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| Igreja de São Raimundo Nonato |
PONTO
DE VISTA
“Não desprezamos o comentário de alguns e críticas
de outros de que o bairro de São Raimundo poderia estar numa situação mais
privilegiada, tanto no setor econômico, quanto no aspecto social, não fosse a falta
de raciocínio lógico por parte de alguns que se deixaram vencer pelo pessimismo.
E isto é
comprovado por razões convenientes”, esclareceu o advogado Antonio do Carmo Moreira
Filho (Rua Padre Francisco, 151) que nasceu e se criou na Colina. Com sacrifício ele
conseguiu se formar em 69. Ele tem 34 anos e diz que “quando Manaus apenas engatinha
em busca do progresso, a bonança financeira se expandiu neste bairro, pois São Raimundo
figurava como o principal centro de distribuição e exportação do maior gênero de
consumo alimentício (bovino, suíno e caprino), uma vez que 80% dos moradoras
mantinham o sustentáculo financeiro, através do Matadouro Municipal de Manaus.”
“Construíram o campo da Colina, moderna sede
social, praças públicas. Renovaram a Igreja de São Raimundo Nonato, hoje
considerada uma das mais belas da Zona Franca e que serve de atração turística.
Modernizaram o sistema de esgoto e o teatro para uma lotação de mais de 500 pessoas,
enfim o bairro ganhou um aspecto invejável pela sua vida própria. “Todavia -
prosseguiu - sem apontar diretamente os seus responsáveis, a carência de uma visão
mais ampla na área educacional, na época, praticamente nada se fez, e isso como
não poderia deixar de acontecer, acarretou saldos negativos”. Frisa o causídico
que “enquanto uma minoria educava os filhos em outros centros, visto que Manaus
possuía apenas a Faculdade de Direito, a maioria não atentava para este fator.
Mas, pela graça de Deus, a maior parte da juventude se evoluiu pela boa vontade,
abnegação ao aprimoramento da cultura e zelo patrimonial, o que transcenderam a
imagem positiva do povo colinense”.
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| Título da reportagem de A Crítica, 26 julho 1976 |
Hoje, ainda se prima pela união das
famílias sanraimundenses, sem divergências de classes. Médicos, engenheiros,
jornalistas, economistas, universitários, a classe operária e outros
profissionais contribuem ao engrandecimento do subúrbio e
ao mesmo tempo conservam suas tradições, muito embora não exista mais a
rivalidade entre os dois principais clubes, São Raimundo e Sul América. O
famoso “Galo Preto”, mesmo a despeito da força de divulgação do futebol, não
traz mais aquele delírio alucinante dos torcedores. “Tudo se modifica com o
tempo. Gosto de futebol e torço pela vitória de qualquer um. Afinal, a vitória
é nossa, do bairro de São Raimundo”, acentuou o comerciário Uziel Dourado (26
anos), afirmando que o óbvio é se construir o presente”. O ex-jogador de
futebol Alfredo Correia Lima, o conhecido Fredoca, é hoje comerciante e
proprietário do “Bar Canto do Tufão”, onde noturnamente se reúne a turma boêmia.
Fredoca relembra os seus tempos áureos do futebol e seu fã no bairro de São Raimundo,
frisando que “a juventude atual tem os mesmos costumes da passada”. “A
rivalidade entre os dois clubes ainda existe. Apenas se conserva com outro
senso, pois temos outras tarefas a desenvolver e o tempo é muito curto”,
salientou. Na Rua 5 de Setembro se encontra o “Bar São Francisco” que pertence
a um sulamericano. O “Bar São Francisco” é dirigido pelo ex-jogador do Sul América
Esporte Clube, Aristides Nonato, que desde a sua juventude se firmou como
comerciante. (...)
Outras pessoas opinaram sobre o bairro de São
Raimundo, que em parte foi abalado com a extinção do Matadouro de Manaus, pois
muitos moradores ficaram desprotegidos financeiramente. Aproximadamente 300
pais de família sofreram o impacto, uma vez que eles se acostumaram tão somente
a lidar com serviços rotineiros do matadouro.
