CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sábado, agosto 24, 2024

MORTE DE GETÚLIO VARGAS: 70 ANOS

Reproduzo parte de um texto de propriedade do saudoso Ramayana de Chevalier, que se empenhou ao seu modo, como jornalista e oficial R/2, em prol de Getúlio Vargas (1882-1954), e por quem possuía extremada admiração. Servindo em Manaus, em 1961, na administração de Gilberto Mestrinho, Ramayana escrevia para o jornal A Gazeta. Foi neste matutino, em edição de 20 de abril, que ele resumiu os derradeiros dias do presidente Vargas, encerrados com a morte há 50 anos. 


(...) Assisti, anos mais tarde, à humilhação do gigante. Foi no dia da prisão de Gregório Fortunato, nos jardins do Palácio do Catete. Antes de entrar no automóvel que o levaria ao Galeão, Fortunato ainda discutia no jardim. Cercavam-no soldados da Aeronáutica e oficiais. Junto à grade do lado, eu observava a cena. E no segundo andar, dentre as frinchas da veneziana, vi um vulto que contemplava, em silêncio, toda a teatral prisão do chefe da guarda pessoal.
Era o presidente [Getúlio] Vargas. Nada podia fazer. Nada esperava mais. Tinha prometido ao grupo de emergência, constituído no Galeão, que o levariam até lá, preso, para depor. O homem que viera nas asas da revolução de 30, o chefe político do uma Nação que ele impulsionara para a frente, o Chefe supremo dos exércitos em 1932, o ditador das Américas, o Grande Líder, o presidente Constitucional do Brasil, depois, iria descer do seu pedestal, para comparecer, como um preso comum, diante de oficiais que ele promovera, diante de oficiais que ele havia ajudado a generalar-se.

Era ao crepúsculo e eu não pude ver os seus olhos. Das frinchas, ele se despedia, tristemente, do seu amigo e escudeiro. Durante mais de vinte anos, a sua vida fora guardada por aquele cão de fila negro e fiel. Alguns dias depois, passara eu a noite mal dormida, com os acontecimentos. A cidade do Rio estava com os nervos de poraquê. Pelas oito horas da manhã, abri o rádio, todos acordados em minha casa, esperando a notícia da prisão do Grande Presidente. Foi então que escutamos a mensagem:

.“Alô! Alô! Brasil! Atenção! Acaba de se suicidar no Palácio do Catete o presidente Getúlio Dornelles Vargas”

Foi o maior choque que já sofri em minha vida. Todos, de mim as minhas filhas, a minha pupila, todos choramos. O Rio, o Brasil inteiro chorou. Só não o fizeram os que continuaram a maquinar traições contra sua memória. Tive vontade de sair de casa, armado, para desafiar todo mundo. Era o desespero, era a ferida popular. Se ele tivesse apelado para o povo, nenhum poder o derrubaria! Agradeço, “àquelas quatro velas, estas lembranças estão sentidas. Só havia quatro velas acesas. Mas elas valeram por um milhão delas. Porque foram colocadas pelos que, ainda hoje, choram pelo maior dos brasileiros de todos os tempos. (A GAZETA. Manaus, 20 de abril de 1961)

segunda-feira, julho 08, 2024

MANAUS: JORNAL GREMIAL EM 1936 (1)

 O GRÊMIO, periódico lançado pelos alunos do Grêmio Estudantal (sic) Humberto de Campos, apesar de inexistir o registro do colégio, acredito se tratar de iniciativa de alunos do Ginásio Amazonense Pedro II. A 2ª edição do primeiro ano, circulada em julho de 1936, trouxe na primeira página uma contribuição de Ramayana de Chevalier, aqui postada. Convém esclarecer que Chevalier havia retornado de Salvador (BA) diplomado em medicina, sendo então empregado na Polícia Militar estadual, em reorganização. 

Recorte da primeira página, com os Bilhetes... de Ramayana


BILHETES DO AMAZONAS

RAMAYANA DE CHEVALIER

Não é nenhuma novidade dizer que o termômetro público, protegido à sombra de um “fícus” da Avenida Eduardo Ribeiro está marcando 38° à sombra. Nem que os paralelepípedos da praça mais livre da cidade estão moles como geleias de goiaba. Brilha a cidade. Brilham reflexos fugaces no zimbório moscovita do Teatro Amazonas. Brilham sigmas no braço dos integralistas apressados. Tudo brilha. Polimento? Não. Calor e mormaço. O Carneiro de Mendonça que é metido a duro viraria coloide se viesse interventoriar estas bandas

* * *

É preciso que o Brasil saiba: o Amazonas repele qualquer proposta de intromissão nos seus negócios internos. Sendo o filho esquecido, o gato borralheiro da Federação, ele não quer nada além de justiça, o que já é nada além de 4$400. Os japoneses querem plantar batatas no Amazonas. A patriotada de meia dúzia de garotos simpáticos exige o fechamento do portão aos anõezinhos de olhos oblíquos. Veem perigos amarelos na selva verde. Nem sequer reparam no patriotismo da combinação: os amarelos no verde criariam uma bandeira nacional antropobotânica (sic). Bonito! Em S. Paulo ninguém gritou que sobravam nipões. Aqui...

Quem foi que disse que existe Amazonas no mapa político do Brasil a não ser em vésperas de eleições e nos discursos do Senador Cunha Mello?

* * *

Isto aqui vivia ao Deus dará. Não se pagava a ninguém; não se aumentava a receita; não se contemplava o funcionalismo; dinheiro não chegava para a gasolina do Palácio; economia era mistério mais palpável que a Iara. Veio um homem chamado Álvaro Maia. Trouxe um amigo dentro do coração: a honestidade. E um outro no coração dos amigos: a tolerância magnânima e feliz. O Amazonas, hoje, está equilibrado como um convalescente de pneumonia. Fraco, mas em pé. Magro, mas com esperanças de gordura. Trêmulo, mas sentindo o tato das coisas. Todo o mundo recebe. Há dinheiro para socorrer os rombos menores.

