CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, agosto 10, 2026

MEUS OITENTANOS (13)

FASCÍCULO 13

Ao retornar das férias, em início de 1975, fui lotado no comando-geral em atividade burocrática. Em março, Henoch Reis assumiu o governo do Estado e, em abril, o coronel Mário Ossuosky, o comando da Força Estadual, no qual permaneceu pouco mais de quatro anos, constituindo-se, portanto, no comando mais duradouro no Governo Militar. Construiu e reformou várias instalações; ampliou o efetivo para atender o interior; estimulou o crescimento dos clubes sociais, enfim, ampliou com vantagens a legislação policial. Seu ato corriqueiro de convidar oficiais para o almoço em restaurante da cidade estimulou o surgimento do CVC – clube dos velhos coronéis, que segue se reunindo no almoço da última sexta-feira do mês.

Quartel da PM na Praça da Polícia, sem data

O desarranjo familiar havia se instaurado e, diante do quadro, cuidei de buscar onde morar. A residência do Morro estava desocupada, então aproveitei para nela me abrigar, obrigando-me a custear arranjos na casa, em primordial construindo um banheiro interno, a fim de descartar a “casinha” no fundo do quintal.

Após três anos distante da faculdade, desde que frequentei o CAO em Fortaleza, voltei aos estudos, porém, o sistema de créditos fez estender por alguns anos a conclusão do curso. Foi necessário bastante empenho, pois havia perdido o entusiasmo, a turma inicial com o bloco de estudos e de zorras na periferia do Mercado Adolpho Lisboa. Pouco lembro de como levei os estudos, mas consultando o Histórico Escolar percebi meu relaxamento, sendo aprovado em várias disciplinas com o índice mínimo (5); após ser agraciado no início do curso com a Ordem dos Cobras. Somente me recordo que, em 1979, estive fora de Manaus e, em 1980, enfrentei as disciplinas básicas, como Estudo de Problemas Brasileiros e Línguas. Os calouros de 1980 não entendiam como eu estava ali, se estava encerrando o curso. Outro detalhe: as aulas eram ministradas no antigo prédio do Seminário São José, onde vivera nove anos, então ocupado pelo ICHL.

Prédio do Seminário em reparos pela Uninorte,
após a saída do ICHL 

* * *

Duas obras portentosas distinguiram Manaus em 1976: a inauguração do Tropical Hotel Manaus, empreendimento da Varig, em março; e do moderno aeroporto Eduardo Gomes, em julho, ocasião em que o Ponta Pelada foi transferido para a Base Aérea. Na condição de chefe da 4ª Seção, encarregada do registro de bens e dos imóveis, entre outros encargos, prosseguia em atividade no comando da corporação. No começo do ano, foi decidida a contratação de funcionários civis, com ênfase no elemento feminino. Entre outros entraves, surgiu a questão da assinatura das CTPS, estranhamente restou à seção que dirigia, com a exclusão da Diretoria de Pessoal. A fim de cumprir a atribuição, dirigi-me à repartição do Detran, que funcionava no mesmo quarteirão do quartel, dirigida por oficial da PM e dispondo obviamente de departamento de pessoal. Recebido pela chefa Raimundinha e sua auxiliar C. Cordeiro, fui me inteirando dos pormenores trabalhistas e ali retornei em várias ocasiões, sempre que surgia uma dúvida funcional, ou interessado na ajuda cada vez mais afetuosa da auxiliar.

Nessa ocasião, tendo obtido a separação conjugal pelo desquite, ato judicial existente até o ano seguinte, estava livre para nova paixão, no entanto, já havia substituta. E a minha situação afetiva iria se complicar ainda mais com a admissão das funcionárias em 4 de abril. A dezena de celetistas foi distribuída pelas seções do comando-geral, e a Leda Maria foi classificada na 4ª seção. Designei-a para a função de efetuar os registros do pessoal civil, o que me deixou aliviado. Inegável que a presença feminina, rompendo a corrente machista mais que centenária, promoveu um alvoroço no corpo policial. Há registro de casamento de uma delas com um oficial, eu me contive apenas namorando a minha estagiária.

Em junho, completei 10 anos de atividade policial, adquirindo o direito à licença-prêmio (6 meses). Não me recordo qual a motivação, mas me empolguei com o anúncio de emprego no Tropical Hotel e, melhor, porque a vaga era de comprador. De pronto, imaginei os ganhos que poderia usufruir, como havia desfrutado na tesouraria da PM. Com a finalidade de conquistar a vaga, busquei o “padrinho” Luiz Pinheiro, coronel reformado, que trabalhava na Varig há anos. Ainda hoje guardo o cartão de visita com que me apresentou ao Sr. Carvalho Leite, CEO da Companhia Tropical de Hotéis da Amazônia, em Manaus. Com tamanha recomendação, consegui a vaga, passei então a providenciar a CTPS, que foi emitida em 23 de julho. A seguir, veio a contratação em 6 de agosto, com salário de Cr$ 4.000 por mês, no cargo de Comprador.

Cartão pessoal do coronel Luiz Pinheirinho.

CTPS ☝e contrato de
trabalho 👇


Ao me apresentar no hotel, contudo, soube que a contratação havia sido anulada, por motivo de que o comprador titular, o português Mário Bento, não mais seguiria para Recife, pois o empreendimento nordestino da Varig fora cancelado. Dessa maneira, meu contentamento não se consumou e, caso quisesse permanecer empregado, teria de aceitar a subchefia; o recém-chegado não titubeou: “Ajoelhou, tem que rezar.” Frequentador daquele quartel centenário, o hotel me deixou deslumbrado por diversas razões, como certamente haveria de impressionar a qualquer viajante; erguido à margem do rio Negro, em trecho da praia da Ponta Negra, exibia uma arquitetura moderna, embora não dispusesse de elevadores, de modo que a circulação era realizada a pé. Além do centro comercial com lojas de conceito, havia uma boate aberta ao público nos finais de semana, onde muito me fatiguei. Outro relevante pormenor era a quantidade de colaboradores em número superior a 800, somados o pessoal de hotelaria e os operários empregados na conclusão da edificação. Para atender a esse movimento de pessoal em rodízio de hora em hora, o Tropical pôs em circulação entre o hotel e a Praça da Polícia, no Centro, um ônibus caracterizado da empresa, importado dos Estados Unidos.

Esforcei-me ao máximo para me adaptar ao novo ambiente; apesar dos esforços, capitulei perante interesses mesquinhos de auxiliares e intrigas pessoais envolvendo minha companheira CVC, também funcionária do hotel. No final do ano, o titular das compras, Mário Bento, saiu de férias e permitiu que eu assumisse a seção, ocasião em que passei a conhecer mais de perto os dirigentes do estabelecimento. Aproveitei para circular por todo o hotel e, ao fim, conheci-o por completo. Guardei na memória a figura do espanhol Diego, gerente geral, a ponto de ter empregado seu nome no filho que nasceu posteriormente. Aproximava-se o término da licença-prêmio e havia expectativa na corporação: se eu me mantivesse no Tropical e optasse por sair da PM, abrir-se-ia uma vaga para promoção. Cercado dessa dubiedade, festejei a chegada de 1977, residindo na rua Amazonas, no Morro. (segue)

Nenhum comentário:

Postar um comentário