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segunda-feira, abril 13, 2026
MAIS IDOSOS DA PMAM
quinta-feira, abril 09, 2026
MISOGINIA E FEMINICÍDIO
Renato Mendonça
Casos recentes de violência contra mulheres têm exposto, como feridas abertas, a dimensão da misoginia que atravessa o país. Entre os episódios mais marcantes está o feminicídio da policial militar Juliana Lopes, em São Paulo — assassinada pelo próprio companheiro, um tenente-coronel da corporação, que nem vale a pena citar seu nome. O crime, brutal em sua essência, chocou a opinião pública e reacendeu o debate sobre a violência de gênero, revelando que até instituições que deveriam proteger a vida podem abrigar a sombra da opressão e da falta de ética humana.
Outro episódio que ganhou repercussão
nacional foi o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro. A
barbárie, além de física, se prolonga no espaço virtual: vídeos no TikTok
simulando ataques a mulheres que rejeitam relacionamentos circulam como ecos de
um ódio que se multiplica. São sombras projetadas em telas, alimentando a
cultura do feminicídio e reforçando padrões de desprezo que transformam o corpo
feminino em território de violência.
Pesquisas acadêmicas revelam a profundidade
desse abismo. A Fundação Getúlio Vargas identificou 85 comunidades virtuais com
conteúdo misógino explícito ou disfarçado. A Universidade Federal do Rio de
Janeiro mapeou mais de 130 mil canais no YouTube propagando discursos de ódio
contra mulheres. Esses espaços, travestidos de fóruns de autoajuda ou fitness,
funcionam como cavernas obscuras — ambientes hospedeiros de radicalização
machista, onde adolescentes são seduzidos pelos fantasmas da superioridade
masculina.
O psicólogo social Benedito Medrado Dantas
sugere que a intensificação do ódio seria reação à emancipação feminina. A
explicação, contudo, soa incongruente: nas cidades, a autonomia da mulher já se
consolidava há décadas, sem que se visse tamanha violência. Outros analistas
apontam fatores mais concretos — como a liberação e facilidade para compra de
armas, principalmente no governo anterior — que ampliam a sensação de poder
entre grupos misóginos. Armas, nesse contexto, tornam-se prolongamentos da
misoginia, instrumentos que transformam o ódio em morte.
Em comum, há o reconhecimento de que se
trata de um problema estrutural, atravessando diferentes camadas sociais.
Organizações de defesa dos direitos das mulheres, respaldadas por grupos
sociais humanísticos, defendem medidas legais e severas contra lideranças
desses grupos e maior regulação das plataformas digitais — as big techs
que, invariavelmente, lucram com a disseminação do ódio. A tipificação da
misoginia como crime é apontada como passo necessário — e extremamente urgente —,
ao lado de políticas públicas de prevenção e campanhas de conscientização.
Enquanto isso, cresce a preocupação com a
adesão de jovens às comunidades virtuais que promovem a superioridade masculina.
Sem resposta firme do Estado e das empresas de tecnologia, o país continuará a
assistir à expansão de uma cultura que legitima a violência contra mulheres —
uma cultura que transforma sombras em realidade, discursos em sangue feminino.
No tempo de nossos avós, práticas como
essas eram inconcebíveis. O criminoso tornava-se pária, rejeitado até pelos
familiares. Hoje, a mídia muitas vezes tenta normalizar feminicídios, buscando
culpados externos à própria índole do homem. O que se vê é uma degradação da
condição humana, um esvaziamento da ética e da empatia.
A misoginia é um vírus endêmico que se
espalha silencioso. O feminicídio, sua patologia social mais cruel; é a prova
de que não basta denunciar: é preciso extirpar o mal, expor os sintomas e substituí-los
pela luz da equidade. Cada mulher assassinada é uma biblioteca incendiada, uma
história interrompida, uma esperança que se perde e uma geração de vida que se
esvai.
