CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, julho 13, 2026

MEUS OITENTANOS (9)

             FASCÍCULO 9 

O ano de 1970 ficou marcado pelo tricampeonato do Brasil no futebol e, em Manaus, pela inauguração do estádio Vivaldo Lima (Vivaldão), evento que contou com a presença da delegação brasileira em preparação para o México. No início do ano levei a filha Valeria para “receber a benção” do avô Manuel e, com esse gesto simples, consegui restabelecer a harmonia familiar; foi alegria em dobro.  A situação financeira na casa do meu pai não era boa, em função do encargo de sustentar quatro filhos menores e um adolescente – Renato, que já trabalhava. Meu outro irmão – Antonio, havia se fixado em Santos e, com a situação organizada, viabilizou a mudança da família para o Sul ao final do ano.

Vivaldão, na inauguração - 1970
e em 2004👇

Eu seguia na chefia da Tesouraria da Força, função que me oportunizava generosos presentes, amizades agradáveis e certo conforto no lar. O quartel, ainda situado na Praça, tornava-se cada vez pequeno para o número de policiais cuja incorporação agora passava a interessar à coletividade. Havia, no entanto, um detalhe: serviam à instituição, mas mantinham atenção nas indústrias da Zona Franca que vinham se instalando no Distrito Industrial.  A Força seguia ampliando-se como ocorreu com a criação do segundo batalhão, para cuidar dos destacamentos interioranos, igualmente acontecia com o comércio na área central. Esse movimento atraia turistas de todo o país pelas novidades importadas, atração que os cursos policiais desde então incluíam no currículo como “viagem de estudos” a Manaus.

Formatura no BEASA - 1971

A inauguração do estádio Vivaldo Lima, o Vivaldão (demolido para a Copa de 2018), ocorreu em 5 de abril de 1970. Naquele dia, Manaus assistiu a dupla apresentação da seleção nacional, mesclada com jogadores locais. A seleção ficou hospedada no Centro de Treinamento Maromba, hoje pertencente à arquidiocese de Manaus. O estádio ainda estava em construção, razão pela qual os torcedores preocuparam-se em chegar cedo, a fim de alcançar algum lugar. Havia necessidade de levar algum alimento, pois no local tudo era improvisado e, se alguém deixasse o lugar por algum motivo, era improvável retomá-lo. Todavia, valeu todo o sacrifício, asseguro, pois presenciei na arquibancada ao lado da esposa. No dia de São Pedro ocorreu o final da Copa, no México; os colegas do quartel decidiram ouvir – ainda não havia TV em Manaus – a partida no balneário do senhor Mário, proprietário da firma S. Monteiro, em seu balneário no km 22 da atual rodovia AM-010. A festa seguiu bem até o final do primeiro tempo; no segundo, como a atuação do Brasil prometia vencer, a turma retornou à cidade para se incorporar à festança geral.

Iniciei a conversação com o Antonio articulando a mudança da família para Santos, a mim tocou fornecer o transporte. A ideia foi prontamente acordada com a família, apesar do pouco entusiasmo de meu pai; Dona Dora – a mãe – foi a artífice dessa epopeia, que se iniciou em dezembro, quando ela viajou com os filhos mais jovens: Luiz (8 anos) e Ricardo (6 anos). Ainda hoje me penitencio por não adquirir passagens comerciais para este grupo de familiares; à vista de minha proximidade com a Base Aérea consegui vagas em avião da FAB, ignorando ser a primeira viagem aérea de Dona, com o inconveniente do voo encerrar no Galeão e o Antonio trabalhar em São Paulo. Os vários inconvenientes teriam espantado a muitos, enfim, a viagem foi uma fortuna.

1º aniversário da Valeria - 1970 

Antecipando o Natal, festejei o 1º aniversário da Valeria, reunindo amigos e parentes na residência da família. Com a mudança de parte dos irmãos junto com a mãe, a presença da família foi mínima. Lamento registrar que os transtornos da vida me fizeram ausente, de modo que somente voltei a participar dos 50 anos desta filha, comemorados em Brasília. Logo em janeiro, os manos Zemanuel e Miguel (12 e 11 anos, respectivamente) viajaram pela empresa aérea VASP, na inauguração de nova linha entre Manaus e São Paulo. E, após igual período, embarquei meu pai na mesma empresa, assim concluindo a mudança da família. A casa em Manaus ficou entregue ao Renato, que cursava o NPOR (Núcleo de Preparação de Oficiais da reserva) e iniciava o ensino superior.

 

segunda-feira, julho 06, 2026

MEUS OITENTANOS (8)

 

FASCÍCULO 8

 

Aniversariante em vários anos

Não demorou para a jovem esposa anunciar a vinda do primeiro rebento, a filha Valéria, nascida em dezembro. O apartamento da família, de cerca de oitenta metros quadrados, ocupava o terceiro andar do Edifício Lilac, sem elevador. A minha impressão era de um prédio semiacabado, projetado para mais um quarto, todavia, não construído. Erguido no início dos anos 1960, foi possivelmente o primeiro edifício de um apartamento por andar em Manaus. Bastante degradado, ainda agora permanece no mesmo endereço, agora com a denominação de Edifício Jurandir Queiroz. Para atender às recomendações médicas e evitar as escadas para a gestante, alugamos uma casa na rua Carolina das Neves, esquina da praça Bandeira Branca, no bairro de Aparecida, utilizada até o nascimento da filha, quando retornamos ao Lilac.

Iniciei o curso superior no período noturno com cerca de trinta universitários, oriundos dos colégios mais conhecidos, e pela primeira vez me encontrei com mulheres em sala de aula. Nas aulas, era exigido o uso de paletó ou blazer; para tanto, fui me adaptando. O entusiasmo pelo curso me fez adquirir um gravador importado pela Zona Franca. Gravava a aula e depois efetuava uma cópia, às vezes distribuída aos colegas, em particular àqueles da turma da “igrejinha”. Mantive afinco nos estudos e excelente classificação e, já no primeiro ano, conquistei a Ordem dos Cobras, outorgada pelo mestre Samuel Benchimol. Frequentei a faculdade até concluir o terceiro ano; em 1972, viajei a Fortaleza para cursar o Aperfeiçoamento e, em vez de solicitar transferência, optei por trancar minha matrícula. Ao retornar, o sistema seriado havia sido substituído pelo de créditos, e essa alteração e outros detalhes inconvenientes adiaram minha formatura para 1980.

