CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sábado, agosto 15, 2026

VIAGEM NO TEMPO (3)

 

    Terceiro capítulo da saga transamazônica de Renato e Alda, narrada pelo próprio.

Mercado Adolpho Lisboa

18.07.2026

O mungunzá

O domingo amanheceu como véspera de aniversário, trazendo em meu peito a expectativa do desconhecido “passeio do índio”, já confirmado logo cedo, antes mesmo do saboroso café da manhã no hotel. O sol brilhava insinuante, afastando qualquer ameaça de chuva e iluminando o movimento dos pedestres na rua em frente, fechada para carros. Ao final da via, próximo ao encontro com a Sete de Setembro, um pequeno palco abrigava cantores de músicas em espanhol — provavelmente venezuelanos e haitianos, muitos dos quais se espalhavam pelo centro da cidade, alguns em situação de mendicância, testemunhas silenciosas de deslocamentos forçados de suas pátrias.

Na programação daquela manhã, estava prevista a visita à Feira de Artesanatos da Avenida Eduardo Ribeiro. Antes, porém, decidi resgatar uma memória de infância: o programa de domingo com meu pai, quando íamos a pé até o Mercado Adolpho Lisboa. Lá, eu me deliciava com uma tigela generosa de mungunzá — canjica, como se diz no Sudeste — antes mesmo de ele escolher o peixe para o almoço. Eram bons tempos, que me marcaram como uma vacina antiga contra o esquecimento. No entanto, ao tentar repetir o ritual, percebi que a experiência já não era tão edificante: não havia mais as tigelas, só copos plásticos descartáveis; o sabor não era o mesmo, e meu paladar havia mudado. Tudo havia mudado!

Como tudo havia mudado, decidimos almoçar pizza — gesto simples, mas que traduzia a adaptação às novas rotinas da cidade. Na sobremesa, porém, veio o reencontro com a Amazônia: sorvetes de frutas típicas, cada qual mais surpreendente que o outro — buriti, açaí, tucumã, bacuri e tantos sabores que pareciam conter a flora amazônica em cada colherada. Ao descobrirmos a sorveteria Glacial, próxima ao hotel, tornamo-nos frequentadores assíduos, como se ali houvesse uma semente de iniciação ao paladar amazônico.

À noite, Roberto nos levou à Ponta Negra, a praia fluvial que se transformara em símbolo de status burguês. O espaço fervilhava de gente, tão cheio que nem conseguimos estacionar. A beleza do lugar se impunha, mas a praia, para nós, não era objeto de consumo. Assim, preferimos retornar ao hotel, guardando a experiência como mais uma nota da sinfonia urbana que Manaus nos oferecia em tempos modernos.

Ao regressarmos ao hotel, percebi que Alda se queixava de uma cistite que há muito tempo não a incomodava. Compramos um remédio paliativo, já usado em outra ocasião, mas o efeito não veio. Tornava-se necessário levá-la ao hospital para uma avaliação mais criteriosa. Enquanto eu buscava no Google uma instituição de referência, credenciada ao meu plano de saúde, o celular tocou: era meu irmão José Manoel. Conversamos amenidades, mas logo relatei o desconforto da Alda, e a suspeita de infecção urinária. Sua esposa, Marília, interveio com asserção e nos orientou a procurar o Hospital Santa Júlia, instituição de boa reputação. Assim, programamos a ida para a manhã do dia seguinte.

Antes de dormir, preocupei-me em desmarcar, pelo WhatsApp, o passeio do índio, que estava previsto para o dia do meu aniversário. A expectativa transformava-se em cuidado e zelo, e a celebração do aniversário cederia espaço à prioridade com a saúde.

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