CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sábado, agosto 29, 2026

VIAGEM NO TEMPO (6)


Seminário São José

  Renato Mendonça        18.07.2026

Na véspera da partida, já estava decidido: parte da viagem seria feita sobre as águas, num camarote de navio — que estranhamente chamam de barco — com destino a Santarém. As passagens estavam compradas, e dali em diante o roteiro se abria ao acaso, como quem confia em Deus para fazer o papel de guia turístico. Mas havia um compromisso firmado desde o início, ainda no Rio: visitar o antigo Seminário São José, na Praça 14 de Janeiro. Um edifício histórico que guardava em suas paredes o eco da minha adolescência, dos doze aos treze anos, quando ali vivi os primeiros anos de Ginásio, sob a sombra do recém-instalado regime militar, após o Golpe de Estado.

Naquela manhã, meu irmão Roberto nos levou a atravessar a Ponte Rio Negro — batizada em homenagem ao jornalista amazonense Phelippe Daou. Com seus quase quatro quilômetros de extensão, dizem ser a maior ponte estaiada do Brasil, ligando Manaus ao município de Iranduba. Do outro lado, Roberto mantém uma pequena propriedade, refúgio contra o tumulto da cidade metropolitana.

Aproveitamos a estada para visitar o mercado municipal, onde a fartura da Amazônia se revela na abundância de peixes, como se fossem cardumes, variedade de cores e nomes: tambaqui, pacu, jaraqui, tucunaré e outros que não consegui memorizar. Cada peixe parecia estar ali para contar a história do rio que o criou, compondo uma pequena amostra, um mosaico da abundância regional.

Pacu, tucunaré, jaraqui - fartura amazônica

Quase ao cair da tarde, contando sempre com a hospitalidade de meu irmão Roberto, enfim se concretizou a visita ao Seminário. A emoção foi imediata: ali estavam, incólumes, os degraus que meus pés de menino haviam subido e descido tantas vezes; o portão de ferro encimado pela mesma imagem de São José, e o conjunto arquitetônico em forma de “U” que guardava tantas memórias. O interior, transformado para abrigar uma universidade de Humanas, já não era o mesmo, mas o espírito ainda permanecia na nossa imaginação.

Portal de entrada - Rua Emilio Moreira, Praça 14

Graças à gentileza dos guardas patrimoniais — que foram sensíveis às nossas ansiedades —, percorremos quase todas as entranhas do prédio. E o reencontro mais pungente foi com a velha jaqueira. Lembro-me de como, nas orações da capela ao lado, seu cheiro de fruta madura invadia o ambiente, e de como, nas noites ousadas, roubávamos uma jaca às escondidas, rendendo reprimendas inevitáveis. Encontrá-la ali, sessenta anos depois, ainda frutificando, foi como rever um amigo fiel, que conserva a mesma fisionomia e continua a oferecer dádivas para satisfazer as lembranças.

Prédio do Seminário Maior em reforma (foto antiga)

Naquele instante, compreendi que viajar não é apenas deslocar-se no espaço físico, é também uma viagem no tempo. Rever a minha Manaus, a família, os lugares e os símbolos da juventude foi como abrir um relicário de memórias, onde cada reminiscência — da ponte ao mercado, do seminário à jaqueira, dos cemitérios aos túmulos, da festa junina — tudo se tornava um testemunho vivo de que o passado nunca se perde: apenas repousa, à espera de ser reencontrado e recontado, quantas vezes for necessário para valorizar a missão humana.

A ponte Rio Negro, erguida em linhas modernas, parecia dialogar com o passado colonial e com o ciclo da borracha, mostrando que o progresso não pode apagar a memória, mas serve para efetivá-la. O mercado, com sua abundância de peixes, mostrava que a fartura da natureza é um convite para uma gratidão a Deus, pelo maná que sustenta diariamente o caboclo e a urbe. O Seminário São José, com seus degraus e portão de ferro, devolveu-me a adolescência por breves momentos que quero eternizar nessa crônica.

E a jaqueira, fiel testemunha de algumas de minhas travessuras juvenis, revelou-se metáfora da própria vida: mesmo após sessenta anos, continua a dar frutos, como quem insiste em provar que o passado não morre, apenas se reinventa — basta ter fé.

Renato, Alda e a eterna jaqueira - memória viva
 Esse reencontro me trouxe a compreensão: viajar é também revisitar a si mesmo. E é muito melhor quando se está bem acompanhado. A Alda foi uma ponte para que eu pudesse me transladar no tempo. A emoção de rever família e lugares não é apenas nostalgia, é uma revelação, como se estivéssemos revendo fotografias antigas. Somos feitos de raízes e de caminhos, de permanências e de partidas. Ao retornar ao Seminário, percebi que o tempo não é um algoz — é um companheiro silencioso, que nos acompanha, nos molda e devolve, em cada reencontro como esse, a consciência de que viver é perpetuar memórias também.


terça-feira, agosto 25, 2026

VIAGEM NO TEMPO (5)


18.07.2026                                     Renato Mendonça 

 Passeio do índio 

O dia amanheceu como se quisesse conspirar contra o passeio, apesar da confirmação feita na noite anterior com o agente de turismo para nos incluir no rol de passageiros. Por volta das nove, o céu se mostrava desfavorável: nuvens pesadas, cinza espesso, um prenúncio de chuva. E na noite anterior já havia chovido. Meu irmão, atento, enviou-me mensagens acompanhadas de fotos tiradas do seu apartamento, descrevendo o cenário sombrio. Mas eu, fiel ao meu otimismo quase teimoso, respondi com leve ironia: “vamos aguardar pelos deuses do sol...”