A Força estadual prosperava com ênfase, em parte para atender à demanda de trabalho que lentamente ocupava a capital. Aumentou o efetivo, incluindo oficiais R/2 e de escolas de formação, além de praças. Como a circulação de veículos crescia, o controle também exigia mais policiais; a massa de ribeirinhos apossava-se sem ordem dos arrabaldes da cidade, as afamadas invasões. O policiamento mais efetivo era realizado pelo Cosme & Damião, exclusivamente no centro comercial. Na festa da criação da província do Amazonas — comemorado no dia 5 de setembro —, fui promovido a capitão e em decorrência, fui nomeado tesoureiro da corporação. A explicação para promoções tão céleres é que aconteciam por efeito do aumento do quadro e da posição hierárquica.

Deparei a tesouraria com um sistema anacrônico, movido à caneta esferográfica e papel almaço, as folhas de pagamento eram manuscritas em almaço e, para evidenciar a indigência da repartição, havia apenas uma máquina de calcular manual disputada por cinco furriéis (encarregados das folhas). Quando do pagamento, o tesoureiro recebia na Tesouraria estadual o cheque com o total de todos os policiais, ativos e inativos, distribuindo o valor de cada folha por unidade. Atribulado por mais um pormenor: pagamento realizado em espécie. Certo dia de pagamento, pensei em desaparecer da cidade com esse imenso valor, mas não atendi ao mau espírito, receoso das pragas, além de perder as benesses permitidas pela função.

No final de outubro, o quartel promoveu uma marcha para Itacoatiara, orientada por oficiais recém-formados no CIGS, que transpôs a rodovia de cerca de 260 quilômetros interligando a capital ao município. Grande trecho da estrada ainda de terra, bastante enlameada em função das chuvas, por isso, o deslocamento de automóvel era desastroso, ainda assim, na condição de tesoureiro, enfrentei o trajeto para levar um adiantamento monetário ao pessoal. Por essa ocasião, adquiri meu primeiro veículo: Chevrolet Chevette, modelo 1967, placa 8392 — com pequeno defeito na tampa do porta-malas —, que pertenceu ao colega do NPOR Renato Tribuzi. Eu conseguia dirigir de maneira razoável, aptidão aprendida em viaturas da Polícia Militar, mas não tinha carteira de habilitação.

Em casa, empenhava-me nos preparativos para a vinda do bebê, sem saber o sexo, com previsão do parto para a metade de dezembro. As necessidades essenciais, como hospital e médico, já estavam ajustadas. Encontrava-me nessa expectativa, quando, em 10 de dezembro, o subcomandante coronel Neper Alencar solicitou minha presença no gabinete e me consultou se poderia presidir um inquérito acerca de um homicídio ocorrido naqueles dias. Em síntese: o soldado Jonas Santos havia matado um homem no garimpo do Igarapé Preto, um afluente do rio Madeira, no município de Manicoré. Num beiradão ermo, onde parecia não haver vida. O próprio coronel me persuadiu ao esclarecer que o conflito estava relacionado à disputa pela jazida de cassiterita no local, na qual circulavam vultosos recursos. Para finalizar as tratativas, o coronel conduziu-me ao Hotel Amazonas para que eu me encontrasse com o senhor Valadares, um dos interessados na exploração exclusiva do minério.

No curso da conversa, Valadares, sendo informado da conjuntura doméstica e das providências tomadas, enfiou a mão no bolso e me entregou uma dinheirada, e ainda prometeu o apoio de transporte entre Porto Velho e o garimpo, a ser realizado em seu avião. Deixei o hotel consciente do anseio dele: retirar de um local severo um concorrente, tratava-se de ação rejeitável para este policial. Os preparativos foram céleres, nomeado o escrivão, sargento Sandoval da Silva, acautelei um revólver 38 e, portando meu rifle 22, excelente para passarinhar, embarquei com o escrivão em um turboélice YS-11 da Cruzeiro do Sul e desembarquei na capital de Rondônia. Ali encontrei o sogro, que, após conhecer minha missão e saber a situação do parto da filha, ficou de sobreaviso. Como me avisar no meio do mato, se era difícil a ligação telefônica interestadual, somente se valendo de aviões que diariamente circulavam para o garimpo. Prontamente embarquei no avião monomotor de Valadares, com 4 lugares e capacidade para 300 quilos de carga, ideal para operar na pequena pista de pouso e a única condição de retirar a cassiterita do local. 

Ao chegar, encontrei agentes da Fazenda Estadual já alojados no igarapé há semanas e me deram orientações de sobrevivência. A mais útil foi armar a rede rente ao chão para dormir, em razão de que todas as noites ocorria tiroteio por ali. Reforçaram a importância de caprichar na medicação antimalárica. E houve ainda uma intrigante: o soldado Jonas, acusado de homicídio, havia se recolhido à sede do município. No dia seguinte, o tenente já exercia a função de “delegado” do garimpo; passei a observar as grutas de minério, a mediar queixas pessoais e a fiscalizar os bares, onde as meretrizes eram abrigadas em quartos, diante da porta havia fila de inúmeros clientes. Presenciei enterros de pessoas de várias idades, a maioria vítima da malária. O campo de pouso, por não ter controlador, exigia vigilância constante de todos, pois o avião surgia com combustível na medida de ida e volta e, por isso, transportava mais cassiterita. Até fui obrigado, em certo momento, a me juntar aos presentes para empurrar um avião e liberar a pista. Detalhe final: o garimpo do igarapé Preto, dois anos depois, passou à administração da Paranapanema.

