CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

Mostrando postagens com marcador Morro da Liberdade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Morro da Liberdade. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, setembro 02, 2026

MEUS OITENTANOS (16)

 

FASCÍCULO 16 

Em se tratando de viagem ao exterior, conservo outra desventura. Ainda no comando da Rádio Patrulha, em novembro de 1978, fui indicado juntamente com o major Romeu Medeiros para acompanhar uma delegação de oficiais brasileiros ao Chile. Tratei de aprontar a documentação exigida, em especial o passaporte; de atualizar os conhecimentos sobre aquele país; rever minhas lições de espanhol, enfim, cuidar do uniforme próprio para o clima andino. Quando tudo ficou acabado, eis que o Chile e a Argentina iniciam a disputa por três ilhas no Canal de Beagle. Pouco a pouco a crise evoluiu, até o ponto de escalar tropas na fronteira, além de navios na região; diante da profundeza da crise, o Ministério da Guerra cancelou a visita. Desse modo, arquivei o passaporte.


     Nesse período, ocupei a casa deixada por meus pais no Morro e, sempre que curtia uma solteirice, utilizava as dependências do gabinete do comandante da RP. A morada necessitava de reparos, para tanto contratei o carpinteiro alcunhado de “orelhinha”, alcunha decorrente da deformação da orelha direita. Conversei com ele, sempre antes de minha saída para o quartel, quando me informava das obras a executar naquele dia; estranhamente, quando eu retornava ao fim da tarde, nada havia sido realizado. Dia seguinte, o profissional me explicava que faltara isso e aquilo. No entanto, contaram-me os vizinhos, quando eu seguia para o trabalho, “orelhinha” desaparecia. Outra questão relativa à casa construída em vasto terreno de 1.200m2, em nome da minha madrasta Doroteia que com a família havia se mudado para Santos-SP. Idealizei comprar a terra e a habitação, acertando o valor com ela com pagamento em parcelas. O trato seguia, até que consultando um advogado, este me lembrou de a impossibilidade desse negócio prosperar, porque havia seis irmãos herdeiros. Desisti, mas fui encarregado pela dona de vender a propriedade, tão logo anunciei, passou ao novo dono. A venda foi efetuada em 12 de novembro de 1989.

Rua Amazonas, 29 - Morro da Liberdade

Alojado no quartel surge uma lembrança comovente da maternidade vizinha: quase sempre que chegava ao quartel altas horas, escutava os lamentos das parturientes. Ouvi as promessas mais absurdas, como jamais voltar a crer no boto doméstico; em outras ocasiões eram queixas de desalento pela falta de conforto hospitalar. A então Maternidade Ana Nery havia sido instalada como Balbina Mestrinho, em 1960, em uma porção do terreno pertencente à Polícia Militar. Dessa proximidade resultava o alarido que se ouvia nas madrugadas. Outra questão que me incomodava era a caça feminina aos policiais. Esclareço: o único meio de contato disponível era o telefone, cuja linha permanecia, durante o expediente, no meu gabinete; eu quase sempre atendia às chamadas. E, ao ser questionado pelo soldado fulano, respondia que ele estava “de serviço na área B”; e o sicrano, onde se encontra? – “de folga”, eu arriscava. Ainda ocorria de dizer “em serviço na área B” e a pretendente, com ênfase, me corrigir, “ele só tira serviço na área C!” – e assim por diante. Agora, a questão que me afligia: quais atributos dispunham os policiais para empolgar tantas jovens? Optei por não encontrar.

Um episódio político-policial provocou-me emoções fortes: ocorreu durante a visita do então príncipe-herdeiro japonês Hiroito ao Brasil, hoje imperador emérito. O fato deu-se no segundo semestre de 1978. Como o Amazonas figurava na agenda, fui escolhido para compor o grupo de segurança, no comando da Rádio Patrulha; para isso ocorreram várias reuniões e encontros coordenados pelo CMA. Em uma dessas reuniões, distribuíram-se encartes com fotos de vários suspeitos, todos japoneses. Depois de observá-las repetidamente e sem conseguir acrescentar qualquer que os diferenciasse, sorri ante a impressão de que todos os japoneses se parecem. No dia marcado, após atravessarmos o rio Negro de balsa e desembarcarmos em Cacau Pirera, seguimos pela estrada Manuel Urbano (Manaus-Manacapuru) até a colônia japonesa. Nesse local assisti a um rito devocional que me deixou surpreso e com admiração duradoura: os japoneses – os mais idosos – curvaram-se à passagem do príncipe e acompanharam toda a solenidade nessa postura, sempre de cabeça baixa.

O extrovertido tenente Humberto Crispim, dotado de contumaz conversa comercial, insistiu comigo para me vender um automóvel; de fato, aquele Fusca que usava estava em pandarecos. Conversa vai e vem, apresentou-me a um Karmann Ghia TC, veículo VW clássico esportivo, bastante buscado pelos jovens arrebatados; não me agradou, ainda assim, ele rogou que fizesse um “test drive”. Tão logo sentei no banco, tive a sensação de que estava arrastando o traseiro no asfalto. Ao ultrapassar um ônibus, o pânico se apoderou de mim, julguei-me dirigindo debaixo do coletivo. Desisti. Então, ele me trouxe a VW Brasília, uma perua então bem aceita, de placa ZG 94-32, que tão logo vi, me apaixonei basicamente pela cor – dourada, certamente a única na cidade. Com ela fui para São Paulo, depois para o Rio, onde passei o ano seguinte, e ali foi vendida.


Para comemorar a passagem do ano no quartel, organizei uma festa para todos os subalternos e afixei no portão centenário existente no pátio uma árvore de Natal estilizada, gesto que me deixou, de certo modo, bastante envaidecido, pois aquela decoração jamais foi repetida. O comando da Polícia organizou para os oficiais um baile nos salões do Rio Negro Clube, presente o governador Henoch Reis e convidados. De minha parte, convidei a Celia C., aquela jovem que conheci no Detran em 1974, e, obsequiado pelo meu comandante do batalhão, ocupamos a mesma mesa, Lustosa com a digníssima esposa. Encerradas as festas, acabei por adquirir passagens e viajei a São Paulo para encontrar meus familiares, já sabedor da minha matrícula no Curso de Técnica de Ensino, no Centro de Estudos de Pessoal (CEP), localizado no Rio.

