A partida
Renato Mendonça
18.07.2026
Não demoramos a escolher os produtos, pois havia a ameaça do relógio: o navio partiria às onze, e o trânsito matinal de Manaus, somado à burocracia desconhecida dos portos, parecia um desafio maior do que o recibo de nossa compra de passagens — tão simples quanto a sinuosidade dos rios.
Roberto, sempre cordial nos buscou no hotel e, com a serenidade de quem conhece o ritmo da cidade, logo encontrou um espaço para estacionar. O Ana Beatriz, com capacidade para 700 passageiros, já nos aguardava, imponente, de motor ligado. O acesso à plataforma de embarque revelou-se surpreendentemente bucólico. Passamos pelo convés inferior, abarrotado de carros usados e motos novas e reluzentes, como se o navio fosse também um armazenador de sonhos sobre rodas.
Nos conveses superiores, redes de dormir se multiplicavam como se fosse um jardim de flores multicoloridas, testemunhas silenciosas da vida de ribeirinhos e outros de classe menos favorecida. Naquele frenesi de pais e crianças para achar um espaço minimamente confortável. Havia a terceira classe, marcada por essa simplicidade, mas também a segunda, com a mesma ciranda de redes, climatizada, onde o ar parecia oferecer um pouco mais de conforto.
Nosso camarote nos recebeu sem demora, e ficamos à espera da partida, que se atrasou uma hora. Pensei: talvez seja uma forma de tolerância amazônica com os navegantes, um gesto de compaixão para os que correm contra o tempo. Diferente dos aviões, onde a pressa é lei, aqui o rio ensina que o fluxo pode esperar.
Enquanto aguardávamos a hora da partida, eu, Roberto e Alda explorávamos os recantos da embarcação. No olhar de meu irmão, percebi o brilho da missão cumprida: levar-nos até ali, oferecer-nos horas de convivência familiar com ócio elegante. Mas havia também um desejo contido, quase secreto, de um dia embarcar nessa travessia como protagonista. O sol brilhava sem a tirania do calor, e a atmosfera fraternal parecia dar forma a esse anseio.
![]() |
| Ana Beatriz IV - ferry boat e navio regional |
Ao meio-dia, no dia 2 de julho, o Ana Beatriz finalmente soltou as amarras e se desprendeu do porto. À medida que o navio se afastava, vi surgir, ao longe, o bairro Educandos — o território da minha infância, onde aprendi a vencer monstros invisíveis e a dar nome ao medo. Aquele pedaço de chão, agora visto de fora, parecia acenar silenciosamente para mim. Não houve lenço branco, mas houve despedida, sim: dissimulada, íntima, gravada no coração.E compreendi que partir não é apenas deslocar-se no espaço físico. É também reconhecer que cada embarque — nessas circunstâncias, lenta e singular — é uma metáfora da vida: sempre carregamos menos do que gostaríamos; sempre deixamos algo para trás e sempre seguiremos adiante com a esperança de que o rio possa nos conduzir a novas margens, mas nos traga de volta, sempre que a saudade exigir.
Manaus, com sua história e meus conterrâneos, tornou-se espelho da minha própria trajetória. E ao deixar a cidade, percebi que não levava apenas lembranças: levava comigo a certeza de que o passado, quando revisitado com emoção, se transforma em presente eterno — o melhor presente.