Os residentes, buscando segurança, pensaram em construir uma delegacia e, para isso, me consultaram. Como não possuía autoridade para tanto, ainda assim os estimulei. Afirmaram-me que faltavam apenas as telhas e logo se cotizaram, entregando-me o valor para aquisição do material em Porto Velho. Aproximava-se o Natal e minha preocupação estava em Manaus, sem ter qualquer notícia. Deixei instruções com o sargento Sandoval e embarquei.

Ao chegar, fui informado pelo sogro do nascimento da filha Valéria, dia 20 de dezembro, hoje residente em Brasília. Não esperei, passei o encargo da compra e remessa ao sogro, e marquei o bilhete na Cruzeiro do Sul para o retorno, que realizei na véspera do Natal. No ano, houve dois sequestros de avião na região, que foram conduzidos para Cuba, e essa funesta lembrança me fez, como oficial da PM e viajando armado, imaginar minha reação se, porventura, o YS 11, no percurso de 60 minutos, fosse sequestrado; era clara minha ansiedade em conhecer a nova gracinha de casa. O ano velho fechou com festas, e o novo chegou com a mesma medida.

  

quinta-feira, junho 25, 2026

PMAM: DATA DE FUNDAÇÃO

A postagem reproduz o artigo do saudoso memorialista Genesino Braga (1906-88), circulado em 1965, saudando o aniversário da Polícia Militar do Amazonas (PMAM), que completava 89 anos. No ano seguinte, ingressei na PMAM; e muito pouco se sabia da história da corporação. Cinco anos depois, o mesmo Braga prefaciou – sem objeção – uma brochura produzida pelo falecido historiador Mário Ypiranga, modificando a data de inauguração da Força estadual para 1837, hoje com 189 anos. 

Recorte do artigo publicado no Jornal do Commercio,
02 maio 1965  

Um toque de clarim, em sopro de alvorada, saudará os oitenta e nove anos de nossa Polícia Militar. O três de maio, data em que se instalara em 1876, a heroica e invicta milícia de Cândido Mariano, é fausto e pompa no calendário histórico do Amazonas; é dia de gala para o orgulho cívico deste povo; é festa magna de tradição e de amor no coração da família amazonense.

Instituída pela lei 339, de 26 de abril de 1876, Guarda Policial fora o seu primeiro nome, assim batizando-a a Assembleia Provincial nos processados de sua oficial origem e assim fazendo-a chamar, naquele ato institutivo, por força de mando e autoridade, Antônio dos Passos Miranda, “bacharel formado em ciências jurídicas e sociais pala Faculdade de Direito do Recife e presidente da província do Amazonas”.

Uma semana decorrida de sua criação e já, a três de maio, a briosa Guarda Policial do Amazonas se instalava no quartel que lhe fora destinado: velha casa, arrendada “colocada na subida da praça da Imperatriz para a de Tenreiro Aranha, com entradas para o lado de uma e outra praça”. Seu primeiro comandante, o tenente reformado do Exército Severino Euzébio Cordeiro, no posto de major, e seu capitão-ajudante, o cidadão Marcelo José Pereira, desdobravam-se nas diligências rara compor o efetivo da tropa: 73 homens, com o major-comandante, o capitão-ajudante, um primeiro e um segundo sargentos, o furriel, seis cabos, dois cornetas e sessenta soldados a pé e montados. Mas, já no ano seguinte, com seu efetivo aumentado para 99 homens, e acrescida de um tenente, dois alferes, mais um segundo-sargento, mais dois cabos de esquadra e mais vinte soldados, para outro quartel a Guarda transferiu-se, desta vez na Praça D. Pedro Segundo, esquina com a Rua do Governador Vitório.

Batalhão, mesmo, nossa polícia militar só veio a ser em 1890, com o governador Augusto Ximeno de Villeroy, capitão de engenheiros, que, pelo decreto número 11, de 13 de janeiro, dissolveu a Guarda Policial e criou o Batalhão de Polícia do Amazonas, com um efetivo de quatrocentos homens, sob o comando de um tenente-coronel.

Sete anos depois, já alteada à categoria de Regimento, a brava milícia amazonense escreve a página mais épica da história militar do Amazonas. De Canudos, para onde seguira a quatro de agosto de 1897, o seu 1º Batalhão trouxera-lhe os troféus de guerra que o denodo e a bravura de seus soldados conquistaram no aceso de pelejas cruentíssimas, no auge das cargas do inimigo, sob os fogos cruzados da mais cerrada e desesperada fuzilaria.

Candido Mariano, o audaz e intrépido comandante desse pugno de bravos, —sem dúvida a figura mais alta de toda a história da Polícia Militar do Amazonas, — agiganta-se na campanha patriótica entre os mais denodados da brigada do general Sotero de Menezes e, no comando do ataque à última resistência de Canudos, conquista a praça rebelde, em feito definitivo para a vitória das armas legais: “Os jagunços, — relata o valoroso cabo de guerra, — vendo o ímpeto e a resolução com que avançaram os nossos soldados, que não se intimidavam com as suas balas, apesar de serem (estes) na sua maioria homens bisonhos e inexperientes de situação tão crítica, trataram de retirar-se apressadamente, entregando-nos a formidável posição que ocupavam, formada de trincheiras naturais sobre morros que ficavam a cavaleiro das mesmas posições”. E, mais adiante: “O Batalhão do Amazonas, tanto ou mais que nenhum outro concorreu brilhantemente para o êxito final, batendo- se abnegadamente e heroicamente, sem visar interesse de ordem alguma, e auxiliando por todos os modos o general em Chefe a debelar tão nefanda quanto desgraçada revolta”.

Quartel da PM, anos 1920

De regresso a Manaus, a 8 de novembro do mesmo ano, à frente do heroico Batalhão Amazonas desfalcado de seus mortos em combate, o bravo e altivo chefe militar recebera esta honrosa menção do comandante do Regimento da Força Pública do Amazonas, coronel Pedro Henriques Cordeiro Júnior: “Faço aqui especial menção do Cidadão Dr. Candido José Mariano, cmt do 1º Batalhão de Infantaria, que mais uma vez, honrando as tradições passadas, coroou de honras o nome do Soldado Brasileiro, verdadeiro defensor da Pátria e da República, concorrendo com o seu Batalhão para terminação da luta fratricida travada nos inóspitos sertões baianos”.

