CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

Mostrando postagens com marcador Elson Farias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Elson Farias. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, julho 01, 2024

CLUBE DA MADRUGADA: 70 ANOS

 A celebração será em novembro, porém vou lembrando no percurso. Lembrando que dos três entes criados então (início dos 1950), somente a Rádio Rio Mar segue funcionando. Além do Madrugada, o CIEC do Orígenes Martins também "fechou as portas". A fotografia aqui compartilhada pertenceu ao saudoso Moacir Andrade, membro dos primeiros dias do Clube, que efetuou a legenda, porém, sem datação.

Maciel, Moacir Andrade, L. Ruas, Alexandre Oto, Evangelista,
(dois não identificados) e Elson Farias

sábado, julho 01, 2023

SILOGEU AMAZONENSE HOMENAGEIA ANÍSIO MELLO

 Na manhã deste Sábado a Academia Amazonense de Letras prestou uma homenagem ao saudoso acadêmico Anísio Mello (1927-2010), com o lançamento do seu livro póstumo:: Estrela Viva. A apresentação foi escrita pelo sócio Zemaria Pinto, todavia, como este estivesse impossibilitado de comparecer, foi lida pelo ex-presidente da Casa Elson Farias, e abaixo vai reproduzida. Minha participação neste livro registro na próxima postagem.



Sobre Anísio Mello,

por ocasião do lançamento de Estrela Viva

Zemaria Pinto,

Cadeira 27, de Tavares Bastos

Como não poderia deixar de ser, começo agradecendo a oportunidade de homenagear o amigo Anísio Mello, no 13° ano de seu desenlace, fortalecendo a ideia de que a imortalidade acadêmica é a permanente relembrança.

Por isto estamos aqui, nesta ensolarada manhã de sábado (espero não errar na previsão do tempo), relembrando o artista múltiplo, o multiartista Anísio – pintor, escultor, músico, compositor, que, como escritor destaca-se em diversas frentes: ensaio, ficção, folclore, poesia e até um precioso Vocabulário etimológico tupi do folclore amazônico, onde dá continuidade a um trabalho iniciado por seu pai, Octaviano Mello. E, pasmem, Anísio era um inventor de mão cheia...

Luiz Bacellar, que quanto mais velho mais menino ficava, dizia que Anísio, com quem vivia arengando, era a reencarnação de Leonardo da Vinci. Aí mostrava uma reprodução da “Mona Lisa” e, ecoando uma teoria da época, dizia: “vamos tirar a barba do Anísio e ver se ele é ou não o Da Vinci”. Um estudo da época dizia que Leonardo retratara a si mesmo na “Mona Lisa”. Anísio fazia cara amuada e replicava: “este fim de semana não tem café nem jornal...” Era um hábito que os amigos cultivavam no domingo: ler os jornais juntos, com um cafezinho, acompanhado de tapioca e pamonha. Tudo bancado pelo Anísio, claro.

Lembro de uma arenga dos dois que deu um trabalhão para contornar. Um cidadão francês, de passagem por Manaus, enturmou-se com os dois. Só que o Bacellar, a propósito de manter seu francês (que ele dizia “de Paris”) em dia, danou-se a conversar em francês com o novato. Como o francês do bom Anísio era “de Itacoatiara”, o tempo fechou. Os dois “trocaram de mal” e ficaram alguns fins de semana sem ler os jornais juntos...

Mas, estamos aqui para louvar a poesia de Anísio Mello, representada neste Estrela Viva, uma antologia organizada pelo próprio autor e salva dos escombros do esquecimento pelo notável trabalho do pesquisador Roberto Mendonça – que multiplicou a obra do meu querido professor L. Ruas e agora nos revela poemas de Anísio, se não inéditos, perdidos em edições esgotadas.

Chamo a atenção para a capa, que reproduz um quadro do próprio Anísio: um belíssimo exemplar de seu expressionismo abstrato – ele, que pintava desde prosaicas paisagens até quadros como este, de refinado simbolismo e múltiplas leituras.

Exímio sonetista, Anísio escrevia poemas em versos livres e rimas brancas com a mesma facilidade com que cultivava o haicai. Em outras palavras, tinha o total domínio da técnica poética, mas também tinha uma verve, um entusiasmo que passava a sua poesia, caracterizada pelo lirismo, sem pretensões a revoluções estéticas, mas construindo uma obra que encanta e encantará ainda muitas gerações, como no petrarquiano “Lembrança”, de Sexagésima Stella (p. 125):

      

Na lembrança ficaste de permeio

a momentos de amor como te vi.

Foste rosa em meu peito e com receio

a primavera augusta então vivi.

 

Nos teus lábios agora me tonteio

e na luz dos teus olhos refleti

todo um sonho feliz e agora creio

que o amor é como o beijo que senti.

 

Este amor que flutua mansamente

e incandesce a manhã tão de repente,

mais parece o delírio de um adeus.

 

Um dia partirei, quem sabe quando?

lembranças levarei sempre cantando,

com teus lábios impressos sobre os meus... 

