CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, abril 27, 2026

EFEMÉRIDES AMAZONENSES

Em tantas iniciativas pessoais, intentei divulgar as efemérides amazonenses, ou seja, a compilação de datas sobre os acontecimentos estaduais que envolvam pessoas e entidades. Andei bastante, mas cansei e parei. Ontem, não sei que razão me levou a buscar os esquecidos apontamentos e me empolguei com o material recolhido. Hoje reproduzo uma parcela arquivada.

                                                    26 de abril

1876 – É sancionada pelo presidente Antônio dos Passos Miranda a lei 339, que cria a Guarda Policial do Amazonas, com efetivo de 73 homens, sendo “um comandante e seu auxiliar, três inferiores, seis cabos de esquadra, dois cornetas e 60 soldados”. O organismo policial destinava-se “a manter a ordem e a segurança pública na Província, e auxiliar a justiça”. Na verdade, era uma (re)criação da Guarda, visto que a primitiva de 1837, com a mesma nomenclatura, já desaparecera. Foi instalada em 4 de maio, sob o comando do tenente reformado do Exército Severino Eusebio Cordeiro, comissionado no posto de major.

1876 – Elevação do termo judiciário de Itacoatiara à denominação de Comarca, por força da lei 341, sancionada pelo presidente Antônio dos Passos Miranda.

1899 – Incorporada à tutela do governo a Academia de Belas Artes até então particular, consoante o decreto 324, sancionado pelo governador Ramalho Júnior. Esteve sob a direção do maestro Joaquim de Carvalho Franco. Extinta, todavia, em julho do ano seguinte. 

1936 – Toma posse no comando da Força Policial do Estado o tenente-coronel PM José Rodrigues Pessoa, na ocasião em que este organismo retorna efetivamente à atividade, após sua desativação em 1930, por decreto do Interventor Álvaro Maia.

27 de abril

1756 – Nasce na Bahia o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, e falecido em Lisboa em 1815, que empreendeu longa expedição pela região amazônica, após o que escreveu o livro Viagem filosófica pelas Capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá. Sua importância levou a várias edições, como a da Edições Governo do Amazonas. (foto)

Edição do Governo do Amazonas

1895 – Criado, por disposição da lei 118, sancionada pelo presidente estadual Eduardo Ribeiro, o município de Urucurituba, quando foi elevado à condição de vila, desmembrando-se de Silves e Urucará. Localiza-se no rio Solimões, e tem por padroeiro a São José Operário.

1916 – Faleceu aproximando-se de Lisboa (POR) no transatlântico que viajava à Europa em tratamento de saúde, o Dr. Lauro Batista Bittencourt. Nascido em Manaus, em 1853, logo após instalada a província do Amazonas. A formação superior foi realizada na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, colando grau de engenheiro civil. De retorno a Manaus atuou durante o governo de Eduardo Ribeiro, deixando suas marcas em diversos empreendimentos, em especial como Diretor das Obras Públicas do Estado.

1940 – É criada a SNAPP (Serviço de Navegação e Administração do Porto do Pará), por decreto-lei federal 2.154, como sede na cidade de Belém (PA). Apesar de extinta em 21 nov.1966, foi substituída pela ENASA (Empresa de Navegação da Amazônia S/A), estatal criada em 10 fev.1967. 

28 abril

1917Nasceu no lago do Anveres, distrito do Careiro, Francisca Pereira Lima Mendonça, a filha mais nova de Vicente e Adelaide Lima. Mudou-se para Manaus para cuidar da mãe viúva acometida de grave doença. Aqui encontrou o marido Manuel Mendonça, com quem gerou três filhos, nesta ordem, Roberto (1946), Antonio (1948) e Renato Lima Mendonça (1951). Contudo, minha genitora faleceu em 1952, aos 35 anos de idade, vítima de tuberculose.    

1957 – Faleceu no Rio de Janeiro, o senador pelo Amazonas, Manuel Severiano Nunes, nascido em 1892. Exerceu diversas atividades administrativas no Amazonas, tendo sido prefeito de Itacoatiara, deputado estadual (135-37), deputado federal (1946-47) e senador. Fez seus estudos primários no Colégio Sete de Setembro e Lauro Cavalcanti; Ginásio amazonense, Faculdade de Medicina da Bahia (incompleto), enfim, a Faculdade de Direito do Amazonas (1913). Seu nome denomina a Escola Estadual situada no bairro de Alvorada 2.

1989 – Assume o comando do VII COMAR, o major-brigadeiro-do-ar Luís Antônio Martins Leomil. Seu comando estendeu-se até 17 dez.1990.

1993 – Inaugurado o busto do empresário Adelino Pereira da Silva no jardim principal da Beneficente Portuguesa. Nascido no distrito de Vizeu, em Portugal, e falecido em Manaus, no mesmo hospital e na mesma data do ano anterior.

domingo, abril 26, 2026

POESIA DOMINICAL (25)


O poema traz duas curiosidades: foi elaborado por Francisco Pereira da Silva em 1929, próximo de celebrar o centenário. O autor ficou conhecido na literatura amazonense pelo registro do sobrenome nas demais obras literárias do gênero. Esta obra foi publicada na revista Rionegrino, nº 14, circulada em novembro de 1929. A ilustração foi concebida por Gil, usando um quadro de Branco Silva.

