O poema deste domingo - Margem do Caminho - é criação do saudoso Álvaro Maia (1893-1969) publicado no jornal A Crítica, em 03 de fevereiro de 1958.
— I —
O lutador subiu a estrada tortuosa...
Subiu, andou, pioneiro de horizontes,
cortados de planícies e de montes,
de longes de ouro e rosa,
colorindo a paisagem...
Chegara extenuado da viagem
e repousava à sombra da vertente,
que amenizava a soalheira ardente...
— II —
Sentou-se. Ergueu as mãos, no recanto risonho,
para agradecer ao Senhor
e o consolo da vida interior...
Aos ombros carregava o alforje do passado,
que lhe tombou ao lado.
Abriu-o, devagar,
e pedras rolaram pelo chão.
Brilharam ao sol quebrado,
algumas verdes como o mar,
outras letais como o pecado,
com brilhos de atração e repulsão.
Acariciou-lhes as pontas entreagudas.
Pensou em gólgotas e judas,
(Jesus, porque foi homem, teve Judas!),
e nos que escondem, num sorriso,
punhais de aço com os gumes entreabertos.
— III —
Fechou os olhos e sorriu,
imerso no dulçor de um grande rio...
Sonhos, ilusões, gosto e desgosto,
fluíram das pedras, como flama.
(Passam sempre nos dias de quem ama).
Esta acertou-lhe o rosto,
rasgando carne e derramando sangue,
outra o peito, outra a cabeça,
mas todas pingando sangue.
Surgiram, pela estrada espessa,
carrancas de inimigos
e feições de amigos,
transbordando crueldade
e piedade...
Vivos e inquietos na tremenda luta,
lembravam vinganças e alvoroços.
— “Só o lutador errou, pela escalada...
Mostrámos o caminho: errou na caminhada,
embaraçado em dédalo infernal,
em queda estranha e bruta...
Andámos com razão em apedrejá-lo,
como se faz ao cão danado e ao mau cavalo!”
— IV —
Ele ouviu, em silêncio, a ameaça fatal
e pediu que o Céu lhe desse um resplendente halo,
que todos, fossem velhos, fossem moços,
fugissem, de uma vez, às vibrações do mal.
Queria dormir... Pegou as pedras, uma a uma,
e bebeu um verdor de sumaúma...
Eram duras à fronte fatigada?
Deitou-se. Não! Ganhara um encosto macio,
tecido de paina e espuma,
próprio para o calor e para o frio...
Sentiu que as pedras se mexiam,
ouviu que as pedras cantavam,
como preces de luz em manhã clara...
Todas as bordoadas e castigos,
o sangue e o suor que derramara,
transformaram-se em pêndulos dum hino,
em bússola e em coragem nos perigos...
Renasceu, redimido e pequenino...
Quase lhe saltava o coração,
aureolado em sol aos que o feriram...
E teve o prêmio da consolação,
agradecido aos que o insultaram,
vilipendiaram
e vergastaram,
saqueando o património de uma vida,
mas lhe deram também, em horas sem concórdia,
a alta conquista da misericórdia,
a sobrevivência
e a resistência,
a humilhação
e a exaltação,
a força espiritual de nova Vida!
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