“O próprio Frigomasa não corresponde com as
perspectivas da classe de magarefe. A minha produção caiu
em quase 100%”, afirmou o magarefe José Inácio da Costa Oliveira (Rua do Rosario,
714A, que atualmente também trabalha como vigia no Distrito Industrial. Declarou
que ganhava na faixa de 8 mil cruzeiros e atualmente “dou graças a Deus”, quando
ganho a metade. José
Inácio é casado
com Marilda Alves Oliveira e possui quatro filhos menores que estudam no Grupo Escolar
São Luiz de Gonzaga. O magarefe Manoel da Silva Macedo (Rua da Cachoeira, 471)
trabalha no mercado do Bairro da Glória e possui uma estância de seis quartos,
no beco da Cachoeira. Mesmo assim, ele afirma que sente dificuldade financeira,
pela falta constante de venda do produto. (...)
PRIVILÉGIO
Porém, existem outras classes privilegiadas
financeiramente que procuram oferecer melhor social ao bairro, construindo
casas modernas e prestigiando os próprios clubes, São Raimundo e Sul América. O primeiro dirigido pelo vereador Arenista Raimundo
do Vale Sena e o segundo pelo chargista João Miranda. Embora sem confirmação oficial,
comenta-se que a sede social do São Raimundo será de dois andares, para que os
seus associados e simpatizantes tenham melhores bailes domingueiros, chouparias,
churrascaria e boate. Esta nova arrancada, marca o progresso do bairro.
As ruas do Bairro de São Raimundo são quase
todas asfaltadas com um sistema de iluminação perfeita. A praça principal ganha
melhor aspecto, porque nela está situada a Igreja de São Raimundo Nonato,
ladeada pelo Convento das Irmãs Franciscanas de Maria e a casa paroquial. O serviço
de transporte coletivo atende as necessidades dos moradores e poderá sofrer
alteração, pois o prefeito Jorge Teixeira garante que será construída a ponte
que interligará São Raimundo com o centro da cidade. (...)
EDUCAÇÃO
Existem fatos que marcam a existência do
Bairro de São Raimundo, onde muitos moços se definiram profissionalmente. E
hoje, é travada uma nova luta em busca de um futuro mais próspero por parte da
juventude que, com maiores chances de conseguir emprego, procura atingir o
campo universitário ou se estabilizar numa profissão rendosa. 50% por cento dos
jovens da Colina são comerciários, industriários ou escriturários, trabalham
oito horas por dia e estudam na parte noturna. Outros são bancários, funcionários
de repartições públicas e não escondem o temor pela “guerra” do vestibular.
(...)
FRATERNIDADE
Com o pensamento de que somente através do
zelo espiritual se atinge a meta de Deus e, consequentemente, a felicidade,
pelo respeito e amor ao próximo, a evolução do tempo e o progresso não
atingiram o espírito religioso da maioria do povo colinense que aos domingos
assiste missa celebrada pelo Padre Teodoro, atual Vigário da Paróquia que
sempre procurou orientar a juventude pela causa da religião. Com a aproximação do
dia consagrado a São Raimundo Nonato, a população com mais frequência comparece
no templo religioso para pagar ou fazer promessas e deixar sua contribuição
para a realização do tradicional arraial, comandado pelos rapazes da Juventude
Atlética Paroquial (JAP) e moradores selecionados pelo próprio vigário da
paróquia.
A passagem da data consagrada ao padroeiro também
faz lembrar o maior desastre já registrado na Colina, há 24 anos, quando anais mais
de 30 casas foram destruídas por um incêndio, sem, contudo, se registrar vítimas.
As famílias desabrigadas ficaram depois morando provisoriamente num casarão
erguido onde hoje está situada a sede social do São Raimundo Esporte Clube.
O arraial de São Raimundo se mantém com a
disputa das rainhas, em busca do título máximo - cada uma representa as
respectivas ruas - das tradicionais famílias sanraimundenses, principalmente no
último dia dos festejos, quando se realiza a procissão. Conserva-se neste dia o
enlace fraternal das famílias Queiroz, Bessa, Rebouças, Melo, Correia Lima,
Gonçalves, Ribeiro e tantas outras. As jovens dão o colírio da rapaziada.

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