Nesse tecido, repousa o
primeiro ano de vida — o único em que recebi o calor humano de Dona Francisca
Pereira Lima e, numa única vez, tive a honra de passar o Dia das Mães e o meu primeiro
aniversário ao seu lado. Mas não me considero um desafortunado, pois sei que
fui plasmado pelo seu amor maternal. E isso não se apaga da memória afetiva,
nem me afasta do prazer de sentir que tive uma infância venturosa; sinto-me
iluminado pelo carinho de meu pai, de minha madrasta, dos sete irmãos e da avó
paterna, que se fez tutora e guardiã, precursora da luz que acendeu meu
discernimento.
Hoje, faço questão de
afirmar que vivo a Idade da Luz. Uma idade que não se mede em anos, mas
em sabedoria, sobriedade e discernimento. É como se, ao alcançar este marco, os
olhos começassem a divisar ao longe um ponto luminoso, uma estrela que brilha
no fim da estrada. Muitas estrelas que iluminaram minha vida ainda brilham no
infinito. É para lá que caminhamos, guiados pelos ensinamentos de Cristo, rumo
ao fulgor eterno que nos espera. E temos que ter resignação e consciência dessa
missão que rege nossa existência.
Podemos fazer também outras
analogias da existência humana. A mais otimista é com as estações do ano —
admitindo que a minha teoria renatodiana esteja conectada aos mecanismos
da vida —, imagino que o homem pode viver até um centenário com sua
cognição intacta e livre de outras doenças neurológicas. Podemos esmiuçar essa
teoria, separando os períodos existenciais em ciclos de vinte e cinco anos
cada. Uma divisão matemática equitativa e perfeitamente plausível, sendo que o
último ciclo é totalmente incerto.
Se for assim, no dia de
hoje eu estarei começando a viver meu último sol de outono, ainda com muita luz
e calor. Para os próximos dias, se conseguir assimilar as bênçãos
divinas, estarei vivendo a incipiência da fase invernal. E aí sim, envolvido
pelo frio existencial em que o calor humano se torna apenas cálido, a chama
espiritual deverá estar sempre acesa para aquecer o coração e o dotar de uma
luz resplandecente.
E para celebrar esse
momento de luz, quis comemorar meu aniversário com minha mãe, minha avó, meu pai
e minha madrasta, aos pés dos túmulos que os acolheram. Sei que estão sempre presentes
espiritualmente ao meu lado, porém desejei estar próximo fisicamente.
O ser humano não precisa
se preocupar com essas teorias aparentemente conspiradoras da convivência humana
na face da Terra. Quando atingimos essa marca do tempo, algo me diz que
precisamos de sabedoria para lidar com o envelhecimento. E isso deve ser
encarado com naturalidade, como em um jogo de futebol. Ao término da partida,
voltaremos para casa — de onde saímos para viver o momento lúdico da vida, partilhado
com outros que têm mesma afinidade. Ficamos felizes quando ganhamos. Mas a
vitória não está no placar, e sim em termos seguido o Mestre — Jesus Cristo,
nosso técnico e guia — ele nos ensina que a verdadeira felicidade é fazer os
outros felizes, ao adotarmos e praticarmos seus ensinamentos, no intuito de
proporcionar o bem-estar comum.
Qualquer que seja o
inverno, deve ser encarado com estoicismo e com altivez. Outras virtudes
podemos recorrer e acrescentá-las à nossa cota de agasalhos para suportar o
tempo invernal que certamente nos envolverá. Não só o discernimento nos
aliviará da tortura da iminência da degradação humana, o altruísmo também nos
incitará à preocupação com o outro, de forma que poderemos nos desvestir do
egoísmo, tão prejudicial para a convivência social.
O tempo não é um inimigo,
ele está no rol dos nossos bons presságios, é um companheiro discreto que nos
lembra da urgência de amar, viver em abundância o amor e a fé. Precisamos
convidá-lo para sentar à mesa ao nosso lado, para sentirmos sua fruição prazerosa.
Nesse dia,
inevitavelmente, cada lembrança dos entes queridos passados é uma estrela acesa
no céu da memória. Algumas brilham intensamente, outras se escondem em
constelações distantes, mas todas compõem o mapa que me orienta. E quando penso
no futuro, não o vejo como utopia, mas como horizonte: um campo aberto onde uma
luz distante se insinua.
O inverno que se
aproxima não é ocaso, pode ser outra aurora de encantos. Será tempo de
contemplar o que foi construído sem pressa; de aquecer-se na lareira da fé; de
vestir o manto da solidariedade e ajudar o nosso semelhante. O verdadeiro
sentido da vida não está apenas em prolongar os dias, mas em torná-los
luminosos para os que caminham ao nosso lado.
Assim, sigo celebrando
cada ciclo como quem folheia um livro sagrado. A primavera ensinou-me a sonhar,
o verão a construir, o outono a colher, e o inverno me ensinará a contemplar.
Mas em todas as estações, a luz permanece: ora intensa, ora tênue, mas sempre
presente.
A vida, quando vista em
retrospecto, revela-se como um mosaico de instantes que se entrelaçam em
silêncio. Cada gesto, cada olhar, cada palavra guardado compõe um enigma que só
o coração sabe decifrar. Ao completar mais um ano, percebo que não caminho
sozinho: trago comigo todas as vozes que me formaram, todos os afetos que me
sustentaram, todas as luzes que me guiaram.
Há uma beleza discreta
em envelhecer. Não é apenas o lógico acúmulo de dias, mas o sutil florescer da
consciência. É como se o tempo, em sua delicadeza, fosse polindo a alma até que
ela brilhe com uma luz serena. O corpo pode sentir o peso das estações, mas o
espírito se torna leve, como uma pluma dançando ao vento. E quando honramos as
verdades de Deus, vemos também o brilho de uma luz intensa que ilumina nossa caminhada.
Usando uma expressão do
Gênesis: Fiat Lux!