CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sexta-feira, março 20, 2026

CENTENÁRIO DE ARMANDO DE MENEZES (2)

Amanhã (21) completaria 100 anos de idade o saudoso Armando Andrade de Menezes (1926-2017), parintinense que, concludente da Faculdade de Direito do Amazonas (1954) integrou com méritos o Tribunal de Contas do Amazonas. Memorialista e professor, participou dos grêmios literários do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) e da Academia Amazonense de Letras. Todavia, foi uma associação que prosperou com a denominação de Chá do Armando que o tornou admirado pelos inúmeros frequentadores, crismados de chazistas. Foram os remanescentes deste grupo que se congregaram para festejar o centenário do patrono.
Convite da festa centenária

Novamente recorro ao exemplar que a Edições Chá do Armando fez publicar em homenagem ao fundador e mantenedor. Intitulado de “O Chá do Armando – em prosa e verso”, circulou em 2012, dirigida pelo Almir Diniz e outros, entre os quais me incluo. A prosa que segue é de autoria do falecido Sergio Luiz Pereira (1965-2015).

 

CHÁ DO ARMANDO: BREVE RELATO

Na cerimônia do chá, o chá é mais um coadjuvante neste universo que almeja, através do exercício de cada movimento, chegar à perfeição do esquecimento de si, do se pôr a serviço do homenageado, de se tornar magia o tempo que escorre em movimentos de ângulos precisos, uma oferenda de paz num mundo-do-fora. Como prática social, como exercício espiritual, como fruição dos sentidos, a cerimônia do chá em sua origem não se dissocia do pensamento zen-budista, (...). Sadô é o caminho do chá, para o qual convergem simultaneamente outros, (...) propiciando a compreensão da harmonia, do respeito, da pureza e da tranquilidade.

(Madalena Hashimoto. Pintura e escritura do mundo flutuante: Hishikawa Moronobu e ukiyo-e llhara Saikaku e ukiyo-zôshi. São Paulo: Editora Hedra, 2002)

A cultura do chá vem de tempos imemoriais. Achamo-lo nas mais antigas civilizações conhecidas. Mas China, Japão e Índia são os lugares por ele mais encontrados. Ouve-se, há muito, falar sobre as cerimônias do chá nesses países orientais. Também o chá das cinco na Inglaterra, mas sempre ele como centro de comunhão entre homens e mulheres, idosos e crianças. Sem falar no chá da Academia Brasileira de Letras, nas tardes das quintas-feiras.

Todo esse mínimo preâmbulo para falar do mundialmente famoso e conhecido "Chá do Armando". Vamos lá: Levado pelas mãos do sempre lembrado e amado Anísio Mello, fui ao "Chá" pela primeira vez em algum crepúsculo do ano de 2003, ocasião em que funcionava ele em uma das dependências, mais precisamente na biblioteca, da Academia Amazonense de Letras. Lá, surpreendi-me com algumas visões até então, para mim, pouco ortodoxas. Um ex-presidente da Casa, totalmente despojado da sisudez acadêmica, cantarolando, tocando violão e bebendo aperitivo escocês; outros, do mesmo naipe, contando "causos", com gestos e feições interessantíssimos; e mais algumas figuras de outras plagas, como o acadêmico paraense e espírita Nazareno Bastos Tourinho — de quem me tornei amigo —, convidadas a participar daquelas tertúlias semanais.

Depois de sair da AAL, por motivos até hoje por mim desconhecidos, o Chá circulou por várias casas, como o Ideal Clube na administração do querido Humberto Figliuolo, o Sebão Manaus, de propriedade de Antônio Diniz; a casa-liceu e porão do Anísio, a residência do coronel Roberto Mendonça, e atualmente pousado na “mansão dos belos quadros”, do artista plástico Neleto Silva, ali na avenida Joaquim Nabuco.

