CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, junho 15, 2026

MEUS OITENTANOS

 FASCÍCULO (6) 

 

A viagem rumo ao Rio de Janeiro — então Estado da Guanabara — poderia ter sido mais leve, não fosse a ordem implacável de seguir uniformizado e, pior ainda, com um sapato social recém-comprado que, em cada passo, me lembrava da crueldade do couro novo contra a pele desacostumada. Ao cair da tarde, desembarcamos no Santos Dumont: dois oficiais amazonenses, cansados, mas curiosos, e ali, como um porto seguro, já nos aguardava o major Hélcio Motta.

Saudoso Okada e eu, em tempo
de confraternização

Seguimos para Deodoro, onde a Escola de Material Bélico não tinha espaço para nos acolher. O major, generoso, nos conduziu até Sulacap, na Escola de Oficiais, onde passamos a primeira noite. Dias depois, enfim, consegui alojamento na própria Material Bélico, libertando-me da preocupação com transporte e alimentação. Ainda assim, as diárias pelo afastamento de Manaus continuavam a pingar — e eu, em silêncio, celebrava com meus botões: que maravilha! Era o primeiro curso fora de Manaus, estendido de março a dezembro de 1967, e não poderia ter começado melhor.

Explorando os arredores, reencontrei parte da família de minha tia Raimunda em Marechal Hermes. Conversas se reacenderam, memórias se entrelaçaram, e logo soube que outros parentes viviam em Santos, empregados na refinaria de Cubatão, em fase de ampliação. Foi o primo Francisco, o “Cote”, quem me guiou até o litoral santista, onde fui recebido com festa exuberante. A casa, repleta de filhos, pulsava de vida; sempre havia uma cama quente cedida por alguém, como se a hospitalidade fosse um ritual.

Essa rotina tornou-se quase um rito semanal: saída do curso ao meio-dia de sexta, chegada em Santos na madrugada, mergulho nos afetos e na alegria, retorno no domingo à noite, desembarque na Avenida Brasil já próximo à escola, na madrugada de segunda. O preço era alto: aulas massacrantes, o corpo vencido pelo sono atrasado. Mas a recompensa era maior — o deleite de pertencer, de estar entre os meus entes queridos.

O curso reunia oficiais das Forças Federais e das Polícias Estaduais. Entre eles, destacava-se a delegação mineira, cujo chefe me tratava como se fosse da própria família. O quartel, erguido diante da estação da Central do Brasil, oferecia o trem como companheiro habitual de deslocamentos. Eu o tomava para estudar, para circular pelo Rio, sem desprezar os ônibus que, até às 23h, ainda partiam do centro. O cobrador, figura incansável, acordava os dorminhocos aos gritos em cada estação — como se fosse guardião do tempo e da disciplina urbana. 

Diploma do Curso de 
Manutenção de Armamento


Minha participação no curso foi um desastre: terminei como o último colocado da turma. Duas razões se impunham com clareza. A primeira, técnica: até então havia manuseado apenas armas de uso pessoal, e de repente me vi diante de um currículo que exigia compreender canhões e obuses de grande potência, descrevendo seus mecanismos como se fossem familiares. O despreparo era evidente. Como se não bastasse, o capitão Imbuzeiro, carioca nato e dono de ironia afiada, sugeria que eu estudasse zarabatanas e flechas — armas dos indígenas amazonenses — numa zombaria que me feria, mas que eu suportava com resignação. 
Ainda assim, aceitei o desafio: era o único curso disponível, e eu não poderia recusar. 

A segunda razão era mais sedutora: o deslumbramento com a Cidade Maravilhosa e o reencontro com a família. Alguns viviam nas proximidades, outros no litoral santista. Os finais de semana, inevitavelmente, eram devorados por viagens a Santos, e o trajeto, embora prazeroso, cobrava seu preço em fadiga. A lembrança de casa e da namorada, mesmo à distância, pesava no coração e roubava energia.