Álvaro Maia é o nome que desfia dos lábios do caboclo doente de Tabatinga ou da boca, queimada de sol dos vaqueiros do Rio Branco. Álvaro Maia é o começo das orações matinais dos plantadores de seringueiras do Purus ou dos pescadores de tartarugas do Badajós. De um extremo ao outro da Planície, dentro das lindes do Amazonas, o centauro moreno de Parintins ou o caucheiro heroico do Mamoré, qualquer cidadão perdido na vastidão da Terra Inacabada, procura escrever, com os dedos grossos, a mão inábil, braço trôpego, um nome que equivale por uma bandeira, uma bandeira humana de civismo e dedicação: Álvaro Maia.

Hoje o Amazonas é um bloco de brasileiros indomáveis e fortes em torno de um homem que representa a bravura da Raça na serenidade do espírito: Álvaro Maia. Um dia, o nome desse moço poeta, não estará somente no pórtico de mensagens à Assembleia estadual, mas incendiará, em silêncio, o coração dessas gerações que amadurecem como frutos benditos. E, nesse dia, o Amazonas vingar-se-á do desprezo de todos: salvará o Brasil.

quarta-feira, maio 01, 2024

DOIS ACADÊMICOS AMAZONENSES

 O saudoso acadêmico Raimundo Nonato Pinheiro, lembrando o centenário de nascimento do acadêmico José Chevalier (1882-1938), publicou sua homenagem no Jornal do Commercio (05 set. 1982) 

Recorte do artigo publicado no JC, 05. set. 1982

No dia 13 de junho do corrente anunciava eu o centenário de nascimento do professor José Chevalier, pelas colunas do Jornal do Commercio. Era alagoano de Penedo, onde nasceu a 5 de setembro de 1882. Transferido para Manaus, aqui se tornou professor de curso primário, aceitando aulas em domicílio. Mais tarde adquiriu o Instituto Universitário Amazonense, na rua do Dr. Moreira, prédio onde atualmente funciona a Hospedaria Garrido. Além de exercer o magistério com exemplar devotamento, dedicou suas energias ao escotismo, no que foi, no Amazonas, autêntico pioneiro. Lecionou português no Colégio Dom Bosco, onde o tive como professor no ano de 1934.

Nutrindo maiores ambições, diplomou-se em Direito pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Amazonas e pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Exerceu alguns cargos públicos: diretor da Biblioteca Pública e Arquivo (outrora funcionavam juntos) e do “Diário Oficial”.

José Chevalier Carneiro de Almeida era casado com a professora Raimunda Paula e Souza de Chevalier. Desse conúbio nasceram dois filhos: Walmiki Ramayana Paula e Souza de Chevalier e Wladimir Carlyle Paula e Souza de Chevalier, ambos formados na Bahia: Ramayana em Medicina e Carlyle em Direito. Foi observado que os filhos eram mais talentosos que seu genitor. Pelo depoimento do escritor Péricles Moraes, tomei conhecimento de que Carlyle era de inteligência superior à do irmão Ramayana, que entre nós deixou uma tradição do mais vivo luzimento, assim nas letras como na oratória. Tenho em meu arquivo algumas de suas produções mais refulgentes: páginas de ouro, recamadas de pedrarias faiscantes. Foi um gigante da eloquência, caracterizando-se como admirável criador de imagens empolgantes. Ofuscava e arrebatava.

Voltemos ao professor José Chevalier. Professor e bacharel, também cultivava as letras e foi um dos sócios fundadores da Academia Amazonense de Letras, fundada com a denominação de Sociedade Amazonense de Homens de Letras. Ocupava a cadeira de Afonso Arinos e exerceu as funções de Secretário-Geral. Péricles Moraes, evocando a figura de Benjamin Lima e os primórdios da Academia, assim se pronunciou sobre Jose Chevalier:

“O outro, que se colocara ao nosso lado por forte imposição temperamental e levado pela mesma comunhão espiritual e afetivas, identificando-se por gestos de altruísmo e desprendimento, chamava-se José Chevalier”.

Era meu amigo diletíssimo. Nascêramos exatamente no mesmo ano, e eu o estremecia como a um irmão muito querido. Quando de sua morte, no Rio, em 1938, tentei bosquejar-lhe o retrato nas molduras de “Paisagens de uma vida” inserto em CONFIDÊNCIAS LITERÁRIAS, uma das páginas humanas e dilacerantes que procuraram traduzir as angústias da minha emoção. Ainda agora, tanto tempo depois, relendo-a comovidamente, sinto o amargor dos avatares que o acabrunharam, em desafio à beleza moral do homem e às doçuras embevecedoras [sic] do seu coração”. (Revista da Academia Amazonense de Letras, nº 3, p. 8).

O professor Agnello Bittencourt também escreveu sobre José Chevalier em seu Dicionário Amazonense de Biografias (pp. 297-299). Estou vinculado a José Chevalier pelo discipulado (fui seu aluno de português no Colégio Dom Bosco, em 1934) e pela sucessão acadêmica. Sucedi-lhe na cadeira de Afonso Arinos, hoje de João Ribeiro, na Academia Amazonense de Letras. Essa mudança de patrono requer uma elucidação. A Academia possuía 30 cadeiras. Mais tarde, tornou-se imperioso aumentar o número para 40, imposição estatutária da Federação das Academias de Letras do Brasil. Nessa altura, recebendo o sodalício mais 10 patronos, foi facultado aos acadêmicos permanecerem com seus patronos ou escolherem novos. Alguns mudaram os patronos. O desembargador Arthur Virgílio, cujo patrono era o Visconde de Taunay, tomou novo patrono: Tobias Barreto. Eu deixei Afonso Arinos e tomei João Ribeiro, uma das maiores culturas deste país, cuja grandeza me fascinava desde a adolescência, como gramático, filólogo, historiador, folclorista e polígrafo.

Na Academia, não somente fui o sucessor de José Chevalier na cadeira que ocupo, mais ainda nas funções de Secretário.

