Cindido aqui entre nós, em consequência da própria cisão no
Diretório Nacional, — cisão que havia originado dois grupos distintos e
opostos: um chefiado por Quintino Bocaiuva e Francisco Glicério; e outro pelo
senador pernambucano Rosa e Silva e o deputado baiano Artur Cesar Rios, — o
Partido Republicano Federal do Amazonas abrigava também duas facções em luta: uma
chefiada por Eduardo Ribeiro, O Pensador; outra sob o comando de Jonatas
Pedrosa e Lima Bacuri.
Com Eduardo Ribeiro estavam Ramalho Júnior, Afonso de Carvalho,
Silvério Nery, João Miguel Ribas, Luís da Silva Gomes, Euclides Nazareth e
outros nomes de evidência na vida partidária amazonense. Na ala de Pedrosa e
Bacuri batalhavam Antônio Bittencourt, Joaquim Sarmento, o coronel Raimundo
Nunes Salgado, Frota Menezes e mais alguns chefes ostensivos. Cada um desses
grupos, a exemplo do que acontecia na órbita federal, se proclamava “o legitimo”
Partido Republicano Federal. Tinha, cada um, o seu diretório constituído, a sua
bancada no Congresso dos Representantes do Estado do Amazonas e o seu jornal
oficial.
O PRF de Eduardo Ribeiro era situacionista no Estado, com Ramalho
Júnior no Governo (em virtude da “renúncia” de Fileto Pires) e o próprio Pensador
na presidência do congresso estadual. Mas, seguia a facção de Rosa e Silva e
Artur Cesar Rios. Já o PRF de Jônatas Pedrosa e Lima Bacuri fazia oposição a
Eduardo Ribeiro e pertencia à ala federal de Bocaiuva e Glicério.
O velho periódico Amazonas, contando então mais de 30 anos
de boa circulação, era o órgão oficial do PRF do Dr. Jonatas Pedrosa. Sua
direção política estava confiada ao coronel Raimundo Nunes Salgado e fora,
posteriormente, entregue a Lima Bacuri. O órgão do PRF de Eduardo Ribeiro era A Federação, que
tinha como seu diretor-político Euclides Nazareth. Esse A Federação é que publicava os comentários políticos de Abranches,
sempre tão esperados, lidos e meditados pelos políticos das duas facções.
Velho amigo e conterrâneo
de Eduardo Ribeiro e de Euclides Nazareth, Abranches redigia as “Cartas” para A
Federação, coluna em que comentava, uma ou duas vezes por semana, os
acontecimentos da política nacional, com as suas tendências e as suas perspectivas. Correndo-se as coleções do velho e combativo órgão “ribeirista”,
encontra--se frequentemente esses assaz momentosos artigos do culto e
desassombrado jornalista maranhense, que, então, já no Rio de Janeiro, nas
colunas do Jornal do Brasil e depois nas do seu próprio Jornal, — O Dia — se
fazia reputar um dos melhores informantes e analistas dos fatos que se iam desenrolando
nos bastidores da política nacional, com repercussão, procedimentos e efeitos
tanto na capital do País que também nos Estados.
A Federação trazia os artigos de Abranches em sua primeira página
e ao alto das duas primeiras colunas. Subordinava-os ao título: Pela Política
e subtítulo Cartas para A Federação. Eram todos numerados com algarismos
romanos, tendo sido o de número I publicado em 15 de março de 1899. A assiduidade
das Cartas para A Federação se faz notar até abril de 1900, quando
aparece a de número XXXVIII. Rareiam daí por diante até outubro, quando
desaparecem por completo. E esse desaparecimento coincide com o suicídio, a 14
de outubro de 1900, de Eduardo Ribeiro, a quem Abranches devotava fraterna
estima e grande admiração.
Prova da admiração que Abranches tinha por Eduardo Ribeiro, seu
conterrâneo e também, como ele, uma força moça exponencial da sua geração,
temo-Ia em página do seu livro de crítica política intitulado Homens e Fatos
do Início da República, publicado em 1903. Nesse livro, dedicado um capítulo
inteiro — o 5º — à política do Amazonas, naquele quinquênio último do século
XIX, Abranches assim em breves linhas, traçou o perfil de Eduardo Ribeiro:
“Eduardo
Ribeiro, o Pensador, embora houvesse passado o governo a Fileto Pires, que só
mais tarde o trairia sem necessidade e sem proveito, gozava, como chefe de
partido, de uma dessas popularidades que fariam lembrar Silveira Martins e José
Mariano em outros tempos. E a par de um coração magnânimo e benfazejo, possuía
ainda as mais distintas qualidades de um político astuto e enérgico, sabendo
comandar como poucos e como poucos criar dedicações sinceras, capazes de
eclipsar os ingratos que tanto o aborreceram e acabaram cavando-lhe a morte. É verdade
que, entre os grupos oposicionistas do Amazonas, era Jonatas Pedrosa quem
contava, como chefe, real prestígio na capital, onde dispunha também de
numerosas simpatias. Mas estas não bastavam para fazer sombra à auréola
brilhante que cercava o nome querido do Pensador, o homem-coração, que a
todos fidalgamente abrigava, o administrador emérito que, de uma tapera, havia
levantado em três anos Manaus à altura de uma cidade moderna, semelhando-se a
esses ianques arrojados da América do Norte”.
Precioso documentário
histórico da nossa evolução política, o capitulo 5° do livro Homens e Fatos
do Início da República, editado em 1903, nos põe ao conhecimento pormenores
os mais interessantes dos primeiros passos do Estado do Amazonas na vida
republicana implantada em 1889.