CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, setembro 04, 2026

VIAGEM NO TEMPO (7)

 

 

A partida 

Renato Mendonça

18.07.2026

 Na véspera da partida, o ritual de acomodação da bagagem nas malas revelou sua insuficiência — como se a bagagem tivesse tomado fermento e nunca fosse capaz de conter tudo o que uma jornada guarda. Logo ao amanhecer, quando o comércio abriu suas portas, na Avenida Sete, uma loja de departamentos nos socorreu. Pelo tamanho da loja de dois pavimentos grandes, pensamos tratar-se de chineses, mas a atendente de caixa nos assegurou que o proprietário era do Amapá. Pensei com meus botões que ali precisaria ter um movimento compatível com o investimento.

Não demoramos a escolher os produtos, pois havia a ameaça do relógio: o navio partiria às onze, e o trânsito matinal de Manaus, somado à burocracia desconhecida dos portos, parecia um desafio maior do que o recibo de nossa compra de passagens — tão simples quanto a sinuosidade dos rios.

Roberto, sempre cordial nos buscou no hotel e, com a serenidade de quem conhece o ritmo da cidade, logo encontrou um espaço para estacionar. O Ana Beatriz, com capacidade para 700 passageiros, já nos aguardava, imponente, de motor ligado. O acesso à plataforma de embarque revelou-se surpreendentemente bucólico. Passamos pelo convés inferior, abarrotado de carros usados e motos novas e reluzentes, como se o navio fosse também um armazenador de sonhos sobre rodas.

Nos conveses superiores, redes de dormir se multiplicavam como se fosse um jardim de flores multicoloridas, testemunhas silenciosas da vida de ribeirinhos e outros de classe menos favorecida. Naquele frenesi de pais e crianças para achar um espaço minimamente confortável. Havia a terceira classe, marcada por essa simplicidade, mas também a segunda, com a mesma ciranda de redes, climatizada, onde o ar parecia oferecer um pouco mais de conforto.

Nosso camarote nos recebeu sem demora, e ficamos à espera da partida, que se atrasou uma hora. Pensei: talvez seja uma forma de tolerância amazônica com os navegantes, um gesto de compaixão para os que correm contra o tempo. Diferente dos aviões, onde a pressa é lei, aqui o rio ensina que o fluxo pode esperar.

Enquanto aguardávamos a hora da partida, eu, Roberto e Alda explorávamos os recantos da embarcação. No olhar de meu irmão, percebi o brilho da missão cumprida: levar-nos até ali, oferecer-nos horas de convivência familiar com ócio elegante. Mas havia também um desejo contido, quase secreto, de um dia embarcar nessa travessia como protagonista. O sol brilhava sem a tirania do calor, e a atmosfera fraternal parecia dar forma a esse anseio.

Ana Beatriz IV - ferry boat e navio regional


Ao meio-dia, no dia 2 de julho, o Ana Beatriz finalmente soltou as amarras e se desprendeu do porto. À medida que o navio se afastava, vi surgir, ao longe, o bairro Educandos — o território da minha infância, onde aprendi a vencer monstros invisíveis e a dar nome ao medo. Aquele pedaço de chão, agora visto de fora, parecia acenar silenciosamente para mim. Não houve lenço branco, mas houve despedida, sim: dissimulada, íntima, gravada no coração.

E compreendi que partir não é apenas deslocar-se no espaço físico. É também reconhecer que cada embarque — nessas circunstâncias, lenta e singular — é uma metáfora da vida: sempre carregamos menos do que gostaríamos; sempre deixamos algo para trás e sempre seguiremos adiante com a esperança de que o rio possa nos conduzir a novas margens, mas nos traga de volta, sempre que a saudade exigir.

Manaus, com sua história e meus conterrâneos, tornou-se espelho da minha própria trajetória. E ao deixar a cidade, percebi que não levava apenas lembranças: levava comigo a certeza de que o passado, quando revisitado com emoção, se transforma em presente eterno — o melhor presente.

quarta-feira, setembro 02, 2026

MEUS OITENTANOS (16)

 

FASCÍCULO 16 

Em se tratando de viagem ao exterior, conservo outra desventura. Ainda no comando da Rádio Patrulha, em novembro de 1978, fui indicado juntamente com o major Romeu Medeiros para acompanhar uma delegação de oficiais brasileiros ao Chile. Tratei de aprontar a documentação exigida, em especial o passaporte; de atualizar os conhecimentos sobre aquele país; rever minhas lições de espanhol, enfim, cuidar do uniforme próprio para o clima andino. Quando tudo ficou acabado, eis que o Chile e a Argentina iniciam a disputa por três ilhas no Canal de Beagle. Pouco a pouco a crise evoluiu, até o ponto de escalar tropas na fronteira, além de navios na região; diante da profundeza da crise, o Ministério da Guerra cancelou a visita. Desse modo, arquivei o passaporte.