Diante de tão heroico passado, abrindo às gerações de hoje o relicário de seus mais nobres triunfos e as páginas de luta, de lealdade e de abnegação, escritas com o sangue e o suor de seus heróis, nossa altiva e intrépida Polícia Militar fará ressoarem, neste seu 89º aniversário, os toques marciais que anunciaram todas as vitórias da valorosa corporação, em toda a sua existência vivencial, em toda a grandeza de seus feitos excelsos. E que aquelas, manchas de sangue que ainda tingem a bandeira esfarrapada volvida com a tropa de Canudos, continue por muitos anos em relíquia, no quartel da Praça de Heliodoro Balbi mostrando aos maços, conterrâneos a mensagem de dor dos filhos desta terra que morreram pela pátria e deram a vida em holocausto à ordem, à tranquilidade e à pacificação da família brasileira.

quarta-feira, junho 17, 2026

É HOJE: OI-TEN-TA-NOS

Demorou, mas chegou! Hoje – 17 de junho, dia São Manoel, o filho do seu Manuel e dona Francisca, o Manoel Roberto Lima Mendonça abre sua década dos 80 anos. Imaginei realizar uma extraordinária e longa festa; levei o ano passado imaginando as tantas recordações, as tantas publicações a distribuir, e outro tanto de encontros com os meus espalhados pelo país. Todavia, nada aconteceu, a precariedade do patrocinador levou à falência meus projetos. Resta-me a promessa de realizar esses desejos no decorrer dos 80.

Aniversariante do dia

Preparei, para celebrar minhas 70 primaveras, um book que narra os acertos e os equívocos vividos ao longo desse período. O banner que ilustrou o festejo, e que ilustra esta postagem, segue comigo como recordação dessa caminhada. Falando de Copa do Mundo: aos 4 anos eu estava no Rio com meu pai, que havia aceitado trabalho na construção civil no entorno do Maracanã. Nem ele nem eu entramos no estádio. Logo a família regressou a Manaus.

Banner dos 70 anos

Anos depois, aos 10, ingressei no internato em colégio de padres. Quantas angústias trouxe o afastamento da família nessa idade. Aos 18, troquei a sotaina pelo uniforme verde oliva e, um ano mais, adotei o fardamento caqui do quartel da Praça da Polícia, onde servi por trinta anos até me aposentar no último posto.

No quartel desenvolvi afeição pela pesquisa histórica e, consequentemente, pela publicação dos estudos. Priorizei inicialmente os feitos da corporação, editando as obras Candido Mariano & Canudos (por ocasião do centenário de Canudos), Guarda Policial (1º volume) e Bombeiros do Amazonas: retrospectiva, considerada meu melhor trabalho. 

Aniversariante multifacetado

Recebi dois prêmios pelas publicações sobre Adolpho Lisboa (Concultura) e Genesino Braga (Academia Amazonense de Letras). Simultaneamente, divulguei produções literárias do padre-poeta L. Ruas e do multiartista Anísio Mello. Sem esquecer Entre duas viagens, a biografia de meu genitor. Ah, e dirijo o Blog do coronel Roberto, desde 2010. 

Minha descendência já alcança as bisnetas, residentes em Brasília, e os filhos vieram de três casamentos que, sabe Deus, me abonaram saúde em geral para alcançar este nível da vida. Meus efusivos agradecimentos a quantos – indistintamente – contribuíram com esta conquista.

Deo gratias (Graças a Deus). 

 

quinta-feira, junho 11, 2026

PMAM - CEARENSES NO COMANDO (2)

 A postagem expõe a segunda parte do trabalho sobre os oficiais nascidos no Ceará que estiveram no comando da Polícia Militar do Amazonas.

4. Camillo de Lellis Pacheco Amora - coronel PM graduado

19 outubro 1901 – 13 agosto 1902 (interino) 

Oriundo da capital cearense, onde nasceu em 15 de julho de 1863. Não há registro de quando desembarcou em Manaus, porém, sua iniciação maçônica ocorreu em 11 de dezembro de 1886, aos 23 anos, na Loja “Amazonas”. Dois anos depois, ingressou na Guarda Policial do Amazonas, como alferes (06 jul. 1888); e seguiram as promoções: tenente (29 ago. 1891); capitão (26 abr. 1892); major (1º nov. 1897) e tenente-coronel (29 out. 1898).

Algumas funções exercidas na corporação: capitão fiscal do 2º Batalhão (1897); ajudante de pessoa de governador Silvério Nery (1900 e 1904); comandante interino. Diversas atividades políticas: superintendente (prefeito) de Fonte Boa (1896-97); de Coari (1902); de Floriano Peixoto (1903 e 1905).

Casado com Raimunda Amora, era pai de Honorina e Marina Amora, nascidas na capital amazonense; estas jovens eram formadas em Odontologia pela antiga Universidade de Manaus, atual UFAM, e possuíam gabinete cirúrgico-dentário localizado na Praça dos Remédios, 5. Também se notabilizaram pelo ensino de piano e canto, diplomadas pela Escola Normal e Conservatório de Música do Amazonas.

Inexiste, todavia, foto e data do falecimento deste oficial nos arquivos da entidade. 

 

5. Pedro Vidal de Negreiros - capitão PM

07 outubro 1910 – 12 junho 1912 

Embora oficial intermediário, este capitão assumiu de fato o comando da corporação em face de um acontecimento marcial, que atingiu o governo do Estado. O episódio é conhecido na historiografia amazonense por “Bombardeio de Manaus”, ocorrido em 10 de outubro de 1910 (data singular: em 10.10.10). No entanto, a 7 desse mês o comandante titular foi reformado (diagnostico: arteriosclerose). Face à ausência do governador Antonio Bittencourt, a situação do Estado estava caótica, tanto que foi o desembargador Benjamin Rubim, no exercício do cargo de governador, que nomeou para o comando do Batalhão, em 28 de outubro, ao capitão Pedro Vidal de Negreiros.

