CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, julho 31, 2026

SESQUICENTENÁRIO DO CORPO DE BOMBEIROS (3)

 Dia 11 do corrente (sábado), o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) completou 150 anos. A comemoração aconteceu uma semana depois, quando o comando da corporação promoveu o devido festejo. Uma semana antes, ao encontrar o comandante do CBMAM, coronel Orleilso Muniz, em entrevista no Jornal do Commercio, lembrei a ele que seria oportuno a fixação de uma placa comemorativa. E assim foi feito, a placa encontra-se à entrada principal do aquartelamento. Eu a vi, esta semana, ao visitar os Bombeiros; então me recordei de que -- no Centenário -- o major Ilmar Faria fez afixar também à entrada a respectiva placa, cujo descerramento foi realizado pelo vice-governador João Bosco Ramos de Lima. Agora, como não vi a dos 100 anos, e somente a dos 150 anos, esse fato me trouxe uma inquietação: como as placas, os Policiais e os Bombeiros parecem desconhecidos, apesar de constituir a Força Militar do Estado. FOGO!


Publicação de A Crítica,
11 julho 1976 (cima e abaixo)


Placa do sesquicentenário


quinta-feira, julho 30, 2026

DIA DO SELO -2026

 

Há 50 ANOS, o filatelista Edilsom Aguiar publicou este artigo comemorando o Dia do Selo no Brasil. Para lembrar a data, os filatelistas da cidade se reúnem neste sábado (01), no Palacete Provincial.

Recorte do Jornal do Commercio, 30 julho 1976

Como é natural, o selo também tem o seu dia, que é comemorado hoje em todo o Brasil pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e pelas associações e clubes filatélicos. O Brasil foi o terceiro país do mundo a emitir selo postal, seguindo o exemplo da Inglaterra e do cantão de Zurich, que respectivamente emitiram o primeiro e a segundo selo do mundo. A lei que instituiu o selo no Brasil foi votada em 1841 e um ano depois foram estabelecidos os valores de 30, 60 e 90 réis para os selos, que viria a ser a primeira série de selos ordinários de nosso país. Para as cartas destinadas a circularem dentro do país, a taxa a ser paga era de 60 réis, enquanto que as destinadas ao exterior deveriam pagar 90 réis.

Houve alguma demora na confecção da série, uma vez que a Casa da Moeda não dispunha de máquinas apropriadas e ainda mais pelo fato de não se ter ainda escolhido os motivos de sua ilustração, muito embora já se soubesse que nos selos não seria registrada a efígie do então Imperador D. Pedro II, para que não fosse desfigurada com a aposição do carimbo obliterador. Nos selos constaria somente um cifrão e não foi exceção nem para o nome de nosso país; a intenção era fazer um selo simples e expressivo, e isso foi conseguido. Assim, ao emitir o terceiro selo do mundo, o Brasil se colocava ao lado da Inglaterra e do Cantão de Zurich, como os pioneiros do lançamento do selo postal, a maior novidade da época.

Dessa maneira, pelo edital do 5 de julho de 1843, os Olhos de Boi, assim chamados por serem parecidos com os olhos daquele animal, foram emitidos finalmente a 1º de agosto de 1843, completando, portanto, hoje, cento e trinta e três anos de seu lançamento. Os Olhos de Boi, orgulho de qualquer colecionador, tiveram uma impressão de cerca de um milhão e meio (60 réis), mais de um milhão (30 réis) e quase trezentos e cinquenta mil (90 réis), que após o seu período de circulação e validade ainda sobraram quatrocentos e sessenta e seis mil, setecentos e onze selos.

Essa expressiva sobra do nosso primeiro selo é explicada pelo fato de, na época, o hábito da correspondência estava em sua fase inicial, e sua necessidade ainda não se fazia sentir, pelo menos de maneira expressiva, para os padrões do Brasil imperial. Já por volta do ano de 1844, estando já em circulação outra série ordinária, a dos chamados Inclinados, os selos que não tinham sido utilizados foram todos queimados, e ninguém previu, como era natural, a futura raridade dos selos Olhos de Boi, que hoje estão cotado entre os selos mais caros do mundo.

Os selos Olhos de Boi foram impressos em folhas diversas, a saber: folhas de 54 selos, em três painéis de 18 selos de 30, 60 e 90 réis, em ordem crescente, cada painel enquadrado e separado por uma linha divisória horizontal ou espaço em branco (2 chapas). Folhas de 54 selos, em 3 painéis de 18 selos de 30 réis. Folhas de 60 selos, sem divisão, de 30 réis. Folhas de 60 selos, sem divisão, de 60 réis (2 chapas).

Os selos foram impressos em talho doce, com gravação da Casa da Moeda do Brasil, em chapas de cobre, e impressão das Oficinas de Estamparia das Apólices. Os selos não têm denteação. Os vários tipos de papel utilizados na confecção dos selos Olhos de Boi foram: papel médio acinzentado ou amarelado; papel expressão branco ou amarelado com relevo no verso, e papel fino transparente.

Assim, comemorando o Dia do Selo Brasileiro, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos lançara amanhã o selo comemorativo em homenagem à Juventude Filatélica, num excepcional desenho de autoria de Glan Calvi. 

terça-feira, julho 28, 2026

AVENIDA EDUARDO RIBEIRO (2)

 Para o melhor entendimento, esclareço que o jornalista Ulisses Azevedo escreveu este texto em 1979, recordando seu tempo de jovem “de 30 anos atrás”. Desse modo, relembrou a situação na virada dos anos 1940. Azevedo tomou a avenida Eduardo Ribeiro como amostra, dissecando as diversas atividades e personalidades que por ali passaram. Lembro-me dela dos anos 1960, quando já dispunha somente parte do registrado pelo autor, cujo artigo foi publicado em A Crítica. Aqui vai a parte final.

