CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quarta-feira, setembro 30, 2026

MEUS OITENTANOS (19)

         FASCÍCULO 19

     

Comecei o ano de 1980 com a casa do Conjunto Tiradentes repleta. Havia deixado a amada CVC em Curitiba, portanto, estava “solteiro”; motivo pelo qual abriguei meus pais e quatro irmãos em dois quartos e um amplo quintal, onde logo meu pai construiu um chapéu de palha para o conforto na área. Esse condomínio encontrava-se nos arrabaldes da cidade, ligado ao centro pela estrada do Aleixo, hoje avenida Cosme Ferreira. Sem comércio de qualquer natureza, o abastecimento de urgência era realizado no incipiente bairro do Coroado, somente alcançado de carro. A casa encontrava-se situada na esquina da Rua das Orquídeas com a Avenida das Flores, dispondo de ampla área verde.

Residência no conjunto Tiradentes

Todavia, minha primeira tarefa no Ano Novo foi buscar o Chevette em Porto Velho. Avisado pelo sogro, convidei a amiga Maria Olinda e pegamos o ônibus de volta àquela cidade; a movimentação foi semelhante à viagem de vinda. A viagem chegou na madrugada em Porto Velho e tratei prontamente de receber o carro, coberto de poeira — não foi surpresa; assustei-me quando vi o porta-malas aberto: a tranca havia sido danificada pelos solavancos da estrada e, ao abrir o carro, um forte odor de bebida alcoólica impregnava o interior. Esclareço que os mesmos solavancos romperam as embalagens das garrafas e até danificaram a caixa de ferramentas do mano Luiz. Fora isso, tudo estava conforme. Sabendo que a balsa no Careiro interrompe o serviço às seis da tarde, apertei o acelerador, tendo parado em um ou dois igarapés para me refrescar e trocar uns afagos com a carona. Cheguei à balsa a tempo e, assim, consegui dormir em casa.

Aquele ano passou nessa conjuntura, meu pai buscando reparar a casa do Morro da Liberdade, e os irmãos estudando com embaraços, devido ao transporte. Ainda assim, Luiz e Ricardo conseguiram aprovação no Senai, e Jorge empregou-se no Posto Sete. Antes que eu me esqueça: Jorge dormia na sala, por isso pedia a ele que me abrisse a porta quando eu chegava à noite, depois da faculdade e do rolê. Não havia maneira; quando eu batia na janela envidraçada, já ouvia a chiadeira dos chinelos do velho. Abria a porta e me acolhia com a mesma admoestação: “Você não vai trabalhar amanhã?”; recolhia-me à rede e roncava até de manhã. Outra: certa manhã, passando na esquina, um jovem com sua mochila solicitou-me uma carona; era hábito esse apoio pela precariedade de transporte. Ao passar pelo Coroado, o carona pediu que parasse e desceu, agradecendo. No outro dia, o vizinho me perguntou se havia dado carona a alguém. “Sim”, confirmei. “Onde ele ficou?” E, sem captar qualquer dano, informei: “na entrada do Coroado”. Então, o vizinho me contou que sua casa fora furtada naquela noite; daí conclui-se: o policial ajudou o bandido a fugir.

Algumas recordações do bairro Tiradentes que, como assegurei, havia sido implantado em região de mata, tendo por limite um igarapé; com a presença dos manos, as primas passaram a visitá-los com frequência e, quase sempre, a visitação se estendia até aquele curso d'água. A localização permitia frequentes chamegos e o avanço dos botos sobre o cardume, sem implicações. Outra: à época, eu fumava. Diversas vezes fiquei à noite sem esse veneno, porque não havia ao redor onde comprar. Em certa ocasião, postei-me à porta, esperando a passagem da patrulha de policiais; com ela, puxei uma conversa de “bêbado”, até perguntar se algum deles fumava. De pronto, um deles confirmou de quem pedi um cigarro. Este tentou me passar a carteira, que recusei. Fiz bem, pois, ao acender o cigarro ofertado, percebi que era de terceira linha, um “quebra peito”. Terceira: os filhos Roberto e Eduardo passavam comigo o final de semana e, aproveitando as ruas largas e enladeiradas, desfrutavam do único par de patins. Num sábado, ao retornar para casa, fui surpreendido pelo Robertinho, que, de patins, tentou pegar carona agarrando-se à janela do carro; não conseguiu, caindo ao solo. Em baixa velocidade, de pronto parei e corri para ver o acidentado. Nada demais, pois o garoto caiu com a mão espalmada e o pneu evitou mal maior.

Brasão do Corpo de Bombeiros da PMAM

Ao retornar à atividade policial, fui designado para servir no Corpo de Bombeiros, de onde fora afastado há seis anos; na ocasião, abrigado no novo aquartelamento da rua Codajás, em Petrópolis. Encontrei a boa acolhida dos colegas: Odacy Okada, comandante, e Cavalcanti Campos, no Centro de Atividades Técnicas (CAT). A hierarquia permitiu que fosse nomeado subcomandante, e tratei de buscar uniforme e capacete próprios do serviço. Logo, tomei conhecimento da reviravolta que o IPM “montado” dois anos antes na Rádio Patrulha encontrava-se na Auditoria, com meu pescoço à prova. Na época, bastava que o policial respondesse a um inquérito — como acusado — para, na condição de sub judice, ser excluído de lista de promoção. Essa adversidade logo me alcançou, quando assisti a diversas ultrapassagens ou “cangalhas”, no linguajar da caserna, de subalternos. Apesar disso, o prejuízo seria recompensado três anos depois, ao servir no Palácio Rio Negro.

