CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, julho 03, 2026

MANAUS: ROADWAY OU RODO

 Ontem, depois de longo período, voltei ao porto de Manaus para despedir do meu irmão Renato e sua Alda, que partiam para Santarém na primeira etapa da viagem de retorno ao Rio. Entrei no barco, que mais parecia um transatlântico, e as surpresas se sucederam: a quantidade de redes, de um lado, o setor refrigerado, de outro, à brisa fluvial; e os camarotes e até as suítes. O tempo estava e continua excelente para viajar neste mundão de águas.

Adjacências do Porto


Para me despedir, esqueci o lenço branco, por isso, ofertei aos viajantes o poema aqui postado, obra do saudoso padre-poeta L. Ruas (1931-2000).

 

Recorte do texto publicado em Poesia
Reunida
de L. Ruas (2013).

Crônica romântica de adeus ao Roadway

L. Ruas

Posto que, sendo porto, / Sempre foste caminho de partida / Ou barco de ferro e pinho / Que os ingleses ancoraram / Nas margens do rio Negro. / Era “roadway” britânico caminho / Flutuando / Nas índias águas do rio / Que viu, espantado, surgir / No meio da selva bruta / Onde ainda ecoavam nítidos / Os rudes sons dos Manaus, / Uma clareira de sonhos, / De látex e de libras esterlinas. 

Foste “roadway” e “rodo” / Mas, posto que sempre foste / Porto — caminho de partida / Também foste caminho de chegada. / (De chegada mais, talvez, que de partida). / Pela ponte de pinho / Louro e de negro ferro / Legiões de marujos desfilaram / E de artistas, empresários e turistas / De além-mar chegados, fascinados / Pelo encanto da floresta-mãe / Onde se arrancava das tetas vegetais / O leite branco que se mudava em ouro. 

Francesas, espanholas e polacas, / Para gozar nas camas dos bordéis / O ouro fácil em que se transmudara / O sangue, o suor, a febre delirante / Dos seringueiros — párias do Nordeste. 

E foi por tua ponte flutuante / Que chegaram as “levas” nordestinas / Dos “brabos”, dos “soldados da borracha” / Que seguiam encantados, enganados, / Para os “centros” — distantes seringais / Do Purus, Acre, Madeira e Juruá / Onde findavam — finavam — escravizados. 

Passarelas de dor e sofrimento! / Passarela de luxo, amor e sonho! / No teu ritmo binário que acompanha / O ritmo binário deste rio / Que todo ano sempre sobe e desce, / Também foste termômetro da morte / E da vida que todas as enchentes / E vazantes ofertam fatalmente / Aos homens e as mulheres ribeirinhos / E às roças e animais da várzea. 

Mas, que importa! / Ficaste, Flutuante / Lembrança de um tempo que ficou, / Também, em vários outros monumentos / Erguidos sobre as bases do martírio / De milhares, devorados pela selva / E pela ambição do lucro fácil. 

Que importa! / Ancorado ficaste tanto tempo / Mas, também, nas páginas da história / De um povo que, aqui nesta cidade / Dos extintos Manau, sempre viveu / A longa espera de um amanhã melhor. 

Caminho da terra para a água; / Caminho da cidade para o rio; / E caminho do rio para o mar; / No macio balanço da tua ponte. 

Todos nós de Manaus, em ti, deixamos / Uma pegada da vida que partimos / Dentro em pouco será simples lembrança, / Pois, tuas linhas arquitetônicas serão / Destruídas, apagadas, distorcidas / Em nome de um progresso que uns poucos /Gozarão. / Toda a história se repete. 

“Roadway” dos ingleses engenheiros / Ou “rodo” dos cablocos de Manaus! 

Aqui fica este adeus de quem te viu, menino / E, por ti — uma vez — partiu sonhando / Os mais belos sonhos que sonhar eu pude. / Adeus, velho roadway flutuante, / Docemente embalado pelos ritmos / Das morenas águas do rio Negro. / É chegado teu fim. Exige-a assim / Este rude imperativo do progresso. / Mas, em mim, como te vi, hás de ficar; / Dourado pelos raios do sol quente / Ou banhado pelas pratas do luar.