Sentir-me-ia mal, muito mal, se nesta data do centenário de seu nascimento, não lhe prestasse esta homenagem póstuma “ab imo pectore”. Consinta, prezado Mestre, “no assento etéreo aonde subiste”, que lhe deposite sobre a lápide tumular, decorrido um século de sua nascença, estas humildes flores, úmidas e viçosas de recordação e de saudade!...

segunda-feira, março 18, 2024

MANAUS: REMINISCÊNCIA DA IMPRENSA ESTUDANTIL

A postagem recorda a Revista do Estudante, efetivamente dirigida e produzida por estudantes, a maioria do Ginásio Amazonense Pedro II, atualmente Colégio Estadual do Amazonas, circulada em maio e junho de 1937. 

A foto da instalação da Associação Amazonense de Imprensa, realizada na Academia Amazonense de Letras, ilustra a capa. Com destaque para o orador da agremiação Ramayana de Chevalier. 

O exemplar exposto pertence à Biblioteca Mário Ypiranga, um dos dirigentes da Revista, daí a jocosa dedicatória (no alto da capa) imposta pelos parceiros de redação.       

Revista.. (maio-junho 1937)


sexta-feira, novembro 04, 2022

PMAM – SERVIÇO DE SAÚDE (1)

Já relatei neste canal alguns fatos relacionados com o estado sanitário da tropa da Polícia Militar do Amazonas. Em novo empenho, rebuscando os arquivados livros de registros, outras informações vão ao público.

 

Antigo quartel da Polícia Militar

Desativada em novembro de 1930, a Polícia Militar do Amazonas esteve mais de 5 anos “fora do ar”, melhor dizendo, impedida de executar seu ofício. Ao retornar, em 20 de abril de 1936, parecia mais criteriosa. Após reagrupar seus integrantes, a corporação foi paulatinamente se recompondo, com novas provisões sendo incorporadas à instituição. Talvez a mais exponencial tenha sido a criação do Serviço de Saúde.

Para melhor compreensão: em 1935, ocorreu relativa mudança no Poder Executivo quando, a 19 de fevereiro, o interventor Álvaro Maia torna-se governador. Mudança apenas de nomenclatura, pois o governante permanece. A 2 de junho, o Poder Legislativo promulga nova Constituição do Estado, onde nada se encontra sobre a Força Estadual, porque esta inexistia. Contudo, um movimento sobre a situação das Forças Auxiliares transcorria no Congresso Nacional, que acabou por aprovar legislação pertinente.

Em decorrência dessa decisão, o Legislativo local sancionou a Lei 55, de 31 de dezembro, que “restabelece a Força Policial do Estado”, concedendo ao governador seis meses para sua reorganização. O art. 1º é categórico: “é criada a Força Policial do Estado do Amazonas”. Recordo que ela fora desativada, não extinta, todavia, como se vê, foi aqui recriada. 

Ramayana de Chevalier

Antes do prazo limite, em 20 de abril de 1936, Maia baixou o decreto 99, para cumprir o dispositivo. Na mesma data, segundo o Ato 1039 escalou os oficiais para seu direcionamento, sob o comando do tenente-coronel PM José Rodrigues Pessoa. E pelo Ato 1040, nomeou “o senhor doutor Ramayana de Chevalier para exercer o posto e o cargo de 1º tenente médico da Força Policial do Estado”. Embora mambembe, estava criado o Serviço de Saúde (SS).

Em tempo anterior à desativação, o atendimento clínico era realizado por médico do Estado, que visitando a caserna consultava aos policiais. Os casos gravosos eram encaminhados aos hospitais da cidade, com mais frequência à Santa Casa de Misericórdia.

Chevalier logo foi promovido ao posto imediato. Este médico nasceu na

residência da família situada no cruzamento das ruas Quintino Bocaiuva com

Dr. Moreira. A família o enviou à Salvador (BA), onde Chevalier frequentou a

Faculdade de Medicina da Bahia, concluída em 1933. O pioneiro no SS legou

uma trajetória pouco edificante: abandonou esta função e mudou-se para o Rio,

ingressando na imprensa. Isso acarretou-lhe a demissão do Serviço de Saúde,

porém, amicíssimo de políticos, o governo amazonense devolveu-lhe, em 1951, ocargo com direito à promoção e ressarcimento pecuniário. E mais: foi reformado coronel, por ato de 22|06|1953.

Portanto, a partir de 1930, é possível relacionar os oficiais integrantes deste serviço. Observei a ordem cronológica e, onde foi possível, a ordem hierárquica. Apontei algumas exceções, como a demissão e o posto na passagem para a reserva. Inclui a naturalidade, o ano de nascimento e a escola de formação.

1936

1º tenente médico

20|04| Walmik Ramayana Paula e Souza de Chevalier - AM   (1909-75)

No contexto da Segunda Guerra, no biênio 1942-43 o aquartelamento da Praça da Polícia ganhou uma enfermaria, que foi construída no andar superior, sobre a edificação postada pela rua José Paranaguá, e ela foi utilizada até a instalação do Hospital da Polícia Militar em 1984.

Nesse período bélico, o SS recebeu o auxílio de médicos do Exército, tão-somente para compor a JMS (Junta Médica de Saúde). Foram alcançados no livro de apresentação de oficiais, existente no Museu Tiradentes, os seguintes:

1) 1º tenente Flavio Silva Martins – do 27 BC – dispensado em 12|05|1944;

2)   2º tenente R/2 Salomão Morais Levy – apresentado em 14|05|1944 e dispensado em 20|07| – residente à rua Dr. Moreira, 190 – fone 1049;

3)   1º tenente Hyssarro Ferreira – apresentado em 01|08|1944 – morador da rua Lauro Cavalcante, 237 – fone 1285;

4)   2º tenente Jesuíno de Souza Lins – a partir de 09|06|1945;

5)   2º tenente R/2 Cristovam Paulo Martins – da 1ª/4º Batalhão de Fronteira – apresentado em 24|10|1945.

segunda-feira, abril 11, 2022

FAMÍLIA PAULA E SOUZA (2)

 Levou algum tempo até que eu cumprisse a promessa de publicar novamente sobre a família Paula e Souza, cujo o segundo capítulo diz  respeito ao Tupinambá de Paula e Souza. 