E eles vieram. Meia hora depois, o sol pediu licença, abriu a cortina de nuvens e revelou sua face brilhante, como mais uma bênção inesperada. Manaus, ainda em trânsito intenso na Avenida Eduardo, parecia indiferente ao milagre discreto, mesmo diante do Relógio Municipal, monumento neoclássico inaugurado em 1929, cuja frase em latim, escrita em volta dos números — vulnerant omnes, ultima necat — recorda uma metáfora sobre a inexorável passagem do tempo.

Às dez, já estávamos no convés de um barco atracado na “Balsa do Ajato”, atrás do Adolpho Lisboa. O atraso proposital, para aguardar os retardatários — alguns vindos de outros municípios, tal como Parintins —, deu ao momento um sabor de expectativa e interação com os passageiros e o guia turístico. Quase uma hora depois, o barco enfim partiu, levando consigo não apenas turistas, mas também a promessa de um passeio iluminado, como se a própria história da cidade quisesse nos acompanhar.

O guia turístico — que se autodenominava jungle boy — irradiava entusiasmo e preparo ao anunciar a campanha daquela aventura: o encontro das águas, a visita à aldeia dos índios tuyukas, o encontro com o pajé, a apresentação dos rituais de dança, o almoço em restaurante flutuante, a interação com os botos cor-de-rosa, a simulação da pesca do pirarucu, a feira de artesanato e, por fim, a entrada na floresta para contemplar as vitórias-régias. Cada etapa parecia desenhada para nos conduzir a um mergulho na essência amazônica — que se inicia observando no trajeto comunidades ribeirinhas flutuantes e em palafitas —, como se o roteiro fosse também um rito de iniciação.

Segundo ele, tudo se tornara possível e mais aprazível porque o Rio Negro estava “na cheia” — com a cota em 28,5 metros —, permitindo que o barco penetrasse nos igapós, essas florestas inundadas que só revelam sua beleza nesse período de abundância de água. Assim, cumprimos o ritual até alcançar a Reserva do Lago Janauari, onde a maioria dos eventos se desenrolou.

Renato e Alda - Lago do Janauari

Ali nos recebeu a comunidade tuyuka, com sua apresentação cultural de música, danças e ritos. E uma pequena mostra de artesanatos. A hospitalidade era palpável, até mesmo do sorridente pajé, que se dispôs a tirar uma foto comigo e com a Alda. Entre os costumes, surpreendeu-nos uma iguaria feita com grandes formigas torradas — trouxe-me a lembrança viva dos antigos, que conheciam a farofa de tanajuras como sabor de tradição.

Ao regressar da floresta, o percurso quase ritual, passando por dentro do Mercado Adolpho Lisboa, nos conduz a um mergulho na memória da borracha, quando Manaus pulsava como metrópole da selva. O pavilhão Art Nouveau, erguido há mais de um século e meio, não é apenas um espaço de comércio e exposição de artesanatos: é testemunho vivo de uma era em que o esplendor europeu se mesclou com a exuberância amazônica. Como este, a cidade abriga outros monumentos que guardam em suas fachadas a lembrança de um passado grandioso, fazendo de cada esquina um convite à contemplação da história.

Renato, o pajé e Alda - Aldeia Tuyuka


sábado, agosto 22, 2026

MAGNIFICAT!


Renato Mendonça

 

A memória do domingo — 16 de agosto — na liturgia católica nos conduz à celebração da Anunciação: o instante em que o anjo Gabriel, mensageiro da eternidade, desce em missão gloriosa e revela à Maria que dela nascerá não apenas um homem, mas o próprio Filho de Deus. É como se o céu tivesse, naquele instante, abençoado a terra, e a eternidade se alojado no ventre de uma jovem — para o cumprimento das escrituras.

Pensemos na delicadeza e na ousadia desse acontecimento. Maria, tão jovem e virgem, torna-se templo vivo, sacrário de carne e sangue. O ventre que se anuncia é mais que biológico: é um altar em gestação. E, na insensatez da sociedade judaica, marcada pela supremacia masculina — muitas vezes misógina — e pelo rigor das leis, aquele ventre, quando proeminente, poderia ser visto como escândalo, motivo de julgamento e até de morte por apedrejamento. Mas, o mistério divino não se curva às convenções humanas.

Outros milagres se entrelaçam nesse enredo: José, convencido em sonho, escolhe o caminho da proteção e não da denúncia; Isabel, ao receber Maria, sente o próprio filho estremecer em seu ventre, como se a vida reconhecesse o Pão da Vida que se aproximava. Cada gesto, cada encontro, cada sinal reforça o caráter sagrado dessa gestação — não apenas humana, mas transcendental.

Deus, em sua sacrossanta intenção, quis encarnar em uma mulher escolhida, para mostrar sua face humana. Maria torna-se ponte entre o invisível e o visível, entre o eterno e o temporal. Jesus, para os que creem, é a forma humana do Criador, testemunho vivo de que somos sua imagem e semelhança. Sua vida e ensinamentos permanecem como bússola de fé, semeando comportamentos honrados e livres de fanatismo.

Não há como negar a presença de Deus nos corações que se abrem ao mistério. A natureza, a ciência e o universo são reflexos de um ser superior que, mesmo diante do ceticismo, continua a ser o Senhor da Vida. Maria, humilde serva, aceita sua missão com palavras que ecoam como poesia eterna de resignação: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa vontade.”

Assim, o ventre de Maria carrega um plano divino, cósmico: nele pulsa o coração da humanidade e o sopro da eternidade. E o Filho, que padeceu e morreu na cruz, é a prova de que o amor divino não se limita ao céu, mas se derrama sobre a terra, até as últimas consequências, numa lição de humildade e resignação — assim como Maria.

A Encarnação e a crucificação de Jesus revelam que Deus não quis salvar o homem de fora, mas o de dentro: assumindo nossa carne, nossa fragilidade, nossa história. Jesus é a prova de que somos realmente a imagem e semelhança do Criador, e sua vida é testemunho de que a glória divina se manifesta na humildade. A cruz, plantada no alto para exprimir a derrota aos romanos, é o ápice do mistério: o Filho que aceita o cálice da dor e se entrega resignadamente, e o Pai que, na extensão do mesmo mistério, confirma que o amor é mais forte que a morte.