 Passemos agora para o lado direito da Avenida. Em [19]49, salvo erro, o Morgado não estava mais com o Ponto Chic, ali na esquina já se situava a loja Credilar, que não era da Moto Importadora e sim do Charles Hamut, o mesmo Charles que fundou a Rádio Rio Mar; vinha o escritório da firma Freitas & Cia., a Casa Martins, a casa de modas de Madame Verdade, a Ourivesaria Biase, com o Zé discutindo futebol e o Zuílo lá nos fundos, na bancada. Minha amiga Thereza Biaze não trabalhava na Ourivesaria e sim na firma Oliveira Negreiros (aproveito a oportunidade para uma homenagem ao saudoso amigo Pedro Manuel de Oliveira Negreiros, o velho Manezinho). Depois do Biase, onde é a “Exposição”, ficava um bar-restaurante cujo nome não lembro. E o Salão da Messody Henriques, o primeiro salão de beleza de nossa cidade. Depois não me lembro o que era, a memória falha, para se deter na “Maranhense”, da Verónica e da Olivia, minha colega de turma do Ginásio Amazonense, turma de [19]42, e que não se chama Olívia, e sim Maria do Perpétuo Socorro. Depois da “Maranhense” os “Reservados São Paulo”, do Didier Monteiro e, na esquina, a padaria do Osvaldo Loyo.

 Agora o outro quarteirão, Saldanha Marinho/24 de Maio. Do lado esquerdo, não sei se em [19]49 ainda estava a Mercearia Central ou a Alfaiataria Avenida, do Antonio Sá Freitas, “Esquina da Elegância” (não estou fazendo pesquisa, apenas forçando a memória). O escritório do Homero Sá; onde é um banco, nos altos eram duas moradias, do Edgard Gama e Silva e do Dr. Álvaro Bandeira de Melo, no térreo a Nestlé, o Depósito Público, seguia-se o IAPI, a funilaria do Celani, a Singer (nos altos a Rádio Baré), o Saci Bazar, Confeitaria Avenida, Padaria Avenida e a marmoraria do Veronesse (costumava ir tomar uns tragos com a turma de lá, mas de nome, só me lembro do Bibi e do Pereira, que também era guarda de trânsito).

O muro ia até a esquina, tinha uma casa dentro e uma garagem. Do lado direito, o Cine Odeon, o velho prédio com o maior salão de espera que um cinema possa ter, cheio de colunas e de espelhos, com cadeiras de palinha; ao lado a “Casa de Chopp”, depois “boate Odeon”, hoje tudo incorporado ao Shopping Center; e o edifício do Foto Artístico. onde no térreo A Crítica foi fundada; ao lado o escritório do dr. Adriano Queiros, o prédio de “O Jornal” e “Diário da Tarde”; o “Jornal do Comércio”; depois um muro do terreno dos Agostinianos, atualmente o edifício “Cidade de Manaus”.

Avenida Eduardo Ribeiro de nosso tempo

Quarteirão da 24 de Maio/José Clemente. Do lado esquerdo a residência do Coqueiro Mendes, presidente da Câmara Municipal, hoje o edifício “Palácio do Comércio”; depois, terreno baldio, murado, até a esquina. Do lado direito, o velho prédio da Associação Amazonense de Imprensa, e lembro o mestre Aristophano Antony, um verdadeiro líder da classe, sempre ao lado de seus companheiros de jornal; vinha o prédio da Associação Amazonense de Professores e na esquina o Tribunal Regional Eleitoral, edifício construído na época da Ditadura para o Departamento das Municipalidades, já demolido.

Quarteira da José Clemente/ 10 de Julho. Do lado esquerdo, o Palácio da Justiça; lembrar fatos históricos é impossível neste registro; o mesmo acontecendo com o lado direito, fundos do Teatro Amazonas. Nada mudou nesse quarteirão, apenas os dois majestosos edifícios foram recuperados.

Quarteirão 10 de Julho: Monsenhor Coutinho. Lado esquerdo, na esquina, a residência do “seu” Cruz, pai do Raimundo, do Zé Arthur, do Miguel, do João Cruz, todos meus contemporâneos do Ginásio. Terreno baldio, murado, e o Ideal Clube, o mesmo prédio atual, na época presidido pelo saudoso Dr. Gama e Silva, que prestigiava a turma da radiofonia local. Do lado direito, onde foi o Siroco e hoje é moderno edifício, um terreno baldio, murado. Seguiam-se residências de gente importante, lembro apenas do Dr. Aristides Rocha e da família Roessing. Na esquina, o palacete da família Miranda Corrêa, uma coisa linda em estilo colonial, lembrando a época faustosa da borracha quando em Manaus se fabricavam cervejas gostosas (XPTO e Amazonense, em junho e no Natal a Yankee, cerveja escura). Demoliram o belíssimo palacete e, em seu lugar, está aquele espigão horroroso.

E ai terminava a Avenida, dando para a Praça Antonio Bittencourt, que o povo passou a chamar de Praça do Congresso, por ter sido ali o I Congresso Eucarístico de Manaus. Olhando para a Avenida, o Instituto de Educação do Amazonas, a despertar saudades e gratas recordações a dezenas de gerações. Dona Eunice Serrano Teles de Souza, dona Lila Borges de Sá, nomes que ficaram, entre outros distintos educadores, a merecer a lembrança imorredoura da juventude que ali estudou e aprendeu. No Instituto de Educação funcionou a Assembleia, que depois passou para o prédio da Biblioteca, retornou ao IEA, até conseguir local próprio no Palácio Rio Branco.

Desculpem o exagero das repetições. Onde, atual, ali, era, era. Foi apenas um roteiro de saudades, que pode ser percorrido por quem conheceu a Avenida de 30 Anos atrás. Num passeio de saudades e muitas recordações.

AVENIDA EDUARDO RIBEIRO (1)

 Para o melhor entendimento, esclareço que o saudoso jornalista Ulisses Azevedo escreveu este texto em 1979, recordando seu tempo de jovem “de 30 anos atrás”. Desse modo, relembrou a situação na virada dos anos 1940. Azevedo tomou a avenida Eduardo Ribeiro como amostra, dissecando as diversas atividades e personalidades que por ali passaram. Lembro-me dela dos anos 1960, quando disponha somente parte do registrado pelo autor, cujo artigo foi publicado em A Crítica (19 de abril de 1979).

