A
postagem celebra quem aproveitou o bom tempo, transcrevendo a cronista Beth
Azize que, em sua coluna publicada há pouco mais de 50 anos, recorda com
detalhes o passeio de Bonde. Agradeço ao Ed Lincon, enamorado por esse meio de
transporte, apesar de nunca ter utilizado, mas preserva a lembrança de família,
pois seu avô foi motorneiro da Manáos Tramways.

Bonde circulado em Manaus, até 1957
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| Recorte da coluna publicada em A Crítica, 30 agosto 1975 |
Domingo, 4 horas da tarde. “Vai tomar banho menina, senão vais perder a volta de bonde”. Todos os domingos à tarde, numa época que já vai bem longe, mas continua próxima na lembrança, as moças casadoiras, vestidos de frufru, laços nas cadeiras, sombrinhas rendilhadas, tomavam o bonde na estação para se exibirem aos pretensos pretendentes que, de chapéu de coco e bengala, “flertavam” sobre os trilhos.
O
costume se transferiu para uma outra geração. E ainda na década de quarenta
[1940], toda a turma que já sabia se vestir e pentear o cabelo sem ajuda da
mãe, ficava esperando, com ansiedade, a volta de bonde, no Circular
Cachoeirinha ou Flores, ou nos Remédios.
A
garotada subia pelos estribos com alvoroço. Papai advertia: “vê se vocês não
vão cair”. A briga começava pela ponta do banco. Todo mundo queria ficar na
extremidade dos bancos de madeira envernizada, pra ver melhor a rua e as
pessoas. Era uma euforia quase histérica. Mas numa história de crianças, como
se tivéssemos a caminho da Lua, numa nave espacial.
Essa
mesma sensação tive quando andei pela primeira vez no Zepelim, um ônibus com
feitio de avião ou foguete que por cá apareceu e depois desapareceu por encanto,
como a nossa meninice. Mamãe me conta que “no seu tempo” as moças andavam de
sombrinhas abertas nos bondes e os rapazes começavam o namoro elogiando a
sombrinha.
E
ela bem se lembra que papai a viu pela primeira vez com uma sombrinha de bordados
e cor marrom. O seu Rafa, muito vivo, sabendo-a coquete foi logo jogando seda
pra sombrinha que era o instrumento que melhor servia pras mocinhas fazerem
charme e gesto de conquista. Deu certo. Conosco a coisa mudava de feitio. Éramos
bem crianças e a nossa sensação tinha que ser diferente, claro.
Quando
o bonde chegava no ponto final, tínhamos que esperar a hora para a volta e
nesse intervalo fazia-se a compra dos doces, do rala-rala, do alfenim, do gergelim,
do pirulito. E no regresso, chupando o pirulito que começava a perder sua forma
e o açúcar, vendo o bonde conquistar os metros de trilho de volta, torcíamos no
íntimo mais escondido para que a viagem não tivesse fim.
No
estribo o cobrador passava, uma mão na alça metálica, outra com o dinheiro todo
dobradinho e a sacola pendurada na cintura, cheia de moedas. “Leva!” Ou então, “Ten-tem”.
E o bonde parava nos pontos certos, fazendo ranger sobre os trilhos uma música tão
familiar.
Na
hora da descida, quando o passeio terminava, outra confusão agitava a mente da
turma endiabrada. Ao invés de esperar-se o bonde parar de todo, um instinto de
impetuosidade nos levava a saltar com ele ainda em movimento. Era uma delícia.
Mas quando se chegava em casa a dedo-duro da família já subia as escadas
gritando: “Mamãe, fulana e fulano ‘morcegaram’ o bonde!” E o cinturão ou a
chinela cantava no lombo. “Seu condutor, tin-tin, seu condutor, tin-tin, para o
bonde...”








