CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

terça-feira, agosto 25, 2026

VIAGEM NO TEMPO (5)


18.07.2026                                     Renato Mendonça 

 Passeio do índio 

O dia amanheceu como se quisesse conspirar contra o passeio, apesar da confirmação feita na noite anterior com o agente de turismo para nos incluir no rol de passageiros. Por volta das nove, o céu se mostrava desfavorável: nuvens pesadas, cinza espesso, um prenúncio de chuva. E na noite anterior já havia chovido. Meu irmão, atento, enviou-me mensagens acompanhadas de fotos tiradas do seu apartamento, descrevendo o cenário sombrio. Mas eu, fiel ao meu otimismo quase teimoso, respondi com leve ironia: “vamos aguardar pelos deuses do sol...”

E eles vieram. Meia hora depois, o sol pediu licença, abriu a cortina de nuvens e revelou sua face brilhante, como mais uma bênção inesperada. Manaus, ainda em trânsito intenso na Avenida Eduardo, parecia indiferente ao milagre discreto, mesmo diante do Relógio Municipal, monumento neoclássico inaugurado em 1929, cuja frase em latim, escrita em volta dos números — vulnerant omnes, ultima necat — recorda uma metáfora sobre a inexorável passagem do tempo.

Às dez, já estávamos no convés de um barco atracado na “Balsa do Ajato”, atrás do Adolpho Lisboa. O atraso proposital, para aguardar os retardatários — alguns vindos de outros municípios, tal como Parintins —, deu ao momento um sabor de expectativa e interação com os passageiros e o guia turístico. Quase uma hora depois, o barco enfim partiu, levando consigo não apenas turistas, mas também a promessa de um passeio iluminado, como se a própria história da cidade quisesse nos acompanhar.

O guia turístico — que se autodenominava jungle boy — irradiava entusiasmo e preparo ao anunciar a campanha daquela aventura: o encontro das águas, a visita à aldeia dos índios tuyukas, o encontro com o pajé, a apresentação dos rituais de dança, o almoço em restaurante flutuante, a interação com os botos cor-de-rosa, a simulação da pesca do pirarucu, a feira de artesanato e, por fim, a entrada na floresta para contemplar as vitórias-régias. Cada etapa parecia desenhada para nos conduzir a um mergulho na essência amazônica — que se inicia observando no trajeto comunidades ribeirinhas flutuantes e em palafitas —, como se o roteiro fosse também um rito de iniciação.

Segundo ele, tudo se tornara possível e mais aprazível porque o Rio Negro estava “na cheia” — com a cota em 28,5 metros —, permitindo que o barco penetrasse nos igapós, essas florestas inundadas que só revelam sua beleza nesse período de abundância de água. Assim, cumprimos o ritual até alcançar a Reserva do Lago Janauari, onde a maioria dos eventos se desenrolou.

Renato e Alda - Lago do Janauari

Ali nos recebeu a comunidade tuyuka, com sua apresentação cultural de música, danças e ritos. E uma pequena mostra de artesanatos. A hospitalidade era palpável, até mesmo do sorridente pajé, que se dispôs a tirar uma foto comigo e com a Alda. Entre os costumes, surpreendeu-nos uma iguaria feita com grandes formigas torradas — trouxe-me a lembrança viva dos antigos, que conheciam a farofa de tanajuras como sabor de tradição.

Ao regressar da floresta, o percurso quase ritual, passando por dentro do Mercado Adolpho Lisboa, nos conduz a um mergulho na memória da borracha, quando Manaus pulsava como metrópole da selva. O pavilhão Art Nouveau, erguido há mais de um século e meio, não é apenas um espaço de comércio e exposição de artesanatos: é testemunho vivo de uma era em que o esplendor europeu se mesclou com a exuberância amazônica. Como este, a cidade abriga outros monumentos que guardam em suas fachadas a lembrança de um passado grandioso, fazendo de cada esquina um convite à contemplação da história.

Renato, o pajé e Alda - Aldeia Tuyuka


segunda-feira, agosto 24, 2026

MEUS OITENTANOS (15)

 FASCÍCULO 15

 


Ao retornar ao quartel no início de 1978, fui informado do honroso prêmio alcançado: ser transferido do batalhão de Petrópolis para comandar a Rádio Patrulha. Este órgão, criado em 1972, funcionava em um quartel inaugurado no ano de 1977, onde substituí ao major Mael Sá, conhecido pela sua exigência com o serviço externo, notadamente o de radiopatrulhamento; concedendo aos patrulheiros ampla liberdade para agir e apoiando a repressão empregada. Para minha desventura, não aceitava esse perfil, porque defendia que o policial devia fiscalizar para proteger, e não para acossar. O serviço era realizado em prosaicos Fuscas, equipados com uma sirene e um rádio Motorola de funcionamento primário. Contudo, o policiamento, apesar desse reduzido aparato, impunha respeito e receio à sociedade. De fato, cumpria sua função plenamente.

