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segunda-feira, setembro 21, 2026

MEUS OITENTANOS (18)

 FASCÍCULO 18

Em agosto, durante a pausa escolar aproveitei para visitar Curitiba, onde se encontrava minha companheira; entretanto, meu plano era chegar de automóvel em Puerto Stroessner, hoje Ciudad del Este, para o que convidei ao colega equatoriano Fiallos. No caminho, ao passar por São José dos Campos, parei para abraçar meu irmão Renato que, de forma gentil, permaneceu com meu carro, enquanto eu trocava de veículo com ele. Ao deixar Curitiba, CVC se engajou ao grupo, e assim seguimos para Foz do Iguaçu. Ali, ao organizar a visita à cidade paraguaia, fui alertado sobre alguns possíveis contratempos no outro lado: o carro não estava em meu nome; algum nativo poderia encenar um atropelamento, ocasionando um enorme dissabor. Diante dos riscos, aboli a ideia do Paraguai, mas meu colega optou por tomar um ônibus e partiu. Com a amada, dirigi-me para Floripa, pernoitando em Curitibanos e outros locais aconchegantes. No retorno, a CVC desembarcou em Curitiba, e retomei a viagem, parando em São José dos Campos; como não mais possuía disposição para dirigir, deixei meu carro com o Renato, e embarquei em ônibus interurbano para o Rio.

Alunos em sala de aula

No feriado da Proclamação da República, viajei para Porto Alegre, onde fui acolhido pelos amazonenses, alunos do curso de formação de oficiais. Foi minha primeira visita ao estado do Sul; além dos conterrâneos que me mostraram a cidade, recebi a hospitalidade da família do Dario e esposa, casal gaúcho que administrou o Armazém Reembolsável (uma espécie de supermercado) na PM, em Manaus. O casal me levou a Gramado e locais turísticos próximos; ao passar pela fazenda deles, refestelei-me com um café colonial – típico da região. Já os alunos me conduziram a uma churrascaria perto da escola militar e logo me advertiram sobre os petiscos de entrada: “Esqueça a sopa, vamos direto à carne!” Somente no avião de retorno, lembrei das apostilas para estudar, mas, quem disse? Por essa razão, não obtive pontos suficientes nas provas finais para uma melhor colocação.  

Dia da formatura

O encerramento do curso ocorreu em 23 de novembro e, dia 30, a formatura com a entrega dos certificados – o prejuízo causado pela viagem a Porto Alegre me deixou com a menção “Bem”, nota acima de oito. Não mais o último! Para mais contentamento, recebi a visita da Maria Olinda – amizade manauara, que seguiu comigo para Santos, onde ocorreu o desfecho da festa e do ano. Ao passar por São Paulo, visitei Campos do Jordão, onde adquiri uma muda de pinheiro de Natal, e gracejei com a vendedora: “em Manaus, vou plantar o pinheiro em um freezer”. Plantei-o na residência do Morro, onde floresceu bastante, mas foi extirpado pelo novo morador.

Certificado de conclusão

O mês de dezembro foi dedicado ao relaxamento; afinal cheguei a Santos, onde com a família festejamos de forma contida o Natal, porque as bagagens já estavam sendo acomodadas para o retorno a Manaus. Usei meu carro – a Brasília dourada – até onde pude; como ela estivesse coberta por seguro total, cheguei a desejar que fosse furtada para receber a indenização; por isso, em qualquer lugar que frequentava costumava deixa-la destravada. Todavia, nada aconteceu. Restou-me, ao concluir o curso, me desfazer da minha Brasília dourada, e assim fiz com o primo Francisco “Cote”. Com os recursos obtidos, comprei um Chevrolet Chevette azul, seminovo, com o qual retornei para Manaus, passando por Cuiabá, pela BR 319, aberta em 1976. Após celebrarmos o Natal de 1979, ao lado dos irmãos Luiz e Jorge, que me auxiliaram durante a viagem como motoristas e mecânicos, partimos rumo à capital amazonense.

O trajeto planejado era alcançar Cuiabá pela BR 364 e, no prosseguimento, chegar a Porto Velho, e da capital de Porto Velho para Manaus pela BR 319. A primeira etapa saiu maravilhosa pois, rodando à noite, assistimos o céu iluminado por estrelas, espetáculo quase inédito para mim; foi uma dádiva da natureza. Em Cuiabá, aproveitei para abraçar o major Benedito Ferreira, colega do CTE, que me orientou na cidade; no entanto, fui informado que, sem asfaltamento, a rodovia em direção ao Norte não era recomendável para automóveis pequenos, o meu Chevette. A solução foi entregar o transporte a um caminhão comum o veículo totalmente repleto de tralhas, as minhas escolares e as ferramentas dos manos, além de alguns objetos da mudança. Foi um “seja o que Deus quiser!” Feito isso, tomamos o avião e desembarcamos em Porto Velho, onde busquei o “primeiro sogro” para mais uma vez me apoiar, e recomendar a recepção do carro em viagem. E veio a derradeira etapa para alcançar a capital do Amazonas: era véspera de Ano Novo, na rodoviária comprei três passagens, e logo o funcionário me orientou: somente há dois lugares, mas vocês fazem um rodízio. A saída do ônibus ocorreu no começo da noite; no interior do veículo, para nossa surpresa, deparamos com a fila de viajantes de pé, os “sem lugares”.

Seguimos, pois não havia alternativa; a viagem transformou-se numa celebração, havia uma conversa espontânea entre os passageiros, que cediam os assentos e compartilhavam parte das marmitas com merenda; além disso, a paisagem da estrada permitia ocasionalmente avistar um animal silvestre atravessando a pista. Ninguém dormiu, porque, para atravessar cada ponte, era preciso que todos saíssem do ônibus. No início da manhã, o ônibus parou à margem do rio Solimões, no Careiro da Várzea, aguardando que a balsa se posicionasse para atravessar o rio e, contornando o Encontro das Águas, alcançar o porto da Ceasa. Em seguida, voltamos ao veículo e, finalmente, chegamos à Rodoviária de Manaus. Desse modo, parte da família fez o caminho de volta, por decisão imposta do velho Manuel. O restante da família chegou de avião e ocupamos a casa do Conjunto Tiradentes – rua das Orquídeas, 31, recebida por procuração. Foi assim que – aos 34 anos – adentrei o ano de 1980.