Renato Mendonça
Casos recentes de violência contra mulheres têm exposto, como feridas abertas, a dimensão da misoginia que atravessa o país. Entre os episódios mais marcantes está o feminicídio da policial militar Juliana Lopes, em São Paulo — assassinada pelo próprio companheiro, um tenente-coronel da corporação, que nem vale a pena citar seu nome. O crime, brutal em sua essência, chocou a opinião pública e reacendeu o debate sobre a violência de gênero, revelando que até instituições que deveriam proteger a vida podem abrigar a sombra da opressão e da falta de ética humana.
Outro episódio que ganhou repercussão
nacional foi o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro. A
barbárie, além de física, se prolonga no espaço virtual: vídeos no TikTok
simulando ataques a mulheres que rejeitam relacionamentos circulam como ecos de
um ódio que se multiplica. São sombras projetadas em telas, alimentando a
cultura do feminicídio e reforçando padrões de desprezo que transformam o corpo
feminino em território de violência.
Pesquisas acadêmicas revelam a profundidade
desse abismo. A Fundação Getúlio Vargas identificou 85 comunidades virtuais com
conteúdo misógino explícito ou disfarçado. A Universidade Federal do Rio de
Janeiro mapeou mais de 130 mil canais no YouTube propagando discursos de ódio
contra mulheres. Esses espaços, travestidos de fóruns de autoajuda ou fitness,
funcionam como cavernas obscuras — ambientes hospedeiros de radicalização
machista, onde adolescentes são seduzidos pelos fantasmas da superioridade
masculina.
O psicólogo social Benedito Medrado Dantas
sugere que a intensificação do ódio seria reação à emancipação feminina. A
explicação, contudo, soa incongruente: nas cidades, a autonomia da mulher já se
consolidava há décadas, sem que se visse tamanha violência. Outros analistas
apontam fatores mais concretos — como a liberação e facilidade para compra de
armas, principalmente no governo anterior — que ampliam a sensação de poder
entre grupos misóginos. Armas, nesse contexto, tornam-se prolongamentos da
misoginia, instrumentos que transformam o ódio em morte.
Em comum, há o reconhecimento de que se
trata de um problema estrutural, atravessando diferentes camadas sociais.
Organizações de defesa dos direitos das mulheres, respaldadas por grupos
sociais humanísticos, defendem medidas legais e severas contra lideranças
desses grupos e maior regulação das plataformas digitais — as big techs
que, invariavelmente, lucram com a disseminação do ódio. A tipificação da
misoginia como crime é apontada como passo necessário — e extremamente urgente —,
ao lado de políticas públicas de prevenção e campanhas de conscientização.
Enquanto isso, cresce a preocupação com a
adesão de jovens às comunidades virtuais que promovem a superioridade masculina.
Sem resposta firme do Estado e das empresas de tecnologia, o país continuará a
assistir à expansão de uma cultura que legitima a violência contra mulheres —
uma cultura que transforma sombras em realidade, discursos em sangue feminino.
No tempo de nossos avós, práticas como
essas eram inconcebíveis. O criminoso tornava-se pária, rejeitado até pelos
familiares. Hoje, a mídia muitas vezes tenta normalizar feminicídios, buscando
culpados externos à própria índole do homem. O que se vê é uma degradação da
condição humana, um esvaziamento da ética e da empatia.
A misoginia é um vírus endêmico que se
espalha silencioso. O feminicídio, sua patologia social mais cruel; é a prova
de que não basta denunciar: é preciso extirpar o mal, expor os sintomas e substituí-los
pela luz da equidade. Cada mulher assassinada é uma biblioteca incendiada, uma
história interrompida, uma esperança que se perde e uma geração de vida que se
esvai.
Enquanto a sociedade não se levantar contra essa cultura nefasta, continuará a viver entre cinzas, silêncios e obscurantismo.