Tupinambá de Paula e Souza (1915-1995)

Estimulado a buscar dados desta família, logo dei de cara com um Paula e Souza, falecido coronel da PM amazonense, portanto, meu precursor no quartel da Praça da Polícia. Possuía um nome bem singular: Tupynambá. Nasceu no Amazonas, mas ainda não se encontrou a localidade (acreditando a viúva que tenha sido em Manicoré), em 8 de novembro de 1915, sendo o primogênito de Pedro de Paula e Souza e Leonor dos Santos e Souza.


A fim de melhor possibilitar o entendimento sobre o avanço de Tupinambá, recordo que Ramayana de Chevalier, filho de Raymunda de Paula e Souza, nasceu em Manaus, em 1909. Acredito que eram primos, basta observarmos as idades e, acima disso, o sobrenome dos pais. E mais, a fisionomia, a cara de ambos.

Rastreando o arquivo central da Polícia Militar do Amazonas (PMAM), ora “encostado” ao Palacete Provincial, deparei com o ingresso de ambos nesta corporação. Os dois chegaram em abril de 1936, quando Ramayana, já formado em Medicina, e amparado pela amizade paterna angariada na praça de Manaus, conquistou o cargo de chefe do Serviço Médico, com o posto de capitão da Força Estadual. Tupinambá, ignorando o grau de instrução escolar, aos 21 anos de idade, foi incorporado como soldado, após cumprir o serviço militar no legendário 27 BC, instalado no hoje Colégio Militar de Manaus, em 1934.

Coincidência: os primos chegam na mesma ocasião, ao mesmo emprego. Apenas a variação escolar modificou o lugar hierárquico. A próxima anotação sobre Tupinambá, datada de 07|12|1939, registra que ele conquistou um cargo no departamento de Finanças (atual secretaria de Fazenda), encargo que lhe traria benefícios financeiros ao se aposentar. Deixou a Força e foi pra Fazenda? É plausível. Todavia, três anos depois (22|06|1942) pode ter feito o trajeto oposto; por força de concurso (re)ingressa na Polícia Militar, agora na categoria de 2º tenente.

Em plena Segunda Guerra, Manaus sitiada pela carência de navios mercantes, o comandante coronel Gentil Barbato efetua concursos para reequipar o quadro de oficiais da Força Policial, a fim de cumprir as determinações elevadas que incluíam o controle do Porto e da venda de gêneros de primeira necessidade sob tabelamento.

Já era finda a refrega mundial, quando o tenente Tupinambá obtém promoção a 1º tenente - por merecimento, em 09|04|1946. Na oportunidade em que a ditadura de Getúlio Vargas foi suplantada, e, no Amazonas, Leopoldo Neves é eleito governador, empossado em 08|05|1947, a escolha dos prefeitos cabia ao chefe do Executivo.

Em documento arquivado – Almanaque – relativo a 1947, encontrei anotado: o capitão Ramayana seguia na chefia do Serviço de Saúde, e o 1º tenente Tupinambá na função de “subalterno da 1ª Companhia de Fuzileiros”, ambos com onze anos e meio de serviço. Para estes oficiais aquele ano tornou-se marcante: enquanto o capitão abdicava do Serviço de Saúde e deslocava-se para o Rio de Janeiro, o tenente deslocava-se para o rio Madeira, nomeado prefeito do município de Borba, nele permanecendo por dois anos. Ainda é daquele ano a anotação do próprio tenente indicando que residia à rua Manicoré, 252 – Cachoeirinha.

Quem terá indicado o tenente para este encargo? O capitão?  Estou crente que este dispunha de superior prestígio e influência, todavia, tenho que permanecer nas conjecturas. Ocorre que na barranca do Madeira, na cidade de Borba, morava Pedro de Paula e Souza, que fora prefeito daquela cidade em duas ocasiões: 1929-30 e 1932-33, e pode ter sido outro excelente cabo-eleitoral! Enfim, não custa lembrar os três oficiais que também administraram aquela Comarca: José Rodrigues Pessoa (que foi comandante da Polícia Militar); Arkibal Moreira de Sá Peixoto (filho do desembargador Sá Peixoto) e Sergio Rodrigues Pessoa Filho.

Nesse tempo, o capitão abandonou o emprego policial, desconheço quando, deixando Manaus para se engajar no jornalismo da então Capital Federal, onde combateu em defesa de Vargas e, a seguir, de Jango. Embarcou em Manaus acompanhado da esposa Neusa Magalhães Cordeiro, cujo casamento ocorreu em 1934, e os filhos Stanley e Ronald (o afamado Roniquito). Acolá nasceram as filhas: Barbara Beatriz (1950) e Scarlet Moon de Chevalier, em 12|09|1952 (e morta em 05|06|2013). (segue)


quarta-feira, abril 06, 2022

SOBRE FESTA NA ACADEMIA DE LETRAS

Acerca da festa promovida pelo Silogeu Amazonense para recepcionar ao acadêmico Ramayana de Chevalier, em 23 de abril de 1960, o deputado estadual Homero de Miranda Leão, jubilado cultor da poesia, publicou o artigo que aqui vai postado. 

Recorte de O Jornal, 26 abril 1960

A posse de Ramayana de Chevalier na Academia Amazonense de Letras, que tem a presidi-la esse admirável Salignac Souza, é, a qualquer exame, motivo de contagiante alegria e justificado orgulho, para todos nós. Vimo-lo, sobranceiro, assomar à tribuna do Silogeu, sentimo-lo, na intensidade emocional com que ele, a princípio, se dirigiu aos presentes, destacadamente ao nosso eminente governador Gilberto Mestrinho a quem "devia a graça" de estar ali, tomando assento na Cadeira outrora 5 ocupada pelo grande Adriano Jorge e que tem como patrono a figura ímpar das letras nacionais, que é Euclides da Cunha.