 

terça-feira, junho 30, 2026

FUTEBOL NO AMAZONAS: 1968

Aproveitei a Copa do Mundo para postar esta conquista bem esquecida de nosso futebol - ou como registrou o cronista - do pebol amazonense. Trata-se de um amistoso entre o Nacional e o Flamengo, em julho de 1968.
Brasão do Naça


 

Recorte do jornal A Crítica, 15 julho 1968

 A vitória do Nacional FC, ontem, sobre o Clube de Regatas do Flamengo, por 1x0, veio consolidar o progresso do futebol amazonense. E assim aconteceu para dissipar latidas as dúvidas daqueles que, incompreendidamente, tentam de uma maneira ou outra, ofuscar a beleza do “association” que presentemente praticam nossas agremiações. O triunfo do Fast Clube sobre o Vasco (1x0) e a nova vitória do “Rolo Compressor” ante o Madureira e ainda o seu empate contra o Flamengo, à noite de quinta-feira passada e, agora, o feito nacionalino ao abater o famoso Mengo do futebol carioca, são argumentos indestrutíveis a atestar a evolução do pebol baré [futebol amazonense].

Esperavam alguns que o fato do Flamengo vir integrado de todos os seus titulares, facilmente, venceria os compromissos a saldar em sua temporada. Porém, o preparo e o bom futebol de nossas representações suplantaram as esperanças flamenguistas, e, como tal, aí está o Flamengo cumprindo dois jogos, sem marcar qualquer gol, empatando um jogo e perdendo o outro, ontem, para o Nacional FC.

Naturalmente, que pela importância empreendida ontem ao jogo Nacional x Flamengo, dado que o empate de 2x2, verificado entre essas mesmas equipes em 1966, serviu de principal atração, sabido que naquela ocasião o inconformismo se apoderou da festejada agremiação da Gávea. E, assim, o o prélio de ontem Flamengo x Nacional, passou a ser olhado como sendo decisivo.

Da esq. 👉alguns atletas do Mengo que jogaram em Manaus:
Murilo, Manicera, Marco Aurélio, Onça, Carlinhos 
e Paulo Henrique (Internet 3º Tempo)

RENDA E QUADROS

O espetáculo teria proporcionado uma arrecadação superior a 40 mil cruzeiros novos. E os quadros jogaram assim:

NACIONAL — Marialvo; Pedro Hamilton, Sula, Berto e Teo (Jonas); Mário e Rolinha; Zezé (Pretinho), Lió, Rangel e Pepeta.

FLAMENGO — Marco Aurélio; Murilo, Manicera, Onça e Paulo Henrique; Carlinhos e Reyes; Zélio, Luiz Carlos, Silva e Rodrigues Neto.

EXPULSÃO: O jogador Onça, zagueiro do Flamengo, foi expulso de campo ao final do segundo tempo, por insulto e desrespeito ao árbitro Manoel Luiz Bastos.

segunda-feira, junho 29, 2026

IDADE DA LUZ

29.06.2026

Renato Mendonça

 Na liturgia secreta da existência humana, procuro sempre um ciclo que traduza o tempo que nos envolve. Ao vivenciar a porção que completa três quartos de um centenário, sinto-me tomado por gratidão: Deus me ofertou um conteúdo vasto — tecido de afetos, lembranças e luz, além de um caráter dotado de espírito humanístico —, que me sustenta até aqui.

Renato Mendonça


Nesse tecido, repousa o primeiro ano de vida — o único em que recebi o calor humano de Dona Francisca Pereira Lima e, numa única vez, tive a honra de passar o Dia das Mães e o meu primeiro aniversário ao seu lado. Mas não me considero um desafortunado, pois sei que fui plasmado pelo seu amor maternal. E isso não se apaga da memória afetiva, nem me afasta do prazer de sentir que tive uma infância venturosa; sinto-me iluminado pelo carinho de meu pai, de minha madrasta, dos sete irmãos e da avó paterna, que se fez tutora e guardiã, precursora da luz que acendeu meu discernimento.

Hoje, faço questão de afirmar que vivo a Idade da Luz. Uma idade que não se mede em anos, mas em sabedoria, sobriedade e discernimento. É como se, ao alcançar este marco, os olhos começassem a divisar ao longe um ponto luminoso, uma estrela que brilha no fim da estrada. Muitas estrelas que iluminaram minha vida ainda brilham no infinito. É para lá que caminhamos, guiados pelos ensinamentos de Cristo, rumo ao fulgor eterno que nos espera. E temos que ter resignação e consciência dessa missão que rege nossa existência.