Ao assumir o comando, passei a receber diariamente inúmeras reclamações de pessoas sobre os mais variados temas; a mais recorrente era a perseguição ao casal que, no interior de seus automóveis, buscava o escuro ou o matagal para maior enlevo. Nas formaturas diárias eu expunha minha posição acerca desse tipo de patrulhamento e, não raro, de maneira ríspida, recomendei que não procedessem assim, pois poderiam encontrar no local uma parenta próxima. Numa dessas noites, eu me encontrava no estacionamento do estádio Vivaldão, exercendo meu direito de namorar, quando minha parceira alertou que um veículo se aproximava; ao verificar, reconheci uma viatura da RP, às escuras. Os patrulheiros, ao reconhecerem meu carro – uma Brasília VW dourada – manobraram em velocidade de F1, tornando impossível a sua identificação.

    

Vista aérea do quartel da Rádio Patrulha, 1978

Minha postura quanto à disciplina e o controle do policiamento acabou incomodando os subordinados, que desejavam fiscalizar conforme lhes convinha, para obter as propinas que grande parte da cidade pagava. Perdi a disputa: certa noite o pessoal de serviço foi advertido pelo superior de dia, numa espécie de intervenção no comando, para que saísse às ruas e assumisse o turno. A despeito dos obstáculos, consegui, ainda que a duras penas, manter o comando até o fim do ano. Contudo, o pior erro foi obra minha, quando minha residência no Morro foi assaltada, e dali subtraíram o revólver da corporação sob minha cautela. Em conluio com alguns colegas, elaborei um inquérito infundado, atribuindo a culpa a terceiro. O expediente funcionou por um tempo, até que no ano seguinte a arma foi apreendida na posse de um marginal, que revelou a procedência. Resultado: acabei no banco de réus da Auditoria, ameaçado de ser excluído da corporação.

Antes dessa passagem pela Justiça, já havia enfrentado outra quando, no comando do coronel Ossuosky (1975-79), eu dirigia o Centro de Operações (COP). A cidade arrostava a atuação da gangue dos “Mulatos”, que exigia redobrado esforço dos policiais; em uma operação noturna, o desembargador Paulo Feitosa – pardo – foi aviltado por um soldado, fato que exigiu do comando largo esforço para contornar a situação. Dias depois, em plena manhã, um oficial de justiça foi detido e conduzido à sede do COP, onde me encontrava e prestei atendimento. Ouvido, foi liberado sem restrição, por ordem do comandante, porém, quando chegou à sede do Tribunal de Justiça, seu local de trabalho, relatou sua “versão”. Mais uns dias, eu recebo uma intimação do Tribunal, acusando-me de agressão àquele servidor. Apesar de minhas justificativas, inclusive citando a participação do coronel Ossuosky, fui incriminado e julgado. No dia do julgamento, ocupando o banco de réu, vi passar os colegas de faculdade que não entendiam a situação. Meu defensor – doutor Cabral Simonetti – recomendou-me que, se possível, chorasse, nada de atrevimento. Todavia, não suportei a descrição do crime realizada pelo promotor – Dr. Thury, tão engenhosa que o encarei, de que se aproveitou para me admoestar; fui salvo pelo meu defensor. Afinal, fui absolvido com restrições; então, compreendi ter sido utilizado, pois o Tribunal de Justiça teria embaraços para julgar o comandante, na condição de secretário de Estado. 

Inspeção do general IGPM à Rádio Patrulha. 1978

Desejo registrar um caloroso momento ocorrido em meu comando: a visita do Inspetor-Geral das Polícias Militares, em maio daquele ano. A curiosidade ficou pelo seu nome de guerra, de difícil sotaque para os nortistas – general Schnarndorf. Ao tempo, as organizações policiais – como órgão auxiliar – se encontravam sob o controle das Forças Armadas; por essa razão, o inspetor visitava periodicamente as PM. A interferência proliferou de tal maneira que, para o cabal cumprimento das normas, eram distribuídas cartilhas, cuja capa, de coloração amarela intolerante, ensejou o codinome de “amarelinhas”. De outra forma, a Inspetoria distribuía fartamente vagas em cursos dentro e fora do país, facilitando com essa movimentação alguns “penduricalhos” no soldo dos policiais; esse benefício era extremamente bem-vindo.