É Magnífico!

terça-feira, agosto 18, 2026

VIAGEM NO TEMPO (4)

 

Feliz Aniversário       18.07.2026                        

 Renato Mendonça 

Logo cedo, recebi uma ligação do José Manoel me parabenizando pelo aniversário. Durante a conversa relatei o desconforto da Alda, que não havia passado bem à noite, e a suspeita de infecção urinária. Sua esposa, Marília, aproveitou a ligação e interveio com asserção, nos orientando a procurar o Hospital Santa Júlia, instituição de boa reputação. Assim, programamos a ida imediatamente, sentindo uma certa urgência.

Chegamos ao Hospital Santa Júlia bem cedo, na manhã do dia de São Pedro, logo após o saboroso café do hotel. Mesmo com a informação prestada pela Marília, ainda havia entre nós uma pequena preocupação com a natureza da instituição e se seria atendido pelo plano de saúde. O motorista do Uber nos deixou exatamente no atendimento de emergência, com acesso pela Avenida Ayrão.

Como se fosse uma bênção divina para comemorar o aniversário, essa instituição estava cadastrada para atender meu plano. Desde a recepção, observamos que era um hospital de excelência, com boa estrutura, todo informatizado, com agilidade impressionante no atendimento e no resultado dos laudos de análises clínicas dos pacientes. Um painel à frente mostrava o andamento de cada resultado, assim como já constava do celular cadastrado do paciente. Em pouco tempo, Alda estava de volta à mesa da médica Maria José Silva para sistematizar o laudo e receber a prescrição dos remédios. Havia urgência em comprar e começar a tomar o antibiótico.

O guarda, com a calma de quem conhece cada recanto daquele espaço, nos guiou por corredores silenciosos, ladeados por salas de atendimento e consultas. Saímos por uma porta lateral e tomamos um elevador para subir um andar; de repente, o mundo hospitalar se dissolveu na vibração da cidade. A Rodovia Álvaro Maia pulsava com o ritmo apressado dos carros e o colorido das farmácias, cada uma oferecendo remédios e cosméticos.

A urgência nos fazia caminhar rápido, mas havia algo de ritual nesse deslocamento: como se o antibiótico fosse não apenas um remédio, mas um símbolo de esperança, um elo entre a fragilidade humana e a força invisível que nos sustenta. O dia de São Pedro, outrora celebrado com procissões e fogueiras em cantos da cidade, ali se manifestava em forma de bênção silenciosa — o encontro entre a fé e a ciência, entre o cuidado humano e a tecnologia que acelera curas.

Ainda como parte das bênçãos recebidas, estávamos próximos ao Cemitério São João Batista, onde eu tencionava passar para rever o túmulo de minha mãe e de minha avó. Fazia parte do meu plano primitivo, antes de viajar. Caminhamos até lá. O portão do cemitério era como se fosse passagem para outro tempo, outro mundo. Cada passo sobre o chão quente trazia lembranças que se misturavam ao presente. O azul do túmulo, ainda vivo na memória digital, agora se revelava diante dos olhos com outra cor, mais brilhante sob a luz do sol. Toquei a superfície da lápide e senti que, de algum modo, minha mãe e minha avó estavam ali — não apenas sob a pedra e a camada de terra, mas no calor que me envolvia, na emoção que me tomava por inteiro. Esse instante singular reformulou minha maneira de sentir saudade de minha mãe — como se fosse uma saudade compartilhada —, cuja breve existência de apenas trinta e cinco anos deixou em mim uma ausência que não se apaga — a beleza que nunca se acaba. Cada lembrança é um fio de dor e ternura, e ao evocá-la, sinto que sua vida interrompida continua a pulsar dentro de mim, como se me pedisse que a memória seja também uma celebração.

 

Renato no cemitério São João Batista

Rezei em silêncio, como quem conversa com o passado e pede proteção para o futuro. O vento leve que atravessava nossos corpos parecia resposta, um sopro de bênção. Naquele instante, a viagem deixava de ser apenas deslocamento geográfico: tornava-se uma peregrinação íntima, um encontro entre fé, memória e destino.

É impróprio dimensionar o tamanho da emoção, posso assegurar que o momento foi épico — o melhor presente de aniversário para meus 75 anos — comemorado com uma festa espiritual. Minha avó, que conviveu mais tempo comigo, me “olhava” com seus olhos miúdos e me acalmava. Segredamos juntos nossas orações e pedi-lhes a Bênção. Uma placa provisória, trazida pelo meu irmão Roberto, que me acompanhava também nessa missão, encimava o túmulo. Prometi para elas, e para mim mesmo, que não vou ficar mais tanto tempo afastado... se Deus quiser.

O calor do verão amazônico parecia selar meu juramento, como se o próprio sol fosse testemunha da promessa. A lembrança do meu pai, repousando no São Francisco Xavier, aguardava sua vez de ser visitada, mas naquele instante o destino e a fome nos chamavam para a casa do Roberto, meu anfitrião.

O almoço em família, simples e festivo, foi como prolongamento da oração feita no cemitério. À mesa, entre risos e histórias, percebi que a viagem não era somente uma jornada física programada: era celebração da vida, encontro de gerações, reafirmação de laços que resistem ao tempo. Cada garfada trazia o sabor da memória, e cada palavra trocada era bênção renovada de amor e fé. Roberto, Beatris e a juventude da filha, Sofia, 16 anos, foram fundamentais para que nos sentíssemos novamente no aconchego de um lar — e feliz aniversário!