Carteira estudantil da Faculdade de Educação

O curso técnico que frequentei propiciou que, em março, passasse a integrar a “Comissão de revisão de currículos e formulação de propostas de cursos de formação e aperfeiçoamento de praças”; a despeito do extenso título, ignoro a minha contribuição. Ainda naquele mês, foi criado o pelotão feminino, representando a quebra do machismo na corporação. A fim de capacitar o pessoal, foi instaurado o CFS feminino e, no quadro de instrutores, fui convocado para ensinar a disciplina “Metodologia do Ensino”. A matéria estava bem viva, mas achei estranho ensinar pela primeira vez mulheres; como deveria tratá-las, da mesma forma que os colegas homens? Outro pormenor me incomodava: de que maneira atuar durante a aula ao ver aqueles corpos jovens, por vezes chegando ainda com o short de educação física delineando o sexo? Mantive-me bem longe dos impulsos; após o curso, houve um namoro inconsequente com as primeiras oficiais. Antes do encerramento do curso, ocorrido no final do ano, em agosto, fui substituído no ensino da disciplina.

domingo, setembro 27, 2026

POESIA DOMINICAL (27)

 

                            Pereira Barroncas 

“Das curvas da noite imensa,

Surgiram caminhos loiros...”

— Estradas da inspiração,

Que só os gênios palmilham,

Em versos líricos dedilham,

dos aedos que se perfilam,

Ao Grêmio da Madrugada...

 

Eu sei, o estro é Aurora,

Que se esconde e se enflora,

Nos cílios da Primavera...

-- Que seu cabelo, não o era,

Nem seus braços, -- quem lhe dera,

Nem sua boca e

nem nada...

Eram apenas devaneios,

Do vate em seus anseios,

Áureos filões d'almos veios,

No cântico da Madrugada...

 

Que de cuidados ao poeta,

— Em sua alma de esteta,

— A poesia, — ao eleito,

Qual jovem núbil, em seu peito.

Dá-lhes abrigo, em seu leito...

Nem um engano e

nem nada...

“Caminhos loiros, o orvalho,

Pingando nos olhos, e, mudo,

— Qual Rosicler da Alvorada,

É do Farias de Carvalho,

A alma, o sentimento, é tudo...”

sábado, setembro 26, 2026

PRIMAVERA DE EMOÇÕES

 

Renato Mendonça

23.09.2026

 

Enquanto eu rascunhava palavras para falar de flores e emoções, recebi de minha prima, em boa hora, um ensaio em prosa poética de Cecília Meireles. A exuberância de suas palavras, delicadas e ao mesmo tempo intensas, tocou-me com lirismo e contagiou minha expectativa de escrever sobre esta primavera de emoções. Como se sua voz ecoasse dentro de mim, lembrando que a poesia é também uma forma de enxergar o mundo com mais humanidade.

A primavera chegou discreta, trazendo não apenas flores, mas uma garoa fina, como se o céu quisesse regar o encanto que desponta. É uma estação do ano que não se limita ao colorido dos jardins e dos bosques: infiltra-se nas nossas esperanças, nas inquietações que florescem junto às eleições que se aproximam.

Há um perfume de civilidade no ar. O peito se abre à esperança, mas a razão insiste em buscar certeza e integridade. Não nos faltam opções — o que falta, muitas vezes, é discernimento para subsidiar boas escolhas. E é justamente ele que precisamos convidar para caminhar conosco. Que pátria desejamos? Uma terra livre de cabrestos, capaz de gerir sua própria democracia e cuidar dos mais vulneráveis? Ou uma soberania entregue como a xepa de um fim de feira, vilipendiada e perdida?

Primavera é tempo de semear. E semear exige escolhas. Cada voto é uma semente lançada ao solo da democracia. Que frutos queremos colher? Sejam eles de caridade, de justiça, de amor ao próximo. Pois não há democracia verdadeira sem fraternidade, sem olhar para o semelhante mais necessitado.

As parábolas do Novo Testamento nos lembram que a essência da vida cristã é o amor. O Bom Samaritano não hesitou diante da dor alheia; fez da compaixão sua ação mais concreta. Assim também nós, ao escolher representantes, precisamos pensar em quem cultiva projetos que transformam vidas, que levam esperança às comunidades carentes, que regam a fé dos que mais precisam.

Primavera é promessa. É anúncio de que o inverno passou e de que há sempre a possibilidade de renascer. Que nossas escolhas, neste tempo de flores e de urnas, sejam regadas pela sabedoria e iluminadas pela lucidez. Que não pensemos apenas na nossa própria felicidade, mas na felicidade coletiva. Pois o amor ao próximo, quando se traduz em ação política, é a mais bela flor que podemos oferecer ao futuro.

Amor ao próximo não está dissociado das escolhas dos representantes do povo nas próximas eleições; é, antes de tudo, uma prova de caridade e sabedoria. 

Bom voto a todos! Viva a Democracia!

quarta-feira, setembro 23, 2026

SEMANA DO TRÂNSITO - 1976

 O Departamento Estadual de Trânsito (DETRAN), há exatamente 50 anos, estava sob a direção do bacharel José Ribamar Afonso, carinhosamente alcunhado de "Delegado do Diabo". E, para festejar a Semana do Trânsito, fez a apresentação de semáforo sui generis, tido como invenção em nível mundial. Conheci esta novidade que, não teve a repercussão prevista pelo diretor do Detran. Valeu a intenção, consoante a notícia do Jornal do Commércio.