Naquele tempo, as cartas eram o fio que ligava os ausentes. Eu escrevia e recebia com frequência, disputando com os colegas quem mais acumulava correspondências. Recordo-me de uma correspondente em Guajará-Mirim (RO), que escrevia com tanta ênfase que suas palavras pareciam atravessar fronteiras e rivalizar com o afeto dos demais. O telefone também era recurso constante: em frente ao quartel havia um orelhão, usado à noite para economizar fichas. Certa vez, o aparelho entrou em pane, mas continuava funcionando — e por dias transformou-se em palco de uma farra coletiva, onde cada ligação era uma vitória contra o acaso.

 

Na casa de tia Raimunda, os finais de semana tinham um ritual simples e encantador: diante do pequeno aparelho de televisão, reuníamo-nos para assistir ao III Festival da Record, transmitido de São Paulo entre setembro e outubro. Torcíamos juntos por Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, que naquele instante impulsionava a carreira do jovem baiano. Encerrada a transmissão, seguia com meu primo Luiz Jorge — que viveu entre 1945 e 2016 — rumo ao caminho das Bocas, território de bares e bordéis vizinhos às Docas. Numa dessas noites, ao tentar abordar uma gaúcha avantajada, fui descartado com ironia: disse não gostar de “miniatura”. Desde então, confesso, guardo certa mágoa contra os baixinhos.

No Rio, aproveitei também os eventos festivos que a cidade oferecia. Estive na eleição de Miss Brasil, realizada no Maracanãzinho em 1º de julho, vencida pela representante paulista. Logo depois, assisti ao II Festival Internacional da Canção Popular (FIC), promovido pela recém-criada TV Globo. No encerramento, em 22 de outubro, vi Milton Nascimento consagrar-se ao interpretar Travessia, apenas com seu violão — um momento de pura revelação artística. Conheci ainda o Maracanã, palco erguido em 1950, ano em que a família Mendonça se aventurou no Rio sem visitá-lo. No Dia do Trabalhador, assisti ao clássico Flamengo x Santos, com Pelé em campo. Contudo, não consegui vê-lo com clareza: o jogo de portões abertos atraiu multidão, e eu, sem óculos, acabei relegado ao alto das arquibancadas. 

Em outubro, veio a promoção a 1º tenente, com o soldo melhorado. Em dezembro, a cerimônia de formatura trouxe constrangimento: ocupei o último lugar da turma. Apesar do esforço para superar os obstáculos do currículo, ao retornar à corporação, fui nomeado tesoureiro da instituição. Quanto ao armamento, jamais fui cogitado para aplicar os conhecimentos adquiridos. A aversão às armas, já presente, reforçou-se com o resultado escolar. Não era apenas comigo: outros colegas também não foram aproveitados. Os cursos fora da sede tornaram-se, em essência, uma forma de ampliar o soldo. 

Henrique Antonio,
meu irmão 


Chegou, então, o momento de regressar a Manaus. Mas a convivência com os parentes de Santos trouxe uma proposta tentadora: ingressar em atividade privada, deixando a Força amazonense. Cubatão fervilhava de oportunidades, com a refinaria
Presidente Bernardes
cheia de construções, onde meus primos trabalhavam. Não hesitei. A saudade da terra e da namorada que me aguardava pesaram na decisão. Sugeri ainda que meu irmão Henrique Antônio, em Manaus, viesse juntar-se à empreitada. Enviei-lhe a passagem, e poucos dias depois o recebi em Congonhas, conduzindo-o à casa da tia, que o acolheu com calor. Logo conseguiu emprego, construiu sua vida e, recentemente, estabeleceu-se em Lisboa, Portugal.

Desembarquei no Ponta Pelada trazendo na mala presentes e, nas mãos, dois vinis: um do Festival da Record e outro do francês Paul Mauriat, cuja orquestra era a sensação da época — ainda que eu não tivesse aparelho para ouvi-los. A família seguia no Morro, e eu me mantinha alojado no quartel da Praça da Polícia. Atravessei a praça Ribeiro Junior em busca da namorada e, assim, vi chegar o ano de 1968. (segue)

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