CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quinta-feira, abril 23, 2026

DIA DE SÃO JORGE

Ao meu entender, este consagrado da Igreja é o único concebido em imagem bastante incomum, pois vem montado a cavalo e perseguindo um dragão. Nenhum outro santo mereceu tantas referências. Até São Sebastião morto a flechadas não se destaca tanto. Assisti uma imagem deste santificado no quartel do comando-geral da Policia Militar, instalado na Praça da Polícia.

Imagem de S. Jorge no acervo do
Palacete Provincial
São Jorge nunca obteve o patronato daquele corpo policial, porém, a maioria dos policiais o tratavam com essa nobreza. Tanto que o nicho que abrigava a imagem sempre esteve ornado com velas, fitas, cédulas e outros pedidos e oferendas. A imagem foi ofertada ao quartel por volta de 1955, e foi mantido no oratório até quando da entrega da edificação à Secretaria de Cultura, no início do século.

A fim de ilustrar a data e marcar a presença da efígie de São Jorge na PMAM, vou relembrar dois episódios hilariantes:

Em certa data, quase ao final do meu serviço ativo, combinei com o padre capelão o restauro da imagem do santificado. Para a realização do serviço, autorizado pelo chefe do Estado-Maior, retiramos a peça do quartel pelas dependências do Museu Tiradentes, portanto, sem passar pelo portão principal. Dias depois, o coronel comandante Mael Sá, ao chegar ao quartel, assustou-se ao subir a escada porque, olhando na direção do oratório, não viu o santo. Convocou o sargento comandante da guarda, responsável pela entrada e saída do aquartelamento, e o interrogou pela imagem. O sargento mais assustado ainda confessou ignorar. O comandante decidiu, recriminando a guarnição que não viu “o santo montado a cavalo, açoitando um dragão, fugir do quartel”, o expediente somente será encerrado com a notícia do santo. O incidente resultou um corre-corre espantoso, até que os “caçadores” chegaram a mim, que expliquei a “fuga”.

Outra recordação do Dia de São Jorge foi a devoção que o tenente Silvestre Torres lhe dispensava. O fato ocorria sempre que este oficial orientava o pessoal de serviço do trânsito, no longínquo biênio 1982/83. Antes de dispensar a turma, diante do oratório, Torres entoava uma oração bem estapafúrdia, mais ou menos nessa direção:

Meu São Jorge, / fazei que eu tire um bom serviço / possa bem orientar o trânsito / zelar pela dignidade da polícia / atender as orientações de meus superiores / e... adiante, que os soldados perfilados repetiam. E seguiam-se tantas baboseiras até a finalíssima,  quando o oficial em tom de voz mais destacado bradava: Fazei com que eu não pegue propinaEssa jaculatória nenhum policial repetia.

Em nossos dias, no comando-geral da PMAM existe o Oratório Policial Militar; seria oportuno que a imagem de São Jorge fosse acolhida nesse sítio religioso. Atualmente a imagem encontra-se no restauro do Palacete Provincial, sem qualquer destaque. No Oratório, todavia, a religião católica e as evangélicas se topam, daí o impasse para o retorno do Santo do Dia.

Salve Jorge!  

quarta-feira, abril 22, 2026

BAIRRO DE SÃO LÁZARO (1973)

Trata-se de recordação pouco significativa sobre este bairro, estampada há mais de 50 anos no jornal A Crítica, à época em que apenas se conhecia a situação da cidade através da imprensa. O São Lázaro evoluiu, obviamente, mas em nossos dias as informações em todos os sentidos circulam pela Internet em seus variados aplicativos.


Parece um bairro esquecido. Os moradores relembram os bons tempos em que os ônibus percorriam a rua principal, São Vicente, facilitando a comunicação com os demais pontos da cidade. Hoje, tudo é diferente. A Rua São Vicente está abandonada e os buracos aparecem com frequência transformando certos trechos em verdadeiras crateras. Esta é a realidade do Bairro de São Lázaro.

A Crítica, 8 maio 1973


DRAMA COTIDIANO

Para quem mora em São Lázaro, chegar ao emprego, é um verdadeiro drama. O indivíduo tem que caminhar por muito tempo enfrentando buracos e lama até atingir a Estrada do Contorno, onde pode apanhar a condução. Geralmente o coletivo demora a passar e quem mora no bairro chega sempre atrasado ao trabalho.

