CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, julho 06, 2026

MEUS OITENTANOS (8)

 

FASCÍCULO 8

 

Aniversariante em vários anos

Não demorou para a jovem esposa anunciar a vinda do primeiro rebento, a filha Valéria, nascida em dezembro. O apartamento da família, de cerca de oitenta metros quadrados, ocupava o terceiro andar do Edifício Lilac, sem elevador. A minha impressão era de um prédio semiacabado, projetado para mais um quarto, todavia, não construído. Erguido no início dos anos 1960, foi possivelmente o primeiro edifício de um apartamento por andar em Manaus. Bastante degradado, ainda agora permanece no mesmo endereço, agora com a denominação de Edifício Jurandir Queiroz. Para atender às recomendações médicas e evitar as escadas para a gestante, alugamos uma casa na rua Carolina das Neves, esquina da praça Bandeira Branca, no bairro de Aparecida, utilizada até o nascimento da filha, quando retornamos ao Lilac.

Iniciei o curso superior no período noturno com cerca de trinta universitários, oriundos dos colégios mais conhecidos, e pela primeira vez me encontrei com mulheres em sala de aula. Nas aulas, era exigido o uso de paletó ou blazer; para tanto, fui me adaptando. O entusiasmo pelo curso me fez adquirir um gravador importado pela Zona Franca. Gravava a aula e depois efetuava uma cópia, às vezes distribuída aos colegas, em particular àqueles da turma da “igrejinha”. Mantive afinco nos estudos e excelente classificação e, já no primeiro ano, conquistei a Ordem dos Cobras, outorgada pelo mestre Samuel Benchimol. Frequentei a faculdade até concluir o terceiro ano; em 1972, viajei a Fortaleza para cursar o Aperfeiçoamento e, em vez de solicitar transferência, optei por trancar minha matrícula. Ao retornar, o sistema seriado havia sido substituído pelo de créditos, e essa alteração e outros detalhes inconvenientes adiaram minha formatura para 1980.

A Força estadual prosperava com ênfase, em parte para atender à demanda de trabalho que lentamente ocupava a capital. Aumentou o efetivo, incluindo oficiais R/2 e de escolas de formação, além de praças. Como a circulação de veículos crescia, o controle também exigia mais policiais; a massa de ribeirinhos apossava-se sem ordem dos arrabaldes da cidade, as afamadas invasões. O policiamento mais efetivo era realizado pelo Cosme & Damião, exclusivamente no centro comercial. Na festa da criação da província do Amazonas — comemorado no dia 5 de setembro —, fui promovido a capitão e em decorrência, fui nomeado tesoureiro da corporação. A explicação para promoções tão céleres é que aconteciam por efeito do aumento do quadro e da posição hierárquica.

Deparei a tesouraria com um sistema anacrônico, movido à caneta esferográfica e papel almaço, as folhas de pagamento eram manuscritas em almaço e, para evidenciar a indigência da repartição, havia apenas uma máquina de calcular manual disputada por cinco furriéis (encarregados das folhas). Quando do pagamento, o tesoureiro recebia na Tesouraria estadual o cheque com o total de todos os policiais, ativos e inativos, distribuindo o valor de cada folha por unidade. Atribulado por mais um pormenor: pagamento realizado em espécie. Certo dia de pagamento, pensei em desaparecer da cidade com esse imenso valor, mas não atendi ao mau espírito, receoso das pragas, além de perder as benesses permitidas pela função.

No final de outubro, o quartel promoveu uma marcha para Itacoatiara, orientada por oficiais recém-formados no CIGS, que transpôs a rodovia de cerca de 260 quilômetros interligando a capital ao município. Grande trecho da estrada ainda de terra, bastante enlameada em função das chuvas, por isso, o deslocamento de automóvel era desastroso, ainda assim, na condição de tesoureiro, enfrentei o trajeto para levar um adiantamento monetário ao pessoal. Por essa ocasião, adquiri meu primeiro veículo: Chevrolet Chevette, modelo 1967, placa 8392 — com pequeno defeito na tampa do porta-malas —, que pertenceu ao colega do NPOR Renato Tribuzi. Eu conseguia dirigir de maneira razoável, aptidão aprendida em viaturas da Polícia Militar, mas não tinha carteira de habilitação.

Em casa, empenhava-me nos preparativos para a vinda do bebê, sem saber o sexo, com previsão do parto para a metade de dezembro. As necessidades essenciais, como hospital e médico, já estavam ajustadas. Encontrava-me nessa expectativa, quando, em 10 de dezembro, o subcomandante coronel Neper Alencar solicitou minha presença no gabinete e me consultou se poderia presidir um inquérito acerca de um homicídio ocorrido naqueles dias. Em síntese: o soldado Jonas Santos havia matado um homem no garimpo do Igarapé Preto, um afluente do rio Madeira, no município de Manicoré. Num beiradão ermo, onde parecia não haver vida. O próprio coronel me persuadiu ao esclarecer que o conflito estava relacionado à disputa pela jazida de cassiterita no local, na qual circulavam vultosos recursos. Para finalizar as tratativas, o coronel conduziu-me ao Hotel Amazonas para que eu me encontrasse com o senhor Valadares, um dos interessados na exploração exclusiva do minério.

