CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

domingo, julho 26, 2026

POEMA DOMINICAL (45)

 O autor - Max Carphentier (abril de 1945), publica este poema no Jornal do Commercio, edição do domingo, 25 julho 1976 - há 50 anos.

Jornal do Commercio, 25 jul. 1976 - não foi
possível identificar o ilustrador 

O CANTO DO POETA 

Ribalta de ninguém, esta / rotura clássica / do granito em sépalas / de espanto / 

não poderá tecer-te / de rápida platina: toda / liquifação da flora não / resumirá o ilógico do instante, / mormente o que separa o antes / do sempre nos cabelos da lembrança / firme, 

peregrina nas tumbas de um / deserto / (a tara fica, fica e vai / pousar apenas renda em / teus quadris).

E na fronte insentida / (que adormece) / o abandono cai com a mesma / consternação irreparável / da lágrima de um lírio / de setembro.

sábado, julho 25, 2026

DIA DO ESCRITOR

 

Após breve dúvida, para comemorar o Dia do Escritor, revisei meus arquivos sobre o in memoriam  Ramayana de Chevalier (1909-72 ), que, no decorrer de 1961, há 65 anos, publicou crônicas e artigos no extinto jornal A Gazeta. Quase encerrando aquele ano, Chevalier demonstrou sua erudição ao comentar “A Raposa e as Uvas”, peça apresentada no Teatro Amazonas pelo Teatro Escola.

Ramayana de Chevalier

 BEBE O MAR, XANTÓS!

 Ramayana de chevalier

A GAZETA, 19 de dezembro de 1961

 

QUANDO as centelhas do primeiro relâmpago rasgaram os céus, entre massas de nuvens e pavores eternos, duas criaturas se digladiavam, filhos do mesmo Deus, o Anjo do Bem e o do Mal, enquanto dentro da caverna, começava a se esboçar, no alto do monte, a palavra mágica de Zaratustra. O que Nietzsche fixou, milênios depois, significa o nascimento do teatro. Essa luta milenária é o sangue e a voz do teatro.

Ainda estou emocionado, até agora, com a reapresentação de A Raposa e as Uvas, poema de profunda crispação estética, filho do talento de Guilherme Figueiredo. Se o Novo Amazonas pode ser afirmado, em realidade, é num momento desses. Aos saudosistas, não resta senão um gesto de compreensão. Jamais, em todo o nosso passado artístico, tivemos uma tão profunda demonstração de pujança intelectual, de criação interpretativa, do que durante o drama grego, da autoria daquele inolvidável Guilherme Figueiredo, nos nervos da equipe amadorista do nosso Teatro Escola.

A vida, no seu conturbado mistério, que se confunde com o mistério do teatro, na apreciação de Jean-Louis Barrault [1910-94, ator francês], a destinação dos sábios, o prêmio transitório da fortuna à mediocridade, a intriga dos simples e, ao cabo de tudo, o imenso triunfo do Amor, em toda a sua plenitude, a vitória do Espírito sobre a Matéria, assim é o desenrolar dessa peça maravilhosa, lição, diversão e glória. Com o Ponto a cargo de Geraldo Xavier e a direção de cena sob o comando de Aldemar Bonates e Francisco Aragão, a peça se mostrou ao nosso povo, que a aplaudiu delirantemente durante vários minutos, por duas vezes, com o cenário sóbrio, elegante, real e harmonioso, sobretudo histórico e sugestivo. É uma residência grega de um filósofo rico, com toda a vertiginosa beleza do seu tempo.

O ponto alto da representação é a figura monstruosa de Esopo, revelado pelo talento de Alfredo Fernandes. A caracterização, a justeza de atitudes, a presença do corcunda que, como um Caliban, horripila pelos olhos, mas que é um Ariel no espírito, tudo se reuniu para dizer da alta dramaticidade, da voz segura e impostada, do sucesso rigorosamente perfeito do intérprete do feio samósata. Hélio Azaro esteve magnifico. Xantós, o filósofo, através do seu talento cênico, revive e entusiasma, dá-nos a ideia nítida da fraqueza humana em todos os tempos, a exaltação da vida luxuriosa e fútil, a enorme lição da desumanidade vencida. Mauricio Wanderley, no Etíope, está bem posto, discreto e sincero, enquanto Carlos Araújo, em Agnóstos, é uma expressão teatral de porte soberbo. Terezinha Tribuzzi, em Melita, admirável corporificação das grandes passionais da Hélade antiga, dá-nos um papel natural, elegante, sutil, capaz de emocionar nas horas amenas de convívio com Xantós, como nos lances dramáticos de dedicação ao seu amor oculto. Ao seu lado, Ana Maria Araújo, numa Clea radiosa, viva, bela e espontânea, figura imponente de uma Grécia que nos deu Parmênides e nos deu Safo, honrando ao elenco.