Era Ramayana que iria com as suas excepcionais qualidades de tribuno, escritor, poeta e pensador, encher de claridades aquele ambiente austero; era o homem de ciência, "possuidor de uma cultura humanística realmente invejável", conforme se expressou a seu respeito o saudoso mestre Péricles Moraes, em página lapidar, constante de um dos seus livros, que iríamos ouvir, naquela grande noite fulgurante.

E assim foi. Assim aconteceu. De Adriano Jorge e Euclides da Cunha, em sínteses prodigiosas e arrebatadoras, ocupou-se Ramayana de maneira exata e profunda, salientando-lhes o papel preponderante que representaram no cenário altíssimo das letras, demarcando épocas, na perpetuação do pensamento, e dentro das fronteiras próprias, que lhes destinaram as vocações. Euclides da Cunha exsurgindo, por inteiro, no estudo e na análise produzidos pelo novo imortal, que lhe apreciou as insuperáveis qualidades de sociólogo, escritor, antropologista, pioneiro de uma era nova, vexilário das angústias que sacudiam e ainda sacodem o nosso bravo habitante interiorano.

Com efeito, deram-nos "Os Sertões" a imagem dolorosa e injustiçada do homem das estepes nordestinas, dando-nos, por igual, a imagem do "martírio secular da terra". Para Euclides “o sertanejo é, antes de tudo um forte". Mas Ramayana assentou, qual um imenso foco de luz, -- e como se houve admiravelmente bem no apreciar esse aspecto do homem que "escrevia com cipó", -- a figura do autor glorioso de À Margem da História, vendo-o como o grande repórter, como aquele que, sob essa moldura luminosa e heroica nos transmitiu todas as mensagens da alma, do sofrimento e das esperanças coletivas. Sim, Euclides foi o imenso repórter, que daria ao seu século a obra que faria a glória de toda uma Pátria e de toda uma raça.

Quanto a Adriano Jorge, vimo-lo apreciado, a traços seguros, como o médico sábio, o homem de letras, o tribuno, o esteta, enfim; mas também como se aquele que, a um tempo, conseguiu ser grande e ser bom. A simples evocação da figura legendária do autor de Oração à luz fez-nos como que sentir a sua presença miraculosa, ali no templo das letras, arrebatando-nos com sua palavra escachoante, misto de luz e de prece; sol que doirava esta terra, e que possuía por igual a força dominadora de um evangelho.

Consolou-nos, portanto, vê-lo substituído por outro extraordinário talento, o qual, por certo, continuará a espargir as belezas e as cintilações, que constituíram dotes excelsos de seu antecessor. Está, portanto, de parabéns a Casa de Péricles Moraes, onde fulgem tantas inteligências e tantas cerebrações. Mas, não posso ao menos nesta oportunidade, de ensartar a estas despretensiosas linhas, as minhas sinceras congratulações a Gilberto Mestrinho, culto e dinâmico Governador, pois foi ele quem proporcionou a volta de Ramayana à nossa terra, numa a atitude reivindicatória, ao escritor, que durante tantos anos esteve à margem de cargos de relevo em nosso Estado.

E Ramayana ocupa, hoje, um dos setores de destaque na pública administração trabalhista. Diríamos, então, nesta hora, parodiando o grande e saudoso Leopoldo Peres, em se referindo a um pensador e polígrafo paulista, face ao poder de catalização de um estadista brasileiro, que não conseguiu o festejado autor de No Circo Sem Teto da Amazônia, esquivar-se ao faro psicológico, à imantação desse garimpeiro audaz, que é o senhor Gilberto Mestrinho, hábil no batear as gemas auríferas do talento, no joeirar o valor e captá-lo, onde quer que se ele encontre para obra coletiva do Amazonas.

Concluindo, presto igualmente a minha homenagem a Djalma Batista, à sua cultura poliédrica, ao seu espírito solar, sem esquecer a primorosa e invejável formação moral, que lhe serve de escudo. O seu discurso de recepção a Ramayana foi uma peça profunda, séria, estruturada naquela linguagem castiça, peculiar ao autor de Letras da Amazônia. Parabéns, Academia!


sábado, janeiro 08, 2022

ACAPULCO CLUBE (3)

Nesta crônica, Ramayana de Chevalier registra mais um tópico sobre o extinto clube Acapulco, espaço que por décadas iluminou as noites manauaras e foi fartamente desfrutado pelo autor. Publicada no Jornal do Commercio (11 setembro 1958). 

Recorte do mencionado jornal


Borocoxô (*)

Manaus é um rasgão teimoso no ventre da Amazônia. Criamo-nos, assistindo aos mais vibrantes fenômenos sociais do Brasil. Crescemos, e, aos nossos ouvidos, crepitavam as rolhas da viúva bendita, a Clicquot autêntica, numa saraivada europeia. Disse-me um dia o meu compadre P. T. Barba [dentista peruano radicado em Manaus], que como os bons parelheiros morrerá na pista, que, da esquina do atual Bar Americano, até a outra, onde borborinhava o Leão de Ouro, todas as noites havia um tiroteio de rolhas espoucadas, com o derrame desse leite do Olimpo, cujos efeitos levam o homem ao convívio dos anjos ou da polícia.

Manaus era coração elástico da selva. Crescemos ouvindo Lulu d'Alexandrowka (sic), o maestro Franco, escutando histórias de Sarah Bernhardt e Eurico Caruso, no Teatro Amazonas. O Lanfranc, o Ambrose, o Hilary [navios da Boothe Line] nos traziam a melhor refrigeração de Londres, e levavam de volta, aquela loirinha que era considerada por eles a melhor cerveja d0 mundo, a XPTO do tempo do Antonino Miranda Corrêa, cevada e lúpulo da Eslováquia tranquila.

Mulheres? Oh! que mulheres! Vinhos? Reno, falai, Itália, murmurai de amor! Música? Que professores! Que artistas! Depois, a pobreza nos constrangeu. Não vivemos de saudades. Mas não temos nada que aprender com ninguém. Basta lembrar-nos. Hoje, nossas mulheres são elegantes de nascença, sabem pisar, sabem falar, sabem amar. Nossos rapazes joviais e corretos, leais e amigos. Basta lembrar. Essa a grande fortuna do Amazonas. Infeliz daquele que veio da sombra do vazio.