No curso da conversa, Valadares, sendo informado da conjuntura doméstica e das providências tomadas, enfiou a mão no bolso e me entregou uma dinheirada, e ainda prometeu o apoio de transporte entre Porto Velho e o garimpo, a ser realizado em seu avião. Deixei o hotel consciente do anseio dele: retirar de um local severo um concorrente, tratava-se de ação rejeitável para este policial. Os preparativos foram céleres, nomeado o escrivão, sargento Sandoval da Silva, acautelei um revólver 38 e, portando meu rifle 22, excelente para passarinhar, embarquei com o escrivão em um turboélice YS-11 da Cruzeiro do Sul e desembarquei na capital de Rondônia. Ali encontrei o sogro, que, após conhecer minha missão e saber a situação do parto da filha, ficou de sobreaviso. Como me avisar no meio do mato, se era difícil a ligação telefônica interestadual, somente se valendo de aviões que diariamente circulavam para o garimpo. Prontamente embarquei no avião monomotor de Valadares, com 4 lugares e capacidade para 300 quilos de carga, ideal para operar na pequena pista de pouso e a única condição de retirar a cassiterita do local. 

Ao chegar, encontrei agentes da Fazenda Estadual já alojados no igarapé há semanas e me deram orientações de sobrevivência. A mais útil foi armar a rede rente ao chão para dormir, em razão de que todas as noites ocorria tiroteio por ali. Reforçaram a importância de caprichar na medicação antimalárica. E houve ainda uma intrigante: o soldado Jonas, acusado de homicídio, havia se recolhido à sede do município. No dia seguinte, o tenente já exercia a função de “delegado” do garimpo; passei a observar as grutas de minério, a mediar queixas pessoais e a fiscalizar os bares, onde as meretrizes eram abrigadas em quartos, diante da porta havia fila de inúmeros clientes. Presenciei enterros de pessoas de várias idades, a maioria vítima da malária. O campo de pouso, por não ter controlador, exigia vigilância constante de todos, pois o avião surgia com combustível na medida de ida e volta e, por isso, transportava mais cassiterita. Até fui obrigado, em certo momento, a me juntar aos presentes para empurrar um avião e liberar a pista. Detalhe final: o garimpo do igarapé Preto, dois anos depois, passou à administração da Paranapanema.

Os residentes, buscando segurança, pensaram em construir uma delegacia e, para isso, me consultaram. Como não possuía autoridade para tanto, ainda assim os estimulei. Afirmaram-me que faltavam apenas as telhas e logo se cotizaram, entregando-me o valor para aquisição do material em Porto Velho. Aproximava-se o Natal e minha preocupação estava em Manaus, sem ter qualquer notícia. Deixei instruções com o sargento Sandoval e embarquei.

Ao chegar, fui informado pelo sogro do nascimento da filha Valéria, dia 20 de dezembro, hoje residente em Brasília. Não esperei, passei o encargo da compra e remessa ao sogro, e marquei o bilhete na Cruzeiro do Sul para o retorno, que realizei na véspera do Natal. No ano, houve dois sequestros de avião na região, que foram conduzidos para Cuba, e essa funesta lembrança me fez, como oficial da PM e viajando armado, imaginar minha reação se, porventura, o YS 11, no percurso de 60 minutos, fosse sequestrado; era clara minha ansiedade em conhecer a nova gracinha de casa. O ano velho fechou com festas, e o novo chegou com a mesma medida.

  

domingo, julho 05, 2026

POEMA DE DOMINGO (25)

 Max Carphentier Luiz da Silva (1945-) nasceu em Manaus, revelando-se poeta no conjunto da literatura amazonense na década de 1970. Pertence à segunda geração do Clube da Madrugada, que administrava a página O Canto do Poeta, Max é membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e da Academia Amazonense de Letras.

 

 

Recorte de A Crítica, 11 julho 1976, circulado
há 50 anos

REENCONTRO

Max Carphentier

Tenho-te agora mais antiga e / menos imponente / como os vestígios de uma catedral: / as asas de teus pés não mais conseguem / te suster no altiplano do sonho / e é forçoso dizer-te que os teus braços / não mais podem elevar-se sobre os montes / pra acender a manhã de que eu precise / nos desmaios das lágrimas noturnas.

Ah, aquela luz sonorizada / agora no teu rosto é apenas lenda / das fontes que a inventaram nos teus olhos. / Considero teus quadris: / ainda batismais e resolutos, / mas de seus extremos não mais pendem / minhas vestes azuis na redenção / de anjo crucificado sobre a neve.