 

Renato - no cemitério São Francisco Xavier

À tarde, presente ao túmulo de meu pai — sepultado com minha madrasta, Doroteia — a mesma fé devotada. O azul tênue do céu parecia guardar segredos, e a nuvem que se afastava com o vento carregava consigo minha angústia, como se fosse mensageira de um consolo invisível. Percebi que a fé que compartilhamos muitas vezes ainda nos unia em silêncio, cada um traduzindo a ausência à sua maneira.

Meu pai, mesmo ausente, deixava ali sua marca: um legado que me acompanha e se revela nas pequenas lições que a vida me ensinou quando ele estava presente e após sua partida. Era como se ele me dissesse, naquele momento, através do sopro do vento, que a paz não está em negar a dor, mas em aceitá-la como parte da caminhada.

sábado, agosto 15, 2026

VIAGEM NO TEMPO (3)

 

    Terceiro capítulo da saga transamazônica de Renato e Alda, narrada pelo próprio.

Mercado Adolpho Lisboa

18.07.2026

O mungunzá

O domingo amanheceu como véspera de aniversário, trazendo em meu peito a expectativa do desconhecido “passeio do índio”, já confirmado logo cedo, antes mesmo do saboroso café da manhã no hotel. O sol brilhava insinuante, afastando qualquer ameaça de chuva e iluminando o movimento dos pedestres na rua em frente, fechada para carros. Ao final da via, próximo ao encontro com a Sete de Setembro, um pequeno palco abrigava cantores de músicas em espanhol — provavelmente venezuelanos e haitianos, muitos dos quais se espalhavam pelo centro da cidade, alguns em situação de mendicância, testemunhas silenciosas de deslocamentos forçados de suas pátrias.

Na programação daquela manhã, estava prevista a visita à Feira de Artesanatos da Avenida Eduardo Ribeiro. Antes, porém, decidi resgatar uma memória de infância: o programa de domingo com meu pai, quando íamos a pé até o Mercado Adolpho Lisboa. Lá, eu me deliciava com uma tigela generosa de mungunzá — canjica, como se diz no Sudeste — antes mesmo de ele escolher o peixe para o almoço. Eram bons tempos, que me marcaram como uma vacina antiga contra o esquecimento. No entanto, ao tentar repetir o ritual, percebi que a experiência já não era tão edificante: não havia mais as tigelas, só copos plásticos descartáveis; o sabor não era o mesmo, e meu paladar havia mudado. Tudo havia mudado!

Como tudo havia mudado, decidimos almoçar pizza — gesto simples, mas que traduzia a adaptação às novas rotinas da cidade. Na sobremesa, porém, veio o reencontro com a Amazônia: sorvetes de frutas típicas, cada qual mais surpreendente que o outro — buriti, açaí, tucumã, bacuri e tantos sabores que pareciam conter a flora amazônica em cada colherada. Ao descobrirmos a sorveteria Glacial, próxima ao hotel, tornamo-nos frequentadores assíduos, como se ali houvesse uma semente de iniciação ao paladar amazônico.

À noite, Roberto nos levou à Ponta Negra, a praia fluvial que se transformara em símbolo de status burguês. O espaço fervilhava de gente, tão cheio que nem conseguimos estacionar. A beleza do lugar se impunha, mas a praia, para nós, não era objeto de consumo. Assim, preferimos retornar ao hotel, guardando a experiência como mais uma nota da sinfonia urbana que Manaus nos oferecia em tempos modernos.

Ao regressarmos ao hotel, percebi que Alda se queixava de uma cistite que há muito tempo não a incomodava. Compramos um remédio paliativo, já usado em outra ocasião, mas o efeito não veio. Tornava-se necessário levá-la ao hospital para uma avaliação mais criteriosa. Enquanto eu buscava no Google uma instituição de referência, credenciada ao meu plano de saúde, o celular tocou: era meu irmão José Manoel. Conversamos amenidades, mas logo relatei o desconforto da Alda, e a suspeita de infecção urinária. Sua esposa, Marília, interveio com asserção e nos orientou a procurar o Hospital Santa Júlia, instituição de boa reputação. Assim, programamos a ida para a manhã do dia seguinte.

Antes de dormir, preocupei-me em desmarcar, pelo WhatsApp, o passeio do índio, que estava previsto para o dia do meu aniversário. A expectativa transformava-se em cuidado e zelo, e a celebração do aniversário cederia espaço à prioridade com a saúde.

terça-feira, agosto 11, 2026

VIAGEM NO TEMPO (2)

     Segundo capítulo da saga transamazônica de Renato e Alda, narrada pelo próprio.

18.07.2026

 

Mercado Adolpho Lisboa

 No sábado, dia 27, parti para um reencontro íntimo, acompanhado pela presença constante da Alda e pela dedicação generosa de meu irmão Roberto. O destino era o Educandos — o bairro que acolheu os primeiros passos da família Mendonça, berço da nossa primeira geração. Ao chegar, senti-me tomado por uma gratidão: era como se os céus me concedessem a dádiva de revisitar uma parte essencial da minha própria história.

A casa onde nasci, agora em ruínas, parecia guardar uma atmosfera sombria, mas não hostil. Havia nela um olhar invisível, quase alegre, como se quisesse me parabenizar pela visita inesperada. Não era mera fantasia, mas um diálogo íntimo: a casa me dizia, em sua linguagem de paredes desgastadas, que havia cumprido sua missão de me acolher em um momento decisivo — o sopro da vida.

Casa onde nasci - rua Inácio Guimarães- Educandos

Ainda envolto pela nostalgia, caminhei até o Beco São José. Ali, meus pés haviam aprendido a andar, guiados pela ternura firme de minha avó. Foi uma infância colorida, marcada por descobertas simples e afetos profundos. Mas o beco também guardava uma sombra: foi ali que minha mãe se despediu prematuramente da vida. A lembrança trouxe um pesar discreto, como uma brisa fria que não se vê, mas se sente.