É a reunião das sextas-feiras, de amigos e companheiros verdadeiros, onde se irmanam em perfeita harmonia. A cultura e as ideias, porém, são seu ponto mais alto. No Chá, são discutidos desde a fraternidade dos anjos à paz mundial e o sexo entre machos e fêmeas de boa vontade. Quando possível, ouve-se música ao vivo — popular e erudita — tocada e cantada por gente amiga e habitué. Sem falar nos quitutes saborosíssimos da mesa farta. Às vezes, até tartarugada! Tudo isso regado com os maravilhosos líquidos da Escócia.

Tal confraria, no entanto, não é apenas teoria, falação, música ou comes e bebes. São do Chá do Armando Edições: Convite à poesia, obra póstuma de Anísio Mello, Melodia pagã, coleção poética de Almir Diniz, e mais este livro — gênese e história, repositório e testemunhos de seus principais membros —, que é sua terceira publicação. Além das visitas de membros chazistas a personalidades enfermas, união de verbas (cota) para ajuda financeira a pessoas necessitadas e outros projetos futuros etc.

Assim, costuma-se dizer que em nenhum lugar da terra a vida parece ter mais sentido que no clima harmonioso e aconchegante do Chá, ambiente informal frequentado por pessoas das mais diversas atividades, liberais ou não, em franco despojamento e alegria constante. Declamação de poemas, atualização de conversas, troca de mimos e presentes, conhecimentos gerais, história e política locais, de ontem e de hoje, curiosidades regionais, nacionais e estrangeiras, e estórias, muitas estórias, todas elas contadas de maneira democrática, como de todo o restante que é levado e discutido no seio do encontro.

Por fim, à figura exponencial de Armando de Menezes, decano e dirigente maior do Chá, na jovialidade de seus mais de 80 anos, agradeço por fazer parte da confraria que mudou a forma de divertir-se, aprender-se e principalmente exercer e praticar a amizade, que, na sabedoria de Montaigne, assim conclama: "O que chamamos geralmente de amigos e amizades não passa de convivências e familiaridades estabelecidas ocasional ou comodamente por meio das quais as nossas almas estabelecem vínculos. Na amizade de que falo, as almas se misturam e se confundem uma com a outra numa mistura tão universal que apagam e não encontram mais a costura que as juntou" (I, 28. "Da amizade", apud Sêneca, As relações humanas: a amizade, os livros, a filosofia, o sábio e a atitude perante a morte. São Paulo: Landy Editora, 2002).

Sergio Luiz Pereira

quinta-feira, março 19, 2026

CENTENÁRIO DE ARMANDO DE MENEZES (1926-2017)

No próximo sábado (21) completaria 100 anos de idade o saudoso Armando Andrade de Menezes (1926-2017), que, concludente da Faculdade de Direito do Amazonas (1954) integrou com méritos o Tribunal de Contas do Amazonas. Memorialista, participou dos grêmios literários do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) e da Academia Amazonense de Letras. Todavia, foi uma associação que prosperou com a denominação de Chá do Armando que o fez conhecido e admirado pelos inúmeros frequentadores, crismados de chazistas. Foram os remanescentes deste grupo que se congregaram para festejar o centenário do patrono.


Tão pronto foi decidido o congraçamento, recorri a um exemplar que as Edições Chá do Armando  fez publicar em homenagem ao fundador e mantenedor. Intitulado de “O Chá do Armando – em prosa e verso”, circulou em 2012, dirigida pelo Almir Diniz e outros, entre os quais me incluo. Dessa cópia compilei a crônica de Benayas Pereira, outro saudoso chazista, que vai transcrita.

 

UM CHÁ PRA LÁ DE ESPECIAL

Benayas Inácio Pereira 

Em uma determinada casa numa determinada rua de Manaus, todas as sextas-feiras, uns amigos se reúnem para tomar um chazinho. Trata-se de uma casa velha, cercada de miríades faculdades. Em razão disso, a avenida se engalana para receber os futuros "doutores", que ora dividem os estudos com a amizade que existe entre eles, mas as fofocas são o alvo maior. Os carros se aglomeram em fila dupla e tripla. Nessa via festiva, os vaivéns provocados pelos estudantes, os altos decibéis produzidos pelos carros de boa potência e o buzinaço ensurdecedor fazem com que ela se transforme num verdadeiro pandemônio, bem diferente dos finais de semana, quando o silêncio impera.