Recorte do Jornal do Commercio, 18 setembro 1976,
(acima & abaixo)

Um gigantesco semáforo com trinta e três focos de luz está chamando a atenção de motoristas e pedestres que passam pelo cruzamento das avenidas 7 de Setembro e Getúlio Vargas. Com um pisca-pisca constante de focos verdes e vermelhos, o grande sinal, inventado pelo sr. Faiez Isaac Sahdo, ainda não tem similar no mundo e aqui em Manaus, segundo anunciou o bacharel José Ribamar Afonso, outros cruzamentos importantes da capital amazonense receberão os gigantescos sinais, que segundo o titular do DETRAN, “vai servir para diminuir em muito os acidentes de trânsito em nossa capital'”.

CRONOMETRADO

Para a grande massa, aquele sinal com dezenas de focos verdes e amarelos, nada tem de especial, mas na verdade ele é perfeitamente sincronizado a um relógio, com cada foco apagando e acendendo exatamente em oito segundos. As explicações foram fornecidas ao Jornal do Comercio, pelo seu inventor, Faiez Sahdo, a quem o bacharel José Ribamar Afonso, “chama carinhosamente de professor Pardal" do DETRAN.

“O tempo do semáforo, explicou o “professor Pardal”, é de 40 segundos e cada foco acende e apaga em oito segundos, mantendo por isso mesmo um grande controle dos motoristas e pedestres que atravessarem aquele cruzamento”. Dessa forma, continuou — “quando o motorista ver que só existem dois focos verdes acessos, automaticamente ele vê se tem ou não condições de realizar o cruzamento, sabendo que faltam apenas 16 segundos para o sinal vermelho. Dessa mesma forma, o pedestre procede, passando a atravessar o cruzamento com maior tranquilidade, isso, “quando os oito focos vermelhos, no caso, estiverem acesos, brecando a passagem dos veículos".

PIONEIRO NO MUNDO

O novo semáforo de Manaus, instalado no cruzamento das avenidas 7 de Setembro com Getúlio Vargas, inventado pelo amazonense Faiez Isaac Sahdo, é pioneiro no mundo, uma vez que não se conhece em outro ponto qualquer do globo, sinal semelhante ao instalado recentemente em nossa capital.

Como o sistema aprovou à primeira vista, o titular do DETRAN, José Ribamar Afonso, anunciou que outros desses semáforos serão instalados nos cruzamentos de maior fluxo de trânsito na cidade, sendo o próximo no cruzamento das avenidas 7 de Setembro com Eduardo Ribeiro. “Nos pontos onde o movimento de veículos e pedestres for considerado pequeno, nós vamos manter os semáforos convencionais — disse o sr. Ribamar Afonso —, demonstrando muito entusiasmo pelo novo sinaleiro lançado no mundo, acontecido em nossa capital. 

segunda-feira, setembro 21, 2026

MEUS OITENTANOS (18)

 FASCÍCULO 18

Em agosto, durante a pausa escolar aproveitei para visitar Curitiba, onde se encontrava minha companheira; entretanto, meu plano era chegar de automóvel em Puerto Stroessner, hoje Ciudad del Este, para o que convidei ao colega equatoriano Fiallos. No caminho, ao passar por São José dos Campos, parei para abraçar meu irmão Renato que, de forma gentil, permaneceu com meu carro, enquanto eu trocava de veículo com ele. Ao deixar Curitiba, CVC se engajou ao grupo, e assim seguimos para Foz do Iguaçu. Ali, ao organizar a visita à cidade paraguaia, fui alertado sobre alguns possíveis contratempos no outro lado: o carro não estava em meu nome; algum nativo poderia encenar um atropelamento, ocasionando um enorme dissabor. Diante dos riscos, aboli a ideia do Paraguai, mas meu colega optou por tomar um ônibus e partiu. Com a amada, dirigi-me para Floripa, pernoitando em Curitibanos e outros locais aconchegantes. No retorno, a CVC desembarcou em Curitiba, e retomei a viagem, parando em São José dos Campos; como não mais possuía disposição para dirigir, deixei meu carro com o Renato, e embarquei em ônibus interurbano para o Rio.

Alunos em sala de aula

No feriado da Proclamação da República, viajei para Porto Alegre, onde fui acolhido pelos amazonenses, alunos do curso de formação de oficiais. Foi minha primeira visita ao estado do Sul; além dos conterrâneos que me mostraram a cidade, recebi a hospitalidade da família do Dario e esposa, casal gaúcho que administrou o Armazém Reembolsável (uma espécie de supermercado) na PM, em Manaus. O casal me levou a Gramado e locais turísticos próximos; ao passar pela fazenda deles, refestelei-me com um café colonial – típico da região. Já os alunos me conduziram a uma churrascaria perto da escola militar e logo me advertiram sobre os petiscos de entrada: “Esqueça a sopa, vamos direto à carne!” Somente no avião de retorno, lembrei das apostilas para estudar, mas, quem disse? Por essa razão, não obtive pontos suficientes nas provas finais para uma melhor colocação.  

