CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sábado, setembro 19, 2026

CORTINA DE FUMAÇA

 

Renato Mendonça 

17.09.2026

Sob a expectativa de encontro de togas e o brilho sereno da instituição, o Supremo Tribunal Federal abriu suas portas nesta semana para uma reunião que mais parecia um ritual inquisitório do que um julgamento justo e honesto. No centro da cena, o ministro Alexandre, alvo de acusações inesperadas e não comprovadas vindas de seu colega André — relator do caso do Banco Master. A denúncia, supostamente carregada de gravidade, foi gerada por vazamentos seletivos de dados obtidos pela Polícia Federal, após a quebra do sigilo do celular do banqueiro Vorcaro — preso na penitenciária da Papuda, em Brasília.

O plenário, espaço que deveria ser de serenidade e equilíbrio, transformou-se em fogueira. As palavras lançadas ardiam como fagulhas, incendiando suspeitas e revelações. Descobriu-se que os vazamentos incriminavam apenas uma figura, enquanto todo o conteúdo do aparelho já havia sido franqueado a todos os ministros dias depois da acusação. O silêncio entre uma fala e outra pesava mais do que os votos e esclarecimentos proferidos.

E então, como em tragédia anunciada, emergiu o desassossego: alguns magistrados apareciam ligados, direta ou indiretamente, ao dinheiro espúrio do banqueiro. Dinheiro que não tinha origem honesta, mas surgiu de transações fraudulentas e do desvio de mais de três bilhões de reais do Rioprevidência — fundo que guarda o futuro de mais de duzentos e trinta mil servidores do estado do Rio de Janeiro. Ao escândalo financeiro somava-se o político: o governador, envolvido até o pescoço, cedeu à pressão de seus aliados e pediu exoneração do cargo para buscar refúgio na imunidade parlamentar — queria candidatar-se a senador da República —, mas foi barrado pela Justiça Eleitoral.

No calor das discussões, cada ministro parecia jogar mais lenha na fogueira. O acusador, André, saiu muito chamuscado: sua tentativa de erguer cortina de fumaça revelou afinidades com o banqueiro e pagamentos recebidos que o incriminavam; ficou evidente também que ele se aproximava de interesses eleitorais — e tinha sua preferência. A estratégia era clara: tumultuar o processo até o primeiro turno, em benefício de um candidato da direita. Ficou explícito. Mais constrangedor, porém, foi vê-lo pedir desculpas ao Procurador-Geral — igualmente acusado e presente na reunião — para negar as próprias acusações e confessar que eram falsas. O decano Gilmar, indignado, não poupou palavras: classificou o ministro acusador com um adjetivo infame: “Pixuleco”.

A declaração expôs o vazio do debate. A fogueira de acusações não iluminava nada além da própria fumaça. Como resumiu o ministro Dino, com ironia certeira: “Estamos julgando o nada!” 

Essa declaração mostrou que o debate e a discussão não serviriam para coisa nenhuma, pois não havia crime algum, como bem resumiu o ministro Dino: estamos julgando o nada!

É triste constatar. A balança da Justiça, que deveria pairar imóvel e serena, oscilava como pêndulo nervoso, inclinando-se ora ao peso da política, ora ao sopro da ideologia. O Estado, laico por definição, viu-se contaminado por paixões partidárias e, por conseguinte, suscitou a elaboração de editoriais dos jornais — representantes da elite conservadora — inflamados que, nos dias seguintes, clamavam por julgamento a qualquer custo do ministro acusado.

E assim, entre votos e contravotos, entre sombras e revelações, resta ao povo a tarefa de discernir e escolher — não apenas os futuros eleitos, mas o próprio destino da democracia, que atravessa um período turbulento.

É preciso olhar além dos discursos inflamados e das manchetes tendenciosas dos jornais e da mídia falada. Ler a biografia dos candidatos, perscrutar suas relações, perceber as afinidades que os ligam ao poder e intuir quem, de fato, pode estar ao lado do povo. A democracia não se sustenta apenas nos tribunais ou nos palácios: ela se constrói no olhar atento de cada cidadão, na consciência crítica que não se deixa seduzir por cortinas de fumaça.

O voto, nesse contexto, é mais que um gesto cívico. É um ato de resistência, uma tentativa de reconstruir novamente a confiança abalada entre instituições e sociedade. É a chama, iluminada pelo caminho do discernimento, em meio às trevas da desinformação e da manipulação. Que cada escolha seja feita com a serenidade de quem sabe que, ao depositar sua confiança na urna, está também depositando esperança no futuro. Pois, repito, não elegemos apenas governantes: elegemos o rumo da própria democracia.

Bom voto a todos, boas escolhas!

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