 

Única foto dos irmãos e pais reunidos - Natal 1978

Durante as comemorações com a família, consegui dois feitos: primeiro, ao avisar que estaria no Rio no ano vindouro, pedi a meu pai que mantivesse a família em Santos; o pedido recebeu pronto acolhimento, já que os irmãos não queriam retornar a Manaus. O segundo feito foi a realização de uma fotografia no endereço familiar, no bairro do Orquidário, em Santos, reunindo todos os filhos e até um neto, junto de nossos pais. Uma reunião similar nunca mais se conseguiu realizar. Após meu retorno a Manaus, no começo de 1979, comecei a preparar a viagem para frequentar o curso, no Rio.

terça-feira, agosto 18, 2026

VIAGEM NO TEMPO (4)

 

Feliz Aniversário       18.07.2026                        

 Renato Mendonça 

Logo cedo, recebi uma ligação do José Manoel me parabenizando pelo aniversário. Durante a conversa relatei o desconforto da Alda, que não havia passado bem à noite, e a suspeita de infecção urinária. Sua esposa, Marília, aproveitou a ligação e interveio com asserção, nos orientando a procurar o Hospital Santa Júlia, instituição de boa reputação. Assim, programamos a ida imediatamente, sentindo uma certa urgência.

Chegamos ao Hospital Santa Júlia bem cedo, na manhã do dia de São Pedro, logo após o saboroso café do hotel. Mesmo com a informação prestada pela Marília, ainda havia entre nós uma pequena preocupação com a natureza da instituição e se seria atendido pelo plano de saúde. O motorista do Uber nos deixou exatamente no atendimento de emergência, com acesso pela Avenida Ayrão.

Como se fosse uma bênção divina para comemorar o aniversário, essa instituição estava cadastrada para atender meu plano. Desde a recepção, observamos que era um hospital de excelência, com boa estrutura, todo informatizado, com agilidade impressionante no atendimento e no resultado dos laudos de análises clínicas dos pacientes. Um painel à frente mostrava o andamento de cada resultado, assim como já constava do celular cadastrado do paciente. Em pouco tempo, Alda estava de volta à mesa da médica Maria José Silva para sistematizar o laudo e receber a prescrição dos remédios. Havia urgência em comprar e começar a tomar o antibiótico.

O guarda, com a calma de quem conhece cada recanto daquele espaço, nos guiou por corredores silenciosos, ladeados por salas de atendimento e consultas. Saímos por uma porta lateral e tomamos um elevador para subir um andar; de repente, o mundo hospitalar se dissolveu na vibração da cidade. A Rodovia Álvaro Maia pulsava com o ritmo apressado dos carros e o colorido das farmácias, cada uma oferecendo remédios e cosméticos.

A urgência nos fazia caminhar rápido, mas havia algo de ritual nesse deslocamento: como se o antibiótico fosse não apenas um remédio, mas um símbolo de esperança, um elo entre a fragilidade humana e a força invisível que nos sustenta. O dia de São Pedro, outrora celebrado com procissões e fogueiras em cantos da cidade, ali se manifestava em forma de bênção silenciosa — o encontro entre a fé e a ciência, entre o cuidado humano e a tecnologia que acelera curas.

Ainda como parte das bênçãos recebidas, estávamos próximos ao Cemitério São João Batista, onde eu tencionava passar para rever o túmulo de minha mãe e de minha avó. Fazia parte do meu plano primitivo, antes de viajar. Caminhamos até lá. O portão do cemitério era como se fosse passagem para outro tempo, outro mundo. Cada passo sobre o chão quente trazia lembranças que se misturavam ao presente. O azul do túmulo, ainda vivo na memória digital, agora se revelava diante dos olhos com outra cor, mais brilhante sob a luz do sol. Toquei a superfície da lápide e senti que, de algum modo, minha mãe e minha avó estavam ali — não apenas sob a pedra e a camada de terra, mas no calor que me envolvia, na emoção que me tomava por inteiro. Esse instante singular reformulou minha maneira de sentir saudade de minha mãe — como se fosse uma saudade compartilhada —, cuja breve existência de apenas trinta e cinco anos deixou em mim uma ausência que não se apaga — a beleza que nunca se acaba. Cada lembrança é um fio de dor e ternura, e ao evocá-la, sinto que sua vida interrompida continua a pulsar dentro de mim, como se me pedisse que a memória seja também uma celebração.

 

Renato no cemitério São João Batista

Rezei em silêncio, como quem conversa com o passado e pede proteção para o futuro. O vento leve que atravessava nossos corpos parecia resposta, um sopro de bênção. Naquele instante, a viagem deixava de ser apenas deslocamento geográfico: tornava-se uma peregrinação íntima, um encontro entre fé, memória e destino.

É impróprio dimensionar o tamanho da emoção, posso assegurar que o momento foi épico — o melhor presente de aniversário para meus 75 anos — comemorado com uma festa espiritual. Minha avó, que conviveu mais tempo comigo, me “olhava” com seus olhos miúdos e me acalmava. Segredamos juntos nossas orações e pedi-lhes a Bênção. Uma placa provisória, trazida pelo meu irmão Roberto, que me acompanhava também nessa missão, encimava o túmulo. Prometi para elas, e para mim mesmo, que não vou ficar mais tanto tempo afastado... se Deus quiser.

O calor do verão amazônico parecia selar meu juramento, como se o próprio sol fosse testemunha da promessa. A lembrança do meu pai, repousando no São Francisco Xavier, aguardava sua vez de ser visitada, mas naquele instante o destino e a fome nos chamavam para a casa do Roberto, meu anfitrião.

O almoço em família, simples e festivo, foi como prolongamento da oração feita no cemitério. À mesa, entre risos e histórias, percebi que a viagem não era somente uma jornada física programada: era celebração da vida, encontro de gerações, reafirmação de laços que resistem ao tempo. Cada garfada trazia o sabor da memória, e cada palavra trocada era bênção renovada de amor e fé. Roberto, Beatris e a juventude da filha, Sofia, 16 anos, foram fundamentais para que nos sentíssemos novamente no aconchego de um lar — e feliz aniversário!

 

Renato - no cemitério São Francisco Xavier

À tarde, presente ao túmulo de meu pai — sepultado com minha madrasta, Doroteia — a mesma fé devotada. O azul tênue do céu parecia guardar segredos, e a nuvem que se afastava com o vento carregava consigo minha angústia, como se fosse mensageira de um consolo invisível. Percebi que a fé que compartilhamos muitas vezes ainda nos unia em silêncio, cada um traduzindo a ausência à sua maneira.