Este – meus amigos, minhas amigas, crianças – era Anísio Mello, um homem simples, um artista completo. Aliás, este é Anísio Mello, pois ele continuará vivo em nossas lembranças...

quarta-feira, março 29, 2023

SILOGEU AMAZONENSE & ACADÊMICOS

 A Academia Amazonense de Letras possui a galeria de seus acadêmicos cinquentenários - de vida acadêmica. Compartilhado de revista da Casa de Adriano Jorge vão expostos os quatro primeiros a conquistar este laurel. Outros já conquistaram: Elson Bentes Farias (2019) e William Rodrigues (2020) e, proximamente, Newton Sabbá Guimarães (abril 2023).


 

sexta-feira, abril 03, 2020

NELSON FREIRE NO TEATRO AMAZONAS

Nelson Freire
(A Crítica, 1970)

Ao final de março de 1970, o pianista Nelson (José Pinto) Freire (1944-), nascido em Minas Gerais, já consagrado internacionalmente, veio a Manaus para inaugurar o piano de nossa Casa de Espetáculos. O acontecimento estava incluído na programação do terceiro ano de governo do Dr. Danilo Areosa. Por esse motivo, a presença da esposa do governador neste concerto.

Ao escrever este preâmbulo, lembrei-me de um texto do padre Luiz Ruas sobre este pianista. O lembrete do Ruas ocorreu em 17 de agosto de 1957, em sua coluna jornalística intitulada Ronda dos Fatos (encartada em A Crítica), quando Freire participou, aos 12 anos, do Concurso Internacional de Piano, realizado no Rio de Janeiro. Conquistou o 7º lugar, mas foi brilhante.
NELSON BRILHA NO PIANO 
E por falar em meninas prodigiosas nos vem à lembrança o menino Nelson Freire de doze anos de idade que, parece, vai conseguir um ótimo lugar, tendo sido classificado para as provas finais, no Concurso Internacional de Piano.Nas provas semifinais, Nelson foi chamado cinco vezes ao palco, sendo o que conseguiu maiores aplausos. O menino interpretou o estudo Op. 10 nº 8, Noturno Op. 27 nº 1 e Polonaise Op. 53.E segundo o júri, ”os brasileiros formam com os americanos os melhores candidatos do concurso”.
  
A notícia aqui compartilhada retirei de A Crítica, de 30 de março de 1970, portanto, são passados 50 anos.


Em entrevista exclusiva concedida a este jornal, à tarde de ontem, no Hotel Amazonas, o pianista Nelson Freire teve oportunidade de dizer que, de hoje em diante com esse piano (Steinway & Sons), Manaus passará a ser uma cidade disputadíssima pelos artistas.
Nelson Freire logo à noite estará inaugurando o belo instrumento recém-adquirido pela Fundação Cultural do Amazonas, para nosso Teatro, com um programa que Inclui Mozart, Beethoven e Chopin.
Na ocasião da entrevista o poeta Elson Farias, o engenheiro e crítico musical Nelson Porto, o jovem Malcolm Kigar, paulista, estudante de música (orquestração) em Los Angeles (California) em trânsito por Manaus e o poeta Alencar e Silva.
Nelson Freire é um artista que dispensa maiores apresentações. É um nome mundial consagrado como dos mais excepcionais virtuoses do piano. A plateia amazonense inclusive já o conhece de sua apresentação no Teatro Amazonas em 10 novembro 1967.

ENTREVISTA
Gostaríamos, Nelson Freire, que v. nos falasse das qualidades de piano que será inaugurado pelas suas mãos.  Trata-se de um ótimo instrumento. Requer por isso mesmo cuidados especiais para a sua boa conservação, principalmente contra a umidade. Doravante será um prazer vir tocar em Manaus, pois com esse piano, Manaus passará a ser uma cidade disputadíssima pelos artistas.
— Qual o seu próximo compromisso internacional? Canadá. Darei dois concertos em Montreal. Em seguida, irei a Nova York, onde gravarei 24 prelúdios de Chopin
Quais, na sua opinião, os maiores centros musicais da atualidade? Londres, Paris e Nova York

O PIANO
O ato inaugural do piano à noite de hoje se revestirá de solenidade, devendo ser aberto pela Sra. Violeta de Mattos Areosa, primeira dama do Estado, que se fará assim madrinha do belo instrumento.
Podemos adiantar, ainda que, para assinalar o evento, a Fundação Cultural do Amazonas proporá ao Conselho Estadual de Cultura a afixação de uma placa comemorativa do segundo centenário de nascimento de Beethoven.

sexta-feira, fevereiro 21, 2020

NIVALDO SANTIAGO: MAESTRO DAS ÁGUAS

Nivaldo Santiago, em
Jornal do Commercio

Vivendo em Minas Gerais, o maestro Nivaldo Santiago (1929-) marcou sua passagem pelo Amazonas, seu estado natal, com vibrante sucesso. Ainda no ano passado esteve em visita a Manaus, quando foi homenageado pelo Coral João Gomes Júnior, que lhe tem como criador, e outros corpos musicais.
Já postei sobre ele, e torno compartilhando reportagens publicadas pela imprensa local, em fevereiro de 1970, quando o “maestro das águas”, então servidor da Universidade do Pará, decidiu voltar. Com arrimo do governo, através da Fundação Cultural, e do Reitor da UA, Jauary Marinho, seu anseio foi concretizado.