A casa que encontrei já não era a mesma. Restava apenas o espaço, a locação, como um corpo sem espírito. Olhei para ela com estranheza, como quem cruza com alguém desconhecido na rua — sem reconhecer  nenhum vínculo. E nesse instante compreendi que os lugares também mudam, que a memória é o que lhes dá vida. O Educandos, mais do que um bairro, é um espelho daquilo que fomos e daquilo que ainda carregamos dentro de nós — enquanto a mente não nos trair.

Beco São José, 28


Após o momento nostálgico, fomos ao encontro do Mercado Adolpho Lisboa, joia centenária erguida no primeiro ciclo da borracha. Entre suas paredes históricas, encontramos também o afeto de meu irmão Roberto e sua mulher, Beatris. Saboreamos guloseimas e um almoço que parecia celebração da própria Amazônia: pirarucu e tambaqui, farinha do Uarini e a ardência da pimenta murupi. Ingredientes de nomes indígenas, tão comuns na região norte, mas que carregam em si a memória de povos primitivos e sabores ancestrais de nossos pais e avós. À frente de nossa mesa, uma placa singela traduzia uma filosofia popular com humor certeiro: “melhor tomar cerveja do que tomar conta da vida alheia”.

Almoço no Adolpho Lisboa, Roberto, Beatris,
Alda e Renato (da esq.)


À tarde, em vez da sesta, seguimos até a praça São Sebastião, diante do majestoso Teatro Amazonas — símbolo máximo da pujança da era da borracha, no início do século XX. O espaço pulsava com a energia dos “torcedores organizados”, que acompanhavam em telões os desfiles dos bois Caprichoso e Garantido, que se apresentavam em Parintins. Estranhei, a princípio, aquela febre de entusiasmo, tão semelhante às paixões futebolísticas. Mas, logo percebi o paralelo com o Rio de Janeiro, onde multidões se entregam às escolas de samba. Era o mesmo fervor coletivo, traduzido em cores, ritmos e símbolos — uma celebração lúdica da identidade cultural do nosso país.

Roberto, ainda disposto, conduziu-nos ao Morro da Liberdade — bairro onde crescemos e onde repousa a maior parte das lembranças da adolescência. Ali, a prima Marta, mesmo adoentada, nos recebeu com um carinho peculiar, como se o tempo não tivesse passado. O número 29 da Rua Amazonas, ao lado de sua casa, devolveu-nos ao êxtase das recordações: tantas peripécias vividas, tantas histórias que se reanimavam diante de nossos olhos. Foi uma pequena viagem no tempo, um esforço para catalogar e restaurar na memória os melhores anos da juventude.

Munidos de uma informação e sugestão da vizinha, saindo dali, seguimos até o porto dos barcos, atrás do Mercado Adolpho Lisboa, para agendar o chamado “passeio do índio”. Esse programa parecia atender aos desejos que já se insinuavam durante o voo, ainda sem plano definido. Cogitou-se realizá-lo no dia 29 de junho, como presente de aniversário — bastaria apenas inscrevê-lo no script de Deus.

À noite, conforme o combinado com meu irmão José Manoel, seguimos para prestigiar o “arraial” da Tia Francisca — viúva do tio Beca, vitimado pela Covid há cinco anos. Imaginávamos uma confraria simples, vizinhos reunidos na rua, cada qual expondo suas iguarias juninas para serem adquiridas. Nossas intuições foram surpreendidas: numa rua adjacente, bandeirinhas coloridas cruzavam o céu, penduradas de um lado a outro, como se anunciassem uma festa maior do que nossas expectativas, mas não havia barracas.

Procuramos pelo número 35 da Rua Sagitário, sem sucesso. Foi então que uma senhora, ao sair de casa com uma garotinha de dois anos, nos socorreu. A criança, ao me ver, estendeu os braços pedindo colo, e seu sorriso delicado me conquistou. Atendi de imediato, tomado por uma ternura inesperada. A avó, Dona Nice, solícita, ofereceu-se para nos conduzir até o endereço. Caminhamos devagar, conversando, enquanto a garotinha se aninhava em mim, como se já me conhecesse.

Ao chegarmos à casa da Tia Francisca, a pequenina não queria mais largar meu colo. Chorou ao ser devolvida à avó, como se resistisse a romper aquele vínculo súbito. A cena me tocou profundamente: percebi que meu aniversário parecia abrir minha alma para afinidades surpreendentes, presentes inusitados que se revelavam em gestos simples e inesperados como desses pequenos anjos da vida.

Descobrimos, então, que a festa junina se realizaria na sala da casa de Tia Francisca, já adornada e pronta para receber os convocados. Aos poucos, os convidados iam chegando, trazendo novas iguarias que, juntas, compunham uma mesa farta e colorida, verdadeira celebração dos sabores juninos. Por instantes, sentimos o constrangimento de não termos contribuído financeiramente; mas logo o calor humano dissolveu qualquer incômodo. A prima Rosa, com sua afabilidade de anfitriã, nos recebeu em hospitalidade generosa, deixando-nos à vontade, sem peso na consciência, como se nossa alegria compartilhada fosse, por si só, a maior contribuição

Para animar a noite, organizaram um bingo, com diversas prendas distribuídas aos ganhadores. Recebemos as cartelas, mas Alda, prudente, me alertou: seria melhor nos esforçarmos para não vencer — ganhar sem ter contribuído seria antiético duplamente. Entre risos, conversas e o suspense dos números sorteados, a festa se desenrolou com alegria simples e genuína. Meu irmão José Manoel e sua mulher Marília finalmente apareceram, justificando o atraso por compromisso religioso. A recepção e a hospitalidade dos familiares do bairro da Betânia foram espetaculares, deixando em nós a sensação de pertencimento e de reencontro com raízes afetivas.

sábado, agosto 08, 2026

VIAGEM NO TEMPO (1)

A série que hoje se inicia é de autoria do meu irmão Renato Mendonça, que sempre colabora com este Blog. Mês passado, ele veio a Manaus para, entre outros afazeres, celebrar seus 75 anos de idade; nascido na rua Inácio Guimarães, em Educandos, reside no Rio faz uma longa temporada. Estava acompanhado da esposa Alda (foto). Bom, deixo que ele conte a saga empreendida no retorno ao Rio.