Meu pai, mesmo ausente, deixava ali sua marca: um legado que me acompanha e se revela nas pequenas lições que a vida me ensinou quando ele estava presente e após sua partida. Era como se ele me dissesse, naquele momento, através do sopro do vento, que a paz não está em negar a dor, mas em aceitá-la como parte da caminhada.

segunda-feira, agosto 17, 2026

MEUS OITENTANOS (14)

 

FASCÍCULO 14 


Enquanto concluía a baixa do contrato no Tropical Hotel, comuniquei ao quartel da Praça meu retorno, que se concretizou no final de janeiro. A empresa liberou-me no dia 20, mas, ainda dispondo de alguns dias de licença na corporação, só voltei a envergar o uniforme em fevereiro. Retornei ao serviço no 1º Batalhão, em Petrópolis — conhecido como “presídio” —, afastado do centro e imerso nas agruras de um bairro ainda em formação. À época, a unidade estava sob o comando do coronel Pedro Lustosa. Sob sua liderança, o batalhão transformou-se: as instalações passaram por ampla reforma e a disciplina ganhou rigor. Lustosa era respeitado, meticuloso e excessivamente organizado; atributos que, paradoxalmente, causavam estranhamento entre seus pares. Foi nesse contexto que me indicaram para subcomandante, esperando que minha irreverência e suposta negligência desestabilizassem o coronel. Nada disso ocorreu; pelo contrário, estabeleceu-se uma colaboração sólida.

Quartel do 1º BPM, atual Comando-Geral, em
Petrópolis - Manaus

Voltei ao batalhão com outra disposição, consciente de meu dever de apoiar o comandante. Realizei minhas funções de forma relevante, embora discordasse de alguns de seus métodos, como a formatura matinal, que expunha os oficiais diante da tropa em semicírculo, ouvindo longas admoestações. Muitas vezes, a cerimônia se estendia em demasia e chegou a ser motivo de altercação. As instalações, devidamente restauradas, foram entregues aos cuidados dos comandantes intermediários. Em certa ocasião, alguém escreveu um gracejo “espirituoso” na porta do banheiro envolvendo o coronel Lustosa; imediatamente fui escalado para descobrir o autor. Confesso que nem sequer iniciei a busca.

O aquartelamento, originalmente construído para receber o comando superior instalado na Praça da Polícia, era desmedido. Aproveitando suas amplas dependências, ali se realizavam cursos diversos, o que mantinha constante movimento. O efetivo circulante era respeitável, e o batalhão pulsava como um organismo vivo, onde disciplina e irreverência se cruzavam em um cotidiano intenso.

Vista do campo de futebol no Batalhão

Demorei a compreender a liturgia das formaturas conduzidas pelo coronel Lustosa. Só mais tarde, convivendo com oficiais oriundos das academias de polícia, percebi que cada um aplicava o gestual aprendido em sua formação, já que na corporação amazonense não havia regras estabelecidas. Recordo-me do coronel Medeiros, comandante-geral, que sempre alertava os oficiais formados em São Paulo: ao receberem uma missão, deveriam reduzir a projeção da operação por cem. Um deles, intrigado, perguntou o motivo. Medeiros explicou: “Cem mil é o efetivo da PM paulista; no Amazonas, somos apenas dez mil.” Era uma lição de proporção e realidade.

Detalhe do meu Currículo, Faculdade de
Direito, entre 1975-77

Assim transcorreu aquele ano. Frequentei a faculdade com ânimo renovado, cursando quatro disciplinas no primeiro semestre e três no segundo, todas aprovadas com coeficiente entre cinco e seis. Morava na rua Amazonas, no Morro, com minha companheira, em uma casa de madeira modesta, sem regalias e até sem privacidade, já que os jovens vizinhos “brechavam” nossa intimidade. A vida era simples, marcada pelo Fusca que exigia reparos constantes, mas também por uma rotina que me ensinava a valorizar o essencial.

Residência no Morro da Liberdade, em 1977

Guardo ainda duas tramoias pessoais daquele tempo. A primeira ocorreu no encerramento de um curso de soldados, quando era imprescindível atualizar as fichas individuais para encaminhá-los aos novos destinos. O coronel Lustosa chamou o capitão Maciel, responsável pela seção de pessoal, e determinou que organizasse os documentos, ressaltando que cada ficha deveria conter obrigatoriamente a fotografia do formado. Ao abrir o fichário, Maciel constatou que a maioria das fichas estava sem foto. Em pânico, correu ao meu gabinete em busca de auxílio. Lembrei-lhe que havia uma caixa com fotos sem identificação na seção. Recomendei: “Coloque qualquer foto na ficha; o comandante não conhece todos os soldados.” O capitão retrucou: “E se ele descobrir a armação? Você será preso. E se não colocar a foto, também será punido.” Seguiu minha orientação — e deu certo. Ao final do expediente, reunimo-nos para relaxar com algumas geladas, celebrando a astúcia que nos livrara de maiores complicações.

A segunda tramoia aconteceu na organização do almoço de confraternização dos oficiais pelo Natal. Eu já estava de férias, portanto livre do festejo, mas ainda assim sugeri ao chefe do rancho que servisse uma iguaria apreciada: pato no tucupi. O tucupi havia em abundância; o problema eram os patos. Convicto de que minha sogra poderia suprir a necessidade, prometi entregar-lhe as aves. De fato, vieram três, mas eram apenas filhotes. Diante da carência, o cozinheiro recorreu a mim. Reconheci o impasse e recomendei-lhe que completasse a panela com frangos. O resultado desconheço, pois já estava a caminho de Belém.

A viagem foi realizada em um navio da extinta ENASA, embarcação antiga cujo sistema de propulsão consistia em uma enorme roda na popa. Eu estava bem, desfrutando das férias ao lado de minha companheira, hospedado em um camarote. Na véspera do Natal, a embarcação atracou em um flutuante à entrada da baía do Marajó, aguardando a vazante da maré. O atraso forçou-nos a comemorar o Natal a bordo. Já altas horas, um membro da tripulação flagrou um jovem consumindo drogas e comunicou o episódio ao comandante, que participava da confraternização. Eu estava ali, comendo e bebendo, quando o comandante determinou que o jovem fosse isolado, após consultar-me. Contudo, os colegas do rapaz atribuíram a mim a ordem de repressão. Madrugada adentro, deitei-me exausto, mas às seis da manhã o comandante convidou-me para assistir à atracação do barco. Em Belém, permaneci para celebrar o Ano Novo com os Valois, familiares de minha companheira.

No início de 1978, embarquei em um ônibus rumo a Brasília, em mais uma das típicas viagens pelos rincões amazônicos. O percurso, apelidado de “pinga-pinga”, acumulava paradas em pequenas localidades, onde famílias inteiras subiam com todos os seus pertences. Episódios pitorescos se sucederam: em um deles, um bebê no colo encheu as fraldas além da conta, e o vazamento contaminou o interior do ônibus, exigindo parada para desinfecção. Em outra ocasião, houve parada para banho à beira de um córrego, e foi necessário fiscalizar para garantir a separação entre os sexos. Na Capital Federal, fui hospedado por parentes ligados à CVC: um tio funcionário do Banco do Brasil e dona Olímpia, sua avó de olhos verdes. Prosseguimos até Curitiba, de onde retornei a Manaus, carregando comigo lembranças de uma viagem tão árdua quanto singular.