Consagrada foto do cruzamentos da Sete com a
Eduardo Ribeiro, início do sec. XX

Recorte de A Crítica, 19 abril 1979

A Avenida Eduardo Ribeiro, ou simplesmente a Avenida, de 30 anos atrás, tinha um         perímetro privilegiado, da esquina da Sete de Setembro até a Saldanha Marinho, um pouco mais além, em frente ao “Jornal do Comércio”. Até no Carnaval era assim, o movimento se concentrava naqueles dois quarteirões. A Avenida dos bares com mesas nas calçadas, dos paralelepípedos, dos bondes de Saudade e Circular, daqueles postes de ferro, ornamentais, bem no meio dos cruzamentos, com os lampiões a carvão, dos bate-papos que invadiam as madrugadas. Banco, na Avenida, somente lá na praça do Congresso, que já tinha esse apelido, embora se chame Praça Antonio Bittencourt. De todas as artérias de Manaus a Avenida é a única que tem limites, no começo e no fim, como quem diz, daqui pra lá ninguém passa. No início, o cais do porto, na época pertencente a Manáos Harbour Limited; lá em cima o Instituto de Educação, construído pelo interventor Álvaro Maia, onde o Eduardo Ribeiro ia fazer o Palácio do Governo deixando no segundo pavimento, que foi dinamitado ou coisa parecida pelo Ramalho Júnior, sabe Deus por quê.

Um passeio pela Avenida de 30 Anos atrás é tarefa difícil. Conheci cada pedaço de calçada, cada paralelepípedo, cada mesa ou cadeira de bar. A memória falha um pouco, a tentativa, porém, é válida quando as recordações nos obrigam a um retrocesso no tempo, e as saudades nos mergulham em coisas boas de um passado que, até certo ponto, foi risonho e feliz.

A parte de baixo da Avenida pouca coisa tinha a mostrar. No centro, o passeio ou abrigo para pedestres, com o Abrigo Pensador, o velho Relógio Municipal, o posto de gasolina do Juvenal Leite e um outro posto quase no cruzamento com a Sete. De um lado o Jardim da Matriz, muito diferente do atual, sem aquelas “casas” e garagens. Um jardim abandonado. Do outro lado, lá na esquina da Marques de Santa Cruz, “A Cosmopolita”, bar do Leite; a Alfandega velha, onde hoje é o edifício da Receita Federal; o resto era os “fundos” de alguma coisa: dos Snapp, da firma J. Rufino, da Eletro Ferro. Passado o cruzamento da Teodoreto Souto, esquina dos Correios, o panorama não mudava, sempre os “fundos”, pois a frente principal ficava na Marechal Deodoro: firma Solon Benemond, Antonio M. Henriques, armazéns da firma J. G. (se cortou até borracha na Avenida), na esquina com a Quintino Bocaiúva a Alfaiataria Poli, do velho Akel, onde o Josias era contramestre. Dali em diante começava a melhorar. Na esquina a Tipografia Reis, do amigo Ivo Reis (antes fora o laboratório Studart, fabricante do famoso Leite de Colônia; para quem não sabe, o Leite de Colónia, hoje internacional, começou naquela esquina, fórmula do velho Carlos Studart, que os filhos levaram para industrializar no Sul). Depois da tipografia vinha a Perfumaria Jelly e uma outra casa comercial. Na esquina da Sete já estava a Lobrás, embora no velho prédio que fora da firma Adrião Barroco.

Cartão Postal da avenida, 1909

Atravessando a Sete, começava propriamente a Avenida, o grande movimento. Do lado esquerdo o bar Americano, com restaurante e reservados, onde hoje se situa um banco; ao lado (agora a loja Credilar) ficava a Leitaria Amazonas, que não vendia leite, mas servia uma cerveja bem geladinha. Os dois bares tinham mesas nas calçadas, bem frequentados nos fins de tarde e início das noites; vinha então a Alfaiataria Esportiva, do Figueiredo (pai da Rosa, do Wilson, do José), o Bangu era o contramestre e, parece, já estava lá o escritório da Juteira Lustosa do meu querido amigo Waldemiro Lustosa. A seguir, vinham as garagens: Esportiva, do Odorico Andrade, Antonio e Júlio Seixas; depois a União, do Gago e João Avelino; a Brasil e a Rio Negro, do velho Antonico. Os carros ficavam estacionados no meio da rua. Na esquina o Leão de Ouro, aberto dia e noite.

No mesmo quarteirão Avenida Sete/Henrique Martins não lembro se em [19]49 era a Drogaria Popular, onde o Gustavo Roessing atendia com muita presteza, ou se o “seu” Hatoum já havia instalado a “Esquina das Sedas” (agora um moderno edifício); onde é o “Palácio da Moda”, era a loja “A Violeta”, do saudoso Mário Covas (ali eu conheci meu amigo Belmiro Vianez, que tinha saído do Chico Preto); depois o Salão Avenida, do Severino Miranda, o Beleza era o barbeiro mais solicitado, depois virou um café; vinha a ourivesaria da firma A. Rodriguez, a Relojoaria São Paulo, de São Paulo & Martinho e o consultório do Dr. Flávio de Castro, onde se reuniam, na calçada, figuras expressivas da política e dos meios sociais da cidade. O Dr. Flávio, de saudosa memória, presidente do Rio Negro e do PSD, cavalheiro distinto e figura humana das mais positivas que conheci. Ali era o “muro das lamentações”, mais famoso e frequentado que o atual “canto do fuxico”. Na esquina, o “Restaurante Central”, com boa comida e aquelas mesas de toalhas bem limpas e um jarro de flores no centro.

Vamos passar ao outro quarteirão, da Henrique Martins até a Saldanha Marinho. Na esquina, onde está a Cruzeiro [do Sul], era a Farmácia Barreira, do velho Augusto, que depois passou para o lado; o bazar Avenida e o Bazar Esportivo, do “seu” Pinto, ali conheci o Amaranto, hoje fotógrafo de A Crítica, na época já lidando com fotografia. Uma pausa para uma apresentação merecida: o CAFÉ DA PAZ, nunca vendeu café e era um dos lugares mais barulhentos da cidade (para falar dos bares da Avenida, somente matéria especial, por isso fico apenas na apresentação).

