Hoje completaria 100 anos de idade o saudoso Armando
Andrade de Menezes (1926-2017), parintinense que, concludente da Faculdade de
Direito do Amazonas (1954) integrou com méritos o Tribunal de Contas do
Amazonas. Memorialista e professor, participou dos grêmios literários do IGHA
(Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) e da Academia Amazonense de
Letras, entre outros. Todavia, foi uma associação que prosperou sob a
denominação de Chá do Armando que o tornou admirado pelos inúmeros
frequentadores, crismados de chazistas. Foram os remanescentes deste
grupo que se congregaram para festejar o centenário do patrono.
Como o Chá mudou de sede repetidas vezes, assim aconteceu
com esta comemoração: foi mudando até chegar ao
Mirante da Cidade.
Novamente recorro ao exemplar que a Edições Chá do
Armando publicou em homenagem ao seu
fundador e mantenedor. Intitulado de “O Chá do Armando – em prosa e verso”,
circulou em 2012, dirigida pelo Almir Diniz e outros, entre os quais me incluo.
A prosa e o verso transcritos são de autoria do falecido poeta Jorge Tufic (1930-2018).
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| Como o Chá mudou de sede repetidas vezes, assim aconteceu com esta comemoração: foi mudando até chegar ao Mirante da Cidade. |
O "CHÁ DO ARMANDO"
O Chá do Armando é a ceia dos poetas / já bem longe da tola hipocrisia; / e enquanto fraterniza essa harmonia / tenta evitar as reuniões secretas.
As farpas são contidas e discretas, / há mais poder no afeto e na poesia. / Tudo ao redor são telas; e a magia / se desprende das cores prediletas.
Anísio Mello distribui o pão, / Armando se reveza com o Diniz / nas benesses do néctar temporão.
Guardo esta cena (o tempo vai, remoto) / do Armando com seu grupo: tão feliz / quanto algum dia numa outra foto.
Icaraí (CE), 26/10/2008
Jorge Tufic (👇)
ARMANDO DE MENEZES
Deixo a memória fluir, e logo me vejo numa esquina de
Manaus, debaixo de uma lanterna grande, iluminada a carvão, com o ano da folhinha
parado em 1945. Era a rua dos Andradas com a Pedro Botelho, ou rua Oriental.
Quase em frente ao muro da “estância” onde morávamos, eu, meu irmão e nossos
pais, erguia-se a fachada de não sei quantas janelas da casa dos Menezes. Foi
ali, nesse pedaço de urbe ventilado, que, aos poucos, fui conseguindo
distinguir, ao longe, os donos daquele espaço:
Dona Santa, o Dr. Tude e seus numerosos filhos, dentre
eles Armando, do qual tornei-me amigo incondicional a partir de seu ingresso na
Academia Amazonense de Letras. A todos os outros, porém, sem exceção de nenhum,
sempre dediquei respeito e admiração. Alberto, no antigo INPS, foi meu chefe de
Grupo, o melhor que tive em minha passagem pelo famoso Instituto.
Em Armando, desde que um dia lá perdido cruzamos nossos
passos, ficou a marca do afeto cada vez que o cumprimento formal se fazia
necessário, tão diferente daquele que vinha do mesmo cotidiano, da mesma
província aconchegante, dos mesmos recantos públicos. Havia qualquer coisa a
mais no gesto e na fala desse generoso cavalheiro, descendente dos Andradas e
cujo Menezes eu jamais desligara da verve e do talento daqueloutro, o Emílio,
irmão poético de Bilac e Guimarães Passos. Foram, pois, décadas que me deram a
conhecer, aqui e ali, do mais novo ao mais velho do clã, com Maria Luiza, a
única, sob a forte proteção e o carinho dessa gloriosa estirpe de amazonenses.
Intelectual de raça, poeta, escritor, este Armando de
Menezes surpreende, também, pelo carisma, rodeando-se de gente igual a gente no
famosíssimo Chá do Armando, uma sociedade de carbonários voltada para o
drinque com moderação e a crítica literária, onde pontificam mestres e doutores
de nossas Universidades, sem falar nas reuniões de todas as sextas-feiras,
convidados especiais.
Autor de 14 livros publicados, e ainda na plenitude da
energia criadora, devota-se ele à pesquisa da história, sendo marcante a
contribuição que tem dado às suas próprias memórias e de sua família, prática
essa exemplar, quando sabemos que o livro resiste, com bravura, a qualquer tipo
de avanço tecnológico, por mais útil que seja. O resgate e a datação desses
fatos, aliás, ocupam, hoje, os pesquisadores e os arquitetos ligados aos
municípios brasileiros, tendo sido possível, deste modo, manter patrimônios
históricos como a casa de Humberto de Campos, na Parnaíba.
Meu depoimento seria longo acerca de Armando de Menezes,
remontando aos cenários da Esquina dos Valentes, do Clube do Remo e da Joaquim
Nabuco (sobre o qual escreve, lembrando o abolicionista) dos bondes a caminho
de Flores, da Chapada, dos Bilhares. Mas prefiro, a isso, deliciar-me com a
lembrança de Thiago de Mello ter escolhido, anos após, justamente aquele trecho
de nossas ruas, para empinar papagaios.
Jorge Tufic
Fortaleza, 26/11/2010

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