 

terça-feira, agosto 11, 2026

VIAGEM NO TEMPO (2)

     Segundo capítulo da saga transamazônica de Renato e Alda, narrada pelo próprio.

18.07.2026

 

Mercado Adolpho Lisboa

 No sábado, dia 27, parti para um reencontro íntimo, acompanhado pela presença constante da Alda e pela dedicação generosa de meu irmão Roberto. O destino era o Educandos — o bairro que acolheu os primeiros passos da família Mendonça, berço da nossa primeira geração. Ao chegar, senti-me tomado por uma gratidão: era como se os céus me concedessem a dádiva de revisitar uma parte essencial da minha própria história.

A casa onde nasci, agora em ruínas, parecia guardar uma atmosfera sombria, mas não hostil. Havia nela um olhar invisível, quase alegre, como se quisesse me parabenizar pela visita inesperada. Não era mera fantasia, mas um diálogo íntimo: a casa me dizia, em sua linguagem de paredes desgastadas, que havia cumprido sua missão de me acolher em um momento decisivo — o sopro da vida.

Casa onde nasci - rua Inácio Guimarães- Educandos

Ainda envolto pela nostalgia, caminhei até o Beco São José. Ali, meus pés haviam aprendido a andar, guiados pela ternura firme de minha avó. Foi uma infância colorida, marcada por descobertas simples e afetos profundos. Mas o beco também guardava uma sombra: foi ali que minha mãe se despediu prematuramente da vida. A lembrança trouxe um pesar discreto, como uma brisa fria que não se vê, mas se sente.

A casa que encontrei já não era a mesma. Restava apenas o espaço, a locação, como um corpo sem espírito. Olhei para ela com estranheza, como quem cruza com alguém desconhecido na rua — sem reconhecer  nenhum vínculo. E nesse instante compreendi que os lugares também mudam, que a memória é o que lhes dá vida. O Educandos, mais do que um bairro, é um espelho daquilo que fomos e daquilo que ainda carregamos dentro de nós — enquanto a mente não nos trair.

Beco São José, 28


Após o momento nostálgico, fomos ao encontro do Mercado Adolpho Lisboa, joia centenária erguida no primeiro ciclo da borracha. Entre suas paredes históricas, encontramos também o afeto de meu irmão Roberto e sua mulher, Beatris. Saboreamos guloseimas e um almoço que parecia celebração da própria Amazônia: pirarucu e tambaqui, farinha do Uarini e a ardência da pimenta murupi. Ingredientes de nomes indígenas, tão comuns na região norte, mas que carregam em si a memória de povos primitivos e sabores ancestrais de nossos pais e avós. À frente de nossa mesa, uma placa singela traduzia uma filosofia popular com humor certeiro: “melhor tomar cerveja do que tomar conta da vida alheia”.

Almoço no Adolpho Lisboa, Roberto, Beatris,
Alda e Renato (da esq.)


À tarde, em vez da sesta, seguimos até a praça São Sebastião, diante do majestoso Teatro Amazonas — símbolo máximo da pujança da era da borracha, no início do século XX. O espaço pulsava com a energia dos “torcedores organizados”, que acompanhavam em telões os desfiles dos bois Caprichoso e Garantido, que se apresentavam em Parintins. Estranhei, a princípio, aquela febre de entusiasmo, tão semelhante às paixões futebolísticas. Mas, logo percebi o paralelo com o Rio de Janeiro, onde multidões se entregam às escolas de samba. Era o mesmo fervor coletivo, traduzido em cores, ritmos e símbolos — uma celebração lúdica da identidade cultural do nosso país.

Roberto, ainda disposto, conduziu-nos ao Morro da Liberdade — bairro onde crescemos e onde repousa a maior parte das lembranças da adolescência. Ali, a prima Marta, mesmo adoentada, nos recebeu com um carinho peculiar, como se o tempo não tivesse passado. O número 29 da Rua Amazonas, ao lado de sua casa, devolveu-nos ao êxtase das recordações: tantas peripécias vividas, tantas histórias que se reanimavam diante de nossos olhos. Foi uma pequena viagem no tempo, um esforço para catalogar e restaurar na memória os melhores anos da juventude.

Munidos de uma informação e sugestão da vizinha, saindo dali, seguimos até o porto dos barcos, atrás do Mercado Adolpho Lisboa, para agendar o chamado “passeio do índio”. Esse programa parecia atender aos desejos que já se insinuavam durante o voo, ainda sem plano definido. Cogitou-se realizá-lo no dia 29 de junho, como presente de aniversário — bastaria apenas inscrevê-lo no script de Deus.

À noite, conforme o combinado com meu irmão José Manoel, seguimos para prestigiar o “arraial” da Tia Francisca — viúva do tio Beca, vitimado pela Covid há cinco anos. Imaginávamos uma confraria simples, vizinhos reunidos na rua, cada qual expondo suas iguarias juninas para serem adquiridas. Nossas intuições foram surpreendidas: numa rua adjacente, bandeirinhas coloridas cruzavam o céu, penduradas de um lado a outro, como se anunciassem uma festa maior do que nossas expectativas, mas não havia barracas.

Procuramos pelo número 35 da Rua Sagitário, sem sucesso. Foi então que uma senhora, ao sair de casa com uma garotinha de dois anos, nos socorreu. A criança, ao me ver, estendeu os braços pedindo colo, e seu sorriso delicado me conquistou. Atendi de imediato, tomado por uma ternura inesperada. A avó, Dona Nice, solícita, ofereceu-se para nos conduzir até o endereço. Caminhamos devagar, conversando, enquanto a garotinha se aninhava em mim, como se já me conhecesse.

Ao chegarmos à casa da Tia Francisca, a pequenina não queria mais largar meu colo. Chorou ao ser devolvida à avó, como se resistisse a romper aquele vínculo súbito. A cena me tocou profundamente: percebi que meu aniversário parecia abrir minha alma para afinidades surpreendentes, presentes inusitados que se revelavam em gestos simples e inesperados como desses pequenos anjos da vida.

