CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quinta-feira, março 19, 2026

CENTENÁRIO DE ARMANDO DE MENEZES (1926-2017)

No próximo sábado (21) completaria 100 anos de idade o saudoso Armando Andrade de Menezes (1926-2017), que, concludente da Faculdade de Direito do Amazonas (1954) integrou com méritos o Tribunal de Contas do Amazonas. Memorialista, participou dos grêmios literários do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) e da Academia Amazonense de Letras. Todavia, foi uma associação que prosperou com a denominação de Chá do Armando que o fez conhecido e admirado pelos inúmeros frequentadores, crismados de chazistas. Foram os remanescentes deste grupo que se congregaram para festejar o centenário do patrono.


Tão pronto foi decidido o congraçamento, recorri a um exemplar que as Edições Chá do Armando  fez publicar em homenagem ao fundador e mantenedor. Intitulado de “O Chá do Armando – em prosa e verso”, circulou em 2012, dirigida pelo Almir Diniz e outros, entre os quais me incluo. Dessa cópia compilei a crônica de Benayas Pereira, outro saudoso chazista, que vai transcrita.

 

UM CHÁ PRA LÁ DE ESPECIAL

Benayas Inácio Pereira 

Em uma determinada casa numa determinada rua de Manaus, todas as sextas-feiras, uns amigos se reúnem para tomar um chazinho. Trata-se de uma casa velha, cercada de miríades faculdades. Em razão disso, a avenida se engalana para receber os futuros "doutores", que ora dividem os estudos com a amizade que existe entre eles, mas as fofocas são o alvo maior. Os carros se aglomeram em fila dupla e tripla. Nessa via festiva, os vaivéns provocados pelos estudantes, os altos decibéis produzidos pelos carros de boa potência e o buzinaço ensurdecedor fazem com que ela se transforme num verdadeiro pandemônio, bem diferente dos finais de semana, quando o silêncio impera.

Benayas e esposa na festa
dos 80 anos de Armando

Pois é exatamente em meio a tudo isso que os velhos amigos da velha casa se reúnem. Alheio a todo aquele tumulto, entre salgadinhos e chazinhos "envelhecidos" de 8 a 12 anos, eles passam algumas horas jogando conversa fora. Como todos são gente fina, o horário é meio controlado. A reunião se inicia bem cedo (por volta de 17h) e, logicamente, não termina muito tarde. O número de componentes não é assim tão grande. Também não é relevante assim, pois a reunião prima pela qualidade e não pela quantidade dos componentes. O número de pessoas dificilmente passa de dez.

Esse encontro semanal tem o sugestivo nome de Chá do Armando. É claro que, com receio de omitir nomes, não vou dizer quem frequenta a casa velha do artista plástico, poeta, escritor, ensaísta e acima de tudo uma pessoa de coração aberto, o acadêmico Anísio Mello. Uma vez, porém, que eu já perdi o medo, digo que os imortais Almir Diniz, Luiz Bacellar, Zemaria Pinto e, quando em Manaus, Jorge Tufic, além do nosso sempre querido mestre Armando de Menezes, que dá nome ao encontro, são habitués dessas efemérides.

Armando (esq.) aos 80 anos, saudado
pelo Simão Pessoa

Ainda fazendo parte desta turma da pesada, o historiador Roberto Mendonça, o poeta Sergio Luiz Pereira, o pesquisador Nonato Braga, o sexo-humorista Simão Pessoa e o músico e compositor Mauri Marques sempre marcam presença, além de um e outro personagem não menos importante que aparece quando lhe dá na veneta — como os músicos Rossini Lima e Nato Neto e o poetator Dori Carvalho.

Nunca vi fechada a porta dessa velha casa. Ela está sempre aberta para receber as pessoas de bem. Entendo que a curiosidade mata o rato e o peixe, mas se quiserem saber quais os assuntos mais abordados, posso adiantar que ali se respira principalmente a arte; todavia, a semente da acerola, os últimos acontecimentos mundiais, a música, a poesia, o cinema, o meio ambiente, a literatura, o jaraqui e o matrinxã são exaustivamente citados.

Nada disso importa, porém. O que é mais relevante nesses encontros é a curtição da amizade que cada membro dessa sociedade única carrega dentro de si. É o amor que se cultiva, mas de uma forma singular, tema, onde ele é dourado por todos, simultaneamente, formando uma redoma onde a maldade dá lugar à brandura e a inveja é pura utopia. O Chá do Armando não é restrito somente às pessoas do sexo masculino. Esposas e convidadas também comparecem e são sempre bem-vindas.

O viajado poeta Almir Diniz não se cansa de dizer que em lugar algum ele viu tanta irmandade junta. É verdade: ali conseguimos esquecer, nem que seja por algumas horas, as agruras que a vida pode nos reservar.

Sem receio de apelar para a pieguice, confesso que por muitas vezes, durante essas reuniões, observei uma aura vagando pela sala onde nos encontramos. Ela é toda branquinha, em forma de fumaça. Entra sorrateiramente, sem que ninguém a note e passeia alegremente pelas cabeças dos presentes.

