CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, agosto 21, 2026

SPP - SERVIÇO DE PROTEÇÃO PATRIMONIAL

 Atuou em Manaus, fundado em 1968, o Serviço de Proteção Patrimonial, melhor conhecido pela sua sigla – SPP. Fundado e dirigido por oficial do Exército – coronel Darly Sampaio, desde o início da Zona Franca de Manaus. Expandiu-se, enquanto não surgiam as concorrentes que as indústrias e obras e comércio exigiam da Manaus da época. A sede do SPP funcionou na rua 10 de Julho. Ao completar oito anos de existência, teve sua atuação destacada em A Crítica, de 12 de agosto de 1976.

Como autêntica sentinela na proteção do patrimônio de seus clientes, o Serviço de Proteção Patrimonial - SPP - vem colaborando há 8 anos de maneira decisiva ao desenvolvimento de Manaus. Exatamente há 8 anos o SPP começou na modéstia das suas possibilidades e vem paulatinamente, mantendo o seu rumo de trabalho silencioso e consciente, nesses 8 anos de experiência e de dedicação à sua missão precípua. Hoje, dia 15 de agosto, comemora-se com grande júbilo o 8º aniversário de fundação do Serviço de Proteção Patrimonial, que já faz parte do dia-a-dia de nossa Capital.


Recorte de A Crítica, 12 agosto 1976

Orgulhoso pelo trabalho que realiza, o SPP, à medida em que se expande, vai, também, admitindo como absolutamente certa a estrada que o Brasil vem palmilhando em busca do bem-estar de seu povo. Quanto mais necessidade de segurança ao patrimônio, maior prova de que, a despeito de tudo e de todos, muito mais gente está enriquecendo nesse País. O incremento da segurança do patrimônio é, sem dúvida, um índice veemente de que a riqueza nacional aumenta e muitos brasileiros mais estão enriquecendo ao contrário de alguns anos atrás. É a meta do Governo que vai sendo ferinamente atingida: a renda nacional pertence a muito maior número de brasileiros a cada ano. Parabéns ao SPP, com os votos de progresso para todos quantos ali emprestam o seu trabalho, o seu esforço.

Esta organização tem à frente o coronel EB Darly Sampaio (Diretor-Presidente) e Djalma Dutra, ambos sócios fundadores.

quinta-feira, agosto 20, 2026

PRIMEIRA VIGEM AO PERU

Aproveitei as férias de julho de 1981, para viajar a Iquitos, no Peru, terra natal de meu pai. À época, José Lindoso exercia o cargo de governador do Estado e recebera um protótipo de barco – um catamarã – para emprego na região.  Como a viagem inaugural subiria o rio Solimões, vivenciei a prova de funcionamento. Parti de Manaus numa quarta-feira e só desembarquei na semana seguinte; sem recursos de comunicação, levei a semana sem qualquer notícia sobre o restante do país.

Autor no Callao - Peru, em julho de 1981

Em Tabatinga, procurei informações sobre a viagem até Iquitos; além do serviço aéreo da Cruzeiro do Sul, existia um hidroavião da FAP (Força Aérea Peruana), cujo atrativo era o preço da passagem.  Na margem peruana, o hidroavião embarcava os passageiros junto a um flutuante, onde também se comprava a passagem. Sem horário fixo, passei a tarde aguardando e tomando “umas e outras”. Por razões logísticas, o avião pousou num pelotão militar próximo à cidade de Pebas, onde pernoitei. Na manhã seguinte, desembarquei em Iquitos, sendo calorosamente recebido pelos familiares.

A família de tia Laura e filhos e nora na recepção,
em Iquitos, julho de 1981

Queria ir mais longe: a ida e volta à capital Lima foi encaminhada pelo parente Miranda, funcionário da Cruzeiro, que me adquiriu passagem como se fosse nacional. Em 26 de julho, embarquei em um DC-3 ou 4 da Faucett Perú, no aeroporto – Francisco Secada Vignetta, inaugurado em 1979; assentado à janela observei a mudança da selva amazônica para os picos nublados dos Andes e, por fim, as ondas do Pacifico. Um amigo da família me recepcionou no aeroporto Jorge Chavez, na província do Callao.

Avião da Faucett Peru, no aeroporto de Iquitos,
em 26 julho 1981.

Celebrei as “Festas Patrias” em Lima, junto aos amigos da família, ocasião em que visitei as principais atrações turísticas. No retorno a Iquitos, ainda pela Faucett Perú, fui assediado no aeroporto por inúmeras pessoas pedindo para levar uma “encomenda”. Lembrando a recomendação do Miranda: nada de transportar pacotes. Assim fiz. Em Iquitos, tomei passagem na Cruzeiro para Manaus, cujo voo fazia escala em Tabatinga e Tefé. Somente voltei a Iquitos em 2015.

terça-feira, agosto 18, 2026

VIAGEM NO TEMPO (4)

 

Feliz Aniversário       18.07.2026                        

 Renato Mendonça 

Logo cedo, recebi uma ligação do José Manoel me parabenizando pelo aniversário. Durante a conversa relatei o desconforto da Alda, que não havia passado bem à noite, e a suspeita de infecção urinária. Sua esposa, Marília, aproveitou a ligação e interveio com asserção, nos orientando a procurar o Hospital Santa Júlia, instituição de boa reputação. Assim, programamos a ida imediatamente, sentindo uma certa urgência.

