CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

domingo, abril 26, 2026

POESIA DOMINICAL (25)


O poema traz duas curiosidades: foi elaborado por Francisco Pereira da Silva em 1929, próximo de celebrar o centenário. O autor ficou conhecido na literatura amazonense pelo registro do sobrenome nas demais obras literárias do gênero. Esta obra foi publicada na revista Rionegrino, nº 14, circulada em novembro de 1929. A ilustração foi concebida por Gil, usando um quadro de Branco Silva.

Revista Rionegrino, nov 1929

 

ORAÇÃO DA ÚLTIMA ICAMIABA

Luz de ouro e leite derramada, mansamente,

Pelo azul-desbotado dos Espaços

 

No Lago Sagrado, as águas, em êxtases, lucifremem,

Na argêntea reflexão da nudeza selênica...

- É a Lua Grande, que nadar com as uiaras tentadoras,

Para ouvir o canto misterioso da Mãe do Muiraquitã...

 

... E a última icamiaba, apoiando-se à árvore amiga,

Fita os olhos tristes na deusa dos que atuam e perdoam...

 

 “Yaci! Yaci! Quando te foste da terra,

Levaste na tua alma de luz e pluma

As angústias e as lágrimas das mulheres...

 

“A maldade dos homens ficou rondando o coração de tuas filhas...

“Então, Naruna, soltou o seu grito de guerra contra os nossos algozes...

 

“E quando andávamos, errantes, pelas montanhas e florestas,

Chorando e combatendo,

Somente a piedade branca do plenilúnio

Dava alegria aos nossos corações... 

“Yaci! Yaci! Os homens são irmãos das feras insaciáveis...

Mas, Naruna, amaldiçoando os homens, matou o amor...

 

“Yaci! Yaci! Lágrima e angústia, alegria e perdão!...

As guerreiras de Naruna vão bem longe...

Tu, que és tão meiga, tão doce e tão piedosa,

Tu, que vives tão só, bem sabes, mãe carinhosa,

Quanto dói na mulher, um coração vazio!...

 

“Traze do fundo d’água do Lago Sagrado, a pedra verde

Da felicidade!

E que ressurja o amor no peito da icamiaba,

Na glória de matar meu algoz entre beijos,

Na ânsia de morrer cantando nos seus braços!...” 

FRANCISCO PEREIRA

sábado, abril 25, 2026

SÃO JORGE

Rio, 23.04.2026 

Renato Mendonça

São Jorge - Terra

Nenhum outro santo veste tantas máscaras — um sincretismo religioso profundo — no coração do Brasil quanto São Jorge. Ele é o guerreiro que atravessa fronteiras da fé: na Igreja Católica, é o mártir de armadura reluzente sobre um cavalo branco; nos terreiros de Umbanda, é Ogum, o orixá que abre caminhos com sua espada de fogo. Esse sincretismo nasceu como resistência: sob o disfarce dos santos católicos, os escravizados africanos mantinham viva a chama das suas divindades, como quem esconde brasas sob cinzas para reacender o fogo da liberdade fustigado pelo vento da maldade de patrões desalmados.

No Rio de Janeiro, Jorge e Ogum se confundem como duas faces da mesma estrela. Na Bahia, sua imagem se funde ao caçador Oxóssi, senhor das matas. Assim, o santo guerreiro se multiplica em símbolos, como um rio que se abre em afluentes, mas nunca perde sua correnteza no caminho para o mar.

Podemos assegurar que a iconografia de São Jorge é um poema épico: o cavaleiro sobre o cavalo branco, enfrentando um dragão. Essa cena, nascida com a digital das Cruzadas, é mais que lenda — é metáfora da fé que atravessa o pântano dos medos humanos e vence o monstro da desesperança. O cavalo branco é a paz que galopa, e a espada é o raio de luz que rasga a noite. Cada golpe contra o dragão é um gesto que recorda ao mundo: o bem, mesmo com o intemperismo do tempo, sempre se ergue altivo contra o mal.

Geórgios, o agricultor da Capadócia, semeou sua vida como quem planta semente em solo árido. Quando o imperador Diocleciano ordenou a perseguição, Jorge rasgou o edito como quem rasga mantos da mentira, e professou sua fé mesmo diante da morte. Torturado, decapitado, transformou sua dor em germe: de sua sepultura brotou uma basílica, e de sua memória, um culto que atravessa séculos.

Os cruzados o fizeram guerreiro contra o Islã; os normandos o tornaram patrono da Inglaterra. Eduardo III fundou a Ordem dos Cavaleiros de São Jorge, e na Idade Média sua figura brilhou como um sol épico, rivalizando com os ciclos bretão e carolíngio. Hoje, é o padroeiro de cavaleiros, soldados, escoteiros, arqueiros — e também condecorado como um profeta para os muçulmanos. Sua lança é invocada contra pestes, lepra e serpentes, como se fosse um antídoto espiritual.

