FASCÍCULO 14
Enquanto concluía a baixa do contrato no Tropical Hotel,
comuniquei ao quartel da Praça meu retorno, que se concretizou no final de janeiro.
A empresa liberou-me no dia 20, mas, ainda dispondo de alguns dias de licença
na corporação, só voltei a envergar o uniforme em fevereiro. Retornei ao
serviço no 1º Batalhão, em Petrópolis — conhecido como “presídio” —, afastado
do centro e imerso nas agruras de um bairro ainda em formação. À época, a
unidade estava sob o comando do coronel Pedro Lustosa. Sob sua liderança, o
batalhão transformou-se: as instalações passaram por ampla reforma e a
disciplina ganhou rigor. Lustosa era respeitado, meticuloso e excessivamente
organizado; atributos que, paradoxalmente, causavam estranhamento entre seus
pares. Foi nesse contexto que me indicaram para subcomandante, esperando que
minha irreverência e suposta negligência desestabilizassem o coronel. Nada disso
ocorreu; pelo contrário, estabeleceu-se uma colaboração sólida.
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| Quartel do 1º BPM, atual Comando-Geral, em Petrópolis - Manaus |
Voltei ao batalhão com outra disposição, consciente de meu
dever de apoiar o comandante. Realizei minhas funções de forma relevante,
embora discordasse de alguns de seus métodos, como a formatura matinal, que
expunha os oficiais diante da tropa em semicírculo, ouvindo longas
admoestações. Muitas vezes, a cerimônia se estendia em demasia e chegou a ser
motivo de altercação. As instalações, devidamente restauradas, foram entregues
aos cuidados dos comandantes intermediários. Em certa ocasião, alguém escreveu
um gracejo “espirituoso” na porta do banheiro envolvendo o coronel Lustosa;
imediatamente fui escalado para descobrir o autor. Confesso que nem sequer
iniciei a busca.
O aquartelamento, originalmente construído para receber o
comando superior instalado na Praça da Polícia, era desmedido. Aproveitando
suas amplas dependências, ali se realizavam cursos diversos, o que mantinha
constante movimento. O efetivo circulante era respeitável, e o batalhão pulsava
como um organismo vivo, onde disciplina e irreverência se cruzavam em um
cotidiano intenso.
| Vista do campo de futebol no Batalhão |
Demorei a compreender a liturgia das formaturas conduzidas
pelo coronel Lustosa. Só mais tarde, convivendo com oficiais oriundos das
academias de polícia, percebi que cada um aplicava o gestual aprendido em sua
formação, já que na corporação amazonense não havia regras estabelecidas.
Recordo-me do coronel Medeiros, comandante-geral, que sempre alertava os
oficiais formados em São Paulo: ao receberem uma missão, deveriam reduzir a
projeção da operação por cem. Um deles, intrigado, perguntou o motivo. Medeiros
explicou: “Cem mil é o efetivo da PM paulista; no Amazonas, somos apenas dez
mil.” Era uma lição de proporção e realidade.
Assim transcorreu aquele ano. Frequentei a faculdade com
ânimo renovado, cursando quatro disciplinas no primeiro semestre e três no
segundo, todas aprovadas com coeficiente entre cinco e seis. Morava na rua
Amazonas, no Morro, com minha companheira, em uma casa de madeira modesta, sem
regalias e até sem privacidade, já que os jovens vizinhos “brechavam” nossa
intimidade. A vida era simples, marcada pelo Fusca que exigia reparos
constantes, mas também por uma rotina que me ensinava a valorizar o essencial.
Detalhe do meu Currículo, Faculdade de
Direito, entre 1975-77
| Residência no Morro da Liberdade, em 1977 |
Guardo ainda duas tramoias pessoais daquele tempo. A primeira ocorreu no encerramento de um curso de soldados, quando era imprescindível atualizar as fichas individuais para encaminhá-los aos novos destinos. O coronel Lustosa chamou o capitão Maciel, responsável pela seção de pessoal, e determinou que organizasse os documentos, ressaltando que cada ficha deveria conter obrigatoriamente a fotografia do formado. Ao abrir o fichário, Maciel constatou que a maioria das fichas estava sem foto. Em pânico, correu ao meu gabinete em busca de auxílio. Lembrei-lhe que havia uma caixa com fotos sem identificação na seção. Recomendei: “Coloque qualquer foto na ficha; o comandante não conhece todos os soldados.” O capitão retrucou: “E se ele descobrir a armação? Você será preso. E se não colocar a foto, também será punido.” Seguiu minha orientação — e deu certo. Ao final do expediente, reunimo-nos para relaxar com algumas geladas, celebrando a astúcia que nos livrara de maiores complicações.
A segunda tramoia aconteceu na organização do almoço de confraternização
dos oficiais pelo Natal. Eu já estava de férias, portanto livre do festejo, mas
ainda assim sugeri ao chefe do rancho que servisse uma iguaria apreciada: pato
no tucupi. O tucupi havia em abundância; o problema eram os patos. Convicto de que
minha sogra poderia suprir a necessidade, prometi entregar-lhe as aves. De
fato, vieram três, mas eram apenas filhotes. Diante da carência, o cozinheiro
recorreu a mim. Reconheci o impasse e recomendei-lhe que completasse a panela
com frangos. O resultado desconheço, pois já estava a caminho de Belém.
A viagem foi realizada em um navio da extinta ENASA,
embarcação antiga cujo sistema de propulsão consistia em uma enorme roda na
popa. Eu estava bem, desfrutando das férias ao lado de minha companheira, hospedado
em um camarote. Na véspera do Natal, a embarcação atracou em um flutuante à
entrada da baía do Marajó, aguardando a vazante da maré. O atraso forçou-nos a
comemorar o Natal a bordo. Já altas horas, um membro da tripulação flagrou um
jovem consumindo drogas e comunicou o episódio ao comandante, que participava
da confraternização. Eu estava ali, comendo e bebendo, quando o comandante
determinou que o jovem fosse isolado, após consultar-me. Contudo, os colegas do
rapaz atribuíram a mim a ordem de repressão. Madrugada adentro, deitei-me
exausto, mas às seis da manhã o comandante convidou-me para assistir à
atracação do barco. Em Belém, permaneci para celebrar o Ano Novo com os Valois,
familiares de minha companheira.
No início de 1978, embarquei em um ônibus rumo a Brasília, em
mais uma das típicas viagens pelos rincões amazônicos. O percurso, apelidado de
“pinga-pinga”, acumulava paradas em pequenas localidades, onde famílias
inteiras subiam com todos os seus pertences. Episódios pitorescos se sucederam:
em um deles, um bebê no colo encheu as fraldas além da conta, e o vazamento
contaminou o interior do ônibus, exigindo parada para desinfecção. Em outra
ocasião, houve parada para banho à beira de um córrego, e foi necessário
fiscalizar para garantir a separação entre os sexos. Na Capital Federal, fui
hospedado por parentes ligados à CVC: um tio funcionário do Banco do Brasil e dona
Olímpia, sua avó de olhos verdes. Prosseguimos até Curitiba, de onde retornei a
Manaus, carregando comigo lembranças de uma viagem tão árdua quanto singular.