Descobrimos, então, que a festa junina se realizaria na sala da casa de Tia Francisca, já adornada e pronta para receber os convocados. Aos poucos, os convidados iam chegando, trazendo novas iguarias que, juntas, compunham uma mesa farta e colorida, verdadeira celebração dos sabores juninos. Por instantes, sentimos o constrangimento de não termos contribuído financeiramente; mas logo o calor humano dissolveu qualquer incômodo. A prima Rosa, com sua afabilidade de anfitriã, nos recebeu em hospitalidade generosa, deixando-nos à vontade, sem peso na consciência, como se nossa alegria compartilhada fosse, por si só, a maior contribuição

Para animar a noite, organizaram um bingo, com diversas prendas distribuídas aos ganhadores. Recebemos as cartelas, mas Alda, prudente, me alertou: seria melhor nos esforçarmos para não vencer — ganhar sem ter contribuído seria antiético duplamente. Entre risos, conversas e o suspense dos números sorteados, a festa se desenrolou com alegria simples e genuína. Meu irmão José Manoel e sua mulher Marília finalmente apareceram, justificando o atraso por compromisso religioso. A recepção e a hospitalidade dos familiares do bairro da Betânia foram espetaculares, deixando em nós a sensação de pertencimento e de reencontro com raízes afetivas.

segunda-feira, junho 22, 2026

MEUS OITENTANOS (7)

 Quantos motivos havia para celebrar! O ano se renovava, e com ele o retorno à casa paterna e às obrigações policiais. Mas, sob o brilho das festividades, pairava também a sombra da incerteza: um comandante interino deixava no ar expectativas sombrias. Logo, porém, o coronel Maury Silva, mineiro de origem e amigo do governador Areosa, assumiu o comando. Trouxe serenidade ao corpo de segurança e marcou sua gestão com iniciativas firmes e acertadas.

No Seminário, em sessão do grêmio
literário (autor, ao centro) - 1963

Por minha vez, eu buscava horizontes além da farda. Intentei o curso de Direito na Fundação Universidade do Amazonas, sem preparo prévio, confiando apenas na tenacidade. O vestibular, cruel em suas provas eliminatórias, me deteve na terceira etapa, em Sociologia, apesar das lições recebidas do mestre André Araújo. Restava-me, então, seguir no labor policial, exercitando o ofício cotidiano da corporação.

Em julho, as férias me levaram ao Sul do país. Por economia, comprei passagens de ida e volta até Brasília, completando o trajeto de ônibus. A viagem de ida foi leve, com recreio no Rio de Janeiro e em Santos. Mas o retorno trouxe inquietações: o país respirava sob a repressão militar, e os sinais eram visíveis. Ao desembarcar em São Paulo, vi os destroços do atentado contra o DOPS. O ambiente nacional era de temor, marcado por notícias de sequestros e atentados. Mais grave ainda, em Brasília, estudantes ocupavam a universidade, e a força de segurança federal preparava-se para retomá-la.

Cheguei à rodoviária da capital no dia 28 e pernoitei em um quartel da Polícia Militar, que aguardava a ordem de desalojar os invasores. Ao amanhecer, fui conduzido ao aeroporto, pois ninguém sabia o que se seguiria. Embarquei à tarde rumo a Manaus, levando comigo as imagens dos escombros paulistas e da tensão em Brasília — um painel tormentoso para um jovem tenente caboclo.

No aeroporto, o burburinho crescia com a chegada de passageiros vindos da cidade, trazendo detalhes da operação policial. No horário marcado, um quadrimotor DC-4 da VASP — ou talvez da VARIG — ergueu voo em direção a Ponta Pelada. Ansioso por abraçar a família, recolhi minha mala, tomei um táxi da empresa do vizinho Almeida e segui para o Morro da Liberdade, onde me esperava a casa paterna. 

Eu e Graça (noivos) na inauguração da sede do
Fast Clube (1968)

À tarde, que prometia apenas o reencontro sereno, reservava-me um golpe cruel. Ao ingressar na rua Amazonas do bairro, percebi uma agitação incomum diante da porta de nossa casa. Desembarquei do táxi e, ao ver um pequeno caixão, pressenti a tragédia: era de criança. O coração se apertou quando Dona Dora, em prantos, abraçou-me e revelou a morte de meu irmão Ronaldo Cesar, levado pela doença aos onze meses. Da euforia do regresso, fui lançado ao abismo da perda, ainda mais dolorosa por não poder socorrê-lo.

Seu nome, como o dos demais irmãos, nascera de um sorteio familiar. Eu, distante no Rio, enviei por carta minha sugestão, que venceu. Era também o seu padrinho, privilégio que se transformou em uma ferida ainda maior. Inumado no cemitério de São Francisco, no Morro da Liberdade, sua pequena sepultura se perdeu nas intempéries do tempo, apagada por minha desídia.

Como contraponto, na praça, aos fundos do quartel, o namoro floresceu em noivado e trouxe-me à convivência com a família dela. O patriarca, ausente em Porto Velho, não participava. Em casa, porém, meu pai não aceitava que um filho suburbano se unisse a uma jovem citadina. O mal-estar perdurou até o nascimento da primeira neta de seu Manuel, quando a vida suavizou as arestas. Reconheço, ainda hoje, minha falha por não ter recorrido ao coração materno de Dona Dora, minha madrasta.

No segundo semestre, viajamos a Porto Velho em busca do consentimento paterno para o casamento. A comunicação prévia exigia esforço: ligações interestaduais eram raras, feitas pela estação da Radional, precursora da CAMTEL, na rua Dr. Moreira. Após solicitar o serviço, aguardava-se o contato, e só então se entrava na cabine. Não se podia gritar: a telefonista era quem conduzia o diálogo.

Em Porto Velho, hospedamo-nos na casa de um sócio do futuro sogro, pois ele mantinha outra família. O contato com a futura esposa trouxe-me uma enfermidade: a catapora, que me marcou com cicatrizes que carrego até hoje. Entre febres e cuidados, preparei o casamento, marcado para 18 de janeiro, data do aniversário da nubente Maria das Graças Coutinho. Fomos à Igreja dos Remédios, levando os documentos, e ali se desenhou o próximo capítulo de minha vida. 

Natalício do autor (cima) e
ao lado do governador 
Henoch Reis (1976)


Num certo dia, retornei ao Seminário, levado pelo desejo de agradecer ao padre Juarez Maia os benefícios recebidos e de reencontrar os colegas. Vestia a farda, pois era dia útil e meu horário funcional me acompanhava. Convidaram-me a ministrar aulas no educandário, mas respondi com leve ironia: “só se for de ordem unida”. Entre risos e lembranças, confraternizei com os novos padres vindos de São Paulo, que conheci nos tempos do Seminário São José. A turma de seminaristas já se mostrava rarefeita, e pelos corredores corria o rumor do fechamento iminente — que se concretizou antes do fim daquele ano. Pouco depois, meu benfeitor transferiu-se para Porto Alegre, onde o visitei na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em breve despedida antes de sua partida definitiva desta vida.

Manaus, por sua vez, respirava os ventos da Zona Franca. O porto livre abria as portas para quinquilharias do mundo inteiro, e o centro histórico metamorfoseava-se em centro comercial. Comerciantes nacionais e estrangeiros prosperavam, enquanto o interior do Amazonas se esvaziava em êxodo. A cidade tornava-se atração turística, ainda que o encanto maior fosse a aquisição de produtos importados. Nesse cenário de desenvoltura, a instituição policial redesenhou seu papel, ajustando o policiamento às novas exigências de uma urbe em transformação.