Dia da formatura

O encerramento do curso ocorreu em 23 de novembro e, dia 30, a formatura com a entrega dos certificados – o prejuízo causado pela viagem a Porto Alegre me deixou com a menção “Bem”, nota acima de oito. Não mais o último! Para mais contentamento, recebi a visita da Maria Olinda – amizade manauara, que seguiu comigo para Santos, onde ocorreu o desfecho da festa e do ano. Ao passar por São Paulo, visitei Campos do Jordão, onde adquiri uma muda de pinheiro de Natal, e gracejei com a vendedora: “em Manaus, vou plantar o pinheiro em um freezer”. Plantei-o na residência do Morro, onde floresceu bastante, mas foi extirpado pelo novo morador.

Certificado de conclusão

O mês de dezembro foi dedicado ao relaxamento; afinal cheguei a Santos, onde com a família festejamos de forma contida o Natal, porque as bagagens já estavam sendo acomodadas para o retorno a Manaus. Usei meu carro – a Brasília dourada – até onde pude; como ela estivesse coberta por seguro total, cheguei a desejar que fosse furtada para receber a indenização; por isso, em qualquer lugar que frequentava costumava deixa-la destravada. Todavia, nada aconteceu. Restou-me, ao concluir o curso, me desfazer da minha Brasília dourada, e assim fiz com o primo Francisco “Cote”. Com os recursos obtidos, comprei um Chevrolet Chevette azul, seminovo, com o qual retornei para Manaus, passando por Cuiabá, pela BR 319, aberta em 1976. Após celebrarmos o Natal de 1979, ao lado dos irmãos Luiz e Jorge, que me auxiliaram durante a viagem como motoristas e mecânicos, partimos rumo à capital amazonense.

O trajeto planejado era alcançar Cuiabá pela BR 364 e, no prosseguimento, chegar a Porto Velho, e da capital de Porto Velho para Manaus pela BR 319. A primeira etapa saiu maravilhosa pois, rodando à noite, assistimos o céu iluminado por estrelas, espetáculo quase inédito para mim; foi uma dádiva da natureza. Em Cuiabá, aproveitei para abraçar o major Benedito Ferreira, colega do CTE, que me orientou na cidade; no entanto, fui informado que, sem asfaltamento, a rodovia em direção ao Norte não era recomendável para automóveis pequenos, o meu Chevette. A solução foi entregar o transporte a um caminhão comum o veículo totalmente repleto de tralhas, as minhas escolares e as ferramentas dos manos, além de alguns objetos da mudança. Foi um “seja o que Deus quiser!” Feito isso, tomamos o avião e desembarcamos em Porto Velho, onde busquei o “primeiro sogro” para mais uma vez me apoiar, e recomendar a recepção do carro em viagem. E veio a derradeira etapa para alcançar a capital do Amazonas: era véspera de Ano Novo, na rodoviária comprei três passagens, e logo o funcionário me orientou: somente há dois lugares, mas vocês fazem um rodízio. A saída do ônibus ocorreu no começo da noite; no interior do veículo, para nossa surpresa, deparamos com a fila de viajantes de pé, os “sem lugares”.

Seguimos, pois não havia alternativa; a viagem transformou-se numa celebração, havia uma conversa espontânea entre os passageiros, que cediam os assentos e compartilhavam parte das marmitas com merenda; além disso, a paisagem da estrada permitia ocasionalmente avistar um animal silvestre atravessando a pista. Ninguém dormiu, porque, para atravessar cada ponte, era preciso que todos saíssem do ônibus. No início da manhã, o ônibus parou à margem do rio Solimões, no Careiro da Várzea, aguardando que a balsa se posicionasse para atravessar o rio e, contornando o Encontro das Águas, alcançar o porto da Ceasa. Em seguida, voltamos ao veículo e, finalmente, chegamos à Rodoviária de Manaus. Desse modo, parte da família fez o caminho de volta, por decisão imposta do velho Manuel. O restante da família chegou de avião e ocupamos a casa do Conjunto Tiradentes – rua das Orquídeas, 31, recebida por procuração. Foi assim que – aos 34 anos – adentrei o ano de 1980.


domingo, setembro 20, 2026

POEMA DOMINICAL (67)

A postagem reproduz o poema de Elson Farias, circulado no Jornal do Commercio, de 12 de setembro de 1976, há exatamente 50 anos.

Recorte da coluna do Jornal do Comercio,
12 setembro 1976

    

Canta o verso e sua música

como o remador do rio.

não importa que esse canto

venha quente ou venha frio

 

o que importa é que haja estrela

e haja fogo no pavio

da lamparina na trempe

dando luz à cumieira

 

e as marrecas se anunciam

voltando para os poleiros

lá onde os olhos não chegam

quer sejam de bons mateiros

 

tal e qual um vagalume

nas moitas da ribanceira

quando cai a noite nova

sem a lua e sua estrela

 

e a safra do rio se faça

de modo menos vasqueira

como a luz da lamparina

dando luz à cumieira

 

e os carapanãs se escondam

com medo da luz do dia

que se faz por trás da faixa

da mata, como fatia.