O conjunto excedeu a todas as expectativas. Houve uma alma de santo passeando pelos corredores, afagando sacrifícios, velando, ora a assistir para ajudar, ora a viver os papéis antes de explicá-los, ora a desaparecer na sua modéstia, como a luz das cavernas, que ilumina sem ser pressentida: Américo Alvarez, um dos diretores artísticos do Teatro Escola Amazonense de Amadores. Mas o Amazonas, como sempre, deve tudo aos que aqui chegam, para cumprir um fadário, e terminam enleados na tremenda realidade telúrica e morrendo numa saudade doce e eterna.

O Amazonas deve o sucesso de A Raposa e as Uvas, a dois espíritos de brasileiros de outras paragens. Um deles, esse inefável e indescritível Gebes Medeiros, dínamo de capacidade invulgar, sonhador incorrigível, dono de uma extraordinária inteligência criadora. Veio de Alagoas e luta, com um punhado de heróis, pela grandeza de nossa cultura. O seu esforço, à frente do Teatro de Amadores, comove. Sou um decidido e obscuro voluntário do seu exército de párias, aplaudindo-o freneticamente. Em Gebes, quando se o aplaude, não se o faz a um homem em carne e osso, mas a uma materialização de artista, de todos os tempos, hábil e bom como um veio d’água.

E, como os veios d’água, ele se deixa atravessar pela luz, fixando-a nas suas cores e no seu brilho. A outra criatura a quem o Amazonas já muito deve, nesta fase de ressurreição estética, é uma paulista, de sangue misturado como as águas do Amazonas: Úrsula de Noronha Santos. Esposa do engenheiro Noronha Santos, que luta, ao lado de outros técnicos, por dotar Manaus de um sistema luminoso moderno, Úrsula é um talento recortado de um álbum de Fra Angélico. Nunca deixará de ser criança, pois só às crianças é dado sonhar com as coisas de Deus. Foi ela a autora daquele cenário maravilhoso, uma das diretoras artísticas do conjunto, interferindo nos gestos, na mímica, na voz, na conduta e nos ensaios dos atores. Foi ela a sombra meiga que se devotou a uma causa, cujo sentido, só os altos espíritos podem compreender. Num momento em que se dá tanto título de “cidadão do Amazonas” a quantos elementos mal se conectam com a nossa vida interior, com as vibrações do nosso espírito planiciário, urge que deputados, bem intencionados, outorguem esse título a esses dois brasileiros de outras paragens, unindo-os espiritualmente a nós, para toda a vida.

Ao Governo do Estado, que se entusiasma tanto com as realizações legítimas, que nos honram e nos enobrecem, um apelo: que o Teatro Escola Amazonense de Amadores saia por esse Brasil, mostrando aos patrícios, o que já conseguimos pela cultura e pela inteligência, levantando-nos do nada, erguendo-nos da crise, vivendo pelo espirito e pela Arte. Isso é fazer um Novo Amazonas, superior ao antigo, maior, bem maior do que o das eras do oiro e do champagne, como afirmação de sentimento, de estudo e de cultura. O que eu vi no Teatro Amazonas me deixou completamente em êxtase. Natacha, contemplativa, estava de lágrimas nos olhos, a mais bela homenagem ao gênio dos intérpretes caboclos. ***

quinta-feira, julho 23, 2026

PRAÇA RIBEIRO JÚNIOR (2)

 Há setenta e um anos, precisamente em 23 de julho de 1955, foi aberta ao público a então denominada Praça Ribeiro Junior, instalada no canteiro central da avenida Leovigildo Coelho e delimitada entre as ruas José Paranaguá e Lima Bacuri. 2 anos depois, ela foi soterrada. A postagem – dividida em duas seções – expõe o texto do saudoso jornalista e acadêmico Arlindo Porto, publicada em A Crítica, em 23 julho de 1978.

Recorte do livro editado em Manaus
Detalhe do artigo de Arlindo Porto

                                                     SALVE  RIBEIRO JÚNIOR

Arlindo Porto

Tudo isso ocorreu após os eventos golpistas de 1964, nada tendo eu podido fazer a respeito, nem mesmo protestar contra a agressão à memória de Manaus, pois tangido pelas circunstâncias, me auto exilara e fixara residência por mais de 10 anos, no Rio de Janeiro. Manda a justiça que se proclame, no entanto, que atendendo a uma solicitação que eu lhe fizera, o prefeito Paulo Pinto Nery, no que se obedecia a uma recomendação do próprio mestre Branco e Silva, então já falecido, mandou pintar todos os anos, enquanto esteve à frente da Prefeitura, a herma de Ribeiro Junior com a cor bronzeada apropriada, o que levou muita gente, até hoje, a pensar que a peça fora elaborada naquele precioso metal. Esse trabalho na conservação somente deixou de ser feito após a saída de Paulo Nery da Prefeitura, com o consequente escorraçamento da herma da praça que tinha o nome do homenageado.