Anísio Mello, nosso querido anfitrião, acha que a semana deveria ter mais sextas-feiras. Acho que o Anísio tem razão. Eu, que há algum tempo fui brindado pelos deuses ao ser convidado aa participar dessas reuniões, corroboro com essa opinião. E cá com os meus botões fico a pensar: que bom se todos os dias fossem sextas-feiras.

Manaus, 2 de maio de 2009

domingo, fevereiro 01, 2026

POEMA DOMINICAL (9)

Obra da minha visita à Biblioteca Mário Ypiranga, no CC Povos da Amazônia, compartilho um poema de Violeta Branca (1912-2000), publicado na revista Cabocla, em agosto de 1937. Com tal, volto a preencher o domingo com uma produção poética. 

Revista Cabocla, agosto 1937

Onde estás, meu amor? 

Em que mar distante tu estás, meu amor,/ que meu pensamento não te encontra?/ Em que porto de sombras/ o teu barco ancorou na noite erma?/ (...) Onde estás, meu amor,/ que a minha aflição e o meu sonho/ caminham em vão na asa do vento/ pelas distâncias sem te encontrar?

Dize-me onde estás/ e eu irei com o primeiro clarão do sol/ da madrugada que se aproxima azul,/ esperar-te amorosa, de braços abertos/ numa ânsia de voo e de abraços/ no silêncio branco/ da praia coberta de conchas e de sargaços.

Dize-me ande estás, meu amor,/ e eu irei boiando nas espumas alvas/ como uma estrela diurna iluminando/ um céu mais claro que os teus olhos verdes,/ esperar-te perdida/ no embalo da vaga/ que subindo alto/ te encontra e te afaga/ numa carícia dolorosa de amante arrependida.

Em que mar distante tu estás, meu amor,/ que o meu pensamento/ e o meu beijo/ não te encontram?

sábado, janeiro 31, 2026

RAMAYANA DE CHEVALIER EM REVISTA "CABOCLA"

 Saudoso da Biblioteca Mario Ypiranga, situada no Centro Cultural Povos da Amazônia, estive nela ontem conduzindo um amigo - Ed Lincon - que se maravilhou com o material a ser explorado. Passamos as revistas centenárias circuladas em Manaus pelo celular, arrecadando uma boa seleção de fotos e de textos, como o que disponibilizo nesta postagem.

Trata-se de um artigo do saudoso Ramayana de Chevalier, publicado na revista Cabocla, edição de agosto de 1937, há quase noventa anos. Com o título "Plantador de Civilizações", Chevalier ressalta com sua aptidão intelectual a atuação hercúlea do homem amazônico.

Monumento aos Portos, existente
no Largo São Sebastião (foto da
 revista)

Nos nervos de titã desse bravo moreno, vibram lendas sutis, cantam poemas heroicos! Do mistério arcual das distâncias supremas, embalado à cantiga das ondas, sereno e simples, resistente e sóbrio, enveredou o Paes Leme de cobre pelos labirintos verdes da Amazônia. Escudava-o: a coragem; alimentava-o: o sonho de riqueza; abençoava-o: a luz vertical que lhe descia em frechas d'oiro do céu ímpar.

Nas cafurnas sombrias, nos desvãos indistintos, nas margens lodosas e instáveis, que lembram as orlas tristes do Nilo, berços de cegonhas e faraós, ou as fímbrias lamacentas do zambéze, picadeiros de hipopótamos e cágados, ali cresceu o sonho do hércules bronzeado, combatendo as zarabatanas dos selvícolas, a traição dos ofídios e dos felinos, o fascínio, sinistro e meigo, das flores venenosas e dos festões daninhos.

Cresceu o seu sonho, em lágrimas de “látex”, em sangue alvíssimo e sincero, a escorrer, das artérias da árvore sagrada, para a volúpia de todas as máquinas velozes do Universo! De dia, aos revérberos de um sol, milenário e fecundo; de noite, às carícias de um plenilúnio, místico e sensual, investe o briareu contra a hidra botânica, bracejante e triunfal, rebentando em úlceras florais nas catleias lindíssimas, em abraços letais nas lâminas crenadas das parasitas, nos pedúnculos enganadores dos vegetais mortíferos.

Quando o mormaço cede às virações da tarde, que o diadema solar, poisa, no ocaso, sobre a cabeça heril das castanheiras, como um cocar imenso, vacilam sombras sob os tufos verdes, correm fantasmas entre as trepadeiras, jorram mistérios das orbitas lucitrementes dos tatus nojentos...

Então começa o seringueiro o seu combate. Retrança o jamaxi, veste o gibão, embainha o terçado, ajusta o embornal, palmilha a “lambedeira”, cobre-se do chapéu com barbicacho, tiracoleia o rifle, apanha a vasilha de alumínio, as tijelinhas, a faca americana, e, já à saída do barracão ou do “tapiri”, pendura ao cinto o dente de jacaré recheado de azougue, ou de arsênico ou de qualquer oração ao santo predileto, para imunizar-se, pela ambliope, de veneno das cobras.

