CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, junho 01, 2026

MEUS OITENTANOS (5)

 FASCÍCULO 5 

Ao retornar à casa paterna, percebi minhas dificuldades de relacionamento com o sexo feminino. Para quem havia passado a adolescência exclusivamente entre rapazes, faltava-me habilidade para encetar uma conversa afetiva com as garotas. Todavia, tive um aprendizado célere, muito por iniciativa delas. Eu tinha consciência de que não tinha muitos predicados, mas sabia que o respeito que me dedicavam provinha de ser o único adolescente no nosso bairro com o curso médio completo e, ademais, havia o fato de ter estudado em colégio de padres, onde o ensino era respeitável. Assim, os namoricos foram se sucedendo, naquele tempo estimulados pelos recados portados por amigas ou parentes. Há uma sessão de bons episódios vividos nessa fase da vida.

Rua Amazonas, 29 - Morro,
casa da família

 Certa ocasião, fui “convidado” para efetuar a pintura da casa da dona Hilda — uma enfermeira que tinha uma linda filha, Graça, de 15 anos —, que residia ao lado dos irmãos. Na hora do almoço, sentado à mesa, ocorreu-me um desacerto com o irmão dela, Marivaldo. Este, em ofensiva vingativa, atirou-me um carretel de esparadrapo vazio e me provocou um corte no supercílio. O problema não foi apenas curar o ferimento, mas criar uma explicação em casa e para a vizinhança.

Em outra oportunidade, aconteceu quando namorava a jovem Rosendalva do bairro de São Lázaro — muito próximo do Morro da Liberdade —, e lá meu irmão Antônio também frequentava. O percurso era realizado a pé, percorrendo uma íngreme ladeira de terra. Certa noite, ao chegar à praça da Igreja antes dele, percebi alguns jovens se articulando para promover um susto aos namoradores de fora. Quando meu irmão chegou, alertei-o sobre a minha suspeita e combinamos caminhar normalmente até a “cabeça” da ladeira. Ao atingirmos esse ponto, foi uma de “pernas para que te quero”, uma desenfreada corrida noturna até em casa. — Fácil para quem conhecia o trajeto e todos os buracos no chão de terra batida, mesmo pouco iluminado.

Narrando mais um fato:  a minha primeira namorada chamava-se Glória, simpática jovem da minha faixa etária. O nosso caso de amor seguia bem até que levei o primeiro “chifre”, quando a doce amada se interessou pelo vizinho, o xará Roberto. Quando ele arrumou outra namorada, perdoei a Glória e resolvi ficar com ela até meu ingresso na Polícia Militar. Nessa época, o chamego estava restrito a “amassos” prudentes, pelo temor de uma gravidez, pois o uso da pílula anticoncepcional estava em fase incipiente.

No ano de 1965, partindo do Morro da Liberdade, ia até o NPOR (27° BC) em condução militar. Havia um certo contratempo em usar um veículo do Exército, o que me levou a aceitar o convite do cabo Osmar da Silva, integrante do corpo administrativo do Núcleo militar, para residir em seu quitinete. Explico a residência: era apenas um quarto de uma estância de madeira nas proximidades do quartel. Ele era alfaiate e vestia-se bem. Aproveitando-me da sua cordialidade, passei a usar suas roupas. Não desconfiei de sua solteirice, até que numa noite, fui convidado a me deitar ao seu lado, e percebi sua homossexualidade. No dia seguinte, depois do expediente, voltei para casa. Porém, acabei entendendo sua opção sexual, mas combinei que cada qual teria sua liberdade, sem laços afetivos. Ali, para mim, era mais prático, residindo no bairro de São Jorge, próximo ao quartel. Essa proximidade possibilitou ao colega do NPOR, Osório Fonseca, me dar carona numa sexta-feira — 3 de junho de 1966 —, com a aprazível notícia de que eu havia sido nomeado oficial da Polícia Militar. O Diário Oficial do dia anterior havia publicado o decreto 512, nomeando-me ao posto de 2º Tenente da Polícia Militar, assim como a metade da turma Ajuricaba.             

Ingresso da turma 1966 na PMAM, posando na
Praça da Polícia. Autor assinalado. 

Osório orientou-me a comparecer ao quartel da Praça da Polícia na segunda-feira, dia 6 de junho, indicando o Café do Pina como ponto de encontro da turma. Confesso que passei o final de semana cheio de dúvidas e inquietações: seria verdade? Respondi a mim mesmo: se for, está ótimo, estou ocupado com algo que havia aprendido. Mas, se for um trote, que desventura. Acreditando na veracidade da informação, no dia marcado, vestido com a domingueira, após deixar o ônibus, caminhei em direção ao ponto indicado. Ao cruzar a Praça da Polícia, fui me esgueirando pelas árvores buscando os companheiros, até que... lá estavam eles. Após reunidos, adentramos no até então desprezível aquartelamento, de onde eu saí 30 anos depois.