Em certos trechos como nas proximidades do Sítio “São Jorge”, a erosão pluvial formou uma verdadeira cratera e a tubulação de água colocada pela Cosama, através da SIT, está exposta apesar de ter sido instalada a mais de dois metros de profundidade.

São casos assim que desanimam os moradores do bairro. Os poucos veículos que enfrentam a buraqueira passam maus momentos, principalmente na entrada da Travessa São Vicente. E todos sonham com o asfalto, solução final para um bairro populoso.

Ónibus não aparecem desde novembro do ano passado, quando o senhor Cassiano Assunção, proprietário da Empresa “Ana Cássia”, resolveu retirar a linha de coletivos que serve o bairro pela condição quase intransitável da rua.Da parada costumeira o ônibus foi se afastando para as proximidades da Subdelegacia e finalmente para a Estrada do Contorno.

 Alguns moradores já recorreram ao Departamento Rodoviário Municipal, solicitando algumas carradas de terra nos trechos mais atingidos. E já houve um plano para que os próprios moradores consertassem alguns trechos, desde que houvesse disposição de algumas carradas de terra. A senhora Nadir Rosa de Lima, moradora da casa 144, na Rua São Vicente, diz que o bairro é bom. — O maior problema são os buracos.

ASFALTO EM JULHO

O senhor Cleber Mendes Faneco, presidente do diretório da Arena, do Bairro de São Lázaro, ouviu as reclamações dos moradores e depois de verificar o verdadeiro estado da principal artéria solicitou providências ao prefeito Frank Abrahim Lima. O ofício resposta datado de 3 de maio, ontem já estava nas mãos do presidente do Diretório. Nele, o prefeito Frank Lima estabelece o asfaltamento da Rua São Vicente para o segundo semestre deste ano.

Este é o texto: "Está dentro de nossa programação para o segundo semestre deste ano, o asfaltamento da Rua São Vicente. Não poderia de maneira nenhuma esquecer esse bairro tão simpático no qual tive a felicidade de fazer bons amigos. Deverei até o final deste, fazer uma visita oficial aos bairros, para comunicar o início dos trabalhos, estando o amigo autorizado a dar ciência aos nossos companheiros". Frank Lima.

 

segunda-feira, abril 20, 2026

MEUS OITENTANOS (2)

No início dos anos 1950, a travessia entre Manaus e a então Capital Federal, Rio de Janeiro, era uma epopeia de vinte a trinta dias. Aos três anos, o convés imenso do navio Almirante Alexandrino se abria diante de mim como um parque encantado, cheio de redes penduradas, embora sempre vigiado pelo olhar atento de Luzia, nossa babá, já que minha mãe, Francisca, dedicava seus cuidados ao meu irmão mais novo, auxiliada pela sogra, a vovó Victoria. O espaço físico era vasto, mas o que se gravou em minha memória foi o aroma da comida — tão diferente do que se servia em nossa casa — e o espetáculo dos portos em construção no Nordeste. Em alguns trechos, animais marinhos escoltavam o navio, como se fossem guardiões de Netuno, atraídos pelos restos de alimento lançados ao mar.

Foto da família informando 
a viagem ao Rio - 1950 -
Roberto, em pé, diante do genitor

A longa jornada trouxe também o inesperado: Luzia encontrou no navio o seu par. O namoro com um tripulante floresceu durante a viagem e, ao desembarcar, se transformaria em compromisso de casamento. Resolveram fixar residência na então Capital Federal. Porém, deduzo que esse relacionamento contribuiu para melhorar a situação de acomodação da família na embarcação, pois viajávamos em terceira classe.

Em meados de abril de 1950, finalmente desembarcamos. O tio Francisco, irmão de meu pai, nos acolheu em Irajá, num puxadinho contíguo à sua casa na rua Cláudio da Costa. Mas o modelo e a estrutura familiar ali encontrados pouco favoreceram nossa convivência; ao contrário, trouxeram desencontros, como relato em meu livro Entre Duas Viagens, escrito em 2016, para prestar homenagem póstuma ao centenário de meu pai, Manuel “peruano”.