Quanto à herma, em nova avalanche modernizadora, esta já ocorrida na gestão atual do sr. Manoel Henriques Ribeiro, foi derrubada da anônima e anódina mureta em que fora depositada, e desapareceu. provavelmente soterrada nos trabalhos de nivelamento ocorridos na praça da Saudade.

Quanto à praça em si, penso que esta continua existindo oficialmente, tal como já afirmei antes. Pelo menos não é do meu conhecimento a aprovação de qualquer lei extintora da homenagem, pela Câmara Municipal. É bem verdade que ela não aparece na planta de Manaus impressa no catálogo telefônico da cidade, mas este não é um documento plenamente confiável, pois até chega a grafar o nome do grande Heliodoro Balbi, como “Heliodora Balisa'”... Até bem pouco tempo o nome de Ribeiro Júnior continuava aparecendo nas contas de água, luz e telefone. Agora já não sei.

É bem verdade que, com a expulsão e degredo da herma para a praça da Saudade e desaparecimento da passarela central, o logradouro que homenageava o “Redentor” perdeu visualmente a condição de praça, nada mais tendo que possa sequer lembrar haver existido ali, algum dia, aquela característica urbana.

Creio ser chegado o tempo daqueles que pugnam pela manutenção da memória de nosso Estado, tendo à frente o Instituto Geográfico e Histórico, de encetar uma campanha junto às autoridades competentes, no caso a Câmara Municipal e a Prefeitura, para que se nomeie uma outra área da cidade com o nome de Alfredo Augusto Ribeiro Junior e para ali se devolva, renovada, a sua herma, a fim de que as gerações que nos sucederem tenham a oportunidade de recordar a figura brava de um homem que, mesmo aqui não tendo nascido, não vacilou em arriscar sua carreira e o seu futuro em bem do povo amazonense.

terça-feira, julho 21, 2026

PRAÇA RIBEIRO JÚNIOR (1)

 Há setenta e um anos, precisamente em 23 de julho de 1955, foi aberta ao público a então denominada Praça Ribeiro Junior, instalada no canteiro central da avenida Leovigildo Coelho e delimitada entre as ruas José Paranaguá e Lima Bacuri. Morei neste logradouro por seis anos, a partir de 1967, e acredito que até sua desativação teve, no máximo, 60 moradores; pois somente existiam residências de um lado, do outro, estava o muro do quartel da Polícia Militar, hoje Palacete Provincial. Ainda me recordo: residi no Edifício Lilac, nº 348, entre a casa do seu José – onde vivia com cerca de uma dezena de filhos – à direita, e, à esquerda, uma oficina mecânica. Sucediam-se a big residência do Ali Assi; a do Adriano, proprietário dos cinemas; uma casa onde no térreo funcionava um comércio de medicamentos e, na esquina da Lima Bacuri, a moradia do desembargador Lucio Resende.

 

Detalhe da capa do livro
lançado em Manaus

A postagem – dividida em duas seções – expõe o texto do saudoso jornalista e acadêmico Arlindo Porto, que manifesta sua admiração pela Revolução de 1924 e ao altaneiro e sua maior expressão: tenente Ribeiro Junior.

SALVE  RIBEIRO JÚNIOR

Não estava de nenhuma forma destituída da razão a senhora Yara Ramos Ribeiro, filha de Alfredo Augusto Ribeiro Júnior, quando afirmava, em 1985, à passagem do 47º aniversário da morte do instituidor do “Tributo da Redenção” no Amazonas, ocorrida em 29 de junho, que a memória do seu pai, o grande revoltoso de 1924, “está completamente esquecida dos amazonenses”. E ainda quando dizia que “o busto de Ribeiro Júnior está azinhavrando num pequeno nicho, num logradouro bem identificado pela palavra saudade”. Esta última afirmativa, por sinal, deve soar até agravada dois anos depois de feita, porque na realidade o busto, nas últimas reformas municipais procedidas na Praça da Saudade, tomou rumo ignorado, volatilizou-se. Coisas de uma terra que não cultiva a memória. 