Benayas e esposa na festa
dos 80 anos de Armando

Pois é exatamente em meio a tudo isso que os velhos amigos da velha casa se reúnem. Alheio a todo aquele tumulto, entre salgadinhos e chazinhos "envelhecidos" de 8 a 12 anos, eles passam algumas horas jogando conversa fora. Como todos são gente fina, o horário é meio controlado. A reunião se inicia bem cedo (por volta de 17h) e, logicamente, não termina muito tarde. O número de componentes não é assim tão grande. Também não é relevante assim, pois a reunião prima pela qualidade e não pela quantidade dos componentes. O número de pessoas dificilmente passa de dez.

Esse encontro semanal tem o sugestivo nome de Chá do Armando. É claro que, com receio de omitir nomes, não vou dizer quem frequenta a casa velha do artista plástico, poeta, escritor, ensaísta e acima de tudo uma pessoa de coração aberto, o acadêmico Anísio Mello. Uma vez, porém, que eu já perdi o medo, digo que os imortais Almir Diniz, Luiz Bacellar, Zemaria Pinto e, quando em Manaus, Jorge Tufic, além do nosso sempre querido mestre Armando de Menezes, que dá nome ao encontro, são habitués dessas efemérides.

Armando (esq.) aos 80 anos, saudado
pelo Simão Pessoa

Ainda fazendo parte desta turma da pesada, o historiador Roberto Mendonça, o poeta Sergio Luiz Pereira, o pesquisador Nonato Braga, o sexo-humorista Simão Pessoa e o músico e compositor Mauri Marques sempre marcam presença, além de um e outro personagem não menos importante que aparece quando lhe dá na veneta — como os músicos Rossini Lima e Nato Neto e o poetator Dori Carvalho.

Nunca vi fechada a porta dessa velha casa. Ela está sempre aberta para receber as pessoas de bem. Entendo que a curiosidade mata o rato e o peixe, mas se quiserem saber quais os assuntos mais abordados, posso adiantar que ali se respira principalmente a arte; todavia, a semente da acerola, os últimos acontecimentos mundiais, a música, a poesia, o cinema, o meio ambiente, a literatura, o jaraqui e o matrinxã são exaustivamente citados.

Nada disso importa, porém. O que é mais relevante nesses encontros é a curtição da amizade que cada membro dessa sociedade única carrega dentro de si. É o amor que se cultiva, mas de uma forma singular, tema, onde ele é dourado por todos, simultaneamente, formando uma redoma onde a maldade dá lugar à brandura e a inveja é pura utopia. O Chá do Armando não é restrito somente às pessoas do sexo masculino. Esposas e convidadas também comparecem e são sempre bem-vindas.

O viajado poeta Almir Diniz não se cansa de dizer que em lugar algum ele viu tanta irmandade junta. É verdade: ali conseguimos esquecer, nem que seja por algumas horas, as agruras que a vida pode nos reservar.

Sem receio de apelar para a pieguice, confesso que por muitas vezes, durante essas reuniões, observei uma aura vagando pela sala onde nos encontramos. Ela é toda branquinha, em forma de fumaça. Entra sorrateiramente, sem que ninguém a note e passeia alegremente pelas cabeças dos presentes.

Anísio Mello, nosso querido anfitrião, acha que a semana deveria ter mais sextas-feiras. Acho que o Anísio tem razão. Eu, que há algum tempo fui brindado pelos deuses ao ser convidado aa participar dessas reuniões, corroboro com essa opinião. E cá com os meus botões fico a pensar: que bom se todos os dias fossem sextas-feiras.