Matéria sobre o maestro veiculada no Jornal do Commercio (14 fev. 1970)

Com sua opinião de que em Manaus, exatamente porque há apoio do Poder Público, se faz e se consome cultura muito mais acentuadamente que em muitas capitais brasileiras — Belém, por exemplo, onde vive ultimamente —, o maestro Nivaldo Santiago, musicista amazonense de renome paralelo ao de Arnaldo Rebelo, outro conterrâneo, assim deu início ao diálogo que ontem à tarde, na Fundação Cultural d0 Amazonas [FCA], manteve com a imprensa de Manaus que o ouviu inclusive sobre seus planos de retornar definitivamente a Manaus.E teve confirmada essa sua assertiva pelo diretor-superintendente da FCA, Dr. Elson Farias, que ato contínuo deu aos jornalistas e ao entrevistado os totais mais expressivos do movimento do Teatro Amazonas, em 1969: 106 funções e 35 mil presenças.
Nesse sentido, frisou maestro Nivaldo, a importância do advento daquela Fundação, assim como a contínua colaboração da imprensa manauara, agora com a participação da Televisão, motivando cada vez o maior interesse da parte da população pelas promoções culturais.

CULTURA MUSICAL
Falou-nos a seguir sobre o Curso de Cultura Musical que, no âmbito da Fundação Cultural, vai ministrar a partir de segunda-feira no Auditório Alberto Rangel, salientando que esse exemplo da FCA deveria ser seguido em todo o país ermo forma de aumentar o interesse geral pela cultura, no caso, a música.
O Curso de Cultura Musical, cujas inscrições já se encontram abertas na Biblioteca do Estado, terá 3 semanas de duração, com importante e fundamental exposição na primeira, (...)

CONDIÇÕES PARA FICAR
Discorrendo sobre todos recursos de que dispõe no Centro de Atividades Musicais, da Universidade do Pará, que dirige há sete anos, disse maestro Nivaldo Santiago de que necessitará de condições pelo menos iguais às que tem na capital paraense, para retornar a Manaus em caráter definitivo (presentemente veio passar um mês).
Confirmou o apoio integral que lhe pode dar a Fundação Cultural do Amazonas em caso de retorno e revelou haver apresentado um plano de trabalho ao Reitor Jauary Marinho para execução na Universidade do Amazonas. Dentro desse plano se situam, entre outras coisas, uma Escola Livre de Música e a orquestra e coral universitários, tudo funcionando isento de sentido acadêmico, ou seja, com objetividade e, consequentemente, proveitos totais.
“Agora confesso que desejo ardentemente servir ao meu Estado”, concluiu.

Reportagem de A Notícia, 12 de fevereiro de 1970



sexta-feira, novembro 22, 2019

CLUBE DA MADRUGADA: 65 ANOS


Acerquei-me da sede (Praça da Polícia) do Clube da Madrugada, em 1966, quando ingressei na Polícia Militar do Estado, doze anos depois da criação daquele. Todavia, confesso tristemente que não participei, sequer, dos encontros costumeiros, das exposições e dos lançamentos de livros ocorridos na Praça da Polícia, portanto, diante de meus olhos.
Logo do Clube da Madrugada
O trânsito pelo Café do Pina, região sagrada dos madrugadores, permitiu-me conhecer “de vista” um bom número de seus integrantes. A configuração desta agremiação permaneceu em minhas lembranças, que foram se diluindo diante das mudanças ocorridas no logradouro e, também, porque o Clube diminuiu suas mesas-redondas.
Assim se passaram anos...

Em 2004, voltei a me preocupar com o CM, quando passei a catar papeis sobre um dos seus integrantes: L. Ruas, o padre-poeta autor do livro de poesia – Aparição do Clown (1958). Desse modo, chafurdando nos jornais de antanho, redescobri o “clown” e os múltiplos acólitos. Então, aquelas figuras notórias na República do Pina foram se revelando, tendo L. Ruas me “ensinado” várias lições sobre poesia. Todavia, em se tratando desta arte, prefiro o saudoso Farias de Carvalho.
Reunião do CM, ao centro, o
governador Henoch Reis

Mantive amizade com dois saudosos integrantes do CM: Jorge Tufic e Luiz Bacellar. Além de grandiosas conversas e muitos ensinamentos sobre o Movimento, rolaram alguns uísques com Tufic e, no Pina restaurante (da av. Joaquim Nabuco), várias ceias com o eclético Bacellar.

Ainda naquele ano, auxiliei nos festejos do cinquentenário do Madrugada, celebrados no início da noite, no Largo de São Sebastião. Compareceu uma gama de intelectuais, que louvaram ao extremo as benesses oriundas desse Movimento.
Lançamento de livros no
 cinquentenário do Madrugada
Hoje, são contados 65 anos de fundação. No entanto, os ralos admiradores pouco hão de celebrar, em particular aos pés do mulateiro da Praça da Polícia, onde tudo começou, e serve de símbolo desse movimento. A data será aproveitada pelo poeta Elson Farias, pertencente a 2ª geração do CM, para festejar seu jubileu de ouro de ingresso na Academia Amazonense de Letras.

Quando o Clube da Madrugada completou 15 anos, em 1969, seu presidente Aluízio Sampaio promoveu a festa do 
debutante, tendo convidado a cidade em publicação do matutino A Crítica (22 nov. 1969), aqui compartilhada.