O cinema Avenida, com “seu” Aurélio e dona Yayá sempre na porta, cumprimentando os conhecidos. Não sei se em [19]49 depois do cinema vinha a firma A. Bernardino ou se o escritório já era dos irmãos Carlos e João Braga. Depois a fotografia Avenida, do Álvaro Mendes, o consultório de dentista do Abelardo Melo, a Casa das Velas, a marcenaria e chegava-se ao famoso bar Avenida, na época do Júlio, o maior salão da cidade com reservado e tudo. Basta se ver o espaço ocupado pela agência do Bradesco, para se ter uma ideia do bar. (segue)

segunda-feira, julho 27, 2026

MEUS OITENTANOS (11)

  

FASCÍCULO 11 


Ao me apresentar na caserna em janeiro de 1972, o comando me consultou sobre a aceitação de frequentar o CAO, curso policial militar obrigatório, em Fortaleza.  A despeito da obrigatoriedade, eu poderia ter adiado por um ou mais períodos, porém, diante do entusiasmo com a recente viagem, como podia levar a família, e o curso se estenderia até dezembro, aceitei prontamente, trocando-o pelas benesses da Tesouraria.

Comemoração do Dia de Tiradentes, no
quartel da Praça da Polícia - 1971

Em Fortaleza, aluguei a casa antiga de um dentista, na rua Ildefonso Albano (na época rua Antonio Bezerra), próximo à praia no bairro de Meireles; um ponto de referência era a primitiva fábrica da Coca-Cola na avenida Monsenhor Tabosa, a duas quadras de meu endereço, outro, era a sede da Secretaria de Educação. Antes de prosseguir devo esclarecer que a cidade estava longe de dispor dos recursos que a transformaram em atração turística nacional.  A PM cearense, organizadora do CAO (Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais) acabara de inaugurar a Academia de Polícia, aproveitando instalações antigas, situada na avenida Mister Hull, prolongamento da avenida Bezerra de Menezes, zona oeste de Fortaleza. O detalhe auspicioso era o funcionamento do curso na parte vespertina, que me servia para circular pelas adjacências nas manhãs. 

Por ser o primeiro curso realizado na corporação cearense, enfrentou os percalços pertinentes de uma estreia. A turma compunha-se de oficiais locais, além de dois do Maranhão e dois do Amazonas. Dediquei-me com afinco, sem grande dificuldade, pois vinha diretamente dos bancos da faculdade, e o programa foi desenvolvido exclusivamente em sala de aula. Não houve atividades externas nem conhecimento do serviço prático, como visitas às unidades do interior alencarino. Tive o deleite de deixar uma marca indelével no brasão da Academia, iniciativa do distinguido capitão Paula Pessoa. Coube-me apresentar a proposta vitoriosa do lema: Vigilando discimus, isto é, aprendemos para vigiar. Ainda que a aparência do emblema não seja jeitosa, marquei minha frequência no CAO/1972.

Até então não usava óculos, o motivo era simples: nunca havia me consultado. Havia ludibriado o médico ao ingressar no Exército e, ao incluir na PM do Amazonas, sequer passei por exames. Aos 26 anos, observando as dificuldades para ler a placa do ônibus em direção à Academia, ou as legendas de filmes nos cinemas da praça do Ferreira, ou na televisão recém inaugurada a cores, recorri ao especialista, que então era nominado de Oculista. Aconteceu no hospital da Polícia Militar do Ceará meu primeiro exame de vista, há 54 anos! O nome desse facultativo o implacável tempo desmanchou da minha memória. Estava tão deteriorada minha visão que, interrogado pelo oculista pelas letras na parede, devolvi: “que parede?”. A prescrição inicial foi de três graus em cada lente, a fim de ser observada a evolução do tratamento. O olho direito, o mais avariado chegou a cinco graus; hoje, após o reparo da catarata, uso óculos civilizados. Encomendei as lentes em uma ótica situada na Praça do Ferreira e, quando as recebi, ainda relembro o entusiasmo que me tomou ao estrear os óculos. As cores estavam vibrantes e todos os letreiros do entorno foram devassados, assim como o dos ônibus, enfim, estava em condições de assistir à inauguração da TV em cores, realizada na citada praça, comigo presente.

A visita ao hospital me proporcionou preparar a ficha do atendimento de minha esposa Graça, gestante do terceiro filho, com parto previsto para dezembro. No feriado da Semana da Pátria, voltei a Santos com a família. Na despedida, aceitei que a esposa retornasse em novembro, permitindo o nascimento de um santista. No entanto, quando no início de novembro festejei o 1º aniversário do Roberto filho, acelerei o parto da Graça. Como havia acertado, o hospital da PM acolheu a parturiente e, pela madrugada de 5 de novembro, nasceu o Carlos Eduardo. Ao retornar à casa, fui interrogado pela apreensiva avó Edna: “que tal, como foi o parto?”, respondi, sem atentar para o sentido do gracejo: “tudo bem, nasceu o cabeça chata”. Soluçou ela: “oh! meu Deus!” Eduardo, hoje, é casado com a Cintia e pai do Eduardo Souza.

      Avó Edna e Eduardo

Premiando o curso, o comando da Academia custeou uma viagem de estudos, incluindo visita a São Luiz do Maranhão, em razão dos colegas; seguimos a Belém, de onde voamos de Catalina rumo a Altamira para observar a construção da rodovia Transamazônica, tida como a obra-símbolo do governo militar na Amazônia e, para encerrar o trajeto, graças aos alunos amazonenses – eu e o capitão Carneiro – visitamos a Zona Franca de Manaus. Em reunião realizada no quartel da Praça da Polícia, constatei que o comando havia promovido uma reforma interna no edifício, ao construir um corredor que dividiu os amplos salões em espaços menores para atender à reorganização administrativa.