 

sábado, setembro 19, 2026

CORTINA DE FUMAÇA

 

Renato Mendonça 

17.09.2026

Sob a expectativa de encontro de togas e o brilho sereno da instituição, o Supremo Tribunal Federal abriu suas portas nesta semana para uma reunião que mais parecia um ritual inquisitório do que um julgamento justo e honesto. No centro da cena, o ministro Alexandre, alvo de acusações inesperadas e não comprovadas vindas de seu colega André — relator do caso do Banco Master. A denúncia, supostamente carregada de gravidade, foi gerada por vazamentos seletivos de dados obtidos pela Polícia Federal, após a quebra do sigilo do celular do banqueiro Vorcaro — preso na penitenciária da Papuda, em Brasília.

O plenário, espaço que deveria ser de serenidade e equilíbrio, transformou-se em fogueira. As palavras lançadas ardiam como fagulhas, incendiando suspeitas e revelações. Descobriu-se que os vazamentos incriminavam apenas uma figura, enquanto todo o conteúdo do aparelho já havia sido franqueado a todos os ministros dias depois da acusação. O silêncio entre uma fala e outra pesava mais do que os votos e esclarecimentos proferidos.

E então, como em tragédia anunciada, emergiu o desassossego: alguns magistrados apareciam ligados, direta ou indiretamente, ao dinheiro espúrio do banqueiro. Dinheiro que não tinha origem honesta, mas surgiu de transações fraudulentas e do desvio de mais de três bilhões de reais do Rioprevidência — fundo que guarda o futuro de mais de duzentos e trinta mil servidores do estado do Rio de Janeiro. Ao escândalo financeiro somava-se o político: o governador, envolvido até o pescoço, cedeu à pressão de seus aliados e pediu exoneração do cargo para buscar refúgio na imunidade parlamentar — queria candidatar-se a senador da República —, mas foi barrado pela Justiça Eleitoral.

No calor das discussões, cada ministro parecia jogar mais lenha na fogueira. O acusador, André, saiu muito chamuscado: sua tentativa de erguer cortina de fumaça revelou afinidades com o banqueiro e pagamentos recebidos que o incriminavam; ficou evidente também que ele se aproximava de interesses eleitorais — e tinha sua preferência. A estratégia era clara: tumultuar o processo até o primeiro turno, em benefício de um candidato da direita. Ficou explícito. Mais constrangedor, porém, foi vê-lo pedir desculpas ao Procurador-Geral — igualmente acusado e presente na reunião — para negar as próprias acusações e confessar que eram falsas. O decano Gilmar, indignado, não poupou palavras: classificou o ministro acusador com um adjetivo infame: “Pixuleco”.

A declaração expôs o vazio do debate. A fogueira de acusações não iluminava nada além da própria fumaça. Como resumiu o ministro Dino, com ironia certeira: “Estamos julgando o nada!” 

Essa declaração mostrou que o debate e a discussão não serviriam para coisa nenhuma, pois não havia crime algum, como bem resumiu o ministro Dino: estamos julgando o nada!

É triste constatar. A balança da Justiça, que deveria pairar imóvel e serena, oscilava como pêndulo nervoso, inclinando-se ora ao peso da política, ora ao sopro da ideologia. O Estado, laico por definição, viu-se contaminado por paixões partidárias e, por conseguinte, suscitou a elaboração de editoriais dos jornais — representantes da elite conservadora — inflamados que, nos dias seguintes, clamavam por julgamento a qualquer custo do ministro acusado.

E assim, entre votos e contravotos, entre sombras e revelações, resta ao povo a tarefa de discernir e escolher — não apenas os futuros eleitos, mas o próprio destino da democracia, que atravessa um período turbulento.

É preciso olhar além dos discursos inflamados e das manchetes tendenciosas dos jornais e da mídia falada. Ler a biografia dos candidatos, perscrutar suas relações, perceber as afinidades que os ligam ao poder e intuir quem, de fato, pode estar ao lado do povo. A democracia não se sustenta apenas nos tribunais ou nos palácios: ela se constrói no olhar atento de cada cidadão, na consciência crítica que não se deixa seduzir por cortinas de fumaça.

O voto, nesse contexto, é mais que um gesto cívico. É um ato de resistência, uma tentativa de reconstruir novamente a confiança abalada entre instituições e sociedade. É a chama, iluminada pelo caminho do discernimento, em meio às trevas da desinformação e da manipulação. Que cada escolha seja feita com a serenidade de quem sabe que, ao depositar sua confiança na urna, está também depositando esperança no futuro. Pois, repito, não elegemos apenas governantes: elegemos o rumo da própria democracia.

Bom voto a todos, boas escolhas!

REABERTURA DA PONTA NEGRA - 50 ANO0S

 Hoje eu aprendi que a Rodovia BR 319, que, nos dias atuais, passa por reparos, foi aberta à circulação em março de 1976, ou seja, há 50 anos. No mesmo ano festivo para Manaus, também aconteceu a inauguração do Aeroporto Eduardo Gomes e do Tropical Hotel Manaus. Para relembrar mais um momento de comemoração pelos 50 anos, o prefeito Jorge Teixeira, em setembro daquele ano, reabriu ao público a praia da Ponta Negra, devidamente recuperada. 

Jornal do Commercio, 21 setembro 1976

Com um show aéreo proporcionado por aviões da Força Aérea Brasileira e perto de trinta mil pessoas, participaram domingo, pela manhã da programação de reabertura da nova praia da Ponta Negra. Informalmente, o prefeito Jorge Teixeira de Oliveira presidiu a solenidade de reabertura daquele logradouro público, que contou ainda com a presença do governador do Estado, em exercício, João Bosco Ramos de Lima, do coronel Alfredo Bruno Menescal, comandante da Base Aérea de Manaus e outras autoridades. Falando na oportunidade, o prefeito Jorge Teixeira de Oliveira agradeceu a presença do grande público banhista e disse entre sorrisos: “Vocês nada têm que agradecer, nós apenas cumprimos com a nossa obrigação”.