     Nesse período, ocupei a casa deixada por meus pais no Morro e, sempre que curtia uma solteirice, utilizava as dependências do gabinete do comandante da RP. A morada necessitava de reparos, para tanto contratei o carpinteiro alcunhado de “orelhinha”, alcunha decorrente da deformação da orelha direita. Conversei com ele, sempre antes de minha saída para o quartel, quando me informava das obras a executar naquele dia; estranhamente, quando eu retornava ao fim da tarde, nada havia sido realizado. Dia seguinte, o profissional me explicava que faltara isso e aquilo. No entanto, contaram-me os vizinhos, quando eu seguia para o trabalho, “orelhinha” desaparecia. Outra questão relativa à casa construída em vasto terreno de 1.200m2, em nome da minha madrasta Doroteia que com a família havia se mudado para Santos-SP. Idealizei comprar a terra e a habitação, acertando o valor com ela com pagamento em parcelas. O trato seguia, até que consultando um advogado, este me lembrou de a impossibilidade desse negócio prosperar, porque havia seis irmãos herdeiros. Desisti, mas fui encarregado pela dona de vender a propriedade, tão logo anunciei, passou ao novo dono. A venda foi efetuada em 12 de novembro de 1989.

Rua Amazonas, 29 - Morro da Liberdade

Alojado no quartel surge uma lembrança comovente da maternidade vizinha: quase sempre que chegava ao quartel altas horas, escutava os lamentos das parturientes. Ouvi as promessas mais absurdas, como jamais voltar a crer no boto doméstico; em outras ocasiões eram queixas de desalento pela falta de conforto hospitalar. A então Maternidade Ana Nery havia sido instalada como Balbina Mestrinho, em 1960, em uma porção do terreno pertencente à Polícia Militar. Dessa proximidade resultava o alarido que se ouvia nas madrugadas. Outra questão que me incomodava era a caça feminina aos policiais. Esclareço: o único meio de contato disponível era o telefone, cuja linha permanecia, durante o expediente, no meu gabinete; eu quase sempre atendia às chamadas. E, ao ser questionado pelo soldado fulano, respondia que ele estava “de serviço na área B”; e o sicrano, onde se encontra? – “de folga”, eu arriscava. Ainda ocorria de dizer “em serviço na área B” e a pretendente, com ênfase, me corrigir, “ele só tira serviço na área C!” – e assim por diante. Agora, a questão que me afligia: quais atributos dispunham os policiais para empolgar tantas jovens? Optei por não encontrar.

Um episódio político-policial provocou-me emoções fortes: ocorreu durante a visita do então príncipe-herdeiro japonês Hiroito ao Brasil, hoje imperador emérito. O fato deu-se no segundo semestre de 1978. Como o Amazonas figurava na agenda, fui escolhido para compor o grupo de segurança, no comando da Rádio Patrulha; para isso ocorreram várias reuniões e encontros coordenados pelo CMA. Em uma dessas reuniões, distribuíram-se encartes com fotos de vários suspeitos, todos japoneses. Depois de observá-las repetidamente e sem conseguir acrescentar qualquer que os diferenciasse, sorri ante a impressão de que todos os japoneses se parecem. No dia marcado, após atravessarmos o rio Negro de balsa e desembarcarmos em Cacau Pirera, seguimos pela estrada Manuel Urbano (Manaus-Manacapuru) até a colônia japonesa. Nesse local assisti a um rito devocional que me deixou surpreso e com admiração duradoura: os japoneses – os mais idosos – curvaram-se à passagem do príncipe e acompanharam toda a solenidade nessa postura, sempre de cabeça baixa.

O extrovertido tenente Humberto Crispim, dotado de contumaz conversa comercial, insistiu comigo para me vender um automóvel; de fato, aquele Fusca que usava estava em pandarecos. Conversa vai e vem, apresentou-me a um Karmann Ghia TC, veículo VW clássico esportivo, bastante buscado pelos jovens arrebatados; não me agradou, ainda assim, ele rogou que fizesse um “test drive”. Tão logo sentei no banco, tive a sensação de que estava arrastando o traseiro no asfalto. Ao ultrapassar um ônibus, o pânico se apoderou de mim, julguei-me dirigindo debaixo do coletivo. Desisti. Então, ele me trouxe a VW Brasília, uma perua então bem aceita, de placa ZG 94-32, que tão logo vi, me apaixonei basicamente pela cor – dourada, certamente a única na cidade. Com ela fui para São Paulo, depois para o Rio, onde passei o ano seguinte, e ali foi vendida.