Manaus, 2 de maio de 2009

domingo, junho 22, 2025

POEMA PARA O DOMINGO

 O  poema deste domingo pertence à obra poética de Américo Antony (1895-1958). Tudo quanto aprendi sobre este poeta é que ele produziu número respeitável de poemas, publicados em jornais e revistas, e somente um livro: Os sonetos das Flores (em segunda edição pela Valer, 1998). Para ilustrar esta postagem recorri aos especialistas de nossa cidade, e nada sobre Antony. Desse modo, consulto o Dicionário Biográfico dos Acadêmicos Imortais do Amazonas, do saudoso Almir Diniz (2002), dispondo de notas biográficas costumeiras. “O poeta que pertenceu também ao IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) deixou publicado apenas um livro (...). E alguns inéditos – A Alma das árvores; Crisóis; Cromos Amazônicos; e Canções Perdidas. São famosos vários sonetos e outros poemas (A Fonte; Canção Campestre; Nova Messe; Manoa; Conory)”. Seu nome crisma a biblioteca da Fundação Doutor Thomas.

Recorte de O Jornal, 20 março 1946
 

A ÁGUA

-- I –

A Água, — uma serpente de cristal,

Faz-se em canais, em golfos, em caudais,

Em espelhos sobre o mar, e no canal

Paisagens de verão, frios hibernais...

 

Brincos em cada estema ao capinzal,

De ouro e diamante, — Aljôfares reais —

De um príncipe invisível, do ideal,

vozes da cor, do encanto dos cristais...

 

Mas, quando a água ferida em seu percurso,

Represada se infiltra, e um só recurso

Vê nas prisões da rocha, em fonte escura,

 

Chora as lágrimas claras do passado,

As emoções do seu cristal fechado

Na pensativa Selva que murmura.

-- II –

A Água, — a plasmadora das visões

Cristalinas da Selva, e do Universo!

Em reentrâncias de golfo, e nos grotões,

Animando o esplendor de um lindo verso!

 

Cambiar de perspectivas tão diverso!

Ânimo e sol da sombra aos corações,

Exuberância de um vergel disperso,

Voz do penhasco em córregos, canções...

 

Lagoa alegre e pântano sombrio...

Atmosfera e oceano, lago e rio...

Brejo e igapó... ânfora em solidão...

 

Chuva! transmigração da Água à alva nuvem,

E dela à terra, arco-íris de onde pluvem

Olhos de Deus nos prantos da Ilusão!


domingo, março 16, 2025

POESIA DOMINICAL (21)

O Chá do Armando foi, enquanto subsidiado pelo saudoso Armando de Menezes, uma agremiação que, na sexta-feira, reunia os simpatizantes para conversas regradas com uísque e outros ingredientes próprios dos admiradores. Ainda em nossos dias, alguns remanentes deste sarau relembram esses encontros litero-alcoólicos.

O poema aqui postado me chegou às mãos sabe Deus como. Sei que muito já se registrou em prosa e verso sobre o Chá – codinome do uísque – e o patrono. A postagem relembra a presença dos saudosos poetas “chazistas” Almir Diniz e Jorge Tufic. Outro detalhe: o Chá visitou alguns endereços, o citado no poema é do Ideal Clube, então dirigido pelo falecido Humberto Figliuolo. 

Logomarca do referido grêmio

 

SONETO AO “CHÁ DO ARMANDO”

 

No “Chá do Armando” tem fraternidade,

todos falam o verbo coração.

Aí e aqui, nesta urbe ou no sertão

fortifica-se mais nossa amizade. 

Deste bar, na fronteira da cidade,

são lembrados um a um e cada irmão

e a todos nos envolve uma canção

falando de ternura e liberdade. 

Nossa irmandade, -- quando a tarde desce

de toda sexta e bem na hora da prece –

vai à tenda do Humberto. Na verdade 

Entre cantos, luzência e poesia,

o Armando a comandar tanta alegria...

no Ideal sobrevoa a fraternidade! 