  
Recorte de A Crítica, 
22 novembro 1969
Mulateiro, símbolo do
Madrugada, 2016
O Clube da Madrugada, entidade responsável pela renovação das artes e das letras amazonenses, está no dia de hoje fazendo o seu “debut”, completando os seus quinze anos de atuante presença no cenário cultural do Amazonas. Fundado no dia 22 de novembro de 1954 por um grupo de jovens idealistas — escritores, poetas, artistas, economistas, sociólogos decididos a desoprimir o ambiente do desânimo e do marasmo em que vivia mergulhado e que se refletia desoladoramente no caráter decadente das atividades criadoras, em nosso Estado. O Clube da Madrugada vem, desde então, ao longo destes quinze anos renovando, agitando, inoculando alma nova e abrindo novas perspectivas às atividades criadoras do nosso espírito, no afã de integrá-las, em grau qualitativo e contributivo, ao nível em que elas se exercem nos centros mais desenvolvidos do Sul do País.
Pela sua importância, será a efeméride condignamente festejada pelos madrugadores, os quais têm encontro marcado hoje à noite, às 20 horas, na Praça Heliodoro BaIbi segundo adiantou-nos o presidente Aluízio Sampaio, que por nosso intermédio pede o comparecimento de todos os seus pares àquele encontro.

domingo, outubro 27, 2019

FEIRA DE ARTES PLÁSTICAS (2)

Foto de O Jornal, 29 dezembro 1963

Realizada a Feira de Artes Plásticas em 24 de dezembro, o Clube da Madrugada aproveitou o Suplemento com o qual brindava o público aos domingos para agradecer e avaliar seu trabalho. Assim, na edição de O Jornal de 29 de dezembro, pode-se ler o editorial com a gratidão aos colaboradores, e adiante o julgamento elaborado pelos dirigentes da página literária, sob a direção de Aluízio Sampaio e redação de Alencar e Silva, Arthur Engrácio, Elson Farias e Jorge Tufic. 
MANAUS, 29 de dezembro de 1963
 Não obstante o tempo inseguro, com frequente ameaça de chuva, penumbra e chuvisco, levou-se a bom termo a I FEIRA DE ARTES PLÁSTICAS DO AMAZONAS, promovida pelo CLUBE DA MADRUGADA e colaboração da Prefeitura Municipal de Manaus, a título de complementação aos festejos do ciclo natalino deste ano. A feira se estendeu por todo o dia 24, desde as 5 até às primeiras horas do dia 25 do mês em curso, apresentando uma amostra, profundamente significativa, do trabalho a que, um grupo de pintores em Manaus, se vem devotando.
Trabalhos de artistas já conhecidos, pela série de exposições a que têm participado, inclusive fora do nosso Estado, como Getúlio Alho, Moacir Couto de Andrade, Álvaro Páscoa, Afrânio de Castro e Paulo D'Astuto, trabalhos a que se juntaram outros cuja presença é-nos grata registrar, posto ser um sinal do revelação, plena e viva e sobretudo dinâmica dos novíssimos Simão Assayag, Gualter Batista e Jacquemont (sic) Cantanhede.
Vários aspectos podem ser vistos e estudados, após essa amostra. Mas aqui, gostaríamos de ressaltar a força de vontade e o trabalho, até mesmo o braçal podemos dizer, da equipe que rasgou de vencida certa apatia e certas promessas incumpridas em relação à I FEIRA. Todavia, temos certeza, o trabalho foi realizado e realizado nos seus planos mais justos e válidos, como sejam o de ter arrancado o povo de sua rotina para a contemplação, a meditação e a crítica, dos elementos que constituem as preocupações do nosso grupo.
Resta-nos agora pensar em novas feiras. É essa a maneira positiva de viver, agitar as consciências, despertar vocações. Resta-nos também agradecer aos jornais matutinos e vespertinos que não regatearam esforços a fim de dar à Feira uma cobertura noticiosa, sem a qual, vale ressaltar, não teríamos tido a soma volumosa do resultado obtido. Agradecer aos intelectuais, professores, médicos, estudantes que visitaram e comentaram a Feira. Agradecer ao povo que lá acorreu, oferecendo-nos a força e a riqueza do seu prestígio e atenção. Até breve, com a próxima feira de artigos de cultura.

Manchete do Suplemento do CM, circulado no citado jornal

REALIZOU O CLUBE DA MADRUGADA, dia 24 último, encerrando o calendário de suas atividades no corrente ano, a I FEIRA DE ARTES PLÁSTICAS DO AMAZONAS, promoção que se coroou de pleno sucesso, pela receptividade que encontrou em todas as camadas de nossa população. Milhares de pessoas a visitaram. E teve o nosso povo, de modo amplo, oportunidade de tomar conhecimento do trabalho que seus artistas vêm desenvolvendo nos mais diversos gêneros das artes plásticas. Teve a feira, sobretudo, a feliz oportunidade de revelar à nossa sociedade, ao nosso povo, novos e autênticos valores, artistas que pela primeira vez participaram de uma mostra, revelando-se, de pronto, como expressões seguras de talento.
Colaboraram para o êxito dessa promoção, colaboração que muito agradecemos, a Editora Sérgio Cardoso, a imprensa amazonense, a Prefeitura Municipal de Manaus e a secretaria de Educação e Cultura.