O governador em exercício também falou no momento e sem ser prolixo afirmou, em meio ao seu improviso: “Esta é mais uma oportunidade de provarmos o grande trabalho que vem sendo desenvolvido pela Prefeitura de Manaus”. Também ressaltou o trabalho realizado pelo prefeito Jorge Teixeira, anunciando que dentro de mais 30 dias, todo o projeto de urbanização da Ponta Negra estará efetivamente concluído. “É mais uma alternativa que o governo oferece ao povo para seu divertimento”, frisou o vice-governador, recebendo os aplausos da multidão.

Como homem simples, o prefeito Jorge Teixeira se misturava com o povo, vestindo uma bermuda branca. Ficou provado a grande popularidade que o prefeito desfruta junto ao povo que o aplaudia incessantemente, numa das maiores manifestações populares já vista em Manaus. Todos faziam questão de apertar as mãos do prefeito Jorge Teixeira, em meio aos empurrões e explosões de euforia. Enquanto uns davam vivas ao Prefeitão, outros improvisavam meios de saudá-lo, cantando, acompanhados por violões e batidas de caixas de fósforos.

Espontâneo, o prefeito Jorge Teixeira mostrava-se sempre sorridente, parando aqui e acolá, para receber os cumprimentos da grande massa. E pela primeira vez, os banhistas amazonenses sentiam-se protegidos pela presença de salva-vidas, colocados em áreas estratégicas, prontos para entrarem em ação a qualquer momento. O deslocamento de salva-vidas para a praia, foi uma colaboração da Polícia Militar do Amazonas, atendendo solicitação do prefeito. Dentro de mais alguns dias, toda a extensão da praia e estrada de acesso, receberá iluminação a mercúrio. tornando o logradouro mais magnífico e belo. Após a inauguração da praia, ficou provado também que o povo sabe retribuir as grandes realizações governamentais, aplaudindo os governantes, gritando seus nomes, numa explosão sincera de agradecimento e sensibilidade.

 

quarta-feira, setembro 16, 2026

PRINCÍPIO DE INCÊNDIO

 Renato Mendonça

10.09.2026

 


Há quem diga que o Supremo Tribunal Federal (STF) é o guardião da Constituição. Mas, quando olhamos para certas manchetes e discursos proferidos nos meios de comunicação escrito e falado, o que vemos é um espelho trincado: a imagem refletida não é a da instituição austera e imparcial que imaginávamos, mas a de um palco onde se encenam dramas políticos — defesa de ideologias.

Durante muito tempo acreditávamos que seus ministros fossem figuras ilibadas, eruditos do Direito constitucional, capazes de sustentar o edifício republicano com a firmeza de colunas incólumes. Hoje, porém, a fotografia que se revela é menos nobre: alguns se deixam capturar por interesses escusos, outros se transformam em cabos eleitorais disfarçados, quase um braço articulado em favor de ideologias que flertam com o autoritarismo — a extrema direita.

E, como não se submetem ao julgamento direto das urnas, muitos parecem esquecer que sua fidelidade deveria ser à Constituição, não ao padrinho político que os indicou. É uma inversão de valores perigosa e delinquente: o templo da lei se converte em arena partidária, e as cores das togas dos ministros são ofuscadas pelas sombras nefastas das campanhas eleitorais.

Para agravar, há jornalistas que se tornam arautos dessas retóricas casuísticas. Uns se erguem como donos da verdade, outros como mercadores da mentira, tentando convencer o povo de que não precisa ouvir sua própria consciência. É como se a democracia estivesse em chamas — um princípio de incêndio que começa pequeno, mas, se não for debelado, ameaça consumir o edifício inteiro.

Debelar esse fogo exige mais do que indignação e revolta: exige discernimento. Nas próximas eleições, será preciso olhar além dos “santinhos” coloridos, além das promessas fáceis. Ler a biografia dos candidatos, investigar seus atos, perceber quem já se dedicou à população mais vulnerável e quem apenas cultiva interesses mesquinhos em favor de uma minoria mais abastada. A democracia não se sustenta com slogans; ela se sustenta com escolhas responsáveis.

Boas escolhas, meus amigos e amigas — porque delas depende se o incêndio será apagado ou se veremos, impotentes e omissos, a nossa República virar cinzas.

 

terça-feira, setembro 15, 2026

IMIGRAÇÃO JAPONESA NA AMAZÔNIA

 Para abrilhantar o cinquentenário da imigração japonesa na Amazônia, em junho de 1978, o casal – príncipe herdeiro Akirito e a princesa  Michiko – realizou uma visita oficial ao Brasil, incluindo passagem pelo Amazonas. Como forma de manifestação de apreço, o Jornal do Commercio, em Manaus, veiculou o artigo que integra esta postagem, sem eu que conseguisse detalhes sobre o autor.