Tufic e Diniz (a 4 mãos)

Morada do Sol, em 24.07.2016

domingo, março 12, 2023

SILOGEU AMAZONENSE & ACADÊMICOS

 

Sede (ontem e hoje), Adriano Jorge, Jorge de Moraes e
Moacir G. Rosas (abaixo) 

(Sentido horário) Violeta Branca, Álvaro Maia, Ribeiro da Cunha,
 Agnello Bittencourt, Almir Diniz e Zemaria Pinto

Antisthenes Pinto (acima), Alencar e Silva e
Tenório Telles 

segunda-feira, maio 31, 2021

ALMIR DINIZ & O CHÁ DO ARMANDO

Almir Diniz, falecido na semana passada, participou com entusiasmo do Chá do Armando, a extinta entidade etílica-filosófica, que se reunia à cada sexta-feira, para dialogar motivada pelo uísque (chá) e os petiscos fornecidos pelo saudoso Armando de Menezes, daí a pomposa designação.

Morto o fundador e patrocinador, Diniz bem que intentou refazer o grupo e o papo de cada sexta. Foram poucas as novas oportunidades, porém. Desse modo, quero lembrar com a postagem destas fotos os apetitosos encontros chazistas.

Há promessa para um breve  reencontro, para solenizar os dois primeiros membros desta confraria. Descansem em paz!

Confraternização no Ideal Clube (acima e abaixo)


A grande mesa da residência de Anísio Mello

Logo da agremiação

Local de fundação: Academia de Letras


domingo, maio 30, 2021

ALMIR DINIZ DE CARVALHO (3)

 A memória do poeta Almir Diniz, anteontem falecido aos 91 anos, segue aberta e categórica. A minha homenagem prossegue hoje, compartilhando o soneto de Jorge Tufic, inserido em seu livro Dueto para sopro e corda (2ª edição, 2014). Os dois poetas-amigos já não necessitam de cartas para a conversação, são hoje astros a iluminar nossas leituras. Gracias. 

Jorge Tufic


SONETO AO POETA ALMIR DINIZ

(respondendo sua carta)

 

Almir Diniz, que em poucas linhas diz

tanto quantas imagens necessita

para saudar a quem, por essa dita,

vai ser agora muito mais feliz:

 

Não fora coincidência, a sorte quis

que a pluma nos unisse; estava escrita

esta amizade que entre nós habita,

sendo eu, do mestre, humílimo aprendiz.

 

A carta que recebo neste dia,

carta-poema desse velho amigo,

abre clarões na sombra que me guia.

 

Muito obrigado pelos teus florais

dourados, com que vês o que não digo,

fazendo ser o menos algo mais.

sábado, maio 29, 2021

ALMIR DINIZ DE CARVALHO (2)

A lembrança do poeta Almir Diniz, ontem falecido aos 91 anos, segue intenso e categórico. Desejo lembrá-lo por esta semana, ele merece, e para seguir este ritual, compartilho o Artigo do advogado Júlio Antonio Lopes, hoje circulado na edição de A Crítica. 


Faleceu ontem o jornalista, escritor e poeta Almir Diniz de Carvalho, membro, dentre outras instituições culturais do estado e do país, da Academia Amazonense de Letras (AAL), do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação dos Escritores do Amazonas (ASSEAM); da qual, inclusive, foi presidente. Diniz nasceu em 6 de novembro de 1929. Contava, portanto, com 91 anos, muito bem vividos. Ele foi prefeito e fundador do município do Careiro da Várzea. Era também advogado, inscrito na OAB/AM sob n° 266.

Eu estreitei meus laços com ele durante a gestão do nosso amigo comum Armando Andrade de Menezes na presidência da AAL, entre 2014 e 2015, quando, invariavelmente os dois, que coisa notável, ambos já em idade avançada, davam expediente diário na sede do Silogeu, para a qual, aliás, Diniz foi eleito em 24 de setembro de 1999, assumindo a cadeira de n° 5, cujo patrono era Araújo Filho, antes era Martins Jr, sucedendo a Paulo Pinto Nery.