A esse respeito, tenho duas peripécias sobre curso no estrangeiro. Na primeira, se não me falha a memória, foi cerca de 1968 em que a PM foi contemplada com duas vagas para um curso nos Estados Unidos. As colocações eram abertas a todos oficiais indistintamente, sendo a única exigência a proficiência em inglês ou espanhol. A vaga destinada a falantes em inglês, cuja competência era exclusiva do tenente Osório, foi preenchida prontamente; já a destinada a especializados em espanhol exigiu prova escrita porque havia vários inscritos. Revisei meu portunhol, aprendido com meu pai e com conterrâneos peruanos, e consegui a aprovação. Meu entusiasmo, porém, durou pouco; um oficial mais graduado procurou o comandante e obteve minha substituição por outro colega, justificada somente pela antiguidade. Guardei ressentimento. Dois anos depois surgiu nova vaga e a mesma exigência; dessa vez sequer me inscrevi, receoso de sofrer nova retaliação. (segue)

sábado, agosto 22, 2026

MAGNIFICAT!


Renato Mendonça

 

A memória do domingo — 16 de agosto — na liturgia católica nos conduz à celebração da Anunciação: o instante em que o anjo Gabriel, mensageiro da eternidade, desce em missão gloriosa e revela à Maria que dela nascerá não apenas um homem, mas o próprio Filho de Deus. É como se o céu tivesse, naquele instante, abençoado a terra, e a eternidade se alojado no ventre de uma jovem — para o cumprimento das escrituras.

Pensemos na delicadeza e na ousadia desse acontecimento. Maria, tão jovem e virgem, torna-se templo vivo, sacrário de carne e sangue. O ventre que se anuncia é mais que biológico: é um altar em gestação. E, na insensatez da sociedade judaica, marcada pela supremacia masculina — muitas vezes misógina — e pelo rigor das leis, aquele ventre, quando proeminente, poderia ser visto como escândalo, motivo de julgamento e até de morte por apedrejamento. Mas, o mistério divino não se curva às convenções humanas.

Outros milagres se entrelaçam nesse enredo: José, convencido em sonho, escolhe o caminho da proteção e não da denúncia; Isabel, ao receber Maria, sente o próprio filho estremecer em seu ventre, como se a vida reconhecesse o Pão da Vida que se aproximava. Cada gesto, cada encontro, cada sinal reforça o caráter sagrado dessa gestação — não apenas humana, mas transcendental.

Deus, em sua sacrossanta intenção, quis encarnar em uma mulher escolhida, para mostrar sua face humana. Maria torna-se ponte entre o invisível e o visível, entre o eterno e o temporal. Jesus, para os que creem, é a forma humana do Criador, testemunho vivo de que somos sua imagem e semelhança. Sua vida e ensinamentos permanecem como bússola de fé, semeando comportamentos honrados e livres de fanatismo.

Não há como negar a presença de Deus nos corações que se abrem ao mistério. A natureza, a ciência e o universo são reflexos de um ser superior que, mesmo diante do ceticismo, continua a ser o Senhor da Vida. Maria, humilde serva, aceita sua missão com palavras que ecoam como poesia eterna de resignação: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa vontade.”

Assim, o ventre de Maria carrega um plano divino, cósmico: nele pulsa o coração da humanidade e o sopro da eternidade. E o Filho, que padeceu e morreu na cruz, é a prova de que o amor divino não se limita ao céu, mas se derrama sobre a terra, até as últimas consequências, numa lição de humildade e resignação — assim como Maria.

A Encarnação e a crucificação de Jesus revelam que Deus não quis salvar o homem de fora, mas o de dentro: assumindo nossa carne, nossa fragilidade, nossa história. Jesus é a prova de que somos realmente a imagem e semelhança do Criador, e sua vida é testemunho de que a glória divina se manifesta na humildade. A cruz, plantada no alto para exprimir a derrota aos romanos, é o ápice do mistério: o Filho que aceita o cálice da dor e se entrega resignadamente, e o Pai que, na extensão do mesmo mistério, confirma que o amor é mais forte que a morte.

É Magnífico!