Recorte do artigo de Arlindo Porto,
jornal A Crítica, 23 julho 1987

Cometia, no entanto, aquela querida amiga uma meia verdade, quando afirmava que “nada mais resta em Manaus que lembre essa figura histórica, nem mesmo a praça com o seu nome, inaugurada a 23 de julho de 1955”. Resta sim. A praça, embora visualmente desfigurada pela ação  municipal, ao tempo da gestão Jorge Teixeira, que no seu dinâmico afã de dar aos ônibus um corredor de trânsito que facilitasse saída dos grandes carros do centro urbano da cidade, mutilou completamente a avenida Floriano Peixoto, anulando a passarela central destinada aos pedestres, derrubando-lhe todas as árvores e, na prática, devolvendo-lhe, por descaracterização, o trecho que antes pela existência de um marco assinalativo, configurava a Praça Ribeiro Júnior.

Contudo, se esta não existe de fato, pelo menos existe de direito. Não é um grande consolo para ninguém afirmar tal coisa, mas a lei municipal que a criou está em plena vigência. Não foi anulada.

Permitam-me um depoimento pessoal: criei-me assistindo, todos os anos, no dia 23 de julho, uma comovente demonstração de lealdade à memória de Ribeiro Júnior, marcada por salvas de foguetões desde o alvorecer e por um lauto almoço, na Cachoeirinha, tudo promovido pela generosa e depreendida iniciativa de Philadelfo Moraes, que ainda na data famosa divulgava pela imprensa um artigo laudatório exaltando a figura do grande comandante da revolução de 1924.

Da pessoa de Ribeiro Junior eu me recordava apenas, e muito vagamente, como de um homem muito alto, imponente no envergar de sua farda de oficial do Exército, de quem certa vez estive bem perto, levado pela mão de meu padrinho e pai adotivo, o ser humano extraordinário que foi Aristeu Guimarães, também ele um grande admirador do Redentor. Recordo-me também, menino, das grandes concentrações humanas, ali pelo “roadway” da Manaus Harbour, quando Ribeiro Junior chegava a Manaus, de navio, e o povo ia recebê-lo, no cais.

Em 1955, aos 26 anos de idade, já atuando na imprensa de Manaus, provavelmente tocado pelas reminiscências da infância, dispus-me a fazer alguma coisa, diante da inexistência de qualquer homenagem oficial ou mesmo oficiosa ao homem que acorrera em favor dos amazonenses, humilhados e ofendidos diante de uma oligarquia corrupta, insurgindo-se 31 anos antes contra a situação constituída e derrubando um governo que não correspondia aos anseios do povo.

Encontrei apoio para aquela “alguma coisa”, na pessoa de Walter Scott da Silva Rayol, um saudoso amigo, também ele um inconformado com o esquecimento em que jazia a memória de Ribeiro Junior. Vereador à Câmara Municipal de Manaus, dos mais brilhantes que aquela Casa conheceu, ele se encarregou de apresentar à consideração dos seus pares a lei de criação da praça, em local por nós escolhidos, em meio a longos conciliábulos.

Assim, graças a ação de Zé do Parque (nome com que Rayol assinava seus pitorescos artigos sobre futebol), deu-se o nome de Ribeiro Junior ao trecho da avenida Floriano Peixoto compreendido entre as ruas José Paranaguá e Lima Bacuri.  Com a total cobertura do “Jornal do Commercio”, do qual era eu o secretário da Redação, encetamos uma campanha e através de subscrições populares, obtivemos o dinheiro, primeiro para as placas da praça, que foram confeccionadas em mármore, pelo Mário Orofino, a preço que nem pagava a matéria-prima. Quanto ao busto, ou melhor, a herma do homenageado, como o dinheiro arrecadado fora pouco (o tempo era de vacas magérrimas) e não dava para que o confeccionássemos em bronze, material eterno, foi o mesmo modelado, sobre fotografia, pela arte de Branco e Silva, também engajado na campanha e que nada cobrou pelo trabalho. A composição final da estátua foi feita em liga de cimento, areia finíssima e colas, invenção do saudoso mestre amazonense, que pinta pelas suas mãos geniais, dava a nítida impressão de bronze.

Finalmente, no dia 23 de julho de 1955, com a presença em Manaus de Yara Ramos Ribeiro, filha do homenageado, inauguraram-se as placas, tornando a praça oficialmente existente, numa festa que não pude estar presente por me encontrar viajando. O ato seguinte foi a inauguração da herma, bem no centro da praça, o que se fez aos moldes de qualquer festa desse tipo, com oradores e tudo. Dentre estes, lembro-me que falou, com a mesma veemência de 31 anos antes, quando aplaudia a revolução das sacadas e palanques, o grande tribuno popular Hemetério Cabrinha.