Revista Rionegrino, nov 1929

 

ORAÇÃO DA ÚLTIMA ICAMIABA

Luz de ouro e leite derramada, mansamente,

Pelo azul-desbotado dos Espaços

 

No Lago Sagrado, as águas, em êxtases, lucifremem,

Na argêntea reflexão da nudeza selênica...

- É a Lua Grande, que nadar com as uiaras tentadoras,

Para ouvir o canto misterioso da Mãe do Muiraquitã...

 

... E a última icamiaba, apoiando-se à árvore amiga,

Fita os olhos tristes na deusa dos que atuam e perdoam...

 

 “Yaci! Yaci! Quando te foste da terra,

Levaste na tua alma de luz e pluma

As angústias e as lágrimas das mulheres...

 

“A maldade dos homens ficou rondando o coração de tuas filhas...

“Então, Naruna, soltou o seu grito de guerra contra os nossos algozes...

 

“E quando andávamos, errantes, pelas montanhas e florestas,

Chorando e combatendo,

Somente a piedade branca do plenilúnio

Dava alegria aos nossos corações... 

“Yaci! Yaci! Os homens são irmãos das feras insaciáveis...

Mas, Naruna, amaldiçoando os homens, matou o amor...

 

“Yaci! Yaci! Lágrima e angústia, alegria e perdão!...

As guerreiras de Naruna vão bem longe...

Tu, que és tão meiga, tão doce e tão piedosa,

Tu, que vives tão só, bem sabes, mãe carinhosa,

Quanto dói na mulher, um coração vazio!...

 

“Traze do fundo d’água do Lago Sagrado, a pedra verde

Da felicidade!

E que ressurja o amor no peito da icamiaba,

Na glória de matar meu algoz entre beijos,

Na ânsia de morrer cantando nos seus braços!...” 

FRANCISCO PEREIRA

sábado, abril 25, 2026

SÃO JORGE

Rio, 23.04.2026 

Renato Mendonça

São Jorge - Terra

Nenhum outro santo veste tantas máscaras — um sincretismo religioso profundo — no coração do Brasil quanto São Jorge. Ele é o guerreiro que atravessa fronteiras da fé: na Igreja Católica, é o mártir de armadura reluzente sobre um cavalo branco; nos terreiros de Umbanda, é Ogum, o orixá que abre caminhos com sua espada de fogo. Esse sincretismo nasceu como resistência: sob o disfarce dos santos católicos, os escravizados africanos mantinham viva a chama das suas divindades, como quem esconde brasas sob cinzas para reacender o fogo da liberdade fustigado pelo vento da maldade de patrões desalmados.

No Rio de Janeiro, Jorge e Ogum se confundem como duas faces da mesma estrela. Na Bahia, sua imagem se funde ao caçador Oxóssi, senhor das matas. Assim, o santo guerreiro se multiplica em símbolos, como um rio que se abre em afluentes, mas nunca perde sua correnteza no caminho para o mar.

Podemos assegurar que a iconografia de São Jorge é um poema épico: o cavaleiro sobre o cavalo branco, enfrentando um dragão. Essa cena, nascida com a digital das Cruzadas, é mais que lenda — é metáfora da fé que atravessa o pântano dos medos humanos e vence o monstro da desesperança. O cavalo branco é a paz que galopa, e a espada é o raio de luz que rasga a noite. Cada golpe contra o dragão é um gesto que recorda ao mundo: o bem, mesmo com o intemperismo do tempo, sempre se ergue altivo contra o mal.

Geórgios, o agricultor da Capadócia, semeou sua vida como quem planta semente em solo árido. Quando o imperador Diocleciano ordenou a perseguição, Jorge rasgou o edito como quem rasga mantos da mentira, e professou sua fé mesmo diante da morte. Torturado, decapitado, transformou sua dor em germe: de sua sepultura brotou uma basílica, e de sua memória, um culto que atravessa séculos.

Os cruzados o fizeram guerreiro contra o Islã; os normandos o tornaram patrono da Inglaterra. Eduardo III fundou a Ordem dos Cavaleiros de São Jorge, e na Idade Média sua figura brilhou como um sol épico, rivalizando com os ciclos bretão e carolíngio. Hoje, é o padroeiro de cavaleiros, soldados, escoteiros, arqueiros — e também condecorado como um profeta para os muçulmanos. Sua lança é invocada contra pestes, lepra e serpentes, como se fosse um antídoto espiritual.

As relíquias de São Jorge repousam em várias partes do mundo, mas sua verdadeira herança é invisível: é a lembrança de que a luta contra o mal é eterna, e que nenhum combate se vence sozinho. São Jorge, cavalgando entre nós, mata um dragão a cada dia. Sua espada é a fé, a arma que Deus nos dispõe para lutar, e sua vitória é a esperança que nunca se rende, sempre vence.

A alegoria de que o santo salva uma jovem princesa, que seria entregue em sacrifício para degustação do monstro, nos encaminha para uma reflexão atual. Precisamos, sem tréguas, enfrentar as formas negativas de uma sociedade plural — da misoginia, das drogas, da violência urbana e outras mazelas sociais. Cabe a nós impedir que a juventude tenha o destino cruel de servir de consumo para os dragões da vida.