QUANDO
as centelhas do primeiro relâmpago rasgaram os céus, entre massas de nuvens e
pavores eternos, duas criaturas se digladiavam, filhos do mesmo Deus, o Anjo do
Bem e o do Mal, enquanto dentro da caverna, começava a se esboçar, no alto do
monte, a palavra mágica de Zaratustra. O que Nietzsche fixou, milênios depois, significa o nascimento do teatro. Essa
luta milenária é o sangue e a voz do teatro.
Ainda
estou emocionado, até agora, com a reapresentação de A Raposa e as Uvas,
poema de profunda crispação estética, filho do talento de Guilherme Figueiredo.
Se o Novo Amazonas pode ser afirmado, em realidade, é num momento desses. Aos saudosistas,
não resta senão um gesto de compreensão. Jamais, em todo o nosso passado
artístico, tivemos uma tão profunda demonstração de pujança intelectual, de
criação interpretativa, do que durante o drama grego, da autoria daquele
inolvidável Guilherme Figueiredo, nos nervos da equipe amadorista do nosso
Teatro Escola.
A
vida, no seu conturbado mistério, que se confunde com o mistério do teatro, na
apreciação de Jean-Louis Barrault [1910-94, ator francês], a destinação
dos sábios, o prêmio transitório da fortuna à mediocridade, a intriga dos
simples e, ao cabo de tudo, o imenso triunfo do Amor, em toda a sua plenitude,
a vitória do Espírito sobre a Matéria, assim é o desenrolar dessa peça
maravilhosa, lição, diversão e glória. Com o Ponto a cargo de Geraldo Xavier e
a direção de cena sob o comando de Aldemar Bonates e Francisco Aragão, a peça
se mostrou ao nosso povo, que a aplaudiu delirantemente durante vários minutos,
por duas vezes, com o cenário sóbrio, elegante, real e harmonioso, sobretudo
histórico e sugestivo. É uma residência grega de um filósofo rico, com toda a
vertiginosa beleza do seu tempo.
O
ponto alto da representação é a figura monstruosa de Esopo, revelado pelo
talento de Alfredo Fernandes. A caracterização, a justeza de atitudes, a
presença do corcunda que, como um Caliban, horripila pelos olhos, mas que é um
Ariel no espírito, tudo se reuniu para dizer da alta dramaticidade, da voz
segura e impostada, do sucesso rigorosamente perfeito do intérprete do feio samósata.
Hélio Azaro esteve magnifico. Xantós, o filósofo, através do seu talento
cênico, revive e entusiasma, dá-nos a ideia nítida da fraqueza humana em todos os
tempos, a exaltação da vida luxuriosa e fútil, a enorme lição da desumanidade
vencida. Mauricio Wanderley, no Etíope, está bem posto, discreto e sincero,
enquanto Carlos Araújo, em Agnóstos, é uma expressão teatral de porte soberbo.
Terezinha Tribuzzi, em Melita, admirável corporificação das grandes passionais
da Hélade antiga, dá-nos um papel natural, elegante, sutil, capaz de emocionar
nas horas amenas de convívio com Xantós, como nos lances dramáticos de
dedicação ao seu amor oculto. Ao seu lado, Ana Maria Araújo, numa Clea radiosa,
viva, bela e espontânea, figura imponente de uma Grécia que nos deu Parmênides
e nos deu Safo, honrando ao elenco.
O
conjunto excedeu a todas as expectativas. Houve uma alma de santo passeando
pelos corredores, afagando sacrifícios, velando, ora a assistir para ajudar,
ora a viver os papéis antes de explicá-los, ora a desaparecer na sua modéstia,
como a luz das cavernas, que ilumina sem ser pressentida: Américo Alvarez, um
dos diretores artísticos do Teatro Escola Amazonense de Amadores. Mas o
Amazonas, como sempre, deve tudo aos que aqui chegam, para cumprir um fadário,
e terminam enleados na tremenda realidade telúrica e morrendo numa saudade doce
e eterna.
O
Amazonas deve o sucesso de A Raposa e as Uvas, a dois espíritos de
brasileiros de outras paragens. Um deles, esse inefável e indescritível Gebes Medeiros,
dínamo de capacidade invulgar, sonhador incorrigível, dono de uma
extraordinária inteligência criadora. Veio de Alagoas e luta, com um punhado de
heróis, pela grandeza de nossa cultura. O seu esforço, à frente do Teatro de
Amadores, comove. Sou um decidido e obscuro voluntário do seu exército de párias,
aplaudindo-o freneticamente. Em Gebes, quando se o aplaude, não se o faz a um
homem em carne e osso, mas a uma materialização de artista, de todos os tempos,
hábil e bom como um veio d’água.
E, como os veios d’água, ele se deixa atravessar pela luz, fixando-a nas suas cores
e no seu brilho. A outra criatura a quem o Amazonas já muito deve, nesta fase
de ressurreição estética, é uma paulista, de sangue misturado como as águas do
Amazonas: Úrsula de Noronha Santos. Esposa do engenheiro Noronha Santos, que
luta, ao lado de outros técnicos, por dotar Manaus de um sistema luminoso
moderno, Úrsula é um talento recortado de um álbum de Fra Angélico. Nunca
deixará de ser criança, pois só às crianças é dado sonhar com as coisas de
Deus. Foi ela a autora daquele cenário maravilhoso, uma das diretoras
artísticas do conjunto, interferindo nos gestos, na mímica, na voz, na conduta
e nos ensaios dos atores. Foi ela a sombra meiga que se devotou a uma causa,
cujo sentido, só os altos espíritos podem compreender. Num momento em que se dá
tanto título de “cidadão do Amazonas” a quantos elementos mal se conectam com a
nossa vida interior, com as vibrações do nosso espírito planiciário, urge que
deputados, bem intencionados, outorguem esse título a esses dois brasileiros de
outras paragens, unindo-os espiritualmente a nós, para toda a vida.
Ao
Governo do Estado, que se entusiasma tanto com as realizações legítimas, que
nos honram e nos enobrecem, um apelo: que o Teatro Escola Amazonense de
Amadores saia por esse Brasil, mostrando aos patrícios, o que já conseguimos
pela cultura e pela inteligência, levantando-nos do nada, erguendo-nos da crise,
vivendo pelo espirito e pela Arte. Isso é fazer um Novo Amazonas, superior ao
antigo, maior, bem maior do que o das eras do oiro e do champagne, como
afirmação de sentimento, de estudo e de cultura. O que eu vi no Teatro Amazonas
me deixou completamente em êxtase. Natacha, contemplativa, estava de lágrimas
nos olhos, a mais bela homenagem ao gênio dos intérpretes caboclos. ***