Negreiros era natural do Ceará, filho de João Antônio e de Liberalina Barroso Vidal de Negreiros, nascido em 19 de maio de 1874. Foi incluído na Força amazonense como alferes em 08 out. 1896; tenente em 04 ago. 1898; capitão em 15 maio 1900. Tão logo assumiu o comando da corporação, foi promovido a tenente-coronel em 1º de novembro de 1910 e, finalmente, coronel enquanto exercia a chefia, em 26 de janeiro de 1911.

Deixou o comando no ano seguinte, mas permaneceu residindo em Manaus, onde veio a falecer aos 41 anos, em 30 de novembro de 1915. Encontra-se sepultado em jazigo existente na Quadra 09 e SP 7869 do cemitério São João Batista. 

6. José Onofre Cidade - coronel PM          

22 dezembro 1912 – 21 janeiro 1913 

Ilustre natural do Ceará, filho de José Joaquim Cidade Filho, nascido em 1875, a comandar a Polícia Militar do Amazonas, ainda que para tanto tenha promovido um festival de subversão da ordem. Sua inclusão na corporação aconteceu em 1896, na condição de soldado. Em 1899, foi promovido a 2º tenente; em 1903, 1º tenente; em 1908, capitão; em 1911, major; em 1912, tenente-coronel e coronel. Finalmente, agraciado com uma distinção incomum: funcionário público vitalício, em dezembro de 1912.

A questão primordial que o conduziu ao comando teve início com a eleição regional, que elegeu Jonathas de Freitas Pedrosa (1848-1922), a tomar posse no primeiro dia de 1913. Os vencidos na eleição, as vivandeiras políticas bateram no portão do quartel da Praça da Polícia. Atendidas, conseguiram aliciar alguns oficiais que, descontentes por motivos que nunca faltam em quartel, fizeram acontecer. Escolhido pela oficialidade, Cidade constituiu um triunvirato – com os majores João Fragoso Monteiro e Amâncio Clementino Fernandes – que, a 22 de dezembro, assumiu o comando da Força Policial, e, seguidamente, escorraçou o governador Antônio Bittencourt, em fim de mandato.

A insurreição perdurou por 48 horas, com o estado “governado” pelos oficiais insubmissos. Movimentação judicial oportuna pôs fim ao movimento, porém, na Praça da Polícia, a corporação prosseguia sob o comando do rebelado coronel Onofre Cidade. Empossado, o governador Pedrosa obviamente deparou-se com a Força Policial desestabilizada, fracionada e sob enormes suspeitas. Logo, em 23 de janeiro, promoveu a reorganização da corporação, expurgando os elementos sediciosos e nomeando novo comandante. Coronel Onofre Cidade faleceu em sua residência, em Manaus, a 1º de dezembro de 1936, aos 61 anos.

terça-feira, junho 09, 2026

PMAM - CEARENSES NO COMANDO

 No curso desta pesquisa certa indiscrição me conectou ao número de comandantes nascidos na província, hoje Estado, do Ceará. Trata-se do maior número de oficiais oriundos do mesmo torrão até a implantação do Governo Militar (1964), e óbvio que, após a Democratização, predominam os amazonenses. Vamos aos eleitos – são 11 –, alguns com acentuados registros, outros nem tanto. Esclarecendo que o acervo corporativo guarda quase nada, em particular dos primeiros que sequer legaram suas fotografias. Exponho o nome, o posto militar e o período de comando. Farei três postagens. 

Afonso de Carvalho

1.       João José de Aguiar - civil

    19 maio - 26 de julho 1880    

                 

Em 19 de maio de 1880, consoante a Portaria 162, Aguiar foi nomeado “cidadão comissionado no posto de major” comandante da Guarda Policial do Amazonas. Na verdade, trata-se de capitão da Guarda Nacional, por isso constitui no primeiro paisano a exercer esta função na Polícia Militar do Amazonas. Episódio semelhante ocorreria oito décadas depois, com a nomeação do advogado Francisco de Assis Albuquerque Peixoto, cujo comando exerceu no triênio 1959-62. Quanto ao primeiro, a corporação quase nada registra a seu respeito, afinal o lapso de tempo na chefia perdura até 26 de julho, exatos 67 dias! Deveras curtíssimo. Pode ser um dos muitos voluntários da Guerra do Paraguai que foram enviados para o Norte, para serem empregados pelo governo provincial.

Um apontamento indica ter nascido na província do Ceará, em 16 de junho de 1840; em outra fonte, ter migrado para o Amazonas e aqui servido como “escrivão da recebedoria provincial”, antes de alcançar a primazia de comandar a Guarda. Mais detalhes: nesse ano de 1880, Aguiar exercia o mandato de vereador da capital e, nessa condição, assinou a Ata de inauguração da Santa Casa de Misericórdia, em 16 de maio. Dias antes de ser escolhido para o comando da Guarda.

Catando aqui e acolá, foi-me possível montar o seguinte quadro: o comandante Aguiar casou-se com Idalina Alves de Aguiar e teve os filhos: João, José, Carlos e Beatriz. Com a morte dele (possivelmente em Manaus), a viúva e os filhos passaram à condição de pensionistas do Montepio Provincial, benfeitoria depois mantida pelo Estado. Tanto que são encontrados na lista de beneficiários com a pensão mensal de 50$000 (cinquenta mil-réis), em maio de 1905.

 

2.      Antônio Nunes Sarmento - alferes da Guarda Policial

31 janeiro - 04 fevereiro 1882 (interino)

                                        

Natural de Fortaleza (CE), nascido em 1861, era filho de Porfirio Nunes Sarmento, e possuía cabelos pretos e media 61 polegadas, cerca de 1m55. Antes de ingressar na Guarda Policial prestou serviço militar, tendo “sentado praça” em 4 de setembro de 1879. Logo na semana seguinte foi promovido a 2º sargento e, em 24 de maio de 1880, alcançar a graduação seguinte.  Em 31 de janeiro de 1882, é nomeado alferes da Guarda Policial e “presta juramento”, ocasião em que “entra em exercício” e assume interinamente o comando da Guarda. Deixa o comando quatro dias depois. Recolhi duas notas: uma boa – seu casamento com Joana Batista de Paula Sarmento, em 26 de novembro do mesmo ano. Outra, péssima – em 15 de janeiro de 1883, quase ao completar um ano na corporação, foi “demitido por conveniência do serviço”.