Assim também teus cabelos, tua pele, / teus seios / (também teus seios não são mais as águias / prontas para o sacrifício do cordeiro) / tudo de ti, amor, vencidamente, / despiu-se dos milagres verdadeiros / que o amor enquanto busca te impusera.

 

sábado, julho 04, 2026

SUPER ROYALE: 50 ANOS

Há 50 anos, no sábado, 24 de julho de 1976, o grupo Royale -- já desaparecido -- que já operava na rua Miranda Leão, próximo à Faculdade de Direito e à igreja dos Remédios, inaugurou o SUPER ROYALE, situado na avenida Costa e Silva, nas proximidades da ponte do igarapé do 40. Em suma, onde hoje funciona o supermercado DB. 

Publicidade encartada no Jornal do Commercio, 25 julho 1976


sexta-feira, julho 03, 2026

MANAUS: ROADWAY OU RODO

 Ontem, depois de longo período, voltei ao porto de Manaus para despedir do meu irmão Renato e sua Alda, que partiam para Santarém na primeira etapa da viagem de retorno ao Rio. Entrei no barco, que mais parecia um transatlântico, e as surpresas se sucederam: a quantidade de redes, de um lado, o setor refrigerado, de outro, à brisa fluvial; e os camarotes e até as suítes. O tempo estava e continua excelente para viajar neste mundão de águas.

Adjacências do Porto


Para me despedir, esqueci o lenço branco, por isso, ofertei aos viajantes o poema aqui postado, obra do saudoso padre-poeta L. Ruas (1931-2000).

 

Recorte do texto publicado em Poesia
Reunida
de L. Ruas (2013).

Crônica romântica de adeus ao Roadway

L. Ruas

Posto que, sendo porto, / Sempre foste caminho de partida / Ou barco de ferro e pinho / Que os ingleses ancoraram / Nas margens do rio Negro. / Era “roadway” britânico caminho / Flutuando / Nas índias águas do rio / Que viu, espantado, surgir / No meio da selva bruta / Onde ainda ecoavam nítidos / Os rudes sons dos Manaus, / Uma clareira de sonhos, / De látex e de libras esterlinas. 

Foste “roadway” e “rodo” / Mas, posto que sempre foste / Porto — caminho de partida / Também foste caminho de chegada. / (De chegada mais, talvez, que de partida). / Pela ponte de pinho / Louro e de negro ferro / Legiões de marujos desfilaram / E de artistas, empresários e turistas / De além-mar chegados, fascinados / Pelo encanto da floresta-mãe / Onde se arrancava das tetas vegetais / O leite branco que se mudava em ouro. 

Francesas, espanholas e polacas, / Para gozar nas camas dos bordéis / O ouro fácil em que se transmudara / O sangue, o suor, a febre delirante / Dos seringueiros — párias do Nordeste. 

E foi por tua ponte flutuante / Que chegaram as “levas” nordestinas / Dos “brabos”, dos “soldados da borracha” / Que seguiam encantados, enganados, / Para os “centros” — distantes seringais / Do Purus, Acre, Madeira e Juruá / Onde findavam — finavam — escravizados. 

Passarelas de dor e sofrimento! / Passarela de luxo, amor e sonho! / No teu ritmo binário que acompanha / O ritmo binário deste rio / Que todo ano sempre sobe e desce, / Também foste termômetro da morte / E da vida que todas as enchentes / E vazantes ofertam fatalmente / Aos homens e as mulheres ribeirinhos / E às roças e animais da várzea. 

Mas, que importa! / Ficaste, Flutuante / Lembrança de um tempo que ficou, / Também, em vários outros monumentos / Erguidos sobre as bases do martírio / De milhares, devorados pela selva / E pela ambição do lucro fácil. 

Que importa! / Ancorado ficaste tanto tempo / Mas, também, nas páginas da história / De um povo que, aqui nesta cidade / Dos extintos Manau, sempre viveu / A longa espera de um amanhã melhor. 

Caminho da terra para a água; / Caminho da cidade para o rio; / E caminho do rio para o mar; / No macio balanço da tua ponte. 

Todos nós de Manaus, em ti, deixamos / Uma pegada da vida que partimos / Dentro em pouco será simples lembrança, / Pois, tuas linhas arquitetônicas serão / Destruídas, apagadas, distorcidas / Em nome de um progresso que uns poucos /Gozarão. / Toda a história se repete. 

“Roadway” dos ingleses engenheiros / Ou “rodo” dos cablocos de Manaus! 

Aqui fica este adeus de quem te viu, menino / E, por ti — uma vez — partiu sonhando / Os mais belos sonhos que sonhar eu pude. / Adeus, velho roadway flutuante, / Docemente embalado pelos ritmos / Das morenas águas do rio Negro. / É chegado teu fim. Exige-a assim / Este rude imperativo do progresso. / Mas, em mim, como te vi, hás de ficar; / Dourado pelos raios do sol quente / Ou banhado pelas pratas do luar.