No dia seguinte, visitei a alfaiataria da corporação para as medidas do fardamento, que logo foi confeccionado em caqui — uma cor que alcunhávamos de “cor de burro quando foge” — e logo conheci o quartel do Piquete, na rua Dr. Machado, uma construção centenária. A publicação do boletim me classificou para a Companhia de Comando e Serviços, ao lado do tenente Ilmar Faria, sob comando do capitão Pedro Lustosa. Prontamente reservei uma cama e um armário no alojamento, e dessa maneira abandonei o muquifo de São Jorge e passei a residir no centro de Manaus.

Experimentei inovações comportamentais, algumas estranhas para mim, como receber continência de idosos praças, com idade para ser meu pai, e por todos eles ser tratado por senhor. Afinal, aos 20 anos, eu me constituía em um dos mais jovens policiais, diante da escassa procura pela polícia “meganha”. Ao final do mês, recebi o primeiro salário — 90 mil cruzeiros —, julguei-me um marajá. No mês seguinte, fui nomeado comandante do Pelotão de Choque — criado por deliberação interna e logo desaparecido, o primeiro existente na PM. Estranhei a minha escolha devido à minha pequena estatura e porte físico franzino — 1,63m e 49kg. Considerava-me incompatível diante de corpulentos subordinados. No desfile do Dia da Pátria, assemelhava-me a mascote do pelotão, inclusive portando uma pistola cedida pelo comandante. O mês de setembro daquele ano me trouxe notícia alvissareira: o governador Arthur Reis aprovou o código de vencimentos, elevando o soldo da tropa: passei a receber 300 mil cruzeiros mensais, três vezes mais do que recebia ao ingressar.

Na condição de comandante do Pelotão de Choque, no final de setembro fui designado delegado especial da Ilha da Marchantaria — uma porção de terra que hoje integra o município de Iranduba, defronte a Manaus, e está sujeita ao alagamento pelo rio Solimões. Recebi a incumbência de proteger o rebanho bovino do senhor José (Zeca) Nascimento, destinado a abastecer a cidade. Tornei-me tenente responsável pelo gado que, vindo do período de estiagem, devastava as roças e os pomares dos moradores. Regressei da ilha após quinze dias e retomei as atividades da caserna, cujo dia começava com o desfile matinal na área externa, contornando a praça e passando diante do Colégio Estadual do Amazonas, no qual havia alunos de ambos os sexos. As alunas rapidamente notaram a nova leva de oficiais, mas foi na praça Ribeiro Junior, atrás do quartel, que encontrei a namorada Maria das Graças Souza, que residia no Edifício Lilac com a mãe Edna e a irmã Mary, o genitor era comerciante em Porto Velho.

Aquele setembro foi de fato marcante, quando Manaus recebeu o integrante da Jovem Guarda, Roberto Carlos. Fui escalado para garantir a condução do cantor pela cidade. A chegada ocorreu no aeroporto de Ponta Pelada – hoje Base Aérea de Manaus – sob espantoso entusiasmo dos fãs. O antigo campo de pouso obrigava os passageiros a caminhar até o local de desembarque. Por isso, aguardei o cantor à porta que, vendo a multidão, me pediu em rápido diálogo que o protegesse devido à deficiência de seu membro inferior. Naquela noite, ele cantou no Circo Americano, na Praça 14, e no Cheik Clube.

Recorte de folheto comemorativo
dos meus 70 anos

No final do ano, celebrei as principais conquistas: o ingresso e a moradia no quartel, além do namoro com a jovem Graça Souza. O ano novo, 1967, já mostrava certo incremento na corporação em razão das ações do Governo Militar. Em fevereiro, obteve vagas para cursos no Rio de Janeiro; fui designado para o de manutenção de armamentos, cuja escola funcionava em Deodoro, subúrbio carioca. Essa opção trouxe à lembrança a minha guia de sorte. Com a matrícula encaminhada, restou-me apenas arrumar a mala, despedir-me da família e da namorada, para a minha primeira viagem de avião. Acompanhado do tenente Odacy Okada, embarquei em 28 de fevereiro — dia da implantação da Zona Franca de Manaus —  no quadrimotor Douglas DC-4 da VASP, excessivamente ruidoso, mesmo assim, eu seguia radiante diante das inovações. O voo partiu de Manaus às 8 horas, chegou em Brasília por volta do meio-dia, almocei e embarquei novamente rumo ao Rio de Janeiro. (segue)

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