CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

domingo, julho 26, 2026

POEMA DOMINICAL (45)

 O autor - Max Carphentier (abril de 1945), publica este poema no Jornal do Commercio, edição do domingo, 25 julho 1976 - há 50 anos.

Jornal do Commercio, 25 jul. 1976 - não foi
possível identificar o ilustrador 

O CANTO DO POETA 

Ribalta de ninguém, esta / rotura clássica / do granito em sépalas / de espanto / 

não poderá tecer-te / de rápida platina: toda / liquifação da flora não / resumirá o ilógico do instante, / mormente o que separa o antes / do sempre nos cabelos da lembrança / firme, 

peregrina nas tumbas de um / deserto / (a tara fica, fica e vai / pousar apenas renda em / teus quadris).

E na fronte insentida / (que adormece) / o abandono cai com a mesma / consternação irreparável / da lágrima de um lírio / de setembro.

sábado, julho 25, 2026

DIA DO ESCRITOR

 

Após breve dúvida, para comemorar o Dia do Escritor, revisei meus arquivos sobre o in memoriam  Ramayana de Chevalier (1909-72 ), que, no decorrer de 1961, há 65 anos, publicou crônicas e artigos no extinto jornal A Gazeta. Quase encerrando aquele ano, Chevalier demonstrou sua erudição ao comentar “A Raposa e as Uvas”, peça apresentada no Teatro Amazonas pelo Teatro Escola.

Ramayana de Chevalier

 BEBE O MAR, XANTÓS!

 Ramayana de chevalier

A GAZETA, 19 de dezembro de 1961

 

QUANDO as centelhas do primeiro relâmpago rasgaram os céus, entre massas de nuvens e pavores eternos, duas criaturas se digladiavam, filhos do mesmo Deus, o Anjo do Bem e o do Mal, enquanto dentro da caverna, começava a se esboçar, no alto do monte, a palavra mágica de Zaratustra. O que Nietzsche fixou, milênios depois, significa o nascimento do teatro. Essa luta milenária é o sangue e a voz do teatro.

Ainda estou emocionado, até agora, com a reapresentação de A Raposa e as Uvas, poema de profunda crispação estética, filho do talento de Guilherme Figueiredo. Se o Novo Amazonas pode ser afirmado, em realidade, é num momento desses. Aos saudosistas, não resta senão um gesto de compreensão. Jamais, em todo o nosso passado artístico, tivemos uma tão profunda demonstração de pujança intelectual, de criação interpretativa, do que durante o drama grego, da autoria daquele inolvidável Guilherme Figueiredo, nos nervos da equipe amadorista do nosso Teatro Escola.

A vida, no seu conturbado mistério, que se confunde com o mistério do teatro, na apreciação de Jean-Louis Barrault [1910-94, ator francês], a destinação dos sábios, o prêmio transitório da fortuna à mediocridade, a intriga dos simples e, ao cabo de tudo, o imenso triunfo do Amor, em toda a sua plenitude, a vitória do Espírito sobre a Matéria, assim é o desenrolar dessa peça maravilhosa, lição, diversão e glória. Com o Ponto a cargo de Geraldo Xavier e a direção de cena sob o comando de Aldemar Bonates e Francisco Aragão, a peça se mostrou ao nosso povo, que a aplaudiu delirantemente durante vários minutos, por duas vezes, com o cenário sóbrio, elegante, real e harmonioso, sobretudo histórico e sugestivo. É uma residência grega de um filósofo rico, com toda a vertiginosa beleza do seu tempo.

O ponto alto da representação é a figura monstruosa de Esopo, revelado pelo talento de Alfredo Fernandes. A caracterização, a justeza de atitudes, a presença do corcunda que, como um Caliban, horripila pelos olhos, mas que é um Ariel no espírito, tudo se reuniu para dizer da alta dramaticidade, da voz segura e impostada, do sucesso rigorosamente perfeito do intérprete do feio samósata. Hélio Azaro esteve magnifico. Xantós, o filósofo, através do seu talento cênico, revive e entusiasma, dá-nos a ideia nítida da fraqueza humana em todos os tempos, a exaltação da vida luxuriosa e fútil, a enorme lição da desumanidade vencida. Mauricio Wanderley, no Etíope, está bem posto, discreto e sincero, enquanto Carlos Araújo, em Agnóstos, é uma expressão teatral de porte soberbo. Terezinha Tribuzzi, em Melita, admirável corporificação das grandes passionais da Hélade antiga, dá-nos um papel natural, elegante, sutil, capaz de emocionar nas horas amenas de convívio com Xantós, como nos lances dramáticos de dedicação ao seu amor oculto. Ao seu lado, Ana Maria Araújo, numa Clea radiosa, viva, bela e espontânea, figura imponente de uma Grécia que nos deu Parmênides e nos deu Safo, honrando ao elenco.

O conjunto excedeu a todas as expectativas. Houve uma alma de santo passeando pelos corredores, afagando sacrifícios, velando, ora a assistir para ajudar, ora a viver os papéis antes de explicá-los, ora a desaparecer na sua modéstia, como a luz das cavernas, que ilumina sem ser pressentida: Américo Alvarez, um dos diretores artísticos do Teatro Escola Amazonense de Amadores. Mas o Amazonas, como sempre, deve tudo aos que aqui chegam, para cumprir um fadário, e terminam enleados na tremenda realidade telúrica e morrendo numa saudade doce e eterna.

O Amazonas deve o sucesso de A Raposa e as Uvas, a dois espíritos de brasileiros de outras paragens. Um deles, esse inefável e indescritível Gebes Medeiros, dínamo de capacidade invulgar, sonhador incorrigível, dono de uma extraordinária inteligência criadora. Veio de Alagoas e luta, com um punhado de heróis, pela grandeza de nossa cultura. O seu esforço, à frente do Teatro de Amadores, comove. Sou um decidido e obscuro voluntário do seu exército de párias, aplaudindo-o freneticamente. Em Gebes, quando se o aplaude, não se o faz a um homem em carne e osso, mas a uma materialização de artista, de todos os tempos, hábil e bom como um veio d’água.