 

3.      Raymundo Afonso de Carvalho - tenente-coronel PM

08 agosto 1892 – 23 julho 1896

 

Nascido em Fortaleza, em 7 de setembro de 1862, Afonso de Carvalho foi um dos tantos nordestinos vitoriosos no Amazonas. Ainda em na capital cearense, ingressou no Exército em 1880, sendo transferido para Manaus quatro anos depois, para servir como soldado do 3º Batalhão de Artilharia a pé. Licenciado da Força Terrestre, foi incluído no Corpo Policial (hoje PMAM) na vaga de alferes-secretário, em 1887. Não mais parou. Ainda major, foi nomeado comandante da corporação, quando prestou apoio incomensurável ao governador Eduardo Ribeiro (maranhense), em luta contra forças federais que buscavam sua deposição. Promovido a tenente-coronel em 13 de outubro de 1893, Afonso de Carvalho permaneceu no comando do batalhão policial.

Retirou-se de Manaus depois de comandar o Regimento Militar do Estado no governo de Eduardo Ribeiro (1892-96) e de exercer a superintendência (prefeitura) de Manaus (1895-96), antes de assumir este encargo, foi aposentado no posto de coronel; foi Provedor da Santa Casa de Misericórdia e presidente da Sociedade Beneficente Cearense e, ainda, comandante superior da Guarda Nacional (1901-02). Pertenceu à Loja “Esperança e Porvir”, tendo sido seu Venerável em 1897. Eleito deputado estadual foi, na condição de seu presidente, chefe do Poder Executivo (1907-08), sucedendo ao governador Constantino Nery. Morreu no Rio de Janeiro em data desconhecida. A despeito de tanto sucesso, Afonso de Carvalho ainda não auferiu qualquer reconhecimento da Polícia Militar do Amazonas.


segunda-feira, junho 01, 2026

MEUS OITENTANOS (5)

 FASCÍCULO 5 

Ao retornar à casa paterna, percebi minhas dificuldades de relacionamento com o sexo feminino. Para quem havia passado a adolescência exclusivamente entre rapazes, faltava-me habilidade para encetar uma conversa afetiva com as garotas. Todavia, tive um aprendizado célere, muito por iniciativa delas. Eu tinha consciência de que não tinha muitos predicados, mas sabia que o respeito que me dedicavam provinha de ser o único adolescente no nosso bairro com o curso médio completo e, ademais, havia o fato de ter estudado em colégio de padres, onde o ensino era respeitável. Assim, os namoricos foram se sucedendo, naquele tempo estimulados pelos recados portados por amigas ou parentes. Há uma sessão de bons episódios vividos nessa fase da vida.

Rua Amazonas, 29 - Morro,
casa da família

 Certa ocasião, fui “convidado” para efetuar a pintura da casa da dona Hilda — uma enfermeira que tinha uma linda filha, Graça, de 15 anos —, que residia ao lado dos irmãos. Na hora do almoço, sentado à mesa, ocorreu-me um desacerto com o irmão dela, Marivaldo. Este, em ofensiva vingativa, atirou-me um carretel de esparadrapo vazio e me provocou um corte no supercílio. O problema não foi apenas curar o ferimento, mas criar uma explicação em casa e para a vizinhança.

Em outra oportunidade, aconteceu quando namorava a jovem Rosendalva do bairro de São Lázaro — muito próximo do Morro da Liberdade —, e lá meu irmão Antônio também frequentava. O percurso era realizado a pé, percorrendo uma íngreme ladeira de terra. Certa noite, ao chegar à praça da Igreja antes dele, percebi alguns jovens se articulando para promover um susto aos namoradores de fora. Quando meu irmão chegou, alertei-o sobre a minha suspeita e combinamos caminhar normalmente até a “cabeça” da ladeira. Ao atingirmos esse ponto, foi uma de “pernas para que te quero”, uma desenfreada corrida noturna até em casa. — Fácil para quem conhecia o trajeto e todos os buracos no chão de terra batida, mesmo pouco iluminado.

Narrando mais um fato:  a minha primeira namorada chamava-se Glória, simpática jovem da minha faixa etária. O nosso caso de amor seguia bem até que levei o primeiro “chifre”, quando a doce amada se interessou pelo vizinho, o xará Roberto. Quando ele arrumou outra namorada, perdoei a Glória e resolvi ficar com ela até meu ingresso na Polícia Militar. Nessa época, o chamego estava restrito a “amassos” prudentes, pelo temor de uma gravidez, pois o uso da pílula anticoncepcional estava em fase incipiente.

No ano de 1965, partindo do Morro da Liberdade, ia até o NPOR (27° BC) em condução militar. Havia um certo contratempo em usar um veículo do Exército, o que me levou a aceitar o convite do cabo Osmar da Silva, integrante do corpo administrativo do Núcleo militar, para residir em seu quitinete. Explico a residência: era apenas um quarto de uma estância de madeira nas proximidades do quartel. Ele era alfaiate e vestia-se bem. Aproveitando-me da sua cordialidade, passei a usar suas roupas. Não desconfiei de sua solteirice, até que numa noite, fui convidado a me deitar ao seu lado, e percebi sua homossexualidade. No dia seguinte, depois do expediente, voltei para casa. Porém, acabei entendendo sua opção sexual, mas combinei que cada qual teria sua liberdade, sem laços afetivos. Ali, para mim, era mais prático, residindo no bairro de São Jorge, próximo ao quartel. Essa proximidade possibilitou ao colega do NPOR, Osório Fonseca, me dar carona numa sexta-feira — 3 de junho de 1966 —, com a aprazível notícia de que eu havia sido nomeado oficial da Polícia Militar. O Diário Oficial do dia anterior havia publicado o decreto 512, nomeando-me ao posto de 2º Tenente da Polícia Militar, assim como a metade da turma Ajuricaba.             