Como ele próprio descreve no fantástico "Acadêmicos Imortais do Amazonas - Dicionário biográfico", de sua autoria, assumiu a titularidade em 24|09|1999, saudado pelo acadêmico José Braga, durante a gestão de Max Carphentier.

Como jornalista Almir Diniz foi agraciado com vários prêmios, inclusive, com dois Prêmios Esso de Reportagem, nos anos de 1956 e 1957. O Esso era uma espécie de Óscar do jornalismo brasileiro. Ele trabalhou nos jornais Folha do Povo, O Combate, A CRÍTICA, O Jornal, e, também, no Diário da Tarde.

Escreveu os seguintes livros de crônicas, contos e poesias: Encontros com a natureza, Caminhos da Alma, Andanças poéticas, Os deuses, O elogio do caboclo, Plumas humanas, Algemas de ternura, O império das águas, Minha roça de urtigas, Floradas do corpo, O pitoresco e o hilariante na Imprensa, Paiol de lembranças, Nos remansos da saudade, Sob a concha da Panacaria, O capineiro, Agenda literária do Amazonas, além do Dicionário biográfico, já mencionada. Era um dos próceres do famoso Chá do Armando.

Almir Diniz

Num de nossos encontros pela manhã, na sede da Academia, a meu pedido, pude ouvi-lo declamar algumas de suas poesias. Uma delas, a que mais encantou e enterneceu o coração, a que considero uma das mais belas de toda a literatura brasileira, chama-se "O JARDIM DA MINHA MÃE", que gravei no meu celular e disponibilizei na época na minha página de Facebook, e ontem repostei, porquanto foi um momento mágico e único que merecia e que merece ser compartilhado, melhor dizendo, merece ser eternizado.

A propósito, o movimento Manaus+Verde, que propugna pela rearborização de nossa cidade, fundado pela minha filha Laís, editou o poema e o distribuiu nas escolas e nos eventos ambientais, em parceria, também, com a ASSEAM. Diniz, no poema, fala da saudade de sua mãe Lídia, que cultivava aquele cantinho do céu em sua casa. Revisitando o espaço encantado e sentindo-se incapaz de cuidá-lo com o mesmo zelo, mas cheio de amor, resolve, afirma em seus versos, refazer o pomar, onde sua mãe ia orar, depois de saudar seu jardim...

Descanse em paz, amigo e irmão. Sentiremos a sua falta, mas somos gratos a Deus por ter compartilhado a luz de sua existência.  

sexta-feira, maio 28, 2021

ALMIR DINIZ DE CARVALHO (1929-HOJE)

Esta última sexta-feira de maio levou para o infinito o poeta e prosador Almir Diniz de Carvalho. Nascido no Careiro em novembro de 1929, onde foi o primeiro prefeito quando este município recebeu a emancipação. Seu currículo é extenso e respeitável, tanto no trabalho como jornalista, como prosador e poeta, como intelectual ocupante de Cadeiras nos principais sodalícios do Amazonas. 

Almir Diniz, 1958

A pandemia nos afastou danosamente, ainda efetuamos um reencontro dos integrantes do Chá do Armando, para lembrar o amigo que nos irmanou e nos precedeu com o sinal da amizade e da festividade. Almir o agora o encontra, para uma renovada conversa.

Como despedida de Almir Diniz, que tanto me ensinou a ler e apreciar os bons costumes interioranos, transcrevo um texto de L. Ruas, o padre-poeta, igualmente levado de nosso convívio. As "Palavras à árvore morta" foram escritas em A Crítica, edição de 19 de setembro de 1957.

