FASCÍCULO 13
Ao retornar das férias, em início de 1975, fui lotado no comando-geral em atividade burocrática. Em março, Henoch Reis assumiu o governo do Estado e, em abril, o coronel Mário Ossuosky, o comando da Força Estadual, no qual permaneceu pouco mais de quatro anos, constituindo-se, portanto, no comando mais duradouro no Governo Militar. Construiu e reformou várias instalações; ampliou o efetivo para atender o interior; estimulou o crescimento dos clubes sociais, enfim, ampliou com vantagens a legislação policial. Seu ato corriqueiro de convidar oficiais para o almoço em restaurante da cidade estimulou o surgimento do CVC – clube dos velhos coronéis, que segue se reunindo no almoço da última sexta-feira do mês.
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| Quartel da PM na Praça da Polícia, sem data |
O desarranjo familiar havia se instaurado e, diante
do quadro, cuidei de buscar onde morar. A residência do Morro estava
desocupada, então aproveitei para nela me abrigar, obrigando-me a custear
arranjos na casa, em primordial construindo um banheiro interno, a fim de
descartar a “casinha” no fundo do quintal.
Após três anos distante da faculdade, desde que
frequentei o CAO em Fortaleza, voltei aos estudos, porém, o sistema de créditos
fez estender por alguns anos a conclusão do curso. Foi necessário bastante
empenho, pois havia perdido o entusiasmo, a turma inicial com o bloco de
estudos e de zorras na periferia do Mercado Adolpho Lisboa. Pouco lembro de
como levei os estudos, mas consultando o Histórico Escolar percebi meu
relaxamento, sendo aprovado em várias disciplinas com o índice mínimo (5); após
ser agraciado no início do curso com a Ordem dos Cobras. Somente me
recordo que, em 1979, estive fora de Manaus e, em 1980, enfrentei as
disciplinas básicas, como Estudo de Problemas Brasileiros e Línguas. Os
calouros de 1980 não entendiam como eu estava ali, se estava encerrando o
curso. Outro detalhe: as aulas eram ministradas no antigo prédio do Seminário
São José, onde vivera nove anos, então ocupado pelo ICHL.
| Prédio do Seminário em reparos pela Uninorte, após a saída do ICHL |
* * *
Duas obras portentosas distinguiram Manaus em 1976:
a inauguração do Tropical Hotel Manaus, empreendimento da Varig, em março; e do
moderno aeroporto Eduardo Gomes, em julho, ocasião em que o Ponta Pelada foi
transferido para a Base Aérea. Na condição de chefe da 4ª Seção, encarregada do
registro de bens e dos imóveis, entre outros encargos, prosseguia em atividade
no comando da corporação. No começo do ano, foi decidida a contratação de
funcionários civis, com ênfase no elemento feminino. Entre outros entraves,
surgiu a questão da assinatura das CTPS, estranhamente restou à seção que
dirigia, com a exclusão da Diretoria de Pessoal. A fim de cumprir a atribuição,
dirigi-me à repartição do Detran, que funcionava no mesmo quarteirão do
quartel, dirigida por oficial da PM e dispondo obviamente de departamento de
pessoal. Recebido pela chefa Raimundinha e sua auxiliar C. Cordeiro, fui me
inteirando dos pormenores trabalhistas e ali retornei em várias ocasiões,
sempre que surgia uma dúvida funcional, ou interessado na ajuda cada vez mais
afetuosa da auxiliar.
Nessa ocasião, tendo obtido a separação conjugal
pelo desquite, ato judicial existente até o ano seguinte, estava livre para
nova paixão, no entanto, já havia substituta. E a minha situação afetiva iria
se complicar ainda mais com a admissão das funcionárias em 4 de abril. A dezena
de celetistas foi distribuída pelas seções do comando-geral, e a Leda Maria foi
classificada na 4ª seção. Designei-a para a função de efetuar os registros do
pessoal civil, o que me deixou aliviado. Inegável que a presença feminina,
rompendo a corrente machista mais que centenária, promoveu um alvoroço no corpo
policial. Há registro de casamento de uma delas com um oficial, eu me contive
apenas namorando a minha estagiária.
Em junho, completei 10 anos de atividade policial,
adquirindo o direito à licença-prêmio (6 meses). Não me recordo qual a
motivação, mas me empolguei com o anúncio de emprego no Tropical Hotel e,
melhor, porque a vaga era de comprador. De pronto, imaginei os ganhos que
poderia usufruir, como havia desfrutado na tesouraria da PM. Com a finalidade
de conquistar a vaga, busquei o “padrinho” Luiz Pinheiro, coronel reformado,
que trabalhava na Varig há anos. Ainda hoje guardo o cartão de visita com que
me apresentou ao Sr. Carvalho Leite, CEO da Companhia Tropical de Hotéis da
Amazônia, em Manaus. Com tamanha recomendação, consegui a vaga, passei então a
providenciar a CTPS, que foi emitida em 23 de julho. A seguir, veio a
contratação em 6 de agosto, com salário de Cr$ 4.000 por mês, no cargo de
Comprador.
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| Cartão pessoal do coronel Luiz Pinheirinho. |
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| CTPS ☝e contrato de trabalho 👇 |
Esforcei-me ao máximo para me adaptar ao novo ambiente; apesar dos esforços, capitulei perante interesses mesquinhos de auxiliares e intrigas pessoais envolvendo minha companheira CVC, também funcionária do hotel. No final do ano, o titular das compras, Mário Bento, saiu de férias e permitiu que eu assumisse a seção, ocasião em que passei a conhecer mais de perto os dirigentes do estabelecimento. Aproveitei para circular por todo o hotel e, ao fim, conheci-o por completo. Guardei na memória a figura do espanhol Diego, gerente geral, a ponto de ter empregado seu nome no filho que nasceu posteriormente. Aproximava-se o término da licença-prêmio e havia expectativa na corporação: se eu me mantivesse no Tropical e optasse por sair da PM, abrir-se-ia uma vaga para promoção. Cercado dessa dubiedade, festejei a chegada de 1977, residindo na rua Amazonas, no Morro. (segue)





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