Podemos fazer também outras analogias da existência humana. A mais otimista é com as estações do ano — admitindo que a minha teoria renatodiana esteja conectada aos mecanismos da vida —, imagino que o homem pode viver até um centenário com sua cognição intacta e livre de outras doenças neurológicas. Podemos esmiuçar essa teoria, separando os períodos existenciais em ciclos de vinte e cinco anos cada. Uma divisão matemática equitativa e perfeitamente plausível, sendo que o último ciclo é totalmente incerto.

Se for assim, no dia de hoje eu estarei começando a viver meu último sol de outono, ainda com muita luz e calor. Para os próximos dias, se conseguir assimilar as bênçãos divinas, estarei vivendo a incipiência da fase invernal. E aí sim, envolvido pelo frio existencial em que o calor humano se torna apenas cálido, a chama espiritual deverá estar sempre acesa para aquecer o coração e o dotar de uma luz resplandecente.

E para celebrar esse momento de luz, quis comemorar meu aniversário com minha mãe, minha avó, meu pai e minha madrasta, aos pés dos túmulos que os acolheram. Sei que estão sempre presentes espiritualmente ao meu lado, porém desejei estar próximo fisicamente.

O ser humano não precisa se preocupar com essas teorias aparentemente conspiradoras da convivência humana na face da Terra. Quando atingimos essa marca do tempo, algo me diz que precisamos de sabedoria para lidar com o envelhecimento. E isso deve ser encarado com naturalidade, como em um jogo de futebol. Ao término da partida, voltaremos para casa — de onde saímos para viver o momento lúdico da vida, partilhado com outros que têm mesma afinidade. Ficamos felizes quando ganhamos. Mas a vitória não está no placar, e sim em termos seguido o Mestre — Jesus Cristo, nosso técnico e guia — ele nos ensina que a verdadeira felicidade é fazer os outros felizes, ao adotarmos e praticarmos seus ensinamentos, no intuito de proporcionar o bem-estar comum.

Qualquer que seja o inverno, deve ser encarado com estoicismo e com altivez. Outras virtudes podemos recorrer e acrescentá-las à nossa cota de agasalhos para suportar o tempo invernal que certamente nos envolverá. Não só o discernimento nos aliviará da tortura da iminência da degradação humana, o altruísmo também nos incitará à preocupação com o outro, de forma que poderemos nos desvestir do egoísmo, tão prejudicial para a convivência social. 

O tempo não é um inimigo, ele está no rol dos nossos bons presságios, é um companheiro discreto que nos lembra da urgência de amar, viver em abundância o amor e a fé. Precisamos convidá-lo para sentar à mesa ao nosso lado, para sentirmos sua fruição prazerosa.

Nesse dia, inevitavelmente, cada lembrança dos entes queridos passados é uma estrela acesa no céu da memória. Algumas brilham intensamente, outras se escondem em constelações distantes, mas todas compõem o mapa que me orienta. E quando penso no futuro, não o vejo como utopia, mas como horizonte: um campo aberto onde uma luz distante se insinua.

O inverno que se aproxima não é ocaso, pode ser outra aurora de encantos. Será tempo de contemplar o que foi construído sem pressa; de aquecer-se na lareira da fé; de vestir o manto da solidariedade e ajudar o nosso semelhante. O verdadeiro sentido da vida não está apenas em prolongar os dias, mas em torná-los luminosos para os que caminham ao nosso lado.

Assim, sigo celebrando cada ciclo como quem folheia um livro sagrado. A primavera ensinou-me a sonhar, o verão a construir, o outono a colher, e o inverno me ensinará a contemplar. Mas em todas as estações, a luz permanece: ora intensa, ora tênue, mas sempre presente.

A vida, quando vista em retrospecto, revela-se como um mosaico de instantes que se entrelaçam em silêncio. Cada gesto, cada olhar, cada palavra guardado compõe um enigma que só o coração sabe decifrar. Ao completar mais um ano, percebo que não caminho sozinho: trago comigo todas as vozes que me formaram, todos os afetos que me sustentaram, todas as luzes que me guiaram.

Há uma beleza discreta em envelhecer. Não é apenas o lógico acúmulo de dias, mas o sutil florescer da consciência. É como se o tempo, em sua delicadeza, fosse polindo a alma até que ela brilhe com uma luz serena. O corpo pode sentir o peso das estações, mas o espírito se torna leve, como uma pluma dançando ao vento. E quando honramos as verdades de Deus, vemos também o brilho de uma luz intensa que ilumina nossa caminhada.

Usando uma expressão do Gênesis: Fiat Lux!