E o fícus desprovido da inadvertência da mocidade, o fícus, abalado por tantos males, não resistiu à notícia. Sentiu que a seiva estacava dentro de seu tronco calejado pelas pedras duras do calçamento, sentiu que alguma coisa estava se rompendo e... com estalo de dor, tombou, abraçando a sua rua, acariciado pelo vento que, absolutamente, não compreendia a razão do colapso.

Mas, assim mesmo, chorava.   

Almir Diniz (ao fundo) observa o autor da postagem

segunda-feira, junho 15, 2020

ARMANDO DE MENEZES (1926-2015)

São três anos - hoje - do falecimento de Armando de Menezes que, entre outras iniciativas e a boa condução de seus empreendimentos, criou e manteve o Chá do Armando, um encontro de amigos às sextas-feiras, para a conversa livre diante de geladas e do caraterístico chá (uísque).

fotos de arquivo



sábado, dezembro 28, 2019

DESPEDIDA DO "CHÁ DO ARMANDO"

Convite expedido

Aos 91 anos, em junho de 2017, faleceu o fundador, entre outros títulos bem mais relevantes, do Chá do Armando, o acadêmico Armando de Menezes. Quatro meses depois, na sexta-feira, 13, a Academia Amazonense de Letras promoveu um Sarau em homenagem ao ex-presidente daquele sodalício.

A direção deste evento coube ao também acadêmico Zemaria Pinto, que me escalou para relembrar a caminhada do Chá do Armando. Essa página, aqui postada, foi lida na ocasião.


Último Chá do Armando

Há pessoas que costumam acenar às estrelas quando alguém pergunta pelo seu ente querido morto. Nesse sentido, a caminho deste convescote literário, passei o olhar pelo firmamento e, acreditem, o venturoso Armando de Menezes me sorriu. Ao menos, foi isso que percebi quando certa estrela paidégua deu-me aquela piscadela.
Voltei a sentir aquele beijo fraterno com o qual o Dr. Armando saudava seus pupilos, quando estes adentravam ao salão onde era consumido o Chá que lhe emprestou o nome: Chá do Armando. Esse afago ocorria com todos, mas eu me considerava privilegiado, porque, por um momento, eu me sentia seu filho, acariciado, incentivado, porém, oportunamente ralhado. Assim, ecoando o cancioneiro popular, “mas que seu filho, eu me tornei seu fã”.
O Chá do Armando foi esse movimento lítero-musical-etilista, que nunca foi anônimo. Começou no IGHA, no início do século, quando esta agremiação se empenhava em recolocar de pé a Casa de Bernardo Ramos. Eu estava lá, era o vice-presidente, e cuidava do layout e da acomodação do acervo. Os recursos financeiros existentes permitiram festejos conduzidos pelo tesoureiro Humberto Figliuolo, homem de boa boca e do melhor gosto, tanto que promoveu suntuosos chás acadêmicos.
No entanto, o dinheiro escasseou. Razão pela qual passamos a reunião para o térreo, quando por obra e soldo de Armando de Menezes surgiu à mesa, ora o Red ora o Black de paladar quase unanime. Ali, os confrades discutiam o avanço da Casa de Bernardo Ramos, os entreveros políticos e fechavam a sessão marcando o próximo encontro. Sempre às sextas, encerrando a tarde, abrindo a noite.
Logomarca da associação
Todavia, sempre há um desencontro. Nesse fugaz desacordo, a reunião mudou de CEP, abrigando-se na Casa de Adriano Jorge ou ainda, a Academia Amazonense de Letras. Ajeitamo-nos na secretaria, espaço que também servia de biblioteca. Era presidente da agremiação o poeta Max Carphentier que, ao anunciar o Chá do Armando, batizou esse divertimento e lhe crismou a notoriedade. O inesperado selo carphentiano pegou, e serviu de logomarca por mais de uma década.
O espaço diminuto e impróprio para tal tipo de afluência obrigou, entretanto, nova mudança, que foi decididamente benfazeja. Quando nos abrigou o falecido multiartista Anísio Mello em sua mansão provincial. A despeito da reduzida comodidade, tornou-se o emblema desse encontro. Como me agradava rever, a cada sexta-feira, as telas de Anísio. Chegamos a estabelecer a musa do Chá (a tela retratava uma donzela desnuda, em ambiente amazônico), cujo quadro encontra-se hoje em “lugar incerto e não sabido”.
Naquela mesa de trabalho, festejamos os 80 anos de Armando, com uma esmerada tartarugada, brinde do jornalista Simão Pessoa. A esposa do mecenas, Dona Ivete, esteve presente enlevando o festim. Esposas e namoradas de convivas estiveram no jantar.
Como a vida humana tem “prazo de validade”, chegou o dia do Anísio Mello. Ao curso de um largo período de convalescença, em abril de 2010, Anísio Mello passou à imortalidade. Em consequência, o Chá teve que buscar nova instalação.
Não sei se pela ordem, mas o Chá passou pelo Sebão do Diniz (do Antônio, sobrinho do acadêmico Almir Diniz), ali na rua Joaquim Sarmento. Cercados de livros e de importunos flanelinhas, curtimos algumas sextas-feiras. Então, experimentamos a Lanchonete Pina, na avenida Joaquim Nabuco. A passagem acola durou pouquíssimo, pois a escada que levava os convidados ao pátio superior e o cardápio “salgado” do português Chico Mendes espantaram a tribo.
Sergio Pereira, Almir Diniz, Armando de Menezes e
Zemaria Pinto (a partir da esq.), no "Sebão" do Diniz.
Na mesma calçada da mesma avenida, fomos nos abrigar no Salão dos Belos Quadros, uma dependência da Universidade Federal ocupada por terceiros. Alguns transtornos depois, veio, então, a sala da presidência do Ideal Clube, por deferência do presidente Humberto Figliuolo, até que aconteceu a derradeira mudança, novamente para o citado prédio da Ufam.
O Chá ocupou o Ideal por um bom tempo, até que os males da idade atingissem ao patrono do movimento. Armando de Menezes foi diminuindo a presença, até que uma prescrição médica vetou seu comparecimento, impedindo de ver seus pupilos. E a mesa, sem ele, doía tanto. Ainda assim, ele os mantinha confortados com os destilados e outros petiscos, mas exigia saber da presença dos seguidores e dos debates acontecidos. Para tanto, seguia para ele uma espécie de Ata da sessão. (segue na próxima postagem)