Vale salientar, igualmente, que, objetivando documentar a envergadura e significação dessa iniciativa, o Departamento Cinematográfico do Clube da Madrugada, sob a direção do clubista IVENS LIMA, filmou, em cores, a grande mostra coletiva, podendo adiantarmos que o referido documentário brevemente será exibido num dos cinemas da cidade.
Foi, sem dúvida, uma iniciativa que alcançou plenamente os seus objetivos. Daqui para a frente, outras “Feiras” serão montadas nos diversos pontos da cidade, esperando o CM contar, como desta vez, com o indispensável apoio das mesmas entidades acima referidas.
Do sentido desta promoção diz bem o boletim que distribuímos no local e que reproduzimos a seguir:

Obras expostas
I FEIRA DE ARTES PLÁSTICAS DO AMAZONASEsta FEIRA – primeira no gênero a se realizar em nosso Estado – tem por finalidade maior, entre as muitas que poderíamos apontar, a do estabelecer uma aproximação mais estreita entre o público e a obra de arte, como primeiro passo para o diálogo direto do artista com o povo, com a comunidade em que vive. Trata-se, portanto, de um processo de informação e formação cultural. E é desse processo — eficaz, sem dúvida — que o CLUBE DA MADRUGADA lança mão no seu empenho do promover a culturização das massas, levando diretamente ao povo o trabalho de seus artistas, de seus poetas, de seus escritores. (Agora mesmo, na semana que passou, acabamos de promover, com relativo sucesso, a Semana do Livro Amazonense.) É um trabalho do pioneirismo, sujeito, por isso mesmo, a vicissitudes e incompreensões. Um trabalho, porém, que não nos cansa, por ser ele a forma de atuação que preferimos. Anima-nos, sobretudo, ao levarmos ao povo esta Primeira Feira de Artes Plásticas, a convicção de realizarmos um trabalho válido não só para a plêiade de intelectuais que a lidera, como também para o Povo, expressão legítima dos anseios do progresso espiritual de uma comunidade a todo instante capacitada a
reivindicar seu lugar no processo histórico brasileiro.
Trata-se, em suma, de mais uma semente lançada, ao que esperamos em terra fértil. Uma semente que inaugurará, sem dúvida, uma nova fase, um instante de clara significação para o aplainamento das dificuldades de uma comunicação efetiva entre o público e a criação artística.

CLUBE DA MADRUGADA

domingo, junho 09, 2019

POETAS AMAZONENSES


Não alcancei esta antologia produzida por Walmir Ayala, mas conheci os poetas locais ali elencados: são dois padres, L. Ruas, nascido em Manaus, e Moisés Lindoso, nascido em Manicoré; o acreano Jorge Tufic e o itacoatiarense Elson Farias.
Pe. Moisés Lindoso, 1979
Os sacerdotes e seus livros tive o prazer de conviver com estes no Seminário de Manaus (1956-65). Com Tufic foram algumas rodadas de Chá, inclusive em minha residência. Elson, segue produzindo.
Sobre o falecido L. Ruas já escrevi bastante e ainda tenho material dele para publicar. Lindoso saiu de Manaus acompanhando o bispo do Amazonas, dom Alberto Ramos, que assumiu a igreja de Belém (PA). Daí, Lindoso passou para o Recife, onde encontrou o lembrado bispo, dom Helder Câmara. Instalou-se na cidade do Cabo (PE), onde faleceu. Era irmão do governador José Lindoso.

A postagem compartilhei do jornal A Crítica, edição de 5 jan. 1963 

Jornal A Crítica, 5 janeiro 1963

Acaba de ser lançado no Rio de Janeiro a “Novíssima Poesia Brasileira”, na série cadernos brasileiros. A iniciativa que tem tido a maior repercussão nos meios intelectuais da Guanabara é do crítico Walmir Ayala, que chamou a si a responsabilidade de selecionar editar o referido livro.
 Na “Novíssima Poesia Brasileira” encontramos a amostra da poesia de 75 novos poetas e Ayala faz, na introdução interessante estudo do sentido dessa poesia, de suas fontes de influência.Dentre os 75 poetas que comparecem na “Novíssima Poesia Brasileira” foram distinguidos 4 poetas do Amazona e Acre e que são os seguintes:
Elson Farias, nascido em Itacoatiara, publicou “Barro Verde”, em 1960, pertence ao Grupo Madrugada tendo sido publicado o Poema 1 e um Soneto, do seu livro editado. Jorge Tufic, nascido em Sena Madureira, Acre, e vive em Manaus, sendo membro do Clube da Madrugada. Já publicou “Varanda de Pássaros” (1956), “Pequena Antologia Madrugada” e foi premiado em concurso promovido pela Folha do Norte, em Belém, sob o patrocínio da SPVEA, tendo sido publicado dele Poema e Ode Amarga ao Espelho. Pe. L. Ruas, nascido em Manaus, pertence ao Movimento Madrugada, publicou “Aparição do clown”, notável poema, é professor da Faculdade de Filosofia, tendo sido publicado na antologia de Ayala as seguintes composições de sua autoria: Estudo e Didática. Pe. Moisés Lindoso, nascido em Manicoré, com estudos eclesiásticos concluídos em Roma, técnico em trabalho de educação de grupo e engajado no movimento da Juventude Operária Católica, sendo atualmente Assistente de JOC, em Belém, publicou um livro “Plenitude”, sendo o representante da poesia tipicamente religiosa; tendo sido editado na Antologia a sua produção literária intitulada Poética. Se é verdade que na Antologia não compareceu (sic) Luiz Bacellar, um poeta já definitivamente consagrado, Faria de Carvalho, com uma produção literária interessante, Sebastião Norões, que se revela senhor de uma técnica de poesia apurada, e outros nomes de relevo, havemos de assinalar que os revelados ao Brasil por Ayala são poetas de mais alta categoria. 

