FASCÍCULO 15
Ao retornar ao quartel no início de 1978, fui informado do
honroso prêmio alcançado: ser transferido do batalhão de Petrópolis para
comandar a Rádio Patrulha. Este órgão, criado em 1972, funcionava em um quartel
inaugurado no ano de 1977, onde substituí ao major Mael Sá, conhecido pela sua
exigência com o serviço externo, notadamente o de radiopatrulhamento; concedendo
aos patrulheiros ampla liberdade para agir e apoiando a repressão empregada.
Para minha desventura, não aceitava esse perfil, porque defendia que o policial
devia fiscalizar para proteger, e não para acossar. O serviço era realizado em
prosaicos Fuscas, equipados com uma sirene e um rádio Motorola de funcionamento
primário. Contudo, o policiamento, apesar desse reduzido aparato, impunha
respeito e receio à sociedade. De fato, cumpria sua função plenamente.
Ao assumir o comando, passei a receber diariamente inúmeras
reclamações de pessoas sobre os mais variados temas; a mais recorrente era a
perseguição ao casal que, no interior de seus automóveis, buscava o escuro ou o
matagal para maior enlevo. Nas formaturas diárias eu expunha minha posição
acerca desse tipo de patrulhamento e, não raro, de maneira ríspida, recomendei
que não procedessem assim, pois poderiam encontrar no local uma parenta
próxima. Numa dessas noites, eu me encontrava no estacionamento do estádio
Vivaldão, exercendo meu direito de namorar, quando minha parceira alertou que
um veículo se aproximava; ao verificar, reconheci uma viatura da RP, às
escuras. Os patrulheiros, ao reconhecerem meu carro – uma Brasília VW dourada –
manobraram em velocidade de F1, tornando impossível a sua identificação.
 |
| Vista aérea do quartel da Rádio Patrulha, 1978 |
Minha postura quanto à disciplina e o controle do
policiamento acabou incomodando os subordinados, que desejavam fiscalizar
conforme lhes convinha, para obter as propinas que grande parte da cidade
pagava. Perdi a disputa: certa noite o pessoal de serviço foi advertido pelo
superior de dia, numa espécie de intervenção no comando, para que saísse às
ruas e assumisse o turno. A despeito dos obstáculos, consegui, ainda que a
duras penas, manter o comando até o fim do ano. Contudo, o pior erro foi obra minha,
quando minha residência no Morro foi assaltada, e dali subtraíram o revólver da
corporação sob minha cautela. Em conluio com alguns colegas, elaborei um
inquérito infundado, atribuindo a culpa a terceiro. O expediente funcionou por
um tempo, até que no ano seguinte a arma foi apreendida na posse de um
marginal, que revelou a procedência. Resultado: acabei no banco de réus da
Auditoria, ameaçado de ser excluído da corporação.

Antes dessa passagem pela Justiça, já havia enfrentado outra
quando, no comando do coronel Ossuosky (1975-79), eu dirigia o Centro de
Operações (COP). A cidade arrostava a atuação da gangue dos “Mulatos”, que
exigia redobrado esforço dos policiais; em uma operação noturna, o
desembargador Paulo Feitosa – pardo – foi aviltado por um soldado, fato que
exigiu do comando largo esforço para contornar a situação. Dias depois, em
plena manhã, um oficial de justiça foi detido e conduzido à sede do COP, onde
me encontrava e prestei atendimento. Ouvido, foi liberado sem restrição, por
ordem do comandante, porém, quando chegou à sede do Tribunal de Justiça, seu
local de trabalho, relatou sua “versão”. Mais uns dias, eu recebo uma intimação
do Tribunal, acusando-me de agressão àquele servidor. Apesar de minhas
justificativas, inclusive citando a participação do coronel Ossuosky, fui
incriminado e julgado. No dia do julgamento, ocupando o banco de réu, vi passar
os colegas de faculdade que não entendiam a situação. Meu defensor – doutor
Cabral Simonetti – recomendou-me que, se possível, chorasse, nada de atrevimento.
Todavia, não suportei a descrição do crime realizada pelo promotor – Dr. Thury,
tão engenhosa que o encarei, de que se aproveitou para me admoestar; fui salvo
pelo meu defensor. Afinal, fui absolvido com restrições; então, compreendi ter
sido utilizado, pois o Tribunal de Justiça teria embaraços para julgar o
comandante, na condição de secretário de Estado.
 |
| Inspeção do general IGPM à Rádio Patrulha. 1978 |
Desejo registrar um caloroso momento ocorrido em meu comando:
a visita do Inspetor-Geral das Polícias Militares, em maio daquele ano. A curiosidade
ficou pelo seu nome de guerra, de difícil sotaque para os nortistas – general
Schnarndorf. Ao tempo, as organizações policiais – como órgão auxiliar – se
encontravam sob o controle das Forças Armadas; por essa razão, o inspetor
visitava periodicamente as PM. A interferência proliferou de tal maneira que, para o cabal cumprimento
das normas, eram distribuídas cartilhas, cuja capa, de coloração amarela
intolerante, ensejou o codinome de “amarelinhas”. De outra forma, a Inspetoria
distribuía fartamente vagas em cursos dentro e fora do país, facilitando com
essa movimentação alguns “penduricalhos” no soldo dos policiais; esse benefício
era extremamente bem-vindo.

A esse respeito, tenho duas peripécias sobre curso no
estrangeiro. Na primeira, se não me falha a memória, foi cerca de 1968 em que a
PM foi contemplada com duas vagas para um curso nos Estados Unidos. As
colocações eram abertas a todos oficiais indistintamente, sendo a única
exigência a proficiência em inglês ou espanhol. A vaga destinada a falantes em
inglês, cuja competência era exclusiva do tenente Osório, foi preenchida
prontamente; já a destinada a especializados em espanhol exigiu prova escrita
porque havia vários inscritos. Revisei meu portunhol, aprendido com meu pai e
com conterrâneos peruanos, e consegui a aprovação. Meu entusiasmo, porém, durou
pouco; um oficial mais graduado procurou o comandante e obteve minha
substituição por outro colega, justificada somente pela antiguidade. Guardei
ressentimento. Dois anos depois surgiu nova vaga e a mesma exigência; dessa vez
sequer me inscrevi, receoso de sofrer nova retaliação. (segue)