Alunos do CAO 72-PMCE, chegando a Manaus

Ao retornar a Fortaleza, veio a formatura do CAO, que aconteceu em 15 de dezembro, e foi realizada no Ginásio Paulo Sarasate. Obtive aprovação entre os cinco primeiros, fato que me deixou exultante, em especial, diante do desastre padecido no curso de armamento. 

domingo, julho 26, 2026

POEMA DOMINICAL (45)

 O autor - Max Carphentier (abril de 1945), publica este poema no Jornal do Commercio, edição do domingo, 25 julho 1976 - há 50 anos.

Jornal do Commercio, 25 jul. 1976 - não foi
possível identificar o ilustrador 

O CANTO DO POETA 

Ribalta de ninguém, esta / rotura clássica / do granito em sépalas / de espanto / 

não poderá tecer-te / de rápida platina: toda / liquifação da flora não / resumirá o ilógico do instante, / mormente o que separa o antes / do sempre nos cabelos da lembrança / firme, 

peregrina nas tumbas de um / deserto / (a tara fica, fica e vai / pousar apenas renda em / teus quadris).

E na fronte insentida / (que adormece) / o abandono cai com a mesma / consternação irreparável / da lágrima de um lírio / de setembro.

sábado, julho 25, 2026

DIA DO ESCRITOR

 

Após breve dúvida, para comemorar o Dia do Escritor, revisei meus arquivos sobre o in memoriam  Ramayana de Chevalier (1909-72 ), que, no decorrer de 1961, há 65 anos, publicou crônicas e artigos no extinto jornal A Gazeta. Quase encerrando aquele ano, Chevalier demonstrou sua erudição ao comentar “A Raposa e as Uvas”, peça apresentada no Teatro Amazonas pelo Teatro Escola.

Ramayana de Chevalier

 BEBE O MAR, XANTÓS!

 Ramayana de chevalier

A GAZETA, 19 de dezembro de 1961

 

QUANDO as centelhas do primeiro relâmpago rasgaram os céus, entre massas de nuvens e pavores eternos, duas criaturas se digladiavam, filhos do mesmo Deus, o Anjo do Bem e o do Mal, enquanto dentro da caverna, começava a se esboçar, no alto do monte, a palavra mágica de Zaratustra. O que Nietzsche fixou, milênios depois, significa o nascimento do teatro. Essa luta milenária é o sangue e a voz do teatro.

Ainda estou emocionado, até agora, com a reapresentação de A Raposa e as Uvas, poema de profunda crispação estética, filho do talento de Guilherme Figueiredo. Se o Novo Amazonas pode ser afirmado, em realidade, é num momento desses. Aos saudosistas, não resta senão um gesto de compreensão. Jamais, em todo o nosso passado artístico, tivemos uma tão profunda demonstração de pujança intelectual, de criação interpretativa, do que durante o drama grego, da autoria daquele inolvidável Guilherme Figueiredo, nos nervos da equipe amadorista do nosso Teatro Escola.

A vida, no seu conturbado mistério, que se confunde com o mistério do teatro, na apreciação de Jean-Louis Barrault [1910-94, ator francês], a destinação dos sábios, o prêmio transitório da fortuna à mediocridade, a intriga dos simples e, ao cabo de tudo, o imenso triunfo do Amor, em toda a sua plenitude, a vitória do Espírito sobre a Matéria, assim é o desenrolar dessa peça maravilhosa, lição, diversão e glória. Com o Ponto a cargo de Geraldo Xavier e a direção de cena sob o comando de Aldemar Bonates e Francisco Aragão, a peça se mostrou ao nosso povo, que a aplaudiu delirantemente durante vários minutos, por duas vezes, com o cenário sóbrio, elegante, real e harmonioso, sobretudo histórico e sugestivo. É uma residência grega de um filósofo rico, com toda a vertiginosa beleza do seu tempo.

O ponto alto da representação é a figura monstruosa de Esopo, revelado pelo talento de Alfredo Fernandes. A caracterização, a justeza de atitudes, a presença do corcunda que, como um Caliban, horripila pelos olhos, mas que é um Ariel no espírito, tudo se reuniu para dizer da alta dramaticidade, da voz segura e impostada, do sucesso rigorosamente perfeito do intérprete do feio samósata. Hélio Azaro esteve magnifico. Xantós, o filósofo, através do seu talento cênico, revive e entusiasma, dá-nos a ideia nítida da fraqueza humana em todos os tempos, a exaltação da vida luxuriosa e fútil, a enorme lição da desumanidade vencida. Mauricio Wanderley, no Etíope, está bem posto, discreto e sincero, enquanto Carlos Araújo, em Agnóstos, é uma expressão teatral de porte soberbo. Terezinha Tribuzzi, em Melita, admirável corporificação das grandes passionais da Hélade antiga, dá-nos um papel natural, elegante, sutil, capaz de emocionar nas horas amenas de convívio com Xantós, como nos lances dramáticos de dedicação ao seu amor oculto. Ao seu lado, Ana Maria Araújo, numa Clea radiosa, viva, bela e espontânea, figura imponente de uma Grécia que nos deu Parmênides e nos deu Safo, honrando ao elenco.

O conjunto excedeu a todas as expectativas. Houve uma alma de santo passeando pelos corredores, afagando sacrifícios, velando, ora a assistir para ajudar, ora a viver os papéis antes de explicá-los, ora a desaparecer na sua modéstia, como a luz das cavernas, que ilumina sem ser pressentida: Américo Alvarez, um dos diretores artísticos do Teatro Escola Amazonense de Amadores. Mas o Amazonas, como sempre, deve tudo aos que aqui chegam, para cumprir um fadário, e terminam enleados na tremenda realidade telúrica e morrendo numa saudade doce e eterna.

O Amazonas deve o sucesso de A Raposa e as Uvas, a dois espíritos de brasileiros de outras paragens. Um deles, esse inefável e indescritível Gebes Medeiros, dínamo de capacidade invulgar, sonhador incorrigível, dono de uma extraordinária inteligência criadora. Veio de Alagoas e luta, com um punhado de heróis, pela grandeza de nossa cultura. O seu esforço, à frente do Teatro de Amadores, comove. Sou um decidido e obscuro voluntário do seu exército de párias, aplaudindo-o freneticamente. Em Gebes, quando se o aplaude, não se o faz a um homem em carne e osso, mas a uma materialização de artista, de todos os tempos, hábil e bom como um veio d’água.