Ingresso da turma 1966 na PMAM, posando na
Praça da Polícia. Autor assinalado. 

Osório orientou-me a comparecer ao quartel da Praça da Polícia na segunda-feira, dia 6 de junho, indicando o Café do Pina como ponto de encontro da turma. Confesso que passei o final de semana cheio de dúvidas e inquietações: seria verdade? Respondi a mim mesmo: se for, está ótimo, estou ocupado com algo que havia aprendido. Mas, se for um trote, que desventura. Acreditando na veracidade da informação, no dia marcado, vestido com a domingueira, após deixar o ônibus, caminhei em direção ao ponto indicado. Ao cruzar a Praça da Polícia, fui me esgueirando pelas árvores buscando os companheiros, até que... lá estavam eles. Após reunidos, adentramos no até então desprezível aquartelamento, de onde eu saí 30 anos depois.

No dia seguinte, visitei a alfaiataria da corporação para as medidas do fardamento, que logo foi confeccionado em caqui — uma cor que alcunhávamos de “cor de burro quando foge” — e logo conheci o quartel do Piquete, na rua Dr. Machado, uma construção centenária. A publicação do boletim me classificou para a Companhia de Comando e Serviços, ao lado do tenente Ilmar Faria, sob comando do capitão Pedro Lustosa. Prontamente reservei uma cama e um armário no alojamento, e dessa maneira abandonei o muquifo de São Jorge e passei a residir no centro de Manaus.

Experimentei inovações comportamentais, algumas estranhas para mim, como receber continência de idosos praças, com idade para ser meu pai, e por todos eles ser tratado por senhor. Afinal, aos 20 anos, eu me constituía em um dos mais jovens policiais, diante da escassa procura pela polícia “meganha”. Ao final do mês, recebi o primeiro salário — 90 mil cruzeiros —, julguei-me um marajá. No mês seguinte, fui nomeado comandante do Pelotão de Choque — criado por deliberação interna e logo desaparecido, o primeiro existente na PM. Estranhei a minha escolha devido à minha pequena estatura e porte físico franzino — 1,63m e 49kg. Considerava-me incompatível diante de corpulentos subordinados. No desfile do Dia da Pátria, assemelhava-me a mascote do pelotão, inclusive portando uma pistola cedida pelo comandante. O mês de setembro daquele ano me trouxe notícia alvissareira: o governador Arthur Reis aprovou o código de vencimentos, elevando o soldo da tropa: passei a receber 300 mil cruzeiros mensais, três vezes mais do que recebia ao ingressar.

Na condição de comandante do Pelotão de Choque, no final de setembro fui designado delegado especial da Ilha da Marchantaria — uma porção de terra que hoje integra o município de Iranduba, defronte a Manaus, e está sujeita ao alagamento pelo rio Solimões. Recebi a incumbência de proteger o rebanho bovino do senhor José (Zeca) Nascimento, destinado a abastecer a cidade. Tornei-me tenente responsável pelo gado que, vindo do período de estiagem, devastava as roças e os pomares dos moradores. Regressei da ilha após quinze dias e retomei as atividades da caserna, cujo dia começava com o desfile matinal na área externa, contornando a praça e passando diante do Colégio Estadual do Amazonas, no qual havia alunos de ambos os sexos. As alunas rapidamente notaram a nova leva de oficiais, mas foi na praça Ribeiro Junior, atrás do quartel, que encontrei a namorada Maria das Graças Souza, que residia no Edifício Lilac com a mãe Edna e a irmã Mary, o genitor era comerciante em Porto Velho.

Aquele setembro foi de fato marcante, quando Manaus recebeu o integrante da Jovem Guarda, Roberto Carlos. Fui escalado para garantir a condução do cantor pela cidade. A chegada ocorreu no aeroporto de Ponta Pelada – hoje Base Aérea de Manaus – sob espantoso entusiasmo dos fãs. O antigo campo de pouso obrigava os passageiros a caminhar até o local de desembarque. Por isso, aguardei o cantor à porta que, vendo a multidão, me pediu em rápido diálogo que o protegesse devido à deficiência de seu membro inferior. Naquela noite, ele cantou no Circo Americano, na Praça 14, e no Cheik Clube.

Recorte de folheto comemorativo
dos meus 70 anos

No final do ano, celebrei as principais conquistas: o ingresso e a moradia no quartel, além do namoro com a jovem Graça Souza. O ano novo, 1967, já mostrava certo incremento na corporação em razão das ações do Governo Militar. Em fevereiro, obteve vagas para cursos no Rio de Janeiro; fui designado para o de manutenção de armamentos, cuja escola funcionava em Deodoro, subúrbio carioca. Essa opção trouxe à lembrança a minha guia de sorte. Com a matrícula encaminhada, restou-me apenas arrumar a mala, despedir-me da família e da namorada, para a minha primeira viagem de avião. Acompanhado do tenente Odacy Okada, embarquei em 28 de fevereiro — dia da implantação da Zona Franca de Manaus —  no quadrimotor Douglas DC-4 da VASP, excessivamente ruidoso, mesmo assim, eu seguia radiante diante das inovações. O voo partiu de Manaus às 8 horas, chegou em Brasília por volta do meio-dia, almocei e embarquei novamente rumo ao Rio de Janeiro. (segue)

segunda-feira, abril 27, 2026

EFEMÉRIDES AMAZONENSES

Em tantas iniciativas pessoais, intentei divulgar as efemérides amazonenses, ou seja, a compilação de datas sobre os acontecimentos estaduais que envolvam pessoas e entidades. Andei bastante, mas cansei e parei. Ontem, não sei que razão me levou a buscar os esquecidos apontamentos e me empolguei com o material recolhido. Hoje reproduzo uma parcela arquivada.