Jornal do Commercio, 24 junho 1978

(...) No acontecimento da imigração japonesa cumpre ressaltar, a bem da verdade histórica, e parte que se relaciona com a Amazônia. Em nossa região a entrada do japonês não resultou de um simples desdobramento da imigração que se destinara ao Sul do país. Partiu de negociações diretas entre o governo do Pará e o governo do Japão. A iniciativa coube ao Dr. Dionísio Auzier Bentes [1925-90], então governador do Estado, e para esse fim foi até Belém, o Embaixador japonês no Brasil, Sishita Taksuke. Encerradas as negociações com êxito favorável, passou-se ao empreendimento, em termos econômicos, surgindo a Companhia Nipónica de Plantações do Brasil, sob a responsabilidade do industrial Hachiro Fukuara. Nessa fase preliminar, contribuíram, com capacidade e dedicação, o brasileiro Mario Guimarães e o japonês Conde Koma [Mitsuyo Maeda - 1878-1941], este há muito radicado em Belém, onde se tornou popular como professor de jiu-jitsu, tendo como discípulo predileto, neste esporte, o paraense Jacinto Ferro, que por sua vez prosseguiu na missão do velho mestre.

A imigração japonesa na Amazónia data, portanto, de cinquenta anos, e merece uma comemoração especial.

A par das culturas hortigranjeiras, que vieram melhorar a padrão alimentar do povo, são dignas do registro duas verdadeiras revoluções de caráter econômico operadas por essa imigração. Refiro-me à pimenta do reino e à juta. Até então a sacaria para exportação brasileira era tecida na base da fibra importada da Índia. A pimenta do reino, que não é só um tempero de cozinha, mas ingrediente indispensável na indústria de carnes em conserva, constituía outro déficit no plano da economia. Iniciou-se em Tomé-

Açu, no rio Acará, sede pioneira da ação japonesa, a grande batalha pela cultura da pimenta, daí estendendo-se até tornar-se em produto básico da industrialização, um fator de autossuficiência da riqueza nacional.

A juta tem uma história que merece ser contada. Ryoto Oyama, localizado em Parintins (outra área escolhida pelos imigrantes) consagrou-se à cultura do precioso vegetal. Investiu praticamente uma fortuna, nesse programa. Aconteceu que germinaram alguns pés, e desses restaram cinco, ainda tenros, quando a enchente do Amazonas começou a se expandir, ameaçando sua existência, pois, como se sabe, trata-se de planta da várzea. À medida em que o rio subia a ribanceira, aumentavam as preocupações de Oyama. Houve uma noite de SUSPENSE: a distância entre o rio e os frágeis arbustos era tão pequena que bastaria um avanço normal da enchente para afogá-los. O pioneiro ficou em vigília, mas ao fim da madrugada recebeu uma gratificação inesperada pelo seu heroico trabalho, pois o rio se deteve e daí em diante passou à vazante.

Recordando esses fatos, saúdo o 50° aniversário da imigração japonesa na Amazônia, como um dos mais decisivos acontecimentos para o desenvolvimento econômico da região.

segunda-feira, setembro 14, 2026

MEUS OITENTANOS (17)

 

FASCÍCULO 17


Cometi de novo um erro grave comigo mesmo ao transferir o comando da Rádio Patrulha, sem aguardar a definição do comando-geral. Entreguei ao subcomandante, capitão Eber Bessa, e, depois de me apresentar ao superior de dia, viajei a Belém, a fim de alcançar meu carro – a Brasília ZG 9432, com a qual segui rumo ao Sul pela BR 153, conhecida por Belém-Brasília. Ia acompanhado da prima Rosinha, que aproveitou a carona para reencontrar a família em Santos-SP. A viagem ocorreu em fevereiro, durante o Carnaval; tanto é que no dia 28, quarta-feira de Cinzas, ao levar o carro a uma oficina precisei aguardar a abertura do banco para sacar o dinheiro. Fui o único motorista: dirigi inicialmente até Anápolis-GO e, então, tomei a direção de São Paulo pela BR 364. Realizei a navegação com o GPS da época – a revista Quatro Rodas – que mostrava as rodovias de forma esquemática, sinalizando pontos de interesses e indicando a quilometragem a percorrer.

Deixando o comando 

                                                                    Enquanto rodava pelo interior, com pouco movimento nas estradas, tudo seguia às maravilhas; todavia, quando alcancei o entorno de São Paulo, minhas pernas tremeram. Ao adentrar a capital paulista os embaraços se ampliaram, mas seguia as placas indicativas para Santos até que, bastou a inobservância de uma delas, me perdi. Adiante, ao avistar uma patrulha da PMESP, estacionei o carro no canteiro. Ao policial surpreso expliquei que chegava de Manaus, bastava que ele conferisse a placa e, ao me identificar, indicou-me o caminho do litoral. A estrada de Santos eu conhecia bastante, em virtude de tantas idas e vindas em anos anteriores, assim, prontamente cheguei à residência dos meus pais e irmãos, e a acolhida foi a costumeira – festiva.

Na Belém-Brasília com minha Brasília


Cometi mais uma imprudência: ao deixar minha viagem para o Rio, onde frequentaria o curso, na véspera da abertura do ano escolar. Era um domingo, dia em que a compra de gasolina era suspensa. Sem ter o que fazer, realizei a viagem economizando combustível ao extremo, porém, estando na avenida Brasil, percebi a proximidade da pane seco. Então, decidi deixar o carro em um posto de gasolina sem qualquer garantia e, de taxi cheguei ao quartel do 2º batalhão, em Botafogo, onde obtive hospedagem. Somente na segunda-feira à tarde, após as aulas, recuperei o meu veículo; devendo assinalar que a Brasília estava coberta por seguro total.