 

Expectativa Emocionante

18.07.2026

Quando me convidaram a celebrar o meu aniversário de 75 anos em minha terra natal, hesitei. Considerei um capricho deslocado, uma extravagância sem sentido. Afinal, o aconchego familiar, tão essencial em datas assim, não estaria à minha espera. Era um momento diferente de quase todos os anos passados. O “quase” se justifica porque, algumas vezes, fiquei ausente para cumprir a demanda de trabalho.

Mas, minha intuição se equivocou. Como quem calça o sapatinho de cristal em pés descrentes de uma cinderela, o destino me levou ao baile. A viagem tornou-se fábula: reconciliação numa viagem no tempo, reencontro com memórias que eu nem sabia como guardar. Era como se o relógio tivesse voltado, mas em vez de me aprisionar, me libertava para viver o que ainda não havia sido vivido.

Partimos do Rio ainda na madrugada do dia 26 de junho, sexta-feira, quando os primeiros raios de sol tingiam o céu azul pálido, observados a partir da Linha Vermelha quase silenciosa, como se guardasse um segredo. O Santos Dumont, com seu vai e vem de pessoas, parecia indiferente ao meu coração ansioso. A aeronave da Azul nos levou primeiro a Belo Horizonte, uma pausa programada, como quem respira antes de mergulhar novamente em outra aventura — o voo 4066 — para nos levar ao destino.

E então, rumo a Manaus, o corpo seguia preso ao assento, mas o pensamento já se adiantava: imaginava rever os irmãos e os parentes remanescentes que ainda moram lá; apresentar para minha companheira, Alda, o encontro das águas; um passeio, talvez, para ver o verde infinito da floresta e sentir o calor tropical que nos abraça sem pedir licença — o verão amazônico, típico daquela estação. Cada minuto no ar era como um prelúdio, uma nota que anunciava a aventura amazônica que estava por vir.

Ao pousar às 11h, estranhei apenas a ausência da conferência de bagagem por funcionários do aeroporto internacional Eduardo Gomes — detalhe burocrático que, por um descuido, poderia ameaçar a leveza da jornada. Mas, logo percebi que nada roubaria o encanto de estar novamente ali — quarenta anos depois —, no coração pulsante da Amazônia, onde os rios e a cidade se entrelaçam, e convivem como velhos amantes.

Para nossa comoção, no dia anterior à nossa chegada, a terra tremeu com fúria na Venezuela: um terremoto de magnitude 7,4 espalhou destruição material e baixas humanas. A notícia atravessou fronteiras e, em Manaus, meu irmão Roberto me contou pelo WhatsApp que até ali, em seu apartamento, sentira um leve estremecimento. E foi ele, junto de sua mulher Beatris, quem nos aguardava no aeroporto, com uma solicitude que me tocou profundamente. Conduziu-nos, como quem cumpre um ritual de acolhimento, ao Amazônia Tower Hotel, erguido no coração da cidade, na Avenida Getúlio Vargas.

Naquela mesma tarde, eu e a Alda saímos a pé, em busca de redescobrir a cidade. Mas o que encontrei foi um cenário de abandono pelo poder público municipal: ruas marcadas pelo descuido, lixo espalhado, ausência de lixeiras, e a miséria exposta em cada esquina — famílias inteiras, crianças de colo, transformando as calçadas em palco de um caos social.

Colégio Estadual do Amazonas — Av. Sete de Setembro


O Colégio Estadual do Amazonas, outrora Gimnásio Amazonense Pedro II, erguia-se imponente, mas soturno. O prédio do século XIX, fechado, aguarda reformas. Mais doloroso, porém, é saber que desde o ano letivo anterior não há aulas. O edifício de 150 anos parecia um ancião esquecido, cedendo à intempérie do tempo, testemunha muda de uma história que se desfaz.

Do lado de fora, contemplei a sala de aula onde, há sessenta anos, vivi os melhores ritos da juventude. Era dali que ficava observando as meninas que, no pátio da quadra de esportes, exercitavam educação física, para cumprir a grade curricular. Era como se o tempo tivesse congelado as imagens que a memória soube preservar. Permaneci algum tempo olhando aquela imagem e recolhendo fotos com o celular, não como turista nativo, mas como fotógrafo de lembranças, em busca do ângulo que melhor pudesse eternizar os cinco anos de estudo ali naquele educandário, até concluir o Curso Científico. 

Colégio Estadual do Amazonas — vista lateral.

Uma pesquisa rápida revelou a situação atual do colégio. Descobri que, sob o governo de Wilson Lima — natural de Santarém do Pará e alinhado ao bolsonarismo —, a educação não figurava como prioridade. A ausência de empatia durante a pandemia de Covid-19 parecia ecoar também no descaso com instituições históricas. Também o prefeito, do mesmo viés político do governador, não se preocupa com as mazelas da sociedade. É doloroso perceber que perfis assim ainda conseguem seduzir parcelas da sociedade, sustentados pelo analfabetismo político.

Resta-me a esperança de que o próximo governador tenha sensibilidade para restaurar o nosso CEA, esse relicário de memória coletiva, marcado pelas digitais de gerações inteiras: alunos, professores, bedéis, todos guardados nas paredes centenárias como testemunhas silenciosas de um tempo que não volta. (segue)

domingo, julho 19, 2026

ODE À MÃE FRANCISCA

 

Para recordar a data do falecimento de Mãe Francisca, o filho Renato compôs esta página, a qual me associo.