E, como os veios d’água, ele se deixa atravessar pela luz, fixando-a nas suas cores e no seu brilho. A outra criatura a quem o Amazonas já muito deve, nesta fase de ressurreição estética, é uma paulista, de sangue misturado como as águas do Amazonas: Úrsula de Noronha Santos. Esposa do engenheiro Noronha Santos, que luta, ao lado de outros técnicos, por dotar Manaus de um sistema luminoso moderno, Úrsula é um talento recortado de um álbum de Fra Angélico. Nunca deixará de ser criança, pois só às crianças é dado sonhar com as coisas de Deus. Foi ela a autora daquele cenário maravilhoso, uma das diretoras artísticas do conjunto, interferindo nos gestos, na mímica, na voz, na conduta e nos ensaios dos atores. Foi ela a sombra meiga que se devotou a uma causa, cujo sentido, só os altos espíritos podem compreender. Num momento em que se dá tanto título de “cidadão do Amazonas” a quantos elementos mal se conectam com a nossa vida interior, com as vibrações do nosso espírito planiciário, urge que deputados, bem intencionados, outorguem esse título a esses dois brasileiros de outras paragens, unindo-os espiritualmente a nós, para toda a vida.

Ao Governo do Estado, que se entusiasma tanto com as realizações legítimas, que nos honram e nos enobrecem, um apelo: que o Teatro Escola Amazonense de Amadores saia por esse Brasil, mostrando aos patrícios, o que já conseguimos pela cultura e pela inteligência, levantando-nos do nada, erguendo-nos da crise, vivendo pelo espirito e pela Arte. Isso é fazer um Novo Amazonas, superior ao antigo, maior, bem maior do que o das eras do oiro e do champagne, como afirmação de sentimento, de estudo e de cultura. O que eu vi no Teatro Amazonas me deixou completamente em êxtase. Natacha, contemplativa, estava de lágrimas nos olhos, a mais bela homenagem ao gênio dos intérpretes caboclos. ***

quinta-feira, julho 23, 2026

PRAÇA RIBEIRO JÚNIOR (2)

 Há setenta e um anos, precisamente em 23 de julho de 1955, foi aberta ao público a então denominada Praça Ribeiro Junior, instalada no canteiro central da avenida Leovigildo Coelho e delimitada entre as ruas José Paranaguá e Lima Bacuri. 2 anos depois, ela foi soterrada. A postagem – dividida em duas seções – expõe o texto do saudoso jornalista e acadêmico Arlindo Porto, publicada em A Crítica, em 23 julho de 1978.

Recorte do livro editado em Manaus
Detalhe do artigo de Arlindo Porto

                                                     SALVE  RIBEIRO JÚNIOR

Arlindo Porto

Tudo isso ocorreu após os eventos golpistas de 1964, nada tendo eu podido fazer a respeito, nem mesmo protestar contra a agressão à memória de Manaus, pois tangido pelas circunstâncias, me auto exilara e fixara residência por mais de 10 anos, no Rio de Janeiro. Manda a justiça que se proclame, no entanto, que atendendo a uma solicitação que eu lhe fizera, o prefeito Paulo Pinto Nery, no que se obedecia a uma recomendação do próprio mestre Branco e Silva, então já falecido, mandou pintar todos os anos, enquanto esteve à frente da Prefeitura, a herma de Ribeiro Junior com a cor bronzeada apropriada, o que levou muita gente, até hoje, a pensar que a peça fora elaborada naquele precioso metal. Esse trabalho na conservação somente deixou de ser feito após a saída de Paulo Nery da Prefeitura, com o consequente escorraçamento da herma da praça que tinha o nome do homenageado.

Quanto à herma, em nova avalanche modernizadora, esta já ocorrida na gestão atual do sr. Manoel Henriques Ribeiro, foi derrubada da anônima e anódina mureta em que fora depositada, e desapareceu. provavelmente soterrada nos trabalhos de nivelamento ocorridos na praça da Saudade.

Quanto à praça em si, penso que esta continua existindo oficialmente, tal como já afirmei antes. Pelo menos não é do meu conhecimento a aprovação de qualquer lei extintora da homenagem, pela Câmara Municipal. É bem verdade que ela não aparece na planta de Manaus impressa no catálogo telefônico da cidade, mas este não é um documento plenamente confiável, pois até chega a grafar o nome do grande Heliodoro Balbi, como “Heliodora Balisa'”... Até bem pouco tempo o nome de Ribeiro Júnior continuava aparecendo nas contas de água, luz e telefone. Agora já não sei.

É bem verdade que, com a expulsão e degredo da herma para a praça da Saudade e desaparecimento da passarela central, o logradouro que homenageava o “Redentor” perdeu visualmente a condição de praça, nada mais tendo que possa sequer lembrar haver existido ali, algum dia, aquela característica urbana.

Creio ser chegado o tempo daqueles que pugnam pela manutenção da memória de nosso Estado, tendo à frente o Instituto Geográfico e Histórico, de encetar uma campanha junto às autoridades competentes, no caso a Câmara Municipal e a Prefeitura, para que se nomeie uma outra área da cidade com o nome de Alfredo Augusto Ribeiro Junior e para ali se devolva, renovada, a sua herma, a fim de que as gerações que nos sucederem tenham a oportunidade de recordar a figura brava de um homem que, mesmo aqui não tendo nascido, não vacilou em arriscar sua carreira e o seu futuro em bem do povo amazonense.

terça-feira, julho 21, 2026

PRAÇA RIBEIRO JÚNIOR (1)

 Há setenta e um anos, precisamente em 23 de julho de 1955, foi aberta ao público a então denominada Praça Ribeiro Junior, instalada no canteiro central da avenida Leovigildo Coelho e delimitada entre as ruas José Paranaguá e Lima Bacuri. Morei neste logradouro por seis anos, a partir de 1967, e acredito que até sua desativação teve, no máximo, 60 moradores; pois somente existiam residências de um lado, do outro, estava o muro do quartel da Polícia Militar, hoje Palacete Provincial. Ainda me recordo: residi no Edifício Lilac, nº 348, entre a casa do seu José – onde vivia com cerca de uma dezena de filhos – à direita, e, à esquerda, uma oficina mecânica. Sucediam-se a big residência do Ali Assi; a do Adriano, proprietário dos cinemas; uma casa onde no térreo funcionava um comércio de medicamentos e, na esquina da Lima Bacuri, a moradia do desembargador Lucio Resende.