As relíquias de São Jorge repousam em várias partes do mundo, mas sua verdadeira herança é invisível: é a lembrança de que a luta contra o mal é eterna, e que nenhum combate se vence sozinho. São Jorge, cavalgando entre nós, mata um dragão a cada dia. Sua espada é a fé, a arma que Deus nos dispõe para lutar, e sua vitória é a esperança que nunca se rende, sempre vence.

A alegoria de que o santo salva uma jovem princesa, que seria entregue em sacrifício para degustação do monstro, nos encaminha para uma reflexão atual. Precisamos, sem tréguas, enfrentar as formas negativas de uma sociedade plural — da misoginia, das drogas, da violência urbana e outras mazelas sociais. Cabe a nós impedir que a juventude tenha o destino cruel de servir de consumo para os dragões da vida.    

AMAZONENSES NA ACADEMIA

Ontem (24), dois abalizados amazonenses tomaram o fardão de acadêmicos: no Rio, na Academia Brasileira de Letras (ABL), o festejado autor Milton Hatoum; em Manaus, na Academia Amazonense de Letras, o cronista Pedro Lucas Lindoso.

Milton Hatoum mostra o Diploma

A entrada de Milton Hatoum marca um feito inédito na história da ABL. O autor é o primeiro amazonense a conquistar esta grandeza na instituição de 128 anos de existência, com este feito reforça a presença da região Norte no cenário literário nacional.

A cerimônia cumpriu o protocolo tradicional da Academia. O novo acadêmico foi recebido pela escritora Ana Maria Machado e, ao longo da solenidade, o colar foi aposto pela acadêmica Rosiska Darcy, o diploma das mãos de Lilia Schwarcz e a espada conferida pelo decano José Sarney. Hatoum ocupa a Cadeira nº 6, sucedendo ao jornalista e escritor Cícero Sandroni.

Vida longa, coberta de novas conquistas e obras, ao primeiro acadêmico amazonense na Brasileira de Letras.

 

Pedro Lucas Lindoso, no folheto
da Academia

No mesmo horário, a Academia Amazonense de Letras (AAL) engalanou-se para receber ao cronista e poeta Pedro Lucas Lindoso, filho de José e Amine Lindoso, nascido em Manaus em 1957. Entre outras identidades, é membro do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas); integra a Associação dos Escritores do Amazonas. É membro efetivo da Academia Amazonense Maçônica de Letras e da Academia de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas.

A recepção foi conduzida pelo presidente Abrahim Baze, e o discurso de recepção foi elaborado pelo acadêmico Elson Bentes Farias. A entrega do Diploma e do Colar Acadêmico coube aos consócios os irmãos José e Robério Braga. Lindoso ocupa a Cadeira nº 25, do patronato de José Francisco de Araújo Lima, antes ocupada pelo escritor Marcio Bentes de Souza, toma lugar na poltrona que foi ocupada por seu genitor.

Ao amigo Pedro Lindoso, desejo  sucesso em mais bem sucedidos trabalhos literários e vida longa de saúde e fortuna.

 

quinta-feira, abril 23, 2026

DIA DE SÃO JORGE

Ao meu entender, este consagrado da Igreja é o único concebido em imagem bastante incomum, pois vem montado a cavalo e perseguindo um dragão. Nenhum outro santo mereceu tantas referências. Até São Sebastião morto a flechadas não se destaca tanto. Assisti uma imagem deste santificado no quartel do comando-geral da Policia Militar, instalado na Praça da Polícia.

Imagem de S. Jorge no acervo do
Palacete Provincial
São Jorge nunca obteve o patronato daquele corpo policial, porém, a maioria dos policiais o tratavam com essa nobreza. Tanto que o nicho que abrigava a imagem sempre esteve ornado com velas, fitas, cédulas e outros pedidos e oferendas. A imagem foi ofertada ao quartel por volta de 1955, e foi mantido no oratório até quando da entrega da edificação à Secretaria de Cultura, no início do século.

A fim de ilustrar a data e marcar a presença da efígie de São Jorge na PMAM, vou relembrar dois episódios hilariantes:

Em certa data, quase ao final do meu serviço ativo, combinei com o padre capelão o restauro da imagem do santificado. Para a realização do serviço, autorizado pelo chefe do Estado-Maior, retiramos a peça do quartel pelas dependências do Museu Tiradentes, portanto, sem passar pelo portão principal. Dias depois, o coronel comandante Mael Sá, ao chegar ao quartel, assustou-se ao subir a escada porque, olhando na direção do oratório, não viu o santo. Convocou o sargento comandante da guarda, responsável pela entrada e saída do aquartelamento, e o interrogou pela imagem. O sargento mais assustado ainda confessou ignorar. O comandante decidiu, recriminando a guarnição que não viu “o santo montado a cavalo, açoitando um dragão, fugir do quartel”, o expediente somente será encerrado com a notícia do santo. O incidente resultou um corre-corre espantoso, até que os “caçadores” chegaram a mim, que expliquei a “fuga”.