Para comemorar a passagem do ano no quartel, organizei uma festa para todos os subalternos e afixei no portão centenário existente no pátio uma árvore de Natal estilizada, gesto que me deixou, de certo modo, bastante envaidecido, pois aquela decoração jamais foi repetida. O comando da Polícia organizou para os oficiais um baile nos salões do Rio Negro Clube, presente o governador Henoch Reis e convidados. De minha parte, convidei a Celia C., aquela jovem que conheci no Detran em 1974, e, obsequiado pelo meu comandante do batalhão, ocupamos a mesma mesa, Lustosa com a digníssima esposa. Encerradas as festas, acabei por adquirir passagens e viajei a São Paulo para encontrar meus familiares, já sabedor da minha matrícula no Curso de Técnica de Ensino, no Centro de Estudos de Pessoal (CEP), localizado no Rio.

 

Única foto dos irmãos e pais reunidos - Natal 1978

Durante as comemorações com a família, consegui dois feitos: primeiro, ao avisar que estaria no Rio no ano vindouro, pedi a meu pai que mantivesse a família em Santos; o pedido recebeu pronto acolhimento, já que os irmãos não queriam retornar a Manaus. O segundo feito foi a realização de uma fotografia no endereço familiar, no bairro do Orquidário, em Santos, reunindo todos os filhos e até um neto, junto de nossos pais. Uma reunião similar nunca mais se conseguiu realizar. Após meu retorno a Manaus, no começo de 1979, comecei a preparar a viagem para frequentar o curso, no Rio.

terça-feira, setembro 01, 2026

PASSEIO DE BONDE EM MANAUS

 A postagem celebra quem aproveitou o bom tempo, transcrevendo a cronista Beth Azize que, em sua coluna publicada há pouco mais de 50 anos, recorda com detalhes o passeio de Bonde. Agradeço ao Ed Lincon, enamorado por esse meio de transporte, apesar de nunca ter utilizado, mas preserva a lembrança de família, pois seu avô foi motorneiro da Manáos Tramways. 

Bonde circulado em Manaus, até 1957



Recorte da coluna publicada em A Crítica, 30 agosto 1975

Domingo, 4 horas da tarde. “Vai tomar banho menina, senão vais perder a volta de bonde”. Todos os domingos à tarde, numa época que já vai bem longe, mas continua próxima na lembrança, as moças casadoiras, vestidos de frufru, laços nas cadeiras, sombrinhas rendilhadas, tomavam o bonde na estação para se exibirem aos pretensos pretendentes que, de chapéu de coco e bengala, “flertavam” sobre os trilhos.

O costume se transferiu para uma outra geração. E ainda na década de quarenta [1940], toda a turma que já sabia se vestir e pentear o cabelo sem ajuda da mãe, ficava esperando, com ansiedade, a volta de bonde, no Circular Cachoeirinha ou Flores, ou nos Remédios.

A garotada subia pelos estribos com alvoroço. Papai advertia: “vê se vocês não vão cair”. A briga começava pela ponta do banco. Todo mundo queria ficar na extremidade dos bancos de madeira envernizada, pra ver melhor a rua e as pessoas. Era uma euforia quase histérica. Mas numa história de crianças, como se tivéssemos a caminho da Lua, numa nave espacial.

Essa mesma sensação tive quando andei pela primeira vez no Zepelim, um ônibus com feitio de avião ou foguete que por cá apareceu e depois desapareceu por encanto, como a nossa meninice. Mamãe me conta que “no seu tempo” as moças andavam de sombrinhas abertas nos bondes e os rapazes começavam o namoro elogiando a sombrinha.

E ela bem se lembra que papai a viu pela primeira vez com uma sombrinha de bordados e cor marrom. O seu Rafa, muito vivo, sabendo-a coquete foi logo jogando seda pra sombrinha que era o instrumento que melhor servia pras mocinhas fazerem charme e gesto de conquista. Deu certo. Conosco a coisa mudava de feitio. Éramos bem crianças e a nossa sensação tinha que ser diferente, claro.

Quando o bonde chegava no ponto final, tínhamos que esperar a hora para a volta e nesse intervalo fazia-se a compra dos doces, do rala-rala, do alfenim, do gergelim, do pirulito. E no regresso, chupando o pirulito que começava a perder sua forma e o açúcar, vendo o bonde conquistar os metros de trilho de volta, torcíamos no íntimo mais escondido para que a viagem não tivesse fim.

No estribo o cobrador passava, uma mão na alça metálica, outra com o dinheiro todo dobradinho e a sacola pendurada na cintura, cheia de moedas. “Leva!” Ou então, “Ten-tem”. E o bonde parava nos pontos certos, fazendo ranger sobre os trilhos uma música tão familiar.

Na hora da descida, quando o passeio terminava, outra confusão agitava a mente da turma endiabrada. Ao invés de esperar-se o bonde parar de todo, um instinto de impetuosidade nos levava a saltar com ele ainda em movimento. Era uma delícia. Mas quando se chegava em casa a dedo-duro da família já subia as escadas gritando: “Mamãe, fulana e fulano ‘morcegaram’ o bonde!” E o cinturão ou a chinela cantava no lombo. “Seu condutor, tin-tin, seu condutor, tin-tin, para o bonde...”