quinta-feira, dezembro 12, 2019

POESIA DE ALMIR DINIZ


Almir Diniz e Roberto Mendonça
Novamente remexendo meus alfarrábios revi esta pérola, que me presenteou o poeta Almir Diniz. Foi-me entregue na residência do saudoso Anísio Mello, quando em 14 de outubro de 2005, ali se reuniu o sempre lembrado Chá do Armando.
Obrigado, mestre do soneto, que o Natal lhe seja abençoado!








                 

                  Ao toque da campainha
pisando em seda, ela vinha
tremente o olhar, fria a mão...
No mesmo instante incendido,
o amor que traz, escondido,
fagulha no coração.

Ardendo em febre, abre a porta,
o medo que tinha, exorta,
o braço dourado, estende...
O amado a tremer, também,
pesquisa, não vê ninguém,
no peito dela se prende.

Sós, no sofá – deuses no Éden! –
Olham-se! Querem... Despedem
torrentes ébrias de beijos.
E emitindo sons esparsos
fundem-se, os braços nos braços,
segredam tensos desejos.

Marota..., finge fugir...,
mas retoma, em lingerie
de transparência estelar.
E malandra e sedutora
diz – e nisso é professora –
                  “mas como é bom namorar!”


                  E namoram, pois se adoram;
                  os lábios, tensos, exploram
                  fontes de eterno luar.
                  Depois, rumor de emoções,
                  doces cascatas de sons,
                  vozeando: é bom amar!...
                                              Almir Diniz