Os anos correram, veio o Teixeirão e os seus executivos de obras, na febre de modernizar — e desumanizar? —  Manaus, devolveram a avenida Floriano Peixoto, que se pretendia bucólica e com uma passarela central arborizada, à condição de via trepidante e congestionada permanentemente. A obra foi impiedosa com a homenagem feita ao grande revolucionário de 1924, pois a herma em seu louvor, para memória das gerações sucessoras à sua, que estadeava no meio da praça com o seu nome, sobre um belo pedestal, foi dali arrancada e levada para um recanto especialmente construído na praça da Saudade, onde foi juntar-se a outros bustos e hermas para ali também exilados, juntamente com as placas alusivas. Destas, no correr dos tempos, se encarregaram os vândalos, pois foram todas destruídas. (SEGUE)

segunda-feira, julho 20, 2026

MEUS OITENTANOS (10)

            FASCÍCULO 10

 No Amazonas, assumiu o governador João Walter e, na Polícia Militar, o coronel Paulo Figueiredo (1971-73), que me manteve na função de Tesoureiro. A prestação de contas ocorria ao final do mês ao comandante, militar bastante exigente com as verbas recebidas, afinal cabia a ele responder por algum deslise junto à Corte de Contas. Certa ocasião, ele me interrogou: você já frequentou a alcova de alguma madame? “Sim, comandante”, respondi, meio ressabiado. Ele então ordenou que olhasse para as paredes da repartição, nelas eu havia colado alguns cromos florais, extraídos de calendários fornecidos pelas indústrias instaladas na cidade. Daí a comparação com os quartos de motel, enfim, foi uma forma simpática de mandar o capitão limpar as paredes. Quem sabe, por isso, sigo colando cartazes e outros impressos na parede de meu escritório doméstico.

 

Quartel da PM na Praça da Polícia, onde trabalhei
e estacionei meus carros.

Em maio, foi criada pelo governo a Comissão de Defesa Civil, que passou a atuar já no mês seguinte. O final de junho marcou o ápice da enchente regional, naquele mês vários municípios e bairros da capital ficaram severamente alagados, atingindo os moradores. Com o objetivo de lidar com a tragédia, o governo repassou ao comando da PM valores para a aquisição de gêneros básicos. Tratando-se da primeira vez em que esse procedimento seria executado, recebi instruções severas do chefe quanto à compra dos alimentos. A importância dos recursos era relativamente elevada; e logo recebi uma oferta de gorjeta. A fim de não me envolver na transação, terceirizei a negociata com o Amazonilo Castro, colega da faculdade, que realizou as compras no desaparecido Supermercado Royale. Com o troco obtido, comprei um Fusca seminovo disfarçando, com mais ou menos sucesso, o ardil.

Possuía, pois, dois automóveis que eram guardados em frente ao quartel, visto não possuir garagem minha residência; apesar de usados despertavam os olhares argutos do chefe da seção de informações. E veio mais um complicador: o amigo e compadre Mohamed Tarayra, dono de lojas na rua Marechal Deodoro, ao viajar deixava comigo seu admirável carro, que igualmente estacionava em frente à caserna. Logo, eu possuía três carros e, sendo tesoureiro, estava me locupletando na função. Enfim, as suspeitas permaneceram apenas nos rumores. A faculdade mantinha-me empolgado; em casa, idem, tanto que chegou a notícia de nova gestação, com nascimento previsto para novembro. 

Roberto Antonio, aos 34 anos

O bebê, que acompanhando a norma ancestral, batizei de Roberto Antonio, em homenagem ao pai e ao tio, nasceu no Dia de Finados. O parto previsto para o início de novembro, seria realizado no Pronto Socorro São José e eu havia contratado o obstetra doutor Wallace Oliveira, com consultório na rua Guilherme Moreira. No dia dos finados, o médico encontrava-se no feriado em seu sítio, inacessível. Ainda estava incipiente a comunicação telefônica móvel. Diante da apreensão do casal, apareceu uma enfermeira cujo nome não anotei e garantiu a vinda do moleque e que, caso sucedesse algum imprevisto, a Santa Casa situava-se ao lado. Tudo correu bem. Dias depois, no cartório para efetuar o registro, antes de indicar a data do nascimento, refleti: quem vai comemorar aniversário no Dia dos Mortos? Então, fixei – 3 de novembro, sem imaginar que no ano seguinte, Eduardo, nasceria a 5, e Diego, anos depois, a 7. Curiosamente, a madrinha batismal de RA, dona Dadá Fonseca, nasceu em 2 de novembro.

