Olaria, no próprio Morro da Liberdade. Esses
campos, hoje, já não existem: foram engolidos pelo progresso.
Antes de encerrar a contabilidade da minha jornada
esportiva, registro uma partida memorável no campo do Nacional FC, em
Adrianópolis. Essa experiência, aparentemente singela, acompanhou-me no futuro,
quando frequentei cursos militares no Rio e em Florianópolis. O futebol, mais
do que passatempo, foi aprendizado de disciplina, coragem e resiliência —
valores que se tornariam parte de minha caminhada.
Para cumprir um dos preceitos de meu padre-protetor,
Juarez Maia, apresentei-me ao Serviço Militar. Foi ali que o destino me
concedeu mais uma estrela, ao ser selecionado para o NPOR, justamente na fase
de reinstalação. O quartel do 27° BC, onde nos instalamos, funcionava de
maneira curiosa: instruções apenas nos finais de semana, improvisações que
revelavam a precariedade da estrutura.
A inspeção de saúde, por exemplo, ocorreu numa
enfermaria acanhada. Éramos cerca de trinta candidatos, perfilados lado a lado,
desnudos, enquanto o clínico se valia de embalagens de medicamentos guardadas
num armário envidraçado para realizar o exame visual. Chamados em ordem
alfabética, eram observados os rótulos expostos. Eu, que não distinguia bem os
nomes, memorizei-os e, assim, fui aprovado. Mas a deficiência visual logo se
denunciou: no primeiro tiro de fuzil, quase atingi o pé de um graduado. Ainda
assim, prossegui no curso, que logo adotou nova metodologia, com instruções
diárias.
Morando ainda no distante Morro da Liberdade,
precisava madrugar para alcançar o quartel no bairro de São Jorge. O transporte
era realizado no caminhão REO do Exército, abarrotado de recrutas. Na condição
de aluno do NPOR, eu tinha a primazia de viajar na boleia, sentindo o vento
frio da madrugada e a responsabilidade de uma epopeia que começava a moldar meu
futuro.
Ainda em 1965, enquanto aguardava o reinício do
NPOR, que lentamente se estruturava, abri-me aos convites que surgiam. A
vizinha Luzia — irmã de minha madrasta — havia adquirido uma canoa, com motor
de centro instalado, que permitia pequenas viagens pelos arredores de Manaus.
Assumi a condução do barco e, numa dessas excursões, seguimos até o lago do
Puraquequara. Pernoitei ali com as primas — razão imediata de meu entusiasmo
pela aventura — mas a noite nos reservou um tormento: os carapanãs, como
chamamos na Amazônia os pernilongos, nos açoitaram sem piedade. O resultado foi
a malária, que nos abateu a todos. Nem os remédios caseiros, nem as rezas
fortes bastaram. A febre alta e os calafrios me levaram ao Posto de Saúde, onde
um exame de sangue revelou a gravidade. A cura veio, enfim, pela medicação
alopática.
Recuperado, enfrentei nova provação. Ao visitar a
BR-174, ainda em construção — rodovia que ligaria Manaus a Rio Branco — fui
atraído pelo desejo de ver a sobrinha de minha madrasta, residente no Km 5,
próximo ao igarapé do Leão. Mas antes que a enfermidade se revelasse, guardo um
episódio curioso do Dia de Finados daquele ano. Levantei-me cedo na casa da
prima e caminhei até a Ponte da Bolívia, que distava quinze quilômetros de
Manaus, para tomar o ônibus. O feriado, porém, suspendera o coletivo. Após
cinco quilômetros de caminhada até a ponte, retomei a estrada e, dez
quilômetros adiante, finalmente alcancei um ônibus. Enquanto a família já se
encontrava no cemitério São João Batista, reverenciando nossos mortos, eu
chegava tarde, cansado, e recebi a reprimenda de meu saudoso pai.
Deduzi que a nova enfermidade resultara da abertura
de clareiras na floresta, durante a construção da rodovia. O ambiente
despertava enxames de insetos e mosquitos, e um deles me transmitiu a leishmaniose.
As úlceras na pele deixaram marcas que ainda hoje recordam o diagnóstico emitido
pelo INPA, em implantação, e o tratamento realizado no Hospital da Guarnição de
Manaus, onde fui atendido por ser o aluno 111 do NPOR.
| Aluno 111 Roberto, primeiro à esq. , em pé |
À medida que o curso se aproximava do fim, os
futuros oficiais R/2 buscavam abrigo seguro para o estágio obrigatório. O
colega Amílcar Ferreira, vizinho do comandante da Polícia Militar do Amazonas,
levou a ideia de servir naquela corporação. Apesar do regime militar instalado
em 1964, o quartel da Praça da Polícia enfrentava dificuldades: efetivo
reduzido, carências diversas, um ambiente de luta constante. Com os colegas de
curso, visitei o quartel da PM e, mesmo diante da atmosfera desanimadora,
deixamos nossos nomes numa lista de eventual aproveitamento. O destino, afinal,
nos acolheu.
Concluí o curso em março de 1966, conquistando o 9º
lugar na Turma Ajuricaba, entre dezessete formandos. A solenidade ocorreu no
pátio do quartel, e para a ocasião consegui uma madrinha de formatura — uma
“fada”, como se dizia. Não sei ao certo como alcancei tal graça; talvez pelo
marido, o major Hércules, um gigante que servia na mesma unidade. A beleza da
senhora encantou os formandos, que não cessavam de me interrogar sobre sua
origem.
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| Na formatura do curso, março de 1966 |
O baile de formatura, realizado no Ideal Clube, não
contou com minha presença. A indigência financeira me impediu de comparecer.
Mas, ainda assim, a formatura marcou um capítulo decisivo: encerrava-se uma
etapa de aprendizado e disciplina, e abria-se diante de mim o horizonte da vida
militar e da própria existência.