Mas, o motivo especial desta crônica é abraçar ao Mário de Oliveira. O Acapulco é uma bênção na delícia úmida da noite baré. Elegantíssimo, suave, seleto. Corre ao lado das grandes boates do país. Mário de Oliveira forma ombro a ombro com Carlos Machado e Zilco Ribeiro. É um dueño de la noche. A noite de Dalvinha de Oliveira foi excelente. Passou a tempestade que impuseram a ela, nas intrigas cariocas. Inveja. De sua voz, de sua bondade, do que ela já viu pelo mundo. Dalva é um padrão de glória da música popular. Ela e a Sapoti, hoje madame. Linda noite.

Mas as anedotas do Abelardinho Matos estiveram em sessão espírita. Incorporaram no homem, depois de um século n0 astral. Já caducou no Lidador, na velha Bhrama, que hoje espera o seu arranha-céu. E sujas. Convenhamos, não é para uma boate exclusivamente familiar, onde se reúne a fina flor da nossa gente. Não há preconceitos em Manaus. Nós tesouramos uns aos outros com rara habilidade e constantemente.  Dá uma bruta saudade quando estamos fora, não sentir as formigas nos tosando a pele. É gostoso... Até envaidece!

Mas, daí a ouvir anedotas velhas, arcaicas, reumáticas, e, além disso, indelicadamente obscenas, vai uma enorme diferença. Essas anedotas são ótimas numa noite no Teatro República, em terça-feira de carnaval, ou no bar do Belmiro, ali na República Livre do Posto 6, pertinho da TV Rio. Só dá malandro, resto de gente, a safra das profundas noites cariocas. Para o Acapulco, é pago, a coisa é diversa. Quem não tem nada o que fazer em Manaus, toma um avião direto para o Rio. Antigamente, ia-se a Paris e a Londres, para desfastio. Hoje, vive-se na Atlântica, como se fosse ali, na BR17...

(*) Informando que o texto original sofreu a necessária correção ortográfica.

quinta-feira, novembro 11, 2021

SERVIÇO DE SAÚDE PMAM: NOTA PARA SUA HISTÓRIA

 Já muito escrevi sobre a presença de Ramayana de Chevalier na Polícia Militar do Amazonas, na condição de médico chefe do Serviço de Saúde. Como alcançou este cargo nos idos de 1936, ele mesmo descreve no artigo aqui compartilhado do livro em que se reverencia ao político amazonense Manuel Severiano Nunes (1892-1957), seu padrinho. 


 

O VIGOR DE UM CARÁTER

Eu não sabia bem se era eu, um jovem ardente e confuso, ou um pedaço de meu pai, quem entrava, àquela manhã doirada de luz, pelo gabinete do Secretário-Geral do Estado do Amazonas. Vinha do Sul, onde me formara em Medicina, mais propriamente da Bahia, que eu deixara saudoso e galante. Um emprego! Cavar um emprego! Era essa a mentalidade do momento, enquanto não sazonasse a minha clínica, a vida não me tisnasse de desilusões, o tempo não me argentasse a fronte. Um emprego! Mas onde?

O Estado era pequeno, politicamente, as posições poucas e já usurpadas, a iniciativa particular quase nenhuma por essa época. Casas de saúde não existiam. Serviços privados, do ponto de vista médico, nem sombra. O governador era o Dr. Álvaro Botelho Maia, por esse tempo um espelho da juventude de minha terra. Orador, poeta, professor, político. Um tanto lânguido para a administração. Contudo, bom e digno. Eu já escorvara a escopeta das investigações. Não havia nada à vista, a olho nu. Mulheres, muitas. Emprego, nenhum.

Comecei balbuciando a minha clínica de consultório. Na província, a essa altura, era difícil misturar-se o literato e o médico. O povo só acreditava em clínico de aspecto soturno, um tanto sobre o medíocre, com cara de pai de família. Eu tinha um rosto imberbe, alegre e sorridente como o cartaz de uma pensão de marafonas. Estavam duros a conquista de um emprego e o começo da clínica. Foi então que um desses anjos perdidos na terra, alma cândida e boa, Sebastião de Bogéa Saint-Clair, soprou-me um nome: Manuel Severiano Nunes. Em 30, na hora das barricadas, ele formara com o meu pai na "Legião de Outubro". Um amigo.

Muitos o chamavam de "Frasquinho de Veneno". Para mim, foi um frasquinho de perfume. Que Deus o guarde no mais veludoso recanto do seu regaço. Um caráter. Leal. Firme. Desses que só prometem uma vez. Para cumprir. Tinha um doce crepúsculo nos olhos, que lembrava tristeza ou romantismo. E era alegre com os seus companheiros. Soube viver, como soube morrer. Só uma tristeza lhe empanou a hora da morte: morrer distante de sua terra, longe do Amazonas que ele tanto amava.

Um homem. Com todas as letras, com todas as dores, com todas as lutas.

Saint-Clair levou-me a ele. Ia-se organizar de novo a Polícia Militar do Amazonas, cuja tradição vinha da campanha de Plácido de Castro e das lutas de Canudos. Severiano, atendendo ao amigo, olhou-me nos olhos e disse: "Você será o chefe do Serviço de Saúde da futura PM". E apertou-me as mãos, adiantando: "Eu sou amigo do seu pai e admiro a sua inteligência". Despedi-me como um pássaro. Entrei em casa cantando. Estava arranjado o emprego. Álvaro Maia, governador, também meu amigo, não recusaria o meu nome.

Recorte do Almanaque de oficiais, ano 1948

Daí por diante, comecei a subir em minha carreira, até terminar reformado como Coronel-Médico, neste delicioso outono biológico que me inebria. (...)