Outra recordação do Dia de São Jorge foi a devoção que o tenente Silvestre Torres lhe dispensava. O fato ocorria sempre que este oficial orientava o pessoal de serviço do trânsito, no longínquo biênio 1982/83. Antes de dispensar a turma, diante do oratório, Torres entoava uma oração bem estapafúrdia, mais ou menos nessa direção:

Meu São Jorge, / fazei que eu tire um bom serviço / possa bem orientar o trânsito / zelar pela dignidade da polícia / atender as orientações de meus superiores / e... adiante, que os soldados perfilados repetiam. E seguiam-se tantas baboseiras até a finalíssima,  quando o oficial em tom de voz mais destacado bradava: Fazei com que eu não pegue propinaEssa jaculatória nenhum policial repetia.

Em nossos dias, no comando-geral da PMAM existe o Oratório Policial Militar; seria oportuno que a imagem de São Jorge fosse acolhida nesse sítio religioso. Atualmente a imagem encontra-se no restauro do Palacete Provincial, sem qualquer destaque. No Oratório, todavia, a religião católica e as evangélicas se topam, daí o impasse para o retorno do Santo do Dia.

Salve Jorge!  

quarta-feira, abril 22, 2026

BAIRRO DE SÃO LÁZARO (1973)

Trata-se de recordação pouco significativa sobre este bairro, estampada há mais de 50 anos no jornal A Crítica, à época em que apenas se conhecia a situação da cidade através da imprensa. O São Lázaro evoluiu, obviamente, mas em nossos dias as informações em todos os sentidos circulam pela Internet em seus variados aplicativos.


Parece um bairro esquecido. Os moradores relembram os bons tempos em que os ônibus percorriam a rua principal, São Vicente, facilitando a comunicação com os demais pontos da cidade. Hoje, tudo é diferente. A Rua São Vicente está abandonada e os buracos aparecem com frequência transformando certos trechos em verdadeiras crateras. Esta é a realidade do Bairro de São Lázaro.

A Crítica, 8 maio 1973


DRAMA COTIDIANO

Para quem mora em São Lázaro, chegar ao emprego, é um verdadeiro drama. O indivíduo tem que caminhar por muito tempo enfrentando buracos e lama até atingir a Estrada do Contorno, onde pode apanhar a condução. Geralmente o coletivo demora a passar e quem mora no bairro chega sempre atrasado ao trabalho.

Em certos trechos como nas proximidades do Sítio “São Jorge”, a erosão pluvial formou uma verdadeira cratera e a tubulação de água colocada pela Cosama, através da SIT, está exposta apesar de ter sido instalada a mais de dois metros de profundidade.

São casos assim que desanimam os moradores do bairro. Os poucos veículos que enfrentam a buraqueira passam maus momentos, principalmente na entrada da Travessa São Vicente. E todos sonham com o asfalto, solução final para um bairro populoso.

Ónibus não aparecem desde novembro do ano passado, quando o senhor Cassiano Assunção, proprietário da Empresa “Ana Cássia”, resolveu retirar a linha de coletivos que serve o bairro pela condição quase intransitável da rua.Da parada costumeira o ônibus foi se afastando para as proximidades da Subdelegacia e finalmente para a Estrada do Contorno.

 Alguns moradores já recorreram ao Departamento Rodoviário Municipal, solicitando algumas carradas de terra nos trechos mais atingidos. E já houve um plano para que os próprios moradores consertassem alguns trechos, desde que houvesse disposição de algumas carradas de terra. A senhora Nadir Rosa de Lima, moradora da casa 144, na Rua São Vicente, diz que o bairro é bom. — O maior problema são os buracos.

ASFALTO EM JULHO

O senhor Cleber Mendes Faneco, presidente do diretório da Arena, do Bairro de São Lázaro, ouviu as reclamações dos moradores e depois de verificar o verdadeiro estado da principal artéria solicitou providências ao prefeito Frank Abrahim Lima. O ofício resposta datado de 3 de maio, ontem já estava nas mãos do presidente do Diretório. Nele, o prefeito Frank Lima estabelece o asfaltamento da Rua São Vicente para o segundo semestre deste ano.

Este é o texto: "Está dentro de nossa programação para o segundo semestre deste ano, o asfaltamento da Rua São Vicente. Não poderia de maneira nenhuma esquecer esse bairro tão simpático no qual tive a felicidade de fazer bons amigos. Deverei até o final deste, fazer uma visita oficial aos bairros, para comunicar o início dos trabalhos, estando o amigo autorizado a dar ciência aos nossos companheiros". Frank Lima.