quarta-feira, abril 03, 2019

IGHA – HÁ 50 ANOS


Em outubro de 1969, a cidade de Manaus recebeu a visita do sociólogo Gilberto Freire, que cumpriu em dois dias variada programação. A descrição desse evento retirei de O Jornal (edição de 11 out. 1969). 

Recorte de O Jornal, 11 outubro 1969
 
PROCEDENTE de Georgetown, chegou ontem a Manaus, o sociólogo Gilberto Freire, tendo desembarcado no Aeroporto de Ponta Pelada às 15:30 horas, onde foi recebido por expressivo número de personalidades locais, à frente o Diretor Superintendente da Fundação Cultural, professor Elson Farias.
À noite, às 21 horas, o autor de “Casa Grande & Senzala” esteve no Teatro Amazonas, assistindo a peça LSD (Luar sobre Danúbio), na interpretação do Grupo 7, concorrente do III Festival da Cultura do Amazonas.

PROGRAMA E CONFERÊNCIA
No dia de hoje, o sociólogo Gilberto Freire cumprirá intensa programação em nossa capital, a qual está assim constituída: 9 horas – visita à Biblioteca e a Pinacoteca Pública; 15 horas – visita a Universidade do Amazonas; 16 horas – visita ao Governador Danilo Areosa; 17 horas – visita ao Prefeito Paulo Pinto Nery; 20 horas – Conferência no Auditório Alberto Rangel sobre tema: “Intelectual em época de transição”.
No dia de amanhã haverá às 8 horas, visita a Turislândia, a convite do Sr. Cosme Ferreira Filho; 12 horas – almoço oferecido pela Secretaria de Educação e Cultura, no restaurante Chapéu de Palha; 16 horas – visita as livrarias da cidade: 20 horas – visita ao Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas.
O retorno de Gilberto Freire se dará no dia 10 do corrente, devendo seguir ás 6 horas por via aérea com destino a Belém do Pará.

terça-feira, novembro 08, 2016

CLUBE DA MADRUGADA: 62 ANOS

Apesar de desativado há tempos, o Clube da Madrugada segue lembrado por uma legião de saudosistas. Este mês de novembro marca seu 62º aniversário de fundação. 
Elson Farias contempla o poeta Alencar e Silva, 2004

Para relembrar esta efeméride, reproduzo (em três partes) a publicação sobre o Madrugada, produzida pelo falecido poeta - Alencar e Silva, em sua obra póstuma Quadros da Moderna Poesia Amazonense (Ed. Valer, 2011).

PRELUCIDAÇÃO

Esta prelucidação se faz indispensável por vários motivos, mas, em especial, por ensejar ao leitor uma notícia pormenorizada da situação em que se encontrava a capital amazonense, no período imediatamente anterior ao surgimento do Clube da Madrugada.

A redação destes textos foi feita ao sabor das lembranças, nos dois últimos anos do século recém-findo evitando-se naturalmente a pressa desfiguradora que pudesse incidir sobre o fluxo seletivo do que se tinha a narrar. Neste passo inicial, trata-se apenas de pôr em ordem e reduzir a termos as memórias que guardo acerca do tempo e das pessoas que compunham ou vieram a compor o cenário cultural da minha província natal, ao iniciar-me nos mistérios e graças da poesia.

É claro que, em se tratando de matéria de memória, deverão essas circunscrever-se ao meu tempo vital, isto é, ao que presenciei ou de que tive conhecimento através de fontes inequívocas. Para situarmo-nos mais facilmente no tempo, direi que nasci em 1930, no Alto Solimões, tendo decorrido toda a minha infância em Fonte Boa e Codajás, em cujas barrancas, diante do rio majestoso, aprendi lições de silêncio e de contemplação interior.

Daí por que sempre tive com os rios da minha terra uma espécie de relacionamento amoroso, de enamorado que se compraz em contemplar a amada, vendo-a passar. E mais contemplativo fiquei, e mais cauteloso, ao dar-me conta de que, por umas seis vezes, tanto no Negro como no Solimões e também, depois, no mar, eu escapara por pouco de morrer, ao afoitar-me em suas águas fundas.

Não obstante, a contemplação das grandes massas líquidas responde-me sempre com a sua serenidade. O certo é que, desde quando abri os olhos, cheios de perplexidade, para as misérias do mundo (que eu procurava entender, sem muito êxito), e as indagações do espírito me afundavam em prolongados mutismos - eu ia olhar e interrogar o rio. E o seu sereno fluir devolvia-me a paz. Isto, desde a infância e seus alumbramentos, dentre os quais um deslumbrante pôr de sol sobre o Solimões, que me fez ir às lágrimas, de pura beleza.