Foi num dia triste, no Rio de Janeiro, que recebi a notícia de seu falecimento. Depois de algum sofrimento, na pobreza do seu apartamento sóbrio e digno, o gigante entregara a alma ao seu Criador. Fui vê-lo, comovidamente.

O Posto 6 estava embuçado de nuvem. O mar Atlântico soluçava nas escarpas do Forte. O seu corpo, engerelado e pálido, conservava, mesmo no mistério da morre, o leve sorriso fraternal que ele dedicara aos que lhe eram leais.

O Amazonas teve nele um soldado, um filho ardente e nobre, um condutor de homens, uma bandeira, um advogado. Foi caboclo em toda a extensão luminosa da palavra. Meu testemunho teria que vir entrelaçado com as corolas da gratidão mais pura.

O jovem médico, que começou a sua escalada do primeiro degrau que ele lhe dera, ainda hoje, malferido pelo destino, como um animal selvagem, ergue os olhos para Deus e pede por ele, com a mesma vibração honrada dos primeiros dias.

Ao lado de Álvaro Maia, ele foi um defensor insone do Amazonas. Quem poderá esquecer as suas lutas, os seus revezes, os seus triunfos, as suas glórias? Conheci-o muito de perto, em certos ângulos de intimidade cordial que só são dados aos legítimos companheiros, em horas felizes, como em instantes amargos. Tenho certeza de que os seus filhos haverão de honrá-lo, assim como herdarão dele um fecundo, um profundo amor pelo Amazonas.

Seu perfil não é fácil. Visto de longe, da fumaceira das distâncias, do poeiral das ruas, das fogueiras das paixões políticas, Severiano Nunes poderá apresentar uma face ignota para mim. Essa, não a conheci, nem creio sua. A que conheci e estimei, a que se fixou na minha saudade e na minha gratidão, para sempre, essa era resplendente e sadia, sorridente e amável, jovial e carinhosa, cristã e admirável como uma tela de [Thomas] Gainsborough (1727-1788).

O político tinha comigo um traço de união indelével: o Amazonas era, para ele, algo como um pedaço do seu próprio sentimento, como a afirmação de sua própria personalidade.

 


sábado, novembro 06, 2021

FAMÍLIA PAULA & SOUZA (2)

 A busca pela origem da família Paula e Souza no território amazonense, presente no ostentoso sobrenome do falecido Ramayana de Chevalier, já me trouxe alguns sucessos. Aos poucos vão aparecendo outros familiares, que foram esquecidos pelo apelido familiar. As mais conhecidas expressões literárias da família estão ligadas àquele Chevalier: são dois de seus filhos (Ronald Wallace, o “Roniquito”, e Scarlet Moon) e seu irmão Carlyle.

Scarlet Moon de Chevalier

No entanto, certamente estimulada por esse desafio, venho de receber a produção de uma Paula e Souza, que assina sob pseudônimo. O poema aqui compartilhado foi “dedicado a Ramayana de Chevalier (o grande poeta e boêmio amazônico)”.

 

RIO DAS ILUSÕES

Lizza Moon


Não quero fama. Nem ouro, nem glória,

Somente provar o sabor dessa vida ilusória.

Nem tanto na terra, nem muito nas estrelas.

Com a cabeça divagando, vou consumindo as tristezas.

A mente inquieta e o corpo inerte,

sinto volver em meu corpo um espírito errante.

 

Rio, rio das ilusões, como não te amar ao saber das solidões?

Navegando sobre ti e das almas que engolistes...

Como não falar em meus versos das saudações?

 

Rio, rio Solimões,

Por quem aqui passar, um Adeus,

um Olá até a outra Margem do Rio!

Volta! Volta cabocla bonita!

Teus pensamentos vão longe, mas a lida é contínua.

Pês no chão e cabeça feita

Do outro lado do Rio é que a vida é feita.

Deixaste essa floresta, mas teu espírito vem me atormentar...

 

Se queres tanto falar...

Pedes a Shiva para te deixar reencarnar...

Roda, roda, gira, gira...

Rema, rema, sob águas frias...

Faz ressurgir o Monstro das poesias...

Cataventos girando sob o manto verde à beira rio...

Que visão é essa que fez-me querer beber vinho?

Agora sob águas negras, avisto a orla da cidade...

Luzes brilhando, vento soprando, tudo gira...

A mente, um redemoinho,

Desperto sozinho...

Vem a mim...

E pega em minhas mãos frias,

Ó gigante caboclo das boemias.


segunda-feira, outubro 25, 2021

ACERCA DE RAMAYANA(S)

A busca pelos ascendentes de Ramayana de Chevalier tem-me levado a repetir este nome onde me encontre. Foi num papo festivo, na noite de sexta-feira (21), que fui presenteado pelo autor deste texto expressivo, aqui compartilhado, sobre o distinto manauara. Agradeço a citação ao meu trabalho.

A publicação original de autoria de Pedro Lucas Lindoso ocorreu no Jornal do Commercio, edição de 6 de janeiro de 2015.

 

Detalhe da crônica de Pedro Lindoso, circulada no JC (6 jan. 2015)

Importante obra literária da Índia antiga, o Ramayana é um épico sânscrito atribuído ao poeta Valmiki. O belo texto tem profundo impacto na arte e na cultura da Índia. O poema Ramayama não se reduz a um simples monumento literário. É destaque na tradição do hinduísmo. A reverência é tal que o mero ato de lê-lo ou ouvir tem o poder de libertar os hindus do pecado. E mais. A sua leitura pode garantir todos os desejos do leitor ou de quem ouve o magnífico poema.

Um dos mais ilustres membros do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas), do qual tenho a honra de ser membro efetivo, foi o Dr. Ramayana de Chevalier. Imortalizado no IGHA onde têm sala com seu nome e outras honrarias, Chevalier foi médico e escritor. Produziu livros sobre a Amazônia e possuía destacada oratória.

