No próximo sábado (21) completaria 100 anos de idade o
saudoso Armando Andrade de Menezes (1926-2017), que, concludente da Faculdade
de Direito do Amazonas (1954) integrou com méritos o Tribunal de Contas do Amazonas.
Memorialista, participou dos grêmios literários do IGHA (Instituto Geográfico e
Histórico do Amazonas) e da Academia Amazonense de Letras. Todavia, foi uma
associação que prosperou com a denominação de Chá do Armando que o fez
conhecido e admirado pelos inúmeros frequentadores, crismados de chazistas.
Foram os remanescentes deste grupo que se congregaram para festejar o
centenário do patrono.

Tão pronto foi decidido o congraçamento, recorri a um
exemplar que as Edições Chá do Armando fez publicar em homenagem ao fundador e mantenedor.
Intitulado de “O Chá do Armando – em prosa e verso”, circulou em 2012, dirigida
pelo Almir Diniz e outros, entre os quais me incluo. Dessa cópia compilei a
crônica de Benayas Pereira, outro saudoso chazista, que vai transcrita.
UM CHÁ PRA LÁ DE ESPECIAL
Benayas Inácio Pereira
Em uma determinada casa numa determinada rua de Manaus, todas as
sextas-feiras, uns amigos se reúnem para tomar um chazinho. Trata-se de uma
casa velha, cercada de miríades faculdades. Em razão disso, a avenida se
engalana para receber os futuros "doutores", que ora dividem os
estudos com a amizade que existe entre eles, mas as fofocas são o alvo maior.
Os carros se aglomeram em fila dupla e tripla. Nessa via festiva, os vaivéns
provocados pelos estudantes, os altos decibéis produzidos pelos carros de boa potência
e o buzinaço ensurdecedor fazem com que ela se transforme num verdadeiro pandemônio,
bem diferente dos finais de semana, quando o silêncio impera.
Benayas e esposa na festa
dos 80 anos de Armando
Pois é exatamente em meio a tudo isso que os velhos amigos da velha casa
se reúnem. Alheio a todo aquele tumulto, entre salgadinhos e chazinhos
"envelhecidos" de 8 a 12 anos, eles passam algumas horas jogando
conversa fora. Como todos são gente fina, o horário é meio controlado. A
reunião se inicia bem cedo (por volta de 17h) e, logicamente, não termina muito
tarde. O número de componentes não é assim tão grande. Também não é relevante
assim, pois a reunião prima pela qualidade e não pela quantidade dos
componentes. O número de pessoas dificilmente passa de dez.
Esse encontro semanal tem o sugestivo nome de Chá do Armando. É
claro que, com receio de omitir nomes, não vou dizer quem frequenta a casa
velha do artista plástico, poeta, escritor, ensaísta e acima de tudo uma pessoa
de coração aberto, o acadêmico Anísio Mello. Uma vez, porém, que eu já perdi o medo,
digo que os imortais Almir Diniz, Luiz Bacellar, Zemaria Pinto e, quando em
Manaus, Jorge Tufic, além do nosso sempre querido mestre Armando de Menezes,
que dá nome ao encontro, são habitués dessas efemérides.Armando (esq.) aos 80 anos, saudado
pelo Simão Pessoa
Ainda fazendo parte desta turma da pesada, o historiador Roberto
Mendonça, o poeta Sergio Luiz Pereira, o pesquisador Nonato Braga, o
sexo-humorista Simão Pessoa e o músico e compositor Mauri Marques sempre marcam
presença, além de um e outro personagem não menos importante que aparece quando
lhe dá na veneta — como os músicos Rossini Lima e Nato Neto e o poetator
Dori Carvalho.
Nunca vi fechada a porta dessa velha casa. Ela está sempre aberta para
receber as pessoas de bem. Entendo que a curiosidade mata o rato e o peixe, mas
se quiserem saber quais os assuntos mais abordados, posso adiantar que ali se
respira principalmente a arte; todavia, a semente da acerola, os últimos
acontecimentos mundiais, a música, a poesia, o cinema, o meio ambiente, a
literatura, o jaraqui e o matrinxã são exaustivamente citados.
Nada disso importa, porém. O que é mais relevante nesses encontros é a
curtição da amizade que cada membro dessa sociedade única carrega dentro de si.
É o amor que se cultiva, mas de uma forma singular, tema, onde ele é dourado
por todos, simultaneamente, formando uma redoma onde a maldade dá lugar à
brandura e a inveja é pura utopia. O Chá do Armando não é restrito
somente às pessoas do sexo masculino. Esposas e convidadas também comparecem e
são sempre bem-vindas.
O viajado poeta Almir Diniz não se cansa de dizer que em lugar algum ele
viu tanta irmandade junta. É verdade: ali conseguimos esquecer, nem que seja
por algumas horas, as agruras que a vida pode nos reservar.
Sem receio de apelar para a pieguice, confesso que por muitas vezes,
durante essas reuniões, observei uma aura vagando pela sala onde nos
encontramos. Ela é toda branquinha, em forma de fumaça. Entra sorrateiramente,
sem que ninguém a note e passeia alegremente pelas cabeças dos presentes.
Anísio Mello, nosso querido anfitrião, acha que a semana deveria ter mais
sextas-feiras. Acho que o Anísio tem razão. Eu, que há algum tempo fui brindado
pelos deuses ao ser convidado aa participar dessas reuniões, corroboro com essa
opinião. E cá com os meus botões fico a pensar: que bom se todos os dias fossem
sextas-feiras.
Manaus, 2 de maio de 2009
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