Domingo de Ramos
Esta liturgia de hoje abre o
período que o mundo cristão chama de Semana Santa ou Semana Maior. A narrativa
dos evangelistas nos convida à meditação, nos ensina a viver a mesma humildade,
o mesmo amor e a mesma perseverança de Nosso Senhor Jesus. A entrada de Jesus
Cristo em Jerusalém tem a simbologia do mistério divino, endossado como foi
pressagiado no Antigo Testamento pelo profeta Zacarias sobre a vinda do Messias
Salvador: “Regozija-te muito, filha de Sião; exulta, filha de Jerusalém; eis
que vem a ti o teu Rei. Ele é justo e traz a salvação; ele é pobre e vem
montado sobre um jumento, sobre um potrinho, filho de uma jumenta.” (Zc 9:9)
Observem que Jesus poderia ter
escolhido várias formas para uma entrada triunfal na cidade, após um período de
seis dias de meditação no Monte das Oliveiras. Ele preferiu a mais humilde, e
talvez não fosse intencional chamar atenção da multidão; no entanto, ocorreu
que seus seguidores e admiradores estendiam suas próprias vestes pelo caminho,
enquanto outros cortavam ramos de árvores para lhe oferecer em tapete ou
agitavam para anunciar o advento do Mestre. Foi uma coreografia por certo não
idealizada, apenas improvisada, para preceder as palavras de fé e esperança
entoadas pela multidão: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do
Senhor! Hosana nas alturas!”
Porém, o que nos deixa
estupefatos, ou profundamente decepcionados, é que, uma semana após essa
euforia, esse mesmo povo que o aclamou também o condenou... Será que foram
essas mesmas pessoas que estavam na Assembleia do Sinédrio? Pertenciam à mesma
casta social? Em uma análise coerente, permanecem muitas dúvidas...
Fazendo um exercício de lógica,
podemos absorver dos relatos dos evangelhos sinóticos que havia razões apenas
políticas para incriminá-lo, usando de argumentação leviana e mentirosa. Isso
está explicitado no evangelho de Lucas: “Então toda a assembleia levantou-se
e o levou a Pilatos. E começaram a acusá-lo, dizendo: ‘Encontramos este homem
subvertendo a nossa nação. Ele proíbe o pagamento de impostos a César e se
declara ele o próprio Cristo, um Rei’” (Lc 23: 1,2). Era uma falácia, pois
Jesus, em um dos momentos em que foi induzido a cair numa cilada dos inimigos,
falou sabiamente: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de
Deus” (Mateus 22:21).
Obviamente, não poderia estar
presente naquele julgamento sumário a população pobre e carente, pessoas
desassistidas que foram acalmadas espiritualmente com as diversas manifestações
divinas de Jesus: as curas e os milagres realizados e testemunhados ao longo do
seu ministério. Estavam ali os sacerdotes, os mestres da lei e os fariseus, em
conluio com setores da elite judaica, alinhados com o governo de Roma. Como não
havia registro escrito desse julgamento, tudo passou para a posteridade pela
oralidade.
Jesus já vinha sendo monitorado
há algum tempo por lacaios do império romano, e estes identificaram nele uma
liderança popular capaz de concorrer com as autoridades de Roma; alguém que
surgiu para libertar um povo oprimido, um enviado de Deus, capaz de mobilizar
as forças divinas para se livrar da dominação estrangeira que oprimia o povo
judeu naquela época. Por isso, consideravam-no um revolucionário e era
necessário retirá-lo do convívio com a sociedade e condená-lo à morte.
Jesus tinha consciência da sua
missão final que ali se iniciava, e poderia evitar a situação cruel, mas para
concretizar o projeto do Reino de Deus não deveria se opor, pelo contrário,
faria a vontade do Pai. E o que se sabe é que Jesus não precisou rebater a
violência com violência; nem mesmo condenou Judas, deixou que sua própria
consciência o condenasse. Esperou que tudo se consumasse como um propósito
divino.
A lei injusta e parcial usada
para a manutenção do poder romano — que condenou um homem justo e maltratou sua
dignidade — não foi capaz de evitar a vitória de uma crença, o surgimento de
uma religião fervorosa, que tem como símbolo máximo a Cruz de Cristo.
Esperamos que o calvário e a
crucificação de Jesus, paradoxalmente, consigam amenizar nossas dores; nos
fortaleçam cada vez mais, para ajudarmos nossos irmãos que precisam de apoio ou
socorro espiritual; ao mesmo tempo em que precisamos nos encaminhar para uma
Boa Páscoa e para a ressurreição, que exige de nós um renascer a cada dia.
Além disso, precisamos nos
abastecer da fé e da esperança, e nos convencer de que a morte foi vencida pelo
Senhor da Vida!

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