E, como os veios d’água, ele se deixa atravessar pela luz, fixando-a nas suas cores e no seu brilho. A outra criatura a quem o Amazonas já muito deve, nesta fase de ressurreição estética, é uma paulista, de sangue misturado como as águas do Amazonas: Úrsula de Noronha Santos. Esposa do engenheiro Noronha Santos, que luta, ao lado de outros técnicos, por dotar Manaus de um sistema luminoso moderno, Úrsula é um talento recortado de um álbum de Fra Angélico. Nunca deixará de ser criança, pois só às crianças é dado sonhar com as coisas de Deus. Foi ela a autora daquele cenário maravilhoso, uma das diretoras artísticas do conjunto, interferindo nos gestos, na mímica, na voz, na conduta e nos ensaios dos atores. Foi ela a sombra meiga que se devotou a uma causa, cujo sentido, só os altos espíritos podem compreender. Num momento em que se dá tanto título de “cidadão do Amazonas” a quantos elementos mal se conectam com a nossa vida interior, com as vibrações do nosso espírito planiciário, urge que deputados, bem intencionados, outorguem esse título a esses dois brasileiros de outras paragens, unindo-os espiritualmente a nós, para toda a vida.

Ao Governo do Estado, que se entusiasma tanto com as realizações legítimas, que nos honram e nos enobrecem, um apelo: que o Teatro Escola Amazonense de Amadores saia por esse Brasil, mostrando aos patrícios, o que já conseguimos pela cultura e pela inteligência, levantando-nos do nada, erguendo-nos da crise, vivendo pelo espirito e pela Arte. Isso é fazer um Novo Amazonas, superior ao antigo, maior, bem maior do que o das eras do oiro e do champagne, como afirmação de sentimento, de estudo e de cultura. O que eu vi no Teatro Amazonas me deixou completamente em êxtase. Natacha, contemplativa, estava de lágrimas nos olhos, a mais bela homenagem ao gênio dos intérpretes caboclos. ***

quinta-feira, julho 23, 2026

PRAÇA RIBEIRO JÚNIOR (2)

 Há setenta e um anos, precisamente em 23 de julho de 1955, foi aberta ao público a então denominada Praça Ribeiro Junior, instalada no canteiro central da avenida Leovigildo Coelho e delimitada entre as ruas José Paranaguá e Lima Bacuri. 2 anos depois, ela foi soterrada. A postagem – dividida em duas seções – expõe o texto do saudoso jornalista e acadêmico Arlindo Porto, publicada em A Crítica, em 23 julho de 1978.

Recorte do livro editado em Manaus
Detalhe do artigo de Arlindo Porto

                                                     SALVE  RIBEIRO JÚNIOR

Arlindo Porto

Tudo isso ocorreu após os eventos golpistas de 1964, nada tendo eu podido fazer a respeito, nem mesmo protestar contra a agressão à memória de Manaus, pois tangido pelas circunstâncias, me auto exilara e fixara residência por mais de 10 anos, no Rio de Janeiro. Manda a justiça que se proclame, no entanto, que atendendo a uma solicitação que eu lhe fizera, o prefeito Paulo Pinto Nery, no que se obedecia a uma recomendação do próprio mestre Branco e Silva, então já falecido, mandou pintar todos os anos, enquanto esteve à frente da Prefeitura, a herma de Ribeiro Junior com a cor bronzeada apropriada, o que levou muita gente, até hoje, a pensar que a peça fora elaborada naquele precioso metal. Esse trabalho na conservação somente deixou de ser feito após a saída de Paulo Nery da Prefeitura, com o consequente escorraçamento da herma da praça que tinha o nome do homenageado.

Quanto à herma, em nova avalanche modernizadora, esta já ocorrida na gestão atual do sr. Manoel Henriques Ribeiro, foi derrubada da anônima e anódina mureta em que fora depositada, e desapareceu. provavelmente soterrada nos trabalhos de nivelamento ocorridos na praça da Saudade.

Quanto à praça em si, penso que esta continua existindo oficialmente, tal como já afirmei antes. Pelo menos não é do meu conhecimento a aprovação de qualquer lei extintora da homenagem, pela Câmara Municipal. É bem verdade que ela não aparece na planta de Manaus impressa no catálogo telefônico da cidade, mas este não é um documento plenamente confiável, pois até chega a grafar o nome do grande Heliodoro Balbi, como “Heliodora Balisa'”... Até bem pouco tempo o nome de Ribeiro Júnior continuava aparecendo nas contas de água, luz e telefone. Agora já não sei.

É bem verdade que, com a expulsão e degredo da herma para a praça da Saudade e desaparecimento da passarela central, o logradouro que homenageava o “Redentor” perdeu visualmente a condição de praça, nada mais tendo que possa sequer lembrar haver existido ali, algum dia, aquela característica urbana.

Creio ser chegado o tempo daqueles que pugnam pela manutenção da memória de nosso Estado, tendo à frente o Instituto Geográfico e Histórico, de encetar uma campanha junto às autoridades competentes, no caso a Câmara Municipal e a Prefeitura, para que se nomeie uma outra área da cidade com o nome de Alfredo Augusto Ribeiro Junior e para ali se devolva, renovada, a sua herma, a fim de que as gerações que nos sucederem tenham a oportunidade de recordar a figura brava de um homem que, mesmo aqui não tendo nascido, não vacilou em arriscar sua carreira e o seu futuro em bem do povo amazonense.