Chegamos ao Hospital Santa Júlia bem cedo, na manhã do dia de São Pedro, logo após o saboroso café do hotel. Mesmo com a informação prestada pela Marília, ainda havia entre nós uma pequena preocupação com a natureza da instituição e se seria atendido pelo plano de saúde. O motorista do Uber nos deixou exatamente no atendimento de emergência, com acesso pela Avenida Ayrão.

Como se fosse uma bênção divina para comemorar o aniversário, essa instituição estava cadastrada para atender meu plano. Desde a recepção, observamos que era um hospital de excelência, com boa estrutura, todo informatizado, com agilidade impressionante no atendimento e no resultado dos laudos de análises clínicas dos pacientes. Um painel à frente mostrava o andamento de cada resultado, assim como já constava do celular cadastrado do paciente. Em pouco tempo, Alda estava de volta à mesa da médica Maria José Silva para sistematizar o laudo e receber a prescrição dos remédios. Havia urgência em comprar e começar a tomar o antibiótico.

O guarda, com a calma de quem conhece cada recanto daquele espaço, nos guiou por corredores silenciosos, ladeados por salas de atendimento e consultas. Saímos por uma porta lateral e tomamos um elevador para subir um andar; de repente, o mundo hospitalar se dissolveu na vibração da cidade. A Rodovia Álvaro Maia pulsava com o ritmo apressado dos carros e o colorido das farmácias, cada uma oferecendo remédios e cosméticos.

A urgência nos fazia caminhar rápido, mas havia algo de ritual nesse deslocamento: como se o antibiótico fosse não apenas um remédio, mas um símbolo de esperança, um elo entre a fragilidade humana e a força invisível que nos sustenta. O dia de São Pedro, outrora celebrado com procissões e fogueiras em cantos da cidade, ali se manifestava em forma de bênção silenciosa — o encontro entre a fé e a ciência, entre o cuidado humano e a tecnologia que acelera curas.

Ainda como parte das bênçãos recebidas, estávamos próximos ao Cemitério São João Batista, onde eu tencionava passar para rever o túmulo de minha mãe e de minha avó. Fazia parte do meu plano primitivo, antes de viajar. Caminhamos até lá. O portão do cemitério era como se fosse passagem para outro tempo, outro mundo. Cada passo sobre o chão quente trazia lembranças que se misturavam ao presente. O azul do túmulo, ainda vivo na memória digital, agora se revelava diante dos olhos com outra cor, mais brilhante sob a luz do sol. Toquei a superfície da lápide e senti que, de algum modo, minha mãe e minha avó estavam ali — não apenas sob a pedra e a camada de terra, mas no calor que me envolvia, na emoção que me tomava por inteiro. Esse instante singular reformulou minha maneira de sentir saudade de minha mãe — como se fosse uma saudade compartilhada —, cuja breve existência de apenas trinta e cinco anos deixou em mim uma ausência que não se apaga — a beleza que nunca se acaba. Cada lembrança é um fio de dor e ternura, e ao evocá-la, sinto que sua vida interrompida continua a pulsar dentro de mim, como se me pedisse que a memória seja também uma celebração.

 

Renato no cemitério São João Batista

Rezei em silêncio, como quem conversa com o passado e pede proteção para o futuro. O vento leve que atravessava nossos corpos parecia resposta, um sopro de bênção. Naquele instante, a viagem deixava de ser apenas deslocamento geográfico: tornava-se uma peregrinação íntima, um encontro entre fé, memória e destino.

É impróprio dimensionar o tamanho da emoção, posso assegurar que o momento foi épico — o melhor presente de aniversário para meus 75 anos — comemorado com uma festa espiritual. Minha avó, que conviveu mais tempo comigo, me “olhava” com seus olhos miúdos e me acalmava. Segredamos juntos nossas orações e pedi-lhes a Bênção. Uma placa provisória, trazida pelo meu irmão Roberto, que me acompanhava também nessa missão, encimava o túmulo. Prometi para elas, e para mim mesmo, que não vou ficar mais tanto tempo afastado... se Deus quiser.

O calor do verão amazônico parecia selar meu juramento, como se o próprio sol fosse testemunha da promessa. A lembrança do meu pai, repousando no São Francisco Xavier, aguardava sua vez de ser visitada, mas naquele instante o destino e a fome nos chamavam para a casa do Roberto, meu anfitrião.

O almoço em família, simples e festivo, foi como prolongamento da oração feita no cemitério. À mesa, entre risos e histórias, percebi que a viagem não era somente uma jornada física programada: era celebração da vida, encontro de gerações, reafirmação de laços que resistem ao tempo. Cada garfada trazia o sabor da memória, e cada palavra trocada era bênção renovada de amor e fé. Roberto, Beatris e a juventude da filha, Sofia, 16 anos, foram fundamentais para que nos sentíssemos novamente no aconchego de um lar — e feliz aniversário!

 

Renato - no cemitério São Francisco Xavier

À tarde, presente ao túmulo de meu pai — sepultado com minha madrasta, Doroteia — a mesma fé devotada. O azul tênue do céu parecia guardar segredos, e a nuvem que se afastava com o vento carregava consigo minha angústia, como se fosse mensageira de um consolo invisível. Percebi que a fé que compartilhamos muitas vezes ainda nos unia em silêncio, cada um traduzindo a ausência à sua maneira.

Meu pai, mesmo ausente, deixava ali sua marca: um legado que me acompanha e se revela nas pequenas lições que a vida me ensinou quando ele estava presente e após sua partida. Era como se ele me dissesse, naquele momento, através do sopro do vento, que a paz não está em negar a dor, mas em aceitá-la como parte da caminhada.