O segundo semestre trouxe-me nova preocupação: o vestibular. Diante do insucesso anterior, frequentei um cursinho, dedicando atenção especial à Sociologia. A Reitoria, empenhada em ampliar o número de alunos, estimulava a entrada de policiais na universidade, acreditando que o êxito acadêmico fortaleceria a imagem da Força. A campanha foi vitoriosa: cerca de noventa por cento de oficiais e praças lograram aprovação.

Casamento, em 1969

Assim, inaugurei o ano de 1969 aos pés do altar de Nossa Senhora dos Remédios, unindo-me em matrimônio a Maria das Graças Souza. A recepção, singela, ocorreu na casa dela. A antiga desavença sobre o namoro impediu a presença de minha família, mas a vida seguiu seu curso. Para desfrutar da intimidade, ocupamos por duas noites um apartamento no Líder Hotel, na Avenida Sete de Setembro. Logo, porém, a recém-casada quis regressar à casa materna, saudosa do sabor caseiro e do carinho materno. Atendi ao seu desejo, afinal já me sentia incorporado à família dela, a poucos passos do portão dos fundos do quartel, por onde eu ingressava, facilitando a logística.

Após o casamento, enfrentei novamente o vestibular, desta vez na vetusta Faculdade de Direito da Praça dos Remédios. Na primeira semana de fevereiro, acompanhei pelo jornal o resultado, publicado sem alarde. Na prova de Sociologia, além da preparação própria, contei com a ajuda da colega Josefa, que me ofereceu uma “cola” discreta, fixada no fundo largo de sua bolsa. Obtive excelente classificação, mantida nos primeiros anos.

O ano de 1969, contudo, guardava ainda muito a relatar, começando pelo anúncio da gravidez de minha esposa — prenúncio de uma nova etapa, em que a vida se expandia e o futuro se abria em promessas venturosas. (segue)

 

segunda-feira, junho 01, 2026

MEUS OITENTANOS (5)

 FASCÍCULO 5 

Ao retornar à casa paterna, percebi minhas dificuldades de relacionamento com o sexo feminino. Para quem havia passado a adolescência exclusivamente entre rapazes, faltava-me habilidade para encetar uma conversa afetiva com as garotas. Todavia, tive um aprendizado célere, muito por iniciativa delas. Eu tinha consciência de que não tinha muitos predicados, mas sabia que o respeito que me dedicavam provinha de ser o único adolescente no nosso bairro com o curso médio completo e, ademais, havia o fato de ter estudado em colégio de padres, onde o ensino era respeitável. Assim, os namoricos foram se sucedendo, naquele tempo estimulados pelos recados portados por amigas ou parentes. Há uma sessão de bons episódios vividos nessa fase da vida.

Rua Amazonas, 29 - Morro,
casa da família

 Certa ocasião, fui “convidado” para efetuar a pintura da casa da dona Hilda — uma enfermeira que tinha uma linda filha, Graça, de 15 anos —, que residia ao lado dos irmãos. Na hora do almoço, sentado à mesa, ocorreu-me um desacerto com o irmão dela, Marivaldo. Este, em ofensiva vingativa, atirou-me um carretel de esparadrapo vazio e me provocou um corte no supercílio. O problema não foi apenas curar o ferimento, mas criar uma explicação em casa e para a vizinhança.

Em outra oportunidade, aconteceu quando namorava a jovem Rosendalva do bairro de São Lázaro — muito próximo do Morro da Liberdade —, e lá meu irmão Antônio também frequentava. O percurso era realizado a pé, percorrendo uma íngreme ladeira de terra. Certa noite, ao chegar à praça da Igreja antes dele, percebi alguns jovens se articulando para promover um susto aos namoradores de fora. Quando meu irmão chegou, alertei-o sobre a minha suspeita e combinamos caminhar normalmente até a “cabeça” da ladeira. Ao atingirmos esse ponto, foi uma de “pernas para que te quero”, uma desenfreada corrida noturna até em casa. — Fácil para quem conhecia o trajeto e todos os buracos no chão de terra batida, mesmo pouco iluminado.

Narrando mais um fato:  a minha primeira namorada chamava-se Glória, simpática jovem da minha faixa etária. O nosso caso de amor seguia bem até que levei o primeiro “chifre”, quando a doce amada se interessou pelo vizinho, o xará Roberto. Quando ele arrumou outra namorada, perdoei a Glória e resolvi ficar com ela até meu ingresso na Polícia Militar. Nessa época, o chamego estava restrito a “amassos” prudentes, pelo temor de uma gravidez, pois o uso da pílula anticoncepcional estava em fase incipiente.

No ano de 1965, partindo do Morro da Liberdade, ia até o NPOR (27° BC) em condução militar. Havia um certo contratempo em usar um veículo do Exército, o que me levou a aceitar o convite do cabo Osmar da Silva, integrante do corpo administrativo do Núcleo militar, para residir em seu quitinete. Explico a residência: era apenas um quarto de uma estância de madeira nas proximidades do quartel. Ele era alfaiate e vestia-se bem. Aproveitando-me da sua cordialidade, passei a usar suas roupas. Não desconfiei de sua solteirice, até que numa noite, fui convidado a me deitar ao seu lado, e percebi sua homossexualidade. No dia seguinte, depois do expediente, voltei para casa. Porém, acabei entendendo sua opção sexual, mas combinei que cada qual teria sua liberdade, sem laços afetivos. Ali, para mim, era mais prático, residindo no bairro de São Jorge, próximo ao quartel. Essa proximidade possibilitou ao colega do NPOR, Osório Fonseca, me dar carona numa sexta-feira — 3 de junho de 1966 —, com a aprazível notícia de que eu havia sido nomeado oficial da Polícia Militar. O Diário Oficial do dia anterior havia publicado o decreto 512, nomeando-me ao posto de 2º Tenente da Polícia Militar, assim como a metade da turma Ajuricaba.             

Ingresso da turma 1966 na PMAM, posando na
Praça da Polícia. Autor assinalado. 

Osório orientou-me a comparecer ao quartel da Praça da Polícia na segunda-feira, dia 6 de junho, indicando o Café do Pina como ponto de encontro da turma. Confesso que passei o final de semana cheio de dúvidas e inquietações: seria verdade? Respondi a mim mesmo: se for, está ótimo, estou ocupado com algo que havia aprendido. Mas, se for um trote, que desventura. Acreditando na veracidade da informação, no dia marcado, vestido com a domingueira, após deixar o ônibus, caminhei em direção ao ponto indicado. Ao cruzar a Praça da Polícia, fui me esgueirando pelas árvores buscando os companheiros, até que... lá estavam eles. Após reunidos, adentramos no até então desprezível aquartelamento, de onde eu saí 30 anos depois.