A sua faina é uma invasão cotidiana. O seu mister, uma aventura constante. O seu destino, uma armadilha incerta, esperando-o, na curva de um varadouro, na meia-tinta de uma clareira imota. Foi assim que ele ergueu, no coração da selva, conto um muiraquitã propiciatório e sorridente, um sonho urbano: Manaus.

Sofrendo, lutando, às arrancadas bandoleiras ou aos golpes broncos de uma inigualável tenacidade budica, de lá do fundo rude dos balatais, do aceiro áspero dos seringais, das “reboladas” majestosas das castanheiras, da sombra odorizada dos cumarus e dos pau-rosas, fez ele, o grande construtor, surgirem da terra civilizada de Manaus, esses gigantes arquitetônicos, que falam de belezas, de graças, de harmonias...

Foram as mãos calosas dos caucheiros que orientaram as mãos divinas de De Angelis. Foram os músculos humanos dos extratores que se enrijaram em símbolos metálicos, nos cabos e nos guindastes do “roadway”. Foi a inteligência desse caboclo puro, perdido na diluviandia, quem perfilhou os pássaros nobres e os animais amigos, estilizando-os, em gestos pictóricos, em posturas arquitetônicas, em atitudes esculturais, em reminiscências estéticas, no deslisar sutil, no ondular selvagem e olímpico, na estranha sedução da mulher amazônida!

Foi a coragem desse atleta espontâneo e ancestral, quem ponteou nas audácias da “urbs”, elastecendo-a nas pontes longas, rasgando-a nas avenidas parafusadas de “fícus”, apunhalando-a nas feridas incicatrizáveis dos jardins, claros, alegres, evocativos, sonoros de cores e de luz, onde se escondem, o amor sentimental dos morenos glebários e a vaidade sutil da “baricea”.

Seringueiro bendito! Diante de ti, ajoelha-se a Amazônia! Construíste a morada dos homens cismadores, quê, filhos de terras longínquas, se tomam de horror das distâncias e morreram no seio do teu torrão, às margens generosas do teu Rio. Nossos monumentos vieram do teu suor! Nossa cidade nasceu, vênus-cunhatã, das ondas quentes do teu sangue! Manaus é tua, caboclo sonhador, corajoso e tranquilo, irmão dos lagos que meditam, das lianas nervosas que se esticam como tendões enormes, das antas, esses bons paquidermes, meigos como as crianças, irresistíveis como os furacões...

Manaus, a filha do teu braço, te saúda, ó tuxaua moreno, obscuro construtor de civilizações... (grifei)

segunda-feira, janeiro 26, 2026

ANO NOVO DE 2026

 Após o mês sabático de folga deste espaço, eis que entro no 2026 "com os dois pés", a fim de evitar interpretação dúbia, em particular, a política. Vou continuar revendo os acontecimentos de outrora, com objetivo de recordar para animar a leitura. Pontuei minha revisão do ano anterior com os desacertos, com os obstáculos e o consequente desanimo em produzir algo sobre a história policial militar amazonense.

Esses desencontros causaram-me esta interrupção, alcunhada de sabática, aproveitada para apreciar melhor a produção do novo ano. Vou me dedicar às comemorações do meu Jubileu de Carvalho (80 anos), já estando em preparação as lembranças da caminhada, que pretendo distribuir. Oxalá, consiga.

Duas construções desaparecidas: o relógio-totem e 
o Café do Pina. Uma, modificada, de quartel para
Centro Cultural Palacete Provincial

Agora, com os pés enfrentando as chuvas de nosso "inverno", recortei a publicação do saudoso cronista L. Ruas (1931-2000), na qual, edição de 14 de outubro de 1957, de A Crítica, relata este fenômeno e os efeitos salutares. 

CHUVA NO PINA 

Havia um certo receio da noite se tornar abafada e quente se não chovesse. O céu tapado de nuvens pesadas. Alguns relâmpagos notívagos. Nada disso, porém, era sinal certo de chuva.  

Mas a chuva caiu gostosamente. Uma boa chuva de verão. Aí pelas sete e meia da noite. Muito vento e muita água. Em poucos minutos as ruas estavam encharcadas, e nós os “habitués” do Pina (isto é do Pavilhão São Jorge), das conversas e dos cafezinhos apesar de todos os calores possíveis, assistíamos alegremente o espetáculo da chuva, e dos faróis dos carros varando as densas camadas de água até aos tornozelos, e recebendo com um riso de contentamento a leve poeira de nenúfares, leve e úmida, com que a chuva e o vento nos davam uma boa noite realmente agradável.

E enquanto a chuva lavava a boca da noite as conversas lavavam as nossas almas. Tudo veio à baila. Satélite. Política. Literatura. Doença. Anedota. Cheiro de terra molhada. Alguém comentou: -- Passou a chuva e está correndo uma brisa agradável.

E todos descemos do estreito recinto do Pavilhão para a frescura das pedras molhadas.