Aos dez anos, eu chegara a Manaus. E logo os rumores da Segunda Guerra Mundial e o afundamento de navios mercantes em águas territoriais brasileiras, por submarinos alemães, ecoavam e faziam sentir os seus efeitos diretamente na capital amazonense, refletidos no racionamento de quase todos os gêneros de primeira necessidade, produtos importados e energia elétrica, até chegar-se, mais adiante, ao permanente blecaute e à volta aos lampiões e lamparinas a querosene.

Tempos duros em que os cursos noturnos praticamente deixaram de funcionar ou o faziam a duras penas, à luz de velas. Estava-se em plena vigência do "Estado Novo". E a atmosfera que se respirava em Manaus era, como não poderia deixar de ser, quase só aquela "consentida" pela censura ditatorial, exercida em todo o país pelo Departamento de Imprensa e Propaganda.

Vale dizer: manifestações, só a favor; contra, nem pensar. Eu não conhecera até então outra realidade, senão aquela, mas sentia que havia alguma anormalidade naquilo tudo. Tempos de estranha unanimidade.

É claro que havia vida literária em Manaus, que sempre fora um centro intelectual requintado, o, mercê do surto de progresso e desenvolvimento determinado pelo ciclo de ouro da borracha, que lhe embelezara a cidade e propiciara o surgimento de uma elite perfeitamente sintonizada com a belle époque e em dia com a literatura francesa, cujo idioma muitos dominavam.

A intelectualidade da terra –  excetuada, naturalmente, aquela parcela que atuava extramuros da Academia – era, ainda na metade da década de 50, basicamente a que remanescia dos idos de 1918 (ano da fundação do silogeu amazonense) e reunia-se, por assim dizer, em torno das figuras de João Leda e outras lideranças de variada abrangência, escritores de elevado e justo renome, capazes de brilhar em qualquer cenáculo de cultura, mas que, enquanto viveram, ofereceram tenaz oposição aos cânones da Semana de Arte Moderna, de 1922.

Principalmente João Leda, vernaculista de nomeada, que chefiara uma infeliz manifestação de desapreço – incluindo vaia e panfletos – a Mário de Andrade, quando de sua estada em Manaus, em 1927, e que tanto desgosto causara ao rapsodo de "Macunaíma", o qual só por elegância não desfaria de público a impressão favorável e os louvores que a cidade lhe merecera, mas da qual se queixaria amargamente em cartas a amigos.

Esse episódio exemplifica, de algum modo, um certo vezo, que havia então, de considerar-se a capital amazonense uma destruidora de mitos e reputações. Citavam-se, a propósito, casos de intelectuais que, justa ou injustamente, ali teriam sido desmascarados etc.


Não constituirá, pois, mera metáfora afirmar-se que, ainda nos anos 50, havia trincheiras, dentro e fora da Academia, de onde se atiravam calhaus ao Modernismo. É claro que, sobrepondo-se a tais pecadilhos, a bela e vaidosa província sabia receber com graças de mulher formosa as celebridades que a visitavam. E disso nos dá conta a pena jovial de Genesino Braga, inexcedível cronista dos fastos históricos de Manaus.
 (segue)

domingo, novembro 25, 2012

CLUBE DA MADRUGADA – 58 ANOS (2ª. Parte)

Alencar e Silva (1930-2011)l
Acredito que a última publicação conhecida sobre o Clube da Madrugada foi realizada por um dos seus fundadores: Alencar e Silva, que morreu em setembro de 2011. Portanto, dono de respeitável conhecimento sobre o Movimento, que segue lembrado. Aproveito o texto para penitenciar-me de um pecado mortal cometido no texto anterior: é que, ouvindo o autor de Lunamarga, ainda existem outros fundadores bem vivos.  Com a palavra, o saudoso Alencar e Silva. (*)

Destinado a assinalar no tempo um acontecimento de alta relevância para o desenvolvimento cultural do Estado, um dia gravou-se no bronze esta inscrição: "Pois foi. Jovens se reuniram sob as frondes desta árvore, e aconteceu. Era madrugada. 22 de novembro de 1954. E fez-se.”
Luiz Ruas, presidente do CM (1957-58)
Alude o breve texto à criação do Clube da Madrugada. E os jovens que então ali se reuniram, teriam seus nomes para sempre inscritos na legenda gloriosa como seus fundadores. Foram eles: Saul Benchimol, Luiz Bacellar, Farias de Carvalho, Theodoro Botinelly, Fernando Collyer, José Pereira Trindade, Francisco Baptista, João Bosco Araújo, Antônio Gurgel do Amaral, Celso Mello, Humberto Paiva e Camilo Souza.






E aos quais se juntariam, em seguida, Jorge Tufic, Guimarães de Paula, L. Ruas, Francisco Vasconcellos, João Bosco Evangelista, Astrid Cabral, Carlos Gomes, Pedro Amorim, Aluísio Sampaio, Jefferson Péres, Arthur Engrácio, Elson Farias, Antísthenes Pinto, Max Carphentier, Alcides Werk, Ivens Lima, Edison Farias, Sebastião Norões, Benjamim Sanches, Ernesto Penafort, Ernesto Pinho Filho, Erasmo Linhares, Edson de Souza, Carlos Genésio, M. Braga, Wagner Pinto, Anísio Mello, Maria José Hosanah da Silva, Pinheiro Pucu, Evandro Carreira, Fábio Lucena, Leopoldo Péres Sobrinho, Adrino Aragão de Freitas, Mauro Tavares, Flávio Roberto de Souza, Afrânio de Castro, Moacir de Andrade, Oscar Ramos Filho, Álvaro Páscoa, Hahneman Bacellar, Van Pereira, Getúlio Alho, José Maciel e outros.