Em 18.07.2026 s
ão 74 anos de saudades!
 

  

Ó, Francisca, mãe querida,

1917 marcou teu nascer;

O céu te recebeu cedo demais,

Mas na terra ficou teu legado de amor.

 

Tu foste bravura e resignação,

Semeaste vida com gestos simples,

Mostraste caminhos com ternura,

Ensinaste fé com perseverança.

 

Na hora da partida, não houve desespero.

Houve entrega, confiança, esperança.

Partistes, deixando-nos órfãos de afago,

Mas nunca órfãos de amor.

 

Mãe, tu és presença invisível;

A energia que nos guia;

A fé que nos sustenta;

E a luz que não se apaga.

 

Seguiste o exemplo de Jesus,

Deixando-nos símbolos eternos:

Amor, dedicação, perseverança, resignação.

Sob imensa memória, seguimos teu conselho santo:

Fazer tudo quanto Ele ensinou,

Acolher tudo quanto Ele nos prover.

 

Francisca, estrela serena,

Em cada julho, teu nome renasce,

Em cada oração que rezo, tua voz ressoa,

Em cada cotidiano, tua essência permanece.


sexta-feira, julho 03, 2026

MANAUS: ROADWAY OU RODO

 Ontem, depois de longo período, voltei ao porto de Manaus para despedir do meu irmão Renato e sua Alda, que partiam para Santarém na primeira etapa da viagem de retorno ao Rio. Entrei no barco, que mais parecia um transatlântico, e as surpresas se sucederam: a quantidade de redes, de um lado, o setor refrigerado, de outro, à brisa fluvial; e os camarotes e até as suítes. O tempo estava e continua excelente para viajar neste mundão de águas.

Adjacências do Porto


Para me despedir, esqueci o lenço branco, por isso, ofertei aos viajantes o poema aqui postado, obra do saudoso padre-poeta L. Ruas (1931-2000).

 

Recorte do texto publicado em Poesia
Reunida
de L. Ruas (2013).

Crônica romântica de adeus ao Roadway

L. Ruas

Posto que, sendo porto, / Sempre foste caminho de partida / Ou barco de ferro e pinho / Que os ingleses ancoraram / Nas margens do rio Negro. / Era “roadway” britânico caminho / Flutuando / Nas índias águas do rio / Que viu, espantado, surgir / No meio da selva bruta / Onde ainda ecoavam nítidos / Os rudes sons dos Manaus, / Uma clareira de sonhos, / De látex e de libras esterlinas. 

Foste “roadway” e “rodo” / Mas, posto que sempre foste / Porto — caminho de partida / Também foste caminho de chegada. / (De chegada mais, talvez, que de partida). / Pela ponte de pinho / Louro e de negro ferro / Legiões de marujos desfilaram / E de artistas, empresários e turistas / De além-mar chegados, fascinados / Pelo encanto da floresta-mãe / Onde se arrancava das tetas vegetais / O leite branco que se mudava em ouro. 

Francesas, espanholas e polacas, / Para gozar nas camas dos bordéis / O ouro fácil em que se transmudara / O sangue, o suor, a febre delirante / Dos seringueiros — párias do Nordeste. 

E foi por tua ponte flutuante / Que chegaram as “levas” nordestinas / Dos “brabos”, dos “soldados da borracha” / Que seguiam encantados, enganados, / Para os “centros” — distantes seringais / Do Purus, Acre, Madeira e Juruá / Onde findavam — finavam — escravizados. 

Passarelas de dor e sofrimento! / Passarela de luxo, amor e sonho! / No teu ritmo binário que acompanha / O ritmo binário deste rio / Que todo ano sempre sobe e desce, / Também foste termômetro da morte / E da vida que todas as enchentes / E vazantes ofertam fatalmente / Aos homens e as mulheres ribeirinhos / E às roças e animais da várzea. 

Mas, que importa! / Ficaste, Flutuante / Lembrança de um tempo que ficou, / Também, em vários outros monumentos / Erguidos sobre as bases do martírio / De milhares, devorados pela selva / E pela ambição do lucro fácil. 

Que importa! / Ancorado ficaste tanto tempo / Mas, também, nas páginas da história / De um povo que, aqui nesta cidade / Dos extintos Manau, sempre viveu / A longa espera de um amanhã melhor. 

Caminho da terra para a água; / Caminho da cidade para o rio; / E caminho do rio para o mar; / No macio balanço da tua ponte. 

Todos nós de Manaus, em ti, deixamos / Uma pegada da vida que partimos / Dentro em pouco será simples lembrança, / Pois, tuas linhas arquitetônicas serão / Destruídas, apagadas, distorcidas / Em nome de um progresso que uns poucos /Gozarão. / Toda a história se repete. 

“Roadway” dos ingleses engenheiros / Ou “rodo” dos cablocos de Manaus! 

Aqui fica este adeus de quem te viu, menino / E, por ti — uma vez — partiu sonhando / Os mais belos sonhos que sonhar eu pude. / Adeus, velho roadway flutuante, / Docemente embalado pelos ritmos / Das morenas águas do rio Negro. / É chegado teu fim. Exige-a assim / Este rude imperativo do progresso. / Mas, em mim, como te vi, hás de ficar; / Dourado pelos raios do sol quente / Ou banhado pelas pratas do luar.

 

segunda-feira, junho 29, 2026

IDADE DA LUZ

29.06.2026

Renato Mendonça

 Na liturgia secreta da existência humana, procuro sempre um ciclo que traduza o tempo que nos envolve. Ao vivenciar a porção que completa três quartos de um centenário, sinto-me tomado por gratidão: Deus me ofertou um conteúdo vasto — tecido de afetos, lembranças e luz, além de um caráter dotado de espírito humanístico —, que me sustenta até aqui.