                                                    26 de abril

1876 – É sancionada pelo presidente Antônio dos Passos Miranda a lei 339, que cria a Guarda Policial do Amazonas, com efetivo de 73 homens, sendo “um comandante e seu auxiliar, três inferiores, seis cabos de esquadra, dois cornetas e 60 soldados”. O organismo policial destinava-se “a manter a ordem e a segurança pública na Província, e auxiliar a justiça”. Na verdade, era uma (re)criação da Guarda, visto que a primitiva de 1837, com a mesma nomenclatura, já desaparecera. Foi instalada em 4 de maio, sob o comando do tenente reformado do Exército Severino Eusebio Cordeiro, comissionado no posto de major.

1876 – Elevação do termo judiciário de Itacoatiara à denominação de Comarca, por força da lei 341, sancionada pelo presidente Antônio dos Passos Miranda.

1899 – Incorporada à tutela do governo a Academia de Belas Artes até então particular, consoante o decreto 324, sancionado pelo governador Ramalho Júnior. Esteve sob a direção do maestro Joaquim de Carvalho Franco. Extinta, todavia, em julho do ano seguinte. 

1936 – Toma posse no comando da Força Policial do Estado o tenente-coronel PM José Rodrigues Pessoa, na ocasião em que este organismo retorna efetivamente à atividade, após sua desativação em 1930, por decreto do Interventor Álvaro Maia.

27 de abril

1756 – Nasce na Bahia o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, e falecido em Lisboa em 1815, que empreendeu longa expedição pela região amazônica, após o que escreveu o livro Viagem filosófica pelas Capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá. Sua importância levou a várias edições, como a da Edições Governo do Amazonas. (foto)

Edição do Governo do Amazonas

1895 – Criado, por disposição da lei 118, sancionada pelo presidente estadual Eduardo Ribeiro, o município de Urucurituba, quando foi elevado à condição de vila, desmembrando-se de Silves e Urucará. Localiza-se no rio Solimões, e tem por padroeiro a São José Operário.

1916 – Faleceu aproximando-se de Lisboa (POR) no transatlântico que viajava à Europa em tratamento de saúde, o Dr. Lauro Batista Bittencourt. Nascido em Manaus, em 1853, logo após instalada a província do Amazonas. A formação superior foi realizada na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, colando grau de engenheiro civil. De retorno a Manaus atuou durante o governo de Eduardo Ribeiro, deixando suas marcas em diversos empreendimentos, em especial como Diretor das Obras Públicas do Estado.

1940 – É criada a SNAPP (Serviço de Navegação e Administração do Porto do Pará), por decreto-lei federal 2.154, como sede na cidade de Belém (PA). Apesar de extinta em 21 nov.1966, foi substituída pela ENASA (Empresa de Navegação da Amazônia S/A), estatal criada em 10 fev.1967. 

28 abril

1917Nasceu no lago do Anveres, distrito do Careiro, Francisca Pereira Lima Mendonça, a filha mais nova de Vicente e Adelaide Lima. Mudou-se para Manaus para cuidar da mãe viúva acometida de grave doença. Aqui encontrou o marido Manuel Mendonça, com quem gerou três filhos, nesta ordem, Roberto (1946), Antonio (1948) e Renato Lima Mendonça (1951). Contudo, minha genitora faleceu em 1952, aos 35 anos de idade, vítima de tuberculose.    

1957 – Faleceu no Rio de Janeiro, o senador pelo Amazonas, Manuel Severiano Nunes, nascido em 1892. Exerceu diversas atividades administrativas no Amazonas, tendo sido prefeito de Itacoatiara, deputado estadual (135-37), deputado federal (1946-47) e senador. Fez seus estudos primários no Colégio Sete de Setembro e Lauro Cavalcanti; Ginásio amazonense, Faculdade de Medicina da Bahia (incompleto), enfim, a Faculdade de Direito do Amazonas (1913). Seu nome denomina a Escola Estadual situada no bairro de Alvorada 2.

1989 – Assume o comando do VII COMAR, o major-brigadeiro-do-ar Luís Antônio Martins Leomil. Seu comando estendeu-se até 17 dez.1990.

1993 – Inaugurado o busto do empresário Adelino Pereira da Silva no jardim principal da Beneficente Portuguesa. Nascido no distrito de Vizeu, em Portugal, e falecido em Manaus, no mesmo hospital e na mesma data do ano anterior.

segunda-feira, abril 13, 2026

MAIS IDOSOS DA PMAM

Ao planejar a festa para comemorar meus 80 anos, que acontece no mês das fogueiras, surgiu-me uma indagação: quem são os colegas da briosa – ainda em vida - que celebram comigo o Jubileu de Carvalho? E quem encontra-se mais à minha frente em idade? Ao final das contas, fiquei matutando: quem hoje é o oficial “matusalém” da Polícia Militar?

Raimundo Gutemberg - coronel veterano

Vamos à relação, apontando o ano e mês (de alguns) de nascimento:


1946
Osório Fonseca Neto – fevereiro
Manoel Roberto Lima Mendonça – junho
Wilde de Azevedo Bentes – junho
Ruy Freire de Carvalho – agosto
Romeu Pimenta de Medeiros Filho – setembro
Raimundo Jorge Guimarães Macedo –
Fred Jobim –
Silvestre Torres de Araújo – dezembro 
1945
Deusamar Assis Nogueira –
Francisco Orleilson Guimarães –
Homero Leite de Almeida –
João Ewerton do Amaral Sobrinho –
1944
Raimundo Gutemberg Soares – março (foto)
Carlos Alberto de Salles –
Luís Fernandes da Rocha –
Antonio Pereira Santarém – setembro
José Osmar de Andrade –
1943
Edmilson da Silva Nascimento –
Edson da Silva Nascimento –
José Cabral Jafra – outubro
1942
Antonio Guedes Brandão –
Carlos Alberto de Souza Fialho – julho
1941
Osias Lopes da Silva –
1940
Edval Correa da Fonseca –
1939
Pedro Rodrigues Lustosa – junho
Hélcio Rodrigues Motta – agosto
1936
Jarbas Rocha da Costa –