O bairro de Irajá, com suas ruas sem asfalto e esgoto a céu aberto, parecia um “fim de mundo”. O escritor amazonense Hilton Rego descreveu bem essa precariedade em seu livro, Com a Cara e a Coragem: os bondes e lotações circulando, o Maria-Fumaça arrastando-se pela avenida Automóvel Clube, enquanto meninos jogavam bola entre os trilhos. Essas imagens resgatam a memória da inospitalidade que vivemos: a casa improvisada, a ausência de escola, a rotina extenuante de meu pai, que trabalhava nos arredores do Maracanã sem jamais ter tempo de entrar em seu interior.

Cartão Postal do Maracanã - 1950

Em janeiro do ano seguinte, retornamos acompanhados, como na vinda, da avó paterna Victoria Malafaya, de quem o filho era extremamente apegado. Por coincidência, foi no mesmo navio, mas sem Luzia. Na caravana, embarcava uma nova vida: a gestação de Dona Francisca. Voltamos ao bairro dos Educandos, à rua Inácio Guimarães, novamente na esquina com o beco São José, em uma casa de madeira com a frente reservada para uma taberna. Ali, assistimos à construção do Cine Vitória, inaugurado apenas em 1954. Nesse contexto de readaptação nasceu Pedro Renato, batizado pelo santo do dia, São Pedro, em junho de 1951.

Até hoje não sei dizer como a sombra de uma enfermidade tão grave se abateu sobre minha mãe. Apenas guardo na memória sua convalescença, os dias em que a acompanhei ao paraná do Cambixe, no distrito do Careiro — seu berço de nascimento —, onde parentes a acolheram como quem recolhe uma ave ferida. Era uma busca por ar mais puro, remédios fitoterápicos e uma esperança de que o alento da floresta pudesse devolver-lhe o vigor. Para mim, porém, aqueles deslocamentos eram também ensejos para travessuras de infância: corria com os primos pelos quintais das casas suspensas em pilotis, como se fossem píeres habitados à espera da cheia do Solimões.

No nosso bairro, o esteio que sustentava nossa família vinha da solidariedade da tia Raimunda e, em especial, de suas filhas, já quase moças. Meu pai, responsável e firme, dedicava-se ao labor diário, arrancando do seu emprego o “pão nosso de cada dia”.

O ano de 1952 trouxe consigo o agravamento da doença de minha mãe. Entre desvios e incertezas, creio ter iniciado o curso primário, embora a lembrança da primeira escola tenha se dissolvido com o tempo. Restam, contudo, três cenários que ainda se iluminam em minha memória: o Grupo Escolar Machado de Assis, público e resistente — perdura até os dias de hoje —, na rua Amâncio de Miranda; a Escola Paroquial do cônego Antônio Plácido, destinada aos meninos e regida pelo zelo do vigário; e a Escola Particular da dona Ester, discreta e determinada, instalada em sua própria casa na avenida Leopoldo Peres. Cada uma dessas instituições foi como um pequeno aporte para um grande projeto pedagógico que me habilitou, em 1956, ao internato do Seminário São José.

A última lembrança que guardo de minha mãe é a de um corpo exausto, franzino, suspenso na fragilidade de uma rede, como se o próprio tecido fosse o divisor entre a vida frágil e o chão que iria recebê-la. O ar lhe faltava, e ao redor, parentes e vizinhos cumpriam o ritual antigo de “fazer quarto”, velando em silêncio a despedida iminente. Era início da noite de 17 de julho, e eu, menino de seis anos, fui conduzido até ela. Segurei sua mão macilenta, fria como a bruma da madrugada, e beijei-a, pedindo sua bênção. Mas sua voz já não alcançava o sopro divino: o “Deus te abençoe” ficou suspenso no vazio, como uma prece interrompida.

Naquela idade, não havia espaço para compreender a gravidade da doença, nem a dimensão da perda. A morte era apenas um enigma, uma ausência que se instalava sem explicação, inexoravelmente. Por décadas, carreguei esse silêncio, sem buscar respostas, até que, já adulto, censurei minha própria consciência: por que nunca procurei no cartório a certidão de óbito de minha mãe? Talvez porque, em mim, a ferida sempre foi maior do que qualquer documento poderia traduzir. Nem poderia trazê-la de volta. (segue)