 

segunda-feira, abril 20, 2026

MEUS OITENTANOS (2)

No início dos anos 1950, a travessia entre Manaus e a então Capital Federal, Rio de Janeiro, era uma epopeia de vinte a trinta dias. Aos três anos, o convés imenso do navio Almirante Alexandrino se abria diante de mim como um parque encantado, cheio de redes penduradas, embora sempre vigiado pelo olhar atento de Luzia, nossa babá, já que minha mãe, Francisca, dedicava seus cuidados ao meu irmão mais novo, auxiliada pela sogra, a vovó Victoria. O espaço físico era vasto, mas o que se gravou em minha memória foi o aroma da comida — tão diferente do que se servia em nossa casa — e o espetáculo dos portos em construção no Nordeste. Em alguns trechos, animais marinhos escoltavam o navio, como se fossem guardiões de Netuno, atraídos pelos restos de alimento lançados ao mar.

Foto da família informando 
a viagem ao Rio - 1950 -
Roberto, em pé, diante do genitor

A longa jornada trouxe também o inesperado: Luzia encontrou no navio o seu par. O namoro com um tripulante floresceu durante a viagem e, ao desembarcar, se transformaria em compromisso de casamento. Resolveram fixar residência na então Capital Federal. Porém, deduzo que esse relacionamento contribuiu para melhorar a situação de acomodação da família na embarcação, pois viajávamos em terceira classe.

Em meados de abril de 1950, finalmente desembarcamos. O tio Francisco, irmão de meu pai, nos acolheu em Irajá, num puxadinho contíguo à sua casa na rua Cláudio da Costa. Mas o modelo e a estrutura familiar ali encontrados pouco favoreceram nossa convivência; ao contrário, trouxeram desencontros, como relato em meu livro Entre Duas Viagens, escrito em 2016, para prestar homenagem póstuma ao centenário de meu pai, Manuel “peruano”.

O bairro de Irajá, com suas ruas sem asfalto e esgoto a céu aberto, parecia um “fim de mundo”. O escritor amazonense Hilton Rego descreveu bem essa precariedade em seu livro, Com a Cara e a Coragem: os bondes e lotações circulando, o Maria-Fumaça arrastando-se pela avenida Automóvel Clube, enquanto meninos jogavam bola entre os trilhos. Essas imagens resgatam a memória da inospitalidade que vivemos: a casa improvisada, a ausência de escola, a rotina extenuante de meu pai, que trabalhava nos arredores do Maracanã sem jamais ter tempo de entrar em seu interior.

Cartão Postal do Maracanã - 1950

Em janeiro do ano seguinte, retornamos acompanhados, como na vinda, da avó paterna Victoria Malafaya, de quem o filho era extremamente apegado. Por coincidência, foi no mesmo navio, mas sem Luzia. Na caravana, embarcava uma nova vida: a gestação de Dona Francisca. Voltamos ao bairro dos Educandos, à rua Inácio Guimarães, novamente na esquina com o beco São José, em uma casa de madeira com a frente reservada para uma taberna. Ali, assistimos à construção do Cine Vitória, inaugurado apenas em 1954. Nesse contexto de readaptação nasceu Pedro Renato, batizado pelo santo do dia, São Pedro, em junho de 1951.

Até hoje não sei dizer como a sombra de uma enfermidade tão grave se abateu sobre minha mãe. Apenas guardo na memória sua convalescença, os dias em que a acompanhei ao paraná do Cambixe, no distrito do Careiro — seu berço de nascimento —, onde parentes a acolheram como quem recolhe uma ave ferida. Era uma busca por ar mais puro, remédios fitoterápicos e uma esperança de que o alento da floresta pudesse devolver-lhe o vigor. Para mim, porém, aqueles deslocamentos eram também ensejos para travessuras de infância: corria com os primos pelos quintais das casas suspensas em pilotis, como se fossem píeres habitados à espera da cheia do Solimões.

No nosso bairro, o esteio que sustentava nossa família vinha da solidariedade da tia Raimunda e, em especial, de suas filhas, já quase moças. Meu pai, responsável e firme, dedicava-se ao labor diário, arrancando do seu emprego o “pão nosso de cada dia”.

O ano de 1952 trouxe consigo o agravamento da doença de minha mãe. Entre desvios e incertezas, creio ter iniciado o curso primário, embora a lembrança da primeira escola tenha se dissolvido com o tempo. Restam, contudo, três cenários que ainda se iluminam em minha memória: o Grupo Escolar Machado de Assis, público e resistente — perdura até os dias de hoje —, na rua Amâncio de Miranda; a Escola Paroquial do cônego Antônio Plácido, destinada aos meninos e regida pelo zelo do vigário; e a Escola Particular da dona Ester, discreta e determinada, instalada em sua própria casa na avenida Leopoldo Peres. Cada uma dessas instituições foi como um pequeno aporte para um grande projeto pedagógico que me habilitou, em 1956, ao internato do Seminário São José.