 

Rua Conselheiro Nebias, 301

As férias marcadas para dezembro ocorreram, agora com a família acrescida, inclusive da sogra e da cunhada, e fomos desfrutá-las em Santos, junto aos pais e irmãos, instalando-nos no apartamento 31 da rua Conselheiro Nebias, 301, que havia se transformado numa pousada, todavia, reconfortante pelo reencontro das famílias. Viajei de paletó e gravata, retomando o estilo de antanho, e aproveitando dois cortes de casimira de cortesia de amigos. Em Manaus, a confecção de roupas ocupava intensamente os alfaiates, que acumulavam encomendas. A família chegou à noite e, a despeito da hora, os peixes regionais foram levados ao fogo e servidos para acompanhar o bate-papo, que se prolongou pela madrugada. O verão santista foi salutar, contudo, as férias chegaram ao fim. Em janeiro de 1972 retornei à residência para cuidar dos pimpolhos e, ao quartel, da tesouraria.

domingo, julho 19, 2026

ODE À MÃE FRANCISCA

 

Para recordar a data do falecimento de Mãe Francisca, o filho Renato compôs esta página, a qual me associo.

Em 18.07.2026 s
ão 74 anos de saudades!
 

  

Ó, Francisca, mãe querida,

1917 marcou teu nascer;

O céu te recebeu cedo demais,

Mas na terra ficou teu legado de amor.

 

Tu foste bravura e resignação,

Semeaste vida com gestos simples,

Mostraste caminhos com ternura,

Ensinaste fé com perseverança.

 

Na hora da partida, não houve desespero.

Houve entrega, confiança, esperança.

Partistes, deixando-nos órfãos de afago,

Mas nunca órfãos de amor.

 

Mãe, tu és presença invisível;

A energia que nos guia;

A fé que nos sustenta;

E a luz que não se apaga.

 

Seguiste o exemplo de Jesus,

Deixando-nos símbolos eternos:

Amor, dedicação, perseverança, resignação.

Sob imensa memória, seguimos teu conselho santo:

Fazer tudo quanto Ele ensinou,

Acolher tudo quanto Ele nos prover.

 

Francisca, estrela serena,

Em cada julho, teu nome renasce,

Em cada oração que rezo, tua voz ressoa,

Em cada cotidiano, tua essência permanece.


sábado, julho 18, 2026

ÔNIBUS DA VIAMA - 40 ANOS

 Diante desta postagem, lembrei de dois fatos: um, estava colaborando na empresa Ana Cássia, enquanto oficial da Polícia Militar, quando acompanhei os motoristas que foram ao Benarrós, instalado na entrada de São Jorge, para receber alguns ônibus. Tanto insistiram, que acabei dirigindo um ônibus em direção à garagem da empresa no bairro de Santa Luzia. No meio do caminho, por pouco não destruí um Fusca estacionado, e, na entrada da garagem, desisti da proeza. Outra recordação é de 1973, ocasião em que me exercitei na direção dos ABTs do Corpo de Bombeiros. 

Jornal A Crítica, 23 julho 1986

Mais cinco ônibus foram recebidos, ontem, pela VIAMA que vem procurando aumentar sua frota, com o objetivo de prestar um melhor serviço à população de Manaus. Os monoblocos foram entregues pela firma Benarrós & Cia, concessionária da Mercedes-Benz, ao sr. Francisco Canindé de Souza, gerente-administrativo da VIAMA.

Na ocasião, Francisco Canindé disse que “esses ônibus estarão em circulação a partir das 5 horas de amanhã (hoje), na linha do bairro do Japiim, dando cumprimento às exigências do prefeito Jorge Teixeira, que [exige], no mínimo 20 ônibus, cobrindo a aludida linha".

Ônibus

Os cinco ônibus fazem parte de uma série de 18 pedidos à firma Benarrós & Cia., segundo informações da própria diretoria da firma, os quais serão entregues até o final da primeira quinzena de agosto vindouro. Dentre essa partida de 18 ônibus que estão chegando para a VIAMA, 8 deles são do tipo “micro-ônibus”, os quais cobrirão linhas de pequenos percursos.

Indagado sobre o custo de cada um desses veículos que o valor unitário é de $316 mil cruzeiros. Trata-se de ônibus altamente sofisticados e que apresentam muito conforto e segurança aos seus passageiros. Serão utilizados na linha do bairro do Japiim, já a partir das 5 horas de hoje.