No dia seguinte, visitei a alfaiataria da corporação para as medidas do fardamento, que logo foi confeccionado em caqui — uma cor que alcunhávamos de “cor de burro quando foge” — e logo conheci o quartel do Piquete, na rua Dr. Machado, uma construção centenária. A publicação do boletim me classificou para a Companhia de Comando e Serviços, ao lado do tenente Ilmar Faria, sob comando do capitão Pedro Lustosa. Prontamente reservei uma cama e um armário no alojamento, e dessa maneira abandonei o muquifo de São Jorge e passei a residir no centro de Manaus.

Experimentei inovações comportamentais, algumas estranhas para mim, como receber continência de idosos praças, com idade para ser meu pai, e por todos eles ser tratado por senhor. Afinal, aos 20 anos, eu me constituía em um dos mais jovens policiais, diante da escassa procura pela polícia “meganha”. Ao final do mês, recebi o primeiro salário — 90 mil cruzeiros —, julguei-me um marajá. No mês seguinte, fui nomeado comandante do Pelotão de Choque — criado por deliberação interna e logo desaparecido, o primeiro existente na PM. Estranhei a minha escolha devido à minha pequena estatura e porte físico franzino — 1,63m e 49kg. Considerava-me incompatível diante de corpulentos subordinados. No desfile do Dia da Pátria, assemelhava-me a mascote do pelotão, inclusive portando uma pistola cedida pelo comandante. O mês de setembro daquele ano me trouxe notícia alvissareira: o governador Arthur Reis aprovou o código de vencimentos, elevando o soldo da tropa: passei a receber 300 mil cruzeiros mensais, três vezes mais do que recebia ao ingressar.

Na condição de comandante do Pelotão de Choque, no final de setembro fui designado delegado especial da Ilha da Marchantaria — uma porção de terra que hoje integra o município de Iranduba, defronte a Manaus, e está sujeita ao alagamento pelo rio Solimões. Recebi a incumbência de proteger o rebanho bovino do senhor José (Zeca) Nascimento, destinado a abastecer a cidade. Tornei-me tenente responsável pelo gado que, vindo do período de estiagem, devastava as roças e os pomares dos moradores. Regressei da ilha após quinze dias e retomei as atividades da caserna, cujo dia começava com o desfile matinal na área externa, contornando a praça e passando diante do Colégio Estadual do Amazonas, no qual havia alunos de ambos os sexos. As alunas rapidamente notaram a nova leva de oficiais, mas foi na praça Ribeiro Junior, atrás do quartel, que encontrei a namorada Maria das Graças Souza, que residia no Edifício Lilac com a mãe Edna e a irmã Mary, o genitor era comerciante em Porto Velho.

Aquele setembro foi de fato marcante, quando Manaus recebeu o integrante da Jovem Guarda, Roberto Carlos. Fui escalado para garantir a condução do cantor pela cidade. A chegada ocorreu no aeroporto de Ponta Pelada – hoje Base Aérea de Manaus – sob espantoso entusiasmo dos fãs. O antigo campo de pouso obrigava os passageiros a caminhar até o local de desembarque. Por isso, aguardei o cantor à porta que, vendo a multidão, me pediu em rápido diálogo que o protegesse devido à deficiência de seu membro inferior. Naquela noite, ele cantou no Circo Americano, na Praça 14, e no Cheik Clube.

Recorte de folheto comemorativo
dos meus 70 anos

No final do ano, celebrei as principais conquistas: o ingresso e a moradia no quartel, além do namoro com a jovem Graça Souza. O ano novo, 1967, já mostrava certo incremento na corporação em razão das ações do Governo Militar. Em fevereiro, obteve vagas para cursos no Rio de Janeiro; fui designado para o de manutenção de armamentos, cuja escola funcionava em Deodoro, subúrbio carioca. Essa opção trouxe à lembrança a minha guia de sorte. Com a matrícula encaminhada, restou-me apenas arrumar a mala, despedir-me da família e da namorada, para a minha primeira viagem de avião. Acompanhado do tenente Odacy Okada, embarquei em 28 de fevereiro — dia da implantação da Zona Franca de Manaus —  no quadrimotor Douglas DC-4 da VASP, excessivamente ruidoso, mesmo assim, eu seguia radiante diante das inovações. O voo partiu de Manaus às 8 horas, chegou em Brasília por volta do meio-dia, almocei e embarquei novamente rumo ao Rio de Janeiro. (segue)

segunda-feira, maio 18, 2026

MEUS OITENTANOS (4)

 FASCÍCULO 4

 No segundo semestre de 1964, quando deixei o Seminário São José, abandonei também a vocação sacerdotal que até então me acompanhava como promessa duvidosa. Tinha dezoito anos e regressava ao lar dos meus pais, na rua Amazonas, número 29, no Morro da Liberdade, trazendo na bagagem apenas a escolaridade atualizada e uma sensação de vazio.

Título eleitoral emitido em 1966 
O número da casa, talhado por meu pai em madeira bruta e fixado na parede frontal, carregava um simbolismo próprio: 29 de dezembro de 1959, e o dia ele quis perpetuar. Mesmo diante da duplicidade de número na rua, sua decisão foi firme, quase solene. A casa de madeira, antes simples e térrea, transformara-se em sobrado, com quartos e varandas no pavimento superior. Ali, naquele novo espaço, ganhei um aposento que às vezes dividia com meus irmãos Antônio e Renato, enquanto outros cômodos se tornavam alugáveis.

Meu regresso, porém, foi marcado por desorientação. Sentia-me como um “cachorro caído da mudança”, sem rumo, sem ofício aprendido. Uma oportunidade surgiu pelas mãos de meu primo Vicente Pereira, que me levou à loja de móveis onde trabalhava. Não havia vaga para vendedor, mas sim na produção de cadeiras metálicas. Enfrentei o labor da soldagem sem proteção adequada, e à noite meus olhos ardiam tanto que o sono me abandonou. No dia seguinte, faltei. Ainda assim, ao final da semana recebi o ordenado e desapareci. Foi a única vez que trabalhei na iniciativa privada; o destino me reservaria apenas o caminho do serviço público.

Enquanto isso, os afazeres domésticos me consumiam. O quintal imenso exigia cuidados, e os cães eram minha responsabilidade: Joli, o caramelo valente que se tornara figura temida na vizinhança, e Branco, dócil companheiro. Outra tarefa era o abastecimento de água obtida em cacimba do Buraco da Vovó, a quinhentos metros de casa, carregando em latas de vinte litros para encher o “camburão” – tambor metálico de duzentos litros — uma espécie de cisterna improvisada.

Assim se desenhava minha juventude: entre o peso da falta de escolhas, o suor das tarefas domésticas e a lenta construção de um destino que ainda se insinuava sombrio.