A última lembrança que guardo de minha mãe é a de um corpo exausto, franzino, suspenso na fragilidade de uma rede, como se o próprio tecido fosse o divisor entre a vida frágil e o chão que iria recebê-la. O ar lhe faltava, e ao redor, parentes e vizinhos cumpriam o ritual antigo de “fazer quarto”, velando em silêncio a despedida iminente. Era início da noite de 17 de julho, e eu, menino de seis anos, fui conduzido até ela. Segurei sua mão macilenta, fria como a bruma da madrugada, e beijei-a, pedindo sua bênção. Mas sua voz já não alcançava o sopro divino: o “Deus te abençoe” ficou suspenso no vazio, como uma prece interrompida.

Naquela idade, não havia espaço para compreender a gravidade da doença, nem a dimensão da perda. A morte era apenas um enigma, uma ausência que se instalava sem explicação, inexoravelmente. Por décadas, carreguei esse silêncio, sem buscar respostas, até que, já adulto, censurei minha própria consciência: por que nunca procurei no cartório a certidão de óbito de minha mãe? Talvez porque, em mim, a ferida sempre foi maior do que qualquer documento poderia traduzir. Nem poderia trazê-la de volta. (segue)

 

domingo, abril 19, 2026

POESIA DOMINICAL

 

Circulado no vespertino A Tarde, 22 maio 1960

 

PAISAGEM

 

Mavignier de Castro

 

Baixa a tarde diluindo lentamente

ametistas, topázios e turquesas

sobre o debrum flumíneo da Amazônia.

Aí vem a noite com a sua visitação de escuros e silêncios.

Paisagem de quatro dimensões murchando vesperalmente

num sono antigo de lianas e raízes.

Cerra-se, úmido, o verde dos olhos dos lagos

e forma um só veludo com as árvores, os barrancos e os igapós.

Céleres gaivotas esparsas vão confundindo

as asas como aspas solitárias

gizando as solidões fluviais que fogem.

 

Debruça-se o crepúsculo sobre as águas,

a tarde quieta veste-se de sombras nas alturas,

e os homens vão recolhendo à mansuetude dos casebres

as almas cheias, maduras e leves

e a certeza intemporal de uma Presença

na fácil perfeição de todas as coisas.


quarta-feira, abril 15, 2026

RECORDAÇÃO CONJUGAL

 A postagem é de autoria do Renato Mendonça, meu irmão, que se tornou viúvo há quatro meses, no final de 2025. Seu texto relembra a “dor da ruptura”, depois de longo período de vida conjugal bem vivida.

  Cama Vazia 

 

Izabel Tereza

Quatro meses se passaram desde que a ausência e uma perda se instalaram em minha vida, e ainda hoje não consigo me desvencilhar de uma vigília silenciosa de tristeza que habita meu coração. A dor nasce de uma ruptura resignada, mas jamais assimilada em meu peito: meio século de convivência interrompido.

Izabel Tereza — a minha Bela — partiu no final do ano passado, atravessando o limiar para sua vida espiritual. Tento me consolar com a certeza de que deixou de sofrer, após sete longos anos acamada. Mas a lembrança doce e pungente de minha missão de cuidador — e por vezes, técnico de enfermagem — insiste em permanecer: o zelo diário, as tentativas de preservar sua vitalidade, o esforço em manter sua presença saudável entre nós.

Foram anos de aprendizado e de silêncio, em que sua mente já não podia traduzir dores ou dilemas. Eu, por vezes, também precisei recorrer ao socorro médico para sustentar meu próprio equilíbrio físico e espiritual. Ainda assim, o que me ampara agora são as memórias luminosas da nossa vida conjugal.

Conheci a Bela em uma loja de discos, onde cada encontro parecia ter trilha sonora. Roberta Flack embalava nossos sonhos pequenos, mas promissores — Killing Me Softly era a canção que nos unia em promessa e ternura. Depois veio o casamento, simples e exuberante em alegria, em Barra Mansa, cercado de família e esperança. Vieram os filhos — Marcelo, Patrícia e Fernando — e com eles a alegria das peraltices e dos rostos angelicais. Todos eles me encantaram e pude me aconchegar nos seus mimos infantis.

Izabel foi o coração pulsante da nossa casa. Mãe, tutora, diretora da escola invisível da vida, dedicou-se inteira à educação dos filhos, enquanto eu me ausentava para atender à demanda do trabalho. Em cada cidade que nos recebeu e acolheu — Santos, São José dos Campos, Natal, Barra Mansa, Niterói — reinventamos juntos o lar, criando novas coreografias para o cotidiano.

A cama vazia é ausência, mas também altar de penitência. Nela repousa, para sempre, o amor que nos sustentou. É nela que se fixa o meu olhar sobre um passado feliz e glorioso. É ela que devolve os melhores instantes da vida conjugal: doce é navegar nesse mar de lembranças. Recordo os dias e noites das festas natalinas em Vila Maria, na vibrante Barra Mansa, desfrutando o aconchego de um modesto chalé à Rua Antônio Graciano da Rocha. Crianças e adolescentes, hoje adultos, se deliciavam com os presentes trocados; os mais criativos entre os adultos se revezavam em encenações amadoras, imitando Elvis, Magal ou os Mamonas Assassinas. Todas essas alegorias ganhavam ritmo com a música ao vivo, protagoniza pelos talentosos rapazes de outrora — uma verdadeira celebração que reunia a grande família e os vizinhos, sempre prontos a se convidar para assistir aos espetáculos de afeto. Era ela quem congregava todos, com seu carisma singular e sua humanidade transparente.  