Ontem, mesmo, a direção da VIAMA conseguiu permissão junto ao DETRAN, para que os cinco veículos possam trafegar durante um prazo de quatro dias, enquanto se providencia o emplacamento.

sexta-feira, julho 17, 2026

PMAM - HÁ 50 ANOS

 A postagem – sobre a Polícia Militar – é parte da coluna dominical sobre as Forças Federais e a Estadual, assinada pelo jornalista Rubilar Santos, e circulada em A Crítica há 50 anos, no domingo, 18 de julho de 1976.

Quartel da Praça da Polícia
recorte de A Crítica, 18 julho 1976👇

Polícia Militar

REGRESSOU — O coronel Mário Ossuosky, após ter tratado de assuntos de interesse da PMAM em S. Paulo, Rio e Brasília, regressou ontem a Manaus. Nessa viagem, fez-se acompanhar do tenente-coronel Osório e do capitão Orleilson, assistente e ajudante de ordens respectivamente. Durante sua ausência, respondeu pelo comando-geral, o tenente-coronel Hélcio Mota, chefe do Estado-Maior da PM.

BAFÔMETRO — A Polícia Militar recebeu do Detran, cinco BAFÔMETROS. Estes aparelhos são recomendados oficialmente pelo CONTRAN para a medição nos motoristas, do teor alcoólico no sangue. Os bafômetros vão ser utilizados pelas Companhias de Rádio Patrulha, da Polícia Rodoviária e do Trânsito.

ESPECIALIZAÇÃO — Através de um ofício do Núcleo de Modernização da Secretaria de Planejamento do Estado, foi oferecida para a PMAM uma vaga para o Curso de Especialização de Polícia no Japão. O comando-geral já está ultimando os preparativos para a seleção e indicação do oficial.

FÉRIAS — Encontram-se em Manaus em viagem de férias os capitães PM Omar Dau e Antônio de Almeida, pertencentes a PM de Brasília.

JOGOS UNIVERSITÁRIOS — Embarcou sexta-feira, com destino a Belo Horizonte, o aspirante a oficial PM Ary [Renato] Oliveira da Silva. O aspirante Ary integra a equipe de atletismo da FAUD [Federação Amazonense Universitária de Desportos], que disputará naquela cidade os 27°. Jogos Universitários Brasileiros.

MISSA  — Dia 22, o comando da PMAM vai mandar celebrar a missa de 30° dia, por alma daquele que em vida se chamou tenente-coronel PM Júlio [Cordeiro de] Carvalho. A missa será celebrada na Igreja de S. Sebastião, às 8 horas.

Júlio Cordeiro

ACIDENTES DE TRÂNSITO — A Polícia Rodoviária remeteu para este editor, o mapa estatístico dos acidentes de trânsito ocorridos sob sua jurisdição, no período de 1 a 30 de junho de 1976. a) Acidentes com vítimas: 13; b) Acidentes sem vítimas: 15; c) Acidentes com feridos: 26; d) Acidentes com mortes: 28.

Após um estudo minucioso nas fichas de acidentes preenchidas pelos patrulheiros da RP, foi constatado que as principais causas dos acidentes são: excesso de velocidade, falta de atenção e imperícia.

Alfredo Assante

ANIVERSÁRIO — O major Alfredo Assante [Dias] será homenageado amanhã à noite por amigos e companheiros de farda pela passagem de seu aniversário natalício. Assante, chefe da 5ª Seção da PM e Relações Públicas do Círculo Militar, funções em que tem revelado toda a sua capacidade como elemento de comunicação. Homem dado ao diálogo, tem sido um dos maiores colaboradores da gestão do coronel Ossuosky no comando da Polícia Militar, possibilitando o melhor relacionamento que já existiu entre os homens da imprensa e a briosa corporação. Hoje, quando os companheiros da PM e do Círculo Militar estiverem homenageando ao Assante, lá estarão também seus amigos da imprensa.

quarta-feira, julho 15, 2026

SESQUICENTENÁRIO DO CORPO DE BOMBEIROS (2)

Mais uma contribuição pessoal sobre esta data jubilosa de uma das poucas entidades centenárias no Amazonas. FOGO!

Sem legenda


segunda-feira, julho 13, 2026

MEUS OITENTANOS (9)

             FASCÍCULO 9 

O ano de 1970 ficou marcado pelo tricampeonato do Brasil no futebol e, em Manaus, pela inauguração do estádio Vivaldo Lima (Vivaldão), evento que contou com a presença da delegação brasileira em preparação para o México. No início do ano levei a filha Valeria para “receber a benção” do avô Manuel e, com esse gesto simples, consegui restabelecer a harmonia familiar; foi alegria em dobro.  A situação financeira na casa do meu pai não era boa, em função do encargo de sustentar quatro filhos menores e um adolescente – Renato, que já trabalhava. Meu outro irmão – Antonio, havia se fixado em Santos e, com a situação organizada, viabilizou a mudança da família para o Sul ao final do ano.