Em 1965, aceitei o convite de Raimundo “Pau de Barraca” — sobrinho de minha madrasta — para jogar futebol, e essa decisão alterou o ritmo da minha rotina de desempregado. As peladas aconteciam num campo improvisado, aberto no terreno baldio atrás do nosso sítio. Pela idade e pelo porte físico, destoando dos meninos menores, fui escalado para a posição de goleiro. Não me senti deslocado: no seminário já havia defendido as traves, e ali me saí com firmeza. Ao cair da tarde, quando a turminha se reunia quase diariamente, eu permanecia guardando o gol, como se fosse um posto de honra.

No Morro da Liberdade, os divertimentos eram raros, mas o futebol acontecia com facilidade. Duas equipes se destacavam: o Bangu, organizado por meu xará Roberto, praça do Exército; e o Botafogo, formado por jovens da avenida São Pedro e adjacências. Fui convidado a uma reunião com os botafoguenses, sediados na avenida São Pedro, hoje rua Tobias Barbosa. Compareci com receio, temendo a frustração, mas ao final fui “contratado” para defender o gol da equipe, apesar da minha estatura modesta de 1m64. O prestígio me animava, e não faltava às peladas de domingo, ora no campo do Guanabara, em Santa Luzia, ora no campo do Olaria, no próprio Morro da Liberdade. Esses campos, hoje, já não existem: foram engolidos pelo progresso.

Antes de encerrar a contabilidade da minha jornada esportiva, registro uma partida memorável no campo do Nacional FC, em Adrianópolis. Essa experiência, aparentemente singela, acompanhou-me no futuro, quando frequentei cursos militares no Rio e em Florianópolis. O futebol, mais do que passatempo, foi aprendizado de disciplina, coragem e resiliência — valores que se tornariam parte de minha caminhada.

Para cumprir um dos preceitos de meu padre-protetor, Juarez Maia, apresentei-me ao Serviço Militar. Foi ali que o destino me concedeu mais uma estrela, ao ser selecionado para o NPOR, justamente na fase de reinstalação. O quartel do 27° BC, onde nos instalamos, funcionava de maneira curiosa: instruções apenas nos finais de semana, improvisações que revelavam a precariedade da estrutura.

A inspeção de saúde, por exemplo, ocorreu numa enfermaria acanhada. Éramos cerca de trinta candidatos, perfilados lado a lado, desnudos, enquanto o clínico se valia de embalagens de medicamentos guardadas num armário envidraçado para realizar o exame visual. Chamados em ordem alfabética, eram observados os rótulos expostos. Eu, que não distinguia bem os nomes, memorizei-os e, assim, fui aprovado. Mas a deficiência visual logo se denunciou: no primeiro tiro de fuzil, quase atingi o pé de um graduado. Ainda assim, prossegui no curso, que logo adotou nova metodologia, com instruções diárias.

Morando ainda no distante Morro da Liberdade, precisava madrugar para alcançar o quartel no bairro de São Jorge. O transporte era realizado no caminhão REO do Exército, abarrotado de recrutas. Na condição de aluno do NPOR, eu tinha a primazia de viajar na boleia, sentindo o vento frio da madrugada e a responsabilidade de uma epopeia que começava a moldar meu futuro.

Ainda em 1965, enquanto aguardava o reinício do NPOR, que lentamente se estruturava, abri-me aos convites que surgiam. A vizinha Luzia — irmã de minha madrasta — havia adquirido uma canoa, com motor de centro instalado, que permitia pequenas viagens pelos arredores de Manaus. Assumi a condução do barco e, numa dessas excursões, seguimos até o lago do Puraquequara. Pernoitei ali com as primas — razão imediata de meu entusiasmo pela aventura — mas a noite nos reservou um tormento: os carapanãs, como chamamos na Amazônia os pernilongos, nos açoitaram sem piedade. O resultado foi a malária, que nos abateu a todos. Nem os remédios caseiros, nem as rezas fortes bastaram. A febre alta e os calafrios me levaram ao Posto de Saúde, onde um exame de sangue revelou a gravidade. A cura veio, enfim, pela medicação alopática.

Recuperado, enfrentei nova provação. Ao visitar a BR-174, ainda em construção — rodovia que ligaria Manaus a Rio Branco — fui atraído pelo desejo de ver a sobrinha de minha madrasta, residente no Km 5, próximo ao igarapé do Leão. Mas antes que a enfermidade se revelasse, guardo um episódio curioso do Dia de Finados daquele ano. Levantei-me cedo na casa da prima e caminhei até a Ponte da Bolívia, que distava quinze quilômetros de Manaus, para tomar o ônibus. O feriado, porém, suspendera o coletivo. Após cinco quilômetros de caminhada até a ponte, retomei a estrada e, dez quilômetros adiante, finalmente alcancei um ônibus. Enquanto a família já se encontrava no cemitério São João Batista, reverenciando nossos mortos, eu chegava tarde, cansado, e recebi a reprimenda de meu saudoso pai.

Deduzi que a nova enfermidade resultara da abertura de clareiras na floresta, durante a construção da rodovia. O ambiente despertava enxames de insetos e mosquitos, e um deles me transmitiu a leishmaniose. As úlceras na pele deixaram marcas que ainda hoje recordam o diagnóstico emitido pelo INPA, em implantação, e o tratamento realizado no Hospital da Guarnição de Manaus, onde fui atendido por ser o aluno 111 do NPOR.

 Aluno 111 Roberto, primeiro à esq. , em pé

À medida que o curso se aproximava do fim, os futuros oficiais R/2 buscavam abrigo seguro para o estágio obrigatório. O colega Amílcar Ferreira, vizinho do comandante da Polícia Militar do Amazonas, levou a ideia de servir naquela corporação. Apesar do regime militar instalado em 1964, o quartel da Praça da Polícia enfrentava dificuldades: efetivo reduzido, carências diversas, um ambiente de luta constante. Com os colegas de curso, visitei o quartel da PM e, mesmo diante da atmosfera desanimadora, deixamos nossos nomes numa lista de eventual aproveitamento. O destino, afinal, nos acolheu.

Concluí o curso em março de 1966, conquistando o 9º lugar na Turma Ajuricaba, entre dezessete formandos. A solenidade ocorreu no pátio do quartel, e para a ocasião consegui uma madrinha de formatura — uma “fada”, como se dizia. Não sei ao certo como alcancei tal graça; talvez pelo marido, o major Hércules, um gigante que servia na mesma unidade. A beleza da senhora encantou os formandos, que não cessavam de me interrogar sobre sua origem.

Na formatura do curso, março
de 1966

O baile de formatura, realizado no Ideal Clube, não contou com minha presença. A indigência financeira me impediu de comparecer. Mas, ainda assim, a formatura marcou um capítulo decisivo: encerrava-se uma etapa de aprendizado e disciplina, e abria-se diante de mim o horizonte da vida militar e da própria existência.