Hoje, às vésperas dos meus setenta e cinco anos, procuro recompor a vida em territórios distintos. No quarto, a cama hospitalar ainda repousa como testemunha silenciosa dos últimos sete anos de sua luta obstinada pela sobrevivência. É diante dela que recolho minhas orações, em murmúrio contido, tentando remover a pedra do sepulcro para reencontrar sua presença. Sei que é delírio, sei que é impossível. Mas me recuso a deixá-la morrer dentro de mim.

13.04.2026

segunda-feira, abril 13, 2026

MAIS IDOSOS DA PMAM

Ao planejar a festa para comemorar meus 80 anos, que acontece no mês das fogueiras, surgiu-me uma indagação: quem são os colegas da briosa – ainda em vida - que celebram comigo o Jubileu de Carvalho? E quem encontra-se mais à minha frente em idade? Ao final das contas, fiquei matutando: quem hoje é o oficial “matusalém” da Polícia Militar?

Raimundo Gutemberg - coronel veterano

Vamos à relação, apontando o ano e mês (de alguns) de nascimento:


1946
Osório Fonseca Neto – fevereiro
Manoel Roberto Lima Mendonça – junho
Wilde de Azevedo Bentes – junho
Ruy Freire de Carvalho – agosto
Romeu Pimenta de Medeiros Filho – setembro
Raimundo Jorge Guimarães Macedo –
Fred Jobim –
Silvestre Torres de Araújo – dezembro 
1945
Deusamar Assis Nogueira –
Francisco Orleilson Guimarães –
Homero Leite de Almeida –
João Ewerton do Amaral Sobrinho –
1944
Raimundo Gutemberg Soares – março (foto)
Carlos Alberto de Salles –
Luís Fernandes da Rocha –
Antonio Pereira Santarém – setembro
José Osmar de Andrade –
1943
Edmilson da Silva Nascimento –
Edson da Silva Nascimento –
José Cabral Jafra – outubro
1942
Antonio Guedes Brandão –
Carlos Alberto de Souza Fialho – julho
1941
Osias Lopes da Silva –
1940
Edval Correa da Fonseca –
1939
Pedro Rodrigues Lustosa – junho
Hélcio Rodrigues Motta – agosto
1936
Jarbas Rocha da Costa –

quinta-feira, abril 09, 2026

MISOGINIA E FEMINICÍDIO

Renato Mendonça

 

Casos recentes de violência contra mulheres têm exposto, como feridas abertas, a dimensão da misoginia que atravessa o país. Entre os episódios mais marcantes está o feminicídio da policial militar Juliana Lopes, em São Paulo — assassinada pelo próprio companheiro, um tenente-coronel da corporação, que nem vale a pena citar seu nome. O crime, brutal em sua essência, chocou a opinião pública e reacendeu o debate sobre a violência de gênero, revelando que até instituições que deveriam proteger a vida podem abrigar a sombra da opressão e da falta de ética humana.

Família do autor em Santos (SP), 1990

Outro episódio que ganhou repercussão nacional foi o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro. A barbárie, além de física, se prolonga no espaço virtual: vídeos no TikTok simulando ataques a mulheres que rejeitam relacionamentos circulam como ecos de um ódio que se multiplica. São sombras projetadas em telas, alimentando a cultura do feminicídio e reforçando padrões de desprezo que transformam o corpo feminino em território de violência.

Pesquisas acadêmicas revelam a profundidade desse abismo. A Fundação Getúlio Vargas identificou 85 comunidades virtuais com conteúdo misógino explícito ou disfarçado. A Universidade Federal do Rio de Janeiro mapeou mais de 130 mil canais no YouTube propagando discursos de ódio contra mulheres. Esses espaços, travestidos de fóruns de autoajuda ou fitness, funcionam como cavernas obscuras — ambientes hospedeiros de radicalização machista, onde adolescentes são seduzidos pelos fantasmas da superioridade masculina.

O psicólogo social Benedito Medrado Dantas sugere que a intensificação do ódio seria reação à emancipação feminina. A explicação, contudo, soa incongruente: nas cidades, a autonomia da mulher já se consolidava há décadas, sem que se visse tamanha violência. Outros analistas apontam fatores mais concretos — como a liberação e facilidade para compra de armas, principalmente no governo anterior — que ampliam a sensação de poder entre grupos misóginos. Armas, nesse contexto, tornam-se prolongamentos da misoginia, instrumentos que transformam o ódio em morte.