Ainda em 1978, um grupo de oficiais orientado pelos majores Medeiros e Alfaia formou uma Cooperativa para, mediante recursos do sistema financeiro da habitação, construir residências para os policiais; resultando no Conjunto Residencial Tiradentes, edificado no bairro do Aleixo, então em expansão no arrabalde da capital. Foram edificadas casas em amplo terreno, destinadas em princípio aos oficiais da Polícia Militar, porém, encerrado o interesse destes, a venda foi aberta ao público. Aproveitei e adquiri uma casa do empreendimento, a qual recebi ao retornar do curso, no início de 1980.

Casa adquirida no Conjunto Tiradentes


O curso de técnica de ensino destinava-se à especialização de dirigentes de escolas militares, diria que se assemelhava à graduação em Pedagogia, todavia, aplicado em período bem restrito, no caso, nove meses, tanto que utilizei os créditos do curso na Faculdade de Pedagogia da UFAM. A equipe de docentes possuía mais civis que militares, que ajudava bastante no entendimento, e cujas aulas – de segunda a quinta-feira – ocupavam a manhã e à tarde, na sexta, somente aulas matinais. Adaptei-me com facilidade ao currículo, em vista do amplo material de leitura; existiu, porém, certo embaraço com as disciplinas de cunho matemático, em especial, a de estatística. Ainda que sem possuir fundo respaldo nesse campo, dominei a matéria, ao ponto de orientar o colega major Lyra Bastos, da polícia cearense. As provas eram aplicadas sempre às sextas-feiras, dessa forma havia tempo para organizar a preparação.

O Centro de Estudos de Pessoal (CEP), instalado no Forte Duque de Caxias, situava-se na praia do Leme, uma das extremidades de Copacabana, portanto em excelente localização. As aulas obedeciam aos parâmetros voltados ao aperfeiçoamento de futuros docentes. As carteiras na sala de aula estavam dispostas segundo a antiguidade entre os militares, com exceção de dois estrangeiros – os capitães Ramon Montiel, da Venezuela, e Alfredo Fiallos, do Equador. O mais antigo na hierarquia ocupava a primeira carteira – o tenente-coronel Ney Villeroy, descendente do primeiro governador do Amazonas; eu me encontrava quase no final, ainda com a patente de major, entre os majores Bastos Pita, da Bahia, e Carlos de Sá, de Pernambuco, e à frente do major EB Meis Velloso.

Inesquecível foi o mais moderno: o capitão Cláudio Ferreira, do Rio Grande do Norte, talentoso desenhista, que animou a turma com as caricaturas expostas dos colegas. Também fui destaque por conta de um acidente jogando futebol, quando, ao trocar a bola pelo meio fio, sofri uma luxação no dedão do pé direito. Cláudio identificou-me como o “jacaré de pé engessado”. A educação física era realizada no campo de futebol, onde joguei inúmeras “peladas”, e me recorda, além da luxação referida, outra proeza: de óculos, jogava no gol; em certo jogo um forte atacante, que fora jogador juvenil do Botafogo, desferiu aquele chute, levantei os braços para defender, mas a bola passou e explodiu na minha testa. Fui ao chão e os óculos, idem. Acodem os jogadores, porém, nada de grave sucedeu nem a mim, nem aos óculos. Tão pouco, o gol.

Preparação física no estádio. Autor, assinalado


Naquela ocasião, minhas visitas a Santos tinham outro propósito e acolhimento: era a residência dos meus pais; fui repetidas vezes, às vezes usando meu carro, mesmo enfrentando o retorno difícil aos domingos sem posto de abastecimento aberto. Certa vez, na BR Rio-São Paulo, dei carona à duas jovens cujo veículo já não dispunha de combustível. Foi-me conveniente, pois as moças moravam em Botafogo, assim como eu, no quartel do 2º Batalhão, instalado na rua São Clemente.  A estadia naquele aquartelamento revelou-se providencial, não muito longe do CEP e com acesso a diversos pontos importantes. O alojamento abrigava vários oficiais de polícia de diferentes estados; a recepção contribuiu bastante para minhas finanças, já que havia alimentação disponível além do almoço servido pelo Centro. Na metade daquele ano soube da mudança de comando no Amazonas: assumiu o tenente-coronel EB Wilson Raizer, com quem teria um complicado entendimento.

As dependências do quartel do batalhão, contudo, não exibiam bom trato, assim como as viaturas; outro descaso evidenciado via-se no aspecto do pessoal, visto os enormes cabelos e bigodes usados. Ver o comandante chegar ao quartel em carro particular e sem uniforme, me fez indagar a razão. Era o temor dos bandidos, assim, circulava disfarçado. E mais receio, os oficiais me instruíam para não visitar a Baixada Fluminense, onde sempre visitei uma família em Belfort Roxo; nem me identificar como oficial de polícia. Ao ouvir essa admoestação, um colega cearense, rangendo os dentes, assegurou: “no Ceará, os bandidos têm medo da polícia”. Outra revelação de alarme ouvi de um assessor militar da Prefeitura, cuja sede visitei em frente ao batalhão, em antiga residência consular. Perguntei ao oficial como a chefia procedia quando o prefeito desejava visitar uma favela, respondeu-me, sem constrangimento: “faz-se um acerto com o líder comunitário, que, por sua vez, segura os marginais”. Tal artifício beira os 50 anos. (segue)