Enquanto a sociedade não se levantar contra essa cultura nefasta, continuará a viver entre cinzas, silêncios e obscurantismo.
sábado, abril 04, 2026
MALHAÇÃO DO JUDAS
Esta prática me fez recordar talvez a única em que colaborei com os colegas vizinhos para expor o boneco em minha casa, que possuía uma varanda no alto, portanto bem visível e protegido. Meu genitor não permitiu, acabando com o festejo no início. As considerações abaixo pertence ao colaborador Renato Mendonça.
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| Foto do jornal O São Gonçalo (RJ) |
A malhação do Judas já foi — sobretudo nas
cidades metropolitanas da região Sudeste — uma das mais celebradas tradições
populares da era cristã. Em alguns estados do Norte e Nordeste, o ritual ainda
permanece vivo, como chama que resiste ao vento do tempo e da indiferença.
Possivelmente trazida pelos colonizadores, a prática acontecia nas primeiras
horas do Sábado de Aleluia, simbolizando a execração de Judas Iscariotes — o
traidor que vendeu Jesus Cristo por trinta moedas, conforme narra o Novo
Testamento.
Recordo com saudade os bonecos de pano — de
tamanho humano, recheados de palha ou de roupas velhas — que se tornavam a
efígie da traição. Muitas vezes, não representavam apenas Judas, mas também
figuras públicas impopulares, vizinhos indesejáveis ou personagens da
comunidade que, inevitavelmente, eram surrados e queimados. Preparados na noite
silenciosa da Sexta-feira Santa, surgiam pendurados em postes ou árvores, à
espera da multidão de adolescentes e meninos que os malharia ao amanhecer.
Alguns traziam testamentos bem-humorados —
sátiras afiadas, críticas sociais, mensagens à comunidade. Eram bilhetes que
explicavam quem o boneco representava, transformando o ritual em catarse
coletiva: expiação das indignações acumuladas ao longo do ano. Ali se
misturavam motivações religiosas e sociais, fé e protesto, devoção e humor.
Para as crianças, era festa e rito ao mesmo
tempo — o fim da Quaresma, a chegada da Páscoa, e, sobretudo, a expectativa pelos
presentes de chocolate. Para os adultos, era também um exercício de crítica,
uma forma de dar corpo às frustrações e queimá-las junto ao boneco.
Apesar de sua forte ligação com o
catolicismo, a malhação do Judas revela a capacidade do povo de ressignificar
tradições — mesclando elementos sagrados com o riso, a sátira e a denúncia.
Hoje, porém, a prática é alvo de críticas: alguns a consideram retrógrada.
Ainda assim, permanece como expressão viva da cultura popular brasileira,
celebrando a renovação da fé e o renascimento pascal, ao mesmo tempo em que nos
convida a refletir sobre as injustiças que atravessam a sociedade.
O simples ato de recordar a passagem
bíblica já é, em si, uma vitória contra o esquecimento em tempos de crescente
ateísmo. O rito carrega valor cultural profundo: é a forma como o povo expressa
indignação, personifica a traição e a injustiça, e as expurga fisicamente na
figura de Judas. Se quiséssemos ampliar o sentido da celebração, poderíamos
escalar tantos outros “judas” do mundo político — os corruptos e os traidores
da pátria, principalmente — e malhá-los nas urnas, como quem transforma o voto
em instrumento de purificação.
Nos tempos modernos, em meio às influências
globais que nos atravessam, manter práticas como essa é preservar raízes e bom
senso. A malhação de Judas pode ser também metáfora universal: execrar
os “judas internacionais”, os traidores da humanidade, que se multiplicam em
diferentes formas e em diversos países. Sem ideologias ou fundamentalismos,
cabe a nós escolher quais sombras nefastas precisamos abolir de nossas mentes e
corações.
Assim, cada boneco queimado é mais do que
um espantalho de pano: é a imagem daquilo que precisamos deixar para trás. É a
sombra da caverna de Platão que se dissolve no fogo, abrindo caminho para a luz
da Páscoa — a vitória da vida sobre a morte, da esperança sobre a desesperança.
A vitória da Justiça e da Fé!