Renato Mendonça


Nesse tecido, repousa o primeiro ano de vida — o único em que recebi o calor humano de Dona Francisca Pereira Lima e, numa única vez, tive a honra de passar o Dia das Mães e o meu primeiro aniversário ao seu lado. Mas não me considero um desafortunado, pois sei que fui plasmado pelo seu amor maternal. E isso não se apaga da memória afetiva, nem me afasta do prazer de sentir que tive uma infância venturosa; sinto-me iluminado pelo carinho de meu pai, de minha madrasta, dos sete irmãos e da avó paterna, que se fez tutora e guardiã, precursora da luz que acendeu meu discernimento.

Hoje, faço questão de afirmar que vivo a Idade da Luz. Uma idade que não se mede em anos, mas em sabedoria, sobriedade e discernimento. É como se, ao alcançar este marco, os olhos começassem a divisar ao longe um ponto luminoso, uma estrela que brilha no fim da estrada. Muitas estrelas que iluminaram minha vida ainda brilham no infinito. É para lá que caminhamos, guiados pelos ensinamentos de Cristo, rumo ao fulgor eterno que nos espera. E temos que ter resignação e consciência dessa missão que rege nossa existência.

Podemos fazer também outras analogias da existência humana. A mais otimista é com as estações do ano — admitindo que a minha teoria renatodiana esteja conectada aos mecanismos da vida —, imagino que o homem pode viver até um centenário com sua cognição intacta e livre de outras doenças neurológicas. Podemos esmiuçar essa teoria, separando os períodos existenciais em ciclos de vinte e cinco anos cada. Uma divisão matemática equitativa e perfeitamente plausível, sendo que o último ciclo é totalmente incerto.

Se for assim, no dia de hoje eu estarei começando a viver meu último sol de outono, ainda com muita luz e calor. Para os próximos dias, se conseguir assimilar as bênçãos divinas, estarei vivendo a incipiência da fase invernal. E aí sim, envolvido pelo frio existencial em que o calor humano se torna apenas cálido, a chama espiritual deverá estar sempre acesa para aquecer o coração e o dotar de uma luz resplandecente.

E para celebrar esse momento de luz, quis comemorar meu aniversário com minha mãe, minha avó, meu pai e minha madrasta, aos pés dos túmulos que os acolheram. Sei que estão sempre presentes espiritualmente ao meu lado, porém desejei estar próximo fisicamente.

O ser humano não precisa se preocupar com essas teorias aparentemente conspiradoras da convivência humana na face da Terra. Quando atingimos essa marca do tempo, algo me diz que precisamos de sabedoria para lidar com o envelhecimento. E isso deve ser encarado com naturalidade, como em um jogo de futebol. Ao término da partida, voltaremos para casa — de onde saímos para viver o momento lúdico da vida, partilhado com outros que têm mesma afinidade. Ficamos felizes quando ganhamos. Mas a vitória não está no placar, e sim em termos seguido o Mestre — Jesus Cristo, nosso técnico e guia — ele nos ensina que a verdadeira felicidade é fazer os outros felizes, ao adotarmos e praticarmos seus ensinamentos, no intuito de proporcionar o bem-estar comum.

Qualquer que seja o inverno, deve ser encarado com estoicismo e com altivez. Outras virtudes podemos recorrer e acrescentá-las à nossa cota de agasalhos para suportar o tempo invernal que certamente nos envolverá. Não só o discernimento nos aliviará da tortura da iminência da degradação humana, o altruísmo também nos incitará à preocupação com o outro, de forma que poderemos nos desvestir do egoísmo, tão prejudicial para a convivência social. 

O tempo não é um inimigo, ele está no rol dos nossos bons presságios, é um companheiro discreto que nos lembra da urgência de amar, viver em abundância o amor e a fé. Precisamos convidá-lo para sentar à mesa ao nosso lado, para sentirmos sua fruição prazerosa.

Nesse dia, inevitavelmente, cada lembrança dos entes queridos passados é uma estrela acesa no céu da memória. Algumas brilham intensamente, outras se escondem em constelações distantes, mas todas compõem o mapa que me orienta. E quando penso no futuro, não o vejo como utopia, mas como horizonte: um campo aberto onde uma luz distante se insinua.

O inverno que se aproxima não é ocaso, pode ser outra aurora de encantos. Será tempo de contemplar o que foi construído sem pressa; de aquecer-se na lareira da fé; de vestir o manto da solidariedade e ajudar o nosso semelhante. O verdadeiro sentido da vida não está apenas em prolongar os dias, mas em torná-los luminosos para os que caminham ao nosso lado.

Assim, sigo celebrando cada ciclo como quem folheia um livro sagrado. A primavera ensinou-me a sonhar, o verão a construir, o outono a colher, e o inverno me ensinará a contemplar. Mas em todas as estações, a luz permanece: ora intensa, ora tênue, mas sempre presente.

A vida, quando vista em retrospecto, revela-se como um mosaico de instantes que se entrelaçam em silêncio. Cada gesto, cada olhar, cada palavra guardado compõe um enigma que só o coração sabe decifrar. Ao completar mais um ano, percebo que não caminho sozinho: trago comigo todas as vozes que me formaram, todos os afetos que me sustentaram, todas as luzes que me guiaram.

Há uma beleza discreta em envelhecer. Não é apenas o lógico acúmulo de dias, mas o sutil florescer da consciência. É como se o tempo, em sua delicadeza, fosse polindo a alma até que ela brilhe com uma luz serena. O corpo pode sentir o peso das estações, mas o espírito se torna leve, como uma pluma dançando ao vento. E quando honramos as verdades de Deus, vemos também o brilho de uma luz intensa que ilumina nossa caminhada.

Usando uma expressão do Gênesis: Fiat Lux!