Segundo Roberto Mendonça, outro nosso confrade no IGHA, Chevalier "graduou-se em medicina na Bahia, sem que exercesse a profissão, pois optou pelo jornalismo em sua forma mais abrangente, de redator contundente a polemista por vocação". Ramayana de Chevalier, que foi morar com a família no Rio de Janeiro, com certeza transmitiu essa verve, esse "savoire faire", a pelo menos dois de seus quatro filhos. Ronald de Chevalier e Scarlet Moon.

Ambos como o pai, jornalistas, polêmicos e de aguçada inteligência e sofisticação intelectual. Segundo conta Ruy Castro, no livro "Ela é Carioca", o economista Roniquito de Chevalier, irmão da jornalista Scarlet Moon, às vezes entrava num botequim e se anunciava: "Senhoras e senhores, aqui Ronald de Chevalier. Dentro de alguns minutos... Roniquito!". E tudo podia acontecer. Scarlet Moon foi casada com Lulu Santos por quase três décadas. Rita Lee escreveu a música "Scarlet Moeu", gravada por Lulu Santos para ela. Scarlet é citada na letra da canção "Língua" de Caetano Veloso.

Conheci pessoalmente outra filha de Ramayana, Barbara de Chevalier. Foi diretora de Eventos da Embratur, no início dos anos 90. Também brilhante como todos os Chevalier, foi minha dileta colega de trabalho. À época exercia o cargo de Procurador-Geral da Embratur.

O outro grande Ramayana foi meu tio avô Salim Daou. Assinava seus trabalhos jornalísticos com o pseudônimo de S.D. de Ramayana. “S”, provavelmente de Salim e “D” do sobrenome Daou. Também de inteligência sofisticada e personalidade cativante, Salim Daou, o Ramayana libanês, gaúcho, não ficou em Manaus. Seus irmãos Philippe Daou e José Daou ficaram por aqui. O primeiro, meu avô materno e o outro pai do Dr. Philippe Daou, presidente da Rede Amazônica de TV, primo de minha mãe, Amine Daou Lindoso.

A única irmã dos Daou sêniores, que também era Amine, seguiu com o marido para Nova Zelândia, do outro lado do mundo. Tio Salim, S.D. de Ramayana, publicava crônicas e poesias semanalmente no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre. Também era responsável pelo noticiário do interior do Rio Grande do Sul. Tio Salim teve dois filhos com tia Maria: Salim Junior e Daniel.

Ramayana de Chevalier faleceu no Rio de Janeiro em 1973. S.D. de Ramayana, Salim Daou, em Porto Alegre, em 1986. Ambos, homens de letras, jornalistas, intelectuais brilhantes e de forte personalidade. Portavam esse peculiar e sonoro nome: Ramayana, nome de herói, de divindade. A Enciclopédia Britânica ensina que ramayana é uma encarnação de um deus, partícipe da Trindade no hinduísmo. O principal propósito da sua encarnação é demonstrar o caminho correto, que eles intitulam de dharma, na vida na Terra.

Ambos os Ramayana, tanto o Chevalier quanto o Salim mostraram um caminho, não só correto, mas cheio de sabedoria, de belos e inesquecíveis textos jornalísticos e literários. Ambos encantaram sobremaneira àqueles que tiveram o privilégio de conhecê-los e saborear de suas verves, seus escritos e ensinamentos.

sexta-feira, outubro 22, 2021

FAMÍLIA PAULA & SOUZA

Há cerca de dois meses recebi um “prêmio” por uma postagem deste Blog. A jovem Jael Souza consultou-me sobre a família Paula e Souza, que integra o sobrenome de Ramayana de Chevalier, e sobre a qual nenhum relevo foi oferecido. Também eu me penitencio desse blecaute, pois já efetuei algumas publicações sobre o saudoso amazonense. Todavia, reconheço que somente fucei o apelido paterno: Chevalier.


Ramayana de Chevalier (1958)

É hora, pois, de ressuscitar a vertente materna - Paula e Souza.

Inicio pelo médico, jornalista, oficial do Exército e da Polícia Militar do Amazonas e, sabem deuses, que ofícios além disso ele exercitou. Seu nome completo: Walmiki Ramayana Paula e Souza de Chevalier (filho de José Chevalier e Raymunda de Paula e Souza). A fim de apurar sua ascendência fui ao 1º cartório e retirei a certidão de nascimento dele; para minha surpresa, ele foi registrado aos 24 de setembro de 1909 como Walmiki de Souza Chevalier (foto).

Certidão de Nascimento, observar o nome
aqui registrado

De pronto, cabe a indagação: quando e como e quem sofisticou a espaçosa alcunha pela qual é conhecido o falecido acadêmico do Silogeu Amazonense? Não sei. Os caminhos para essa descoberta são exíguos e exigem engenhosas pisadas. Já dei o primeiro passo...

Sobre o genitor de Ramayana há vastas notícias, o contemporâneo Agnello Bittencourt dispôs páginas em seu Dicionário Amazonense de Biografias, outros dados estão catalogados na Academia Amazonense de Letras. Porém, Dona Raymunda (sic) foi contemplada com somente duas linhas no mesmo Dicionário, uma, em página dedicada às “falangiárias do ensino primário e Normal”; a segunda, indicando sucintamente o casamento com Chevalier.

Adiante adquiri a certidão de casamento de José e Raymunda. Nada interessante, somente o trivial: que ela possuía 24 anos, ao se casar em dezembro de 1908, nascida no Amazonas (todavia, onde?) e era filha de Raymundo Paula e Souza e Benta Alves de Souza. Consoante a parentela, o progenitor de Raymunda seria o criador desta linhagem no Amazonas, originário ele de Portugal. Que, de Manaus se aventurou no rio Japurá, vivendo em Porto Órion, atual município de Maraã; e trabalhando para Benjamin Affonso, no Porto Afonso situado na boca do Mamoriá, foz do rio Jutaí. Vários foram os filhos, que se espalharam pela hinterlândia.

Certidão de Casamento

Um de seus descendentes foi Tupinambá de Paula e Souza (1915-95), que foi deputado estadual e prefeito de Borba, além de oficial da PMAM e funcionário da Fazenda estadual. Sobre este Paula e Souza escrevo o próximo capítulo.