Vivaldão, na inauguração - 1970
e em 2004👇

Eu seguia na chefia da Tesouraria da Força, função que me oportunizava generosos presentes, amizades agradáveis e certo conforto no lar. O quartel, ainda situado na Praça, tornava-se cada vez pequeno para o número de policiais cuja incorporação agora passava a interessar à coletividade. Havia, no entanto, um detalhe: serviam à instituição, mas mantinham atenção nas indústrias da Zona Franca que vinham se instalando no Distrito Industrial.  A Força seguia ampliando-se como ocorreu com a criação do segundo batalhão, para cuidar dos destacamentos interioranos, igualmente acontecia com o comércio na área central. Esse movimento atraia turistas de todo o país pelas novidades importadas, atração que os cursos policiais desde então incluíam no currículo como “viagem de estudos” a Manaus.

Formatura no BEASA - 1971

A inauguração do estádio Vivaldo Lima, o Vivaldão (demolido para a Copa de 2018), ocorreu em 5 de abril de 1970. Naquele dia, Manaus assistiu a dupla apresentação da seleção nacional, mesclada com jogadores locais. A seleção ficou hospedada no Centro de Treinamento Maromba, hoje pertencente à arquidiocese de Manaus. O estádio ainda estava em construção, razão pela qual os torcedores preocuparam-se em chegar cedo, a fim de alcançar algum lugar. Havia necessidade de levar algum alimento, pois no local tudo era improvisado e, se alguém deixasse o lugar por algum motivo, era improvável retomá-lo. Todavia, valeu todo o sacrifício, asseguro, pois presenciei na arquibancada ao lado da esposa. No dia de São Pedro ocorreu o final da Copa, no México; os colegas do quartel decidiram ouvir – ainda não havia TV em Manaus – a partida no balneário do senhor Mário, proprietário da firma S. Monteiro, em seu balneário no km 22 da atual rodovia AM-010. A festa seguiu bem até o final do primeiro tempo; no segundo, como a atuação do Brasil prometia vencer, a turma retornou à cidade para se incorporar à festança geral.

Iniciei a conversação com o Antonio articulando a mudança da família para Santos, a mim tocou fornecer o transporte. A ideia foi prontamente acordada com a família, apesar do pouco entusiasmo de meu pai; Dona Dora – a mãe – foi a artífice dessa epopeia, que se iniciou em dezembro, quando ela viajou com os filhos mais jovens: Luiz (8 anos) e Ricardo (6 anos). Ainda hoje me penitencio por não adquirir passagens comerciais para este grupo de familiares; à vista de minha proximidade com a Base Aérea consegui vagas em avião da FAB, ignorando ser a primeira viagem aérea de Dona, com o inconveniente do voo encerrar no Galeão e o Antonio trabalhar em São Paulo. Os vários inconvenientes teriam espantado a muitos, enfim, a viagem foi uma fortuna.

1º aniversário da Valeria - 1970 

Antecipando o Natal, festejei o 1º aniversário da Valeria, reunindo amigos e parentes na residência da família. Com a mudança de parte dos irmãos junto com a mãe, a presença da família foi mínima. Lamento registrar que os transtornos da vida me fizeram ausente, de modo que somente voltei a participar dos 50 anos desta filha, comemorados em Brasília. Logo em janeiro, os manos Zemanuel e Miguel (12 e 11 anos, respectivamente) viajaram pela empresa aérea VASP, na inauguração de nova linha entre Manaus e São Paulo. E, após igual período, embarquei meu pai na mesma empresa, assim concluindo a mudança da família. A casa em Manaus ficou entregue ao Renato, que cursava o NPOR (Núcleo de Preparação de Oficiais da reserva) e iniciava o ensino superior.

 

domingo, julho 12, 2026

POEMA DOMINICAL (23)

 Sem necessidade de esclarecimentos: dois saudosos sacerdotes, dois cultores da nossa literatura.

Recorte do matutino


Arrebatado sinto-me e absorto

Perante o brilho repousante e calmo

Da lua cheia, que de palmo a palmo

Vou percorrendo, qual Jesus no Horto... 

Como se à terra já estivesse morto,

Indiferente a tudo, então me acalmo:

E vou rezando fervoroso salmo

Na soledade do luzente porto... 

E no silêncio astral do plenilúnio

Fico tranquilo, livre de infortúnio,

A palmilhar meu doce eremitério... 

Ao clarão do luar, fujo do mundo:

E então sou monge, de andar profundo,

A recitar na lua o meu saltério...