 

Detalhe da capa do livro
lançado em Manaus

A postagem – dividida em duas seções – expõe o texto do saudoso jornalista e acadêmico Arlindo Porto, que manifesta sua admiração pela Revolução de 1924 e ao altaneiro e sua maior expressão: tenente Ribeiro Junior.

SALVE  RIBEIRO JÚNIOR

Não estava de nenhuma forma destituída da razão a senhora Yara Ramos Ribeiro, filha de Alfredo Augusto Ribeiro Júnior, quando afirmava, em 1985, à passagem do 47º aniversário da morte do instituidor do “Tributo da Redenção” no Amazonas, ocorrida em 29 de junho, que a memória do seu pai, o grande revoltoso de 1924, “está completamente esquecida dos amazonenses”. E ainda quando dizia que “o busto de Ribeiro Júnior está azinhavrando num pequeno nicho, num logradouro bem identificado pela palavra saudade”. Esta última afirmativa, por sinal, deve soar até agravada dois anos depois de feita, porque na realidade o busto, nas últimas reformas municipais procedidas na Praça da Saudade, tomou rumo ignorado, volatilizou-se. Coisas de uma terra que não cultiva a memória. 

Recorte do artigo de Arlindo Porto,
jornal A Crítica, 23 julho 1987

Cometia, no entanto, aquela querida amiga uma meia verdade, quando afirmava que “nada mais resta em Manaus que lembre essa figura histórica, nem mesmo a praça com o seu nome, inaugurada a 23 de julho de 1955”. Resta sim. A praça, embora visualmente desfigurada pela ação  municipal, ao tempo da gestão Jorge Teixeira, que no seu dinâmico afã de dar aos ônibus um corredor de trânsito que facilitasse saída dos grandes carros do centro urbano da cidade, mutilou completamente a avenida Floriano Peixoto, anulando a passarela central destinada aos pedestres, derrubando-lhe todas as árvores e, na prática, devolvendo-lhe, por descaracterização, o trecho que antes pela existência de um marco assinalativo, configurava a Praça Ribeiro Júnior.

Contudo, se esta não existe de fato, pelo menos existe de direito. Não é um grande consolo para ninguém afirmar tal coisa, mas a lei municipal que a criou está em plena vigência. Não foi anulada.

Permitam-me um depoimento pessoal: criei-me assistindo, todos os anos, no dia 23 de julho, uma comovente demonstração de lealdade à memória de Ribeiro Júnior, marcada por salvas de foguetões desde o alvorecer e por um lauto almoço, na Cachoeirinha, tudo promovido pela generosa e depreendida iniciativa de Philadelfo Moraes, que ainda na data famosa divulgava pela imprensa um artigo laudatório exaltando a figura do grande comandante da revolução de 1924.

Da pessoa de Ribeiro Junior eu me recordava apenas, e muito vagamente, como de um homem muito alto, imponente no envergar de sua farda de oficial do Exército, de quem certa vez estive bem perto, levado pela mão de meu padrinho e pai adotivo, o ser humano extraordinário que foi Aristeu Guimarães, também ele um grande admirador do Redentor. Recordo-me também, menino, das grandes concentrações humanas, ali pelo “roadway” da Manaus Harbour, quando Ribeiro Junior chegava a Manaus, de navio, e o povo ia recebê-lo, no cais.

Em 1955, aos 26 anos de idade, já atuando na imprensa de Manaus, provavelmente tocado pelas reminiscências da infância, dispus-me a fazer alguma coisa, diante da inexistência de qualquer homenagem oficial ou mesmo oficiosa ao homem que acorrera em favor dos amazonenses, humilhados e ofendidos diante de uma oligarquia corrupta, insurgindo-se 31 anos antes contra a situação constituída e derrubando um governo que não correspondia aos anseios do povo.

Encontrei apoio para aquela “alguma coisa”, na pessoa de Walter Scott da Silva Rayol, um saudoso amigo, também ele um inconformado com o esquecimento em que jazia a memória de Ribeiro Junior. Vereador à Câmara Municipal de Manaus, dos mais brilhantes que aquela Casa conheceu, ele se encarregou de apresentar à consideração dos seus pares a lei de criação da praça, em local por nós escolhidos, em meio a longos conciliábulos.

Assim, graças a ação de Zé do Parque (nome com que Rayol assinava seus pitorescos artigos sobre futebol), deu-se o nome de Ribeiro Junior ao trecho da avenida Floriano Peixoto compreendido entre as ruas José Paranaguá e Lima Bacuri.  Com a total cobertura do “Jornal do Commercio”, do qual era eu o secretário da Redação, encetamos uma campanha e através de subscrições populares, obtivemos o dinheiro, primeiro para as placas da praça, que foram confeccionadas em mármore, pelo Mário Orofino, a preço que nem pagava a matéria-prima. Quanto ao busto, ou melhor, a herma do homenageado, como o dinheiro arrecadado fora pouco (o tempo era de vacas magérrimas) e não dava para que o confeccionássemos em bronze, material eterno, foi o mesmo modelado, sobre fotografia, pela arte de Branco e Silva, também engajado na campanha e que nada cobrou pelo trabalho. A composição final da estátua foi feita em liga de cimento, areia finíssima e colas, invenção do saudoso mestre amazonense, que pinta pelas suas mãos geniais, dava a nítida impressão de bronze.