Em comum, há o reconhecimento de que se trata de um problema estrutural, atravessando diferentes camadas sociais. Organizações de defesa dos direitos das mulheres, respaldadas por grupos sociais humanísticos, defendem medidas legais e severas contra lideranças desses grupos e maior regulação das plataformas digitais — as big techs que, invariavelmente, lucram com a disseminação do ódio. A tipificação da misoginia como crime é apontada como passo necessário — e extremamente urgente —, ao lado de políticas públicas de prevenção e campanhas de conscientização.

Enquanto isso, cresce a preocupação com a adesão de jovens às comunidades virtuais que promovem a superioridade masculina. Sem resposta firme do Estado e das empresas de tecnologia, o país continuará a assistir à expansão de uma cultura que legitima a violência contra mulheres — uma cultura que transforma sombras em realidade, discursos em sangue feminino.

No tempo de nossos avós, práticas como essas eram inconcebíveis. O criminoso tornava-se pária, rejeitado até pelos familiares. Hoje, a mídia muitas vezes tenta normalizar feminicídios, buscando culpados externos à própria índole do homem. O que se vê é uma degradação da condição humana, um esvaziamento da ética e da empatia.

A misoginia é um vírus endêmico que se espalha silencioso. O feminicídio, sua patologia social mais cruel; é a prova de que não basta denunciar: é preciso extirpar o mal, expor os sintomas e substituí-los pela luz da equidade. Cada mulher assassinada é uma biblioteca incendiada, uma história interrompida, uma esperança que se perde e uma geração de vida que se esvai.

 Enquanto a sociedade não se levantar contra essa cultura nefasta, continuará a viver entre cinzas, silêncios e obscurantismo.

sábado, abril 04, 2026

MALHAÇÃO DO JUDAS

 Esta prática me fez recordar talvez a única em que colaborei com os colegas vizinhos para expor o boneco em minha casa, que possuía uma varanda no alto, portanto bem visível e protegido. Meu genitor não permitiu, acabando com  o festejo no início. As considerações abaixo pertence ao colaborador Renato Mendonça.

Foto do jornal O São Gonçalo (RJ)

A malhação do Judas já foi — sobretudo nas cidades metropolitanas da região Sudeste — uma das mais celebradas tradições populares da era cristã. Em alguns estados do Norte e Nordeste, o ritual ainda permanece vivo, como chama que resiste ao vento do tempo e da indiferença. Possivelmente trazida pelos colonizadores, a prática acontecia nas primeiras horas do Sábado de Aleluia, simbolizando a execração de Judas Iscariotes — o traidor que vendeu Jesus Cristo por trinta moedas, conforme narra o Novo Testamento.

Recordo com saudade os bonecos de pano — de tamanho humano, recheados de palha ou de roupas velhas — que se tornavam a efígie da traição. Muitas vezes, não representavam apenas Judas, mas também figuras públicas impopulares, vizinhos indesejáveis ou personagens da comunidade que, inevitavelmente, eram surrados e queimados. Preparados na noite silenciosa da Sexta-feira Santa, surgiam pendurados em postes ou árvores, à espera da multidão de adolescentes e meninos que os malharia ao amanhecer.

Alguns traziam testamentos bem-humorados — sátiras afiadas, críticas sociais, mensagens à comunidade. Eram bilhetes que explicavam quem o boneco representava, transformando o ritual em catarse coletiva: expiação das indignações acumuladas ao longo do ano. Ali se misturavam motivações religiosas e sociais, fé e protesto, devoção e humor.

Para as crianças, era festa e rito ao mesmo tempo — o fim da Quaresma, a chegada da Páscoa, e, sobretudo, a expectativa pelos presentes de chocolate. Para os adultos, era também um exercício de crítica, uma forma de dar corpo às frustrações e queimá-las junto ao boneco.

Apesar de sua forte ligação com o catolicismo, a malhação do Judas revela a capacidade do povo de ressignificar tradições — mesclando elementos sagrados com o riso, a sátira e a denúncia. Hoje, porém, a prática é alvo de críticas: alguns a consideram retrógrada. Ainda assim, permanece como expressão viva da cultura popular brasileira, celebrando a renovação da fé e o renascimento pascal, ao mesmo tempo em que nos convida a refletir sobre as injustiças que atravessam a sociedade.

O simples ato de recordar a passagem bíblica já é, em si, uma vitória contra o esquecimento em tempos de crescente ateísmo. O rito carrega valor cultural profundo: é a forma como o povo expressa indignação, personifica a traição e a injustiça, e as expurga fisicamente na figura de Judas. Se quiséssemos ampliar o sentido da celebração, poderíamos escalar tantos outros “judas” do mundo político — os corruptos e os traidores da pátria, principalmente — e malhá-los nas urnas, como quem transforma o voto em instrumento de purificação.

