Renato Mendonça
17.09.2026
Sob a expectativa de encontro de togas e o brilho sereno da instituição, o Supremo Tribunal Federal abriu suas portas nesta semana para uma reunião que mais parecia um ritual inquisitório do que um julgamento justo e honesto. No centro da cena, o ministro Alexandre, alvo de acusações inesperadas e não comprovadas vindas de seu colega André — relator do caso do Banco Master. A denúncia, supostamente carregada de gravidade, foi gerada por vazamentos seletivos de dados obtidos pela Polícia Federal, após a quebra do sigilo do celular do banqueiro Vorcaro — preso na penitenciária da Papuda, em Brasília.
O
plenário, espaço que deveria ser de serenidade e equilíbrio, transformou-se em fogueira.
As palavras lançadas ardiam como fagulhas, incendiando suspeitas e revelações.
Descobriu-se que os vazamentos incriminavam apenas uma figura, enquanto todo o
conteúdo do aparelho já havia sido franqueado a todos os ministros dias depois
da acusação. O silêncio entre uma fala e outra pesava mais do que os votos e
esclarecimentos proferidos.
E
então, como em tragédia anunciada, emergiu o desassossego: alguns magistrados
apareciam ligados, direta ou indiretamente, ao dinheiro espúrio do banqueiro.
Dinheiro que não tinha origem honesta, mas surgiu de transações fraudulentas e
do desvio de mais de três bilhões de reais do Rioprevidência — fundo que
guarda o futuro de mais de duzentos e trinta mil servidores do estado do Rio de
Janeiro. Ao escândalo financeiro somava-se o político: o governador, envolvido
até o pescoço, cedeu à pressão de seus aliados e pediu exoneração do cargo para
buscar refúgio na imunidade parlamentar — queria candidatar-se a senador da
República —, mas foi barrado pela Justiça Eleitoral.
No
calor das discussões, cada ministro parecia jogar mais lenha na fogueira. O
acusador, André, saiu muito chamuscado: sua tentativa de erguer cortina de
fumaça revelou afinidades com o banqueiro e pagamentos recebidos que o
incriminavam; ficou evidente também que ele se aproximava de interesses
eleitorais — e tinha sua preferência. A estratégia era clara: tumultuar o
processo até o primeiro turno, em benefício de um candidato da direita. Ficou
explícito. Mais constrangedor, porém, foi vê-lo pedir desculpas ao
Procurador-Geral — igualmente acusado e presente na reunião — para negar as
próprias acusações e confessar que eram falsas. O decano Gilmar, indignado, não
poupou palavras: classificou o ministro acusador com um adjetivo infame: “Pixuleco”.
A declaração expôs o vazio do debate. A fogueira de acusações não iluminava nada além da própria fumaça. Como resumiu o ministro Dino, com ironia certeira: “Estamos julgando o nada!”
Essa
declaração mostrou que o debate e a discussão não serviriam para coisa nenhuma,
pois não havia crime algum, como bem resumiu o ministro Dino: estamos julgando
o nada!
É
triste constatar. A balança da Justiça, que deveria pairar imóvel e serena,
oscilava como pêndulo nervoso, inclinando-se ora ao peso da política, ora ao
sopro da ideologia. O Estado, laico por definição, viu-se contaminado por
paixões partidárias e, por conseguinte, suscitou a elaboração de editoriais dos
jornais — representantes da elite conservadora — inflamados que, nos dias
seguintes, clamavam por julgamento a qualquer custo do ministro acusado.
E
assim, entre votos e contravotos, entre sombras e revelações, resta ao povo a
tarefa de discernir e escolher — não apenas os futuros eleitos, mas o próprio
destino da democracia, que atravessa um período turbulento.
É
preciso olhar além dos discursos inflamados e das manchetes tendenciosas dos
jornais e da mídia falada. Ler a biografia dos candidatos, perscrutar suas
relações, perceber as afinidades que os ligam ao poder e intuir quem, de fato,
pode estar ao lado do povo. A democracia não se sustenta apenas nos tribunais
ou nos palácios: ela se constrói no olhar atento de cada cidadão, na
consciência crítica que não se deixa seduzir por cortinas de fumaça.
O voto, nesse contexto, é mais que um gesto cívico. É um ato de resistência, uma tentativa de reconstruir novamente a confiança abalada entre instituições e sociedade. É a chama, iluminada pelo caminho do discernimento, em meio às trevas da desinformação e da manipulação. Que cada escolha seja feita com a serenidade de quem sabe que, ao depositar sua confiança na urna, está também depositando esperança no futuro. Pois, repito, não elegemos apenas governantes: elegemos o rumo da própria democracia.
Bom
voto a todos, boas escolhas!