Surgido como síntese unificadora da inquietação que vinha movendo a mocidade amazonense, desde a década anterior, e que buscava abrir espaço ao exercício da liberdade criativa e à renovação dos padrões artísticos e literários vigentes - o Clube da Madrugada chegava já amadurecido para os novos tempos sabendo perfeitamente o que queria.

O poeta Jorge Tufic, que se refere ao CM como uma atmosfera e um movimento de ideias, identifica nas raízes desse movimento uma série de fatores causais que se resumem, basicamente, no esgotamento e anacronismo da vida cultural de Manaus, êxodo da juventude, desfalcando anualmente a população de parte ponderável de seus valores, e inexistência de universidade. Surgia, assim, o Clube da Madrugada em meio a uma crise total de valores.

Muitos, evidentemente, foram os presidentes do CM. E todos o terão conduzido com o acerto esperado, dando cumprimento à pauta do seu ideário e ao intercâmbio de conhecimentos e experiências em que os madrugadenses mutuamente se enriqueciam, como que ao clima de um centro de estudos superiores.

A partir, porém, dos anos 60 e princípios dos 70, houve notável mudança de ritmo. E Aluísio Sampaio viria como que a encarnar a alma do Clube como força coesiva e dinâmica que lhe comunicaria novo ânimo e o faria projetar-se, ostensivamente, em cena aberta, para reafirmar e mostrar, em toda a sua extensão, a que vinha.

Isto se fez não só por meio da publicação de livros - o que já vinha ocorrendo desde a década anterior - mas, principalmente, do espaço gráfico de toda uma página semanal do "O Jornal", na qual se estampava a produção cultural do grupo e dos novos valores que começavam a surgir.

Dentro da informalidade que sempre o caracterizou, o Clube da Madrugada foi extremamente parcimonioso na outorga do título de "Cavaleiro de Todas as Madrugadas do Universo", contando-se entre as personalidades agraciadas com essa honraria os escritores Ramayana de Chevalier, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Assis Brasil, André Araújo, Nunes Pereira, Jean-Paul Sartre, Ferreira de Castro e o jornalista Umberto Calderaro Filho.

Aluísio Sampaio era um obstinado. Seu período presidencial (ou imperial...) estendeu-se praticamente por toda uma década - o quanto durou a página dominical do CM - tempo durante o qual só se assinalaria um breve hiato, no biênio 1965/66, com a presidência de Francisco Vasconcellos, também brilhante, dinâmica e operosa.

Lembro, a propósito, ter sido ele o iniciador da Coleção Madrugada, tornando-se, assim, o meu primeiro editor, eis que o meu livro Lunamarga veio a constituir o volume 2 da coleção, nos idos de 1965.

Voltando a tomar as rédeas em suas mãos - ocasião em que se esboçou uma cisão de consequências positivas, pois que daria lugar à criação do núcleo local da UBE - pôde Aluísio Sampaio conduzir o CM aos seus objetivos programáticos, sendo a sua dedicação pessoal responsável pela fase mais aguerrida e brilhante da entidade. A propósito, não será necessário enfatizar a competência com que se houve o grande comandante na utilização dos espaços abertos na imprensa amazonense (além da página no "O Jornal", também no "Jornal do Comércio" e na "A Crítica"), para a divulgação dos trabalhos do grupo, cuja produção intelectual se projetava para além do campo estritamente literário - poesia, conto, crônica e ensaio - e alcançava a área dos estudos sociais e econômicos.

Efetivamente, o entusiasmo, a operosidade e a força da sua liderança foram ainda responsáveis pela verdadeira explosão ocorrida no âmbito das artes plásticas, em Manaus, a partir dos começos dos anos 60, quando o Clube da Madrugada patrocinou numerosas exposições, coletivas e individuais, dos artistas locais, pertencentes ou não aos seus quadros. Lembra-se, a propósito, haver sido um membro do CM, o pintor Moacir Andrade, o primeiro artista brasileiro a expor em Brasília.

Em 1963, por exemplo, sob a denominação de Feira de Artes Plásticas, varias amostras foram montadas em logradouros públicos de grande afluência, como a praça da Matriz (lado da av. Eduardo Ribeiro) e a praia da Ponta Negra, sendo visitadas por milhares de pessoas, e atingindo-se, dessa forma, o buscado objetivo de levar ao grande público o trabalho dos nossos artistas, na primeira tentativa, entre nós, de diluição das barreiras que afastam o povo das exposições em espaços fechados.

Ao evocar-lhe a figura ímpar de grande animador do Movimento Madrugada, é de justiça creditar-se ao zelo de Aluísio Sampaio, pelo menos em parte, numerosas outras iniciativas, como, por exemplo, o experimento da Poesia de Muro. 

(*) Alencar e Silva. Quadros da Moderna Poesia Amazonense. Manaus: Editora Valer, 2011.