Nos tempos modernos, em meio às influências globais que nos atravessam, manter práticas como essa é preservar raízes e bom senso. A malhação de Judas pode ser também metáfora universal: execrar os “judas internacionais”, os traidores da humanidade, que se multiplicam em diferentes formas e em diversos países. Sem ideologias ou fundamentalismos, cabe a nós escolher quais sombras nefastas precisamos abolir de nossas mentes e corações.

Assim, cada boneco queimado é mais do que um espantalho de pano: é a imagem daquilo que precisamos deixar para trás. É a sombra da caverna de Platão que se dissolve no fogo, abrindo caminho para a luz da Páscoa — a vitória da vida sobre a morte, da esperança sobre a desesperança. A vitória da Justiça e da Fé!

sexta-feira, abril 03, 2026

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO - 2026

 A liturgia da Igreja neste Dia se baseia em reverência, em reflexão acerca do sacrifício de Jesus. Daí o texto de Renato Mendonça, que fundamento seus conhecimentos religiosos e expõe sua visão sobre a Sexta-Feira Santa.

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Sant'Ana - internet

A Santa Ceia - 03.04.2026

Antes da sua derradeira Festa da Páscoa, Jesus reuniu seus discípulos para uma confraternização. Apesar de toda a dificuldade de logística, arranjaram-lhe um lugar onde pudesse reunir a todos e encaminhar seus extremos ensinamentos neste dia característico; e foram, talvez, os mais emblemáticos para o futuro de seus discípulos, transformando-se num paradigma para suas pregações.

A Santa Ceia e o tríduo pascal nos remetem a profundas meditações e nos convidam a uma autópsia espiritual de nós mesmos, para avaliarmos se todos os símbolos gerados nestes dias estão arraigados em nossos corações; se suas lições foram assimiladas.

Jesus usou coisas básicas da alimentação, o histórico pão que nutre o corpo desde os primórdios, desde o Antigo Testamento, quando serviu de maná no deserto e salvou o povo hebreu enquanto se conduzia para a Terra Prometida. Abstraímos também dessa passagem antiga, a mensagem a um povo que busca salvação. — Isto é o meu corpo, que será dado em favor de vós; façam isso para celebrar a minha memória. (Lucas 22:19-20).

O vinho representa o sangue e serve para saciar a sede; a sede de justiça, e o resultado da luta em favor dos mais fracos e oprimidos. Tem sua relação também com o sacrifício, como era o dos animais citados na Bíblia. Agora, o sacrificado é o Cordeiro de Deus, o símbolo máximo da resignação — Pai, afasta de mim esse cálice, mas não seja feita a minha vontade, senão a Vossa. (Mateus 26:39) —, mas também, fé e esperança. — Eu sou o Pão vivo que desceu dos céus, quem come da minha carne e bebe do meu sangue terá vida eterna. (João 6:51).

Além desses emblemas latentes, há os gestos divinos de Jesus, carregados de amor e doação total. O Mestre tirou o manto, derramou água numa bacia e cingiu-se com uma toalha; agacha-se e se curva para lavar os pés dos seus discípulos. Um gesto que denota ao mesmo tempo nobreza e humildade, aquilo que devemos praticar no nosso relacionamento humano. Ele quer nos ensinar que, quando for oportuno, precisamos servir ao próximo, um amor incondicional, independente de reconhecimento ou de recompensa. — "Também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para fazerdes assim como eu fiz para vós.” (João 13:12-14). É curioso observarmos que Pedro estranhou esse gesto de Jesus: “Senhor, tu vais lavar-me os pés?” E Cristo, com toda sobriedade e sabedoria, contestou: “Agora não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás.”

A estranheza do apóstolo era porque fugia aos padrões praticados pelos judeus; era costume oferecer água para lavar o rosto e pedir para um escravo lavar os pés do hóspede. Pedro apenas pensou na lógica comum: o menor serve o maior; o servo, o Mestre. Mas, Jesus justifica a atitude: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. Com esse rito do “lava-pés” contemplamos o gesto divino e humano de Jesus, um gesto carregado de amor em que o evangelista João descreve a mais rica interpretação teológica.

Outro princípio divino, humano e fraterno que podemos apreender sublimemente desse encontro de Jesus com os discípulos é o “repartir o pão”. O gesto carrega em síntese o que já fora praticado tantas vezes na sua vida eucarística. Como por exemplo, quando distribuiu pães e peixes a uma multidão faminta que ouvia sua pregação, também num período que antecedia a Pascoa. (João 6:1-15). A atitude simboliza o sentimento de solidariedade, de fraternidade e de igualdade. Quer nos mostrar que somos iguais aos olhos do Senhor, sem discriminação. Observe que Jesus, mesmo conhecendo a intenção de Judas Iscariotes, de entregá-lo às autoridades romanas, não o segregou dos seus discípulos. E ainda proferiu a célebre lição de vida: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. E como Jesus amou! Na Santa Ceia, nosso grande Mestre sela uma divina e eterna Aliança, sintetizada naquela singular celebração, para se perpetuar na História.

E o pão a ser partido é o Pão da Vida!

Renato Mendonça