Finalmente, no dia 23 de julho de 1955, com a presença em Manaus de Yara Ramos Ribeiro, filha do homenageado, inauguraram-se as placas, tornando a praça oficialmente existente, numa festa que não pude estar presente por me encontrar viajando. O ato seguinte foi a inauguração da herma, bem no centro da praça, o que se fez aos moldes de qualquer festa desse tipo, com oradores e tudo. Dentre estes, lembro-me que falou, com a mesma veemência de 31 anos antes, quando aplaudia a revolução das sacadas e palanques, o grande tribuno popular Hemetério Cabrinha.

Os anos correram, veio o Teixeirão e os seus executivos de obras, na febre de modernizar — e desumanizar? —  Manaus, devolveram a avenida Floriano Peixoto, que se pretendia bucólica e com uma passarela central arborizada, à condição de via trepidante e congestionada permanentemente. A obra foi impiedosa com a homenagem feita ao grande revolucionário de 1924, pois a herma em seu louvor, para memória das gerações sucessoras à sua, que estadeava no meio da praça com o seu nome, sobre um belo pedestal, foi dali arrancada e levada para um recanto especialmente construído na praça da Saudade, onde foi juntar-se a outros bustos e hermas para ali também exilados, juntamente com as placas alusivas. Destas, no correr dos tempos, se encarregaram os vândalos, pois foram todas destruídas. (SEGUE)

segunda-feira, julho 20, 2026

MEUS OITENTANOS (10)

            FASCÍCULO 10

 No Amazonas, assumiu o governador João Walter e, na Polícia Militar, o coronel Paulo Figueiredo (1971-73), que me manteve na função de Tesoureiro. A prestação de contas ocorria ao final do mês ao comandante, militar bastante exigente com as verbas recebidas, afinal cabia a ele responder por algum deslise junto à Corte de Contas. Certa ocasião, ele me interrogou: você já frequentou a alcova de alguma madame? “Sim, comandante”, respondi, meio ressabiado. Ele então ordenou que olhasse para as paredes da repartição, nelas eu havia colado alguns cromos florais, extraídos de calendários fornecidos pelas indústrias instaladas na cidade. Daí a comparação com os quartos de motel, enfim, foi uma forma simpática de mandar o capitão limpar as paredes. Quem sabe, por isso, sigo colando cartazes e outros impressos na parede de meu escritório doméstico.

 

Quartel da PM na Praça da Polícia, onde trabalhei
e estacionei meus carros.

Em maio, foi criada pelo governo a Comissão de Defesa Civil, que passou a atuar já no mês seguinte. O final de junho marcou o ápice da enchente regional, naquele mês vários municípios e bairros da capital ficaram severamente alagados, atingindo os moradores. Com o objetivo de lidar com a tragédia, o governo repassou ao comando da PM valores para a aquisição de gêneros básicos. Tratando-se da primeira vez em que esse procedimento seria executado, recebi instruções severas do chefe quanto à compra dos alimentos. A importância dos recursos era relativamente elevada; e logo recebi uma oferta de gorjeta. A fim de não me envolver na transação, terceirizei a negociata com o Amazonilo Castro, colega da faculdade, que realizou as compras no desaparecido Supermercado Royale. Com o troco obtido, comprei um Fusca seminovo disfarçando, com mais ou menos sucesso, o ardil.

Possuía, pois, dois automóveis que eram guardados em frente ao quartel, visto não possuir garagem minha residência; apesar de usados despertavam os olhares argutos do chefe da seção de informações. E veio mais um complicador: o amigo e compadre Mohamed Tarayra, dono de lojas na rua Marechal Deodoro, ao viajar deixava comigo seu admirável carro, que igualmente estacionava em frente à caserna. Logo, eu possuía três carros e, sendo tesoureiro, estava me locupletando na função. Enfim, as suspeitas permaneceram apenas nos rumores. A faculdade mantinha-me empolgado; em casa, idem, tanto que chegou a notícia de nova gestação, com nascimento previsto para novembro. 

Roberto Antonio, aos 34 anos

O bebê, que acompanhando a norma ancestral, batizei de Roberto Antonio, em homenagem ao pai e ao tio, nasceu no Dia de Finados. O parto previsto para o início de novembro, seria realizado no Pronto Socorro São José e eu havia contratado o obstetra doutor Wallace Oliveira, com consultório na rua Guilherme Moreira. No dia dos finados, o médico encontrava-se no feriado em seu sítio, inacessível. Ainda estava incipiente a comunicação telefônica móvel. Diante da apreensão do casal, apareceu uma enfermeira cujo nome não anotei e garantiu a vinda do moleque e que, caso sucedesse algum imprevisto, a Santa Casa situava-se ao lado. Tudo correu bem. Dias depois, no cartório para efetuar o registro, antes de indicar a data do nascimento, refleti: quem vai comemorar aniversário no Dia dos Mortos? Então, fixei – 3 de novembro, sem imaginar que no ano seguinte, Eduardo, nasceria a 5, e Diego, anos depois, a 7. Curiosamente, a madrinha batismal de RA, dona Dadá Fonseca, nasceu em 2 de novembro.

 

Rua Conselheiro Nebias, 301

As férias marcadas para dezembro ocorreram, agora com a família acrescida, inclusive da sogra e da cunhada, e fomos desfrutá-las em Santos, junto aos pais e irmãos, instalando-nos no apartamento 31 da rua Conselheiro Nebias, 301, que havia se transformado numa pousada, todavia, reconfortante pelo reencontro das famílias. Viajei de paletó e gravata, retomando o estilo de antanho, e aproveitando dois cortes de casimira de cortesia de amigos. Em Manaus, a confecção de roupas ocupava intensamente os alfaiates, que acumulavam encomendas. A família chegou à noite e, a despeito da hora, os peixes regionais foram levados ao fogo e servidos para acompanhar o bate-papo, que se prolongou pela madrugada. O verão santista foi salutar, contudo, as férias chegaram ao fim. Em janeiro de 1972 retornei à residência para cuidar dos pimpolhos e, ao quartel, da tesouraria.